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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Misticismo Induzido por Drogas - Uma Entrevista com Charles Upton

Charles Upton, poeta, autor, ativista e veterano da contra-cultura, participou e experimentou de primeira mão muitas das facetas do cul-de-sac New Age, incluindo suas armadilhas que frequentemente são ignoradas. Desde 1960, os psicodélicos ou alucinógenos, agora denominados enteógenos, têm desempenhado um papel crucial para os buscadores modernos e pós-modernos em contornar as armadilhas do ego empírico e alcançar a auto-realização. Depois de um hiato de quase trinta anos, a pesquisa psicodélica tem agora um reavivamento, provocando muita investigação sobre o que está por trás deste fenômeno. É interessante notar que movimentos como o New Age, o Movimento do Potencial Humano, a Psicologia Humanista, e a Psicologia Transpessoal emergiram em um cenário comum e não só compartilham muitas semelhanças, mas também possibilitou o desenvolvimento entre elas. Por exemplo, o escritor inglês, Aldous Huxley (1894-1963), pode ser considerado uma figura que liga todos os movimentos supracitados através de sua popularização da filosofia perene e seus escritos sobre psicodélicos. Huxley não só ajudou a moldar cada um dos movimentos acima, mas forneceu uma teoria integrativa puderam criar raízes. Dito isto, embora tenha popularizado a filosofia perene, ele não é considerado um tradicionalista ou perenialista.

Charles Upton deixa de lado seus camaradas New-Age e a contra-cultura ao ser introduzido as obras dos tradicionalistas ou perenialistas - mais significativamente René Guénon, Frithjof Schuon (1907-1998), e Ananda Coomaraswamy (1887-1947), desde então ele tem se filiado nesta orientação. Upton já escreveu vários livros e artigos sobre metafísica tradicional e filosofia perene, os mais notáveis são  The System of Antichrist: Truth and Falsehood in Postmodernism and the New Age (2001), incluindo sua continuação, Vectors of the Counter-initiation: The Shape and Destiny of Inverted Spirituality (2012).


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Samuel Bendeck Sotillos: Talvez pudéssemos começar com a crítica perenialista fundamental em relação ao que tem sido chamado de "expansão da consciência", "estados alterados de consciência", "estados não-ordinários de consciência" - que distingue o psíquico do espiritual; essa é uma crítica que leitores fora dos círculos tradicionalistas não estão familiarizados e tem criado uma grande confusão aos buscadores contemporâneos. Você se importaria de elaborar sobre esta distinção fundamental, de profundas implicações, no que diz respeito ao reconhecimento da autêntica espiritualidade contra a pseudo-espiritualidade ou a espiritualidade Nova Era?

Charles Upton: O plano psíquico ou intermediário é o mundo da subjetividade; o plano espiritual é a própria objetividade. Enquanto o mundo psíquico é maior que o mundo material e engloba-o, plano do Espírito é superior tanto a psique e a matéria, e engloba-os. O mundo psíquico é composto de crenças, percepções, impressões, experiências; o mundo espiritual é composto de certezas - de coisas que são verdadeiras, mesmo se não temos certeza delas. Quando o poeta da Geração Beat Lew Welch disse: "Eu busco a união com que acontece estando eu observando ou não", ele estava postulando o nível de Espírito. O plano psíquico é relativamente objetivo na medida que não está encerrado dentro da psique individual; Como Jung demonstrou, ele também tem um aspecto coletivo. No entanto, esta coletividade não está limitada a uma massa subjetiva humana ou a um "inconsciente coletivo"; ali também se encontra muitas classes de seres não-humanos, incluindo o que os gregos chamavam de daimones, as fadas dos europeus, e os jinn dos árabes. Ele carrega nada menos que as impressões das experiências de todos seres sencientes. O plano psíquico é um ambiente (relativamente) objetivo da psique-humana, assim como a terra é um ambiente (relativamente) objetivo para o corpo humano. Nossa aparente subjetividade individual é co-extensiva com inúmeras outras subjetividades, tanto humana como não humana; como Huston Smith disse, "o cérebro respira pensamentos assim como os pulmões respiram ar." Mas continua a ser essencialmente subjetivo em todos casos; é o plano das experiências, não de realidades. Uma experiência é uma impressão de uma realidade objetiva, seja material ou espiritual, recebida por um sujeito limitado, uma impressão que é editada pelas limitações inerentes ou adquiridas pelo sujeito que recebe-a. É um fenômeno e não um númeno. Qualquer que seja os dados relativamente objetivos possam ser acessados através de meios psíquicos (clarividência, precognição, etc.), sempre pertencem a entidades contingentes imersas em uma forma ou outra no espaço e no tempo, linear ou multidimensional; realidades eternas não podem ser intuídas por meios psíquicos.

O plano espiritual, por outro lado, é puramente objetivo. Ele não é composto de nossas impressões, mas de coisas que recebemos impressões - dos númenos que transcendem a experiência dos sentidos e não dependem, para sua existência, que estejamos conscientes deles, assim como - no nível de experiência sensorial - a montanha fora de nossa janela realmente está lá, mesmo se estivermos olhando-a ou não. O plano espiritual é o domínio das primeiras manifestações inteligíveis ou "nomes" de Deus - dos princípios metafísicos não são simples idéias abstratas, mas realidades vivas que têm poder, em condições adequadas, para dominar, guiar, purificar, e em conformar nossa psique para "salvar nossas almas."

Portanto, as realidades espirituais transcendem a experiência subjetiva. Mas sem experiência, elas não são eficazes para nos iluminar e nos salvar. As experiências espirituais, então,  - aquilo que os Sufis chamam de ahwal ou estados espirituais (que são elementos espirituais do caminho espiritual) - são experiências psíquicas que não são fundamentadas naquele que está experimentado, mas nas realidades objetivas que transcendem o domínio dos sentidos - nos Nomes de Deus. Estar sujeito a um estado espiritual é ter uma intuição intelectiva direta de uma realidade espiritual objetiva que transcende o estado em questão; onde o estado subjetivo pelo qual é intuído sempre velará e desvelará; e, se as realidades espirituais parcialmente transcendem nossa experiências subjetiva delas, Deus transcende nossa experiência Dele absolutamente. Experimentar Deus é ser chamado para transcender imediatamente aquela experiência necessariamente limitada Dele, e entrar em contato existencial puro com Ele como Ele é em Si mesmo, além de toda a experiência; como os Sufis dizem, "o ser humano não conhece Deus em Sua Essência Absoluta; é Deus que conhece a Si mesmo na forma humana". A prática Sufi de contemplar a Deus dessa maneira é conhecida como Fikr, que pode ser definida como "o sacrifício contínuo de toda concepção do Absoluto, gerado pelo Absoluto, em face do Absoluto."

Assim, podemos dizer que as realidades espirituais são objetivas, e que Deus, a Fonte de todas essas realidades, é o Objeto Absoluto. Mas, "objeto" aqui não significa "qualquer coisa que seja percebido por um sujeito limitado como algo diferente de si mesmo"; tomado neste sentido, "objeto" é relativo aquele sujeito limitado e assim participa de sua subjetividade. Deus, como o Objeto Absoluto é igualmente a morada do Sujeito Absoluto, a Testemunha Absoluta, aquilo que os Hindus chamam de Atman, o que Frithjof Schuon chama de "Sujeito absoluto de nossas subjetividades contingentes." A Testemunha Absoluta se situa "atrás" de todas experiências psíquicas, testemunhando-as impassivelmente, não se identificando com elas; aqui se encontra a diferença exata entre a psique e o Espírito.

Não podemos alcançar Deus através da psique, através da experiência; a essência do caminho espiritual é colocar-nos na presença de Deus e deixar que Ele nos alcance. Ele pode fazer isso através de experiências, através de eventos, ou através de uma ação secreta dentro da alma que não somos sequer conscientes. A função das experiências espirituais, ou estados, não é "enriquecer a alma" com impressões fascinantes do Divino, mas queimar aspectos específicos do ego, apegos e identificações específicas; é por isso que o Sufi realizado, aquele que transcendeu a si mesmo, que morreu para si mesmo, torna-se objetivo para si mesmo - ou melhor, para a Testemunha Absoluta dentro de si - está inteiramente além de todos estado espirituais.

SBS: Dando sequência a este assunto, o que você pode dizer sobre a hipótese que a busca pela expansão da consciência - ou por um estado alterado de consciência - é um fim em si mesmo, como se fosse uma norma humana desejável que contradiz os princípios pereniais - "o objetivo não é estados alterados, mas traços alterados." Esta abordagem perigosa muitas vezes envolve uma mistura ad hoc de técnicas espirituais ao invés de uma aderência persistente em uma forma espiritual ortodoxa. Você poderia por favor falar sobre esse desenvolvimento confuso?


Charles Upton: Isso tudo é uma espécie de desespero, bem como uma indicação que o colapso das religiões tradicionais reveladas, conduzindo a uma Religião Única Mundial, constituída de fragmentos resultantes, - um desenvolvimento que resultará no regime do Anticristo - está prosseguindo de forma programada.

Na medida que as religiões degeneram, o sentimento da realidade de Deus é progressivamente substituído por uma obsessão com a moralidade como um fim em si mesmo, e o fervor religioso considerado como um fim em si mesmo, ambos tomados fora de seu contexto próprio. A pureza moral já não é sentida como algo que naturalmente devemos a Deus em vista de Seu amor por nós e pelo fato de que Ele nos criou, mas algo que nos impede de cair na ingratidão de adorar as paixões como ídolos em Seu lugar; assim, a moralidade se torna-se um ídolo em si mesma. Da mesma forma, o fervor perdeu de vista o Deus que supostamente lhe inspira, tornando-se um substituto de Sua presença em vez de uma resposta a ela. Em vários dos hinos protestantes contemporâneos, por exemplo - ou canções contemporâneas de "pop" Cristão - os cantores cantam principalmente sobre seus próprios sentimentos e não sobre Deus.

De igual modo, vários programas de "estudos da consciência", atualmente disponíveis na academia, tendem a concentrar-se em estados subjetivos de consciência, bem como nos sistemas de crenças que lhes dão suporte e as técnicas pelas quais às vezes podem ser produzidas ao invés de compreender os estados espirituais como reflexos de uma ordem metafísica objetiva e, assim, como instâncias de conhecimento ao invés de simples experiências.  De acordo com a doutrina Sufi, os estados espirituais não são aquisições, mas dons de Deus. Ele os envia a fim de "queimar" paixões específicas, apegos e nós-egóicos; depois que os apegos são dissolvidos, aquele estado particular não retorna. Por exemplo, o hábito de um medo neurótico, queimado por um estado (hal) de um amor extático, é transformado em uma estação (maqam) de coragem e equanimidade; assim, um "estado" temporário resultou em um "traço" estabelecido. E o Sufi totalmente realizado é dito estar além de ambos estados e estações, uma vez que ele já não mantém mais um ego separativo que possa ser sujeitos aos mesmos; ele atingiu uma realização metafísica objetiva. Quando a fé tradicional é forte, é uma fonte de segurança e certeza para os fiéis; eles sentem que estão na presença dos sagrados mistérios. Mas quando as religiões tradicionais enfraquecem, certas pessoas que estariam espiritualmente satisfeitas por simplesmente viver dentro de um ambiente e uma tradição sagrada, e que teriam salvado suas almas, concebem o desejo de uma relação direta mística com Deus, de modo a compensar o que foi perdido - uma relação que pode não ser, de fato, adequada para eles. Eles imaginam que essa relação só pode resultar de um extravagante tour-de-force espiritual - e as drogas psicodélicas imediatamente aparecem como uma maneira plausível de tomar esse caminho. Mas os psicodélicos, bem como as várias técnicas espirituais, tal como o yoga não-tradicional secularizado, são frequentemente abordados em função de um contexto limitante e falso, onde as pessoas buscam libertarem-se de uma vida espiritual como um exercício da vontade-própria (como no caso da moralidade compulsiva), e de Deus concebido como uma experiência ao invés de uma Realidade (como no caso do fervor auto-centrado, por exemplo, que diviniza a experiência e que pode ser descrito como uma espécie de "pentecostalismo não-cristão"). Na ausência de um senso de Graça de Deus, baseado na fé, que São Paulo chama de "o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem", nada é possível na vida espiritual além de uma tentativa Prometéica de tomar o céu por assalto e um narcisismo espiritual - duas patologias que estão intimamente relacionadas entre si e que nunca aparecem separadas. A vontade de cortar relações com o Intelecto espiritual (que está virtualmente em vigor, sempre que a Fé a Graça estão presentes) produz o prometeísmo; a alienação das afeições do Intelecto produz narcisismo.

É bastante interessante que as drogas psicodélicas entram em cena precisamente no mesmo momento em que o Concílio Vaticano II estava abolindo o Catolicismo Romano tradicional e desconstruindo a ordem sacramental. É como se a graça dos sacramentos Católicos Romanos, enquanto estavam intactos, transbordavam - em seu contexto especificamente Católico - e mantinham um certo nível de elevação no "inconsciente coletivo" do mundo ocidental, uma elevação que foi rapidamente perdida quando a graça foi cortada. Diante de um repentino senso - inconsciente ou semi-consciente - de perda espiritual, e a sensação sufocante que sempre surge quando a psique é cortada do plano do Espírito, a coletividade ocidental tornou-se suscetível à tentação dos psicodélicos, que, pelo menos, pode proporcionar (embora não sem consequências extremamente negativas) uma expansividade psíquica horizontal, que surge para compensar - e por vezes, em verdade, falsifica -  a perda de uma elevação espiritual vertical, enquanto ao mesmo tempo esconde o fato de que essa perda já ocorreu. Psicodélicos, em outras palavras, se tornaram uma espécie de "prêmio de consolação" luciférico oferecido como compensação pela queda da cristandade ocidental. 


SBS: Os defensores e os pesquisadores dos psicodélicos afirmam que, devido ao fato de que as propriedades psicoativas se encontram naturalmente em algumas plantas (e até são endógenos ao corpo humano), esses têm sido utilizados em rituais sagrados por todo o mundo desde tempos imemoriais. Sugerem que eles podem ter sido os precursores de fundação das próprias religiões. Tem sido sugerido que essas plantas que alteram a mente eram os componentes centrais do Soma do Rig Veda ou do Hoama do Avesta, identificando como nada menos que o cogumelo Amanita muscaria, e que o principal rito dos mistérios elusianos (dizem que Platão, Aristóteles e Epicteto foram inciados), o Kykeon, supostamente seria o fungo ergo que contém alcaloides psicoativos como o LSD (ácido lisérgico e dietilamida); também se afirmou que o Manna da Bíblia Hebraica era um psicodélico. O uso de cogumelos psicoativos também têm sido atribuído ao culto de Mitra, e dizem ter sido utilizado no Egito antigo e até mesmo nas origens do Cristianismo. Poderiam as drogas psicodélicas serem a verdadeira origem de qualquer religião revelada particular? Quais são seus pensamentos sobre essa importante discussão?

Charles Upton: Uma vez que as religiões são fundadas por uma ação Divina através de profetas e avatares (talvez com exceção do Budismo, embora Gautama Buddha também seja considerado ser o nono avatar de Vishnu, dentro da tradição Hindu), dizer que elas foram iniciadas por psicodélicos é negar que Deus possa ter Sua própria iniciativa e isso é, consequentemente, negar Deus. É fazer da "religião" algo inteiramente humano e, portanto, postular algo que não se encaixa na própria definição dessa palavra. Nenhuma tradição religiosa afirma ter sido fundada com base na experiência psicodélica; tais afirmações emanam de usuários de psicodélicos que gostam de projetar suas fantasias em tradições que eles de modo algum pretendem seguir. Qualquer um que pensa que Moisés encontrou com Deus no Sinai ou que Jesus se tornou "Cristo" depois de comer alguns cogumelos, porque de outra forma como poderiam eles terem feito isso, não tem qualquer senso do sagrado. Dentro de certos contextos e em certas yugas talvez fosse espiritualmente possível abrir aos iniciados as graças de um caminho espiritual já estabelecido através do uso de psicodélicos, mas tais coisas certamente não são possíveis em nosso tempo, exceto por um grande custo - e com que moeda poderíamos pagar esse custo, pobre como nós somos? Em todo caso, é certo que o estabelecimento de um caminho espiritual legítimo através do uso de psicodélicos nunca foi possível e nem necessário.

SBS: Embora a filosofia perene reconheça as tradições Xamânicas dos Primeiros Povos, um desafio central para a noção que os enteógenos ou psicodélicos foram utilizados desde os tempos mais antigos é que, desde o "começo dos tempos" ou "pré-história" - que alguns sugerem ser em torno de 5000 a.C - quando contextualizados dentro do tempo cíclico, é provável que se encontre na Kali Yuga ou Idade de Ferro, na culminação deste ciclo temporal ou na melhor das hipóteses, no Dharma Yuga ou Idade de Bronze, a fase que precede a idade final. Dessa maneira, o uso de plantas sagradas que possuem propriedades psicoativas ocorreram no final do ciclo cósmico (manvantara) e não no seu inicio, na Krita-Yuga ou Satya-Yuga, conhecido como a Idade de Ouro na cosmologia ocidental. Isso apoiaria a observação do proeminente historiador de religião, Mircea Eliade (1907-1986), que "o uso de intoxicantes... é uma inovação recente e aponta para uma decadência na técnica xamânica." Você poderia por favor elaborar sobre a perspectiva perenialista quanto a este ponto?

Charles Upton: Eu concordo com a opinião inicial dos psicodélicos; quando uma tradição espiritual se degenera, não há como dizer o que as pessoas irão tentar a fim de recuperar o que se sente que perdeu. Talvez, se Deus quiser, algo pode ser parcialmente recuperado através dos psicodélicos sob certas condições cósmicas - condições que certamente não desfrutamos hoje - mas, a própria tentativa de recuperar uma exaltação espiritual antiga é uma evidência de uma degeneração. A Krita-Yuga foi caracterizada por uma "consciência teofânica em massa" em que os psicodélicos não eram necessários; nas palavras do Gênesis, a humanidade "passeava com Deus no jardim ao entardecer." Na minha opinião (e eu estou aberto à correção), o xamanismo começou na Tetra-Yuga ou Idade de Prata, quando o ambiente cósmico estava sujeito a desequilíbrios devido às incursões demoníacas que os xamãs - como eles mesmos se intitulam, de acordo com Eliade - foram enviados por Deus para corrigir. E, como os xamãs de nossos tempos têm afirmado, de acordo com Eliade, seus antepassados eram imensamente mais poderosos que eles, e não precisavam de psicodélicos; de modo que o uso da "muleta" psicodélica, sem dúvida, veio mais tarde que a própria dispensação xamânica. Também de grande interesse é o fato de que a visionária Cristã e estigmatista Anne Catherine Emmerich (1774-1824), em seu livro A Vida de Cristo e Revelações Bíblicas, com base em suas visões, menciona um patriarca não-bíblico Hom, que ou foi nomeado posteriormente, ou forneceu um nome para uma planta que considerava sagrada. Essa planta, na minha opinião, é a planta Haoma, dos antigos persas, equivalente ao Soma védico. De acordo com Emmerich, a linhagem que ia desde Hom, que incluia um tal Dsemschid (sem duvidas, o lendário rei persa Jamshid), tornou-se poluída com fantasias satânicas e, embora aparentemente ela não tenha reconhecido a planta em questão como intoxicante, é altamente improvável que Emmerich, uma camponesa quase analfabeta de Vestefália, teria algum conhecimento da história Persa ou erudição Zoroastra, muito menos sobre os efeitos de um psicodélico exótico. Por isso, pode muito bem ser verdade que o uso de tais plantas, pelo menos para além da era cósmica que poderiam ter permitido sua utilização sobre certas condições, representa um desvio verdadeiramente antigo na relação da humanidade com Deus. (Não se deve esquecer, no entanto, que de acordo com René Guénon e Ananda K. Coomaraswamy, o Soma e Haome, em seu sentido simbólico mais elevado, não são plantas psicoativas, mas a fonte da "Bebida da Imortalidade" que retorna a forma humana ao seu fitra, ao seu estado edênico primordial, antes da Queda. Em outras palavras, eles simbolizam um determinado estágio da realização espiritual.)

Quanto à opinião do Eliade que o êxtase psicodélico é idêntico ao êxtase produzido por outros meios, eu especulo que ele disse isso só porque ele mesmo experimentou os psicodélicos e não tinha mais nada que pudesse compará-los. Ele era um estudioso incomparável de religião, mas ele não tinha uma fé religiosa; ele caracterizava as religiões, os mitos, as crenças metafísicas como "criações artísticas" referentes a nenhuma realidade objetiva; ele as colocava no plano psíquico e não no plano espiritual.

SBS: Existe a noção que o uso do peiote (Lophophora williamsii) através da sincretista Igreja Nativa Americana (NAC) é compatível com os outros ritos xamânicos tradicionais que originalmente não utilizavam esta planta. Por exemplo, há alguns que sugerem que a religião da Dança do Sol é compatível com o uso de peiote (alguns até mesmo introduziram a Ayahuasca ou Yajé neste ritual sagrado). No entanto, autoridades espirituais tradicionais dentro dessas comunidades, tais como
o curandeiro e chefe da Dança do Sol, Thomas Yellowtail (1903-1993), sugere exatamente o contrário, que eles não são compatíveis e que tal sincretismo ou mistura de elementos estrangeiros, como o peiote são, de fato, perigosos, e podem ser espiritualmente prejudiciais, sem mencionar que eles não fazem justiça com nenhum dos caminhos espirituais e acabam diluindo cada tradição, levando à morte de ambas. Você tem alguma opinião sobre isso?

Charles Upton: Yellowtail está correto.

SBS: Juntamente com a Igreja Nativa Americana (NAC), há também o fenômeno da bebida psicoativa Ayahuasca ou Yajé na America do Sul, que tem sido amplamente explorada e disponibilizada em todo mundo através das igrejas sincréticas do Santo Daime, fundada pelo Mestre Irineu ou Raimundo Irineiu Serra (1892-1971), e pela União do Vegetal (Centro Espírita Beneficente União do Vegetal ou UDV), fundada pelo Mestre Gabriel ou José Gabriel da Costa (1922-1971), que combina Catolicismo, Espiritismo de Allan Kardec (1804-1869) e Xamanismo Africano e Sul-Americano. Em conjunto com isso, precisamos mencionar que a busca por experiências místicas também trouxe o fenômeno do "turismo espiritual" para partes remotas  da bacia amazônica e tem trazido efeitos nocivos as sociedades tradicionais que vivem nessas áreas, estendendo-se a todas as tradições sapienciais. Você poderia falar sobre esses fenômenos interessantes, que são, sem dúvida, uma marca do pensamento New Age?

Charles Upton: Sincretizar diferentes formas do sagrado, assumindo que são originalmente verdadeiros caminhos espirituais, e não simplesmente "tecnologias" psíquicas, é relativizar e subjetivar-las e, assim, conduzir tudo para baixo, para o nível da psique ao mesmo tempo vedando o acesso ao Espírito; e isso equivale a invocação demoníaca. E, se as práticas em questão são fundamentalmente psíquicas, misturá-las só pode gerar ainda mais caos. A Unidade Espiritual é superior a multiplicidade psíquica e engloba-a, mas, uma vez que a Unidade do Espírito é velada, vem a ideia "Você quer dizer que você só tem um deus? Vocês são espiritualmente privados! Temos centenas" - o "reino da quantidade" com força total! O problema com esta abordagem é que nenhum desses vários deuses pode ser a Realidade Absoluta, nem mesmo um símbolo psíquico dela - pois, por definição, você não pode ter mais de um Absoluto. E o caos psíquico criado pela mistura do Xamanismo Africano e Sul Americano com o Catolicismo e o Espiritismo Europeu só pode ser comparado com com a reprodução da música de Bach, de Moody Blues, Charlie Parker e Inti Illimani todas ao mesmo tempo - uma prática que só conseguiria destruir toda a presença da mente e unidade da alma do ouvinte. É claro que algumas pessoas gostam desse tipo de coisa; em vez de transcender sua individualidade, através da ascensão espiritual, eles simplesmente preferem quebrá-la, e, consequentemente, afundar pra baixo dela, para o nível infra-psíquico. É o chamado "pós-modernismo".

E o turismo espiritual em lugares como a Amazônia causa danos não somente as culturas indígenas, mas também aos turistas. (Recentemente vi uma notícia sobre uma aldeia que proibiu tal turismo; um aldeão chamou de "assustador" os estranhos norte-americanos que lhe visitaram e imediatamente pediram para que falassem tudo sobre os rituais sagrados locais e suas crenças.) Quando os "norteamericanos" e os europeus endinheirados entram nas aldeias sujas e pobres da Amazônia e em outros lugares à procura de satisfazer sua fome espiritual, uma fome baseada no abandono de sua própria tradição espiritual (geralmente o Cristianismo), eles tentam seduzir os anciões da aldeias que troquem coisas sagradas por dinheiro (um pecado que os católicos tradicionais chamam de simonia). Turistas espirituais não são em geral peregrinos, mas ladrões, vampiros. Na maioria dos casos eles não estão à procura de um caminho espiritual para dedicar suas vidas, mas simplesmente pegando aqui e ali qualquer objeto de arte sacra, ou experiências psicodélicas, ou rituais sagrados degradados ao nível de mero espetáculo que se adequem a suas fantasias - isso quando não é o caso de serem em verdade feiticeiros em busca de "poder pessoal". Muitas vezes seu tipo é psíquico em vez de espiritual; como a maioria dos turistas, eles estão buscando por "experiências", não por princípios para viver. Eles deixam para trás as influências destrutivas de suas próprias atitudes profanas pós-modernas, e voltam para casa poluídos com os resíduos psíquicos tóxicos das formas sacras que saquearam de modo a liberá-las para fazer estragos dentro de suas próprias culturas.

SBS: Outro ponto importante a discutir é que, embora exista sociedades tradicionais xamânicas que ainda hoje utilizam plantas psicoativas em seus ritos sagrados, - i.e. os Huichol, Tarahumara, Cora, Mazatec, Bwiti, Kayapo, Fang, Mitsogo, Jivaro, Yanomami, Koryak, etc - isso não significa necessariamente que aqueles que estão fora desses grupos raciais e étnicos também terão a mesma resposta espiritual e benéfica com o uso dessas plantas. É como se aos diferentes povos indígenas foram dadas diferentes plantas medicinais específicas para sua constituição humana e contexto ecológico. Você poderia por favor falar sobre este tema  sensível, pois, talvez seja, "politicamente incorreto"?

Charles Upton: Isto é, sem dúvida, verdade em muitos casos. Se pela invocação do divino nome Allah não se espera que seja espiritualmente fecundo para um Budista, então, pela mesma razão, o uso de certas plantas psicoativas fora de seu contexto tradicional e ritual, é provável que não tenha o mesmo efeito que teria dentro desses contextos, e provavelmente terá um efeito negativo. Essas transferências psíquicas e culturais podem ser comparadas - com precisão - ao colapso de ecossistemas distintos e independentes. A Carpa Asiática estão muito bem na Ásia; nos Grandes Lagos elas são um desastre. E aqueles que esperam se beneficiar com as cosmovisões sagradas dos Huichols, dos Tarahumara ou da Igreja Nativa Americana, deveriam estar dispostos a viver sob as mesmas condições de privação, opressão e marginalização social, como os Huichols, os Tarahumara e a Igreja Nativa Americana. Se você quer a espiritualidade da Reserva, aceite o sofrimento da Reserva. O Xamanismo, mesmo aquele relativamente degenerado, tem uma certa justificativa prática em condições verdadeiramente primitivas, uma vez que representa grande parte da herança tecnológica da tribo. O xamã cura as doenças,  cria os jogos, desenvolve as investigações criminais, influencia o tempo, protege a tribo em guerra, e protege contra os desequilíbrios psicológicos e / ou incursões demoníacas. Mas, sob condições modernas, quando ao menos algumas dessas funções podem ser cumpridas por outros meios, o xamanismo perde certo grau de sua razão de ser. Jean Cocteau (1889-1963), cineasta e poeta francês, conta a história de um antropólogo que estava estudando as tradições populares dos nativos no Haiti, onde as árvores são (ou eram) utilizadas para a comunicação de longa distância; quando o marido de alguma mulher estava longe, no mercado, ela podia enviar uma mensagem para ele conversando com uma árvore e recebia a resposta pela mesmo meio. Quando o antropólogo perguntou por que os nativos falavam com as árvores, responderam "Porque somos pobres. Se fôssemos ricos teríamos um telefone." Na minha opinião, pessoas do ocidente pós-moderno, cuja natureza psicofísica ainda não está totalmente integrada ao Espírito, ou pelo menos totalmente submetido a Ele - uma condição extremamente rara em nosso tempo - nunca deveriam ter contato com o xamanismo das culturas primitivas, uma vez que os ocidentais não possuem a proteção fornecida por um conjunto espiritual  básico e os caracteres de formação dessas culturas. O caso raro e excepcional é da pessoa que, pela graça de Deus, encontrou e foi aceito, não somente por um curandeiro ou um xamã tradicional, mas por um verdadeiro homem santo dos caminhos espirituais primitivos - no entanto, como ele ou ela poderia, em primeiro lugar, reconhecer tal homem santo, é difícil de imaginar. 

Entrevista publicada no livro Psychology and the Perennial Philosophy: Studies in Comparative Religion
por Samuel Bendeck Sotillos

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Psicologia "Principial": A Natureza Tripartite da Psique Humana na Queda e Restauração (Por Charles Upton)


Giovanni di Paolo - The Creation of the World and the Expulsion from Paradise
A natureza tripartite do microcosmo humano - Espírito, Alma e Corpo - está diretamente relacionada com a natureza tripartite do macrocosmo - O Plano Celestial / Inteligível / Espiritual; o Plano Psíquico/Imaginário e o Plano Físico/Sensual - encontra-se refletido em um nível inferior dentro da alma ou da própria psique. Em conformidade com esta verdade, podemos dizer que a alma humana é composta de três faculdades principais: a mente racional, as afeições e a vontade. A mente racional é o reflexo psíquico do Intelecto; a vontade simbolicamente está relacionada com o corpo, uma vez que ela se manifesta mais visivelmente e concretamente como um movimento voluntário; e as afeições são, por assim dizer, o símbolo da psique como um todo. A alma é também sede dAquilo que a transcende, o intelecto espiritual, o Nous. Na alma original não caída, como Deus o criou, a mente racional se volta para o Intelecto para os seus princípios fundamentais; a vontade obedece às diretrizes que a mente racional obtém desses princípios; e as afeições capacita a vontade para obedecer à mente racional constantemente e de boa vontade.

Na alma decaída, no entanto - a alma condicionada por e identificada com o ego - o Intelecto espiritual é vendado; consequentemente, esta hierarquia é invertida. As afeições são agora atraídas para objetos inadequados (um estado simbolizado na Gênesis por Eva comendo fruto proibido) sem levar em conta o que a mente racional - em seu estado decaído - direciona; a vontade segue estas afeições rebeldes intencionalmente e aprovando o que elas sugerem (simbolizado oferta do fruto proibido  para Adão, que também comeu); e a mente racional (algo como a serpente no jardim) é pressionada a serviço da vontade, tanto para sugerir várias formas e métodos pelos quais poderia transgredir, como para justificar e racionalizar essas transgressões.

Assim, a alma caída, ou a dependência de um determinado vício, é hierarquizado (em ordem decrescente) como Afetos / Vontade / Racionalidade; A sugestão afetiva/sensual para o pecado aparece como um impulso que é imediatamente atendido, muitas vezes em quase completa inconsciência. A tentação para pecar, por outro lado, não quando impulsivamente cedemos a ela, mas quando pelo menos resistimos inicialmente  (já que se nós não resistíssemos ao impulso, nós não reconheceríamos como uma tentação), é hierarquizado como Afeições/Racionalidade/Vontade: a sugestão primeiramente aparece para as afeições, e em seguida é "entretida" pela mente racional que irá produzir argumentos a favor ou contra, e finalmente - a não ser que a tentação seja impedida com êxito - é promulgada pela vontade, seja mentalmente ou fisicamente. A culpabilidade cármica só surge quando a ação entra na terceira fase; somente a vontade pode pecar.

Mas o que exatamente é este "ego" que define a alma "caída"? O ego, no sentido em que estou usando o termo, não é a personalidade consciente de Freud e Jung, mas sim, o nosso apego obsessivo pela auto-definição, que é inseparável do nosso ato de definir quem são as outras pessoas e o que é o mundo. Quando a presença e providência de Deus estão encoberta para nós, a auto-definição se torna obsessiva e fixa; começamos a acreditar - inconscientemente, mas mesmo assim de forma eficaz - que somos autocriados; consequentemente, torna-se impossível para nós vermos que Deus está continuamente recriando nós e o mundo em que vivemos, e, assim, deixamos de apreciar a singularidade de cada momento. Perdemos a capacidade de deixar o mundo e as outras pessoas se revelem para nós, e nem mesmo estamos interessados em aprender algo novo ou surpreendente sobre nós mesmos. A vida fica estagnada, e nós voltamos para as várias paixões, como a luxúria, avareza e a ira, em uma tentativa auto-destrutiva para superar essa estagnação. Além disso, o conhecimento e experiência, que estão necessariamente excluídos pelas nossas definições fixas do eu e do mundo começam a formar uma grande "mente inconsciente" - a inconsciência sendo simplesmente todas as coisas sobre nós mesmos e o mundo, e aos mundos superiores, que não queremos estar consciente, individual ou coletivamente, porque não queremos estar consciente de Deus. A prescrição de Platão para lidar com esse "inconsciente" foi a anamnese - a "recordação" (ou, mais literalmente, "a não-não-recordação"). Todo conhecimento está virtualmente presente em nós; a necessidade para atualiza-lo, para retornar ao que conhecíamos antes do "descuido", é o que os muçulmanos chamam de ghaflah, que nos expulsou do Paraíso.

Além disso, o conhecimento e a experiência excluída pelo ego é, paradoxalmente, inseparável do ego, sendo uma parte dele; encontra-se no sinal obsessivo da auto-definição. O ego é como um iceberg, uma parte consciente relativamente pequena no ápice e uma grande base do inconsciente. E já que é impossível de assumir responsabilidade por coisas que estamos inconscientes, e conscientemente colocamos nas mãos de Deus, nosso inconsciente se torna caótico e indisciplinado; ele aparece como um domínio das paixões. A psicologia Sufi chama esse ego inconsciente (comparável em alguns aspectos, de acordo com o professor Sufi Javad Nurbakhsh, ao id freudiano) de nafs al-Ammara, a "alma comandando para o mal". Se a mente racional for cortada do Intelecto, se as afeições governarem a vontade, e a vontade domina a mente racional em vez de servi-la, isso se dá inteiramente devido ao fato de que a nossa obsessiva auto-definição relega a maior parte da nossa psique, e maioria de nossa experiência potencial tanto deste mundo material como os mundos superiores sutis, à esfera inconsciente. Cada psicopatologia de qualquer que seja (excluindo, claro, aquelas condições, obviamente baseadas em causas físicas) em última instância, nasce do fato de que o ego, e não o Espírito de Deus, tomou posse do centro da psique humana, o coração espiritual. O fato de que esta ou aquela doença mental é refletida na fisiologia e química do cérebro também não prova que a fisiologia e a química do cérebro são necessariamente as causas da mesma. Quando estamos assustado por um evento interior ou exterior - a visão de um acidente de automóvel, por exemplo – faz a frequência de batimentos cardíacos aumentar. Será que isso significa que o nosso aumento na frequência cardíaca realmente causou o acidente de automóvel?

Assim, a inversão da hierarquia das faculdades psíquicas e nossa servidão ao ego são duas maneiras de falar sobre a mesma condição. Nós falamos da alma "caída" - mas quanto exatamente ela "caiu"? Já houve um "tempo", quando as faculdades da alma não estavam invertidas, pelo menos em parte, onde não havia "inconsciente"? Falamos, mais ou menos em termos míticos, da Idade de Ouro ou o Jardim do Éden; e idealizamos (ou pelo menos nós costumávamos) o paraíso da infância e / ou a "experiência oceânica" da vida no útero. Mas o fato é que, de acordo com a nossa noção de tempo linear, nenhum paraíso perdido está em evidência. A auto-definição obsessiva era um problema menor em nossa infância, mas a nossa capacidade de tomar decisões racionais, controlar nossos impulsos e conscientemente submeter nossas vidas a Deus também era menos desenvolvida (se, de fato, tiver melhorado até agora!) Então, somos forçados a concluir que, se há de fato houve uma "queda", foi uma queda da eternidade para o tempo, não necessariamente uma queda de um momento anterior e melhor. Em Deus todos nós estávamos perfeitamente, na forma como Ele nos conhecia e nos criou para ser; e considerando que a eternidade é um aspecto de Deus, todos nós estamos, em certo sentido, lá. Mas quando o tempo sobreveio - quando, devido à natureza excludente da nossa obsessiva auto-definição fez a experiência deixar de ser global e, fazendo-se parcial, necessariamente também se tornou sequencial (assim como uma sala escura, depois do pôr do sol, já não se pode mais ver tudo de uma vez, somente como sequencias parciais de pontos de vista de acordo para onde nós fixamos nossa lanterna), a alma caiu; a hierarquia adequada das faculdades psíquicas se inverteu. "Quando", ou mesmo "como" isso aconteceu pode vir a cair sob as perguntas que o Buda classificou como "tendendo a não edificação": a verdadeira questão é, não como entramos nessa prisão, mas como podemos sair novamente. A resposta a essa pergunta é o caminho espiritual, a expressão por excelência da "misericórdia especial" de Deus, al-Rahim, no curso desta caminhada, todas as perguntas necessárias serão respondidas, enquanto que todas as perguntas desnecessárias e estéreis serão alegremente esquecidas.

Nos primeiros estágios do caminho espiritual - aqueles conhecidos como "os mistérios menores" - o objetivo é devolver a alma à sua natureza original, como Deus a criou, assim, restabelecer a sua hierarquia própria, onde a mente racional obedece ao intelecto, a vontade obedece à mente racional, e as afeições obedecem à vontade. A alma é "edificada", construída como um edifício sólido, com uma ampla base de caráter forte apoiando o "pináculo" da consciência exaltada. Essa edificação representa o re-ordenamento da alma em seu modo ativo, o retorno de sua capacidade de agir em consonância com os princípios espirituais. A alma humana também é capaz, no entanto, de operar em modo receptivo - como no caso da memória, por exemplo, assim como na imaginação ativa ou objetiva, que está em polos opostos da fantasia subjetiva. Quando as afeições são receptivas, elas recuperam a capacidade de refletir o Intelecto diretamente, sem a mediação de qualquer mente racional ou vontade individual - uma capacidade que define todo o aspecto imaginário da contemplação espiritual, bem como a contemplação da beleza espiritual na natureza, na arte e no corpo humano. Quando a vontade é pacificada mediante a obediência à mente racional, e a mente racional é corretamente reorientada obedecendo ao intelecto espiritual, a turbulência das afeições desaparecem, até que a substância emocional torna-se como um lago imóvel em um dia sem vento, capaz de refletir o sol, não como uma grande quantidade de pontos de luz separados e efêmeros, mas de uma forma unificada.
William Blake - Satan Watching the Caresses of Adam and Eve

A mente racional, a vontade e os afetos são as três faculdades principais da psique humana. A psique, no entanto, é também sede de várias faculdades de composição. A principal delas é a memória e a imaginação, ambas assumem três formas diferentes: passiva, ativa e transcendentais, que estão relacionados com as três gunas ou modos de Prakriti (Substância universal) no Hinduísmo: tamas, rajas e sattwa. A imaginação ativa pode ser dividida em modos introvertidos e extrovertidos.

Na memória passiva, a ação é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade, diretamente linha da condição da alma decaída. As afeições sugerem uma impressão, a vontade segue imediatamente, e então o pensamento elabora. A memória passiva - devaneio nostálgico - é, em última análise, baseada na atração das afeições a forma sutil da natureza material, mediante ao anseio de voltar à nossa "mãe", nossas origens maternas no mundo natural, para além do conhecimento da mente racional e a resolução da vontade. (As pessoas viciadas na memória passiva verão toda a vida, mesmo sendo uma experiência humana, como um processo de "fazer memória"). Essa memória se torna quase necessária como uma "atividade recreativa" para a alma devorada pela obstinação racional da vida moderna, baseada na escravidão da mente racional à vontade, segundo a qual a alma está sempre tentando colocar as afeições em trabalho para abastecer esta ou aquela obsessão. A poesia crepuscular e putrescente de Georg Trakl é a expressão quintessencial desse estado. De certa forma pode ser vista uma vingança sutil dos afetos reprimidos sobre a obstinação que os reprime. A nossa natureza emocional, cansada de ser explorada e drenada por nossas ambições e obsessões, enfraquece-os periodicamente "desligando" a nossa racionalidade e vontade - mas como René Guénon apontou, o "sentimentalismo burguês" nada mais é que a face oposta do voluntarismo burguês racionalista. E na medida em que a memória passiva é apenas um recuar para "Este Mundo" como uma matriz projetiva (por mais que nós possamos inconscientemente temer este Mundo), ela destrói progressivamente a virtude da vigilância que faz a contemplação das realidades eternas possível. Essa busca inconsciente por segurança, ou por inconsciência como segurança, juntamente com os vícios de curiosidade e ambição cruel, é o que define a conquista da alma pelo poder de "deste mundo", o sistema coletivo de egoísmo e ilusão. É melhor se relacionar com o mundo natural através do trabalho, ou mesmo através de perigo, do que tomá-lo como uma espécie de resort de férias; se entendermos o mundo natural como rigoroso, assim como belo, então ele não se tornará para nós "as trevas deste mundo" (a escuridão imposta pelo complexo Ego / Mundo, porque não querem que nós observe ou acredite em nada além de seu horizonte ou fora do seu controle) mas sim o conjunto de Nomes e Sinais de Allah - um suporte para a contemplação, e não seu substituto.

Quando William Blake disse "A Memória é a Morte Eterna", ele estava se referindo a memória passiva. A existência governada pelo tempo e devir sempre está falecendo em Hades, no reino dos fantasmas; a condescendência com tal fantasmagoria nos faz moribundos, quase transformando nossas almas nos próprios fantasmas, mesmo antes da morte física, garantindo que nós deixaremos grande parte da nossa realidade humana para trás, na forma fantasmagórica. Tampouco a memória passiva realmente é livre da racionalidade intencional só porque tem o poder de separar-se temporariamente dela; ela permanece ligada à racionalidade voluntarista, assim como a sombra está vinculado ao objeto sólido. Como tal, ela permanece sob a hierarquia invertida de Afeições / Vontade / Racionalidade que caracteriza a alma caída em si. O estado da memória passiva é bem analisada por William Blake em seu poema Tiriel.

Dependendo se nossas lembranças são agradáveis ​​ou desagradáveis​​, a memória passiva irá chamar sentimentos nostálgicos por um lado, ou de arrependimento e / ou repulsa por outro. E a memória passiva, seja agradável ou desagradável, é a expressão emocional do estado da alma caracterizado por Kierkegaard, em O Desespero Humano, como "desespero da necessidade", não aquele desespero em que a necessidade é ausente, mas aquela necessidade, não em termos eternos como o Ser Necessário, mas no temporal como o destino irrevogável, é a base do nosso desespero. Ambas as lembranças agradáveis ​​e desagradáveis​​, quando estão sob o poder da memória passiva, geram desespero; a expressão poética clássica do reconhecimento consciente de tal desespero (que, embora muito doloroso, também pode representar uma chance real para acordar, para começar nossa luta pela liberdade) está no poema de Francis Thompson A Cidade da Noite Terrível.

A memória ativa é algo mais elevado que a memória passiva. É o uso intencional da mente racional para acessar este ou aquele item de informação factual (informação verdadeira, não de fantasia), empregando as afeições, colocando em uso seu poder de simpatia. A memória ativa é hierarquizada Vontade / Afeições / Racionalidade: a intenção de lembrar algo emprega as afeições como seu "motor de busca", depois da qual a mente racional corrige os resultados com o saber consciente. A memória ativa representa, portanto, uma reparação parcial da condição caída da alma, que é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; é um passo em direção a edificação.

Em busca do passado, a memória ativa não procura por potenciais, mas por fatos, por coisas que já foram realizadas; consequentemente, ela está operando, de modo imperfeito, mas válido, no reino do Ser Necessário. Na medida em que os fatos habitam no passado, eles estão separados da ordem metafísica, que subsiste no eterno presente; mas na medida em que são realidades, e não meras possibilidades ou potenciais, eles participam desse reino - uma vez que, de acordo com os filósofos escolásticos, Deus é tanto Ser Necessário e Ato Puro. De forma que quando a história acabada, ela está concluída; na medida em que está concluída, ela está perfeita. Já não está sujeita ao devir. Assim, a compreensão de eventos passados ​​é uma abordagem real da intuição da eternidade, no sentido metafísico. E isso é ainda mais verdadeiro no estudo das leis físicas e axiomas matemáticos, que são os mesmos em todos os lugares e tempos; é por isso que Platão considerava o estudo da matemática como o melhor caminho preparatório para o entendimento da metafísica.

A memória transcendental se baseia em realidades situadas além da hierarquia das faculdades psíquicas; ela pode ser vista como a oitava superior da memória ativa. Em termos do caminho espiritual, a memória transcendental possui uma função mais elevada do que a busca de fatos objetivos - que é, no entanto, um bom treinamento preparatório para ela, uma vez que a essência do caminho é superar subjetividade egóica e alcançar a Verdade Objetiva. Na terminologia tradicional aplicável ao caminho espiritual, a memória transcendental é a recordação, cuja forma mais elevada é a lembrança de Deus (dhikr; japam; Mnimi Theou). Lembrar a Deus é reconhecê-Lo como o Único Absoluto e Fato Todo-abrangente, do qual todos os outros fatos são meros reflexos - é por isso que os verdadeiros fatos de qualquer situação, passado ou presente, são um modo da presença real de Deus ali. A lembrança de Deus é "memória" no sentido de que ela lembra, ou chama de volta, uma realidade esquecida; esquecida, no entanto, não no passado, mas (ou debaixo) no presente. A memória que estamos buscando terá como conteúdo algum evento passado, mas a verdadeira forma dela já se situa abaixo da superfície da consciência, neste exato momento.

A lembrança de Deus invoca a pré-eternidade, que é muitas vezes sentida como uma nostalgia de um paraíso perdido - não o paraíso natural da memória passiva, mas o paraíso celestial da forma humana Eterna. Lembrar que estávamos uma vez unidos a Deus na pré-eternidade é começar a lembrar que a pré-eternidade não é se situa fundamentalmente no passado, mas no presente. Deus está aqui; A eternidade é agora. (Os cabalistas dizem: "o que está aqui está em outro lugar, o que não está aqui, está em lugar algum" Isso pode ser parafraseado, em termos temporais, ao invés de espaciais, como: "O que é real agora sempre foi e sempre será real; o que não é real agora nunca vai ser, e nunca foi ". À luz disto, a procura "alquímica" de William Blake "o que pode ser destruído, deve ser destruído!", faz todo o sentido).

Na medida em que reconhecemos Deus como presente neste momento, começamos o processo de "retirada de projeções". Projeção é a tendência de falsamente ver a si mesmo como ser em alguma coisa, pessoa ou situação no mundo exterior, ou no mundo como todo. Mas uma vez que Deus é infinito e absoluto, e uma vez que "o reino dos céus está dentro de ti", a realização de Sua presença corta todos os laços com a memória e a expectativa; o que tem sido, é agora, e assim o passado é apagado - como passado, isto é - não esquecendo, mas lembrando, dado que todas as coisas estão presentes em Deus. Além disso, o que será já está aqui, de modo que o futuro também é obliterado: tudo o que poderia ser desejado (pelo coração) ou temido (pelo ego) está aqui na Presença Única.

A lembrança de Deus, portanto, afeta a lembrança da forma humana. O ser humano imerso no devir, ligado à roda do nascimento e morte, é desmembrado, não espacialmente, mas temporalmente; o desmembramento de Osíris e sua reconstituição por Ísis é um símbolo desta condição.  Ele deixa o passado coberto de sua experiência, o futuro cheio de sua intenção. Mas, quando a presença de Deus é recordada no momento presente, e essa lembrança é estabilizada, então os membros dispersos do memorial, magicamente remontam-se, como os ossos secos da visão de Ezequiel; nas palavras de Rumi (dirigida a Deus) de uma das suas quadras, "Quando Você voltar, tudo retorna." O desapego do passado e do futuro, quando este é o lugar onde a maior parte da nossa identidade é posta, é experimentada como a aniquilação, a Fana Sufi. E o retorno das nossas auto-projeções psíquicas do passado e futuro, quando completo, é experimentada como o Baqa Sufi, a subsistência em Deus -  subsistência como a forma humana integral residente no eterno presente, a essa realidade os sufis chamam de al-insan al-Kamil, o Homem Perfeito. O retorno dessas projeções é legitimamente simbolizado pela ressurreição dos mortos - nesse ponto, nas palavras de Blake, "Filhas de Memória [Musas] tornam-se as Filhas da inspiração".  Este é o reino do Tantra, a dimensão em que as nossas paixões e obscuridades (os nossos medos e desejos, nossos afastamentos e anseios, nossas projeções), em vez de serem suprimidos ou cortados, passam por uma metanoia, até que eles se revelam como a própria substância da manifestação universal de Deus, que é igualmente o Shakti ou Poder de Atenção pelo qual nós contemplamos.

Quando a memória ativa culmina na lembrança de Deus e a memória passiva é superada, o desejo nostálgico e / ou a repulsa da memória passiva são transformados em gratidão - gratidão pela misericórdia de Deus. E esta transformação ocorre, precisamente, por intermédio do desgosto. Desgosto é uma das sensações mais desagradáveis ​​que podemos experimentar, mas também é um dos sinais mais esperançosos da catarse, da purificação espiritual.

Imaginação passiva, como a memória passiva, é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; seu outro nome é "fantasia". (Aqui, podemos ver como as paixões da alma decaída estão diretamente relacionadas com a passividade e, portanto, quão deliberada, uma ação de princípios, embora possa ter certas consequências negativas, ainda é um verdadeiro passo para a redenção.) Nossas afeições são atraídos por este ou aquele conjunto de impressões dentro do reino sutil; nossa vontade é apropriado por eles e se envolve com eles; nossa mente pensante (em grande parte mediada pelo discurso inconsciente) desenvolve-os, forma-os em imagens articuladas; é isto que é fantasiar. Imaginação passiva é como a memória passiva exceto que essa lida com as coisas que nunca existiram no mundo material, e pode nunca vir a este mundo - como possibilidades, isto é, não como necessidades.

Imaginação passiva tem a ver não com fatos, mas com potenciais. Talvez nunca tenhamos a intenção de trazer esses potenciais para o mundo real, optando desfruta-los como se fossem um mundo em si, ainda assim estão sempre pressionando por uma encarnação, e são fantasias de luxúria ou raiva que nos conduzem frequentemente a ações luxuriosas ou violentas. E se nós desfrutarmos dos potenciais que nunca pretendemos realizar, nossas vidas se tornam irreais; assim, a imaginação passiva, pode ser comparada, com precisão, a sexualidade quando divorciada tanto da reprodução como da contemplação, os quais representam a realização das potencialidades inerentes a ela. (A resistência da imaginação passiva à realização concreta de potenciais é analisada por William Blake em O Livro de Thel.)

 Imaginação passiva, uma vez que tem a ver com o Ser Possível em vez do Ser Necessário, existe em um nível ontológico inferior a memória passiva. Ela evita a realidade, tanto prática como metafísica, e, portanto, tende a substituí-la. É um parasita da realidade. Ela pode dar uma sensação de que muito é possível, que a nossa vida e alma são tão ricas em potencial que se pode usar seu precioso tempo na concretização deste potencial, uma vez que é praticamente imortal. As desvantagens desta ilusão são analisados ​​na peça japonesa Nō Kantan e na canção de Simon e Garfunkel "Hazy Shade of Winter".

Imaginação passiva, claro, também está sujeita a pesadelos, à apreensão dos potenciais negativos; sendo rica, convida-nos para contemplar aquilo que gostaríamos de ver acontecer, ou apenas ver, assim ela se encontra inseparável da temorosa contemplação daquilo que temos medo que possa acontecer, ou o aquilo que estávamos com medo de nunca testemunhar, mesmo no nível imaginário. A irresponsabilidade que alimenta a imaginação passiva positiva é sempre eventualmente compensada pela insegurança rastejante que convida a imaginação passiva negativa; se não estamos cumprindo nossos deveres, podemos legitimamente temer que a vida vai nos dar um sério golpe. A imaginação passiva (especialmente em sua forma positiva) é analisada por Kierkegaard em O Desespero Humano como "desespero da possibilidade" - e não o desespero do impossível (o que seria o "desespero da necessidade"), mas o desespero que se esconde na fantasia da própria possibilidade.  No entanto, o desespero da necessidade, muitas vezes subjaz desespero da possibilidade. A falsa esperança que costuma dizer "tudo é possível!", enquanto não toma sequer o primeiro passo para realizar tal possibilidade à mão, geralmente não passa de uma negação de um sentimento subjacente de que "nada é possível", que se  alguém tomasse as medidas concretas necessárias para realizar determinado potencial, esse inevitavelmente daria de cara com a porta da realidade.
Imaginação ativa é um passo acima do mundo de fantasia "infra-psíquico" da imaginação passiva. É hierarquizado (como uma tentação conscientemente resistida) como Afeições / Racionalidade / Vontade; consequentemente, ela também é um passo parcial em direção a edificação. Ela assume duas formas. Na imaginação ativa introvertida, nós conscientemente interagirmos com as imagens simbólicas que a nossa psique nos apresenta, assim interrogando-as, desafiando-as, para alcançar maior insight psicológico (e por vezes mesmo espiritual). A substância afetiva da alma recebe a impressão de uma imagem simbólica interior; a faculdade racional questiona esta imagem e, assim, transforma sua aura evocativa de significado oculto em conhecimento consciente; a vontade, em seguida, tem a intenção de realizar existencialmente as conseqüências psicoespirituais do conhecimento, assim ganhadas. Esta é uma das principais ferramentas do método psicanalítico de Carl Jung e sua escola. Na sua forma extrovertida, a imaginação ativa representa o processo de trazer potenciais para fora do reino imaginário e para a manifestação física concreta neste mundo. As afeições "atraem" e "entretém" o potencial em questão, a mente racional transforma esse potencial em um plano eficaz; e a vontade leva-o para fora. 

A imaginação transcendental, assim como a memória transcendental, baseia-se em realidades que existem além da hierarquia psíquica. É a imaginação Eterna de William Blake, em linha caracterizava o Espírito Santo como "uma fonte intelectual". Ibn al-'Arabi fala de dois níveis discretos do mundo da imaginação, o alam al-mithal. Enquanto o inferior surge a partir das impressões armazenadas de experiência sensorial; o mais elevado (al-Malakut) recebe impressões diretas do Plano Inteligível dos Arquétipos eternos ou das idéias platônicas (al-Jabarut), e os veste de forma imaginária. A forma inferior da imaginação recorre as impressões de experiência sensoriais do passado mostra a identidade oculta ou afinidade entre a memória passiva e a imaginação passiva. A forma mais elevada de imaginação emana diretamente do Plano inteligível, e, portanto, constitui o mais próximo, a relação mais plenamente encarnada (no sentido sutil) entre a psique humana e o mundo dos princípios metafísicos, não mediada pelo discurso racional abstrato, mas pela reverberação imaginal concreta da intelecção direta, estabelece a identidade entre o plano elevado imaginário de Ibn al-'Arabi e da Imaginação Divina de Blake ou a inspiração poética. Estes dois níveis de imaginação, no entanto, não são completamente independentes, tendo em conta que uma inspiração que emana a partir do nível mais elevado deve revestir-se com a substância do inferior; nós não poderíamos imaginar a Sabedoria como uma linda mulher se nós nunca tivessemos visto mulheres bonitas. É verdade que o arquétipo da beleza feminina existe em um plano mais elevado do que o material, e que toda a beleza feminina neste mundo é derivada dela. No entanto, se esse arquétipo tentasse se manifestar diretamente neste mundo, na ausência de quaisquer memórias da beleza feminina, ou de presente contemplação desta beleza em forma humana, seria irreconhecível e, assim, ininteligível. Beatrice de Dante era um raio da beleza divina, cujo lar adequado era o Paraíso - ainda que ele nunca a vira, mesmo que brevemente, neste mundo, ele nunca poderia tê-la reconhecido em seu ambiente celestial. (Aqui, aliás, pode residir uma verdade por trás afirmação problemática de Tomás de Aquino, que parece negar a realidade da intelecção direta, que o conhecimento pode alcançar a alma somente através dos sentidos.) Não obstante, enquanto o ta'wil (exegese no sentido de "retorno à fonte") da imaginação mais elevada conduz ao plano dos princípios metafísicos eternos, o ta'wil da parte inferior, a menos se transportar em si parte do mais elevado, leva apenas a escuridão do mundo material, cortado dos níveis mais elevados da hierarquia ontológica e, portanto, praticamente inexistente. (Para a melhor introdução à doutrina da imaginação de Ibn al-' Arabi, consulte Imaginal Worlds por William Chittick. Devemos também observar que Ibn al-' Arabi postula um terceiro nível de imaginação, o universal, que é simplesmente afirmar que o todos os mundos, celestial, psíquico e materiais, brotam e constituem a Imaginação Universal de Deus.)

Imaginação transcendental é extremamente ativa; no entanto, não em relação a nossa ação, mas a de Deus, que imprime diretamente sobre a substância afetiva de nossas almas em seu estado quintessencial as verdades que Ele nos quer, não apenas para fantasiar sobre ou pensar, mas para realizar. Quando a camada afetiva da psique está polarizada e diferenciada em várias emoções específicas, não é possível receber as impressões da imaginação transcendental. Quando, no entanto, ela retorna ao seu estado indiferenciado através da virtude da apatia ou da impassibilidade espiritual, que pode ser representado como a resolução dos quatro elementos ou quatro qualidades emocionais primitivas [ver Capítulo II] em sua origem comum no Aether, que é sua Quintessência ("emoções" sendo determinações específicas da substância afetiva que estão em seu caminho para se tornarem "impulsos", "motivos" ou "motivações", em sua interação com a vontade), esta torna-se receptiva às impressões que emanam não a partir do ambiente circundante psíquico mas diretamente do espiritual ou Plano inteligível. Imaginação passiva é passiva, não receptiva; não é propriamente intencional. A imaginação ativa é realmente ativa e intencional, mas apenas no plano individual, embora os símbolos que ela interaja individualmente possam ter um aspecto transcendental. Imaginação transcendental é uma atividade em si, a união de uma determinada verdade eternamente atualizada na Mente de Deus com a boa vontade ativa para que o sujeito humano receba e conceba (e não simplesmente permanecer passivos a ela) esta verdade. Quando a Virgem Maria disse, em Lucas 1:38, "Faça-se em Mim Segundo a Palavra Tua", ela estava abrindo não apenas sua psique, mas seu próprio corpo para a imaginação transcendental de Deus.

Como vimos, a imaginação passiva é ontologicamente inferior memória passiva porque lida com potenciais não realizados. Da mesma forma a imaginação ativa é ontologicamente inferior memória ativa, mas é espiritualmente superior, no sentido de que a contemplação da Necessidade através da memória, embora mais elevada do que o entretenimento da Possibilidade através da imaginação, nem sempre é fértil para nós em termos espirituais, pois é um atributo de Deus, e não da psique humana, e, conseqüentemente, pode, por vezes, ter um efeito paralisante sobre nossa vida espiritual. A contemplação da Verdade eterna como Ser Necessário apenas, completo em um Passado eterno governado pelo Ancião dos Dias, irá - a não ser que nosso próprio futuro torne-se espiritualmente grávido, a menos que possibilidade seja ativada - tornar o progresso espiritual impossível. Em certo sentido, Ser Necessário é o próprio Deus, o único que não pode deixar de ser. Em relação ao ego humano, no entanto, o Ser Necessário é transformado no desespero da necessidade, os laços de fatalidade e karma. Da mesma forma, embora o Ser Possível não seja o que deve ser, mas apenas o que pode ser - meramente contingente, não absoluto - em relação ao ego humano ele pode, se Deus quiser, ser transformado em virtude de esperança. Podemos certamente esperar que uma das coisas que podem ser, seja a nossa própria realização de Deus. Na medida em que estamos imersos na possibilidade do devir, e não na Necessidade da Verdade Eterna, apenas a manifestação dessa Necessidade como uma possibilidade concreta em nossas próprias vidas nos pode oferecer alguma esperança de libertar-nos. Assim, poderíamos dizer, parafraseando os Padres Orientais, que "O Ser Necessário se torna ser possível para que essa possibilidade possa se tornar Necessidade". O que só "pode ​​ser" é perpetuamente incerto e pouco confiável - e ainda outro significado da palavra "pode" é precisamente poder. O poderoso é aquele que tem o poder de atualizar possibilidades, de transformar o ser possível em Ser Necessário; portanto, "Com Deus, todas as coisas são possíveis."

Memória ativa e a memória transcendental são, respectivamente, uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do passado; a imaginação ativa e imaginação transcendental são uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do futuro - ou melhor, elas são o futuro no ato de se aproximar de nós, e se tornando presente para nós como Eternidade, para além do medo e desejo. Quando a pré-eternidade da memória e a pós-eternidade da imaginação estão unidos no eterno presente, esta é a Eternidade em si, na qual a lembrança de Deus como Eterna Realidade e a auto-revelação de Deus como a Misericórdia de Possibilidade são um e o mesmo.

Quando a memória transcendental e a imaginação transcendental se unem, o intelecto divino é revelado; quando o intelecto divino nos é revelado, a alma decaída é edificada, sua hierarquia invertida das faculdades se configuram corretamente - ou melhor, na posição vertical. As faculdades estão corretamente hierarquizadas ao longo do axis mundi e, conseqüentemente, orientada para o que os sufis chamam de Qutb, o Pólo do intelecto espiritual, tanto cosmológico e pessoal - a realidade que TS Eliot chamou de "o ponto imóvel do mundo que gira", e que aparece na pessoa do Mestre espiritual. Tornamo-nos edificados, eretos, seres humanos justos - Tzaddikim. (A letra hebraica tsade simboliza, entre outras coisas, "o norte", o quarto do Pólo.) A racionalidade serve a Intelecção diretamente; a vontade serve a Intelecção indiretamente, obedecendo os ditames da razão; as afeições capacitam a vontade para servir e assim purificando a mente racional, bem como abrindo-a mais plenamente para Intelecção; também estará presente o poder de refletir diretamente a Intelecção espiritual no plano da psique, assim como um espelho reflete a luz. Esta é a cumprimento dos "mistérios menores" que, no contexto do caminho espiritual, é o próprio objeto da Psicologia principial. Além disso, além da psicologia, além da própria psique, encontram-se os "maiores mistérios" que constituem a união final da alma com Deus.

Charles Upton - Principal Psychology

terça-feira, 16 de julho de 2013

Seyyed Hossein Nasr - Ruínas

Vivemos entre ruínas em um mundo em que "Deus está morto", como Nietzsche afirmou. Os ideais de hoje são o conforto, a conveniência, o conhecimento superficial, desrespeito para com o patrimônio e as tradições, suficientes para atender os padrões mais baixos do bom gosto e inteligência, a apoteose do patético, acumulação de objetos materiais e posses, desrespeito por tudo o que é inerentemente superior e melhor - em outras palavras, uma inversão completa de valores ideais e verdadeiros, o hasteamento vitorioso da bandeira da ignorância e do estandarte da degeneração. Em tal tempo, a decadência social é tão difundida que ela aparece como um componente natural de todas as instituições políticas. As crises que dominam o cotidiano de nossas sociedades fazem parte de uma guerra secreta e oculta para remover o suporte dos valores espirituais e tradicionais, a fim de transformar o homem em um instrumento passivo de poderes das trevas.


O terreno comum do capitalismo e socialismo é uma visão materialista da vida e do ser. O materialismo na sua guerra com o Espírito assumiu muitas formas, alguns têm promovido seus objetivos com grande sutileza, enquanto outros o fizeram com uma alarmante falta de sutileza, mas todos contribuiram, em maior ou menor medida, para o crescimento da miséria humana. As formas que têm feito o maior dano em nosso tempo podem ser enumerados como:. Maçonaria, Liberalismo, Niilismo, capitalismo, socialismo, marxismo, Imperialismo, Anarquismo, Modernismo e o New Age.

Seyyed Hossein Nasr