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domingo, 12 de outubro de 2014

Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski Contra o Mito Iluminista (por Jay Dyer)

No decorrer do que hoje é chamado de "Filosofia Continental," três figuras destacam-se como proeminentes pensadores capazes de sondar as profundezas mais íntimas da psique humana de tal forma até então desconhecida, desde, talvez, Shakespeare: Soren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche e Fyodor Dostoiévski. Estes três foram mais ou menos contemporâneos, e todos compartilhavam um interesse similar fascinante - derrubar os ídolos ideológicos do seu dia, e, em especial, a fachada do indivíduo pós-iluminista "homem moderno". Muito embora esses homens certamente tinham diferentes visões de mundo e provavelmente debateriam grandes temas como o significado preciso da relação de Deus e do homem no universo, eles compartilhavam uma aversão semelhante à hipocrisia, mentiras e falsidades, e tornou-se parte de seus objetivos iconoclastas desmascarar esses véus.

Francis Bacon deixou o seu objetivo como um luminar do Iluminismo para derrubar o que ele percebeu ser ídolos em seu Novum Organon - ídolos da tribo, da caverna, do mercado e teatro. Ídolos da tribo significaria a aniquilação dos ideais sociais abstratos impingido realidade; ídolos da caverna refere-se a interpretações míopes da realidade de acordo com uma fantasia especial de algum acadêmico individual; ídolos do mercado refere-se à apropriação indevida da palavra e coisa, a atribuição de uma identificação indevida entre os dois; e os ídolos do teatro, onde as ideias são construídas em uma falsa pressuposição da teologia ou da especulação metafísica, tornando-se abrigado no discurso público. Este tratado engloba o impulso do Iluminismo e sua obsessão com aquilo que René Guénon chamou de "reino da quantidade." Tudo é medido e classificado de acordo com algum estreitamento quantitativo da razão do homem. O conhecimento científico, ou mais especificamente, o cientificismo, torna-se o paradigma dominante, em que todas as coisas são medidas, seja religião, política, economia e mercado, todas as coisas são em potentia capazes de uma formalização racional e, como um grande algoritmo, todos os males da humanidade simplesmente aguardam a solução da academia e de suas calculadoras de laboratório.

Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski usaria essa mesma metodologia contra si mesma. Será possível que Bacon e sua descendência iluminista são culpados pelas coisas que procurou destruir? Será que os filósofos constroem seus próprios ídolos? Antes de Nietzsche, primeiro deve-se mencionar a influência de Soren Kierkegaard. Kierkegaard tinha lutado com a complacência e o formalismo da igreja luterana oficial de sua época, resultando em uma viagem introspectiva que iria levá-lo até mesmo questionar a natureza do eu. Kierkegaard, no entanto, não analisou o ‘eu’ de uma forma privilegiada abstrata e 'científica' como é encontrado em alguém como Descartes e seu cogito, mas sim em uma relação dialética do 'eu' consigo mesmo e o outro. Em O Desespero Humano, o ‘eu’ deve entrar em desespero e, revelando sua própria finitude, encontrará o consolo em um relacionamento com um Deus infinito. Para Kierkegaard, esta é a única maneira de escapar da dialética contínua do homem decaído preso por ser um filho de Adão.

O crítico Merold Westphal escreve:
Para esses três mestres seculares da desconfiança [Marx, Nietzsche e Freud] as ilusões que devem ser desmascaradas são as do auto-interesse que aparece como dever e virtude, e do egoísmo fingindo para o mundo e para si mesmo que é o altruísmo. O exemplo de Nietzsche sobre o espírito de ressentimento dando origem a uma demanda de vingança, mas posando como amor e justiça, é uma espécie de paradigma. Mas o pecado nada mais é do que um egoísmo face a face ao meu vizinho. É também a incapacidade de amar a Deus com todo o coração. A auto-ilusão humana agora inclui a vontade de autonomia em relação à Deus juntamente com a vontade de domínio sobre meu vizinho. Inevitavelmente sua implantação na história acrescenta uma nova dimensão à arte da desconfiança.
Aqui continua Nietzsche desde Kierkegaard, mantendo a sua "arte da desconfiança." Em vez de sucumbir a um sistema moral que leva inevitavelmente ao fracasso e a miséria (o esquema cristão), fomentando em ressentimento e ódio aos outros sob o pretexto de "salvação" do 'eu' que é supostamente criado por um Deus bom, Nietzsche transforma a suspeita de Kierkegaard na própria moralidade cristã, bem como sobre o iluminismo.

 Para Nietzsche, o Iluminismo deu origem à crítica, ou a arte da suspeita, e ao fazer isso, haviam deixado de lado Deus. Este é o significado da famosa frase "Deus está morto". Ao invés de ser uma afirmação sobre o que Nietzsche acreditava no que diz respeito a algum esquema ontológico (como é frequentemente mal interpretado), é uma declaração descritiva sobre o estado atual e o futuro da civilização ocidental e sua relação com o Deus judaico-cristão. O Iluminismo criticou com sucesso os pressupostos metafísicos e teológicos anteriores herdados de nomes como Platão, Aristóteles, Galeno, Ptolomeu, Agostinho e Tomás de Aquino, apenas para encontrar-se ainda à procura de uma grande narrativa que totalizou uma visão exaltada, idealizada e abstrata do "homem" ou "humanidade". Com Immanuel Kant, por exemplo, ao extrapolar uma moral imperativa categórica deve, logicamente, conduzir a um governo mundial onde a humanidade é guiada pela razão e harmonia - uma verdadeira utopia cientificista! Embora, em seguida, com Kierkegaard e Nietzsche e Dostoiévski, como veremos, começamos a ver o problema dessa abstração.


No entanto, o cogito de Descartes não era algo que Kierkegaard, Nietzsche ou Dostoiévski pudessem evitar completamente. As sementes do individualismo haviam sido plantadas. Descartes, sendo um pouco racionalista, não poderia ter previsto o dilema existencial que seu cogito criaria, mas ao girar o olhar do homem sobre si mesmo para desconstruir a psique resultaria em existencialistas desconstruindo o mito do Iluminismo. Louis Dupre escreve:

Para Descartes, a verdade da natureza se torna estabelecida na reconstrução feita pela mente. A mente desse modo, funciona como o espelho no qual a reflexão origina a verdade. Mas se é assim, como pode conhecer a si mesma, Gassendi se perguntou. O olho físico, incapaz de ver-se diretamente, no entanto, é capaz de ver a si mesmo no espelho, porém para Descartes, não há espelho além da mente. Se não sabemos a natureza do espelho, no entanto, como podemos avaliar a sua capacidade de refletir a verdadeira natureza das coisas? Nesta objeção reside todo o problema do conhecimento como representação. A menos que o olho conheça a si próprio, como poderia ele saber como (e, no final, o que) reflete? O que permite que a mente possa se referir a imagem espelhada de um original se ela ignora como reflete o original? Descartes sentia que essa objeção estava no coração de sua teoria, e respondeu que o espelho da mente reflete também a si mesmo. No entanto, a mente possui nada mais do que uma consciência de sua existência. Será que isso é suficiente para justificar o conhecimento das coisas em si mesmas por meio de um ato de representação? Locke percebeu a dificuldade e afirmou que a mente só conhece suas próprias ideias.

Aqui o pensamento iluminista começa a entrar em colapso sobre si mesmo. Começa a tornar-se evidente que a mensuração quantificada e abstrata de toda a realidade - seja fazendo toda a realidade ser matéria ou uma ideia, termina no mesmo dilema: o solipsismo. O solipsismo não é o tipo de posição que um racionalista iluminista prefere adotar, uma vez que é uma posição fundamentalmente irracional. Kierkegaard reconhece que o 'eu' estava dialeticamente relacionado com si e outros eus, e, finalmente, ao Outro Eu (Deus), e em sua incapacidade de encontrar consolo e significado o levou a uma espécie de justificação individualista pela fé no esquema Luterano.

Nietzsche “morde a bala” e simplesmente rejeita tudo isso em toto. Em outras palavras, por que considerar o 'eu' como mal, como o cristianismo faz? Por que aceitar que Deus exige uma dívida que só pode ser paga pelo reconhecimento primeiro de sua própria pecaminosidade inerente? Deus não sabia isso sobre o homem (sua pecaminosidade infinita) pra começar, então o pagamento de uma morte infinita pelo sacrifício Dele mesmo pra pagar a Ele próprio se torna um exercício irracional. No entanto, o Cristianismo, desde a época escolástica e do seu subproduto (da época do Iluminismo), argumentou gradativamente se afastando da redenção de Cristo, para um racionalismo, e então, pela mesma razão, rejeitou o racionalismo pelos argumentos da própria razão. Este dilema não foi imediatamente aceito pelos deístas e moralistas da época de Nietzsche, mas Nietzsche não temia em levantar a voz aos deístas e os cientistas mostrando suas contradições em seus próprios fundamentos.

Se o Iluminismo significou a morte de Deus como uma realidade ontológica, então não havia nenhuma razão coerente para sustentar o moralismo cristão, e na verdade, esses costumes se tornaram destrutivos e regressivos para aqueles que eram fortes. O Cristianismo era uma moralidade escrava por excelência, como ele argumentou no primeiro e no segundo ensaio de a Genealogia da Moral, assim como em O Crepúsculo dos Deuses e O Anticristo. Na verdade, a própria Civilização Ocidental inteira tinha partido de falsos pressupostos que começaram com ascetas como Sócrates e Platão, que tentaram fugir da realidade do presente em voos de fantasia e abstrações. Desde Platão o Ocidente recebeu um pesadelo dialético que levaria alguns milênios para se recuperar, se é que pode ser chamado de recuperação. Os modernos cientistas ateus não foram melhores. Ao contrário, eles foram piores em argumentar por algo ainda mais contraditório que aqueles da "Cristandade". O terceiro ensaio da Genealogia retoma o absurdo que Nietzsche vê nos "ascetas", que inclui os luminares do Iluminismo e os alemães medíocres de sua própria época.

Para Nietzsche, o Iluminismo baniu a cristandade e sua grande narrativa que forneciam o poder explicativo para os fatos aparentemente aleatórios e agressivos da vida, mas isso não foi um fato totalmente lamentável. Esta remoção dos ídolos de Bacon seria uma pílula difícil de engolir, e conduz a uma espécie de niilismo, como Dostoievski notou, mas para Nietzsche, isso resulta em uma possível ascensão de uma elite artística que criará um novo significado. A salvação do homem se encontraria na arte e na estética de uma nova narrativa e significado possível. Não havia nenhuma necessidade determinada que isso aconteça, é claro. É inteiramente possível que o homem possa desenvolver, para continuar o progresso evolucionário, outro mito iluminista: Não há nenhuma lei do progresso presente na fatualidade bruta da existência impessoal. Para Nietzsche, este super-homem traria redenção novamente - como um "Anticristo", já que, em sua análise, cristianismo é niilismo. A narrativa cristã e suas contradições inerentes, o ressentimento e a degeneração gradual que levou o homem ocidental ao niilismo e é sobre a dissolução deste sistema que um novo homem surgirá.

Robert Solomon explica:
Aristóteles tinha um ethos: Nietzsche nos deixa sem nada. Mas Nietzsche é, contudo, o ponto culminante de toda essa tradição - que ainda se referem como "filosofia moral" ou "ética" - baseada em um erro trágico e possivelmente irreversível tanto na teoria como prática. O erro é a rejeição do ethos como o fundamento da moralidade com a insistência compensadora na justificativa racional da moralidade. Sem um ethos pressuposto, nenhuma justificativa é possível. E assim, depois de séculos de degeneração, inconsistências internas e falhas no projeto iluminista em transcender o mero costume e justificar as regras morais de uma vez por todas, as estruturas de moralidade entram em colapso, deixando apenas fragmentos.


Dostoiévski, porém, continua a ser uma figura religiosa como Kierkegaard. Membro da tradição ortodoxa russa, em seus anos mais jovens ele estava possuído por uma visão liberal otimista da natureza humana que viria a se transformar em uma forma mais realista, uma avaliação negativa. Em oposição à suposição clássica liberal ocidental de que a "humanidade" pode ser elevada pela educação, os escritos de Dostoiévski oferecem aos leitores uma janela para o lado mais sombrio da natureza humana que a maioria prefere ignorar e fingir que não existe. O projeto do Iluminismo, importa recordar, era destruir os ídolos. Não deveria o arrogante homem ocidental destruir esse ídolo do mito de sua "bondade" interior? E o que dizer da escuridão interior que resulta em atrocidades? Por que o chamado progresso do homem resultou sempre numa crescente guerra, tumultos e revoluções no tempo de Dostoiévski? Se os homens não são uma tabula rasa - folhas em branco nas quais uma impressão correta, no ambiente e na educação podem criar um indivíduo bem formado, maduro e harmonioso, então o que é o homem?


Em Notas do Subsolo, Dostoiévski dá uma visão geral nos pensamentos de um homem desonesto, vingativo, egoísta e um pouco sádico. Este homem mesquinho passa a ser um homem normal - uma espécie de homem comum, mas um altamente inteligente. A força da apresentação literária reside precisamente no fato de que ele é um homem que todos nós reconhecemos, já que seus defeitos são comuns a todos os seres humanos, mas ainda assim é uma pessoa muito inteligente. Mas, se este tipo de egoísmo mesquinho está presente até mesmo no mais inteligente, a tabula rasa de John Locke, e as outras esperanças iluministas - a ideia idólatra de um homem inteligente abstrato - simplesmente substituiu Deus por um novo ídolo:
Dizem que Cleópatra (desculpem se dou exemplo da história de Roma), gostava de fincar alfinetes de ouro nos seios de suas escravas e sentia prazer com seus gritos e contorções. Os senhores diriam que isso foi numa época relativamente bárbara; que agora também vivemos numa época bárbara (relativamente, também), pois hoje também se enfiam alfinetes; que também agora, embora o homem tenha aprendido, vez por outra, a enxergar com mais clareza do que nos tempos da barbárie, ele está longe de ter aprendido a proceder da maneira indicada pela razão e pela ciência. Porém, os senhores estão firmemente convencidos de que ele se acostumará, quando alguns hábitos antigos, ruins, tiverem desaparecido completamente, e quando o bom senso e a ciência tiverem reeducado totalmente a natureza humana, direcionando-a para um estado normal. Os senhores estão convencidos de que, então, o homem deixará voluntariamente de errar, e a contragosto, por assim dizer, não irá querer opor sua vontade aos seus interesses normais. E mais: nesse tempo, dizem os senhores, a própria ciência vai ensinar ao homem (embora isso já seja um luxo, na minha opinião) que ele, na verdade, não possui nem vontade, nem caprichos, que, por sinal, nunca os teve, e que ele mesmo não passa de alguma coisa parecida com uma tecla de piano ou um pedal de órgão; e que, ainda por cima, existem também as leis da natureza, de modo que, não importa o que ele faça, isso não é feito por sua vontade, e sim por si mesmo, seguindo as leis da natureza. Conseqüentemente, basta descobrir essas leis da natureza que o homem não terá mais de responder pelos seus atos, e viver, para ele, será extremamente fácil. Evidentemente, todas as ações humanas serão calculadas matematicamente, de acordo com essas leis, numa espécie de tábua de logaritmos, até 108.000, e serão inscritos nos calendários; ou, algo ainda melhor: surgirão algumas publicações bem-intencionadas, do tipo dos atuais dicionários enciclopédicos, em que tudo estará tão bem calculado e indicado, que no mundo não haverá mais nem incidentes nem aventuras
Assim serão estabelecidas novas relações econômicas, tudo pronto e trabalhado com exatidão matemática, de modo que todas as perguntas possíveis desaparecerão num abrir e fechar de olhos, simplesmente porque cada resposta possível será fornecida. Em seguida, o "Palácio de Cristal" será construído. Então ... esses serão dias felizes. É claro que não há nenhuma garantia (meu comentário), que não será, por exemplo, terrivelmente monótono (pois tudo que tenho que fazer será calculado e tabulado), mas por outro lado, tudo vai ser extraordinariamente racional. É claro que o tédio pode levá-lo a qualquer coisa. É o tédio que leva as pessoas a furar outras com agulhas de ouro, mas isso não teria importância. A parte ruim (meu comentário, novamente) é que ouso dizer que as pessoas serão gratas pelas agulhas de ouro. O homem é estúpido, você sabe, fenomenalmente estúpido; ou melhor, ele não é de todo estúpido, mas é tão ingrato que você não poderia encontrar outro como ele em toda a criação.

Em uma reviravolta brilhante de lógica em forma literária, Dostoiévski leva o pensador iluminista refletir sobre seu cientificismo e a quantificação racionalista, como se a natureza humana funcionasse de forma algorítmica. Mas, isso não acontece: os seres humanos são irracionais e estúpidos em sua maioria e nenhuma quantidade de educação e mudanças no ambiente serão capazes de curar as falhas tão simples como o tédio, que muitas vezes dão origem a um comportamento bizarro e irracional. Nenhuma quantidade de educação tem sido capaz de erradicar as atrocidades cometidas por homens sádicos, na sequência de algumas centenas de anos do Ocidente desde a adoção do novo evangelho do homem dado pelos profetas do Iluminismo. E ironicamente, a própria tarefa que o Iluminismo se propôs a fazer - racionalizar a realidade para produzir um mundo melhor - acabou por quantificar e reduzir toda a realidade em algumas tabulações numéricas monistas do irracional, da causalidade determinista, resultando na total negação da volição e da vontade. Se toda a realidade é um processo rigoroso de causa e efeito materialista, então o livre-arbítrio é uma ilusão e a moral também é ilusória. Não pode haver nenhuma base racional para a moral nesta hipótese.

Em conclusão, torna-se evidente que os três pensadores - Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski contribuíram com críticas originais ao mito do Iluminismo. Esse mito supostamente surgiu para dar um primado à razão humana, para uma exaltação da ciência, a desmistificação da superstição e da religião, e a ascensão do "racional". O que de fato ocorreu foi um tombamento do mito cristão anterior que propiciou a civilização ocidental um grande narrativa coesa dentro da qual se situava a totalidade da existência. O colapso desta estrutura levou imediatamente à introspecção de Kierkegaard e sua avaliação sombria de qualquer esperança do homem que levou-o a encontrar a si mesmo e ao consolo no Deus infinito que transcende a dialética finita e temporal.  Para Nietzsche, o Iluminismo foi mais um mito que ergueu novos ídolos no lugar do antigo que Bacon supostamente havia demolido. O rigor na racionalidade exigiu que a ética fosse abandonada ou substituída por um novo homem forte que ao surgir pudesse criar um novo significado. Para Dostoiévski, o Iluminismo comeu o cristianismo, e depois comeu-se, exaltando a razão ao ponto de criar juízos totalmente irreais e idealistas do próprio homem. O suposto evangelho do homem resultou numa negação determinista do homem que tornou o Iluminismo e seu otimismo impossível e absurdo. Para Dostoiévski, como evidenciado em Crime e Castigo, o homem teria que novamente chegar ao fim de si mesmo, como Kierkegaard havia previsto, antes de encontrar a redenção novamente.

Kierkegaard, Nietzsche and Dostoyevsky Versus the Enlightenment Mythos - Jay (original)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte I

Niilismo tem se mostrado na cultura ocidental por muitos séculos, mas nenhum século esteve tão permeado pelo niilismo como o nosso. Com a percepção, Alexander Solzhenitsyn, recentemente observou que a democracia ocidental está no seu “último declínio”,  que já não mais possuem fundações éticas e consistem apenas de “partidos e classes comprometidos em um conflito de interesses, apenas interesses, nada de elevado”. A observação do Solzhenitsyn dificilmente pode ser deixada de lado. Suas palavras descreve o niilismo que é mais proeminente na democracia ocidental. Niilismo chega tão longe quanto o Eclesiásticos no nosso Velho Testamento e o Nargarjuna no Buddismo. Talvez nenhum século existiu sem ele, mas em nosso século este se tornou persuasivo, encontrando expressão não só num avalanche de literatura mas virtualmente em cada fase de nossa existência. O holocausto nazista, guerra do Vietnã, a “morte de Deus”, a queda de Watergate, todo estão no mesmo escopo. É tão persuasivo que merece atenção especialmente dos historiadores da Igreja.

Depois de definir niilismo e fazer uma alusão ao relativismo, subjetivismo, valores destruídos, e preocupação com a morte que convergiu em nossos tempos, vamos olhar para algumas expressões niilistas de nosso século e tentar desenhar algumas conclusões. Isto, é claro, só cobre parte de  um grande tópico.

Definir niilismo é difícil. A dificuldade das raízes parece ser um paradoxo ou uma inconsistência que, um verdadeiro niilista provavelmente não teria nenhuma base para existir; ainda assim os niilistas (ou niilistas incompletos) existem e o niilismo é expressado. O termo comumente conota a violência anárquica associada com os revolucionários da Rússia durante o reinado do Czar Alexander II. O niilismo se manifestou então como um repúdio ao cenário político-religioso. Dimitri Pisarev e seus seguidores em 1850 deram início ao uso do terrorismo, assassinatos, a destruiçãopara quebrar com a tirania do estado, igreja e outros justificadores do status quo. Eles rejeitavam os valores tradicionais da família, religião, e autoridades políticas; eles afirmavam que as condições da estrutura social era tão ruim que a destruição era algo bom, independente de qualquer resultado de suas ações. O termo “nihilism” – do Latim nihil: “nada” – foi popularizado por Ivan Turgenev em sua obra Pais e Filhos (1862). Estes niilistas perceberam as bases de um estabilishment opressor, e em seu desespero eles se deram com uma hipocrisia impregnada. Sergey Nechayev (1847-1881), que morreu pela fome, em uma das prisões do Czar, era um típico destes niilistas. Ele declarou: “Nossa tarefa é difícil, total, universal, e a mais impiedosa destruição”.

Mas as dimensões do niilismo são muito maiores do que a anarquia e a destruição dos tempos de Pisarev e Nechayev. A violência anárquica ainda faz parte do niilismo, este também se tornou a ser um temperamento de desespero, um senso de vazio, a falta de significados, a perda da transcendência, um sentimento que a vida termina no vazio da morte, que as normas morais não podem ser validadas, que relativismo e subjetivismo prestam a todos as afirmações da verdade suspeitas e insustentáveis. Neste sentido, o niilismo é uma atitude que sustenta a ideia que crenças tradicionais e valores não estão fundamentadas numa verdade absoluta ou uma verdade objetiva, sendo assim, não há uma base sólida para fazer distinções entre o bem e o mal.  Se este é o caso, Dostoiévski ponderou e Nietzsche afirmou, então tudo é permitido; poder se torna primário, nascendo assim uma violência de múltiplas formas (libertinagem, engrandecimento, o vandalismo, a tirania, a exploração, o hedonismo a todos os custos). Essa violência é geralmente acompanhada por uma sensação de que a vida está correndo para o nada da morte, e é preciso conseguir tudo que for possível, agora. No entanto, se a morte é o grande nada que no fim nega tudo e engole todos nós, e se não há nenhum centro final para a organização e a continuidade da existência humana, por que se preocupar com alguma coisa? A indiferença torna-se então uma importante expressão do niilismo em formas tais como o tédio, o vazio, falta de propósito, desespero, resignação, a futilidade e suicídio. No niilismo do século XX, a violência e a indiferença são curiosamente misturadas e relacionados. O aspecto violento é cada vez mais evidente no terrorismo, crimes graves contra as pessoas, contra os bens e a tirania. A indiferença é cada vez mais evidente no sentido de alargamento das lacunas da credibilidade sobre a política, a perda de valores morais e o suicídio.


Muitos componentes complexos convergiram para produzir o niilismo do nosso tempo. Um componente geral foi a mudança da ideia de um outro mundo para a preocupação mundana. O realismo e nominalismo medieval eram parte deste processo de mudança. Então ocorreram a ascensão da ciência e do desenvolvimento do nacionalismo. Nos últimos 500 anos a soberania do indivíduo surgiu para desafiar a soberania de ambos Igreja e Estado. Martin Luther favoreceu o processo por romper a autoridade do catolicismo romano e postular homem individual com a Bíblia na mão, como o símbolo do protestantismo. Em Worms, em 1521 a ousadia de Lutero estabeleceu a Bíblia e consciência como as autoridades para os protestantes. Isto introduziu na própria base do protestantismo e da cultura moderna, o elemento instável da autoridade individual e do subjetivismo. Embora Lutero mais tarde tenha recuado, sua postura fez com que a consciência subjetiva de cada pessoa, o guia fundamental para a interpretação da Bíblia e estabeleceu a autoridade individual, defronte a igreja e o estado. Os católicos romanos advertiram Lutero contra a anarquia implícita, mas o golpe já havia sido deferido. A multiplicidade de seitas e grupos que, desde então, surgiram, cada um inflexivelmente interpretando a Bíblia em sua própria maneira, foi um resultado que Lutero não previu.


Fundações foram rachadas, eventos relacionados seguiram. A ciência tornou-se tão envolvida  que se tornou as "leis" da natureza e veio à tona a possibilidade de que o homem poderia controlar tudo, a providência ativa de Deus tão proeminente nos séculos passados ​​foi deslocada por um deísmo que removeu Deus da máquina-mundana. Os filósofos franceses com a afirmação de que a opinião do "homem comum" tinha o mesmo direito de dizer o que é bom teria que ser reconhecido como o mesmo de uma aristocracia centrada na igreja e estado. E “A Crítica da Razão Pura” do Kant limitou o conhecimento para este mundo. Kant argumenta que o conhecimento é inferencial e que as impressões dos objetos são recebidos e organizados por doze categorias e formas de espaço e tempo, tal conhecimento é verificável e, portanto, credível na base das provas repetidas de ciência. Ao limitar o conhecimento do mundo aos cinco sentidos, Kant deu a ciência uma base filosófica necessária. Mas infelizmente o imperativo categórico de Kant e seus postulados não fizeram o mesmo para valores e religião,  pois não foram cientificamente verificáveis. A razão exige o imperativo categórico, disse Kant, e é necessário para que a vida faça algum sentido em tudo. Razão exige também os postulados da liberdade, imortalidade e Deus como essencial para a conclusão da ordem racional, caso contrário, o universo é totalmente caótico e não-racional. No entanto, as exigências da razão e da realidade não são necessariamente as mesmas, a própria razão é finita, relativista e subjetiva.

Dois dos seguidores mais eminentes de Kant usou a razão para tirar conclusões radicalmente diferentes sobre a natureza da realidade - o númeno. Arthur Schopenhauer, influenciado pelo pensamento oriental, concebeu a realidade última (“coisa-em-si” do Kant) como um abrangente não-racional, uma Vontade irracional. Todos os fenômenos são ilusões, disse ele, nada exceto a vontade realmente existe. Fenômenos são objetivações cegas da Vontade; os nossos seres são ilusões, e seriamos bem aconselhados a parar de lutar, deixar de ser, e tornar-se novamente um só com a  Vontade indiscriminada. Toda a bolha de existência e  todas as atividades humanas são miragens.


G. W. F. Hegel, por outro lado, influenciado pelo idealismo grego, concebeu a natureza da realidade - o númeno - como razão absoluta no um processo cósmico do vir-a-ser. Usando um esquema da tese, antítese e síntese, Hegel traçou este vir-a-ser através da história. Karl Marx rejeitou esta razão absoluta, em seu materialismo dialético e afirmou que a sociedade sem classes é o vir-a-ser, e poderá ser ajudada pela revolução. Schopenhauer, Hegel e Marx são exemplos do relativismo e subjetivismo possível graças a Kant.
Até a metade do século XIX, o relativismo e o subjetivismo tinha corroído valores tradicionais e ciência tinha feitos progressos explicando os mistérios e milagres deste mundo (especialmente com a Origem das Espécies de Darwin, 1859) que Friedrich Nietzsche corajosamente celebrou a morte de Deus e "expos" os valores antigos de amor, bondade e humildade como nada mais do que substitutos impostos pela evolução por pessoas fracas conduzidas em conjunto para ganhar força. Nietzsche clamou a entronização da poder nas relações humanas, para o abandono de todos os elementos sufocantes na sociedade e para que a vontade de poder pudesse ser realizada na busca impiedosa da disciplina do Super Homem. Nietzsche espalhou o envoltório de poder - sem apresentação de um padrão definitivo para o seu uso - sobre a vida moderna. Dostoiévski lutou contra a ideia da inexistência de Deus e declarou: "Se Deus não existe, então tudo é permitido". Isto implicava que todo mundo é permitido a realizar seus próprios desejos, por qualquer meio, desde que consiga se safar. Uma série de anarco-psicólogos contribuíram a este desenvolvimento no século XIX.


O século XX começou com esta pensamento, condição epistemológica roedora como um câncer dentro Cultura ocidental. Foi agravado por uma consciência esmagadora da morte e os efeitos desumanizadoras da mega-tecnocracia. Com a perda do sobrenatural, um sentimento avassalador do absurdo rendeu um vazio e por fim a morte veio à tona. Isso deu origem a um sentimento de falta de forma, um abismo do nada no coração da consciência humana. Para o “Grande Inquisidor” de Dostoiévski, esta é a "terrível verdade" que é escondida das pessoas que “além do túmulo encontrarão nada além da morte". Entre aqueles que se atreveram a contemplar sua própria morte aparentemente pouquíssimos escaparam sem uma sensação de vazio absoluto. "Angústia antes do Nada e da Morte parece ser um fenômeno especificamente moderno", escreve Mircea Eliade. Em outras culturas, "A morte é a Grande Iniciação. Mas no mundo moderno Morte é esvaziada de seu significado religioso; E por isso é assimilada ao Nada, e antes Nada homem moderno está paralisado." A bomba nuclear e duas guerras enormes nos fizeram consciente não só da morte, mas também sobre a possível extinção da humanidade. Ernest Becker, sociólogo, está entre aqueles que defendem que a negação da morte, ao invés da repressão do sexo, é o problema subjacente da nossa cultura. A desumanização da mega-tecnocracia tem agravado ainda mais o problema da morte, fazendo com que as pessoas se sintam insignificantes e impotentes. Em sua obra “O Castelo”,  Kafka, simboliza esta desumanização. Este é o tipo do ethos niilista que rapidamente tem se espalhado na Cultura Ocidental. É como se as palavras de Nietzsche tivessem encontrado preenchimento: 

"Será que, nós, que matamos Deus, não estamos mergulhando continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe cima, baixo ou esquerda? Será que estamos desviando de um nada infinito?"

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mário Ferreira dos Santos: Nietzsche e o Cristianismo


Na obra "Análise de Temas Sociais I", Mário Ferreira dos Santos escreve:



"Certa ocasião, num dos seus geniais momentos, Nietzsche advertia os homens de uma longa e profunda viagem que seu espírito fizera pelos arcanos do cosmos. E dizia êle que se fosse relatar quais leis regiam todas as coisas, talvez estremecêssemos de terror ao saber que subjuga todas as coisas uma lei férrea, tão férrea, que todas as nossas mais férreas leis empalideceriam ante ela. Atrás de todas as coisas, rege uma lei absoluta, a lei do ser, ante a qual a mais rígida das nossas tiranias é ainda suave."




"Quando Nietzsche combatia com tanta virilidade o Cristianismo, o que êle combatia era a caricatura que muitos fizeram da mais alta realização humana. Nietzsche via em Cristo apenas o sofredor, o fraco compadecido do sofrimento, o propugnador da compaixão para os que sofrem. Nietzsche não o havia entendido, nem a palavra de Cristo soara ante a sua consciência com o verdadeiro sentido que ela trazia. No entanto, em Nietzsche, Cristo velava em seu subconsciente, e a tal ponto que em sua loucura pôs-se a adorar o crucifixo, o crucifixo que êle partira, que êle destruíra, que êle ofendera e maculara. Hoje, a revisão que se faz da obra daquele que a muitos e até a si mesmo em sua loucura, que antecedera à loucura posterior, permite que se compreenda que era êle mais cristão do que julgava, e que suas doutrinas eram mais positivas em favor do bom sentido cristão que à primeira vista parecia. Não é de admirar hoje que conspícuos homens da Igreja peçam a revisão da obra de Nietzsche, pois nela se encontram lampejos geniais de um verdadeiro Cristianismo, que êle infelizmente não compreendera. [...] Nietzsche não era um nihilista em relação ao homem, não queria aniquilar o que somos hoje para sermos o que devêramos ser amanhã. Apenas afirmava que em nós estava o germe do super-homem, o germe de nossa superação, mas sem trairmos a nós mesmos, sem de-mitirmo-nos do que somos. Queria-nos mais fortes, mais poderosos no saber e na virtude. Toda a sua obra é uma promessa de alcançar um nível de plenitude do acto humano, equilibrado, eficiente e liberto das paixões que o viciam. Também êle jamais pactuou com o poder político. Denunciou-o sem dó. Dizia no "Crepúsculo dos Deuses":

"Ninguém pode dar mais do que tem: isto se aplica ao indivíduo como se aplica aos povos. Se se entrega alguém ao poder, à grande política, à economia, ao tráfico mundial, ao parlamentarismo, aos interesses militares: se se entrega tanto de razão, de seriedade, de vontade, de auto-superação, o que há deste lado, falta, então, do outro. A cultura e o Estado — não cabe enganar-se neste ponto — são antagónicos: "Estado cultural" é só uma ideia moderna. Um vive do outro, um prospera à custa do outro. Todas as grandes épocas da cultura são tempos de decadência política; o que é grande no sentido da cultura, é apolítico, melhor ainda, antipolítico."

Dizia êle no "Assim Falava Zaratustra" que "ali onde termina o Estado, começa o super-homem.".
Mas era preciso lançar a calúnia sobre a doutrina de Nietzsche. E ninguém mais favoreceu a calúnia que os próprios nazistas e fascistas que transformaram-no em seu precursor. Deste modo, era fácil despertar a desconfiança sobre as suas ideias, e acomodar esquematismos intencionais que favoreceriam as assimilações desejadas. No entanto, sua obra era realmente positiva e nobre, e genuinamente cristã em muitos aspectos."