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sábado, 5 de dezembro de 2015

Apontamentos sobre o Existencialismo (Por Paul Evdokimov)

A filosofia existencialista se mostra mais nostálgica que agressiva. Seu pessimismo parece ser deliberado. Um aforismo de Heidegger exprime uma certa virilidade em desespero: "O homem é um deus impotente."

Indiscutivelmente tudo volta para Kierkegaard e sua violenta reação contra o racionalismo hegeliano. A especulação pan-lógica de Hegel não introduz nenhuma harmonia no real e não oferece salvação alguma. Kierkegaard centra sua reflexão pessoal e bastante concreta sobre a questão religiosa: O que devo fazer de mim mesmo; em outras palavras, o que devo fazer para ser salvo?

Ele construiu uma visão mais penetrante do auto-conhecimento e antecipou a psicologia profunda. Nas profundezas da alma ele descobriu a angústia e um sentimento de uma culpa a priori que divide o ser humano e instila um elemento infernal nele. É neste nível que a sede de salvação brota. A última alternativa apresenta a escolha entre o nada e o absoluto. Oferece a grandeza da fé em contemplar Cristo, que se faz contemporâneo de cada alma. Por outro lado, fugir para uma metafísica idealista é fugir do julgamento de Deus.

A razão pode funcionar apenas entre o início e o fim, por conseguinte, é colocada entre os dois. É por isso que a esfera intermediária do imanente não tem fundamento ontológico. Somente a angústia diante do nada pode destruir o imanente e conduzir ao "totalmente outro" religioso. É por ser "outro" que ele exige a crucificação de razão e apela para o "julgamento crucificado". O caso de Abraão ilustra como a moralidade é transcendida pela loucura da cruz. Desde então, o único verdadeiro testemunho da verdade é o mártir. Homem em si é apenas uma páscoa. A ressurreição da passagem pascal nos traz a transcendência em que a morte se faz Cristã; já não é algo intruso, mas o grande iniciador em direção ao grande mistério da eternidade.
                                             
No entanto, a teologia dialética, a teologia da cruz, ainda não é uma teologia da Parusia. O Deus de Kierkegaard, como o Deus de Jaspers, continua a ser um Deus absolutamente transcendente. O homem não está em Deus e Deus não está no homem; o homem está diante de Deus. Sua trágica sede não é apaziguada; ele ainda não conhece todo o mistério do Deus imanente e o casamento místico de cada alma com Deus. Kierkegaard não sabia que ao se casar com Regina Olsen sua alma poderia ter abraçado Cristo.

Heidegger tomou a fórmula: o homem é o ego existente. A existência precede a essência, o que significa que o homem cria ele mesmo, que sua essência determina seu destino; consequentemente, ele não tem nenhuma natureza, mas ele tem uma história.

Arremessado no co-estar com os outros, encontrando-se sempre "em situação", o homem médio não se opõe ao mundo. Suas preocupações, um elemento imediato da vida, dispersa sua atenção, direciona para o "não-ser", e esconde o real. Alienado de si mesmo, ele perde seu verdadeiro ego e se volta para o impessoal e o anonimo - expressado pelo "um", das Man. Construído pelas preocupações, o homem é ilusório, enganador, como um fantasma, pois faz com que nos esqueçamos do real, ou seja, do ego e sua liberdade. É por isso que o ego não emerge, exceto em contraste com o nada, naquela tela bruta onde a experiência inevitável da morte é projetada. Essa é a tragédia do homem. 

É assim porque o nada e a liberdade por si só não possuem razão e fundamento; eles são ilimitados e, portanto, correlativos e relacionados. De fato, a liberdade é limitada apenas pelo nada; ela experimenta seus limites apenas na sensação da morte que é essencialmente concreta, pessoal e inevitável. Somente transcendendo suas preocupações em relação à morte é que o homem experimenta a liberdade absoluta. Ainda mais, e isso é essencial, a consciência da morte desperta e impõe a decisão de realizar todas as possibilidades da liberdade e assim assumir a total responsabilidade que o ego enfrenta com seu próprio destino.

O homem, na emoção metafísica causada pela angústia diante da morte, experimenta a finitude de seu ser temporal, mas ele capta acima de tudo seu "não-ser" evidente pois foi fundamentado em seus cuidados e preocupações. Entendemos então a tese fundamental de Heidegger, que pode ser reduzido à formula célebre, Freheit zum Tode, a liberdade-para-a-morte; a grandeza trágica do homem revela seu Sein zum Tode, seu ser-para-morte.

A tarefa ética do homem consiste em transcender o mundo de suas preocupações em direção ao heroísmo da liberdade que é responsável pelo seu destino. Este ensinamento moral está estreitamente associado a ética dos estoicos. O homem mortal e impotente é declarado ser um deus. Não responsabilizado pelo ser que foi imposto a ele, ele assume a liberdade de avaliação e, assim, assume seu destino, seja qual for o resultado final. Ele impõe a si mesmo o dever de julgar. Sua liberdade, então, não é puramente arbitrária, mas ele continua a ser um juiz impotente por falta de um critério objetivo de julgamento, isto é, uma axiologia de valores em função do Absoluto. Não é esse o juiz penitente na obra A Queda de Camus?

Apenas um subjetivismo extremo e profundo, que é sério e verdadeiramente trágico, pode condicionar tal visão. A filosofia do nada é uma teologia sem Deus, e o lugar de Deus é concedido ao nada, e a característica do nada é aniquilar ou anular. Tal impasse, porém, poderia tornar-se salutar. Heidegger nunca escreveu o segundo volume de Sein und Zeit (Ser e Tempo), pois ele observou que sua filosofia não é uma explicação, mas uma descrição, e que não é uma negação de Deus, mas uma certa expectativa.

Sartre continua as teses de Heidegger. Sua psicanálise constrói uma mitologia do en-soi e o pour-soi, do ser e do nada. A visão é complexa porque o ser é dividido e o nada é múltiplo. No plano do ser, o en-soi é inconciliável com a pour-soi; se estabelecem e se destroem reciprocamente. A união dessas duas realidades, ou a convergência de essência e existência, é declarada impossível; esta é uma negação radical da ideia de Deus, que é essa mesma união.

O pour-soi (consciência, idealismo), dinâmico e mudando por meio de suas escolhas, aparece como uma fissura no estático en-soi (ser, realismo). Se estabelecer significa negar a ordem estática, negar acima de tudo, a própria imutabilidade. Ao afirmar a sua liberdade independente do mundo e do en-soi, o pour-soi resulta em negação, aniquila incessantemente e, assim, aumenta a diferença do não-ser no ser estático do en-soi e coloca-o no limite do nada.

A negação de um início e de um fim, ambos transcendentes, torna a liberdade trágica, coloca-a do lado de fora do perdão, que é possível no início, e fora da justificação, que é possível no fim. Entre a existência maciça de um mundo destituído de sentido, onde todos valores são artificiais e irremediáveis, e a mente humana habitada pela exigência de sua razão, há um abismo inevitável. Ao homem resta somente a liberdade de negar o mundo que lhe nega.

O homem está terrivelmente sozinho em sua liberdade assustadora e absoluta pela qual, como na filosofia de Heidegger, ele experimenta a total responsabilidade. Dessa maneira, fazendo da liberdade o elemento formal da verdade (quando aquela é uma condição dessa) ele logicamente chega à afirmação: "O homem está condenado a liberdade." Condenado porque ele não é o criador do seu ser, e livre, porque ele é totalmente responsável. Sartre claramente pertence à grande escola francesa de moralistas. 

A análise de má-fé mostra a falha de comunicação. Isso ocorre porque cada pour-soi tende a transformar outro pour-soi em um en-soi, para fazer de um sujeito um objeto. No final, ele corre o risco de transformar-se em en-soi, de petrificar-se em um estado estático por suas memórias e projetos. Nós ou tomamos posse do outro ou somos possuído pelo outro. Nosso relacionamento com o outro é sempre enganoso, e é por isso que as outras pessoas são um inferno para nós.

Se o marxismo é uma filosofia da totalidade, o existencialismo sartriano é justamente o oposto; é a filosofia daquilo que não pode ser total. De acordo com ele, a totalidade expressa a última abstração; pelo contrário, o concreto é o indivíduo. Sua realidade está em função da diferença, do descontínuo, entre o absurdo e o livre arbítrio. Nós podemos entender como a ideia de Deus, que preenche as lacunas, que faz a unidade a partir da pluralidade, e que dá sentido as coisas, diminuiria a tragédia da existência, suprimiria a solidão, limitaria e diminuiria o senso arbitrário de uma responsabilidade autonoma. 

Temos de dar ouvidos a essa especulação existencial que, de um ponto de vista filosófico, é muito poderosa. Ele derruba o otimismo presunçoso de filosofias religiosas de acordo com as quais o mal serve o bem e fazendo isso se torna não-existente como o mal; isso tornaria a morte de Deus na cruz incompreensível. Para Sartre, Deus diminuiria o radicalismo do mal, do infortúnio, da culpa. Podemos reconhecer aqui o kantianismo se tornar uma religião, mas sem o postulado da razão prática; é um kantianismo sem Deus. O rigorismo kantiano atingiria então seu apogeu. A ideia de Deus estaria em contradição com o absoluto da exigência moral, e é esse caráter absoluto que requer uma moralidade sem Absoluto. O maior paradoxo é que o desespero em seu apogeu refere-se necessariamente ao Absoluto que antes foi declarado como impossível. Tacitamente, a fim de manter a sua grandeza, a existência é um cooperador de valor e, portanto, o argumento ontológico é negado e descrito simultaneamente. Em última análise, é a ausência de Deus que faz o mundo absurdo e sem esperança. Portanto, essa ausência por si só justifica as posições extremas do existencialismo. Certamente não há uma resposta à questão colocada por essa relação; não há nem mesmo uma pergunta, pois não há "juiz" neste mundo sem finalidade. No entanto, Deus serve aqui como um ponto de referência, embora de forma negativa; tudo é pensado em relação à ausência do significado divino. Dostoievski mostrou que o sofrimento em seus extremos pode levar a uma complacência no sofrimento, e que a partir deste estado nenhum retorno é possível; o prazer do sofrimento suprime cada solução capaz de transcendê-lo.

Quanto mais livre é o homem mais só e mais estranho ele é para o mundo. No ar rarefeito das alturas, o ato permanente de estabelecer a si mesmo, de inventar a si mesmo, domina o medo e o desespero do homem. Isso lhe dá o direito de ser o árbitro supremo? Se Deus não existe, tudo é permitido? Para Sartre, que entende esta questão formidável de Dostoiéviski, a razão suficiente para a exclusão do crime reside na absoluta liberdade, que está relacionada com valores, mesmo se estes são contingentes e artificiais. Porque ser é ser-com, tem um lado que toca à existência de outros. Quando um homem se postula, ele ao mesmo tempo postula os outros. Ser livre e permanecer na posição vertical e sincera, é postular-se moralmente; é ter boa fé. Um criminoso, ao contrário, destrói a integridade de seu ser e de sua escolha; ele está de má-fé.

O ser em situação está inserido na história, e uma vez que o Marxismo oferece um sentido para história em sua teoria da evolução social, Sartre procura ali uma possível comunicação humana. O abismo da liberdade, muito estranhamente, desperta tonturas, nojo, náusea. Alguém poderia dizer que o engano compensa. Isto é o que Dostoiéviski previu, dizendo que o homem nunca será capaz de suportar o jugo da liberdade e que o Marxismo oferece uma possibilidade máxima de se livrar deste dom real. Sartre confessa: "Eu levo ao nada, meu pensamento não me permite construir qualquer coisa; não há outra solução que não seja o Marxismo" (La critique de la raison dialectique). A dificuldade, no entanto, permanece sem solução. O Marxismo exagera a importância da matéria a fim de torná-la criativa. Existencialismo, por outro lado, torna-a invisível para melhor lutar contra ela e manter o homem no comando.

Nietzsche, e Sartre em seu rastro, proclamaram a morte de um adversário sem nunca ter sucesso na eliminação definitiva dele. Sua sombra persegue; o contrário de Deus está, de fato, presente em cada pensamento do homem. A movimentação do homem em direção ao super-homem é frustrada por sua impotência e é derrotado. Freud descobriu a falha original misteriosa, a "morte do Pai". O homem que  fez isso nunca conseguiu superar seu remorso, e essa é a origem da neurose coletiva. O profundo pessimismo dos últimos trabalhos de Freud vem dessa clarividência tardia. Sua utopia da felicidade humana desmoronou, e sua renuncia foi amarga. Além disso, o super-homem não deu em nada, e o humanismo fechado dos ateus está fadado ao fracasso. 

Malraux no seu Mitamorphose des Dieux declara que, a fim de inventar e começar a sua própria divinização, o homem tem que conquistar seu complexo obsessivo do Absoluto. Ele pode fazer isso? Freud como psicoterapeuta responde negativamente. De acordo com Sartre, homem mata a Deus, a fim de dizer: "Eu sou, portanto, Deus não existe". Mas, mesmo para Sartre, este poder da liberdade manifesta sua vacuidade e a vaidade do nada. Gide quis seu ensinamento moral fosse mais consistente. Seu único princípio era de que um homem deve ir ao limite de si mesmo, para estar em conformidade com as normas sinceramente que cada um daria a si mesmo de acordo com sua livre escolha.

No entanto, a impunidade que goza cada ateu durante sua existência terrena não é a última palavra; a morte com ciúmes esconde seu mistério. O diabo contou a Ivan Karamazov a história de um ateu que após a morte percebeu que a realidade era diferente de suas idéias avançadas. "Eu não aceito-a, ela contradiz as minhas convicções", ele gritou, e deitou-se do outro lado da estrada. Ele foi condenado a caminhar até que seu cronômetro decompusesse em seus elementos.

Ao responder Sartre, Merleau-Ponty disse que o homem não está condenado à liberdade; ele está condenado ao significado, em outras palavras, ele é chamado a decifrar o sentido da existência e, acima de tudo, o significado da própria liberdade.

Devemos reconhecer a grandeza do existencialismo que centrou toda a sua reflexão sobre a liberdade. A liberdade, evidência fundamental da mente humana, liberdade constitui a atividade criativa do homem. Nesta função, a menos que ela se contradiga, ela não pode vir do mundo com o seu sistema de dependências e restrições. É evidente que a liberdade é transcendente ao mundo, tem sua origem de outro lugar, e é oferecida como um presente real. É por isso que na sua profunda filosofia Jaspers designa claramente o Doador e carrega o poderoso testemunho da existência de Deus. O grande mérito de Jaspers é a descoberta de uma prova de existência divina na liberdade. Encontramos lá, a pátria da liberdade, onde se encontra suas raízes, e desta forma há uma abertura em direção a Deus. Deus inspira para ser verdadeiramente livre; isto torna-o diferente em todos aspectos da dependência encontrada na teonomia kantiana. Deus criou uma "segunda liberdade". Para este dom de Deus o homem responde pelo dom de si mesmo; ele morre e nasce na convergência destas duas liberdades, e por esta experiência ele tem acesso ao sentido de sua existência. Sua liberdade nunca é um objeto para o homem. Não é nem mesmo uma ação, mas sim uma reação criativa ao Doador, ao seu convite para tornar-se livre para servir e testemunhar suas origens celestiais. 

Ainda resta uma forma bastante difundida de ateísmo: o psicologismo. Esta atitude mental tende a ver em cada sentimento religioso uma função da alma, um dado psicológico subjetivo. Ele reduz, assim, a religião a uma causalidade produtiva das metas ou a sublimação de um instinto. Toda expressão do homem nos traz de volta à nossa realidade presente, mas também a expande e leva aquela que nos fará mais plenamente nós mesmos. Ele quebra o círculo vicioso da imanência e refere-se ao transcendente. Aqui, o papel da psicologia profunda e a genialidade de Jung é decisivo. Jung demonstrou que o símbolo religioso atesta uma realidade que é ao mesmo tempo intra-humano e trans-humano.

Mesmo em casos clínicos, o símbolo sempre contém vestígios de arquétipos trans-subjetivos. O juízo da verdade não se refere apenas à ordem causal, mas a ordem de significado. Distúrbios provém dos significados que foram impostos a um homem, mas que ele não assumiu para si mesmo. Normalmente, um homem deve descobrir livremente o que ele é e dar a si mesmo a sua própria significação. É por isso que, de acordo com Jung, o problema fundamental para todos os doentes é a atitude religiosa. "Todos tornaram-se doentes pelo fato de que eles perderam o que as religiões sempre deram aos seus fiéis." Jung declara como certeza que cada vida tem um significado, e a tarefa do médico é levar o paciente a esta descoberta . Isto implica uma consciência religiosa clara. "Quem já passou por isso pode calmamente dizer: 'Foi uma graça de Deus'". "O homem que tem experimentou isso possui um tesouro inestimável e uma fonte que fornece um sentido para a vida."

Pode ser que o ateísmo moderno seja providencial para nos mostrar a necessidade urgente de purificar a nossa ideia de Deus, e elevar o diálogo a um plano bíblico e patrístico, acima de todos os sistemas de teologia ensinada nas escolas. Aqui, a mensagem de Jung assume amplitude e importância. O futuro depende do conteúdo espiritual trans-subjetivo da psique humana: Com o que e por que o homem viverá o seu destino? A quaternidade de que Jung fala é uma aplicação do dogma Calcedônio ("sem confusão e sem separação"), o mistério do oitavo dia, à apocatastasis ou a restauração final de todos os seres em Deus. A consubstancialidade de todas as criaturas é oposta à fragmentação. Os santos e mártires diante do trono do Cordeiro aguardam a mudança final da dissimilaridade à semelhança. Orígenes insiste nisso, dizendo que Cristo está à espera para a Sua glória brilhar na totalidade de seu corpo. Isso ainda permanece um mistério, é claro, porém, só o amor pode quebrar o coração da matéria desde dentro; mas para fazer isso, ele deve, seguindo o exemplo de Cristo, descer até lá. Jung nos diz isso como um psicologista. Foi sua última palavra, seu testamento final. Aqui ele vai além da ciência, suprime o psicologismo, e alcança a grandeza de um profeta dos últimos dias.


Retirado da obra Les Ages de La Vie Spirituelle por Paul Evdokimov

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mortificação, Depressão e Noite Escura da Alma (Por Charles Upton)

A ciência e a arte da alquimia ensinam que a alma propriamente humana não pode ser forjada sem o colapso da alma subumana do "homem natural" - em termos Sufis a nafs al-ammara - sem o afrouxamento de sua aderência sobre as faculdades humanas para que elas possam ser conformadas, não às paixões subconscientes, mas ao Espírito consciente; isto é equivalente, embora num nível mais circunscrito e essencialmente psicofísico, a doutrina Sufi de fan (aniquilação do ego) e baqa (subsistência em Deus). Se colheita da humanidade integral deve ser semeada, cultivada e colhida, o solo da alma deve ser primeiramente limpo, lavrado e arado; sua resistência à fertilidade espiritual deve ser quebrada.

As três fases fundamentais da Grande Obra alquímica são a melanose ("enegrecimento", mortificação espiritual, simbolizada pelo metal chumbo), a leucose ("branqueamento", receptividade espiritual, simbolizada pela preta) e a iosis ("avermelhamento", realização espiritual, simbolizada pelo ouro); em termos clássicos do caminho místico, estes correspondem a Purgação, a Iluminação e a União. Nada pode ser realizado no Caminho Espiritual sem a mortificação do ego; aquelas "espiritualidades" que dão acesso a estados psíquicos aparentemente exaltados sem requerer, ou mesmo pedir, pela morte do velho eu são enganadoras, possivelmente até mesmo Satânicas: o duas vezes nascido precisa antes morrer.

Às vezes, essa mortificação, essa melanose, pode ser deliberadamente produzida através de um asceticismo e auto mortificação (embora, na ausência da Graça, tal asceticismo geralmente não é nada mais que um egoísmo espiritual, um exercício da própria vontade); em outros momentos ele está diretamente infundido pela Providência. As dificuldades e as tragédias da vida - em presença de uma verdadeira doutrina espiritual, com a Graça de Deus, e com as habilidades necessárias - podem ser transformadas para fins de uma purificação espiritual; este é o método mais profundo e mais radical de transmutar tragédia pessoal em uma grande felicidade. Mas, em outros momentos, as travas virão sobre a alma, sem motivo aparente. Deus simplesmente decide retirar Seu apoio, para que a alma afunde no mundo de natureza material, governado pelas paixões, para assim chamá-la para algo mais elevado. O Profeta Elias foge para o deserto para escapar o tirânico e idólatra Rei Ahab (o ego), onde ele é alimentado pelos corvos (a sabedoria escura de Deus); Jó, devido a aposta de Satã com Yavé, perde tudo que ele tinha - riqueza, saúde e a família - e sofre uma verdadeira metanóia, encontra Deus face-a-face, e é finalmente presenteado com uma nova vida muito maior que sua antiga, pois agora está enriquecido pela Sabedoria. E também há alguma verdade na noção de que a vulgaridade, o caos e o terror da vida moderna podem, por si só, agir como uma espécie de mortificação - se, claro, nós evitarmos a tentação de fugir dela adotando paixões muito tóxicas e distrações que nos oferecem, e assim poderemos enxergá-los como realmente são.

A pisque humana não foi projetada para ser autossuficiente; ela foi projetada para refletir, e conformar-se, à luz do Espírito. Se ela não conscientemente conformar-se ao chamado do Espírito, ela será tomada pela matéria, por um materialismo frio e por um peso de chumbo que destrói todas as esperanças. E nós geralmente não estamos dispostos a sacrificar nosso apego ao nível psíquico até que tal peso de chumbo ameace transformar nossa alma em um sepulcro preenchido por morte e corrupção.

A psique não "quer" que sejamos conscientes desse peso e paralisia, mesmo se já estivermos imersos nele; é por isso que a psique segrega vários glamoures ilusórios, de modo a esconder de nós a nossa condição real, e é por isso a psique coletiva (com ajuda dos engenheiros sociais) cria sua fantástica "cultura de entretenimento" preenchido com "armas de distração em massa". O glamour psíquico nem sempre é totalmente ilusório, no entanto; às vezes participa de vidya-maya ("sabedoria-aparência"), bem como avidya-maya ("ignorância-aparência") -  quero dizer que as realidades físicas e sociais, bem como as espirituais, às vezes, inicialmente, aparecem para nós em uma forma simbólica dramatizada no palco da psique; se não fosse assim, não poderíamos obter qualquer insight psicológico ou metafísico de sonhos. Mas, assim como o alcoólatra só aumenta sua secura por beber, da mesma maneira aquele que sobre o glamour da psique permanece por mais tempo que o designado encontrará só chumbo e cinzas de chumbo.

De acordo com um provérbio dos alquimistas, citado aqui na versão de William Blake, "tudo o que pode ser destruído deve ser destruído!". O glamour psíquico é um tipo de hemorragia, como aquela produzida por álcool ou cocaína ou drogas psicodélicas. Achamos que estamos no meio de toda a riqueza da vida, então despertamos e encontrar-nos deitado em uma poça de nosso próprio sangue. Este tipo de hemorragia, se sobrevivermos, pode (se Deus quiser) agir para queimar e esgotar nosso apego ao glamour psíquico. Se assim for, será sucedido por uma verdadeira mortificação, uma verdadeira melanose, em que, sem dúvida, perdemos nossa vida, mas perdemos por amor a Ele. (A representação estritamente precisa e cinematográfica do estágio da melanose - bem como a leucose e talvez o início de iosis - pode ser encontrada no filme de Robert Duvall, Tender Mercies.)

Uma das primeiras etapas do processo alquímico, então, é queimar tudo que é combustível, reduzir tudo que pudermos - tudo aquilo que não está ligado aos Princípios eternos, aquilo que está envolvido com o ego, e, portanto, intrinsecamente mortal - a cinzas, nas famosas palavras do poeta e padre John Donne: "Morte, morrerás!". O fogo é o fogo do Espírito, e as cinzas - a substancia que foi despojada de tudo que é limitada no tempo, contingente e perecível - são a matéria prima, que em um nível não é nada menos do que o polo passivo da Natureza Divina, a Substancia imperecível de Deus que está eternamente formada e impressa pelo eterno Ato de Deus. (A descoberta da substancia divina é a leucose; a formação e a imprimação dessa Substancia pelo Ato Divino, iosis). Nascemos com milhões de tendências psíquicas herdadas, apenas algumas podem ser trazidas para o campo magnético do Espírito por um esforço consciente. O resto, aquelas que são centrífugas em vez de centrípetas, aquelas que querem se dissipar em fuga de Deus em vez de retornar a sua Origem, deve ser queimado no fogo de suas próprias paixões (que é a face escura e secreta do Espírito) até que tudo seja reduzido a cinzas.

O tempo de cinzas é o tempo de mortificação da própria vontade, o estágio que São João da Cruz chamou de "a noite escura da alma". Pode parecer, de certa forma, como uma depressão clínica, ou até mesmo acompanhado por uma depressão, mas os dois não são a mesma coisa. Em uma depressão nos odiamos nós mesmos, lutamos contra nós mesmos; não podemos evitar que nossos conflitos psíquicos não resolvidos sobrecarreguem e nos deixe amargurado. A noite escura da alma, por outro lado, acontece somente com aqueles que estão em um Caminho espiritual sério. O consolo espiritual, a doçura e a luz dos estágios anteriores do Caminho simplesmente desaparecem. Nenhuma de nossas orações ou práticas meditativas "funcionam" mais, e nós ficamos cara-a-cara com um grande vazio. De forma secundária, nós podemos ficar deprimidos após encontrar este vazio, mas isso não é bem a mesma coisa. A depressão clínica ocorre inteiramente dentro do corpo e da psique. De certa forma, pode ser ainda mais física que psíquica, já que a depressão vegetativa (quando não surge principalmente de alguma doença orgânica), embora possa ser acompanhada por sentimento de tristeza (ou raiva ou medo) não é em si mesmo uma emoção, mas sim - como pânico - uma estratégia psicofísica para evitar a emoção. (A medicina tradicional chinesa vê tanto a depressão como a raiva como relacionadas com o fígado, o que parece confirmar a intuição de Freud de que a depressão é raiva introvertida, uma raiva que voltou-se contra si, isso também explica por que ervas como a de São João, e possivelmente o cardo de leite, são eficazes contra a depressão, uma vez que eles desintoxicam o fígado. E um particular exercício ikons, onde a mão direita "varre" sobre o coração e o fígado, prescrito para depressão). A noite escura da alma, por outro lado, é o momento em que a luz do Espírito é retirada da psique, a fim de que nos leve da psique ao Espírito.

E, no entanto, os dois estão relacionados. Na noite escura da alma nós perdemos completamente o poder de dirigir nossa vida espiritual. Em uma depressão somos ameaçados com a perda da capacidade de liderar nossas próprias vidas na direção que queremos, mas ainda se luta (muitas vezes em um nível profundamente inconsciente) para obter essa capacidade de volta, caso contrário, não estaríamos deprimidos; a raiva que geralmente subjacente a depressão é uma expressão desse esforço frustrado, que é baseado na falta de uma verdadeira submissão a Deus. Se nós estivermos sinceramente tentando levar nossas vidas diárias como um caminho espiritual, uma depressão pode apresentar-nos como uma oportunidade de entrar naquela noite escura: se Deus toma nosso casaco, podemos decidir deixar de lutar para obtê-lo de volta, e dar-Lhe nossa camisa também.

De acordo com a antropologia pneumática tradicional, a alma é composta principalmente de intelecto e vontade ("intelecto" aqui se referindo a razão ou dianoia, a faculdade racional, e não para o Nous ou Intelectus - a capacidade de perceber a Verdade diretamente assim como os olhos percebem a luz - uma faculdade do Espírito), e a raiz da vida espiritual é a mortificação da vontade. (De acordo com essa perspectiva particular, os afetos são considerados um aspecto ou uma "disposição" da vontade). Antes que o processo de mortificação ocorra, antes de aprendermos a dizer "não a minha vontade, mas a Tua seja feita", nosso intelecto será natural, puramente psíquico, baseado somente nas habilidades que nasceram conosco e aquelas adquiridas, impressões e conhecimentos. Entregar-se ao glamour psíquico é meramente uma manifestação desse intelecto natural. Mas quando submetemos nossa vontade à Vontade de Deus, nosso intelecto muda. Nosso brilho superficial pode ser mortificado; podemos sentir como se tivéssemos nos tornando velhos, aborrecidos e estúpidos. O pensamento, o sentimento, a intuição, a sensibilidade, a imaginação, a memória - todas essas faculdades da alma são escurecidas. E o que emerge dessa escuridão não é mais o que se costumava chamar-se de "meu". Se houver luz, já não é nossa luz. Se houver amor e conhecimento, não é mais nosso amor e nosso conhecimento; mas (como os Sufis dizem), Deus ama Deus, e Deus conhece Deus, em nós; nossa única responsabilidade é sair do Caminho. A razão/dianoia deu lugar ao Nous/Intelectus.


Nem o mercúrio, nem cobre, nem ferro, nem estanho, nem mesmo prata - metais que representam vários poderes e disposições psíquicas - podem funcionar como a raiz da metanóia alquímica. Somente se primeiramente formos reduzidos ao chumbo, através da melanose, através de uma mortificação radical, nossa alma poderá ser transmutada (via a prata receptiva da leucose) para o ouro alquímico.


Trecho do livro The Science of the Greater Jihad: Essays in Principial Psychology por Charles Upton

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A Doutrina Svadharma e o Existencialismo (por Julius Evola)

Em um ensaio anterior, destaquei a importância de esclarecer alguns pontos em relação as doutrinas tradicionais do leste e certas tendências intelectuais bastante avançadas que emergem no Ocidente. Então disse que, em muitos casos, um conhecimento sério - e não um conhecimento amador das doutrinas - pode muito bem servir para complementar as tendências, libertando-as de seu aspecto de opiniões de natureza puramente individual e especulativa, e também de tudo que está afetado por uma atmosfera de crise, tal como se encontra, de fato, a nossa civilização ocidental moderna. Dessa forma, seria possível elevar a partir dessas intuições ocasionais, atingidas pelos europeus que estão lutando em um estado de profundo trabalho crítico, em um plano de um conhecimento objetivo e supra-pessoal, que deveria ser definido como "sabedoria", em vez de "filosofia".


Eu desejo tratar aqui, neste sentido, com certos aspectos de uma tendência de pensamento, muito na moda hoje em dia, conhecido como "existencialismo", selecionando como contrapartida a ele a doutrina hindu de "svadharma". [seu próprio dharma ou dever em relação a uma maior ordem cósmica]

Em relação ao existencialismo, naturalmente, não considerarei sua forma excêntrica e boêmia, de caráter predominantemente literário, que infelizmente, são os responsáveis pela nova popularização desta tendência. Ao contrário, farei referência ao existencialismo sério, filosófico, que tomou forma mesmo antes da Segunda Guerra Mundial e que, depois de Søren Kierkegaard (e em certos aspectos Nietzsche), teve como seus principais intérpretes Jaspers, Heidegger e Barth. Tentarei, primeiramente, expor algumas ideias básicas do existencialismo de maneira mais acessível. Esta não é uma tarefa fácil em um ensaio curto, tendo em conta a natureza peculiar e sua terminologia quase esotérica dos existencialistas, em quem muitas palavras frequentemente são usadas com significados totalmente diferentes de sua forma usual.

A base do existencialismo reside na concepção de "existência". Essa expressão não deve ser tomada no sentido mais comum e simples. Existência, de acordo com Kierkegaard, significa o ponto paradoxal e contraditório, em que o finito e o infinito, o temporal e o eterno estão implícitos e se encontram. A existência aqui, naturalmente é aquela do Ego, do ser individual, que é, portanto, considerada uma síntese de elementos contraditórios. Sua situação espiritual é tal que ele não pode se afirmar (o ser finito que existe no tempo), sem também afirmar o "outro" além dele próprio (o incondicionado, o temporário e o ser absoluto); mas, por outro lado, ele não pode afirmar o transcendente sem também afirmar ele mesmo, o ser existente no tempo. Duvidar de um desses lados significa também duvidar do outro. Essa é a premissa geral do existencialismo, assim afirmado pelos seus principais intérpretes, de Kierkegaard até Lavelle, de Barth até Jaspers. Aqui é adequado apontar a harmonia dessa linha de pensamento com os pontos de vista do hinduísmo tradicional. Em primeiro lugar, existe uma questão de método: o existencialismo procura alcançar uma intimidade no centro do indivíduo, que deve ao mesmo tempo ter um valor de uma experiência metafísica. Tal método pode ser considerado aquele do conjunto do ioga upanixádico e também da filosofia budista, a qual podemos aplicar a formula de um "experimentalismo transcendental". Em segundo lugar, é óbvio que que este ponto de encontro ambíguo entre o centro do ser finito e o incondicionado de certa forma nos lembra de atma, que apresenta características reais, por assim dizer, de uma "transcendência imanente", de algo que é o Ego, e ao mesmo tempo o Super-Ego, o Brahman eterno.

No entanto, o paradoxo da "existência", entendido no sentido mencionado acima, toma forma de um problema. Encontramo-nos, por assim dizer, diante de uma posição insustentável de equilíbrio instável, que deve ser resolvido em função de um ou de outro dos termos, que se encontram no indivíduo, mas que parecem excluir, bem como a contradizerem entre si: o condicionado e o incondicionado, o temporal e o não-temporal.

As duas soluções possíveis correspondem as duas direções seguidas pelo existencialismo, em relação das quais posso mencionar os nomes de Heidegger e Sartre por um lado, e Jaspers e acima de tudo Barth, de outro.

A solução adequada à filosofia de Heidegger é aquela do homem que tenta encontrar o incondicionado no transitório. O ponto, de acordo com esse pensador, apresenta-se da seguinte forma: a existência no tempo significa existir como um indivíduo e como um ser individualizado. Mas, a individualidade significa particularidade, significa a afirmação e a assunção de um determinado grupo de possibilidades, com a exclusão de outras, e o conjunto de todas outras; mas essas subsistem, elas vivem dentro do indivíduo, elas constituem o senso do infinito dentro dele, e tendem a encontrar expressão, para que se realizem. Isso determina o movimento do Ego no tempo, um movimento concebido no sentido de sair de nós mesmos (de nossa própria particularidade definida), como uma tendência para realizar tudo aquilo que nós excluímos de nós mesmos, para viver com elas como uma sucessão de experiências: uma sucessão que se desenvolve no tempo, e que deve representar o substituto para a totalidade, para tudo aquilo que o indivíduo, enquanto tal, não pode ser simultaneamente. Naturalmente, a infinitude de possibilidades corresponde necessariamente com a infinitude do tempo, e tudo isso nos dá, em certa medida, um sentimento que estamos perseguimos a nossa própria sombra: uma busca que nunca alcançamos, sem nunca termos inteiramente a posse de si mesmo, a fim de acalmar e resolver a antítese e a "angústia" própria da existência.

Esta solução de Heidegger termina, assim, em uma espécie de justificação metafísica da santificação daquilo que, em termos hindus, pode ser chamado de samsara, a consciência samsarica. Isto parece-nos uma posição perigosa, na medida em que tende para as diversas filosofias ocidentais modernas de imanência, de "Vida", de tornar-se, uma posição que, em nossa opinião, dificilmente pode ser vinculada a uma concepção tradicional do mundo. Na verdade, um pessimismo dissimulado e sombrio paira sobre toda a filosofia de Heidegger.

A segunda tendência existencialista, aquela de Jaspers e Barth, se encontra em uma situação diferente. Partindo de premissas mais ou menos semelhantes, a importância é dada ao conceito que, se o indivíduo representa uma possibilidade particular em meio de uma infinidade de outras, que estão fora dele, essa possibilidade definitiva emana de uma escolha. Esta escolha, naturalmente, nos leva a algo anterior ao tempo e anterior a existência dentro do tempo. A solução da antítese é dada pela "ética da fidelidade": que, estando nós no tempo, devemos assumir, devemos considerar "a nossa essência como idêntica a nossa própria existência", devemos permanecer fiéis ao que somos, tendo o pressentimento de que algo é eterno, que, através de nós mesmos, torna-se "temporalizado" em si mesmo, que tudo que aparece como uma necessidade, como um destino, como dificuldade, nos remete a algo desejado, a algo que só é assim por que ele escolheu que fosse assim, assumindo essa natureza particular, excluindo qualquer outra natureza possível.

Assim, juntamente com o preceito de fidelidade a nós mesmos, existe, no existencialismo, também um preceito de esclarecimento (Erhellung). A regra de vida desse existencialismo não é a busca por algo mais, a dispersão de nós mesmos no infinito, na problemática das perspectivas que se apresentam no mundo exterior, e menos ainda significa uma busca no tempo - como Heidegger clama - da miragem do incondicionado que sempre escapa; devemos então assumir nossa própria perspectiva ou visão de mundo, aprender e compreender o seu significado, que é equivalente a sua raiz transcendental, aquela vontade pela qual eu sou o que sou, e que, na existência nós possamos perceber apenas com base em seus traços e seus efeitos. Assim, então, a existência aparecerá apenas como julgamento no tempo de algo que existe antes do tempo, e cada necessidade ou finitude revelar-se-á como a consequência de um ato primordial de poder livre.

Aqueles que conhecem a doutrina do dharma e do svadharma não pode deixar de notar as analogias com essas visões existencialistas. De acordo com a concepção hindu, cada ser tem sua própria natureza. Não é por acaso que somos o que somos e não outra coisa. Para essa natureza - a menos que sentimos uma vocação para uma subida superior - devemos permanecer fiéis; fidelidade a nossa própria natureza, qualquer que seja, é o mais elevado culto que podemos render ao Espírito Supremo.
Assim, para ser nós mesmos devemos assumir nossa própria posição e tender a nossa própria perfeição individual, sem que os interesses exteriores nos distraiam ou seduzam. Não há natureza própria, dharma, superior ou inferior a outra, se tomamos - como devemos tomar - o infinito, aquilo que está além do tempo, como medida. Dessa forma, trair seu próprio dharma - a lei da natureza de si mesmo - assumir o dharma - o jeito de ser, a lei, o caminho - de outro é um erro e culpa: culpa, não no sentido moral, mas no sentido ontológico. É um ferimento contra a própria ordem cósmica - rta - equivalente a uma violência contra nós mesmos; porque, assim, entramos em contradição com nós mesmos, desejamos ser aqui, no tempo, algo diferente daquilo que nós desejamos ser além de todos os tempos. O efeito disso é a desintegração, e, por conseguinte, uma descida na hierarquia dos seres (simbolicamente, o inferno). Estes são conceitos tradicionais hindus que encontramos expressos nas Leis de Manu e, de uma forma ainda mais definida, no Bhagavad Gita. Sabemos que na Índia elas não permaneceram na mera teoria e filosofia, mas exerceram uma forte influência na vida individual e coletiva, constituindo, entre outras coisas, a base ética e metafisica do sistema de castas, aquele sistema que é tão pouco compreendido por ocidentais (embora na Idade Média houve algo do mesmo tipo), enquanto que está prestes a ser posta de lado, pelos orientais modernizados.

Mas, na visão geral do homem e do mundo, em que a doutrina svadharma está enquadrada, existem dimensões que não faltam no existencialismo; é mais integral que esse ponto duvidoso da filosofia ocidental.

Neste contexto Barth deve ser esquecido. Ele termina em um teocentrismo que lhe permite conectar o existencialismo com a teologia cristã. Esta teologia, como sabemos, com o tomismo defendeu a teoria da "nossa própria natureza" - natura própria - e a ética de fidelidade à essa natureza, a qual é diferente em cada homem e é desejada por Deus. Mas aqui, em nossa opinião, nós estamos nos elevando demais, e a referência à divindade teísta, cuja vontade deve ser responsável por estarmos nesse modo particular, é resumir demais a explicação. O problema existencialista só é resolvido pela fé, pela confiança em Deus, embora com a promessa de uma visão de futuro de todas as coisas, e, consequentemente, também de nós mesmos, do curso da sua própria vida, "sub specie aeternitatis", uma visão que através da qual toda a obscuridade desaparecerá. Mas isso tudo é religião em vez de metafísica, e pode não ser satisfatório para todos.

Mas vamos voltar para Jaspers. Os pontos fracos de sua teoria, nos quais as ideias hindus podem ser úteis, dizem a respeito à natureza daquela "escolha", que deve ter sido feita no plano não-temporal e que nos permite explicar a coexistência, dentro da existência, do finito e infinito. Acima de tudo, o lugar desta escolha, continua ser totalmente obscuro - não menos do que em Kant e Schopenhauer, que já tinham formulado algo do tipo com suas teorias sobre o "caráter inteligível".

Essa obscuridade é inevitável, devido a praticamente não-existência, na filosofia ocidental e na religião em si, da doutrina da pré-existência e dos múltiplos estados do ser. Que, antes do nascimento, existia não somente a vontade de Deus, criando a sua boa vontade almas a partir do nada; que, em vez disso, preexistiu uma certa consciência-entidade, a qual a existência de cada um de nós na terra é sua manifestação - tudo isto é "terra incognita" para a maioria dos filósofos ocidentais e teólogos: eles não sabem nada deste tipo.

Mas, sem referências desse tipo, toda a teoria existencialista sofre de uma obscuridade inicial e básica. Aliás, deve ser notado que falamos da teoria da pré-existência e não de "reencarnação" ou karma, como os teosofistas espalharam no fim do último século em certos grupos espiritualistas ocidentais. A primeira teoria não tem nada em comum com a segunda -uma possui um caráter metafísico e a outra um caráter popular- e, como já expliquei em várias ocasiões, quando tomada literalmente, nada explica, e é, na verdade, um erro.

A partir da primeira falta, a segunda é derivada, que se refere ao senso do ato pelo qual nós quisermos ser o que nós nos encontramos ser na terra e no tempo, ou seja, o senso da escolha ou opção transcendental, que toma espaço na vontade Divina e que também é a pre-condição necessária para falar de alguma responsabilidade e para justificar o preceito de fidelidade ao que somos.

Nisso, Jaspers só observa uma falha: ter desejado ser indivíduos significa ter desejado limitar a nós mesmos; mas, limitar nós mesmos significa pecar, pecar contra o infinito, contra o incondicionado, que é fatalmente negado em todas as possibilidades, em todas as maneiras de ser excluído do horizonte dessa única vida definitiva. E com esse pecado está naturalmente associado a angústia, a famosa "angustia existencial" do Ego.

Isso certamente é uma ideia estranha, que traz consigo um certo pessimismo, o qual encontramos vestígios nos primórdios da filosofia grega e até mesmo no Orfismo. Se no início das coisas, lá no alto, no outro lado do tempo, houve verdadeiramente um poder livre, nós não conseguimos entender qual "falha", qual "pecado" pode haver para que permitisse ter feito uma escolha, por ter decidido a favor de um determinado modo de existência e não de outro. Assim, que outras possibilidades devem ter sido excluídas e negadas, é lógico e inevitável, mas não sabemos a quem essa liberdade deve responder.

Em qualquer caso, falar aqui de "pecado" é um verdadeiro absurdo. Se assim for, deveríamos considerar pecado - gerando uma angústia existencial - o fato de, possuindo uma noite livre, eu preferi gastá-la em uma casa noturna, que obviamente me impede de fazer outras coisas igualmente possíveis, como ir ao teatro, ou a uma palestra, ou permanecer em casa estudando, assim por diante.

O verdadeiro infinito, para nós, e para qualquer metafísica de verdade, não é aquele que, por assim dizer, se está condenado a sua infinitude extática e indeterminada, mas é aquele que, deseja ser, permanecendo incondicionado em todos nossos atos, mantendo seu sentido de liberdade primordial e do estado incondicionado em tudo o que ele quis e em que se tornou. Assim, uma vez que entramos no domínio da temporalidade, devemos ter em mente aquilo que os Orientais chamam de lei concordante de ações e reações, e que os hindus chamam de karma, mas em seu verdadeiro sentido, não aquele dado pelos teosofistas e seus popularizadores.

Seria suficiente entrar nesta ordem de ideias para dar as noções existencialistas referidas um significado totalmente diferente, para retirar-lhes tudo que é "crise", "angústia", "invocação", ou dispersão em uma ação arbitrária; tudo passaria em um plano calmo mais elevado, de transparência, de decisão. E o preceito de ser nós mesmos, de fidelidade a nós mesmos e para com a "posição" que nós temos no reino da temporalidade, adquiriria um esclarecimento - graças à sua relação com uma ordem verdadeiramente incondicionada e supra-individual.


Em verdade, a visão hindu correspondente - que o antigo ocidente já sabia (Plotino, por exemplo, ou até mesmo Platão, antes dele) - pode agir nesse sentido sobre os existencialistas que realmente querem viver seus problemas, e este seria um dos pontos significativos de um possível encontro entre o pensamento do Oriente e do Ocidente.

domingo, 8 de março de 2015

O Funcionalismo Substitui a Abordagem Ontológica (por Christos Yannaras)

O entendimento moderno do ser implica o abandono deliberado da abordagem ontológica para a natureza da realidade.

A humanidade na era moderna visa explorar todas as facetas da realidade e da existência, tudo o que existe e acontece. Os limites mais distantes do microcosmo e macrocosmo devem ser acessíveis para a mente humana. Mas a realidade nos interessa como fenômenos objetivos e constituintes funcionais, não como um fato existencial. A própria onticidade das coisas ("ser enquanto ser"), ou a existência como o principal fato de nosso ser, o que chamamos de problema ontológico, se tornou marginal. Questões relacionadas com a causa, a finalidade ou propósito da existência, o princípio causal ou origem dos seres, as relações entre as coisas da mesma espécie, ou entre conceitos universais e entidades individuais, já não engajam as pessoas modernas.

Esta rejeição é facilmente explicada. A ontologia está associada com uma arrogância intelectual e a inflexibilidade dogmática fundamentada pelo pensamento medieval. A ideologia religiosa dominante na Idade Média européia era baseada na absoluta prioridade da ontologia. Apodítica obrigatória, interpretação abstratas dos fatos da existência e limitadas investigações sobre o que era conhecível. A substituição do conhecimento empírico pelo raciocínio abstrato inspirou uma ênfase na ontologia interpretada como a superioridade axiomática do transcendente sobre o temporal e sensível, e como a autoridade absoluta dos representantes terrestres daquele poder transcendente.

A ruptura com o passado medieval pressupõe o rompimento com o problema ontológico. A humanidade na era moderna se recusa reconsiderar questões que aprisionaram-na por séculos em uma subserviência humilhante à uma hermenêutica e a uma camisa de força reguladora de proibições axiomáticas. A rejeição moderna e a marginalização da ontologia é identificada com o senso comum empírico, liberdade de pensamento e de pesquisa, busca de uma prova matemática e a validação experimental.

Parece que não há sentido em interpretar o fato da existência, ou em conectá-lo com alguma causa hipotética ou extra-empírica. Coisas reais são de interesse como parte da "natureza": a matemática e a experiência decodificante racional e a função natural como um todo, fazendo a interpretação ontológica ser supérflua. A mente humana pode dar sentido aos fatos reais como funções rígidas ou mutáveis e pode intervir para fins utilitários.

A reivindicação da humanidade por uma maior soberania possível sobre a natureza através do intelecto destaca a compreensão funcional da natureza como "devir". As observações científicas tendem a confirmar as leis estáveis e imutáveis da natureza. Procura-se na natureza uma estrita conformidade as leis, o que implica um determinismo. Descartes, os empiristas ingleses, os racionalistas franceses e Newton construíram uma imagem mecanicista do universo e seu funcionamento. O cosmos é um relógio bem interligado, e é de menor interesse se algum Deus criou e colocou em operação, já que desde então funciona em sua própria consistência estrita lógica. Se decodificarmos corretamente como a natureza funciona, podemos domá-la para servir nossas próprias necessidades e objetivos.

Esta imagem mecanicista do mundo se estende até a biologia no instrutivo mas exagerado livro de La Mettrie, L'homme machine, chegando a uma brilhante conclusão na teoria de Darwin da evolução das espécies. A interpretação mecanicista é uma metodologia "constante" e também uma garantia de validade científica, adotado como verdade auto evidente pelas ciências sociais. O caráter "científico" da ciência social pressupõe a classificação de fenômenos da vida sob constantes mensuráveis que permitem a inferência. Observações definem consistentemente os fenômenos comportamentais repetidos sob as mesmas condições, assim as leis causais podem ser formuladas. Causas interdependentes e efeitos no comportamento coletivo podem ser articuladas como um sistema racional. A previsão positiva torna-se então uma justificativa utilitária da sistematização científica.
A abordagem científica para a sociedade significa evitar as questões ontológicas - os seres humanos são equiparados a "átomos físicos", como unidades neutras do todo social. Se a antropologia darwiniana se torna a base auto-evidente das ciências sociais, o enigma existencial da alteridade subjetiva pode ser anulado. Um ser humano é uma unidade biológica assumindo o seu lugar com qualquer outro elo da cadeia de desenvolvimento a partir do organismo mais simples e menos perfeito ao mais complexo e completo, um desenvolvimento regulado pela implacável lei da "seleção natural". O instinto de auto-preservação forma e controla a simbiose social, que é um produto do poder deste impulso.

Desta forma, a justiça e a moralidade são separadas de qualquer pretensão metafísica. O conceito de "indivíduo natural" inspira a lógica da "justiça natural", e os princípios reguladores racionalistas da ética tornaram-se "autônomos", como no utilitário "contrato social".

A arte da política é igualmente organizada como uma "ciência" metódica equilibrando os direitos e obrigações do indivíduo social. Esta é a era dos "direitos do indivíduo". A ideia de igualdade de direitos é derivada da semelhança natural entre indivíduos e sua semelhança biológica básica. O balanço de direitos e obrigações substitui interesse no problema ontológico, questões colocadas pelo livre jogo das forças sociais e os aspectos indeterminadas de relações interpessoais.

Paralelo a isso, a ciência política interpreta e programa os problemas humanos sobre a produção e troca, como se o indivíduo natural fosse uma unidade de produção e consumo. As unidades são equiparadas uma a outra, reduzindo-as ao menor denominador comum, cada pessoa produz e consome bens e serviço. A variedade da produção humana é reduzida a uma visão de "trabalho" como "força produtiva", identificado com os meios utilitários de produção. Ao mesmo tempo, "unidade humana" despersonalizada é julgada de acordo com os subprodutos do "mecanismo" econômico tais como: "renda per capita", "produto per capita", "poder de compra", "horas-homem" para a medição da produtividade, etc ou então funciona como uma constante para construção de conceitos macroeconômicos como força de trabalho, produto nacional bruto, rendimento médio, poder de compra médio, etc.


Esta cosmologia mecanicista e sua antropologia análoga de prioridades sociais e práticas assumem o axiológico "progresso" da humanidade e da natureza. A demanda por progresso rompe com a ontologia medieval. Na prática, evita a metafísica ou transcendência, até sacrificando o próprio progresso que está sendo perseguido. Mas o progresso axiológico da humanidade e da natureza é menos preocupante do que a mudança brutal em sua interpretação ontológica. Pseudo-ciência e afirmações sobre o sentido permeiam a idade moderna, desvalorizando quando não depreciando tanto o homem e a natureza, sem qualquer protesto. A teoria da evolução tem sido popularizada como uma simples descendência da humanidade a partir dos macacos, e as pessoas querem acreditar que a vida e seres inteligentes existem em outros planetas, apesar de pesquisas científicas mostrarem o contrário. A humanidade moderna parece incapaz de suportar a superioridade ontológica e a singularidade existencial. Nós insistimos em depreciar a nós mesmos, submetendo-nos à dependência natural e necessidades, reivindicando para nós mesmos um nível existencial de um animal e a casualidade da natureza. Esse "realismo" racionalismo procurando por "manter uma realidade inferida" e uma "libertação total de qualquer ilusão metafísica" é, em si, provavelmente, outra ilusão.

Do livro - Metafísica Pós-Moderna por Christos Yannaras (Meta-neoterike meta physike, Athens, 1993)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

As Ideologias de Esperança (por Christos Yannaras)

Parte da "fisionomia" característica da idade moderna é a transposição de perspectivas sociais em projetos ideológicos e teleologias.

O termo "ideologia" tem a sua origem nas primeiras esquematizações teóricas da era moderna: Destutt de Tracy usou pela primeira vez em 1796, marcando o início da fé no Iluminismo ao afirmar que a reforma social resulta da reorganização de idéias: Apenas quando as ideias das pessoas mudam-- suas percepções individuais, convicções e interpretação da realidade, sua compreensão da natureza e da história, das metas e obrigações, do sentido da existência e de vida-- é que formas sociais desejadas e novas surgem.

A demanda por novas "ideias" implica que a mudança deva ser expressa em um sistema e colocado em prática. Se as "ideias" precisam ser mudadas, as existentes devem ser prejudiciais e enganosas. A confirmação de um erro ou de nocividade justifica a apresentação de uma contra-proposta, legitimando o esforço de imposição.

Assim, a ideologia é engendrada pela lógica de romper e lutar contra o passado. Torna-se específica, propondo novas ideias que as pessoas devem adotar se quiserem libertar-se como indivíduos e como sociedades "sombrias" do passado medieval: ideias que bloqueam o progresso em direção às formas de sociedade desejadas devem ser postas de lado e a fé nos objetivos desejados deve ser imposta a todos.

Tais demandas ignoram as áreas marginais onde novas ideias podem ser geradas naturalmente pelas necessidades do corpo social. A ideologia domina porque seus seguidores estão convencidos de que as ideias predominantes são erradas e prejudiciais. As ideias corretas e mais rentáveis são moldadas com antecedência sem referência ao corpo social. A ideologia interpreta necessidades sociais e individuais, as necessidades que as pessoas devem ter, por si só e a priori. E impõem sistematicamente ideias previamente moldadas.

A ideologia é, por definição, uma construção racionalista. Ela emerge da crítica racional de ideias existentes, e sua própria contra-proposta não pode ser mais do que argumentos racionais em modelos "objetivamente" válidos do ponto de vista social pretendido. A sistematização racionalista antecipa as necessidades sociais e não teria nenhuma chance de sucesso se não tivessem como objetivo, dentre outros, o de despertar desejos coletivos. Desejos coletivos e gerais brotam de impulsos inatos, como o desejo de auto-preservação ou a busca egocêntrica pelo poder.

Assim, a ideologia representa algo mais que suas propostas de novas percepções, convicções e interpretações. Ela pode transformar o desejo em uma convicção-intepretação-meta, que não precisam corresponder às circunstâncias reais da vida, uma vez que estas estão a ser transformadas. Partindo de motivos racionais para mudar a realidade, a ideologia, muitas vezes transforma o seu próprio racionalismo em um misticismo, atingindo uma completa negação da realidade por causa da ilusão desejada. Freud demonstrou como esse "poder da ilusão" funciona e estudos posteriores, baseados em Freud, constituíram uma crítica impressionante das ideologias modernas.

Certamente, a função de ideologias na idade moderna é complicada, contribuindo para a "fisionomia" das sociedades modernas; ideologias têm substituído a ontologia que foi rejeitada ou conscientemente marcada como falsas. O caráter "soteriológico" das ideologias, significa que elas prometem cumprir esperanças coletivas.

As ideologias não respondem diretamente a questões ontológicas - nem pretendem responder. Elas são sempre claramente antropocêntricas e sociocêntricas: prometem mudanças institucionais e organizacionais na sociedade como um todo, nas relações de trabalho e no funcionamento da economia, que levará a "felicidade geral". A ideologia entrelaça programas esquemáticos com promessas eudamonísticas assim casando o racionalismo com ilusões estimadas incompatíveis.

Este casamento perfeito sempre tem seus pressupostos ontológicos invisíveis ou não reconhecidos, que ajudam a ideologia estabelecer sua aceitação, se não auto-evidente, obrigatória. Ideologias sociais modernas tipicamente ignoram as questões relativas ao princípio da existência, a auto-consciência subjetiva, o caráter absoluto existencial da alteridade, a relatividade definitiva do sujeito, ou qualquer outra questão em sua maior parte sem resposta. Ideologias sociais funcionam no nível dos desejos coletivos e nas promessas eudamonicas com critérios antropocêntricos concomitantes pressupondo o princípio "aleatório" da existência, e um agnosticismo correlativo. Concebem a existência, a natureza e a história em uma suposição axiomática da auto-suficiência existencial, a autonomia humana livre de todas as ideias sobre casualidade ou providência.

Esta autonomia existencial explica o poder das ideologias na meta de "progresso". Dentro deste quadro ideológico, os seres humanos aspiram a ser gestores de suas esperanças, criadores de seu próprio futuro. A natureza com seus ricos recursos e fontes de energia está à espera da mente humana para domá-la, intervindo em seu funcionamento mais íntimo para satisfazer a necessidade de conforto e facilidade. Ideologias irão propor formas e meios para uma gestão mais produtiva da autonomia existencial da humanidade, que pode ser imposta constituindo uma esperança de "progresso" e "felicidade geral". O elemento de esperança, a promessa eudamonística material ou spiritual constitui a dinâmica ideológica. As ideologias de esperança, de esquemas racionalistas realistas para as mais loucas ilusões utópicas, em grande parte formada a idade moderna.

Do livro - Metafísica Pós-Moderna por Christos Yannaras (Meta-neoterike meta physike, Athens, 1993)



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Juventude, os Beats e os Anarquistas de Direita (Por Julius Evola)

Muito tem sido escrito sobre a questão da nova geração e da "juventude". Na maioria dos aspectos, a questão não merece o interesse que tem recebido, e, por vezes, a importância concedida hoje à juventude em geral, associada a um tipo de desvalorização de todos aqueles que não são 'jovens', é um absurdo. Não há dúvidas de que estamos vivendo em uma época de dissolução: a tal ponto que as pessoas se aproximam da condição "sem raízes", para quem a "sociedade" não faz qualquer sentido, nem as normas usadas para regular a vida - as leis da época imediatamente anterior a nossa, que ainda persiste em vários lugares, e que representam apenas os costumes da burguesia. Naturalmente, esta situação é sentida fortemente e especialmente pelos jovens; levantar algumas questões nesse sentido pode ser legítimo. No entanto, o tipo de resposta que se limita a somente ao sofrimento disso tudo, incapaz de libertar-se em virtude de qualquer iniciativa ativa de si mesmo, como poderia ter sido possível para os poucos rebeldes individualistas intelectuais do século anterior, tem de ser isolada e considerada em primeiro lugar e essencialmente.
Desta forma a nova geração está apenas submetida ao estado de coisas; não levanta nenhum problema real e faz um uso completamente estúpido da "liberdade" à sua disposição. Quando este tipo de juventude finge que é mal compreendida, a única resposta que se pode dar é que não há nada para entender sobre o assunto, e que, sob uma ordem normal, seria apenas uma questão de colocar esses jovens de volta para onde pertencem, sem demora, como é feito com as crianças quando sua estupidez se torna cansativa, invasiva e impertinente. O chamado anti-conformismo de algumas das suas atitudes, que em outros aspectos, são bastante banais, segue ainda, um tipo de tendência, uma nova convenção, de tal forma que o resultado é exatamente o oposto de uma manifestação de liberdade. Outros fenômenos que consideramos nas páginas anteriores, como o gosto pela vulgaridade e algumas formas novas de costumes, pode-se, em geral, considerar como característica desse tipo de juventude; alguns proporcionam para ambos os sexos provas de prêmio, ou para os "cantores" epilépticos do momento, ou para as sessões coletivas de fantoches representados pelas sessões de 'yeah, yeah', ou para o 'hit' do momento, e assim por diante, com o correspondente comportamento. A ausência entre eles de qualquer senso de ridículo torna impossível exercer qualquer influência sobre eles, então, de fato, deve-se deixá-los para si em sua própria estupidez, e considere que, se por algum acaso, algumas polêmicas em relação, por exemplo, a emancipação sexual de menores, ou no sentido da família, apareça neste tipo de juventude, estas polêmicas possuem necessariamente nenhuma substância. Como o passar dos anos, a necessidade, para a maioria entre eles, de enfrentar os problemas econômicos da vida material e, sem dúvida quando tais jovens, tendo-se tornados adultos, adaptarão-se às rotinas profissionais, produtivas e sociais de tal mundo como o verdadeiro; De fato, este tipo de juventude passa, assim, de uma forma do nada para outra forma do nada.


Este tipo de "juventude", definida apenas pela idade (pois, neste contexto, seria fora de questão falar de certas possibilidades característicos da juventude, no sentido interior, espiritual) está fortemente estabelecida na Itália. Na Alemanha apresenta um caso muito diferente: as formas estúpidas e decompostas dos quais já falamos são muito menos prevalentes lá; a nova geração parece ter calma e aceitam o fato de uma existência em que nenhum problema deva ser levantado, de uma vida em que nem o bom nem o fim deva ser procurado; eles só pensam em utilizar os recursos e facilidades que o desenvolvimento recente da Alemanha adquiriu. Podemos nos referir a esse tipo de juventude como sendo "despreocupada", esses têm gradativamente deixado muitas convenções para trás, e adquiriram novas liberdades, sem conflitos, mas tudo dentro de uma esfera bidimensional de "factualidade", para o qual qualquer interesse maior, em mitos, em uma disciplina, em uma força-ideia, é desconhecido.

Na Alemanha, isto é provavelmente uma fase de transição, pois voltamos nossa atenção para as nações que foram mais longe na mesma direção, quando o ideal do "Estado de Bem-Estar" está quase alcançado, onde a existência é tida como certa, onde tudo é racionalmente regimentado - pode-se, nomeadamente, referir-se a Dinamarca, a Suécia, e, em parte, para a Noruega - eventualmente, de forma intermitente, reações na forma de erupções violentas e inesperadas acontecem. Estas são incitadas principalmente por jovens. Este fenômeno já é interessante e pode valer a pena examinar.
Mas, a fim de estudar as formas mais comuns devemos concentrar na América, e, em certa medida, na Inglaterra. Na América, os fenômenos de trauma espiritual e revolta da nova geração já surgiram de forma muito clara, em grande escala. Referimo-nos à geração que adquiriu o nome de "geração beat", e sobre o qual já falamos nas páginas precedentes: 'beat', ou 'beatniks', ou mesmo 'hipsters', para citar outra variação. Eles foram os representantes de uma espécie de existencialismo anarquista e anti-social, de um caráter mais prático do que intelectual (deixando de lado certas manifestações literárias, de ordem mais baixa). No momento em que escrevo estas linhas, o período áureo do movimento já passou; praticamente desapareceu da cena, ou se dissolveu. No entanto, ele mantém um significado único, porque este fenômeno está intrinsecamente ligado à própria natureza da presente civilização; enquanto esta civilização persistir, é de se esperar que as manifestações semelhantes apareçam, embora sob variadas formas e denominações. Mais particularmente, a sociedade americana, o que representa, mais do que qualquer outra sociedade, o limite e o reductio ad absurdum de todo o sistema contemporâneo, as formas 'beat' do fenômeno da revolta ganharam um caráter especial, paradigmático, e, portanto, não devem ser considerados como pertencentes ao mesmo nível dos jovens estúpidos, de que já falamos quando consideramos o caso da Itália, em particular.

Do nosso ponto de vista, um breve estudo desses fenômenos se justifica, porque partilhamos a opinião, expressa por um número de 'beats': a saber -  ao contrário do que os psiquiatras, psicanalistas e os "trabalhadores sociais" pensam - em uma sociedade, uma civilização, como o nossa, e, especialmente, como a dos EUA - deve-se em geral admitir que o rebelde, aquele ser que não se adapta, o ser anti-social, é, na verdade, o homem mais são. Em um mundo anormal, os valores esão invertidos: todo aquele que parece anormal, em relação ao meio existente, é, provavelmente, uma pessoa 'normal', no sentido de que nele ainda subsistem vestígios de energia vital integral; e nós não seguimos aqueles que querem 'reabilitar' tais indivíduos, a quem eles consideram como doentes, e 'salva-los' para a 'sociedade'. O psicanalista, Robert Linder, teve a coragem de admitir isso. Do nosso ponto de vista, o único problema diz respeito à definição do que poderíamos chamar de "anarquista de direita". Vamos examinar a distância que separa este tipo para a orientação problemática que quase sempre caracteriza o "não-conformismo" dos "beats" e "hipsters”.

O ponto de partida, isto é, a condição de que determina a revolta do 'beat', é evidente. O sistema é acusado, embora este não empregue formas políticas "totalitárias", que estrangule a vida, ou que ataque as personalidades. Às vezes a questão da insegurança física do futuro é levantada, na forma da opinião de que a própria existência da espécie humana é posta em jogo pela probabilidade de uma eventual guerra nuclear (em proporções apocalípticas); mas o que é sentido principalmente é o perigo de morte espiritual, inerente à adaptação ao sistema atual e as suas forças externas impostas condicionantes (seu 'heteroconditioning'). América é descrita como "um país podre com um câncer que se prolifera em cada uma de suas células" e afirma-se que "a passividade (conformidade), ansiedade e tédio são as suas três características." Nesse clima, a condição do ser sem raízes, a unidade perdida na "multidão solitária", é nitidamente experimentada; "sociedade, vozes vazias, insignificância." Os valores tradicionais foram perdidos, os novos mitos são desmascarados, e esta "desmistificação" mina toda uma nova esperança: "liberdade, revolução social, a paz - são nada além de mentiras hipócritas." "A alienação do eu como condição normal" - tal é a ameaça.

No entanto, já se pode notar a diferença mais importante do tipo 'anarquista de direita': o beat não reage ou se rebela partindo do positivo - isto é, ter uma idéia precisa de como a ordem normal e sã seria, e firmemente apoiando-se em alguns valores fundamentais. Ele reage instintivamente, de forma confusa, existencial, contra a situação, de um modo semelhante ao que ocorre em certas formas de reação biológica. Por outro lado, o "anarquista de direita" sabe o que quer, ele tem uma base para dizer" não ". O 'beat', em sua revolta caótica, não só carece de tal base, mas, provavelmente, rejeitaria, também, se fosse indicado. É por isso que as frases, "rebelde sem bandeira", ou "rebelde sem causa", podem realmente apelar para ele. Isto implica uma fraqueza fundamental, em que o 'beat' e o 'hipster', apesar de seu medo de ser 'hetero-condicionado', isto é, estar sujeito a forças impostas externamente condicionadas, na verdade correm precisamente esse perigo, pois suas atitudes são motivadas pela situação existente (no sentido de serem meras reações). Aceitando tudo, de forma impassível, de forma fria, seria uma atitude mais consistente.

Portanto, quando o 'beat', além de seu protesto e revolta direcionado ao exterior, considera o problema real de sua vida interior pessoal, e procura resolvê-lo, ele inevitavelmente se encontra em terreno escorregadio. Na falta de um centro concreto interior, atira-se para a busca de emoções, obedecendo a impulsos que o fazem regredir em vez de desenvolver, enquanto ele busca todas as formas possíveis para preencher o vácuo e a obscuridade da vida sem sentido. Um precursor dos "beats", Henry Thoreau, tomou o mito do homem natural de Rousseau, de um voo na natureza, para propor uma solução que é ilusória; uma fórmula que é muito simples, e essencialmente insípida. No entanto, há aqueles que seguiram este caminho, para um estilo de vida neo-primitivo boêmio, o nomadismo, e malandragem (como personagens de Kerouac); que procurou desordem e o caráter imprevisível de uma existência que abomina todas as linhas pré-ordenadas da ação, e toda a disciplina, em favor de uma tentativa de tomar todo o momento a plenitude da vida e da existência (pode-se referir aos primeiros romances mais ou menos autobiográficos de Henry Miller: "queimando a consciência do presente, nem com um "bom" ou um "mau").



A situação agrava-se ainda mais com o recurso a soluções extremas: ou seja, se busca preencher o vazio interior e sentir-se 'real', na busca para provar a si mesmo digno de uma liberdade superiores ("o que eu, sem lei e sem qualquer obrigação"), por meio de ações violentas e criminosas, que são dadas no sentido de uma afirmação de si mesmo, ao invés de apenas atos extrema resistência e protesto contra a ordem estabelecida, contra o que é normal e racional. Assim se gera uma base "moral" para a criminalidade desenfreada, sem motivos materiais ou afetivos, impulsionados somente por uma "necessidade desesperada de valor", porque tem que "provar a si mesmo que é um homem", que "não tem medo de si mesmo", "cortar com a morte e o além". O uso de tudo frenético, irracional e violento - a "violência frenética para criar ou destruir" - entram em jogo.

Aqui, o caráter ilusório e equívoca das soluções deste tipo emerge claramente. É óbvio que, nesses casos, a busca de sensação vital intensificada serve quase sempre como um substituto ilusório para um verdadeiro sentido do Eu. Ao discutir atos extremos e irracionais, vamos, além disso, mostrar que esta não é apenas, por exemplo, uma questão de ir para a rua e atirar em transeuntes aleatoriamente (como André Breton propôs uma vez para os 'surrealistas'), ou de estuprar a própria irmã mais nova, mas também, talvez, se afastar, ou destruir, tudo o que se possui, ou arriscar a vida para salvar um estranho estúpido. É preciso, portanto, ser capaz de discernir se o que se vê como um ato extremo 'gratuito' não seja dirigido por impulsos ocultos, cujo o indivíduo pode ser escravo, ao invés de algo que atesta, e concretiza, a liberdade superior. Em geral, há uma ambivalência considerável dentro do individualista anarquista: "ser você mesmo, livre de vínculos", mesmo permanecendo escravo de si mesmo. A observação de Herbert Gold de tais casos, carente de auto-exame, é, sem dúvida, correta: "O hipster é uma vítima da pior forma de escravidão, o escravo que, inconsciente e orgulhoso de sua condição de servidão, chama isso a liberdade."

Ainda há mais. Muitas das experiências intensas que poderiam dar ao "beat" uma sensação fugaz de "realidade" faz dele, em essência, muito menos "real", porque elas condicionam-o. Wilson traz essa situação de forma muito clara, por meio de um personagem em seu já mencionado livro. Este personagem executa, de uma forma bastante "beat", uma série de assassinatos sádicos de mulheres, a fim de sentir-se "reintegrar", para escapar frustração, "porque ele foi frustrado em sua busca de seu direito de ser um deus”, e acaba revelando-se como um ser partido e irreal. "Como um paralítico que sempre precisa de estimulantes mais fortes e para quem nada importa ... Achei que o assassinato era apenas uma expressão de revolta contra o mundo moderno e suas emboscadas, porque quanto mais se fala da ordem e da sociedade, maior a taxa de crime. Eu pensei que seus crimes eram um ato desafiador... isso estava longe de ser o caso - ele mata, pela mesma razão que leva o álcool para si: porque ele não pode fazer sem ele". O mesmo se aplica, naturalmente, para outras experiências extremas.

Nós podemos, na passagem, relembrar, de modo a estabelecer novamente as distinções precisas, que o mundo da Tradição também estava familiarizado com o "Caminho da Mão Esquerda" - um caminho do qual já falamos em outro lugar, que inclui violar a lei, destruição e a experiência orgiástica de várias formas, mas a partir de uma orientação positiva, sagrada e 'sacrificial', "para o que está em cima", para a transcendência de todas as limitações. Este é o oposto da busca de sensações violentas simplesmente porque se está internamente espancado e inconsistente, apenas com o intuito de prolongar a sensação de existência, de uma forma ou de outra. É por isso que o título do livro de Wilson, "O Ritual no Escuro", é muito apropriado: ele descreve um modo de celebração, dentro de um reino de sombra, sem luz, o que poderia ter tido sentido, em um contexto diferente, de um rito de transfiguração.

Da mesma forma, os "beats" frequentemente utilizaram certas drogas, procurando assim induzir uma ruptura, uma abertura, além da consciência comum. E isso, com as melhores intenções. No entanto, um dos principais representantes do movimento, Norman Mailer, chegou a reconhecer o "jogo de dados" implícito no uso de drogas. Além da "lucidez superior", da percepção da "nova, fresca e original da realidade, agora desconhecida para o homem comum", aquela que alguns aspiram pelo uso de drogas, há o perigo de "paraísos artificiais", de render-se a formas de voluptuosidade em êxtase, de sensação intensa, e até mesmo visões, desprovidas de qualquer conteúdo espiritual ou revelador, e seguidas de depressão uma vez que se retorna à normalidade, o que só agrava a crise existencial. O fator determinante aqui é a atitude subjacente assumido pelo próprio ser: este quase sempre decide o efeito de tais drogas, em um sentido ou outro. No relato, pode-se referir, por exemplo, dos efeitos da mescalina, descrito por Aldous Huxley (autor já familiarizado com a metafísica tradicional), que se sentia capaz de fazer uma analogia com certas experiências de alto misticismo, ao contrário dos efeitos totalmente banais descritos por Zaehner (o autor quem já citado em nossa crítica Cuttat), que queria repetir experiências de Huxley, com o objetivo de "controlar", mas a partir de uma equação pessoal e atitude completamente diferente. No entanto, dado que o "beat" é um ser profundamente traumatizado, que se lançou em uma busca confusa de 'imprevistos', não se deve esperar nada de muito positivo do uso de drogas. A outra alternativa certamente prevalecerá revertendo os ganhos aparentes iniciais. Além disso, o problema não é resolvido por aberturas escapistas esporádicas na "Realidade", na sequência da qual nos encontramos mergulhados de volta a uma vida privada de significado. Que as premissas essenciais para se aventurar neste terreno são inexistentes é evidente a partir do fato de os"beats" e "hipsters" em grande parte eram jovens, sem a maturidade necessária, evitando toda a auto-disciplina por princípio.

Algumas pessoas afirmaram que o que os 'beats', ou pelo menos alguns deles, obscuramente procuraram, era em essência, uma nova religião. Mailer, disse: "Eu quero que Deus me revele o seu rosto," radicalmente afirmou que eles são os precursores de uma nova religião, que seus excessos e revoltas são formas transaccionais, que "poderia dar à luz amanhã uma nova religião, como o Cristianismo" Tudo isso soa como conversa fiada e, hoje, agora que a avaliação pode ser feita, não existem tais resultados visíveis. É bastante claro que aquilo essas forças carecem são precisamente os pontos superiores e transcendentes de referência, similares aos das religiões, capazes de proporcionar um apoio e uma orientação correta. "Eles buscam por um credo que os salvem", como alguém disse, mas "Deus não está sob ameaça de morte" (Mailer, referindo-se ao Deus da religião teísta ocidental). É por isso que as pessoas que foram chamadas de "místicos beat" buscaram em outras partes, tornaram-se atraídos pela metafísica oriental e, especialmente, no Zen, como já mencionado em outro capítulo. No entanto, em relação a este último ponto, há motivos para questionar as motivações envolvidas. O Zen exerceu influência sobre os indivíduos em questão, especialmente, por causa das súbitas aberturas iluminadoras na Realidade (através do satori), a explosão e rejeição de todas as superestruturas racionais, e da irracionalidade pura, a demolição implacável de todos os ídolos, e dos eventuais meios violentos, poderiam produzir. Pode-se entender que tudo isso atrairia bastante o ocidental jovem desenraizado, que não pode tolerar qualquer disciplina, que vive de aventuras, e que está em um estado de rebelião. Mas a realidade é que o Zen pressupõe tacitamente uma orientação anterior, ligada a uma tradição secular, e os ensaios muito difíceis não são excluídos. Poderá ser suficiente ler a biografia de alguns mestres zen: Suzuki, que foi o primeiro a introduzir essas doutrinas no Ocidente, literalmente falou de um "batismo de fogo", como preparação para o satori. Arthur Rimbaud expôs um método de se tornar um vidente, através de "desarranjo sistemático dos sentidos", e não descarta a possibilidade de que, em uma vida absolutamente, mortalmente, aventureira, mesmo sem um guia, procedendo sozinho, 'aberturas' do tipo que alude o Zen poderiam acontecer. Mas estas seriam sempre exceções, que, de fato, incorporam um certo caráter miraculoso, como se estivesse predestinado, ou sob a proteção de um bom daemon. Pode-se suspeitar que o motivo por trás da atração que o Zen e semelhantes doutrinas são capazes de exercer sobre 'beats' é esta: os 'beats' supõem que essas doutrinas dão uma espécie de justificação espiritual para a sua disposição anárquica puramente negativa, no sentido da pura desordem, o que lhes permite escapar a tarefa inicial, que, no seu caso, se resume a dar-se uma forma interna. Essa necessidade confusa de um ponto superior e supra-racional de referência, e, como alguém já disse, um meio de aproveitar "o segredo chamado do ser", também é completamente desviante, quando esse "ser" é confundida com a 'Vida', seguindo teorias como as de Jung e Reich, e quando se vê no orgasmo sexual, e na entrega ao tipo crises degeneradas e Dionisíaca, por vezes, oferecido pelo jazz, e outros caminhos adequados para 'sentir-se real ", de entrar em contato com a Realidade.

Com relação ao sexo, repetimos o que já disse acima, no capítulo XII, ao analisar as perspectivas dos precursores da "revolução sexual". Um dos personagens de Wilson do já citado romance interroga-se se "a necessidade sentida por uma mulher não é apenas a necessidade em nós por aquela intensidade", se o impulso maior, rumo a uma liberdade suprema, não é obscuramente manifestado no impulso sexual. Esta questão poderia ser legítima. Já lembramos que a concepção não-biológica e não sensacionalista, mas, em certo sentido, transcendente da sexualidade, tem, de fato, antecedentes precisos e não-extravagantes em ensinamentos tradicionais. No entanto, é preciso consultar a discussão já apresentada sobre este assunto em "A Metafísica do Sexo", onde sublinhamos a ambivalência da experiência sexual, ou seja, o positivo ou negativo "des-realização" e "des-condicionamento" das possibilidades ali contidas. No entanto, quando o ponto de partida é uma espécie de angústia existencial, ao ponto em que o 'beat' parece obcecado com sua incapacidade de atingir "o orgasmo perfeito '(como descrito nas vistas acima mencionados por Wilhelm Reich, e, em parte, por DH Lawrence, que afirmou ver no sexo um meio de integrar-se na energia primordial da vida) - em tais casos, não há motivos para pensar que os conteúdos negativos e dissolucionários da experiência sexual irão predominar, também porque as condições existenciais preliminares necessárias para o oposto ser verdade são inexistentes: o sexo e a força corrente do orgasmo irá possuir o eu, e não vice-versa, como deve ser o caso, se isso fosse servir como um caminho. O mesmo vale para drogas: uma geração jovem desperdiçada não pode lidar com experiências deste tipo (que também são considerados pela Via da Mão Esquerda). Quanto à liberdade sexual plena, como revolta simples e não-conformidade, é estupidez, e não tem nada a ver com o problema espiritual.

Infelizmente, não há muito para se extrair numa análise do que os 'beats' e 'descolados' têm buscado, em um plano individual e existencial, como uma contrapartida a uma revolta legítima contra o atual sistema, para preencher o vazio, e resolver o problema espiritual. A situação de crise continua. Apenas em casos excepcionais, pode-se encontrar algo de valor positivo, no caso de um "anarquista de direita". É certo que o problema é um problema de material humano. Quanto à prática do não-conformismo, destruição dos mitos, dissociação fria em frente a todas as instituições burguesas: não pode haver objeção, se tal curso é seriamente seguido pela nova geração. Seguindo o desejo de alguns representantes da 'beat' geração, nós não rejeitamos seu movimento como uma tendência passageira. Nós apenas consideramos em seus aspectos mais característicos; seu problema característico é uma expressão natural da época atual. Seu significado permanece, apesar de suas formas terem deixado de existir nos Estados Unidos, ou de apresentar qualquer sedução especial para a juventude.

Gostaríamos agora de considerar o problema da geração mais jovem um pouco mais especificamente. Há jovens que se revoltam contra a situação sócio-política na Itália, e que estão, ao mesmo tempo interessado no que chamamos, em geral, o mundo da Tradição. Enquanto, por um lado, eles se opõem às forças de esquerda e ideologias que invadem perigosamente no plano prático, por outro lado, eles olham para horizontes espirituais, e tomam algum interesse nos ensinamentos e disciplinas da sabedoria antiga. Temos, assim, forças que estão potencialmente 'em guarda'. O problema é chegar com as direções que são capazes de dar uma orientação positiva para a sua atividade.

O nosso livro 'Ride the Tiger ", considerado por alguns como um "manual para o anarquista de direita", resolve o problema até certo ponto, na medida em que se trata essencialmente - uma coisa que não tem sido salientada suficiente - apenas para um tipo diferenciado e bastante específico de homem, com um alto nível de maturidade. Consequentemente, as orientações oferecidas no livro nem sempre são adaptados, ou, em geral, realizáveis, para a categoria de jovens a que acabamos de aludir.
A primeira coisa a recomendar a esses jovens é a prudência em relação a todas as formas de interesse ou entusiasmo que pode ser de origem meramente biológica, isto é, devido à sua idade. Deve ser visto se a sua atitude permanecerá inalterada com a chegada da idade adulta, quando terão de resolver os problemas concretos da existência. Infelizmente, a nossa experiência pessoal mostrou-nos que este é raramente o caso. Na virada do, digamos, seus trinta anos, apenas alguns mantêm as mesmas posições.

Já falamos de uma juventude que não é apenas biológica, mas que também tem um aspecto espiritual interno, não necessariamente condicionada pela idade. Essa juventude superior pode, contudo, manifestar-se nos outros jovens. Não iremos dizer que é caracterizada por "idealismo", pois o termo é usado e ambíguo, e devido a capacidade de "desmistificar" ideais, ao aproximar-se do nível dos valores convencionais, é uma qualidade que esses jovens compartilhem com outras correntes de uma orientação bastante diferente. Preferimos falar de uma certa capacidade de entusiasmo e élan, a devoção incondicional e desprendimento de existência burguesa e de interesses puramente materiais e egoístas. Preferimos falar de uma certa capacidade de entusiasmo e élan, a devoção incondicional e desapego da existência burguesa e de interesses puramente materiais e egoístas. No entanto, a primeira tarefa é assimilar aquelas disposições que, entre as melhores, se desenvolvem em paralelo com a juventude física, fazer delas qualidades permanentes, resistindo a todas as influências opostas ao que se está fatalmente exposto com a idade. Quanto à não-conformismo, a primeira coisa necessária é um estilo de vida que é estritamente anti-burguês. Em seu primeiro período, Ernst Jünger não tinha medo de escrever: "É melhor ser um delinquente do que um burguês"; não estamos dizendo que esta fórmula deve ser tomada ao pé da letra, mas indica uma orientação geral. Na vida diária é preciso também ter cuidado com as armadilhas apresentadas pelos assuntos sentimentais, como casamento, família, e tudo o que pertence às estruturas residuais de uma sociedade visivelmente absurda. Esse é um ponto fundamental. Por outro lado, para o tipo em questão, certas experiências, como o caráter problemático que vimos no caso dos 'beats' e 'hipsters', não podem oferecer os mesmos perigos.

Para contrapor o peso da auto-disciplina, essa juventude tem de desenvolver um gosto pela auto-disciplina que é livre de formas, desligada de qualquer necessidade social ou "pedagógica". Esta dificuldade é causada pelo fato que tal formação pressupõe, como um ponto de referência, certos valores, enquanto a juventude rebelde rejeita todos os valores, todas as "morais", da sociedade atual, e da sociedade burguesa, em particular.

Entretanto, aqui, uma distinção deve ser feita. Há valores que possuem um caráter conformista, e uma justificativa inteiramente externa, social - para além de certos "valores" que permanecem como tal, porque suas fundações originais estão irremediavelmente perdidas. Por outro lado, certos outros valores são oferecidos apenas como suportes, para garantir ao ser uma verdadeira forma e firmeza. Coragem, lealdade, franqueza, o desgosto por ter mentido, a incapacidade de trair, a superioridade a todo egoísmo mesquinho e todo o interesse inferior, pode ser contado entre os valores que, em certo sentido, estão acima do "bem" e do "mal", e que estão em uma 'não-moral', um plano ontológico: precisamente porque eles fornecem a base para um 'eu', ou reforçá-o, contra a condição apresentada pela natureza instável, fugitiva e amorfa. Aqui não existe qualquer obrigatoriedade. A disposição natural do indivíduo por si só deve decidir. Para usar uma imagem, a natureza nos presenteia com tantas substâncias que tenham atingido a cristalização completa, como aqueles cristais imperfeitos e incompletos, misturadas com gangas frágeis (o mineral ou substância de terra associado com minério metálico). Claro, não chamaremos o primeiro de "bom" e o segundo de "ruim", num sentido moral. Em verdade eles são diferentes graus da "realidade". O mesmo vale para o ser humano. O problema da formação dos jovens, e seu amor para a auto-disciplina, deve ser medido nesse plano, além de todos os critérios e valores da moral social. F. Thiess com razão escreveu: "Existe vulgaridade, mesquinhez, baixeza, animalidade, traição, assim como existe a prática estúpida da virtude, a intolerância, o respeito conformista com a lei. O primeiro vale tão pouco quanto o último.".

Em geral, cada juventude é caracterizada por um excesso de energias. A questão do seu uso surge em mundo como o nosso. A este respeito, pode-se considerar em primeiro lugar o aspecto do desenvolvimento externo, físico do processo de "formação". Faríamos bem em não recomendar a prática de esportes modernos em sua quase totalidade. O esporte é de fato um dos fatores típicos da brutalização das massas modernas, e um caráter vulgar é quase sempre associado a ele. Mas certas atividades físicas particulares podem ser admitidas. Um exemplo é oferecido pelo montanhismo de alta altitude, desde que possam ser restaurados à sua forma original, sem as ajudas técnicas e a tendência à pura acrobacia que deformou e tornou-o um pouco materialista nos últimos tempos. Pára-quedismo também pode oferecer possibilidades positivas - em ambos os casos, a presença do fator de risco é um apoio útil para o fortalecimento interior. Como outro exemplo, pode-se mencionar artes marciais japonesas, desde que haja a oportunidade de aprender de acordo com sua tradição original e não sob as formas que hoje em dia são difundidas no Ocidente - formas privadas de qualquer contraparte espiritual, graças ao domínio dessas atividades estarem ligados às formas sutis de disciplina interna e espiritual. Nos últimos tempos, certas corporações de estudantes da Europa Central, o Korpsstudenten praticaram o Mensur - ou seja, duelos cruéis, mas não fatais, seguindo normas precisas (com cicatrização faciais como marcas) - com o objetivo de desenvolver a coragem, firmeza, intrepidez , resistência a dor física. Enquanto certos valores de uma ética superior, da honra e da camaradagem foram privilegiados, evitando certos excessos eventuais, essas corporações ofereceram várias possibilidades. Mas tendo os contextos sócio-culturais desaparecidos, qualquer coisa desse tipo hoje em dia na Itália, é impensável.

A superabundância de energias também pode levar a várias formas de "ativismo" no domínio sócio-político. Nestes casos, um sério exame é essencial, em primeiro lugar para garantir que um eventual envolvimento com certas ideias que se opõem ao clima geral não são somente uma forma de gastar energia (ainda mais quando, em diferentes circunstâncias, até mesmo ideias muito diferentes poderiam servir ao mesmo objetivo): o ponto de partida e a força motor são uma verdadeira identificação com essas ideias, atingindo à base de um reconhecimento de seu valor intrínseco. Dito isto, em relação a qualquer tipo de ativismo, a dificuldade é que, mesmo se o tipo de juventude que nos referimos compreenda quais idéias valem a pena lutar, dificilmente poderiam encontrar, no clima atual, as frentes, partidos ou grupos políticos que verdadeiramente e intransigentemente defendem idéias desse tipo. Outra circunstância - dada a fase em que estamos atualmente, a luta contra movimentos políticos e sociais que hoje dominam possui poucas chances de alcançar resultados globais apreciáveis - tem pouco peso na análise final, porque aqui a norma deve ser fazer aquilo que deve ser feito, enquanto disposto a lutar, eventualmente, até mesmo por posições perdidas. De qualquer forma, afirmar hoje uma "presença" pela ação sempre será útil.

Quanto ao ativismo anarquista de mero protesto, este pode variar de certas manifestações violentas rotuladas como "pertencente ao underground", como aquelas dos jovens de certas nações (já discutimos o caso dos países do Norte da Europa onde reina o estado de "bem estar social"), até atos terroristas, como aqueles utilizados pelos anarquistas políticos niilistas da 'velha guarda'. Devemos excluir os motivos de certos 'beats', isto é, o desejo de uma ação violenta só por querer uma sensação que ela traz - mesmo no contexto de uma simples tomada de energias, tal ativismo parece infundado. Certamente, se pudessem organizar hoje uma espécie ativa de "Santo Vehm", capaz de manter os principais responsáveis pela subversão contemporânea em um estado de insegurança física contínua, seria algo excelente. Mas isso não é algo que os jovens possam organizar, e, além disso, o sistema defesa da atual sociedade é muito bem construído para que essas iniciativas não sejam interceptadas desde o início, e o preço pago é muito alto.

Um ponto final deve ser considerado. Na categoria de jovens que estamos atualmente discutindo, que, no contexto do mundo atual, podem ser definidos como "anarquistas de direita", encontramos alguns indivíduos que, ao mesmo tempo, com as perspectivas de realização espiritual que foram apresentadas por sérios proponentes do movimento tradicionalista, com referências as antigas doutrinas sapienciais e iniciáticas, possuem uma atração. Isso é algo muito mais sério que o interesse ambíguo exercido pelo irracionalismo de um mal entendido entre alguns 'beats' americanos, talvez somente por conta de uma diferente qualidade das fontes de informação. Tal atração é compreensível, se consideramos o vácuo espiritual que tem sido criado, após a decadência das formas religiosas que dominaram o ocidente e o questionamento de seu valor. Distinto destes, pode-se observar que existe uma aspiração a algo muito superior, e não por substitutos inúteis. No entanto, quando se fala da juventude, não devemos nutrir aspirações demasiadamente ambiciosas e distantes da realidade. Não é preciso somente ter a maturidade exigida; o que também deve ser levado em conta é o fato que o caminho que nós indicamos nos capítulos anteriores (XI e XV) requer, e sempre exigiu, um pré-condicionamento particular, algo semelhante ao que é conhecido como uma 'vocação', em um sentido específico, dentro das ordens religiosas. Sabe-se que nestas ordens uma certa quantidade de tempo é permitido para que o novato possa verificar a autenticidade de sua vocação. Aqui, devemos repetir o que dissemos antes sobre a vocação mais geral que se pode sentir como um jovem: é preciso verificar se ele se fortalece em vez de enfraquecer com a idade.

As doutrinas a que nos referimos não podem dar à luz as ilusões patrocinados pelas muitas formas impuras do neo-espiritualismo contemporâneo - teosofia, a antroposofia, etc - ou seja, a ideia de que o maior objetivo está dentro do alcance de todos, e a realização por este ou aquele expediente; ao contrário, deve antes aparecer como um distante divisor de águas, alcançado apenas por um longo caminho, difícil e perigoso. Apesar disso, podemos sempre indicar, para aqueles que nutrem um interesse sério, algumas tarefas preliminares e momentâneas. Em primeiro lugar, poderiam dedicar-se a uma série de estudos sobre sua visão geral da vida e do mundo, que é a contrapartida natural dessas doutrinas, de modo a adquirir uma nova formação mental, que corrobora de forma positiva o "não" que devem pronunciar a tudo o que existe hoje, e para eliminar as várias intoxicações graves pela cultura moderna. A segunda fase, a segunda tarefa, seria ultrapassar a fase puramente intelectual, fazendo um certo conjunto "orgânico" de ideias, que determinam uma orientação existencial fundamental e dar, assim, o sentimento de uma segurança indestrutível e inalterável. Um jovem que gradualmente chegou a esse patamar já teria ido muito longe. Pode-se deixar indeterminado o "sim" e o "quando" a terceira fase, em que, mantendo a tensão original, certos atos de "descondicionamentos" podem ser analisados em respeito ao limite humano. A este respeito, fatores imponderáveis entram em jogo e a única coisa razoável a se conseguir é uma preparação adequada. Esperar resultados imediatos em sua juventude é um absurdo.



Várias experiências nos convenceu que estas breves considerações e esclarecimentos finais não são desnecessários, embora, obviamente, dizem a respeito de um grupo bastante diferenciado da juventude não conformista: daqueles que com precisão perceberam o problema espiritual específico. Assim, temos ido muito além do que é comumente chamado de "o problema da juventude". O "anarquista de direita" pode ser concebido como um tipo suficientemente distinto e compreensível, em oposição à juventude estúpida, dos rebeldes "sem causa", e aqueles que se oferecem para a aventura, para realizar experiências que proporcionam nenhuma solução real, nenhuma contribuição positiva, uma vez que ainda não tem uma forma interna. Em todo rigor, pode-se objetar que essa forma é uma limitação, uma forma de escravidão e que contradiz com a pretensão inicial, a liberdade absoluta do anarquismo. Mas, uma vez que é bastante improvável que alguém que faça tal objeção tenha em mente a transcendência, no sentido real e pleno da palavra - o sentindo que este termo tem, por exemplo, na alta ascese - só é preciso responder que a outra alternativa diz respeito a uma juventude "queimada", de tal maneira que nenhum centro sólido resistiu a prova representada pela dissolução geral, pode muito bem ser considerada como um produto existencial puro da mesma dissolução, de modo que essa juventude se ilude muito em pensar que é realmente livre. Essa juventude, seja rebelde ou não, atrai pouco interesse de nós, e não há nada para ser feito com ela. Ela só pode servir como um estudo de uma patologia dentro de um quadro geral da época.

Julius Evola em L'Arco e la Clava (1968)