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sábado, 19 de julho de 2014

O Falso Amanhecer do Livre Mercado Global (por John Gray)


A política do laissez-faire que produziu a Grande Transformação na Inglaterra do século 19 foi baseada na teoria de que a liberdade do mercado é natural e as restrições políticas ao mercado são artificiais. A verdade é que o livre mercado é uma criação do poder do Estado e existe apenas enquanto o Estado for capaz de impedir que a necessidade humana de segurança e de controle dos riscos econômicos ganhe expressão política. 

Na ausência de um Estado forte voltado para a execução de um programa econômico liberal, o mercado será inevitavelmente sufocado por uma miríade de restrições e regulamento. Isto surgirá espontaneamente em resposta a problemas sociais específicos, não como elementos de qualquer grande projeto. Os parlamentares que aprovaram as Leis das Fábricas nos anos 1860 e 1870 não reconstruíram a sociedade ou a economia de acordo com um plano. Eles respondiam a problemas do dia-a-dia - perigo, miséria, ineficiência - assim que tomavam consciência deles. O laissez-faire desapareceu como inesperada consequência de uma multiplicidade de reações descoordenadas. 

Mercados controlados são norma em qualquer sociedade, ao passo que os mercados livres são produto de estratagemas, planos e coerção política. O laissez-faire deve ter um planejamento central; mercados regulamentados apenas acontecem. O livre mercado não é, como os pensadores da Nova Direita imaginaram ou afirmaram, o presente da evolução social. É um produto final da engenharia social e da vontade política obstinada. Ele foi exequível na Inglaterra do século 19 somente porque, e enquanto, as instituições democráticas em funcionamento eram deficientes. 

As implicações dessas verdades para o projeto de construção de um livre mercado mundial num período de governo democrático são profundas. É que as regras do jogo do mercado devem ser isoladas da deliberação democrática e da emenda política. A democracia e o livre mercado são rivais, não aliados.
 
A contrapartida natural da economia de livre mercado é uma política de insegurança. Se "capitalismo" quer dizer "livre mercado", então nenhuma visão é mais ilusória do que a crença de que o futuro reside no "capitalismo democrático". No curso normal da vida política democrática, o livre mercado sempre tem vida curta. Seus custos sociais são tais que não podem ser legitimados por muito tempo em qualquer democracia. Esta verdade é demonstrada pela história do livre mercado na Grã-Bretanha e isto é bem entendido pelos mais sagazes pensadores neoliberais que planejam fazer o livre mercado global. 

Aqueles que procuram projetar um livre mercado em escala mundial sempre insistiram que a estrutura legal que o define e fortalece deve ser posta fora do alcance de qualquer legislatura democrática. Estados soberanos podem filiar-se como membros da Organização Mundial do Comércio; mas é esta organização, e não a legislatura de qualquer Estado soberano, que determina o que deve ser considerado livre comércio e o que é restrição a ele. As regras do jogo do mercado devem ser colocadas acima de qualquer possibilidade de revisão através de escolha democrática. 

O papel de uma organização transnacional como a OMC é o de projetar mercados livres na vida econômica de qualquer sociedade. Ela o faz tentando forçar a adesão às regras que libertam o livre mercado dos mercados complicados ou engessados que existem em toda sociedade. As organizações transnacionais podem escapar ilesas somente na medida em que estejam imunes às pressões da vida política democrática. 
A descrição de Polanyi da legislação exigida para criar uma economia de mercado do século 19 ajusta-se com igual força ao projeto de livre mercado global de hoje em dia, como foi antecipado pela Organização Mundial do Comércio e entidades similares. 

Nada que iniba a formação de mercado deve ser permitido nem deve ser admitida que seja através de renda que não seja através de venda. Nem deve haver qualquer interferência em relação ao ajuste de preços para modificar as condições de mercado – sejam os preços das mercadorias do trabalho, da terra ou do dinheiro. Portanto, deve haver não apenas mercado para todos os produtos da indústria, como também não deve ser aprovado nenhuma medida ou política que possa influencias na ação desse mercado. Nem preço, nem oferta, nem procura devem fixados ou regulados; apenas cabem aquelas políticas e medidas destinadas a ajudar a garantir a auto-regulamentação do mercado pela criação de condições que façam do mercado a única força organizada da esfera econômica

Certamente, esta é uma fantasia irrealizável; sua busca, empreendida pelos organismos transnacionais, produziu desordem econômica, caos social e instabilidade política em países imensamente diferentes ao redor do mundo. Nas condições em que foi tentada no final do século 20 a reinvenção do livre mercado envolveu uma ambiciosa engenharia social em grande escala. Nenhum programa de reformas tem chance de êxito hoje, a menos que leve em conta que muitas das mudanças produzidas, aceleradas ou reforçadas pelas políticas da Nova Direta são irreversíveis.  Igualmente, nenhuma reação política às consequências dos planos de livre mercado será eficaz se não dominar as transformações econômicas e tecnológicas que tais planos foram capazes de utilizar. 

A reinvenção do livre mercado provocou profundas rupturas nos países em que foi tentada. As instituições políticas e socais que ela destruiu - os princípios de Beveridge na Grã-Bretanha e o New Deal de Roosevelt nos EUA - não podem agora ser reconstruídas. As economicas de mercado social da Europa continental não podem ser remodeladas como variações reconhecíveis da democracia social ou cristã do pós-guerra. Aqueles que imaginam que possa haver um retorno às "políticas normais" de administração econômica do pós-guerra iludem a si próprios e aos outros. 

Ainda assim, o livre mercado não teve sucesso em estabelecer para si o poder hegemônico projetado. Em todos Estados democráticos a supremacia política do livre mercado é incompleta, precária e, em pouco tempo, solapada. Ele não sobrevive facilmente a períodos de retração econômica prolongada. Na Inglaterra, as consequências inesperadas das próprias políticas neoliberais enfraqueceram o poder político da Nova Direita. A frágil coalização de setores do eleitorado e da área econômica que a Nova Direita mobilizou em defesa de suas próprias políticas logo se desfez. 



Contudo, a desordem da vida econômica e social hoje não é causada unicamente pelo livre mercado. Ultimamente decorre da banalização da tecnologia. As inovações tecnológicas ocorridas nos países ocidentais adiantados são logo copiadas em toda parte. Mesmo sem política do livre mercado, as econômicas dirigidas do período pós-guerra poderiam não ter sobrevivido - o avanço tecnológico as tornariam insustentáveis. 

As novas tecnologias tornam impraticáveis as políticas de pleno emprego tradicionais. O efeito das tecnologias da informação é o de levar a divisão social do trabalho a um fluxo permanente. Muitas ocupações estão desaparecendo e todos os empregos estão menos seguros. A divisão do trabalho na sociedade é agora menos estável do que foi desde a Revolução Industrial. O que os mercados globais fazem é transmitir essa instabilidade a toda economia do mundo e, agindo assim, tornam universal a nova política de insegurança econômica. 



O livre mercado não pode perdurar numa era em que a segurança econômica da maioria do povo está sendo reduzida pela economia mundial. O regime do laissez-faire está destinado a desencadear movimentos contrários que rejeitam suas características. Tais movimentos - sejam eles populistas e xenófobos, fundamentalistas ou neocomunistas - podem atingir poucas de suas metas; mas também podem destroçar ruidosamente a frágil estrutura que sustenta o laissez-faire mundial. Devemos aceitar que a vida econômica mundial não pode ser organizada como um livre mercado universal e que formas melhores de governar pela regulamentação global são inalcançáveis? Seria o nosso destino histórico uma anarquia moderna tardia? 

É necessário uma reforma da economia mundial que aceite a diversidade de culturas, regimes e economias de mercado como uma realidade permanente. O livre mercado global pertence a um mundo no qual a hegemonia ocidental parece assegurada. Como todas as variáveis da utopia iluminista sobre uma civilização universal, esta pressupõe a supremacia ocidental. Não se harmoniza com um mundo pluralista no qual não há poder que possa esperar exercer a hegemonia que a Grã-Bretanha, os Estados unidos e outros Estados ocidentais exerceram no passado. Não vai ao encontro das necessidades de um tempo no qual as instituições e os valores ocidentais não são mais universais. Não permite que as diversas culturas do mundo busquem modernizações adaptadas às suas histórias, circunstâncias e necessidades particulares. 

Um livre mercado global trabalha para jogar os Estados soberanos uns contra os outros em lutas geopolíticas por causa da diminuição dos recursos naturais. O efeito de uma filosofia laissez-faire que condena a intervenção estatal na economia é o de impelir os Estados a se tornarem rivais no controles de dos recursos, cuja conservação não é da responsabilidade de nenhuma instituição. 



Nem, evidentemente, uma economia mundial organizada como um livre mercado global vai ao encontro da universal necessidade humana de segurança. A raison d'être de qualquer governo é a capacidade de proteger seus cidadãos da insegurança. Um regime de laissez-faire global que impede os governos de cumprir esse papel protetor está criando as condições para uma instabilidade política, e econômica, ainda maior. 

Nas economias avançadas, competente e engenhosamente controladas, podem ser encontrados caminhos nos quais os riscos impostos aos cidadãos pelos mercados mundiais possam ser reduzidos. Nos países mais pobres, o laissez-faire global produz regimes fundamentalistas e funciona como um catalisador para a desintegração do Estado moderno. Em nível mundial, bem como no de Estado-nação, o livre mercado não promove estabilidade ou democracia. O capitalismo democrático mundial é uma condição tão irrealizável quanto o comunismo mundial. 

sábado, 15 de março de 2014

A Herança Positivista na Economia Moderna (por John Gray)

Nenhum dos economistas clássicos acreditava que a matemática deveria ser modelo de alguma ciência social. Para Adam Smith e Adam Ferguson, a economia baseava-se na história. Estava inextricavelmente ligada ao surgimento e ao declínio das nações e à luta pelo poder entre diferentes grupos sociais. Para Smith e Ferguson, a vida econômica só pode ser entendida pelo exame desses acontecimentos históricos. De um modo diferente, o mesmo vale para Marx. Desde o surgimento do positivismo nas ciências sociais, esta tradição praticamente desapareceu.

O desencaixe entre a economia e a história levou a um irrealismo generalizado na disciplina. Os economistas clássicos sabiam que as leis do mercado são apenas condensações do comportamento humano. Como tais, têm limitações de todos os tipos de conhecimento histórico. A história demonstra uma boa regularidade do comportamento humano. Também mostra a variedade suficiente para tornar a busca de leis universais um esforço inútil. É duvidoso que várias formas de estudos sociais contenham uma única lei que esteja no mesmo nível daquelas das ciências físicas. Mas em anos recentes as “leis da economia” tem sido invocadas para sustentar a ideia de que um estilo de comportamento – a variedade do “livre mercado” encontrada de modo intermitente nos últimos séculos num punhado de países – deveria ser o modelo para a vida econômica por toda parte.

A teoria econômica não pode demostrar que o livre-mercado seja o melhor tipo de sistema econômico. A ideia de que os mercados livres constituem o modo mais eficiente de vida econômica é um dos pilares intelectuais da campanha por um livre mercado global, mas há muitas formas de definir eficiência, nenhuma delas desprovida de valor. Para os positivistas, a eficiência de uma economia media-se em termos de sua produtividade. Com certeza o livre-mercado é mais produtivo. Mas como Saint-Simon e Comte entendiam muito bem, isso não significa que seja humanamente satisfatório.

A ideia que o livre-mercado deveria ser universal só faz sentido caso se aceite uma determinada filosofia da história. Sob o impacto do positivismo lógico, a economia transformou-se numa disciplina totalmente não histórica. Ao mesmo tempo, incorporou uma filosofia da história que deriva de Saint-Simon e Comte.

Segundo o positivismo, a ciência é o motor da mudança histórica. A nova tecnologia expulsa os modos ineficientes de produção e engendra novas formas de vida social. Este processo está em ação no decorrer da história. Seu ponto final é um mundo unificado por um só sistema econômico. O resultado extremo do conhecimento científico é uma civilização universal, governada por uma moralidade secular, “terrestre”.

Para Saint-Simon e Comte, tecnologia significava ferrovias e canais. Para Lenin, eletricidade. Para os neoliberais, Internet. A mensagem é a mesma. A tecnologia, aplicação prática do conhecimento cientifico, produz uma convergência de valores. Este é o mito básico moderno, que os positivistas propagaram e todos hoje aceitam como fato.

De certa maneira, os positivistas eram mais sábios que seus discípulos do século XX. A ideia de que a produtividade máxima é o objetivo da vida econômica é uma das heranças mais generalizadas e perniciosas do positivismo; mas é uma ideia que Saint-Simon e Comte não sustentaram o tempo todo. Sabiam que os seres humanos não são apenas animais econômicos. Conforme a expansão do conhecimento se acelera, acreditavam, a manutenção dos laços sociais, torna-se ainda mais necessária.

Em seu lado melhor, Saint-Simon e Comte não eram dogmáticos. Sabiam que a vida humana é extremamente complicada, tanto que o que é bom numa sociedade pode ser ruim em outra. Como Voltaire, compreendiam que no mundo real da história humana o melhor regime não é o mesmo por toda parte. Na prática, se não na teoria, os positivistas aceitavam que existe mais de um modo de ser moderno. 

Falta aos arquitetos do livre-mercado global este sábio relativismo político. Para eles, apenas a irracionalidade impede que o melhor regime se torne universal. Ainda assim, o mundo que imaginam estar construindo é, inegavelmente, aquele vislumbrado pelos positivistas. Num trecho famoso do final de sua Teoria Geral (1936), Keynes escreveu:



(...) as ideias dos economistas e dos filósofos políticos, quando estão certos e quando estão errados, são mais poderosas do que em geral se acredita. Na verdade, o mundo é governado por pouca coisa a mais. Os homens práticos, que se consideram isentos de quaisquer influências intelectuais, costumam ser escravos de algum economista falecido. Loucos com autoridade, que ouvem vozes no ar, estão destilando o frenesi de algum escrivão acadêmico de alguns anos antes.


Keynes escrevia numa época em que a política pública era governada por teorias econômicas desatualizadas. Hoje ela é governada por uma religião falecida. Vincular figuras exóticas como Saint-Simon e Comte aos burocratas insípidos do Fundo Monetário Internacional pode parecer fantasioso, mas a ideia da modernização a qual o FMI adere é uma herança positivista. Os engenheiros sociais que labutam para instalar mercados livres em cada cantinho perdido do globo veem-se como racionalistas científicos, mas na verdade são discípulos de um culto esquecido.


John Gray em "Al-Qaeda e o que significa ser moderno"

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ortodoxia, Direitos Humanos e Marxismo (por Vladimir Moss)


As Origens da Filosofia: Lei Natural


A filosofia moderna dos direitos humanos é uma teoria da moralidade universal que liga todos os homens, todas as instituições e estados independentemente da existência de Deus ou de qualquer legislador pessoal. 

As raízes desta filosofia reside na ideia ocidental medieval da lei natural. Esta nasceu a partir da necessidade de colocar limites em duas instituições que, de formas diferentes, se julgavam estar acima da lei: o Sacro Império Romano e o Papado Romano.


De acordo com a lei romana, o imperador estava acima da lei, ou libertos de leis humanas (Legibus solutus), na medida em que "aquilo que agrada ao Príncipe tem vigor de lei". Mas, se ele rompe suas próprias leis, quem iria julgá-lo e quem iria impedi-lo de criar outra lei com intuito de fazer sua transgressão anterior legal? O papa era igualmente considerado acima da lei - ou seja, livre das disposições do direito canônico. Esta era uma consequência de seu "poder absoluto" (potestas absoluta), pois se ele pecasse contra o direito canônico, ou caso torna-se um herege, quem iria julgá-lo, se não o especialista supremo sobre o assunto, o próprio papa? E quem poderia julgá-lo se ele se recusasse a julgar a si mesmo?

No entanto, embora o Rei possa ser libertado das leis do Estado, e o papa libertado do Direito Canônico da Igreja, ambos estavam, teoricamente, sujeitos a um outro tipo de direito. Esta lei superior foi chamada pelos teóricos medievais da lei natural. A lei natural é definida pelo historiador medieval da filosofia escolástica Pe. Frederick Copleston como "a totalidade das ordens universais da razão pertinentes a natureza do homem, onde o bem deve ser buscado e o mal ser evitado". 

Mas esta definição levanta a questão: como sabemos o que é "razão correta"? E o que é "o bem da natureza humana"? A resposta dada pelos teólogos medievais, de acordo com JS McClelland, era mais ou menos a seguinte: "Para uma máxima de moralidade ou uma máxima de um bom governo ser parte da lei natural, essa tem que ser consistente com a escritura, com os escritos dos Padres da Igreja, com o pronunciamento papal, com o que dizem os filósofos, e também devem ser consistentes com as práticas comuns da humanidade, tanto cristãs e não cristãs".

Mas isso, também, levanta várias questões. O que devemos fazer se "pronunciamento papal" contradizer "os escritos dos Padres da Igreja" (como costuma acontecer)? E "o que os filósofos dizem" provavelmente não estaria ainda mais em desacordo com os Santos Padres? E "as práticas comuns da humanidade, tanto cristãs e não cristãs" um conceito extremamente vago e discutível?

E é, de facto; e é por isso que, mesmo na sua versão mais moderna e secularizada, a filosofia da lei natural, ou direitos humanos, tem-se mantido extremamente vaga e discutível. Mas isso não impede, tanto naquela época como agora, que esse conceito seja uma arma muito poderosa nas mãos daqueles que, por um motivo ou outro, querem derrubar a hierarquia vigente ou sistema de moralidade. Vemos isso até mesmo em Tomás de Aquino, o maior dos escolásticos e um filho fiel da Igreja Católica Romana. Ele definiu a relação entre a lei natural e as leis feitas pelo homem da seguinte forma: "Toda lei estabelecida pelo homem tem natureza de lei na medida em que deriva da lei da natu­reza. Se, pois, discordar em alguma coisa, da lei natural, já não será lei, mas corrupção dela."

A primeira aplicação importante do princípio da lei natural veio durante a crise da Magna Carta na Inglaterra. Papa Inocêncio III havia colocado toda a Inglaterra sob proibição porque o Rei João discordava dele sobre quem deve ser o arcebispo de Canterbury. Ele excomungou Rei João, depuseram-no do trono e sugeriu ao Rei Filipe Augusto da França para que ele invadisse e conquistasse a Inglaterra. João apelou para a mediação papal para salvá-lo de Philip. Ele a recebeu, mas a um preço - a restituição completa dos fundos e terras da igreja, concessão perpétua das terras da Inglaterra e Irlanda para o papado, e ao pagamento de uma renda anual de mil marcos. Só quando todo o dinheiro havia sido pago, a proibição foi suspensa. E então, como Peter De Rosa coloca com acidez: "por gentil permissão do Papa Inocêncio III, Cristo foi capaz de entrar na Inglaterra novamente" No entanto, isso enfureceu o Rei Filipe; pois ele agora havia sido ordenado a abandonar seus preparativos para a guerra e não mais tinha permissão para invadi-las, pois agora não era Inglês, mas solo papal. Além disso, a rendição miserável de João ao Papa, e o juramento de fidelidade que havia feito, despertou os temores dos barões ingleses, cujas demandas levou à famosa Carta Magna de 1215 que limitava os poderes do Rei e é geralmente considerada como o início da democracia ocidental moderna. Assim, o despotismo do Papa provocou o início da democracia parlamentar...

Agora, com a Carta Magna, havia limitação do poder Real, não o poder Papal. No entanto, isso afetou também o papado: em primeiro lugar, porque a Inglaterra deveria ser um feudo papal, mas, ainda mais importante, foi o fato de haver agora precedente perigoso, revolucionário, que poderia ser usado contra o próprio Papa. E assim, Papa Inocêncio III "da plenitude de seu poder ilimitado" condenou a carta como "contrária à lei moral", "nula e sem validade de tudo eternamente", absolveu o rei da obrigação de segui-la e excomungou "qualquer pessoa que continuasse a manter tal traição e pretensões iníquas. "

Mas o Arcebispo Stephen Langton de Canterbury se recusou a publicar esta sentença. E a razão que ele deu foi muito significativa: "A lei natural é vinculativa para os papas, príncipes e bispos da mesma forma: não há como escapar dela. Ela está além do alcance do próprio papa."

E assim, a doutrina da lei natural abriu o caminho para o povo julgar e destituir os papas e reis. No entanto, ao longo do período medieval e no início do período moderno, a lei natural permaneceu ligada ao cristianismo e as normas cristãs de comportamento. E desde que o cristianismo em geral não favorece a rebelião contra os poderes constituídos, o potencial revolucionário completo do conceito ainda não estava realizado.



Da Lei Natural aos Direitos Humanos

Primeiro, o conceito de lei natural precisou ser desenvolvido. A primeira questão foi: se a lei natural existe, quem é o legislador? Ou, se não houver um legislador, qual é a sua base na realidade? A segunda questão: supondo que exista uma base real para lei natural, em oposição ao Divino, ou eclesiástico, ou do estado, o que ela prescreve? Em particular, uma vez que toda lei implica direitos e obrigações, quais são os direitos e obrigações legislados pela lei natural, e para quem são dadas?

Considerável "progresso" em responder a estas perguntas foi feita no início do período moderno. Durante a Renascença, o interesse começou a ser focado na natureza do homem, e, em particular, a liberdade homem e dignidade - uma base promissora, na visão do homem do Renascimento, para uma teoria da lei natural. Assim, Leonardo da Vinci escreveu: "O principal bem da natureza é a liberdade". Mais uma vez, Pico della Mirandola escreveu em sua Oração sobre a Dignidade do Homem:  "O sublime generosidade de Deus Pai! Ó felicidade maior e mais maravilhosa do Homem! Para ele, foi concedido a ser o que ele quer. O Pai dotou-o de todos os tipos de sementes e com os germes de todas as formas de vida. Seja qual for a semente que cada homem cultiva, esta vai crescer e dar frutos nele ". Assim, o homem é supostamente concedido "para ser o que ele quer" ... Mas ele está? Será que, na verdade, ele não está restrito em todas as formas em que ele queira ser?  Se por liberdade do homem, queremos dizer o livre arbítrio, então sim, o homem tem livre-arbítrio. A criação do homem por Deus, em Sua imagem, significa que o homem nasceu com a liberdade e racionalidade à imagem da Racionalidade e Liberdade de Deus. Mas isso é de modo algum igual à capacidade de "crescer os germes de todas as formas de vida" em si mesmo. Pode um homem estúpido "crescer os germes" de um gênio dentro de si?

No entanto, a ideia de que o homem "nasce livre" se tornou agora um lugar-comum do pensamento político, e também a base para muitas conclusões de longo alcance sobre a vida e a moralidade. Se o homem nasce livre, então ele não é pela natureza, sujeito a nenhum poder externo, quer seja Deus, a Igreja, o Estado ou a Família. E uma vez que ele é assim por sua natureza, ele o direito de permanecer assim...

Se há um homem que pode ser considerado o criador da filosofia moderna, não-cristã e não religiosa dos direitos humanos, esse homem, provavelmente é o jurista holandês do século XVII, Hugo Grotius (1583-1645). Grotius estava escrevendo sob a influência das guerras religiosas entre católicos e protestantes, e também as guerras comerciais entre as nações europeias, como a Inglaterra, Holanda e França.  Ele queria encontrar uma maneira de regular as guerras de acordo com princípios que fossem universalmente aceitos. Como a maioria dos homens de sua época, ele era um cristão, e até mesmo escreveu uma obra popular, "Sobre a Verdade da Religião Cristã". No entanto, em sua obra mais influente, sobre o Direito de Guerra e Paz, ele deixou escapar uma frase que apontaria o caminho para uma teoria do direito internacional e dos direitos humanos, que era completamente independente da moral ou teologia: "Até mesmo a vontade de um ser onipotente", escreveu ele, "não é possível alterar ou revogar" a lei natural, que "manteria sua validade objetiva mesmo que se assumíssemos o impossível, que não há Deus ou que Ele não se importa com assuntos humanos"(Prolegômenos XI).      

De acordo com Grotius, portanto, a lei natural é a verdade mais objetiva, mais objetiva, se fosse possível, que a existência de Deus ou o cuidado de Deus para o mundo. Assim sendo, teoricamente, se lei natural diz que algo é certo, ao passo que Deus diz que é errado, devemos nos ater à lei natural. Claro que, se lei natural deriva, em última análise de Deus, não haverá nunca qualquer conflito entre a lei Divina e a lei natural; mas Grotius aparece aqui para prever a possibilidade de um mundo com a lei natural, mas sem Deus. 
Direitos Humanos e a Revolução Francesa

Vamos avançar agora para a Revolução Francesa e da "Declaração dos Direitos, que Homem e do Cidadão", que se tornou sua fundamento teórico:
     “’I. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
      II. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
       III. O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
        IV. A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo.
        V. A lei proíbe senão as ações nocivas à sociedade…”

Não houve menção na Declaração dos direitos das mulheres. Mas, em   "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" (1791), Olympe de Gouges escreveu: "1. Mulher nasce livre, e continua a ser igual ao Homem na direitos ... 4. Os exercícios dos direitos naturais da mulher não encontra outros limites senão na tirania perpétua que o homem lhe opõe... 17. As propriedades pertencem a todos os sexos, reunidos ou separados". Mais uma vez, em "Uma defesa dos Direitos da Mulher" (1792), Mary Wollstonecraft negou que houvesse qualquer qualidades especificamente femininas: "Eu aqui jogo fora minhas luvas, e nego a existência de virtudes sexuais, sem excetuar a modéstia" E havia outro elementos.  Assim, o artigo XXI da Declaração revisada de 1793, declarou: "A assistência pública é uma obrigação sagrada [dette]. A sociedade deve a subsistência aos cidadãos desafortunados, quer para encontrar trabalho para eles, ou para assegurar os meios de sobrevivência daqueles incapazes de trabalhar ".

 Papa Pio VI condenou a Declaração dos Direitos Humanos. Em particular, ele condenou a ideia de "liberdade absoluta", a liberdade "que não só garante às pessoas o direito de não ser incomodadas sobre suas opiniões religiosas, mas também lhes dá licença para pensar, escrever e de imprensa, sendo assim permitindo a impunidade sobre tudo o que a imaginação mais desregrada pode sugerir sobre religião. É um direito monstruoso..." Assim Deus, disse o Papa, também possui direitos: “O que é mais contrário aos direitos do Criador que essa ‘liberdade de pensamento e ação em que a Assembleia Nacional concede ao homem como um direito inalienável da natureza’?”

 Existem duas inovações nesta filosofia revolucionária. Em primeiro lugar, a fonte de autoridade na sociedade é anunciada não ser Deus, nem alguma autoridade política existente, mas "a nação". Portanto as nações devem ser consideradas como agentes livres com direitos, e a fonte de todos os direitos particulares em suas próprias sociedades.

Mas o que constitui a nação? A essência da nação, e a fonte de seus direitos, é o que Rousseau chamou de "Vontade Geral" - um termo muito vago e que ninguém pode afirmar representar. Ao mesmo tempo, esta "nação" ou "Vontade Geral" atribui a si o poder mais completo, de modo que "nenhum homem e nenhum indivíduo pode exercer autoridade que não emana dela diretamente." Isto imediatamente destrói a autoridade, não só do Rei, mas também da Igreja - e, na verdade, de todas as outras pessoas.

A segunda inovação é o conceito que "direitos" que são "imprescritíveis" - isto é, prescritos nem por Deus nem pelo homem. O homem, de acordo com a Declaração, tem o "direito" imprescritível de fazer qualquer coisa que ele gosta - desde que ele não prejudique os outros (artigo 4 º). No entanto, esta última possibilidade não está elaborada e foi, na prática, completamente ignorada na tradição revolucionária francesa. Assim, o homem é, em princípio, livre para fazer qualquer coisa que seja. A única limitação na sua liberdade é a liberdade de outro: o seu direito de não ser limitado ou restringido por ele. 




Direitos Humanos no Século XX


O século XX testemunhou importantes desenvolvimentos na filosofia dos direitos humanos. A mais importante delas foi a localização da fonte dos direitos humanos; não no poder soberano da nação ou o Estado-nação, como a Declaração Francesa dos Direitos Humanos havia decretado, mas em alguma esfera supra-nacional. Ao admitir-se que os direitos humanos são universais, tem-se, por consequência, a necessidade que sejam enquadrados em termos gerais aplicáveis a todos homens e mulheres; dessa forma, localizar sua obrigatoriedade em lugares que não seja supra-nacional ou em uma esfera-metafísica, mas em nações particulares ou estados - que, muito frequentemente, discordam entre si - parece não fazer sentido. 

O problema é que se levarmos esse argumento à sua conclusão lógica, parece implicar que todos os Estados nacionais deveriam abrir mão de seus direitos e entregá-los a um governo mundial, Que por si só pode imparcialmente formular direitos humanos e observar se serão cumpridos. Esta lógica parece ser reforçada pelas duas primeiras guerras mundiais, que tendo desacreditado o nacionalismo, conduziu às primeiras organizações internacionais com poderes legais, ainda que embrionários, acima dos Estados-Nação - a Liga das Nações e as Nações Unidas.


Um dos primeiros a formular este desenvolvimento foi o judeu vienense e professor de Direito, Hans Kelsen, em sua obra, A Teoria Pura do Direito. "A essência de sua teoria," de acordo com Michael Pinto-Duschinsky era que a obrigação de obedecer à lei não deriva da soberania nacional, mas a partir de uma norma fundamental. “Em termos práticos, isto conduziu, após a Primeira Guerra Mundial, para sua defesa em tribunal constitucional austríaco, como parte da constituição e, depois da Seguida Guerra Mundial, o apoio da ideia de uma corte internacional com jurisdição obrigatória era fundamental no contexto das Nações Unidas.”

Outro acadêmico judeu austríaco na mesma tradição foi Hersch Lauterpacht. Sua dissertação "combinou seus interesses em jurisprudência e sionismo com um argumento sobre os mandatos concedidos pela Liga das Nações que implicava que o mandato dado a Grã-Bretanha para governar a Palestina não lhe dava soberania. Pelo contrário, isto levou, argumentou Lauterpacht, as Ligas das Nações que... 

"Apesar do fracasso da Liga das Nações para evitar a agressão nazista e do assassinato de sua família no Holocausto na Segunda Guerra Mundial, Lauterpacht permaneceu ligado às noções de uma ordem jurídica internacional. Antes de sua morte prematura, em 1960, serviu como juiz no Tribunal Internacional de Haia. Lauterpacht era dedicado à visão básica de que direitos humanos fundamentais são superiores as leis de estados internacionais e que essas seriam protegidas por sanções penais internacionais mesmo que as violações estivessem em conformidade com as leis nacionais vingentes. Ele aconselhou os promotores britânicos neste ponto. Juntamente com outro advogado judeu de Lviv, Raphael Lemkin, Lauterpacht teve um papel importante no trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1948. 

"A filosofia pública de Lauterpacht estava baseado na convicção de que os indivíduos têm direitos que não resultam do Estado-Não. Ele era um internacionalista que, ao longo de sua vida, tinha uma desconfiança na soberania do Estado que, para ele, refletia as agressões e injustiças cometidas pelos Estados-Nação e os desastres das duas guerras mundiais".

No entanto, como Pinto-Duschinsky sublinha com razão, enquanto "arbitragem internacional pode ser uma maneira prática e pacífica para resolver disputas entre países, ... tribunais internacionais que clamam jurisdição sobre países individuais não coexistem confortavelmente com as noções de soberania nacional..."

A despeito disso, e apesar da terrível destruição e derramamento de sangue causado pela idéia de liberdade positiva no período 1917-1945, em 1948 as Nações Unidas publicaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que declarou: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade." A Declaração afirma que "o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo." Embora possa parecer inofensivo, mesmo uma leitura superficial da história desde 1789 deveria convencer aqueles que elaboraram a Declaração a serem mais específico sobre o significado das palavras "liberdade" "direitos".  Eles deveriam saber que declarações muito semelhantes serviram como fundamento à Revolução Francesa e também a quase todas as outras revoluções sangrentas até a Revolução Russa, que naquele momento ainda estava destruindo milhões de almas em nome do "espírito de fraternidade"...

Por falar em direitos humanos, no contexto do capitalismo global, John Gray escreve: "Os fundamentos filosóficos desses direitos são frágeis e mal construídos. Não existe uma teoria credível na qual as liberdades particulares do capitalismo desregulamentado possam haver legitimidade dos direitos universais." As concepções mais plausíveis de direitos não se baseiam em ideias de propriedade do século XVII, mas em noções modernas de autonomia. Mesmo estes não são universalmente aplicáveis; eles capturam a experiência apenas daquelas culturas e indivíduos para quem o exercício da escolha pessoal é mais importante do que a coesão social, o controle de risco econômico ou qualquer outro bem coletivo.

"Na verdade, os direitos nunca são fundamentos na teoria moral, política - ou prática. Eles são conclusões, resultados finais de longas cadeias de raciocínio a partir de princípios comumente aceitos. Direitos têm pouca autoridade ou conteúdo na ausência de uma vida ética comum. Eles são convenções duráveis somente quando expressam um consenso moral. Quando há uma discordância ética profunda e ampla, o apelo aos direitos não pode resolver. Na verdade, talvez faça tal conflito perigosamente incontrolável.

“Procurar por direitos para arbitrar profundos conflitos - em vez de tentar moderara-los através de compromissos políticos - é uma receita para uma guerra civil a longo prazo..."

Há um argumento plausível que a filosofia dos direitos humanos foi inventada pelos marxistas como outra forma de minar a sociedade, já que o colapso previsto por Marx não se concretizou. Assim, como Bernard Connolly escreveu, em 1923, um dos fundadores da Escola de Frankfurt de filosofia social "refletiu sobre o fracasso do "proletariado urbano" em criar revoluções bem-sucedidas em países economicamente avançados na forma prevista por Marx. Para combater esse fracasso era necessário, proclamou, "Organizar os intelectuais e usá-los para destruir a civilização ocidental. Só então, depois de terem corrompido todos os seus valores e ter feito a vida impossível, podemos impor a ditadura do proletariado". Corromper os valores da civilização ocidental significava minar e, finalmente, proibir todas as instituições, tradições, estruturas e modos de pensamento ('ferramentas de opressão") que sustentaram a civilização. Uma vez que a soberania nacional e a legitimidade política fossem removidos do caminho, seria muito mais fácil para que um governo central, inexplicável e nefasto ("politicamente correto") proibisse todos os outros fundamentos da civilização." 

Melanie Phillips endossou o pensamento de Connolly, descrevendo o ataque da filosofia dos direitos humanos à cultura cristã tradicional na Grã-Bretanha como "marxismo cultural", a continuação da revolução marxista por outros meios, desde a queda do Muro de Berlim, em 1989: 

"À medida que o comunismo desintegrou-se vagarosamente, os da extrema esquerda que permaneceram hostis para a civilização ocidental encontrou uma outra maneira de realizar seu objetivo de derrubá-la. 

"Isso foi o que poderia ser chamado de "marxismo cultural ". Foi com base no entendimento de que o que mantém a sociedade de pé, são os pilares de sua cultura: as estruturas e as instituições de educação, família, direito, mídia e religião. Transforme os princípios e você pode, assim, destruir a sociedade que fora moldada por eles. 

"A chave da compreensão foi desenvolvido em especial, por um filósofo marxista italiano chamado Antonio Gramsci. Seu pensamento foi retomado por radicais nos anos sessenta - que são, é claro, a geração que detém o poder no Ocidente hoje.

"Gramsci compreendeu que a classe trabalhadora nunca se levantaria para se apossar dos meios de "produção, distribuição e troca ", como o comunismo tinha profetizado. A economia não era o caminho para a revolução.

"Ele acreditava, em vez disso, que a sociedade poderia ser derrubada se os valores que a sustentam pudessem ser formado em sua antítese: se seus princípios fundamentais fossem substituídos por aqueles de grupos que eram considerados estranhos ou que ativamente transgredissem os códigos morais da sociedade.

"Então, ele defendeu uma "longa marcha através das instituições" para capturar as cidadelas da cultura e transformá-las em uma quinta coluna coletiva, minando por dentro e deixando todos os valores fundamentais da sociedade de cabeça para baixo.

"Essa estratégia tem sido realizado ao pé da letra.

"A família nuclear tem sido amplamente destruída. A ilegitimidade foi transformada de um estigma em um "direito". A desvantagem trágica da ausência de um pai foi redefinida como algo neutro, uma "opção de vida". 

"A educação foi destruída, tendo seu princípio central, a transmissão de cultura para as gerações seguintes, sido substituído pela ideia de que as crianças já sabiam o que carregava valores superiores a qualquer coisa que o mundo adulto pudesse impingir neles. 

"O resultado desta abordagem "centrada na criança" tem sido o analfabetismo generalizado, ignorância e a erosão da capacidade de pensamento independente.      

"A lei e a ordem foram igualmente prejudicados, com criminosos sendo considerados acima de qualquer punição, uma vez que são considerados "vítimas" da sociedade e das drogas ilegais - assim, tacitamente encorajando uma campanha para denegrir as leis anti-drogas.

"A agenda de 'direitos' - vulgarmente conhecido como" politicamente correto "- virou moralidade dentro para fora, dispensando qualquer ação ilegal por parte de grupos de autodesignados "vítimas ", alegando que nunca poderiam ser responsabilizado pelo que fizeram.

"O feminismo, anti-racismo e direitos dos homossexuais, portanto, transformou os Cristãos em inimigos do pudor ao serem forçados a saltar obstáculos para provar a sua virtude.

"Essa mentalidade se baseia na crença de que o mundo está dividido entre os poderosos (que são responsáveis por todas as coisas ruins) e oprimidos (que são responsáveis por nenhum deles).

"Esta é uma doutrina marxista. Mas a medida em que tal pensamento marxista foi absorvido involuntariamente até mesmo pelo Estabelecimento, esse foi ilustrado pela observação surpreendente feita em 2005 pelo então sênior, Lord Bingham, que a lei de direitos humanos era toda sobre a proteção das minorias 'oprimidas' da maioria ...

"Quando o Muro de Berlim caiu, nós dissemos a nós mesmos que este era o fim daquela ideologia. Não poderíamos ter sido mais enganados.

 “A Cortina de Ferro caiu apenas para ser substituída por um soco inglês em tom de arco-íris, pois, na medida em que nossos comissários culturais pulverizaram todas as atitudes proibidas, a fim de remodelar sociedade ocidental em um universo pós-democrático, pós-cristão e além das morais. Lenin teria sorrido..."

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Transgressão Como Cura

O capitalismo contemporâneo é prodigiosamente produtivo mas o que lhe impulsiona hoje não é mais a produtividade. A principal ameaça dos nossos tempos é a perda de desejos. Com desejos rapidamente saciados, a economia se torna dependente da produção constante de necessidades cada vez mais exóticas. 

Não é novidade que a prosperidade depende do estimulo da demanda. O que é novo é que não se pode continuar sem inventar novos vícios. A economia é impulsionada pela novidade permanente e sua saúde passou a depender da fabricação da transgressão. [...] Novas experiências se tornam obsoletas mais rapidamente do que as as mercadorias físicas.

 […]



Nas palavras de J.H. Prynne:
Os novos vícios são a prevenção contra a perda do desejo. Ecstasy, Viagra, os salões de S-and-M de Nova York e Frankfurt não são apenas auxiliares para o prazer. Eles são antídotos contra o tédio. Em um momento em que a saciedade é uma ameaça à prosperidade, prazeres que foram proibido no passado tornaram-se alimentos básicos da nova economia.

[…]




Em seu romance Noites de Cocaína, J. G. Ballard
 “Nossos governos estão se preparando para um futuro sem trabalho...  As pessoas vão trabalhar, ou melhor, algumas pessoas vão trabalhar, mas apenas por uma década de suas vidas. Eles vão se aposentar em seus trinta e tantos anos, com 50 anos de ociosidade na frente deles.. Um bilhão de varandas de frente para para o sol.”




Só a emoção fornecida pelo proibido pode aliviar a carga da vida tediosa:

“Só uma coisa pode animar as pessoas... criminalidade e comportamento transgressor – não precisa ser atividades que sejam necessariamente ilegais, mas atividades que nos provoque e pressione a nossa necessidade de emoções fortes, acelerar o sistema nervoso e  acelerar as sinapses amortecidas por ócio e inação.”
 […]

Em um romance mais recente, Super-Cannes, Ballard retrata uma comunidade empresarial em um modelo “Eden-Olímpco”, onde o tédio dos executivos é tratado com um regime de "violência cuidadosamente doseada, uma microdose de loucura, como os vestígios de estricnina em um nervo tônico”. O remédio para o trabalho sem sentido é um regime terapêutico da violência insensata - lutas de rua cuidadosamente coreografadas, assaltos, roubos, estupros e outras recreações ainda mais anti-convencionais.
Hoje, a dose de loucura que nos mantêm sãos é fornecido pelas novas tecnologias. Qualquer pessoa on-line tem uma oferta ilimitada de sexo virtual e violência. Mas o que vai acontecer quando acabar os novos vícios? Como iremos saciar e mitigar a ociosidade quando sexo virtual, drogas e violência não venderem mais? Nesse ponto, possamos ter a certeza, a moral vai voltar à moda. Não estamos longe de uma época em que a "moralidade" será comercializada como um novo tipo de transgressão.

John N. Gray no livro Cachorros de Palha


sábado, 6 de julho de 2013

Ateísmo: A última Consequência do Cristianismo

Descrença é um movimento num jogo cujas regras são definidas pelos crentes. Para negar a existência de Deus é necessário aceitar as categorias do monoteísmo. Conforme essas categorias caem em desuso, a descrença torna-se desinteressante, e logo não faz sentido. Os ateus dizem que querem um mundo secular, mas um mundo definido pela ausência do deus dos cristãos ainda é um mundo cristão. O secularismo é como a castidade, uma condição definida por aquilo que ele nega. Se o ateísmo tem um futuro, ele só pode estar em um avivamento do cristianismo, porém, a verdade é que o cristianismo e o ateísmo estão declinando juntos.

O ateísmo é um florescimento tardio de uma paixão cristã pela verdade. Nenhum pagão está pronto para sacrificar o prazer da vida em prol de uma simples verdade. É ilusão astuta, não uma realidade sem enfeites, o prêmio. Entre os gregos, o objetivo da filosofia era a felicidade ou a salvação, não a verdade. O culto da verdade é um culto cristão.

Os antigos pagãos tiveram razão em se espantarem diante a fervor grosseiro dos primeiros cristãos. Nenhuma das religiões de mistério em que o mundo antigo abundavam afirmou que os cristãos alegou - que todas as outras religiões estavam erradas. Por isso mesmo, nenhum de seus seguidores jamais poderia tornar-se um ateu. Quando os cristãos insistiram em que só eles possuíam a verdade, condenavam a luxúria do mundo pagão de forma condenatória.


Em um mundo de muitos deuses, a descrença nunca pode ser total. Só pode ser a rejeição de um deus e aceitação de outro, ou então - como em Epicuro e seus seguidores - a convicção de que os deuses não importa, já que eles há muito que deixaram de se preocupar com assuntos humanos.

Cristianismo golpeou a raiz da tolerância pagã da ilusão. Ao afirmar que só existe uma verdadeira fé, deu a verdade um valor supremo que não tinha antes. Além disso fez a descrença do divino possível, pela primeira vez. A consequência ao longo prazo da fé Cristã foi uma idolatria da verdade que encontrou sua expressão mais completa no ateísmo. Se vivemos em um mundo sem deuses, temos o cristianismo para agradecer por isso.

John N. Gray no livro Cachorros de Palha


sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Erro do Progresso

John N. Gray no livro Cachorros de Palha

Para George Bernard Shaw, a Alemanha nazista não era uma ditadura reacionária, mas um herdeiro legítimo do Iluminismo europeu.


O Nazismo era um retalho de idéias, incluindo as filosofias ocultistas que eram contrárias a ciência moderna. Mas enganam-se aqueles que este seja inequivocamente hostil ao Iluminismo. Na medida em que foi um movimento dedicado à tolerância e à liberdade pessoal, Hitler abominava o Iluminismo. Ao mesmo tempo, como Nietzsche, ele compartilhou a ideia que o Iluminismo trouxe grandes esperanças para a humanidade. Através da eugenia positiva e negativa - a criação de humanos de elevada qualidade e eliminando aqueles julgados inferior - a humanidade se tornaria capaz de as enormes tarefas pela frente. Sacudindo as tradições morais do passado e sendo purificada pela ciência, a humanidade seria dona da Terra. A visão de Shaw do nazismo não era tão rebuscada. Ele fez coro com a auto-imagem de Hitler como um progressista destemido e modernista.

Shaw entendia tanto a União Soviética e a Alemanha nazista como regimes progressistas. Como tal, ele sugeria que estes tinham o direito de desobstruir matando pessoas inúteis. Ao longo de sua vida, o grande dramaturgo argumentou em favor do extermínio em massa como uma alternativa à prisão. Era melhor matar o socialmente inútil, ele dizia, do que desperdiçar dinheiro público em prendê-los.

Não era apenas um gracejo Shawaniano. Em uma festa em honra do seu septuagésimo quinto aniversário realizado em Moscou durante sua visita à URSS, em agosto de 1930, Shaw disse à sua audiência meia esfomeada que, quando soube que ele estava indo para a Rússia seus amigos tinham fornecido a ele alimentos enlatados, mas - brincou - jogou tudo para fora da janela na Polônia antes de chegar à fronteira soviética. Shaw provocou a platéia com pleno conhecimento de suas circunstâncias. Ele sabia que as fomes soviéticas eram artificiais. Mas olhava alegremente para suas vítimas pois tinha a convicção que o extermínio em massa era justificado se há um avanço da causa do progresso.

A maioria dos ocidentais não entendiam a lucidez de Shaw. Eles não podiam admitir que o maior assassinato em massa dos tempos modernos - talvez em toda a história humana - estava ocorrendo em um regime progressivo. Entre 1917 e 1959 mais de 60 milhões de pessoas foram mortas na União Soviética. Esses assassinatos em massa não estavam escondidos: eram políticas públicas. Heller e Nekrich escreveram:
“Não há dúvida de que o povo soviético sabia sobre os massacres no campo. Na verdade, ninguém tentou esconder. Stalin falava abertamente sobre a 'liquidação dos kulaks como classe", e todos os seus tenentes ecoavam ele. Nas estações de trem, os moradores da cidade podia ver as milhares de mulheres e crianças que haviam fugido das aldeias que estavam morrendo de fome.”

Às vezes se perguntam como que os observadores ocidentais eram tão lentos em reconhecer a verdade sobre a União Soviética. A razão não era difícil de se encontrar, ficou claro a partir de centenas de livros de emigrantes sobreviventes - e de declarações dos próprios soviéticos. Mas os fatos eram muito desconfortáveis para os ocidentais a admitirem. Por uma questão de manter sua paz de espírito, eles preferiam negar o que eles sabiam ou suspeitavam da verdade.  

"A escala de morte desenvolvida pelo homem é o fato moral e material central do nosso tempo", escreve Gil Elliot. O que faz o especial do século XX não é o fato de que está repleto de massacres. É a escala de suas mortes e o fato de que eles foram premeditados visando grandes projetos de melhoramento do mundo.

O progresso e os extermínios andam lado a lado. O número de mortos por grandes fomes e pragas podem ter diminuído, mas a morte pela violência tem aumentado. Com o avanços da ciência e da tecnologia, também há um avanço na proficiência em matar.  A esperança de um mundo melhor tem crescido, assim como os assassinatos em massa.

Citações do Bernard Shaw:

"Vocês devem saber que meia dúzia de pessoas não tem uso para este mundo, que não valem a pena por tanto trabalho. Basta colocá-los lá e dizer: Senhor, ou Madame, você poderia ser bom o suficiente para justificar sua existência?

Se você não pode justificar a sua existência, se você não está puxando o seu próprio peso, e uma vez que você não está, se você não está produzindo o tanto quanto você consome, ou talvez um pouco mais, então, fica evidente, não podemos usar o organizações da nossa sociedade com a finalidade de mantê-lo vivo, porque a sua vida não nos beneficia e não pode ser de muito uso nem pra você mesmo."

Em vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=7WBRjU9P5eo

sexta-feira, 28 de junho de 2013

As Origens Irracionais da Ciência (John N. Gray)

Trecho do livro Cachorros de Palha

Como retratado pelos fundamentalistas, a ciência é a suprema expressão da razão. Nos dizem que a ciência só nos governa hoje depois de um longo esforço, afirmam que sempre foram impedidos pela Igreja: o local de todas as crenças irracionais. Tendo livrado-se da batalha contra a superstição, a ciência – eles dizem – se tornou a personificação da interrogação racional. 

Este conto de fadas se esconde em uma história muito interessante. A origem da ciência não vem de interrogações racionais, mas sim da fé, da magia e truques. A ciência moderna venceu seus adversários não através da sua racionalidade superior, mas pelo fato de que seus  fundadores - no fim da Idade Média e início da Idade Moderna - eram mais hábeis do que os religiosos no uso da retórica e das artes da política.

De acordo com o filósofo da ciência mais influente do século XX, Karl Popper, uma teoria só é científica até que seja falsificável, e deve ser descartada assim que foi falsificável. Por este padrão, nunca deveriam ter sido aceito as teorias de Darwin e Einstein. 

Quando eles deram o primeiro passo, cada um deles se encontrava em desacordo com algumas evidências disponíveis. E então, só mais tarde se tornou evidência disponível que deram-lhe o apoio crucial. Se a consideração científica de Popper fosse aplicada,  estas teorias teriam sido descartadas bem no seu nascimento.

Os grandes cientistas nunca foram obrigados a seguir o que são agora considerados como regras do método científico. Nem tampouco as filosofias dos fundadores da ciência moderna – que envolviam magia, metafísica, misticismo e ocultismo - tem muito em comum com o que hoje é considerado uma visão científica do mundo. 


Galileo se via como defensor da teologia, e não como um inimigo da Igreja. As teorias de Newton que se tornariam base da filosofia mecânica, na sua mente suas teorias eram inseparáveis de uma concepção religiosa do mundo, como uma descoberta de uma ordem divina. Newton acreditava que as ocorrências anômalas eram rastros deixados por Deus. Tycho Brahe entendia como milagres. Johannes Kepler descreveu anormalidades na astronomia como reações da “alma telúrica". Como observa Feyerabend, crenças que são hoje considerados como pertencentes à religião, mito ou magia eram centrais nas visões de mundo das pessoas que originaram a ciência moderna.

Retratada por filósofos, a ciência é uma atividade extremamente racional. No entanto, a história da ciência mostra cientistas que não seguiam as regras do método científico. Não só a origem, mas o progresso da ciência vem de uma luta contra a razão.

Pascal para o Iluminismo

Os seres humanos não podem viver sem ilusão. Para os homens e mulheres de hoje, uma fé irracional no progresso pode ser o único antídoto para o niilismo. Sem a esperança de que o futuro será melhor que o passado, eles não poderiam continuar. Nesse caso, talvez seja necessário um Pascal dos últimos dias.
[...]
Submetendo-se a autoridade da ciência, nós esperamos por uma liberdade similar de pensamento. Ao reverenciar os cientistas e compartilhando de seus dons da tecnologia, podemos alcançar o que Pascal esperava da oração, incenso e água benta. Ao procurar a companhia de pesquisadores sérios e máquinas inteligentes, podemos entorpecer nossa razão e fortalecer nossa fé na humanidade.