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sábado, 6 de agosto de 2016

Feminismo e Ideologia de Gênero desde uma perspectiva Tradicional


Voltando ao tema que nos ocupa, sobre a importância do feminino como símbolo do "pilar da emancipação", e sua exclusão posterior do núcleo ideológico do paradigma moderno, se observarmos as antigas tradições espirituais pode-se notar que geralmente se tem associado ao masculino o ativo e o exterior, o aspecto exotérico de uma cultura, enquanto que o feminino está associado ao passivo, o interior, o oculto, aquilo que não é mostrado explicitamente à luz - a alma, por exemplo, está sempre relacionada com o feminino -, e assim, o feminino está relacionado não tanto com o polo exotérico, mas com a dimensão esotérica - interior - da tradição.

 Nós já discutimos em outros momentos sobre o conceito tradicional dos opostos, não como inimigos, que parecem apenas aparentemente, mas como complementares que deverá conduzir a um novo equilíbrio e ordem que os transcende. A superação de ambos produz em uma síntese criativa, que muitas tradições representavam basicamente sob duas imagens:

 - O "mito do andrógino '- assim, por exemplo, em Platão e em toda a tradição hermética ocidental (sob a forma de Rebis).
 
- O Hierogamos - em tradições cabalísticas, como foi recentemente exposto por Moshe Idel e muitas vezes presente na literatura mística ocidental. É a partir deste modelo de Eros platônico e Hierogamos, como forma de ultrapassar manifestação individual, que a cultura do amor cortês medieval se desenvolveu.
 
Às vezes, ambos os mitos tornaram-se complementares e referiam-se a momentos diferentes da manifestação, assim, por exemplo, na tradição platônica, o mito do 'andrógino primordial' foi adicionado como um complemento reconstitutivo do mito do Eros como força de união dos opostos.  




Se considerarmos por um momento o modelo de representação da Árvore Sefirótica, veremos que os pilares exteriores representam os polos masculinos e femininos, enquanto que o Pilar Central representa a (re)-união dos dois opostos em um equilíbrio perfeito, que é imediatamente associado com a ideia mítica do andrógino que estamos analisando. 

 Para mostrar como esta reunificação das potências humanas tomava a forma mítica da androginia e até que ponto o masculino e o feminino eram compreendidos como fatores complementares e não como opostos, tomaremos um exemplo da Cabala Hebraica, uma tradição considerada como o paradigma do machismo patriarcal mais indesejável para o pensamento profano e moderno. 

    "Todos possuem necessariamente aspectos masculinos e femininos. Isto é particularmente o caso de tzaddiq [o 'justo']. (...) O aspecto masculino significa o que sempre emana. (...) Mas também há um aspecto feminino, ou seja, aquele que recebe e atrai o influxo dos mundos superiores para os mundos inferiores". (Heshel de Apta, 'Ohev Yisra'el')

A referência ao 'justo' é particularmente significativa, uma vez que enfatiza como aquele que se realiza espiritualmente aperfeiçoa esta complementaridade entre os aspectos masculino e feminino - que tudo o que existe necessariamente possui - o que nos leva para a reconstrução mítica do andrógino primordial como dizíamos.  O "justo" realiza em si esta verdade primordial que simboliza o mito do andrógino, esse detalhe é importante como mostraremos no fim do artigo. Importa notar que esta ideia da presença inseparável do masculino e do feminino na totalidade do que existe já está contida na representação da Árvore cabalística, pois todas as séfiras, ou esferas, são femininas em relação aquelas que lhe são superiores - pois recebem delas - e masculina em relação aquelas que lhe são inferiores - pois emanam até elas.


O falso retorno do feminino na modernidade
 
No entanto, a modernidade não conjugou estes opostos para desenvolver um equilíbrio entre eles. Devido a algumas razões que analisaremos mais adiante, para o paradigma moderno, o polo que denominamos como o 'de controle' tem sido a tal ponto hegemônico no desenvolvimento da civilização europeia ocidental que tem expulsado por completo aqueles modos de ser e entender o mundo - assim como toda disciplina de conhecimento - que poderiam estar associadas com o polo feminino ou 'emancipador'. Este fenômeno de exclusão da diferença está, como veremos a seguir, na base da extrema rigidez do paradigma moderno e na consequente perda de flexibilidade e diversidade que o acompanha desde sua origem.

 Antecipando em quase dois séculos a revisão cultural que aquilo que o feminismo moderno tem pretendido nas últimas décadas, Goethe advertiu esta expulsão do feminino do quadro mental e conceitual ocidental e alegou que recuperou o que se chamou de o 'eterno feminino'. A este 'eterno feminino' haviam estado secularmente associados as disciplinas humanistas e liberais como as arte, a poesia e outras; disciplinas que, como facilmente nota-se, foram deslocadas do núcleo do novo paradigma dominante e que perdeu muito de seu prestígio na nova ciência, mais semelhante ao paradigma moderno, racionalista, rígido e excludente.

 Desde então, o retorno do feminino visto por Goethe não ocorreu, e o ocidente continuou a abandonar-se ao racionalismo mais extremo e o desenvolvimento mais titânico, que representa - para a modernidade - a essência da masculinidade.

Curiosamente, as primeiras críticas à hegemonia da masculinidade e do racionalismo, que anunciou de alguma forma o começo da desintegração do paradigma atual, vieram da psicanálise, que, ao seu modo, marcadamente anti-tradicional, ao menos voltou sua atenção para a alma humana, desprezada por séculos pelo paradigma racionalista e cientificista. Não queremos dizer com isso que a psicanálise desempenhou um papel saudável ou benéfico para a civilização ocidental, pois não acreditamos que sim, mas que deixou claro as rachaduras no paradigma moderno e colocou a atenção sobre algumas de suas principais falhas. Foi precisamente Jung que recuperou a antiga proposta de Goethe, reivindicando o papel do feminino em mitos e símbolos ocidentais, fazendo amplo uso de algumas expressões que já mencionamos antes, como o "eterno feminino" ou "andrógino".
 
Nós podemos mostrar graficamente as diferentes situações do feminino no contexto dos dois paradigmas - tradicional e o moderno - pela ilustração a seguir.



 
No paradigma tradicional fica claro que se estabelece uma diferença entre os polos masculino e feminino - na retórica moderna seriam "gêneros" - que aparentemente aparecem como opostos. Para representar graficamente tal relação entre o masculino-feminino temos nos inspirados mais uma vez a Árvore Sefirótica e seus dois pilares ou colunas, qualificados tradicionalmente como masculino e feminino. Entretanto, seria um erro interpretar essa diferença como uma superioridade de um polo sobre o outro, porque é claro que se quer indicar a complementariedade. 
 
No fundo, esta divisão, corresponde aquela que já citamos entre a Razão e o Intelecto, sendo o polo racional, o masculino - aquele que requer o desenvolvimento lógico e reflexivo - e o polo intelectual, o feminino - que é considerado intuitivo e direto. O polo feminino seria o âmbito típico de poetas e artistas, mas também dos profetas e xamãs, e o masculino, da ciência e da filosofia racionalista.

De modo que, estritamente falando, o polo feminino deve ser um pouco mais elevado que o masculino, pois a faculdade intelectual, como já dissemos aqui, é superior, por natureza, à faculdade racional, uma vez que é mais principial: está mais próxima dos princípios imutáveis e não depende de acidentes.
 
Justificar tudo o que disse acima seria muito longo, especialmente por causa da imensa propaganda existente direcionada para nos convencer do contrário, então nós preferimos deixar para outra ocasião. Só diremos, como exemplo histórico para ilustrar estas reflexões, que, na Grécia antiga, o profetismo era uma coisa quase exclusiva as mulheres, porém estas - sibilas, sacerdotisas, hetairas - não eram tomadas como inferiores, ao contrário, eram respeitadas por toda a sociedade e em particular por os homens, a tal ponto que o próprio Sócrates diz ter sido iniciado nos Mistérios por uma mulher, Diotima, a qual ele tratava como mestra, com veneração e respeito. Algo inédito e surpreendente para a história moderna, na qual se acusa de doença mental o fenômeno místico, onde se encontra na literatura acadêmica que muitas místicas e visionárias medievais - e algumas delas santas, incluindo até mesmo Doutoras da Igreja - descritas como neuróticas. Claro que é necessário nunca ter lido uma página escrita por estas mulheres nem saber sobre sua vida - assombrosamente ativas - para dizer tais coisas. Gostaríamos de saber se talvez esta não é uma negação a todo custo do nível supra-racional, um desprezo absoluto pelo "feminino".
 
Além do mais, o modo em que a civilização clássica grega aceitava a religião, o misterioso e, em geral, o não-racional (em vez de irracional) - incluindo certas tradições xamânicas que sobreviveram entre eles por muitos séculos - como parte do cotidiano, refuta claramente a imagem hiper-racionalista que o ocidente tem tentado construir desta parte da história em relação com outras civilizações daquela época. Mais uma vez, o núcleo ideológico - e supersticioso - que caracteriza a modernidade não se vê afetado pelo fato de que a realidade desmente seus falsos mitos repetidos ou que seus argumentos sejam tão escandalosamente falsos. 
 
E, finalmente, ver nessa diferença uma injustiça flagrante a ser reparada supõe algo muito próprio do pensamento homogeneizador e impositivo que funciona na modernidade: negar a realidade de que estas diferenças existem. Acaso os homens e as mulheres não são diferentes? Acaso diferente é sinônimo de inferior? E, além do mais, são diferentes por natureza, o que parece ser um detalhe especialmente odioso para modernidade, obcecada desde décadas em mostrar que tais diferenças são relacionadas ao ambiente... É o homem moderno que vê "opressão" e "injustiça" e que deve libertar-se de todas as partes, embora, talvez a maior injustiça - especialmente quando se referem as sociedades passadas que não compreendemos nada - esteja no seu olho e em seu olhar do que na própria realidade.

Dito isto, e retornando à ilustração anterior, na qual o modo pelo qual o feminino é representado nos paradigmas moderno e tradicional, com o esquecimento e desprezo do poder intelectual pelo paradigma racionalista, o polo feminino foi completamente subordinado ao polo masculino, viu-se privado de qualquer direito de existir - representava o anormal e devia ser abolido - e assim foi banido para as profundezas do subconsciente, o único lugar onde poderia sobreviver. Neste ponto, é muito interessante as reflexões de Patrick Harpur, sobre como aquilo que é 'aprisionado' e reprimido no subconsciente volta à consciência de forma cada vez mais monstruosa e problemática, criando, entre outras coisas, doenças mentais e desequilíbrio social. É para isto que Freud e a psicanálise dirigiram sua atenção, como observamos anteriormente. Mas, esta realidade dolorosa, óbvia, não importa de modo algum para a elite intelectualista do paradigma hegemônico da modernidade, nem as doenças de seus habitantes nem os desastres da sociedade que movem as ciências sociais modernas - a (pseudo)-psicologia moderna por exemplo - faz com que abandonem o tão querido paradigma cientificista atual.

 Um subconsciente-feminino que, aliás, perdeu o polo superior - espiritual - que deve guiar a vida humana, não demorou em voltar-se para arte moderna, já desde o romantismo - mas ainda mais nas vanguardas do século XX  - em plena decomposição. O que deixa bem claro que em verdade não há lugar para a arte verdadeira na racionalidade exclusivista, o que quer dizer que o paradigma moderno expulsou a arte para fora de si para poder impor o seu modelo de vida e sociedade, radicalmente pragmático e extremamente vulgar. Isto pode surpreender alguns, mas ficará claro em mostrar que a única 'arte' - se assim pode ser chamada, o que não cremos - que permite o paradigma racionalista ocidental é precisamente aquela que brota da parte mais inferior, passional e irracional da alma humana. Uma 'anti-arte' que, em vez de apontar para algo superior, claramente conduz ao infernal. Com efeito, a arte é uma expressão privilegiada da alma humana e, quando esta alma está doente ou é diretamente negada, que arte pode surgir?
 
Em última análise, no novo paradigma racionalista, cientificista e mecanicista, caracterizado antes de tudo por des-animar - extrair a alma - o mundo, o feminino foi relegado para o subconsciente - identificado com o emocional, o enfermo, o irracional, bruxaria, magia, etc... - e o masculino identificou-se de forma exclusiva com a racionalidade técnico-prática, materialista. Assim, as trevas da razão veio a obscurecer a luz do intelecto.

Em conclusão, acreditamos que é impossível uma crítica profunda à racionalidade prática impositiva e excludente que tem sido praticada no ocidente ao longo dos últimos séculos se se carece de uma perspectiva tradicional que situe a razão e o intelecto em seus devidos lugares. Sem essa perspectiva, todas críticas serão parciais ao paradigma ocidental, e nos encontraremos novamente diante do paradoxo que exige o 'cumprimento do programa ilustrado', quando é este mesmo programa - social e epistemológico - a origem do problema. E esperamos que nunca chegue a ser cumprido, pois o desastre seria de proporções cósmicas.


O feminismo moderno visto desde a Tradição

Disto isto, pode parecer que o feminismo moderno venha a recuperar esta feminilidade perdida a que nos referimos, secularmente associado com o 'pilar da emancipação' e testemunho inegável de outros modos de ser e compreender o mundo, mas a verdade é que este está longe de ser o caso, pois o feminismo moderno é verdadeiramente a antítese do que tradicionalmente simboliza o feminino, opondo-se radicalmente e visando substituir permanentemente. 

Embora seja verdade que durante décadas se reivindica um retorno do feminino à sociedade, com a repetida acusação de promover valores exclusivamente associados à masculinidade - racionalismo, competitividade, etc -, o retorno que tomou lugar é meramente exterior e não envolve a menor mudança no modo de entender e construir a ordem social.  Ao contrário: o que trouxe consigo, esta espécie de 'tendência cultural', que é o feminismo moderno, não tem sido uma mudança no modo de compreender o mundo nem uma transformação revolucionária do mesmo, como o discurso de poder quer nos fazer querer acreditar, mas apenas uma maior visibilidade das mulheres na sociedade, totalmente exterior e, portanto, sem importância para todos efeitos: as mulheres ainda estão completamente imersas em uma sociedade que continua a ser a mesma que era antes de sua especial 'libertação feminista', imersa em um paradigma ideológico e social radicalmente machista e racionalista.

Assim, a maior presença exterior do feminino não se constitui como uma alternativa - nem como uma dissidência - em relação à ordem do paradigma predominante, proveniente do 'pilar do controle', mas, ao contrário, representa um passo em direção ao aprofundamento nele mesmo e em sua hegemonia no ordenamento da sociedade, destruindo as últimas resistências ao mesmo, a saber: a família e a figura da maternidade.

Não é por acaso que a maternidade tornou-se a 'besta negra' do feminismo moderno mais radical, contra a qual se dirigem as mais duras injúrias progressistas, o que confirma outra de nossas teses: o ódio da modernidade à natureza.  É a clássica oposição entre a natureza e a cultura - expressa também como irracional vs racional -, onde a natureza deverá ser completamente abolida para criar uma realidade exclusivamente construida, isto é, técnica, abolindo mais uma vez o emocional e o interior em prol do pragmatismo.

Como podemos ver, mais uma vez, a modernidade não se trata de integrar a diferença - o 'pilar da emancipação' que está associado com o natural e o irracional - mas ao contrário, de eliminá-lo. Assim resulta que, desvendando a retórica progressista que cativa a sociedade, a mulher não é um 'sujeito a libertar-se', mas sim um 'objeto a ser destruído' por parte do feminismo como projeto político e da revolução feminina como fato social. Acrescentamos que, o que se esconde por trás da promessa de libertar o homem e a mulher de todas suas 'correntes' é apenas isto: negar e roubar sua natureza essencial; toda essência, toda qualidade, deve ser destruída para que, por fim, a nova ordem seja imposta, o novo mundo que a modernidade tanto anseia. Finalmente chega-se a imersão na matéria indiferenciada e desqualificada para realização do "reino da quantidade", nas palavras de Guénon.

O que dizemos é confirmado quando comprova-se que o feminismo moderno não se trata da contribuição da mulher para a civilização moderna dos valores que o feminino tradicionalmente incorporaram nas sociedades pré-modernas, trata-se exatamente do oposto: esses valores tradicionais, associados ao 'pilar da emancipação', simbolizada pela mulher, família, o respeito às tradições dos antepassados e o mundo rural, são vistos pelo feminismo moderno não como valores a serem recuperados, mas como desvalores a serem combatidos e apagados, vestígios de um passado que deve ser completamente esquecido - mas uma vez nos deparamos com a 'cultura do palimpsesto' -. O feminismo moderno é apenas um passo nesta direção, da supressão das raízes e desenraizamento do homem moderno, o que significa a construção de uma nova feminilidade ultra-moderna, cada vez mais próxima do 'pólo masculino' que governa a sociedade e que tanto se tem criticado e se diz combater. A realidade é que dessa forma não se combate em verdade o 'pilar do controle' mas, ao contrário, serve a ele mesmo mediante a destruição de suas possíveis alternativas.

Por esta razão, o feminismo nascido depois da Segunda Guerra Mundial,  descaradamente anti-tradicional, não significa o retorno da visão emancipatória e feminina da realidade, mas envolve, ao contrário, sua anulação final com base na derradeira destruição das poucas resistências que poderiam derrubar o domínio absoluto do 'pilar do controle' monolítico e seus ideais humanistas.


Feminismo e machismo, dois lados da mesma modernidade anti-tradicional.

Algumas considerações finais se impõem. Em primeiro lugar, se reconhecermos que o feminino e a emancipação foram expulsos do núcleo paradigmático Ocidental e da construção de sua identidade a partir de sua origem, o retorno do feminino, se é real e não meramente uma aparência revolucionária - uma máscara de poder - como tem sido apresentada pelos diversos feminismos, deve implicar o fim - ou pelo menos uma certa alternativa - da mesma mentalidade moderna lhe marginalizou.

E, uma vez que a modernidade - como paradigma de conhecimento - exclui o polo feminino da emancipação por definição, o retorno dos valores e realidades que isso implica nunca poderá ocorrer dentro da própria modernidade. Portanto, aqueles "feminismos" que defendem e fortalecem a modernidade - que reivindicam uma maior conformidade com o programa ilustrado - só podem ser julgados como cúmplices da ordem vigente, cúmplices da destruição daquilo que verdadeiramente sempre simbolizou o feminino.

Por outro lado, verificamos muitas vezes que o conceito de feminismo opõe-se a seu conceito antagônico: o machismo. Assim, é extremamente necessário notar o paradoxo de que o feminismo moderno, na medida em que é precisamente moderno, não pode lutar contra o machismo sistêmico que diz denunciar - o tão conhecido patriarcado - pois faz parte indissoluvelmente da ordem social que lhe moldou e dele necessita para existir.

O feminismo, com toda sua aparência de oposição e reivindicação, não é mais que um passo no avanço do paradigma machista hegemônico dos últimos séculos e que moldou a civilização atual. Um paradigma em que a técnica, o estado e o capital têm prioridade sobre o indivíduo, seja homem ou mulher. Esta é a terrível realidade de uma sociedade que mistifica um modo de conhecimento - a técnico-ciência - que não está a serviço dos seres humanos, mas de um poder cada vez mais distante e desumanizado, e denunciar as desigualdades de gênero antes de denunciar esta verdade - que se encontra na base daquelas - é demagogia ou mascarar a verdade.

Assim, portanto, o feminismo não é uma luta contra o machismo - contra o qual, ainda se quisesse, não poderia combater, pois são filhos de um mesmo pai: a modernidade anti-tradicional -, mas antes de tudo uma luta contra o gênero, enquanto divisão socialmente apropriada dos papéis masculinos e femininos.

É evidente que o fato de que exista diferenças de 'gênero', assim como seu reconhecimento explícito, não implica por si só que um gênero submeta-se a outro. Mas, esta evidência lógica não significa nada para o feminismo moderno e sua propaganda moderna de desprezo de todo o passado, nem altera em nada seu programa político de redesenho e desconstrução da sociedade. Esta é a verdadeira agenda oculta do feminismo enquanto agente político de divisão e dominação social: a abolição de toda diferença entre o homem e a mulher. Por isso o feminismo jamais afirmou ou reivindicou os valores tradicionais da feminidade - aqueles que chamam de 'cúmplices do patriarcado' - mas antes pretende redefinir a feminidade, dissolvendo-a e destruindo tudo o que possa ser feminino. Aqui, seu caráter anti-tradicional é claramente demonstrado.

Subjacente a este propósito está o caráter que já definimos como fundamental na modernidade desde seu início: o ódio pela diferença; o qual é inevitavelmente seguido por seu corolário positivo: o igualitarismo. Esta abolição dos gêneros não conduz a igualdade alguma mas, como vimos no desenrolar destas páginas, a um estado de coisas muito consistente com o projeto social da modernidade: o igualitarismo a todo custo e a homogeneidade da sociedade.

Ou seja, na linguagem que estamos empregando para definir este paradigma, o que se busca não é outra coisa senão a ausência da diversidade, pois, como já vimos, a diversidade - assim como a liberdade verdadeira, não a libertação revolucionária - é vista como uma ameaça potencial à ordem vigente do 'pilar do controle'. A modernidade considera a igualdade como a 'ausência de diferença' - a conhecida doutrina de 'todos somos iguais' - e, especialmente, tendo em conta a prioridade que o exterior e a aparência possuem nas mentalidades modernas mais radicais, a 'ausência de diferenças exteriores'.


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Ainda há mais. Este igualitarismo esconde atrás de si uma realidade ainda mais inquietante. Tem sido dito muitas vezes que a modernidade impõe um igualitarismo por baixo e há evidências irrefutáveis disso, como visto nas tendências que gradualmente ganham força na sociedade de hoje, como a desconstrução de gêneros, os novos tipos de mulher e de (pseudo)-feminidade - marcados por uma exagerada androgenização, mais uma vez anti-tradicional, incluindo o estético - ou na moda conhecida como unisex, por exemplo, sem necessidade de falar nas novas sexualidades e modelos de relacionamento que todo tempo estão a inventar. É em direção a esta "ausência de diferença" para onde aponta as conquistas feministas do último século.

O que está por trás dessas atitudes não é apenas uma campanha de destruição da masculinidade, aqui há um ódio de igual forma ao masculino e feminino. Portanto, para o feminismo, assim como para todo o projeto globalista, não se trata em combater a desigualdade, mas destruir toda diferença, uma diferença que parece incomodar especialmente a modernidade mais radical.

Não é surpreendente, portanto, que a feminização e a desconstrução do homem - exterior e também de seu caráter - tenha acontecido lado a lado uma extrema androginização da mulher. Tal tendência, já denunciada no início do século XX, demonstra que o paradigma machista-racionalista não mudou em nada e continua a ser hegemônico em todos lugares, inclusive entre as mulheres, pois estas, em vez de afirmarem-se como o que são - mulheres - tem imitado quase sempre o protótipo do sexo masculino para sentirem-se aceitas na sociedade que dizem criticar, já desde os primeiros coletivos feministas - o que denota algo patológico e não um desejo de emancipação; na realidade invejam a situação social dos homens - e mostram-se cada vez mais na sociedade naquilo que antes era competência exclusiva dos homens. E, sobretudo, imitando o polo masculino em seu pior, isto é, naquelas atitudes mais brutas e grosseiras, como é evidente para qualquer pessoa que está livre de preconceitos. Para realizar tudo isso, a ideologia feminista, que, como toda ideologia moderna é "contra alguma coisa" - define-se por seu inimigo - vem aplicando a tática de se vitimizar, problematizar e inferiorizar as mulheres até o ponto em que odeiam quem são.

Sendo o feminismo moderno mais um subproduto, e dos mais grotescos, da pós-modernidade anti-tradicional, aquela que celebra destruir a si mesma, compartilha plenamente com ela seu característico ódio a si mesmo, a seu passado e a tudo o que é; e sua última missão, não é acabar com o 'patriarcado' moderno - representado sobretudo pelo par Estado-Mercado - mas redefinir a noção de sujeito, desconstruir as pessoas desde sua sexualidade e redesenhar a sociedade... em última análise, dissolver.

O feminismo é, portanto, uma força dissolvente mais forte; um verdadeiro niilismo, dos muitos que atualmente desmembram nossa sociedade.


O andrógino moderno como inversão do andrógino primordial.

Chegamos a conclusão de nossa análise. Como podemos ver, estamos aqui diante da inversão exata do mito tradicional do andrógino primordial. Se o ideal dos alquimistas e dos hermetistas cristãos era essencialmente a integração em sua personalidade de suas duas polaridades - entendidas como complementariedades -, o que é, antes de tudo, um processo interior de assunção da própria natureza, não excludente mas inclusivo, em que pouco poderia importar a aparência externa, o ideal do "novo andrógino" é o nivelamento por baixo entre o homem e a mulher, uma espécie de dessexualização e queda na indiferenciação da matéria primordial. Tal indiferenciação primordial é sobretudo uma imagem da ausência de qualidades, o que é um sinal evidente do 'reino da quantidade' como já nos avisou magistralmente René Guénon.

  Assim, a convergência dos gêneros masculino e feminino em um universo unisex, é um caso análogo ao que representa o ideal da proletarização universal que anunciavam e sonhavam os utopismos do século XIX, contrário a ideia tradicional da ordem social baseada em castas. O proletário não supera as castas por cima - o que seria o ideal do ativarna hindu - mas sim por baixo, anunciando a desqualificação completa do homem - que é, de fato, o avarna, literalmente "sem cor", isto é, sem qualidade. Ambos modelos de igualitarismos revolucionários envolvem a desqualificação do sujeito e, portanto, um rebaixamento de sua dignidade ontológica, um sujeito que, coisificado, passa a ser uma peça do sistema, sem qualidades que lhe defina ou lhe diferencie do resto de outras peças, e, sendo assim, perfeitamente intercambiável por qualquer outra peça, em uma homogeneidade que é uma imagem dessa indiferenciação própria da Matéria Prima que dizíamos e que reflete na mesma sociedade a ideia da cadeia de montagem industrial. Tudo isso anuncia um futuro de prevalência indiscutível dos sem castas: a 'ditadura do proletariado', uma massa de pessoas sem passado, sem raízes, sem terra, controlados por um sistema de produção completamente exteriorizado e alheio; como pode-se defender semelhante projeto social?

Se o andrógino tradicional era antes de tudo uma realidade interior e implicava uma superação dos gêneros - para o qual é necessário aceitar e assumir previamente-, com vistas de dar lugar a uma ordem e equilíbrio que transcenderia por cima, pelo alto - tal e como citamos o modelo do ativarna, o homem que supera toda as castas-, agora, o novo equilíbrio unisex passa a negar a diferença, e até mesmo a existência, de tais realidades masculinas e femininas, igualando por baixo, em sua parte inferior, em um retorno à indiferenciação da matéria sem forma, isto é, sem qualidade. Se por um lado a androginia tradicional simboliza a integração da alma do sujeito, em um interior harmônico e equilibrado, a perfeição da alma humana; a androginia pós-moderna, por outro lado, é sua antítese terminal: representa a indiferenciação primordial contida no caos primevo, uma descida ao inferior - o reino da matéria - e, como tal, pode certamente ser descrita como infernal.

Mais um exemplo de como a modernidade é a inversão infernal - inferior - da ordem tradicional ou normal.


Escrito por Ramés, no blog Agnosis (link)

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Atitude de Direita no Pensamento de András Lászlo

Um ponto altamente significativo na filosofia de András László e que, portanto, deve ser abordado é a atitude de direita. Tradicionalidade é um Weltanschauung complexo que abrange todos os aspectos e níveis da existência humana. No entanto, podemos dizer que a tradição, enquanto conceito de mundo dos povos antigos, e a tradicionalidade como abordagem das pessoas anti-modernas contemporâneas, tem dois pilares. Um desses pilares é a espiritualidade que, sendo um instrumento, um método e um caminho, ao mesmo tempo, leva ao homem a superar a si mesmo, em relação a sua própria totalidade divina última possível; o outro é a política no sentido mais amplo, que organiza as pessoas em uma estrutura hierárquica social e governamental. Espiritualidade carrega a marca da Liberdade, pois seu último objetivo é superar as os laços condicionados, isto é, fazer que o homem reconheça ele mesmo como o Absolutum, a totalidade incondicional do ser. A política, por outro lado, é caracterizada pela Ordem, o reflexo terrestre e imagem do mundo celestial, cuja a missão é garantir essas condições para o mundo humano, tanto para o nível coletivo como para o individual, o que permite a vida harmonizar com os princípios divinos; pois a Ordem terrestre deve, em todos os aspectos, adaptar-se harmoniosamente à Ordem celestial. Assim, o objetivo normativo de uma sociedade ou coletivo deve sempre coincidir com e servir ao propósito normativo de um indivíduo. E isso realmente sempre acontece pois, assim como o sagrado permeia todos os aspectos da vida numa sociedade ideal tradicional, o consumo penetra tudo na sociedade "ideal" moderna.
Na era arcaica, ou de um modo geral, na era da tradição, o homem vivia, quase espontaneamente e sem objetificar qualquer tipo, de acordo com o que podemos chamar de uma atitude de direita, no sentido original da palavra. Aquilo que é chamado uma atitude de esquerda hoje, no entanto, dificilmente é mais velho que algumas centenas de anos; surgiu no período de desintegração da Tradição e desde o seu aparecimento, tornou-se cada vez mais dominante, gradualmente mudando o centro político relativo e atual para a esquerda (o centro absoluto, é claro, nunca muda). Este tipo de deslocamento para a esquerda ainda está em andamento visto que hoje, cada partido político notável, é quase totalmente de esquerda. Aquilo que é considerado como uma atitude de direita hoje, ou o partido que se define como sendo de direita, só pode ser considerado pouco relativamente de direita, do ponto de vista tradicional. O mesmo se dá com a direita parlamentar e a ultra-direita, assim como os movimentos de extrema-direita da primeira metade do século 20, uma vez que eram - e ainda são - contaminados com ideias de esquerdas, de tal forma que, se tivéssemos de designar seu lugar entre a atitude absoluta da direita e da esquerda, eles estariam mais próximos da extremidade da esquerda do que o meio da linha entre os dois extremos, o qual é o centro absoluto (ver ilustração abaixo).

A atitude de direita, no sentido tradicional, portanto, não pode ser identificado com o que é chamado a atitude de direita atualmente, porque o primeira, sendo muito mais à direita que o última, é uma atitude maximamente de direita, não contaminada por idéias de esquerda. A atitude de direita não pertence a qualidades e valores que são de forma otimizada ideal, mas as que são maximamente ideal. Portanto, o termo "atitude de extrema-direita" é, de fato, um contradictio in adjecto, porque a atitude direita não pode ter variações extremas. Só aquilo que tem variações extremas possui um ponto ótimo que, em seguida, oscila sobre esse ponto.  Hoje, o que se chama uma "atitude de extrema-direita", se o termo "extrema" pode ser aplicado, é extremista não por conta da atitude de direita, isto é, não por que exagera os valores de direita, mas por outras razões (atitude agressiva a esquerda, violência, populismo, demagogia, etc.)

AAD ---------------------------------- CPA ---------------------------------- AAE
are2 crd2 ard2 <---------------------------------------------------------- are1 crd1 ard1
 [hoje]                                                                                               [no passado]

A relação entre a atitude absoluta de direita e esquerda
e a atitude relativamente de direita e esquerda.

AAD: Atitude absoluta de direita / CPA: Centro político absoluto / AAE: Atitude absoluta de esquerda / ard1: atitude relativamente de direita no período inicial de desintegração tradicional / crd1: centro relativo direita no período inicial de desintegração tradicional / are1: atitude relativamente de esquerda no período inicial de desintegração tradicional / ard2: atitude relativamente de direita hoje / crd2: centro relativo de hoje / are2: atitude relativamente de esquerda hoje / < ---: a direção do movimento do centro relativo na história.


Quais são os critérios da atitude maximamente de direita? Colocando de forma negativa, é a negação de quaisquer componentes de ideias de esquerda:

seja o democratismo, ou seja, o princípio da soberania dos povos que representa o domínio da quantidade no nível social e que pode-se manifestar sob a forma de democracia burguesa ("governado pela turba" diz Platão), bem como a ditadura comunista (que, devido a sua falta de efeito e sua natureza aparentemente conservadora, teve que desaparecer da cena política);

seja o socialismo que é um humanismo no nível social, isto é, uma espécie de "narcisismo social" quando a sociedade foca em si mesma;

seja o nacionalismo ou internacionalismo, cujo os objetivos são primeiramente desintegrar a velha ordem e, em seguida,m formar uma nova contra-ordem;

seja o igualitarismo que desqualifica todos os individuos, ou liberalismo, a teoria e a pratica da privação universal de valores e ideias que, enquanto anuncia a livre competição de ideias, mantem a posição de direção externa pra si mesmo;

seja a ideologia revolucionária, cujo o princípio fundamental é aquele que, se dois fatores são hierarquicamente dispostos um acima e outro abaixo, o que está na posição maior certamente oprimirá e explorará o subordinado, por isso o último é forçado a recorrer a "violência revolucionária" a fim de abalar o jugo do primeiro;

seja o relativismo, esta sendo a teoria samsárica por excelência, que visa fazer com que todas verdades sejam relativas, exceto a sua própria;

seja o racionalismo, que surge quando a faculdade totalmente instrumental e essencialmente executiva (ratio) - sabendo apenas a questão "como?" -  estreme as "algemas" do intelecto supra-racional (intellectus), que sempre considera uma partícula em relação ao todo, e que é apenas é competente para responder questões de "que?" e "por que?"; fazendo que a razão se torne independente ou entre diretamente em serviço de poderes sub-racionais;

seja o messianismo secularizado, isto é, o utopismo (inseparável das ambas formas da atitude de esquerda) que quanto mais trabalha pela "Causa Nobre", mais tenta esconder a verdadeira natureza do "fim da história" e o "papel lamentável do último homem" na mesma;

seja o self-service religioso, que, em vez de levantar o homem, continuamente degrada o nível da religião;

seja na roda indefinida de produção e consumo, o único ciclo conhecido pelo homem moderno, que é forçado a passar a um ritmo cada vez mais furioso;

e, finalmente, não devemos esquecer que as duas formas mais básicas da atitude de esquerda andam de mãos dadas tanto com o materialismo como com o dogmatismo ideológico (social democracia) e a mente materialista (liberalismo)


A atitude de esquerda também se manifesta no nível psicológico, pois o objetivo geral de hoje é que os instintos devam ser liberados, a ponto de chegarem em posição dominante, onde as inibições devam cessar, e que os desejos continuamente crescentes devam buscar por novas satisfações; o que realmente acontece é que aquilo que deve ficar lá em baixo e em detenção, tem permissão a brotar e mandar (uma das palavras mais assustadoras para uma pessoa esquerdista moderno e pós-freudiano é "repressão"). Este princípio que se tornou a base da psicologia do século 20, nada mais é que a invasão da atitude de esquerda na esfera da psicologia. A atitude de esquerda, sem exceção, tem suas maiores conjunturas políticas determinadas pela kali-yuga, em outras palavras, a atitude de esquerda não controla as mudanças (como acreditavam certos teóricos como Friedrich A. Hayek), serve apenas como um mecanismo cego. De um modo geral, a atitude de esquerda - pelo menos em sua variação liberal, exclusivamente progressiva - tende a deixar que as coisas se organizem por si só, permitindo que sigam seus próprios caminhos ("sistema de auto-adaptação", laissez faire), que naturalmente resulta em uma inflação contínua, uma "nivelação" e perda de valores em todos os campos, seja na economia, na cultura, na religião, etc. Se, no entanto, esse processo não alcançar o ritmo desejado, ou se determinada categoria já atingiu seu nível natural e se espera que não possa afundar mais por si só, a atitude de esquerda muitas vezes tenta "organizar" - mas sim, desorganizar! - processo que levará a um afundamento ainda maior.

Colocando de forma positiva, a atitude pura de direita leva tal conceito de mundo ao ponto de partida, ao ápice onde está posicionado Deus. Analogamente, se tanta organizar todos os campos da vida de tal maneira que seja harmonioso com esse Principium Principorum (cf. "faça- se a tua vontade, assim na terra como no céu"), ajustando o que está embaixo com o de cima e o de cima com o que está acima dele, continuando até chegar ao Ser Supremo que está acima de tudo e, ultimamente, determina todas as coisas. Assim, a direita é teocrática em princípio, dessa forma este domínio divino só pode ser realizado por formações políticas monárquicas e aristocráticas (feudais). No ponto de intersecção entre o céu e a terra está o rei, o homem por excelência, aquele que realizou plenamente o caráter humano, não no sentido de determinadas condições, mas da possibilidade, e que é a personificação do princípio central, que permeia todo o mundo "abaixo do céu", especificamente manifesta-se de acordo com tal campo. A atitude de direita não separa o Estado e a Igreja, as esferas profanas das sagradas, porque, essencialmente, ambos apontam para o mesmo último Ponto, em direção a sua origem.

O slogan do sistema de direita numa sociedade tradicional sempre foi de Ordem baseada em um princípio organizador superior (dharma em sânscrito). A Tradição sempre esteve consciente do fato que o que o povo ou as massas precisam, não é liberdade, mas Ordem. Assim como José Ortega y Gasset apontou excelentemente, a inércia, e não a maioria numérica das pessoas fazem a massa ser massa. A massa pode sempre ser mobilizada. Sabendo disso, a tradição sempre esteve consciente que o povo e as massas, por ser inerte e consequentemente estarem sujeitos ao afundamento, deve ser controlada a partir de cima. Obviamente, se o poder de manutenção da Ordem enfraquece ou deixar de existir, a massa começa a afundar em virtude da força de inércia de seu próprio peso (isso que é o "poder" do povo: o seu próprio momento de inércia). Ao se encontrar com culturas e civilização seculares, os povos tradicionais quase que imediatamente começam a ir de ladeira abaixo, arruinando-se no final, porque as ligações, que sempre os manteve relativamente nas alturas, quebram. Essa modo "desenfreado", característica do período de transição entre a tradicionalidade e a modernidade, foi coroado pela ativação das forças especiais degradantes na era moderna e particularmente na pós-moderna.

Isto, naturalmente, não significa que o mundo tradicional rejeitou a liberdade; ao contrário, só o mundo tradicional manteve a liberdade em sua maior dignidade. Liberdade, como uma faculdade e virtude, era um privilégio de poucos - as pessoas proeminentes -, enquanto que a Ordem era uma tarefa de todos. O "homem antigo" estava ciente do fato de que a Liberdade não pode ser democratizada, pois o virtus, a virtude viril ligada as altas qualidades no sentido geral da palavra, não pode, na prática, ser compartilhada. Liberdade não é uma base a ser fornecida para as pessoas, mas uma faculdade para ser alcançada. Nem o sindicato, nem o Parlamento, nem o movimento pelo direito das mulheres pode obter a liberdade para as pessoas, porque a liberdade que eles garantem nunca é uma liberdade real. Aquele que precisa ser liberado é um servo; e um servo que foi liberado ainda é um servo: um servo liberado. Apenas o vencedor é livre; só aquele que é capaz de controlar e, em primeiro lugar, aquele que é capaz de auto-controle, pode ser livre. Tal como o auto-conhecimento é a base de toda cognição, o autocontrole é a base e o coroamento de todo tipo de controle. Além disso, o controle está intimamente conectado a Ordem, isto é, escolher a Ordem já implica a Liberdade, é um passo importante para a Liberdade, pois a Liberdade só pode ser adquirida superando a Ordem realizada e maximalizada. Seria absurdo pensar que a liberdade pode ser realizada sem força ou poder - ou, sendo mais preciso, sem força pessoal ou poder. Seria igualmente pouco razoável acreditar que qualquer um além do superior pode ser livre; o inferior nunca pode ser livre, pela própria razão que é - até mesmo no seu auge de seu poder político - sempre inferior. Somente aquele que está acima pode ser livre, do mesmo modo, a manutenção do poder só pode ser possível desde cima.

A liberdade considerada pelas massas da esquerda/liberal é apenas uma libertação, um "afrouxamento": emantipatio. Isto não é resultado de um poder pessoal e vitória, mas de uma privação de restrições - que até mesmo algo externo pode realizar. Enquanto liberdade exige poder, o 'afrouxamento', ao contrário, requer fraqueza e a ausência de controle. A massa não pode manter-se, porque a manutenção sempre precisa de um poder controlador interior; a massa só pode ser mantida desde cima: ela deixa-se ir por natureza. Portanto, quando o poder de manutenção e controle da Ordem deixa de existir, as massas entrarão num estado de desenfreio. É isso que a libertação e o "afrouxamento" significa. A massa se sente livre apenas quando é liberada de cima e pode, assim, abandonar-se à força redutora de seu próprio peso, a gravidade ontológica que sempre atua de baixo pra cima e puxando aquilo que está acima. A liberdade da massa, portanto, não é a liberdade do homem que conquistou sua própria força de inércia para que ele possa ascender livremente, mas do homem que está em queda livre. Assim, o que é glorificado como liberdade hoje é diametralmente oposto - e, ao mesmo tempo, uma paródia - da imagem de liberdade real.

Como Julius Evola nitidamente notou, uma pessoa moderna de esquerda se encontra essencialmente atraída para a escravidão e teme a liberdade real. Isto é claramente demonstrado pelo fato de que os tempos arcaicos são considerados a idade do jugo e da escravidão e o homem moderno se identifica com aqueles que eram inferiores e não com aqueles que eram seus superiores e livres naquele tempo. Com uma honestidade surpreendente, Francis Fukuyama, o teórico célebre da democracia liberal diz o mesmo, declarando que o cidadão liberal de hoje é o descendente espiritual do escravo liberto, e de fato, isso pode ser facilmente detectado auto-interesse emparelhado com a mentalidade de escravo, comportamento característico do homem-massa moderno democratizado. Que a liberdade não permeia o estilo de vida do homem moderno é claramente demonstrado pelo fato de que sob o termo "liberdade" ele só pode entender liberdade de escolha - ou, em termos políticos - liberdade de eleição. Pois a liberdade de escolher, na maioria dos casos - seja sobre partidos políticos, bens ou metas de viagens - é apenas de escolher a coisa que mais atraí o homem. Em outras palavras, na liberdade de escolha, o homem pode "livremente" escolher a coisa que é mais fascinante para ele. Portanto, durante sua escolha "livre", o homem médio quase sempre infalivelmente escolhe a maior escravidão em vez da menor. As massas foram enganadas em "ter seus próprios desejos: eles infalivelmente ficam com a ideologia pela qual foram subjugados" - diz Theodor W. Adorno, que não pode ser acusado de ser de direita. Está longe de liberdade, sem mencionar a livre escolha, quando o homem sucumbe ao mais forte, ao fascínio mais atraente entre os vários outros. Liberdade de escolha, então, é a escolha da possibilidade aparentemente mais favorável, apesar de que uma verdadeira escolha livre implica que o homem não está restrito apenas a escolher as alternativas oferecidas, mas por uma rejeição de todas elas, ele é capaz de criar novas. A livre escolha dos homonculi produzidos na linha de montagem da ideologia liberal dificilmente pode ir além da escolha livre do homem que pode - livremente - escolher entre ser preso por 30 dias e pagar uma multa de cem mil forintes. No que diz respeito as eleições políticas, o controle dos processos na democracia moderna não está na mão dos partidos e políticos que representa a pessoa na zona frontal da política, possuindo apenas uma pouca liberdade de movimento.  Está na mão dos poderes de fundo que são icógnitos, seja eles os lobbies acima do partido - que em qualquer ocasião farão valer sua vontade "de cima" -, ou seja eles os chamados "formadores de opinião" que, através da formação da opinião pública, fazem o mesmo desde baixo e que, por isso, fazem as "eleições democráticas" uma mera "peça" que já serviu para ilusão de liberdade do homem desqualificado. Assim, a liberdade é quase desconhecida no mundo liberal moderno, e só nas ocasiões mais raras é que se torna uma questão, de fato. Em vez de liberdade, o homem escolhe Tahiti ou Haiti para tomar um bronze pelo Sol de Deus; Mercedes ou Volvo pelo qual ele pode ir pra lá; o partido político que ele acredita que proporcionará o maior bem-estar social, e assim por diante. Para resumir, ele escolhe a escravidão em vez da liberdade, a maior escravidão ao invés da menor, a menor liberdade ao invés da maior, em uma palavra, ele escolha aquilo que mais satisfaz seus desejos materiais mais crescentes e cada vez mais incorpora-o no sistema de dependência "ser atendido = estar sobre a misericórdia de alguém".

Na verdade, o problema não está no fato de que a liberdade de eleição é a liberdade de escolher entre os "superiores" (e, geralmente, os "superiores" que foram escolhidos força o eleitor a fazer um serviço ainda maior e faz dele um servo); o problema é que a coisa que se tornou o "mestre" do eleitor, não serve o eleitor. Um sintoma desse processo é, como Gábor Czakó colocou, quando o homem "passa" de um estado de ser subjugado pelas pessoas à um estado de ser subjugado as coisas; ou quando, de acordo com Adorno, em vez de ter a matéria impregnada de alma (animismo) eles escolhem ter a alma impregnada de matéria (industrialismo). Zenão de Citium, o fundador da escola estoica, contrário as tipologias psicológicas horizontais, classificava as pessoas em dois grupos, de acordo com uma tipologia vertical e qualitativa: do inútil ao adequado, ou de acordo com outra tradução, do vulgar ao excelente.  Mas quem é o inútil? Nos tempos modernos, o sinal infalível de inutilidade se dá quando o homem, rebelando-se contra a tensão que surge entre seu estado atual e seu estado mais elevado - ou possibilidade -, duvida, mente sobre e "mal-interpreta" seu estado mais elevado e abaixa seu próprio nível (privando a si mesmo a chance de ascender). O inútil nos tempos antigos era capaz de conviver com essa tensão e com sua própria incapacidade de ascender mais alto - o que também prova sua superioridade a seus descendentes -, enquanto o inútil hoje, partindo de sua "dignidade" democrática (Dignidade para todos!) e praticando uma forma específica da velha violência revolucionária, carrega pra baixo tudo o que eles conseguem enxergar acima deles para seu próprio nível. Mas a natureza da inutilidade e da vulgaridade pode vir à tona justamente quando é comparada com a idoneidade, pois os ‘adequados’ não são aqueles que são especialistas em, digamos, artes, profissões ou esportes, mas aqueles que são adequados em superarem a si mesmo, ad indefinitum e ad infinitum, aqueles que podem ganhar a liberdade total para si mesmos. Eles são conhecidos pelo bem conhecido guia, o Buddha: "Olhe a felicidade dos Arhats! Você não pode ver qualquer traço de desejo neles. Eles cortaram o pensamento do "Eu sou" e quebraram a rede ilusória. Eles são imóveis, sem começo, imaculados, Pessoas reais, eles são aqueles que se tornaram Deus, são grandes heróis, são filhos da Consciência, imperturbáveis em qualquer situação, livre da compulsão da reencarnação, são aqueles que estão acima do seu "ego" conquistado, eles venceram sua própria batalha no mundo, eles expressam o "rugido do leão"; aqueles que acordaram são verdadeiramente incomparáveis".  Mas há alguma esperança de alcançar a liberdade e superação - se não a si mesmo - pelo menos de sua própria natureza vulgar, entre aqueles milhões que se tornam vulgares dia a dia? Existe um meio mais eficaz de se fazer vulgar do que assistindo, ouvindo, lendo e fazendo o mesmo que os outros, ou seja, tendo o mesmo alimento cultural como os centenas e centenas de milhares de outros?

A espiritualidade moderna se desvia para um caminho muito perigoso se ela tem aversão, ou melhor, se ela se debruça sobre política e acredita na incompatibilidade da espiritualidade e política, do espírito e poder, porque o apoliticismo inevitavelmente leva - a menos que haja uma negação indiferenciada da política precedida por uma diferenciação afiada - estar à mercê da radiação-de-fundo das políticas vigentes. Obviamente, a espiritualidade que está sob a égide dessa radiação-de-fundo política terá o carimbo de suas características e perderá sua própria espiritualidade que possuía na era da tradição, aquilo que faz a espiritualidade ser o que é em qualquer circunstância. Assim, o homem moderno pseudo-espiritual, em vez de escolher uma batalha espiritual heroica, se entra as forças de poderes obscuros e indefiníveis, e em vez de ascender ele prefere abandonar-se a alguma coisa, embora ele não saiba exatamente o quê. Não é de se estranhar, então, que a "meditação" efeminada no self-service da espiritualidade-de-consumo não é uma "batalha real" (Ramana Maharshi) como aquela do homem antigo mas, na verdade, uma relaxação. A "glória" da era moderna é que ela conseguiu fazer a meditação - que costumava ser privilégio das pessoas mais proeminentes - uma das formas de relaxamento disponíveis para qualquer um. Como todos nós sabemos bem, quando um homem totalmente materializado - demasiadamente pesado - que perdeu contato com sua vida mais elevada, "começa a relaxar", apenas o ponto mais baixo pode definir o limite ao seu afundamento. 


András László and Metaphysical Traditionality by Ferenc Buji 


domingo, 15 de março de 2015

O Presente percebido por Liberais, Conservadores, Céticos, Radicais e Reacionários (Por Eric Hoffer)



É interessante comparar aqui as atitudes em relação ao presente, futuro e passado mostrado pelo conservador, o liberal, o cético, o radical e o reacionário. 

O conservador duvida que o presente possa ser melhorado, e ele tenta moldar o futuro na imagem do presente. Ele vai ao passado para se tranquilizar sobre o presente: "Eu queria o sentido de continuidade, a garantia que os nossos erros contemporâneos eram endêmicos na natureza humana, que os nossos novos modismos eram heresias muito antigas, que as coisas queridas ameaçadas fizeram estremecer não menos fortemente no passado." Como, de fato, o cético é parecido com o conservador! "Existe alguma coisa que se possa dizer: Veja, isso é novo? Isso já esteve nos tempos antigos, muito antes de nós." Para o cético, o presente é a soma de tudo o que foi e que será. "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol."  O liberal vê o presente como filho legítimo do passado que está constantemente crescendo e desenvolvendo em direção um futuro melhor: danificar o presente é mutilar o futuro. Todos os três, então, valorizam o presente, e, como é de se esperar, eles não aceitam de boa vontade a ideia de auto sacrifício. Sua atitude em relação ao auto sacrifício é melhor expressa pelo cético: "melhor um cão vivo do que um leão morto. Pois o vivo sabe que morrerão: mas o morto não sabe de coisa alguma...  Já não possuem parte alguma de qualquer coisa que se faz debaixo do sol."

O radical e o reacionário detestam o presente. Eles têm o passado como uma aberração e uma deformidade. Ambos estão prontos para prosseguir sem piedade e de forma imprudente com o presente e ambos são favoráveis a ideia de auto sacrifício. Onde então eles diferem? Principalmente na sua visão da maleabilidade da natureza do homem. O radical tem uma fé apaixonada na perfectibilidade da natureza humana. Ele acredita que mudando o ambiente do homem e aperfeiçoando a técnica de formação da alma, a sociedade pode ser forjada de maneira totalmente nova e sem precedentes. O reacionário não acredita que o homem possui potencialidades insondáveis pelo bem. Se uma sociedade estável e saudável deve ser estabelecida, ela deve ser moldada através de modelos comprovados pelo passado. Ele vê o futuro como uma restauração gloriosa, em vez de uma inovação sem precedentes.

Na realidade, a linha divisória entre radical e reacionário nem sempre é distinta. O reacionário manifesta o radicalismo quando ele tenta recriar seu passado ideal. Sua imagem do passado é baseada menos sobre o que realmente era do que sobre o que ele quer que o futuro seja. Ele inova mais do que ele reconstrói. Uma mudança semelhante ocorre no caso do radical quando vai construir seu novo mundo. Ele sente a necessidade de uma orientação prática, e desde que ele rejeitou e destruiu o presente, ele é obrigado a ligar o novo mundo com algum ponto do passado. Se ele tem que empregar a violência na formação do novo, a sua visão da natureza do homem escurece e se aproxima mais àquela do reacionário. A mistura do reacionário e o radical é particularmente evidente naqueles envolvidos em um renascimento nacionalista. Os seguidores de Gandhi na Índia e os Sionistas na Palestina ressuscitavam um passado glorioso e, simultaneamente, criavam um a Utopia sem precedentes. Os profetas também, são uma mistura de reacionário e radical. Eles pregaram o retorno a uma antiga fé e também visavam um novo mundo e uma nova vida.

Retirado do livro The True Beliver por Eric Hoffer 

sábado, 19 de julho de 2014

O Falso Amanhecer do Livre Mercado Global (por John Gray)


A política do laissez-faire que produziu a Grande Transformação na Inglaterra do século 19 foi baseada na teoria de que a liberdade do mercado é natural e as restrições políticas ao mercado são artificiais. A verdade é que o livre mercado é uma criação do poder do Estado e existe apenas enquanto o Estado for capaz de impedir que a necessidade humana de segurança e de controle dos riscos econômicos ganhe expressão política. 

Na ausência de um Estado forte voltado para a execução de um programa econômico liberal, o mercado será inevitavelmente sufocado por uma miríade de restrições e regulamento. Isto surgirá espontaneamente em resposta a problemas sociais específicos, não como elementos de qualquer grande projeto. Os parlamentares que aprovaram as Leis das Fábricas nos anos 1860 e 1870 não reconstruíram a sociedade ou a economia de acordo com um plano. Eles respondiam a problemas do dia-a-dia - perigo, miséria, ineficiência - assim que tomavam consciência deles. O laissez-faire desapareceu como inesperada consequência de uma multiplicidade de reações descoordenadas. 

Mercados controlados são norma em qualquer sociedade, ao passo que os mercados livres são produto de estratagemas, planos e coerção política. O laissez-faire deve ter um planejamento central; mercados regulamentados apenas acontecem. O livre mercado não é, como os pensadores da Nova Direita imaginaram ou afirmaram, o presente da evolução social. É um produto final da engenharia social e da vontade política obstinada. Ele foi exequível na Inglaterra do século 19 somente porque, e enquanto, as instituições democráticas em funcionamento eram deficientes. 

As implicações dessas verdades para o projeto de construção de um livre mercado mundial num período de governo democrático são profundas. É que as regras do jogo do mercado devem ser isoladas da deliberação democrática e da emenda política. A democracia e o livre mercado são rivais, não aliados.
 
A contrapartida natural da economia de livre mercado é uma política de insegurança. Se "capitalismo" quer dizer "livre mercado", então nenhuma visão é mais ilusória do que a crença de que o futuro reside no "capitalismo democrático". No curso normal da vida política democrática, o livre mercado sempre tem vida curta. Seus custos sociais são tais que não podem ser legitimados por muito tempo em qualquer democracia. Esta verdade é demonstrada pela história do livre mercado na Grã-Bretanha e isto é bem entendido pelos mais sagazes pensadores neoliberais que planejam fazer o livre mercado global. 

Aqueles que procuram projetar um livre mercado em escala mundial sempre insistiram que a estrutura legal que o define e fortalece deve ser posta fora do alcance de qualquer legislatura democrática. Estados soberanos podem filiar-se como membros da Organização Mundial do Comércio; mas é esta organização, e não a legislatura de qualquer Estado soberano, que determina o que deve ser considerado livre comércio e o que é restrição a ele. As regras do jogo do mercado devem ser colocadas acima de qualquer possibilidade de revisão através de escolha democrática. 

O papel de uma organização transnacional como a OMC é o de projetar mercados livres na vida econômica de qualquer sociedade. Ela o faz tentando forçar a adesão às regras que libertam o livre mercado dos mercados complicados ou engessados que existem em toda sociedade. As organizações transnacionais podem escapar ilesas somente na medida em que estejam imunes às pressões da vida política democrática. 
A descrição de Polanyi da legislação exigida para criar uma economia de mercado do século 19 ajusta-se com igual força ao projeto de livre mercado global de hoje em dia, como foi antecipado pela Organização Mundial do Comércio e entidades similares. 

Nada que iniba a formação de mercado deve ser permitido nem deve ser admitida que seja através de renda que não seja através de venda. Nem deve haver qualquer interferência em relação ao ajuste de preços para modificar as condições de mercado – sejam os preços das mercadorias do trabalho, da terra ou do dinheiro. Portanto, deve haver não apenas mercado para todos os produtos da indústria, como também não deve ser aprovado nenhuma medida ou política que possa influencias na ação desse mercado. Nem preço, nem oferta, nem procura devem fixados ou regulados; apenas cabem aquelas políticas e medidas destinadas a ajudar a garantir a auto-regulamentação do mercado pela criação de condições que façam do mercado a única força organizada da esfera econômica

Certamente, esta é uma fantasia irrealizável; sua busca, empreendida pelos organismos transnacionais, produziu desordem econômica, caos social e instabilidade política em países imensamente diferentes ao redor do mundo. Nas condições em que foi tentada no final do século 20 a reinvenção do livre mercado envolveu uma ambiciosa engenharia social em grande escala. Nenhum programa de reformas tem chance de êxito hoje, a menos que leve em conta que muitas das mudanças produzidas, aceleradas ou reforçadas pelas políticas da Nova Direta são irreversíveis.  Igualmente, nenhuma reação política às consequências dos planos de livre mercado será eficaz se não dominar as transformações econômicas e tecnológicas que tais planos foram capazes de utilizar. 

A reinvenção do livre mercado provocou profundas rupturas nos países em que foi tentada. As instituições políticas e socais que ela destruiu - os princípios de Beveridge na Grã-Bretanha e o New Deal de Roosevelt nos EUA - não podem agora ser reconstruídas. As economicas de mercado social da Europa continental não podem ser remodeladas como variações reconhecíveis da democracia social ou cristã do pós-guerra. Aqueles que imaginam que possa haver um retorno às "políticas normais" de administração econômica do pós-guerra iludem a si próprios e aos outros. 

Ainda assim, o livre mercado não teve sucesso em estabelecer para si o poder hegemônico projetado. Em todos Estados democráticos a supremacia política do livre mercado é incompleta, precária e, em pouco tempo, solapada. Ele não sobrevive facilmente a períodos de retração econômica prolongada. Na Inglaterra, as consequências inesperadas das próprias políticas neoliberais enfraqueceram o poder político da Nova Direita. A frágil coalização de setores do eleitorado e da área econômica que a Nova Direita mobilizou em defesa de suas próprias políticas logo se desfez. 



Contudo, a desordem da vida econômica e social hoje não é causada unicamente pelo livre mercado. Ultimamente decorre da banalização da tecnologia. As inovações tecnológicas ocorridas nos países ocidentais adiantados são logo copiadas em toda parte. Mesmo sem política do livre mercado, as econômicas dirigidas do período pós-guerra poderiam não ter sobrevivido - o avanço tecnológico as tornariam insustentáveis. 

As novas tecnologias tornam impraticáveis as políticas de pleno emprego tradicionais. O efeito das tecnologias da informação é o de levar a divisão social do trabalho a um fluxo permanente. Muitas ocupações estão desaparecendo e todos os empregos estão menos seguros. A divisão do trabalho na sociedade é agora menos estável do que foi desde a Revolução Industrial. O que os mercados globais fazem é transmitir essa instabilidade a toda economia do mundo e, agindo assim, tornam universal a nova política de insegurança econômica. 



O livre mercado não pode perdurar numa era em que a segurança econômica da maioria do povo está sendo reduzida pela economia mundial. O regime do laissez-faire está destinado a desencadear movimentos contrários que rejeitam suas características. Tais movimentos - sejam eles populistas e xenófobos, fundamentalistas ou neocomunistas - podem atingir poucas de suas metas; mas também podem destroçar ruidosamente a frágil estrutura que sustenta o laissez-faire mundial. Devemos aceitar que a vida econômica mundial não pode ser organizada como um livre mercado universal e que formas melhores de governar pela regulamentação global são inalcançáveis? Seria o nosso destino histórico uma anarquia moderna tardia? 

É necessário uma reforma da economia mundial que aceite a diversidade de culturas, regimes e economias de mercado como uma realidade permanente. O livre mercado global pertence a um mundo no qual a hegemonia ocidental parece assegurada. Como todas as variáveis da utopia iluminista sobre uma civilização universal, esta pressupõe a supremacia ocidental. Não se harmoniza com um mundo pluralista no qual não há poder que possa esperar exercer a hegemonia que a Grã-Bretanha, os Estados unidos e outros Estados ocidentais exerceram no passado. Não vai ao encontro das necessidades de um tempo no qual as instituições e os valores ocidentais não são mais universais. Não permite que as diversas culturas do mundo busquem modernizações adaptadas às suas histórias, circunstâncias e necessidades particulares. 

Um livre mercado global trabalha para jogar os Estados soberanos uns contra os outros em lutas geopolíticas por causa da diminuição dos recursos naturais. O efeito de uma filosofia laissez-faire que condena a intervenção estatal na economia é o de impelir os Estados a se tornarem rivais no controles de dos recursos, cuja conservação não é da responsabilidade de nenhuma instituição. 



Nem, evidentemente, uma economia mundial organizada como um livre mercado global vai ao encontro da universal necessidade humana de segurança. A raison d'être de qualquer governo é a capacidade de proteger seus cidadãos da insegurança. Um regime de laissez-faire global que impede os governos de cumprir esse papel protetor está criando as condições para uma instabilidade política, e econômica, ainda maior. 

Nas economias avançadas, competente e engenhosamente controladas, podem ser encontrados caminhos nos quais os riscos impostos aos cidadãos pelos mercados mundiais possam ser reduzidos. Nos países mais pobres, o laissez-faire global produz regimes fundamentalistas e funciona como um catalisador para a desintegração do Estado moderno. Em nível mundial, bem como no de Estado-nação, o livre mercado não promove estabilidade ou democracia. O capitalismo democrático mundial é uma condição tão irrealizável quanto o comunismo mundial.