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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Problemas que resultam na localização da Espiritualidade na Psique (Por Rama Coomaraswamy)

"Assim como meu corpo sem minha Alma é uma carcaça, também minha Alma sem Teu Espírito, é um caos, uma pilha obscura de faculdades vazias: ignorante de si mesmo, insensível a Tua bondade, cego para Tua glória: morto em pecados e transgressões. Tendo olhos, não vejo, tendo ouvidos, não ouço."
       Thomas Traherne, Centuries 93

"O Subconsciente, não o intelecto, é o órgão através do qual o Homem vive sua vida espiritual. É a fonte de poesia, música e artes visuais, e o canal do qual a Alma está em comunhão com Deus."
        Arnold Toynbee, A Study of History
"Se considerarmos cuidadosamente a alma humana em sua natureza, veremos duas regiões: uma pertencente à ordem sensível, e outra à ordem suprassensível ou intelectual. A parte sensível da alma é comum aos homens e animais; inclui os sentidos externos e internos que compõem a imaginação, a memória sensível, os apetites sensíveis, daí aflora as várias paixões ou emoções que chamamos de amor sensível e ódio, desejo e aversão, alegria sensível e tristeza, esperança e desespero , audácia, medo e raiva. Toda esta vida sensível existe no animal, mesmo se suas paixões são suaves como as das pombas ou cordeiro, ou se são fortes como as do lobo ou boi. Acima dessa parte sensível, comum a homens e animais, nossa natureza possui uma parte intelectual que é comum aos homens e aos anjos, embora seja muito mais vigorosa e bela nos anjos. Por esta parte intelectual nossas almas enxerga acima do corpo e por isso dizemos que a alma é espiritual. A verdadeira inteligência que sozinha merece o nome de "intelecto não qualificado", é uma faculdade que, se não estiver prejudicada devido a insubordinação das faculdades mais inferiores, suas servas fixadas, voará diretamente ao alvo. Ela não pensa. Ela vê. O catalisador desse poder para ver, que todo mundo carrega dentro de si mesmo, mesmo estando ou não ciente, é o objetivo do método espiritual em cada homem."
       Marco Pallis, correspondência privada 

Equívocos modernistas da Espiritualidade

Na passagem citada acima, Arnold Toynbee, claramente delineia as atitudes predominantes e convicções sobre a natureza da "espiritualidade". Esta opinião, porém, é uma distorção grosseira, cujas consequências estão repletas de perigos para aqueles que legitimamente procuram as coisas "elevadas" da vida. Nossa psique, que inclui não só nosso subconsciente, mas também os nossos egos e nossos processos de pensamento, é notoriamente instável pois o que pensamos ou sentimos em um determinado momento pode facilmente mudar. Além disso, ela não consegue abraçar a totalidade do que somos enquanto seres humanos. Que a espiritualidade tenha sua fundação em tais "areias movediças" desmente sua própria natureza intrínseca, pois a espiritualidade, se for verdadeira e real, deve estar fundamentada em um terreno mais sólido. Ao mesmo tempo, a visão moderna ignora o que é mais central em nossa natureza enquanto seres humanos feitos à imagem de Deus. É quase inevitável, assim, que a espiritualidade se divorcie da religião, da verdadeira intelectualidade, da razão, e até mesmo do senso comum; assim, consequentemente, alguns cultos dos mais bizarros, infelizmente, se caracterizam como religião.

Uma das razões para essa visão é que atualmente existe uma confusão considerável entre "religiões" e "sistemas de crenças". De fato, há uma tentativa por parte de alguns acadêmicos em reduzir todas as religiões em sistema de crenças, argumentando que as religiões são meros sistemas de crenças que de alguma forma foram "escolhidas" e se tornaram aceitas por um grande número de pessoas e, assim, tornaram-se religiões estabelecidas.  Mas é necessário fazer uma distinção, pois as religiões genuínas são baseadas em revelações que proporcionam um credo fixo, um código e um culto que é independente de qualquer pensamento individual ou sentimento, por outro lado os sistemas de crenças não são baseados em revelações e estão inevitavelmente sujeitos a opiniões humanas. Reconhece-se, naturalmente, que muitos fundadores de seitas modernas baseiam-se parcialmente sobre o que poderia ser denominado "revelação" - aceitando o que eles gostam e rejeitando o que eles acham ofensivo - e que quase todos alegam ser inspirados pelo "Espírito Santo". Mas permanece o fato de que todas elas são baseadas em parte, se não completamente, no pensamento e na compreensão de uma pessoa humana. O problema é que tais pensamentos e sensações residem na psique e assim sujeitos a ilusão, um problema que só pode ser evitado através da adesão de uma fonte externa fixa. Infelizmente, hoje, muitos representantes de religiões tradicionais, atacam os fundamentos revelados de sua fé em uma tentativa de acomodá-la aos valores do mundo moderno, o que na prática reduz ao mesmo nível que outros sistemas de crença.

Se se concorda que a maioria dos nossos sistemas de crenças são baseados em sentimentos e pensamentos - todas as propriedades que, como será mostrado, se localizam dentro do plano da psique -, conclui-se que se torna impossível criticar qualquer sistema de crença. Como a psique e os pensamentos de cada pessoa pode ser dito ter igual valor, segue-se que todas as religiões e sistemas de crenças têm o mesmo valor - porque a verdade ou crenças de qualquer um - desde que não criem problema uns para os outros - tornam-se aceitável. Dessa forma, afirmar que qualquer culto ou religião é falsa, seria um ato de presunção. Além disso, pensa-se que este tipo de perspectiva exclusiva tem levado a conflitos e guerras, tudo em nome de Deus, e, portanto, tais atitudes devem ser evitadas. (Deve-se notar, porém, que, como São Paulo disse: "nossos desejos e nossa ganância", que são as causas da guerras, e por mais que gostemos de ceder em nome de deuses ou de ideais, estes continuam a ser os causa raiz dos conflitos.) Na ordem prática, "qualquer coisa que funcione" para um indivíduo é considerado aceitável. E, de fato, os psiquiatras estão reconhecendo que a religião tem seus usos práticos como um meio de ajudar as pessoas a enfrentar os problemas da vida, e, ao assegurar uma crença na vida após a morte, ajudam a lidar com morte. [1]

Muitas pessoas preferem se descrever como "não-crentes", mas nunca na verdade conheci um "não-crente". A maioria das pessoas acreditam, por exemplo, na evolução e que eles próprios são produto de uma evolução em curso que os torna mais inteligentes que os seus antepassados. Eles acreditam no progresso inevitável da humanidade em direção a uma humanidade unida que será Socialista em sua organização. Eles admitem que as coisas ainda não são perfeitas, mas com a ajuda da ciência tais defeitos podem ser corrigidos. Em essência, estão sinceramente convencidos na perfectibilidade do mundo, e acima de tudo do homem. Esta evolução da "visão" secular foi bem descrita na obra de HG Wells, Um Esboço da História, da década de 1920, que substitui claramente o princípio da Gloria Dei - Glória de Deus - com o princípio da Homo Mensura - homem como a medida de todas as coisas. Muitas ideias do homem moderno não podem ser claramente pensadas ou formuladas, embora o mesmo pode ser dito dos sistemas de crenças de muitas pessoas exteriormente tradicionais que aceitam sem pensar muito.

Por trás dessa confusão há uma certa "auto-imagem" do que nós somos enquanto seres humanos. É fácil para os filósofos especificarem a origem desta auto-imagem, mas a maioria das pessoas não leem filosofia ou nem mesmo pensam sobre a natureza do homem. No entanto, é útil ter uma ideia do fundo filosófico envolvido. De certa forma pode-se traçar essa auto-imagem de volta à queda de Adão, mas, mais imediatamente, podemos começar com Descartes. A partir de Descartes, aprendemos que toda a realidade é abrangida e limitada por aquilo que ele chamou de res extensa (basicamente, aquilo que tem extensão e, portanto, o que pode ser medido) e res cogitans (ou o que se pode pensar). Tais ideias levou algum tempo para permear a sociedade, mas a partir de meados de 1800, esse dualismo cartesiano tem sido a base filosófica do esforço científico, bem como uma grande influência sobre todos os ramos da academia e da ordem política e social.

Nossa auto-imagem baseada na visão de mundo cartesiana é muito diferente da visão de mundo tradicional. Devido nossas convicções sobre o progresso e evolução temos nos cegado para outras possibilidades. As opiniões dos nossos antepassados tradicionais podem até ser estudadas como parte de uma pesquisa histórica - geralmente de forma distorcida - mas raramente são seriamente consideradas como soluções para nossos problemas modernos. Isso seria uma tolice, como a tentativa de reverter os ponteiros do relógio. E por isso é que nós permanecemos presos a nossa auto-imagem moderna e teimosamente recusamos qualquer outra alternativa. Pode nos surpreender saber que nossa auto-imagem moderna não é exatamente nova. Por exemplo, Boécio, no século V, comentou que aqueles que pensam que o homem só é um animal que raciocina se esqueceram o que eles são. Seja como for, deixe-nos por um momento considerar o ponto de vista mais tradicional ("tradicional" no sentido de "transmitido") do homem.

A visão tradicional distingue três aspectos do homem: Espírito, Psique (que inclui nossos processos de pensamento habituais), e o Corpo. A tabela a seguir descreve estes em várias culturas:




Deve-se acrescentar que Espírito na terminologia Hindu e Budista é referido como Atman; em Egípcio como Amon, na tradição Judaica como Ruah [2], e na Chinesa como Ch'i (Tai Ch'i ou Wu Ch'i para evitar o significado limitado de Ch'i nas artes marciais). Mais uma vez, os teólogos e os médicos medievais distinguiam entre Animus vel Intellectus (o alicerce espiritual do homem) e Anima (a psique, incluindo a mente ou os processos mentais). É lamentável que o termo "alma" é atualmente usado indistintamente tanto para Animus e Anima, mas talvez seja inevitável, uma vez que muitos teólogos contemporâneos percebem o mundo em termos Cartesianos. [3]

Embora as psicologias tradicionais comumente falam de uma antropologia tripartite, a Psique e Corpo são frequentemente classificados em conjunto como o "eu" ou "ego" inferior. Assim temos São Tomás de Aquino ensinando "duo sunt em homine" ("há dois no homem") e São Paulo fala sobre a lei de seus membros se oporem à lei de sua mente (Rom. 7 : 23) [4]. Neste esquema, a Psique e o Corpo são conceitualmente fundidos por duas razões. Primeiro, o corpo em si não tem força diretiva. É preciso algum "poder" elevado como a Psique para dirigi-lo, ou pelo menos para ir junto. E, segundo, ambos Psique e Corpo carecem de permanência ou consistência na medida em que eles estão sempre em fluxo, ou num estado de que os teólogos chamam de "devir". Observe que as psicologias tradicionais igualam o eu inferior com o "ego". Os teólogos usam o termo "ego" em um sentido ligeiramente diferente dos psicólogos freudianos. Ambos os grupos concordam que o autocentramento (que, quando em excesso, é denominado pelos psicólogos "narcisismo maligno") reside no ego. Mas, enquanto o psicólogo fala em termos de forças do "ego", o teólogo vê a egocentrismo como equivalente ao orgulho e procura controlar ou converter este eu inferior na aceitação da direção do Espírito. A sua recusa em fazê-lo torna o indivíduo "ego-centrado". Em tal estado, o eu inferior ou o ego está em conflito com o Espírito, e, portanto, muitas pessoas estão "em guerra com si mesmos." O ego reside no plano da Psique (pois claramente não é nem o Corpo nem o Espírito), e é em si mesmo uma entidade muito nebulosa. Ele é "nada além de um nome que, na verdade, é só uma sequência de comportamentos observados". Ou ainda, nas palavras de Albert Ellis: "este "Eu" é um processo em curso, em constante mudança." No entanto, a Psique (incluindo nossos pensamentos e como vemos nós mesmos), é em grande medida organizada em torno de nossos egos. É sua própria instabilidade que faz com que esse eu inferior seja sujeito ao esforço psiquiátrico.

Em oposição a esse "eu" inferior e potencialmente instável (o eu ou "eus" que os psiquiatras e psicólogos lidam e tentam modificar [5]), as psicologias tradicionais afirmam que o homem também possui um Si mais elevado ou interior. Esse Si interior, muitas vezes distinguido pelo uso do S maiúsculo, possui vários nomes, alguns dos quais já citados acima. Ele é tido como "divino", e é descrito como a "habitação do Espírito Santo", o Synteresis dos Escolásticos, a "fonte de muitos fôlegos" ou Atman dos Hindus, o Ruh dos Árabes, a "Alma da alma" de Philo, o "Homem Interior" de Platão, entre outros exemplos. A perspectiva tradicional pressupõe, ainda, que a pessoa média está "em guerra consigo mesmo", precisamente porque estes dois eus (o "eu" instável / "ego" e o superior "Si" / "Espírito") estão em conflito, e a verdadeira sanidade ou totalidade é, em última instância, encontrada somente no santo cujos dois eus são "um" - estado em que pode-se dizer que o "cordeiro e o leão" deitam-se juntos. Assim Sócrates orou: "que o meu homem exterior e o interior sejam um só". São Tomás de Aquino nos diz que a tranquilidade e a felicidade só pode decorrer de uma vida ordenada, o que significa que o Espírito, Psique e Corpo devem estar ordenados corretamente - qualquer desvio da hierarquia seria um pecado. É nesse sentido que falamos em controlar a si mesmo, e por isso repreendemos o perturbado para "tomar posse de si". É também neste sentido que podemos falar de algumas doenças mentais como uma "des-ordem". [6]

No plano prático, é claro que se pode centralizar a vida no Corpo, na Psique ou no Espírito. O último exige de nós não "como gostamos", mas "como deveríamos." Do ponto de vista metafísico, escolher centrar nossas vidas em nossa psique é atribuir a nós mesmos a propriedade de discernir o que é verdadeiro e falso - e como afirmam os Judeus, tornar-se a fonte da verdade é a maior forma de idolatria. É declarar que "não vai servir", que somos deuses em nós mesmos, uma condição que, em última análise, não é nada mais que o orgulho.

Muitos sistemas de crenças New Age declaram que somos deuses em nós mesmos. [7] E mesmo aqueles que declaram que irão decidir por si mesmo o que é verdade estão inconscientemente sendo "deuses em si mesmos". É importante entender em que sentido as religiões tradicionais encara a habitação do Deus no homem. Santa Teresa de Ávila nos diz:
Muitas vezes, é da maior importância que você entenda esta verdade, ou seja, que Deus habita dentro de você e que devemos habitar Nele... Não imaginemos que o interior do nosso coração é vazio... E para compreender como Deus está sempre presente em nossa alma, vamos ouvir São João da Cruz, um outro mestre diferenciado da ciência dos santos: "A fim de saber como encontrar esse Esposo, nós devemos ter em mente que o Verbo, o Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, está escondido em essência e está presente no mais íntimo ser da alma... É por isso que Santo Agostinho, falando com Deus, diz: "Eu não Ti encontrei fora, Ó Senhor, porque eu não tinha direito de te buscar lá, pois Tu está no interior.' Deus está, portanto, dentro da alma." (Cântico Espiritual, Stanza I)." [8]
Santa Teresa cita São João da Cruz com mais detalhe, onde expõe sua visão que Deus pode estar presente na alma de três maneiras diferentes:

"Para explicar isso, deve-se observar que existem três maneiras em que Deus está presente na alma. A primeira é a Sua presença em essência, e a este respeito Ele habita não apenas nas almas que são boas e santas, mas igualmente naquelas que são más e pecadoras, e de fato, em todas as criaturas, pois é esta presença que lhes dá vida e ser, e se fosse retirada, deixariam de existir e retornariam ao seu nada de original. Esse tipo de presença nunca deixa a alma. A segunda forma de presença de Deus é pela graça, quando Ele habita na alma satisfeita. Esta presença de Deus não está em todas as almas porque aquelas que cometem um pecado mortal perde-a. O terceiro tipo de presença de Deus é por meio da afeição espiritual; pois Deus mostra Sua presença em muitas almas piedosas em diversas formas de gozo, alegria e júbilo."

Santa Teresa comenta da seguinte forma:

"Do primeiro tipo de presença nós nunca podemos ser privados. A segunda devemos adquirir para nós mesmos com todas as nossas potências da alma, e devemos guardá-la a qualquer custo. A terceira não está em nosso poder. Deus dá a quem lhe agrada." 
Dizer que Deus habita dentro de cada um de nós não é panteísmo. Na verdade, o panteísmo é um conceito bastante moderno, pois, as outras sociedades que dão muitos nomes para várias manifestações de Deus, nunca, ao nosso conhecimento, negaram a unidade de Deus. Então, o que é panteísmo? [9] É a ideia que Deus está em tudo e tudo está em Deus - e como tal, não há nenhuma exigência nem para adorá-Lo, nem para estar em conformidade com Seus mandamentos. Uma coisa é proclamar a imanência de Deus em toda criação - pois claramente ele é imanente em todas as coisas - outra bem diferente é negar a Sua transcendência. Ambas são realidades. Transcendência sem imanência nos isola do Divino, Imanência sem transcendência corta o Divino de nós. Tanto a transcendência quanto a imanência devem andar juntas por causa da dualidade "Princípio e Manifestação". Enquanto o Princípio Supremo, em si, não é nem transcendente nem imanente, mas "Aquilo que É", a partir da perspectiva do plano de manifestação, deve então existir um Criador transcendente, e a criação resultante precisa ser abraçada por uma imanência para sua própria existência. E ambos - transcendência e imanência - se unem na teofania no Logos - o conceito tradicional do Homem-Deus. Do nosso ponto de vista humano, pode-se dizer que a transcendência aniquila a manifestação, enquanto imanência enobrece-a. Segundo a tradição, por um lado, a transcendência reduz o homem a "pecador" e "escravo", e, por outro lado, a imanência eleva o status do homem para "filho de Deus" e seu "representante" na terra. Esses dois pode-se dizer que se reúnem no Homem-Deus; porque, se, por um lado, "só Deus é bom", por outro, "Quem me vê, vê o Pai". [10]

Aqueles que reconhecem a habitação do Espírito Santo reconhecerá imediatamente que a Verdade, a Justiça e uma série de outros valores, não podem depender de nossos sentimentos ou até mesmo de nossos pensamentos. Tem que haver alguma fonte externa e objetiva para os critérios ao qual nos podemos recorrer, ou para os quais os pensamentos possam se conformar. Isto pode ser resultado da imanência que nos referimos acima, ou baseados em princípios transcendentes. Apesar de todas as teorias sobre o super-ego, os pacientes, e cada um de nós, muitas vezes "sabemos" quando estamos fazendo algo errado. Como mencionado anteriormente, temos um intellectus vel spiritus (não confundir com o sentido comumente entendido do intelecto como mero sinônimo para o pensamento raciocinado) que pode direcionar nossos pensamentos e vontade. O problema é que quando alguém se baseia na "imanência", se corre o risco de erro, pois, o Intellectus pode ser distorcido, ou, na famosa terminologia de São Paulo "vemos através de um vidro escurecido." Antes da Queda, Adão "andava e falava a com Deus." Seu intelecto tinha uma visão clara e uma compreensão da Verdade e da Realidade. Depois da Queda sua desobediência e obstinação nublou seu intelecto, levando a sua expulsão do Paraíso. Adão, originalmente feito à "imagem e semelhança" de Deus, perdeu essa semelhança e é nossa tarefa recupera-la. Nossos intelectos, mesmo sendo capazes de apreender a Verdade e a Realidade, estão distorcidos por nossas paixões e opiniões pessoais. Daí segue-se que, ao contrário de Adão, que antes da Queda tinha uma imediação experimental à Deus, nós - a humanidade depois da Queda - precisamos de uma Revelação que nos forneça uma fonte clara da Verdade, uma direção e um acesso à transcendência.

Freud descobriu que os pacientes, de fato, possuíam um senso de certo e errado. Sendo um Cartesiano convicto, o que excluía a possibilidade de permitir um "supra-consciente", Freud teve de encontrar a fonte para esse sentido no que ele chamou de "super-ego" que relacionou com o subconsciente e com o ego - formado, em sua opinião, por pressões sociais e parentais. Admitindo-se que nossa moralidade é muito influenciada pela família e pela sociedade, mas também se baseia em princípios externos - algo negado Freud filosoficamente - se fez necessário o desenvolvimento de sua teoria do super-ego. Jung reconheceu a existência de Deus, mas, em seguida, postulou que Deus e os vários "arquétipos" estavam todos enraizados no subconsciente. Nós estamos de várias maneiras aprisionados em uma psicologia baseada em princípios cartesianos e, embora às vezes possamos usar nossa faculdade inata, o Intellectus, na ordem prática negamos sua existência.

Anteriormente fizemos uma distinção entre uma "religião" e um "sistema de crença"; uma religião está baseada na revelação, num código, culto e crença que é fixo e externos ao indivíduo. De fato, o dicionário Webster define a religião como uma "adoração de Deus ... expressa na adoração formal em obediência aos mandamentos divinos ...". Um "sistema de crença", ao contrário, é baseado naquilo que um indivíduo pensa que é digno de crença, e muitas vezes é aceito porque o "inconsciente coletivo" da sociedade vigente considera aceitável. Como mencionado acima, há uma tendência entre os estudiosos a considerar verdadeiras religiões como "sistemas de crenças" popularmente estabelecidos, mas dessa forma não se reconhece a natureza das verdadeiras religiões. [11]

Submeter o homem à necessidade de obediência aos mandamentos divinos imediatamente desperta os protestos daqueles que declaram que a mente individual deve ser livre e não sujeito a alguma autoridade externa. Esses que protestam insistem que todas as questões estão sujeitas à mente humana e essa é livre para decidir todas as coisas por si só. E isso é compreensível para alguém cuja toda perspectiva é baseada no dualismo cartesiano de corpo e mente. Se esses são os únicos componentes do homem, então, de fato, o protesto pode ser válido, pois a mente e o corpo de qualquer indivíduo não tem mais autoridade que a de qualquer outro. [12]

Essa tendência de colocar não só o bem, mas também o mal dentro do plano da Psique tem sido cada vez mais aceita na esfera pública. Como resultado, raramente se ouve falar em mal, pois o mal implica em uma escolha que o reducionismo evolutivo nega em grande medida. O mal é visto como o resultado final de traumas de infância ou pressões sociais. O fato de que o homem é dotado de um Intelecto (para saber a verdade e o que é certo e errado) e uma Vontade (pela qual ele pode escolher entre o certo e o errado) é quase esquecido. Os sistemas de crenças com base na psique raramente dispõem de uma moral fixa que permita enfrentar essas realidades. Na verdade, nossos códigos morais são, em grande medida, baseados na opinião pública que, naturalmente, pode ser facilmente manipulada.

Um resultado direto da perspectiva cartesiana que coloca os valores e a espiritualidade no plano da Psique é que nós já não temos um fundamento para a moralidade. Tendo atuado em comitês de ética em hospitais, é claro para nós que as decisões são tomadas por voto, não por princípio. Isto não é negar que os envolvidos não fazem o seu melhor voto de acordo com sua consciência, mas apenas dizer que a consciência de qualquer pessoa é tão boa ou má quanto a do seu vizinho. Mais recentemente, a Universidade de Princeton, contratou o Dr. Singer que tem desenvolvido novos critérios para decidir sobre a vida e a morte de crianças, ou seja, determinar se são "sencientes." Nós esquecemos que critérios semelhantes foram usados pelos nazistas para massacrar esquizofrênicos e outros em hospitais psiquiátricos?

Outro grande problema que resulta da perspectiva cartesiana é uma falsa espiritualidade, uma espiritualidade baseada mais no sentimento do que em princípios, uma espiritualidade fundamentada na psique ao invés do Espírito. Muitas pessoas, conscientes do fato de que o materialismo crasso é insuficiente para satisfazer certa fome interior, procuram por algo "espiritual" em suas vidas. Onde procurar? A tendência é a busca por uma resposta no plano da psique, e não no Espírito, cuja existência é negada. [13] Eles se voltam para a música, para a arte, ou uma série de outros interesses como a ecologia, o ecumenismo e o governo mundial, muitos dos quais eles rotulam como se possuíssem sua origem no "espírito", mas que no longo prazo não satisfazem sua fome por algo real. E aqueles que os guiam - muitas vezes por um preço elevado - estão felizes mantendo a busca sequestrada deles no plano da Psique. Religião tornou-se uma coleção de clichês desanimadores e sentimentais, mais preocupados com as questões sociais do que com a Verdade. Nossos porta-vozes religiosos não são mais confiáveis e respeitados, pois eles também, apesar do fingimento, são cartesianos.

A Psique nunca pode ser sinônimo do Espírito. A Psique é um nível de ser baseado na polaridade sujeito / objeto, onde a experiência "objetiva" é condicionada pela "subjetividade" do experimentador. O Espírito ou Intelecto, por outro lado, transcende essa polaridade. Podemos descrevê-lo como perfeitamente Objetivo, uma vez que é o que é, estando eu ciente ou não, se aceito ou não aceito. O Absoluto é como um "raio" Divino interceptando a alma humana, e como tal, é o testemunho supremo de tudo o que está acontecendo, tanto no plano do Espírito como na Psique. O importante é que ele transcende a própria subjetividade individual, pois nós sempre tendemos a ver "através de um vidro escurecido".

Colocar espiritualidade na Psique tem muitas outras consequências. Não só a nossa moralidade é completamente submetida à opinião pública; os pacientes moribundos são apoiados em terapias de grupos com base nos mesmos princípios - por exemplo, eles são ensinados e incentivados a participar de auto-hipnoses que permite condenar suas almas em complacência. Mais uma vez, vários métodos de "meditação" e "yoga" são ensinados e igualmente permitem a auto-hipnose, e não raro deixam a alma aberta à invasão de influências negativas. Embora pouco se fale, sabe-se que aqueles envolvidos podem, por vezes, ter sérios problemas psiquiátricos. A abertura da Psique a influências externas, natureza que é mal compreendida, é sempre um grande perigo (e é claramente proibida por todas religiões) pois há forças malignas tanto dentro como fora de nós, contra as quais, a Psique em isolamento, tem defesas fraquíssimas. [14]

Outro problema resultante é que a religião é vista como algo que deve ser estudado psicologicamente, o que é, de fato, uma inversão, uma vez que o elevado sempre deve delinear o mais baixo. Esta atitude abarca uma variedade de maneiras. Assim, por exemplo, o Dr. Hans Naegeli Osjord explica:

"A psicologia moderna e a psiquiatria coloca qualquer esforço de exorcismo em categorias de persuasão, ou seja, o envio de uma (contra-) opinião para convencer o paciente; uma sugestão, uma influencia direta de emoção e imaginação do paciente, e auto-sugestão; mudança de opinião e percepção aceitada por uma parte essencial da personalidade." [15]

Ou ainda, Delacroix, com base em suas próprias investigações de Santa Teresa, Madame Guyon, São Francisco de Sales, São João da Cruz e Heinrich Suso, conclui que o místico possui uma aptidão peculiar que é fundamentada em uma extraordinária vida do subconsciente: 

"Embora, sem dúvida, sujeito a processos fisiológicos e psicológicos excepcionais e inevitáveis, incluindo automatismos e intuições do eu subconsciente, o místico utiliza-os para um fim especial: a transformação total da personalidade." [16]

Embora este autor - muito reconhecido - escreveu isso em 1908, essa atitude ainda é generalizada, e está no pensamento de muitos psicólogos e clérigos.[17]

Algo semelhante é o fenômeno atual do uso de várias formas de meditação para supostos benefícios psico-físicos. Que tais benefícios estão associados com práticas espirituais é óbvio, mas divorciar tais práticas da finalidade para as quais foram destinadas se corre o risco de criar problemas graves. O uso de mantras, que possui significados desconhecidos para o indivíduo (e que às vezes são escolhidos pelo computador!), fez com que alguns praticantes de "TM" fossem hospitalizados em estados psicóticos. O uso de Yoga por razões de saúde pode trazer algum benefício, mas também nem sempre é benigna. Yoga, que deriva de uma etimologia que significa "laço" ou "união", em última análise, visa a união com Deus, e na Índia nunca iria ser praticada sem um diretor espiritual qualificado. Práticas que envolvam o "esvaziamento" da mente sem essa orientação permite a auto-hipnose e a possível invasão de forças inferiores.

Estes problemas estão longe de ser limitados ao mundo ocidental. Considere o caso de Sai Baba, que diz ter 20 milhões de seguidores hindus, assim como muitos discípulos ocidentais, e que nos diz que ele é a reencarnação de um santo Sai Baba que viveu cerca de 100 anos atrás. Sua firme crença na reencarnação afasta-o da doutrina hindu ortodoxa e é uma característica da crença Espírita.[18]

Além disso, Sai Baba executa truques mágicos que são tidos por milagres, como se um santo fosse realizar milagres simplesmente para impressionar seus seguidores. Ele mantém vínculos com gurus da Nova Era na América os quais enviam seus discípulos. Ele também é acusado de ser homossexual ativo, embora isto seja negado.[19] Ou ainda, considere o Ashram de Sri Aurobindo, onde a oração é proibida, e onde muitos das mais conhecidas "luzes" da Nova Era da Califórnia têm suas raízes - para não falar do fato de que padres católicos como o padre Bede Griffith tem tentado misturar suas crenças com os gurus. Ou ainda, considerare os inúmeros "gurus" que vagueiam pelo mundo ensinando princípios espíritas e alegando que estes tem origem vedântica. [20] É importante entender que estamos de fato enfrentando uma subversão a nível mundial. 

O espiritismo é, de fato, um excelente exemplo de "religião falsa". Nós rotulamos como "falsa" não porque pessoalmente negamos seus pilares, mas porque não se baseiam em qualquer princípio imanente ou transcendente, mas apenas sobre o que foi encontrado na Psique de certos indivíduos. Deve ficar claro que os espíritas - e, na verdade, a maioria dos cultos modernos que passam por religiões - não baseiam suas crenças em qualquer corpo de doutrina e isso é impossível no âmbito de suas raízes. Esta falta de estabilidade de credo é uma das marcas da religião não-revelada. A fé, em vez de ser definida como uma doutrina tradicional baseada nos ensinamentos de uma Revelação, é reduzida a qualquer sensação calorosa. Um recente ensaio no New York Times (20 de Maio de 2000) assinala que "as fronteiras que separam denominações há tempos tem sido desfocada por muitos Protestantes que dizem que ser Metodistas ou Presbiterianos ou Batistas não realmente importa para eles, ou, na verdade, eles não tem certeza do que isso significa." O artigo ainda comenta que isto "não é realmente surpreendente ... as denominações baseavam-se, afinal, em distinções de classe social, região, etnia e raça, juntamente com (talvez ainda mais) as distinções de doutrina, prática e política ... a mobilidade, a educação, casamentos mistos e a cultura transmitida por meios de comunicação de entretenimento e publicidade têm feito as suas vítimas sobre essas diferenças." Infelizmente, a Igreja Católica está a aderir esta tendência em seu desejo de unir-se com os vários grupos protestantes. Como no caso do Vaticano II que prevê e exige que as diferenças de credo sejam suprimidas quando não abolidas. Paralelamente a essa mudança de atitude está uma tendência de fazer da religião uma questão de sentimento. Vê-se isso particularmente nos vários movimentos carismáticos e ecumênicos que evitam distinções doutrinais e são claramente construídas sobre um emocionalismo.

Tudo isso pode ser delineado considerando as perspectivas pós modernistas da religião. Em essência, essa perspectiva é a seguinte: (1) Não há verdade objetiva, portanto, (2) a realidade não é percebida, mas sim construída por padrões inerentes de percepção, ou pela história, ou pela sociedade e linguagem, ou pelo indivíduo. Segue-se que (3) todas as tentativas de criar visões de mundo amplas que transcendem a história, ou a sociedade, ou mesmo (em última instância) o indivíduo, são opressivas. Portanto, (4) todas essas visões de mundo arbitrariamente construídas devem ser desconstruídas, a fim de celebrar a diversidade e preservar os direitos das construções da realidade de minorias marginalizadas que, é claro, já que também são construídas, também devem ser desconstruídas. Tudo isso para a preservação dos direitos das minorias. O pós-modernismo termina inevitavelmente em desconstrutivismo, e o desconstrutivismo termina (esperançosamente) na desconstrução do desconstrutivismo.


Um exame mais aprofundado do Espiritismo


A maioria dos indivíduos tem um desejo pela verdade. Esta sede não pode ser descartada como uma aberração psicológica. Como Aristóteles disse: "Todos homens desejam saber." No mundo científico que somos produtos, a ideia da imortalidade é muito ridicularizada, e assim essa busca por algo real frequentemente toma forma de ter o conhecimento do que acontece após a morte. Não há, porém, perigo maior do que buscar a Verdade dentro do plano da Psique. A razão disto é que a Psique carece de estabilidade dentro de qualquer indivíduo e está sujeita às várias paixões. Mas, uma vez que se rejeita a possibilidade de algo mais elevado no homem, além de seus sentimentos e processos de pensamento, onde mais se pode buscar? É aqui que muitos caem em um poço sem fundo. É pouco conhecido até que medida os psiquiatras tem explorado o mundo da Psique na busca de uma maior compreensão - um entendimento que só pode ser derivado do Espírito de Deus. Assim, por exemplo, Sonu Shamdasani em sua introdução do livro "From India to the Planet Mars" de Theodore Flournoy nos diz:

"No final do século XIX, muitos dos principais psicólogos - Freud, Jung, Ferenczi, Bleuler, James, Myers, Janet, Bergson, Stanley Hall, Schrenck-Notzing, Moll, Dessoir, Richet, e Flournoy - frequentaram médiuns. É difícil hoje imaginar que algumas das questões mais cruciais da "nova" psicologia foram disputadas em sessões espíritas, nem como tais homens puderam se fascinar pelos espíritos. O que aconteceu nas sessões encantou as principais mentes do tempo, e teve uma influência crucial sobre muitos dos aspectos mais significativos da psicologia do século XX, linguística, filosofia, psicanálise, literatura e pintura." [21]
Durante o período posterior, a participação de psiquiatras em estudos espiritualistas ou espíritas, variou entre aqueles que, como Freud, estavam comprometidos com um ponto de vista mais ou menos inteiramente materialista, e aqueles que, como Jung (como Dr. Richard Noll demonstrou) tornaram-se profundamente envolvidos com o mundo dos espíritos.[22] Esta dicotomia permanece, ainda hoje, dentro da psiquiatria moderna, com "autoridades" como Kubler-Ross, cuja influência sobre tanatologia ou o tratamento e a assistência de morte é difundida. Kubler-Ross, uma espírita convicta, se comunica com os espíritos dos mortos e encoraja aqueles que enfrentam a morte que se alegrem, pois eles também serão capazes de continuar a viver de outra forma enquanto esperam para reencarnarem novamente na terra. Antes que se pense que este indivíduo representa um aspecto "marginal" na psiquiatria moderna, eu disponho dos comentários do Dr. Robert Gibsion em 1976 que no ano seguinte tornou-se o presidente da Associação Psiquiátrica Americana: 
Eu conheço a Dra. Ross e não consigo encontrar palavras para expressar plenamente minha enorme admiração por suas contribuições para nossa compreensão dos estágios finais da vida. A sua investigação sobre a morte e morrer é notável. Ela terá valor duradouro para as próximas décadas.
Este mesmo indivíduo, autor de vários livros e muitos artigos, foi convidada a depor perante o Congresso sobre o assunto de tratamento de moribundos. Ela, juntamente com o Dr. Moody e outros, também se envolveram no estudo de experiências de "quase morte". Experiências de quase morte - que estão longe de serem sempre agradáveis - estão inteiramente dentro do domínio psíquico, como resulta do fato de que elas podem ser analisadas pela inteligência discursiva.

O que atraí na crença em "espíritos"? Para as pessoas criadas em um mundo materialista, ela oferece o conforto da imortalidade, no sentido de que a vida continua e não acaba quando morremos. Esta é também particularmente consoladora para aqueles que perderam entes queridos e foram deixados para trás. Ao mesmo tempo, essas crenças não fazem grandes exigências sobre a forma como se deve viver a própria vida, pois conceitos como o pecado e o mal são atenuados pelo fato de que os próprios espíritos estão evoluindo para estados cada vez mais elevados da existência. Essa busca de contato com os mortos é muito presente, bem ilustrado pelo Bispo Pike, que morreu no deserto israelense durante a tentativa de entrar em contato com seu filho recém-falecido.

Muitos protestarão que eles não são "Espíritas"; certamente há diferentes sistemas de crenças Espiritualistas que vão desde os Teosofistas, a Santoria, o Voodoo, os cultos New Age e reencanacionistas. O que todos esses tem em comum? É sua convicção que se pode comunicar com os mortos. Acredita-se que os "espíritos" dos mortos atuam na matéria e produzem fenômenos físicos, como batidas, ruídos e uma série de outros fenômenos paranormais. Estas ações são indiretas e exercidas por intermédio de uma pessoa viva que é chamada de "médium". [24] Sua concepção do ser humano é ternário e distinguem entre o "espírito" (não o Espírito de Deus, de fato, esse espírito nunca é bem definido), o "perispírito" (uma espécie de "aura", que alguns afirmam ver) e o corpo. Nada muda com a morte, exceto que o corpo desaparece. O próprio espírito permanece exatamente o mesmo que na vida, exceto que "desencarnado". Tal compreensão permite que ocorra comunicações. Esses "espíritos" podem ser descritos como "almas" mais evoluídas ou superiores , mas em todos os casos, é uma pessoa morta proporcionando a sabedoria ou o que se passa por sabedoria. Pode surpreender alguns por incluirmos reencarnacionistas dentro desta categoria, mas a maioria dos espíritas afirmam que os espíritos evoluem desde os estágios mais inferiores para os estágios mais elevados, e renascem neste mundo como parte de seu contínuo desenvolvimento e progresso.

Embora as casas assombradas têm estado conosco desde tempos imemoriais, parece que o Espiritismo se desenvolveu com as irmãs Fox que viviam em uma casa assombrada em Rochester, Nova York, uma casa em que um assassinato havia ocorrido e que no porão um esqueleto posteriormente foi encontrado. A família Fox defendeu publicamente a crença em "espíritos", e quando se depararam com oposição, os Quakers chegaram para dar apoio. [25] Na França, o impulso para o movimento foi dado com a publicação dos livros de Allan Kardec - cujos escritos até hoje fornece ao movimento Santoria sua base intelectual. Kardec, na verdade, era um indivíduo chamado Hippolyte Rivail que, sobre o "conselho dos espíritos", adotou o nom de plume Celta, Allen Kardec, e cujos escritos eram a produção de um grupo de Espíritas que quiseram manter o anonimato. 

Os espíritas acreditam que eles são ensinados pelos "espíritos" que estão em contato, e eles não hesitam em afirmar que esses ensinamentos são, de fato, uma "revelação". Se esta afirmação parece um pouco extrema, deve-se examinar as crenças teosóficas no "Mestres", que são espíritos evoluídos, e cujo ensinamento e direção é muito respeitada. Os espíritas até mesmo chegam ao ponto de afirmar que os fundadores de uma religião verdadeira (como o cristianismo) eram médiuns poderosos e videntes. Eles diminuem os milagres à medida que comparam com os fenômenos que são produzidos em suas sessões, profecias comparam com as mensagens que recebem e as curas do Evangelhos pelo que pode ser demonstrado pelos Carismáticos. Se algumas das mensagens recebidas são bastante banais, os Espíritas explicam afirmando que são de "espíritos inferiores" e até mesmo "espíritos desonestos", que são menos "evoluídos" e consideram os ensinamentos dos "superiores" ou mais evoluídos como mais pertinentes. No entanto, essas comunicações estão estreitamente relacionadas com o ambiente que foram formuladas, e de fato, se suspeita que a verdadeira fonte destas comunicações pode ser encontrada no subconsciente dos que estão presentes, e acima de tudo no subconsciente do médium. Assim, por exemplo, a reencarnação era aceitável na França e ao mesmo tempo foi bastante rejeitada pelos espíritas ingleses. Kardecismo (as obras de Allan Kardec), mantém traços de socialismo, uma vez que nasceu no meio socialista de 1848. Este ponto é importante, pois o Espiritismo era surpreendentemente aceitável em círculos comunistas pois pregava o Bolshevismo! [26]

Foi feita menção sobre Reencarnação que apareceu pela primeira vez em cena no meio do século 19. Antes disso era praticamente desconhecida. A Ma. Blavatsky adotou dos Espíritas franceses e trouxe para a Inglaterra como parte da Teosofia. Ela também introduziu ideias reencarnacionistas na Índia onde foi surpreendentemente aceitável, especialmente entre os ingleses mais educados. Deve ficar claro que nenhuma religião ortodoxa ensina tal doutrina, embora haja passagens tanto na Escritura como em outras religiões que podem ter uma interpretação reencarnacionista. O que é extraordinário é que ambos espíritas e os reencarnacionistas consideram que o que sobrevive é a individualidade do falecido. Se considera que se perde o corpo físico, e depois o corpo astral (semelhante ao perispírito), mas se mantém sua individualidade e, se renascer, mantém-se a mesma individualidade; supõe-se ainda um outro corpo no qual se evoluirá ainda mais. Em lugar algum fica claro qual é o fim de todo esse processo de evolução, mas o que está claro é que toda a ideia de céus e inferno é destruída. Uma vez que, neste "mundo astral" não há espaço para demônios ou espíritos malignos, pois não há nada neste mundo intermediário, apenas seres humanos em vários estágios de evolução. [27]

Há, naturalmente, variados tipos de espíritas e reencarnacionistas. Alguns insistem que o mesmo gênero é mantido ao longo de várias reencarnações, enquanto outros negam isto e afirmam que o gênero é alternado em cada visita terrena. Alguns afirmam que os seres humanos reencarnam em outros planetas e Allan Kardec dizia que, após uma série de reencarnações terrenas, finalmente se alcançava uma reencarnação planetária. Os teósofos afirmam que apenas reencarnações terrestres são possíveis.

Mencionamos como difundidas as ideias espíritas são. Por exemplo, Anna Lea, fundadora do movimento Shaker, alegou estar em contato com "espíritos" que ajudavam-na. Os Mórmons também reivindicam contato com entidades fora deste mundo, nomeadamente, um anjo chamado Moroni. Eles acreditam, ainda, que quando morrerem, irão para um planeta especial e viverão em casas de vidro. O fundador do movimento Quaker tinha visões ou alucinações que hoje levaria-o para um hospital psiquiátrico. [28] Muitas seitas de feitiçaria se enquadram nesta categoria. [30] Um recente texto, intitulado Psicologia e Religião, publicado com a aprovação da Sociedade de Psiquiatria Americana, apesar de não promulgar abertamente ensinamentos espíritas, claramente coloca a "espiritualidade" no plano da Psique e repete todas as falsas noções que o homem primitivo desenvolveu suas ideias religiosas devido a seu medo das forças da natureza. As tentativas de definir a "espiritualidade" neste texto dá prova de tudo o que dissemos. E, claro, esta abordagem simplista deixa o caminho aberto para todas as outras aberrações. Verdadeiramente, o número de cultos oferecendo ou prometendo uma falsa espiritualidade é uma legião. [31]

Muitas dessas idéias se infiltraram na Igreja Católica, aproximando-a do nível de "espiritualidade" atual. Menção já foi feita dos carismáticos, onde a Glossolalia é tão altamente elogiada - esquecem do fato de que Glossolalia sempre foi considerada um sintoma de possessão diabólica. Também o Movimento dos Cursilhos, a Renovação e uma série de programas similares que mudam periodicamente de nomes. Colégios católicos estão ensinando "eneagramas" na mesma linha que Jung e Gurdjieff, para determinar personalidade e tipo de espiritualidade. Recentemente me deparei com um menino da cidade participando de um retiro católico que foi enviado para um índio americano, "Vision Quest" - três dias sozinho nas montanhas. Poderíamos dar inúmeros exemplos de situações semelhantes.

Um desdobramento importante dos movimentos espíritas é a intenção proposital dos indivíduos em fazer contatos com os Espíritos. Aqui deparamos com o problema da "canalização", isto é, convidar os espíritos para usar alguém como canal para que seus "ensinamentos" possam ser compartilhados com outras pessoas. Mas aqui não se trata de espíritos dos mortos, mas de qualquer espírito que estiver vagando no plano intermediário - como um "leão, buscando a quem possa tragar". Certamente, convidar esses "espíritos" para entrar na sua vida é o mesmo que convidar, não somente os mortos, mas os demônios (que são hábeis em se apresentar como "anjos de luz") para alma - para sua Psique e corpo, uma vez que os demônios, por definição, não podem atacar o Espírito de Deus que habita em nós. Não é à toa que todas as religiões reveladas proíbem tais atividades.

Dado o fato de que demônios existem, é claro que eles não podem atacar o Espírito. Mesmo que possam atacar o corpo em isolamento, é a alma inferior ou a Psique que é, por assim dizer, seu campo de brincadeiras. Embora a vontade continue a ser livre, eles podem, através da memória, da imaginação e da paixões, influenciar a vontade. Se alguém não possui as salvaguardas que uma cultura verdadeiramente religiosa fornece - o que seria chamado "sacramentos" no Cristianismo - e acima de tudo, se se nega a influência do Espírito e se coloca a Psique no ápice do ser, se está claramente aberto a qualquer influência que o diabo queira exercer. É claro, então, que nossas crenças filosóficas inevitavelmente colorem nossas opiniões sobre religiões. Nossa crença de que o homem não passa de um animal racional que tem evoluído ao longo dos séculos até seu presente estado elevado; nossa crença de que, sendo mais inteligentes que nossos antepassados, não podemos recorrer a eles pela sabedoria, mas somente recorrer para algum futuro perfeito onde a perfeição do homem será completa; nossa crença que não há nada no homem que supere sua Psique e seu processo de pensamento; tudo isso nos obriga a colocar o Espiritual no plano da Psique, e exclui a possibilidade de nosso olhar para além desses horizontes limitados. [32] Não é que tudo na Psique seja ruim, mas que não pode existir uma humanidade integral que não leve em consideração o homem por completo. Os Judeus ensinavam que a pior forma de idolatria é assumir a si o direito de determinar o que é verdadeiro e falso. Isto, de fato, ocasionou a queda de Adão e não é nada diferente daquele orgulho e egoísmo que remove o divino pelo humano. O resultado final é que muito dos que tem sede pelo que é real são conduzidos para o poço escuro da Psique - bem descrita tanto pela psicanálise e por escritores espirituais - nunca encontrando sua saída. "Pelos seus frutos os conhecereis." O homem moderno perdeu todas as salvaguardas que outrora eram fornecidas pela religião contra a ilusão espiritual, e não somente se emaranha em uma variedade de seitas que vão desde as benigna até as diabólicas, mas, na verdade, sucumbe a tornar-se um canal para influências inferiores - lembrando que o demônio pode aparecer como um anjo de luz. Mesmo na melhor das hipóteses, essas tendências nos desencorajam de buscar "a única coisa necessária" - pois, por suas influências, esquecemos que o Reino de Deus está dentro de nós, e que o objetivo de espiritualidade é dizer com São Paulo: "Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim." 

NOTAS:


[1] Psicoses expressas em formas religiosas são resultados naturais quando as pessoas doentes foram educadas em um ambiente religioso. Como o Dr. William Wilson diz: "Em resumo, pode-se dizer que as religiões ou experiências religiosas não desempenham um papel significativo na etiologia da esquizofrenia. A religião pode e influencia o comportamento como resultado de seu efeito no conteúdo do pensamento do paciente. Por causa do efeito atenuado com a esquizofrenia, as experiências religiosas são incomuns uma vez que a psicopatologia desenvolveu-se. Elas acontecem, no entanto, com frequência em um estado psicótico... Sintomaticamente, a religião colore a doença tanto dos paciente maníacos como os depressivos. As crenças religiosas podem colorir profundamente o comportamento dos pacientes maníacos porque seu tom e energia afetiva elevada pode atuar em seus delírios religiosos...Esses delírios são exageros de crenças religiosas normais e impulsos, em contraste com aqueles de esquizofrênicos que são bizarros e autistas. Muitos pacientes as vezes  são movidos a pregar, rezar longas orações e entrar em exercícios litúrgicos exagerados, e dão testemunho as maravilhas de suas experiências religiosas para qualquer um que os escutam." William Wilson.  Religion and Psychoses in Handbook of Religion and Mental Health, Ed. Koenig. Academic Press, 1998.

[2] O termo Ruah também é traduzido como "sopro vital", e a discussão deste termo por Neil Gillman (The Death of Death, 1997, Jewish Lights, Woodstock, VT., USA) se assemelha aos ensinamentos hindus sobre Prana.
[3] A exposição clara disso pode ser encontrado em William of Thierry's The Golden Epistle of Abbot William of St. Thierry to the Carthusians of Mont Dieu, tr. Walter Shewring, London, 1930. Outro exemplo é fornecido por Duns Scotus: "A mulher é a alma racional (anima), cujo marido (literalmente vir ou "man', com a conotação de "poder ativo"- não maritus ou conjunx) é entendido como sendo o animus, que é variadamente chamado de intelecto (intellectus), as vezes mens (homens), as vezes animus e muitas vezes até mesmo spiritus. Este é o marido de quem o apóstolo fala "a cabeça da mulher é o homem, a cabeça do homem é Cristo e a cabeça de Cristo é Deus ". Em outras palavras, a cabeça da anima é o intellectus, e a cabeça do intellectus é Cristo. Essa é a ordem natural da criatura humana. A alma deve ser submetida à regra da mente, a mente a Cristo, e, assim, todo o ser é submetido por meio de Cristo a Deus Pai... Espírito revolve perpetuamente em Deus e é, portanto, bem nomeado de marido e guia das outras partes da alma, já que entre ele e seu criador nenhuma criatura é interposta.  A razão, por sua vez, gira em torno do conhecimento e das causas das coisas criadas e qualquer coisa que o espírito recebe através da contemplação eterna é transmitido à razão, e a razão comanda para a memória. A terceira parte da alma é sentido interior, que é subordinado à razão como faculdade que lhe é superior, e por meio da razão também está subordinado ao espírito. Finalmente, abaixo do sentido interior na ordem natural está o sentido exterior, através do qual toda a alma nutre e governa os sentidos corporais e anima todo o corpo. Uma vez que, portanto, a razão não pode receber nada dos dons do alto, a menos que, através de seu marido, o espírito, que detém o lugar principal de toda natureza. A mulher ou anima é justamente ordenada para chamar seu marido ou intellectus com quem ela possa beber os dons espirituais e sem os quais ela não pode participar nos dons do alto. Por tal razão Jesus fala pra ela, "Chame seu marido, venha para cá". Não tenha a presunção de vir até mim sem seu marido.  Pois, se o intelecto está ausente, não se pode ascender às alturas da teologia, nem participar de dons espirituais." Novamente, Orígenes ensina "Vamos observar alegoricamente como o homem, feito à imagem de Deus, é do sexo masculino e feminino. Nosso homem interior consiste de espírito e alma. O espírito é dito ser do sexo masculino;... A alma pode ser chamada de feminina. Se estes têm concórdia e acordam entre si, eles aumentam e multiplicam pelo próprio acordo entre si e produzem filhos, boas inclinações e entendimentos ... A alma se une com o espírito e assim, pode-se dizer, se casam...";
[4] "Mente" é um outro termo ambíguo, e é muitas vezes utilizado para traduzir o grego nous ou pneuma. Claramente São Paulo aqui não está falando de "processos mentais". O verso anterior deixa claro isso quando Paulo fala  "lei de Deus, de acordo com o homem interior."
[5] A utilização dos "eus" em plural é mais adequado como as inumeráveis tentativas atuais de explicar a natureza do eu deixa claro. Como poderia ser de outra forma quando esse eu está sempre em um estado de fluxo, sempre vindo-a-ser? 
[6] Os psiquiatras medievais - embora intitulados de forma diferente - viam a doença psiquiátrica originária do Corpo, na Psique, ou, em alguma distorção do lado Espiritual do homem. 
[7] Por exemplo, a preferência religiosa contemporânea é universal e não-sectária, melhor retratada como filosofia ou sabedoria perene. Normalmente, não tem como premissa a piedade nem adoração.  Em vez disso nas palavras de Campbell, "A contemplação da vida, portanto, é realizada como uma meditação sobre a própria divinidade imamente". (cited in B. Karasu, Spiritual Psychotherapy, American Journal of Psychotherapy, Vol 53, No. 2, Spring 1999).
[8] Esta e as seguintes citações são retirados do Pater Noster de St. Theresa de Avila. 
[9] O Panteísmo é uma concepção filosófica que equivale a uma espécie de ateísmo adornando o mundo com o nome de "Deus". A panteísmo que inclui um tipo de teísmo vago também existe entre os teólogos liberais, bem como entre os hindus ocidentalizados, que deduzem a partir de uma simplificação bruta do simbolismo de suas Escrituras.
[10] Isso nos traz de volta à questão da oração: não se pode rezar a si mesmo, mas somente a um Deus transcendente.
[11] Todas as grandes religiões - Islam, Hinduísmo, Judaísmo e Cristianismo - claramente declaram que são baseadas em Revelações. A adesão a Revelação não é uma posição "fundamentalista" (como atualmente entendido, pois o termo tem mudado ao longo dos anos).  Em contraste com o "fundamentalismo", a "ortodoxia" é definida como a "fé verdadeira e sã doutrina." A ortodoxia religiosa está enraizada na Revelação. Como o Cardeal Manning declarou  (The Four Great Evils of the Day, 1872): "Revelação de fé não é uma descoberta que a razão do homem fez para si por indução, ou por dedução, ou por análise, ou por síntese, ou por um processo lógico, ou por uma experimentação química. A revelação de fé é uma descoberta de si pela Razão Divina, o desvelamento da Inteligência Divina e a iluminação que flui dela sobre a inteligência do homem; e se assim for, gostaria de perguntar como pode haver variação ou discórdia? Como pode a iluminação da fé diminuir o status da razão humana? Como pode suas prerrogativas serem violadas? Não é o contrário? Não é o caso em que a razão é aperfeiçoada e elevada acima do eu pela iluminação da fé?".
[12] Foi o protestantismo que formalizou a tomada do processo de decisão sobre a Verdade para fora das mãos da Igreja e colocou-o no pensamento do próprio indivíduo - pois a "livre interpretação" das Escrituras era nada mais do que a aplicação de opiniões privadas para a compreensão padrão. É claro que as forças que favoreceram essa formalização estavam no ar - Huss, Wycliffe e outros - e foram promovidas pelas corrupções no corpo da Igreja que deu origem a ressentimentos, para não falar das forças econômicas em jogo que levou os príncipes alemães apoiaram Lutero.
[13] Albert Store, por exemplo, propõe um retorno ao si através da solidão, que permite uma maneira de por o indivíduo em contato com seus sentimentos mais profundos. Solitude, a Return to Self, New York, Ballantine Books, 1988.
[14] Os laços estreitos da Yoga com os cultos da Nova Era é bem reconhecido.
[15] Possession and Exorcism New Frontier Center, 1988, p. 45
[16] Ver Psychology of Religion, David Wulff, p. 23
[17] A tremenda resistência em aceitar a relação apropriada entre religião e a psiquiatria é bem ilustrada pela seguinte citação de Aldous Huxley: "Eu não tinha motivos para não querer o mundo com um significado, conseqüentemente, assumi que não tinha nenhum, e fui capaz, sem qualquer dificuldade de encontrar razões para essa suposição. Para mim, como sem dúvida, para a maioria de meus contemporâneos, a filosofia da falta de sentido era essencialmente um instrumento de libertação. A liberação que desejava era simultaneamente libertação de um determinado sistema político e econômico e a libertação de um determinado sistema de moralidade. Nós nos opomos a moralidade porque ela interferia nossa liberdade sexual."
[18] É verdade que muitos hindus acreditam na reencarnação, mas, também, é o caso de muitos católicos. As ideias de reencarnação foram introduzidas na Índia por Annie Besant e é apoiada por uma má interpretação das declarações em alguns textos sagrados. Não há, no entanto, nada no Vedas que apoie essa teoria. Ver Ananda K. Coomaraswamy, Hinduism and Buddhism, second edition, IGNCA, Delhi India, 1998, e suas várias referências no Volume 2 of Selected Papers, Metaphysics, Bollingen Series, Ed. Roger Lipsey, Princeton Universtiy Press.
[19] Tal Brooks, The Avatar of Night: The Hidden Side of Sai Baba, Delhi: Vikas/Tarang, 1982. Pode parecer persistente apontar sua homossexualidade; no entanto, há uma alta correlação entre as várias seitas e a inversão sexual. A homossexualidade e a sodomia é proibida em todas as tradições genuínas. Pode-se dizer que a experiência de Mr. Brooks era negativa, mas isso toca o cerne da questão, pois dificilmente era uma experiência Hindu verdadeira. Não apenas Sai Baba ensina a heresia da reencarnação, e realizava muitos "milagres" relativamente inúteis para impressionar sua audiência, ele também democratiza o hinduísmo; não faz nenhuma exigência de que as regras de casta devam ser obedecidas, e enquanto ele conta muitas histórias encantadoras do Mahabharata e Ramayana (o que cada criança ouve diversas vezes), ele não faz verdadeiras demandas espirituais. Ele aceita ocidentais como discípulos sem insistir em sua prática de disciplinas sérias ou de aprendizagem de uma doutrina sólida, ou obrigando-os a aprender a viver como hindus simples antes de entrar na suposta vida espiritual. Isso é perigoso para os ocidentais como expliquei no meu próximo artigo em Sophia chamado On "Gurus" and Spiritual Direction.
[20] Ver The Desacralization of Hinduism for Western Consumption, em Sophia, Vol 4, No. 2.
[21] From India to the Planet Mars, A Case of Multiple Personality por Theodore Flournoy com uma nova introdução de Sonu Shamdasani, Princeton, 1994.
[22] Dr. Richard Noll, The Jung Cult, Princeton, 1994 and The Aryan Christ, Random House, 1997. Jung abertamente falou "Eu me limito ao que pode ser psiquicamente experimentado e repudio a metafísica." (R. Wilhelm and C.G. Jung, The Secret of the Golden Flower, New York, 1931).
[23] Dra. Kubler-Ross contribuiu com insights clínicos úteis tais como sua delimitação das fases passadas por pessoas que enfrentam a morte - negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A melhor discussão de seu envolvimento espiritualista está em Paul Edwards, Reincarnation: A Critical Examination, Promethius Books, New York, 1996.
[24] "Quando, pois, algum homem ou mulher em si tiver um espírito de necromancia ou espírito de adivinhação, certamente morrerá; serão apedrejados; o seu sangue será sobre eles." (Levítico 20:27)Enquanto que fraudes são reconhecidas entre os médiuns, assume-se que não é sempre assim. Jung nos informa que a sensibilidade mediúnica desempenha um papel importante em tais indivíduos e os descreve como "abrir aos quatro ventos", intelecto, sensação, sentimento e intuição.
[25] As irmãs Fox mais tarde admitiram que estavam envolvidas numa fraude. 
[26] Estou em dívida com René Guénon em l'Erreur Spiritiste, traduzido por mim e Alvin Moore Jr.
[27] Uma avaliação científica excelente da reencarnação está disponível em Paul Edwads, Reincarnation: A Critical Examination, Promethius Books, N.Y., 1999. Os psiquiatras que usam hipnose para descobrir "vidas passadas" também usam as mesmas técnicas para descobrir "vidas futuras". Também, Ian Wilson, All in the Mind, Doubleday, N.Y., 1982. 
[28] Fui comandado pelo Senhor, de repente, a desatar os sapatos e tirá-los. Fiquei parado pois era inverno, mas a palavra do Senhor era como um fogo em mim então eu tirei meus sapatos, e fui ordenado a dar-lhes a alguns pastores que estavam nas proximidades. Os pobres pastores tremeram e se espantaram. Então caminhei cerca de uma milha até a cidade, e assim que cheguei na cidade, a palavra do Senhor chegou a mim novamente "Ai da cidade de Litchfield." Então eu andei pelas ruas chorando em voz alta "Ai da cidade de Lichfield." E ninguém me segurou, mas enquanto eu estava chorando as ruas pareciam para mim um canal de sangue fluindo pelas ruas e o mercado apareceu para mim como uma poça de sangue. E assim, finalmente, alguns amigos e pessoas vieram até mim e disseram, "Alack George, onde estão teus sapatos? E eu disse a eles 'Não importa'". (George Fox, fundador do movimento Quaker).
[29] "Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti." (Deuteronômio 18:10-12)
[30] Alguns cultos ou mestres com tendências espíritas são: Course of Miracles, Cientologia, EST, Temple of Understanding, Gaia, Celestine Prophecies, Wicca e Bruxaria (o livro de Philip Davis, Goddess Unmasked mostra claramente que esta é uma invenção do século 20), a Igreja de Satã (com a sua própria bíblia invertida), Sincretismo, Deepak Chopra, Movimento Radhaswami, o mito hindu-Aryan e o Neo-nazismo (A Sacerdotisa de Hitler - com os seus laços estreitos com o partido político verde), o Cult of Tilak, Eckankar, o Maharishi (que salvou os Beatles com "TM", e cuja imagem adorna a capa de seus discos, juntamente com um dos maiores satanistas do mundo, Alexander Crowley).
[31] Outro texto define como "um senso de conexão com a natureza, a humanidade e o Transcendente" Handbook of Religion and Mental Health, Ed. Harold Kowenig, Academic Press 1998. Há uma série de livros semelhantes recentemente publicados e todos de uma forma ou outra aceitam os mesmos princípios. Um bom resumo da várias posições é fornecido por John Schumaker, Religion and Mental Health, Oxford, 1992. Ele contém, por exemplo, um capítulo por John Shea que acusa Religião, e especificamente o catolicismo como responsável pelos desajustes sexuais. Parece claro que os desajustes sexuais vingentes, que muitos psiquiatras estão familiarizados, pouco tem a ver com religião - embora, claro, em uma cultura religiosa eles se manifestarão em termos religiosos. 
[32] Isto é bem demonstrado em um site recente (www.issc-taste.org) onde os cientistas documentam as suas experiências "espirituais", eventos que se enquadram na categoria da Psique, eventos paranormais, ou "sentimentos de euforia" e de "união com Deus", os quais um cientista descreveu como "eventos consciência cósmica."



The Problems that result from locating Spirituality in the Psyche por Rama P. Coomaraswamy



domingo, 7 de setembro de 2014

Gradação, Evolução e Reencarnação (Por Ananda K. Coomaraswamy)

Os chamados "conflitos" da religião e ciência são, em sua maior parte, o resultado de um mal-entendido mútuo de termos e alcance. Quanto as diferenças: um lida com o porquê das coisas, o outro com a sua forma; um com bens intangíveis e o outro com as coisas que podem ser medidas, seja direta ou indiretamente. A questão de termos é importante. À primeira vista, a noção de uma criação concluída "no início" parece entrar em conflito com a origem das espécies observadas na sucessão temporal. Mas, o in principio, agre não significam apenas "no início" com respeito a um período de tempo, mas também "no princípio", isto é, numa fonte última lógica em vez de temporalmente anterior a todas causas secundárias, e não mais "antes" do que o suposto início de sua operação. Assim, como Dante diz "Nem antes nem depois estava Deus movendo sobre a face das águas" e Philo "Naquele tempo, todas as coisas aconteceram simultaneamente, mas a seqüência foi necessariamente escrita na narrativa por causa de sua geração subsequente de um para outro"; e Boehme, "Foi um eterno começo". Como diz Aristóteles, "Seres eternos não estão no tempo." Existência de Deus é, portanto, agora - o eterno agora que separa passado de durações futuras, mas não uma duração em si. Assim, nas palavras de Meister Eckhart, "Deus está criando o mundo inteiro agora, neste instante." Novamente, tão pouco tenha algum tempo decorrido, embora pouco, tudo mudou; "Você não toca com seus pés duas vezes na mesma água". Para Jalalu'd Din Rumi, "Cada instante estás morrendo e retornando; Muhammad tem dito que este mundo é apenas um momento... A todo momento o mundo é renovado, a vida está sempre chegando, como uma corrente... O início, que se pensa, desemboca em ação; tão sábia foi a construção do mundo na eternidade."

Em tudo isso não há nada que que o cientista possa objetar; ele pode, de fato, responder que seu interesse se limita à operação das causas mediatas e que não se estende a questões de uma causa primeira ou sentido da vida; porém essa é simplesmente a definição do seu campo escolhido. O Ego é o único conteúdo do Ser que pode ser conhecido objetivamente, e, portanto, o único que ele está disposto a considerar. Sua preocupação é apenas com o comportamento.

A observação empírica é sempre de coisas que mudam, ou seja, de coisas individuais ou classes de coisas individuais; das coisas que, como todos os filósofos concordam, não pode-se dizer que são, mas apenas que se tornam ou evoluem. O fisiologista, por exemplo, investiga o corpo, e o psicólogo a alma ou individualidade. O último está perfeitamente consciente de que o ser continuo de individualidades é apenas um postulado, conveniente e mesmo necessário, para fins práticos, mas intelectualmente insustentável; e neste aspecto ele está em completo acordo com os budistas, que nunca se cansa de insistir que o corpo e a alma - compostos e mutáveis e, portanto, totalmente mortais - "não são o meu Ser," não é a Realidade que deve ser conhecida para “sermos o que somos”.
Da mesma forma, Santo Agostinho observa que aqueles que perceberam que ambos, corpo e alma, são mutáveis, têm procurado por aquilo que é imutável, e isso encontraram Deus - o Único, de qual ou quais os Upanishads declaram que "Tu és Aquilo". Teologia, consequentemente, coincidindo com o estudo de Si mesmo, prescinde de tudo o que é emocional, a considerar apenas o que não se move "Mudança e decadência ao redor de mim vejo, ó Tu que não muda" Encontra-se no eterno agora que sempre separa o passado do futuro e sem o qual estes termos emparelhados não teriam qualquer sentido, assim como o espaço não teria sentido se não fosse o ponto que distingue aqui de lá. Momento sem duração, ponto sem extensão esses são o Meio Áureo e o inconcebível Caminho Estreito que leva do tempo para a eternidade e da morte para imortalidade.

Nossa experiência de "vida" é evolutiva: o que evolui? A evolução é a reencarnação, a morte de um e o renascimento de um outro em continuidade momentânea: quem reencarna? A metafísica prescinde da proposição animista de Descartes, Cogito ergo sum, melhor dizer, Cogito ergo EST; e para a pergunta Quid est? respondem que esta é uma questão inadequada, por que seu sujeito não está entre os outros, mas entre o 'quê' de todos e de tudo que eles não são. Reencarnação, da maneira que atualmente é entendida - o retorno das almas individuais a outros corpos aqui na terra - não é uma doutrina indiana ortodoxa, mas apenas uma crença popular. Assim, por exemplo, como observa o Dr. B. C. Law, "Não é preciso dizer que o budista repudia a noção da passagem do ego de um corpo para outro" Tomamos mesma posição com Sri Shankaracharya, quando diz: "Na verdade, não há outro transmigrante mas o Senhor "- aquele que tanto transcende a Si mesmo e é imanente a todos os seres, mas que nunca se torna um deles; para tal pode-se citar a autoridade dos Vedas e Upanishads. Encontramos Sri Krishna dizer a Arjuna, e o Buda aos seus Mendicantes, "Longa é a estrada que temos trilhado, e muitos são os nascimentos que você e eu nos conhecemos", a referência não é a uma pluralidade de essências, mas para o Homem Comum no homem comum, que na maioria dos homens se esqueceu de Si mesmo, mas que o despertado chegou ao fim da estrada, e tendo feito todo o 'torna-se', já não é uma personalidade no tempo, já é ninguém, não é mais um dos quais pode-se falar por um nome próprio.

O Senhor é o único transmigrante. Tu és Aquilo - o próprio Homem no homem comum. Assim, como diz Blake: "O homem procura na árvore, nas ervas, peixes, animais, coletando as partes espalhadas de seu corpo imortal ...
Onde quer que a grama cresça ou brote folhas, o Eterno
Homem é visto, é ouvido, é sentido
E todas suas mágoas, até que ele reassume sua antiga
bem-aventurança”

Manikka Vaagar:
"A grama, arbusto era eu, o verme, a árvore, muitas espécies de feras, o pássaro, a cobra, pedra, homem e demônio...
Em todas as espécies nascido, Grande Senhor! Neste dia eu ganhei libertação; 

Apolônio de Tiana:
"A paixão dos seres fenomenais não é a de cada um, mas sim a de Um sempre;
este Um não pode ser corretamente falado, exceto se chama-lo de "Primeira Essência". Pois este sozinho é tanto o agente e o paciente, fazendo-se tudo a todos e por todo Deus Eterno, cuja idiossincrasia da essência é prejudicada quando é reduzida por nomes e máscaras"
Ovídio:
"O espírito vagueia, vem ora aqui, ora ali, e ocupa tudo que lhe agrada. Das bestas ele passa em corpos humanos e de nossos corpos em bestas, mas nunca perece"

Taliesin:
"Eu estava em muitas aparências antes de ser desencantado, eu era o herói em apuros, eu sou velho e sou jovem"

Empédocles:
"Antes de agora, nasci em um jovem e uma moça, um arbusto e um pássaro, e um peixe mudo pulando para fora do mar"

Jalalu'd Dm Rumi:
"Primeiro ele veio do reino inorgânico, longos anos habitou no estado vegetal, passou para a condição animal, seguindo depois para a humanidade: de onde, novamente, não há outra migração para ser feita"

Aitareya Arayyaka:
"Aquele que conhece o Ser cada vez mais claro é mais e mais plenamente manifestado. Seja qual for a plantas e árvores e animais que exista, ele sabe o Ser mais e mais plenamente manifestado. Pois em plantas e árvores só o plasma é visto, mas em animais a inteligência. Neles o Ser se torna cada vez mais evidente. No homem, o Ser é ainda mais evidente; pois ele é mais dotado de providência, ele diz que ele conheceu, ele vê o que ele conhece, ele sabe o dia seguinte, ele sabe o que é e o que não é mundano, e pelo mortal busca o imortal. Mas, quanto aos outros, os animais, a fome e a sede são, para eles, o grau de discriminação."

Em suma, nas palavras de Attar Faridu'd Din ':
"Peregrino, Peregrinação e Estrada eram apenas Eu mesmo na direção de Mim mesmo."

Esta é a doutrina tradicional, não da "reencarnação", no sentido popular e animista, mas da transmigração e evolução da "sempre produtiva Natureza"; é aquela que não entra em conflito com ou exclui a realidade do processo de evolução, tal como previsto pelo naturalista moderna. Pelo contrário, é justamente a conclusão a que, por exemplo, Erwin Schrodinger levado por seu inquérito sobre os fatos da hereditariedade em seu livro intitulado "O que é vida?", seu capítulo final em "Determinismo e Livre Arbítrio", "A única inferência possível" é que "eu - eu no sentido mais amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que já disse ou sentiu "eu" - sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla "o movimento dos átomos", de acordo com as Leis da Natureza ... A consciência é um singular do qual o plural é desconhecido".

Schrodinger está perfeitamente consciente de que esta é a posição enunciada nos Upanishads, e de modo mais sucinto nas fórmulas, "Isso és Tu... fora Dele não há outro vidente, ouvinte, pensador ou agente."

Cito-o aqui não porque defendo que as verdades das doutrinas tradicionais possam ser provadas por métodos de laboratório, mas porque a sua posição ilustra tão bem o ponto principal que estou fazendo, ou seja, que não há, necessariamente, conflitos da ciência com a religião, mas apenas a possibilidade de uma confusão de suas respectivas áreas; e o fato de que para todo o homem, em quem a integração do Ego com o Eu tenha sido efetuada, não há nenhuma barreira intransponível entre os campos da ciência e religião. O cientista e metafísico pode ser o mesmo homem; não há necessidade de traição de qualquer objetividade científica, de um lado, ou de princípios, por outro.



Nota: O foco metafísico do ensaio talvez possa ser melhor entendido no parágrafo brilhante do Cogito de Descartes. Aqui o caráter surpreendente do pensamento se deve ao contraste das respectivas formas em que a imaginação do Oriente e do Ocidente dá suporte ao conceito de ser. Se o Ocidente, especialmente naquela caricatura de si mesmo que se chama filosofia moderna, tende a imaginar a realidade em termos de sólidos visíveis, colorindo, assim, o conceito de ser com uma externalidade e uma rigidez do contorno não totalmente próprio, a imaginação do Leste tem sido geralmente mais sugestiva de uma concepção do ser como um ato, pessoal ou impessoal, dependendo do ponto de vista.

Para São Thomas, também, o ser é um "ato" ao qual, em última análise, até mesmo as substâncias entre as categorias são potenciais, e, assim, relativas. De nenhuma outra posição, disponível no Ocidente, pode-se entrar de maneira frutífera em contato com a tradição que Dr. Coomaraswamy representa.


A partir de uma compreensão aprofundada dos princípios da metafísica de São Thomas, pode ser possível, agora que os escritores orientais estão mais acessíveis para explicar o seu próprio pensamento para nós, transportar a compreensão da tradição oriental de uma forma mais delineada que no De Unitate intellectus contra Averrhoistas. Em qualquer caso, é certo que a unidade, ou melhor, a não-dualidade, da consciência de que o Dr. Coomaraswamy fala, não tem nada a ver com as concepções evolutivas e sentimentais do modernismo teológico.

domingo, 9 de março de 2014

Crenças Antigas e Superstições Modernas: A Busca pela Autenticidade (por Rama P. Coomaraswamy)

O maior problema enfrentado por aqueles que acreditam na possibilidade da verdade, e que partiram para buscá-la a sério, é a ausência - ou pressuposta falta - de quaisquer critérios para saber se o que encontramos é a coisa real. Algumas grandes religiões e entre 5 a 20 mil cultos, todos oferecendo várias opções e que são frequentemente exclusivos, como é que vamos escolher, ou mais precisamente, discernir? Preso como estamos na armadilha de Maya ou como um católico colocaria, com os nossos intelectos feridos e nossas vontades enfraquecidas pela queda de Adão, como podemos, por nós mesmos e sem ajuda externa, ter a certeza de que estamos evitando ilusão? É claro que podemos adotar a posição dos céticos e desistir da luta. Mas, deve-se lembrar o brilhante ditado de Platão, "o ceticismo é fácil, a incredulidade é para a plebe." Mas para aqueles que ainda não estão intelectualmente mortos, a questão ainda permanece: com que autoridade é que vamos viver e morrer? Existem autênticas fontes de verdade, ou a verdade é verdade simplesmente uma questão de nossos próprios instintos, nossas experiências psicológicas que funcionam para nós?

O primeiro problema a ser enfrentado é saber se a verdade é uma entidade subjetiva ou objetiva. Existe tal coisa como uma verdade objetiva -  que sempre foi e sempre será a mesma - imutável e constante - portanto, uma verdade que absoluta? Dessa maneira, as palavras possuem ou não significado. Se a verdade é apenas uma questão de gosto pessoal, se alguém está convencido de que toda a realidade é relativa, não há qualquer sentido em continuar seja a discussão ou busca. Este está preso no círculo vicioso de proclamar que a única verdade é que não há verdade.

Em última análise, temos apenas três possíveis fontes de autenticidade. Temos os Antigos Ensinamentos que estão -  assim assumo - incorporados nas grandes tradições religiosas do mundo. Temos os nossos próprios instintos ou a experiência psicológica, como verdade. E nós temos uma mistura desses dois extremos. Ou aceitamos critérios objetivos, ou aceitamos critérios subjetivos, ou também podemos criar uma mistura que, por alguma razão ou outra, descobrimos que seja pessoalmente satisfatória. Esta última, não é preciso dizer, também é subjetiva.

Somente quando aceitamos a possibilidade da verdade objetiva que podemos olhar para os Antigos Ensinamentos como uma possível autentica fonte. Infelizmente, vivemos em uma época muito supersticiosa. A chamada "idade das luzes", uma frase que certamente agrada a homem atual - é mais apropriadamente descrita pelos Antigos Ensinamentos como o Kali Yuga, a idade das trevas, ou a na terminologia católica, "os últimos dias." Isso nos leva a duas das mais poderosas superstições, as quais aceitamos - de fato elas poderiam serem chamadas de "dogmas" da modernidade - a evolução e progresso. A maioria desses estão convencidos de que a humanidade tem evoluído ao longo dos séculos e continua a evoluir a cada geração. Nós não consideramos nossos antepassados como primitivos, atrasado se supersticiosos? A própria palavra "supersticioso" nos faz pensar em um camponês medieval europeu manuseando seu rosário antes de algum santuário milagroso de Madonna, ou a de um brâmane hindu que recusa o acesso dos párias ​​aos recintos do templo. A última pessoa que pensaríamos como supersticiosos é um professor de Harvard ou um cientista importante.

O problema de ser supersticioso é que ela tende a nos cegar para a verdade. Se estamos convencidos de que algo falso é verdade, dificilmente procuraríamos além de seus limites por uma fonte de autenticidade. Se formos procurar nos Antigos Ensinamentos, consagrados nas grandes tradições religiosas do mundo, uma possível fonte de verdade autêntica e objetiva, a primeira coisa que devemos fazer é abandonar a nossa moderna e supersticiosa crença no progresso e na evolução. Como veremos, há uma série de outras crenças supersticiosas que também devem ser abandonadas. Entre estes estão incluídos nossa visão moderna da natureza do homem, nossos falsos conceitos igualitários, os nossos ideais socialistas e utópicos, nossas atitudes familiares, os nossos códigos morais, ou melhor, amorais, a nossa crença na ciência, e nossa atitude para com a religião.

Lembro-me bem de como meus amigos universitários - e mais tarde, alguns dos meus colegas profissionais - me encararam por ser Católico. Fui acusado de não pensar por mim mesmo. A ideia de que é uma coisa boa pensar por si mesmo é outra superstição moderna. A fim de esclarecer melhor a questão, gostaria de pedir-lhe que imagine uma sala de aula de estudantes de matemática dizendo ao professor que não concordou com as suas respostas, porque eles estavam fazendo matemática "por si mesmo." Não, pensar por si mesmo não é uma coisa saudável a se fazer. O que temos de fazer é aprender, não a pensar por nós mesmos, mas a pensar corretamente. É a função dos Antigos Ensinamentos nos ajudar a fazer exatamente isso, mas é preciso trabalho e disciplina. Nós, claro, temos a liberdade de pensar por nós mesmos - podemos pensar da maneira que quisermos. Mas não temos o direito de fazer isso, pois o erro nunca teve direito. Como o assassinato: somos livres para matar qualquer um que queremos, mas certamente não temos o direito de fazê-lo.

Já não acusam os religiosos por não pensar por si mesmos. A alegação atual é que eles se permitiram uma lavagem cerebral. Lavagem cerebral implica que os pensamentos e atitudes podem ser influenciadas, quando não controladas, por forças externas. Ambos, as religiões e os cultos - não falando de sistemas políticos - são acusados ​​de usar várias técnicas para que isso aconteça. Aqueles que aderem aos Antigos Ensinamentos, incorporados nas grandes tradições religiosas em sua integridade, permitiram-se uma lavagem cerebral? Antes de responder esta pergunta, permita-me ressaltar que estamos todos, em algum grau, sofrendo lavagem cerebral. Todos os dias as nossas mentes são bombardeados pela mídia, pela televisão, por romances populares e por aqueles com quem estamos em contato diariamente. Não tenho dúvidas que a maioria, se não todas, entidades adotam um ponto de vista anti-religioso, liberal-humanista, socialista, e mais ou menos cético-ateu. Além disso, o estresse da vida moderna é tal que, no pouco tempo livre que nos resta, muitos de nós ficamos expostos aos meios de comunicação de uma forma completamente passiva e não crítica. Nós, em outras palavras, deixamos que o apresentador do noticiário, os políticos e os escritores de best-sellers nos diga como pensar, e orgulhamo-nos de que estamos a pensar por nós mesmos. Se nós não vemos isso como lavagem cerebral, é porque essas fontes agradam os nossos egos, consideramos as tolices oferecidas como algo aceitável e agradável. Por outro lado, uma mãe que ensina sua fé ancestral para seus filhos e o brâmane que insiste na pureza ritual e nas restrições de casta também são culpados de lavagem cerebral. Mas, neste caso, muitos consideram o processo altamente censurável.

Vamos por um momento considerar nossos próprios níveis de escolaridade. Que formação trazemos de nossas casas? A maioria dos pais de hoje passaram por uma lavagem cerebral tão eficaz pelo ethos liberal e agnóstico de nossos tempos que já não possuem e portanto, não podem transmitir, qualquer sistema de valor ou conjunto de crenças fixas a seus descendentes - a não ser, é claro, que você considere o sucesso material como um sistema de crenças. E assim é que a maioria das crianças saem de casa com uma espécie de tabula rasa, ou pior, com uma crença no mundo da televisão. De acordo com estatísticas publicadas, todos os sábados de 16 milhões e meio de crianças passam uma hora e meia assistindo Graystone ou Tartarugas Ninjas. Os sociólogos chamam a televisão de “terceiro pai." Infelizmente, muitas vezes é o único pai.

Dessa forma, é com um grande alívio que as crianças são enviadas para a escola. É aqui que a lavagem cerebral formal é iniciada. O processo começa no jardim de infância, onde os meninos são mandados a brincar com bonecas e as meninas com espadas - isso, para - utilizando o jargão da psicologia moderna - "ensiná-los a evitar estereótipos." Através de uma variedade de técnicas como o "esclarecimento de valores", eles são ensinados a rejeitar os valores do seus pais - assumindo que estes possuam algum - de forma que desenvolva por si mesmos, geralmente os do professor ou aqueles que estão sendo promovidos por várias agências governamentais. Este processo é chamado de "desenraizamento". Ao longo dos próximos dez anos eles são ensinados a serem pequenos bons evolucionistas, socialistas, e como utilizar o dom do sexo sem responsabilidade. E então, eles vão para a faculdade, que é a condição sine qua non para ter o mínimo de um sucesso econômico. Mais uma vez, eles pagam um preço alto - preço a ser pago é maior do que as taxas de matrícula - que é a sujeição de nossas mentes a outro processo de doutrinação. Como meu pai disse uma vez - e isso na década de quarenta - é quase impossível alguém se formar na faculdade sem severo grau de deficiência intelectual.

E por isso para a pergunta: os seguidores religiosos passaram por uma lavagem cerebral? Acho que a resposta a esta pergunta deve ser formulada em termos de "pensar corretamente" e de abraçar "valores corretos." Se os Antigos Ensinamentos são uma autêntica fonte de verdade, e se tornam nossos, então somos como o aluno de matemática que aprende a calcular corretamente. Esse aluno não sofreu uma lavagem cerebral, porque ele sabe como fazer suas somas corretamente. A verdade, ou nossa submissão a ela, e o nosso "tomar ela para si", é, em última análise, a nossa única proteção contra tanto a lavagem cerebral quanto a auto-ilusão.

II
O homem não vive em um vácuo. Todo mundo, até mesmo o ateu convicto, tem o que podemos chamar de um "sistema de crença", ou seja, uma série de convicções que determinam como ele vive sua vida. Agora, cada sistema de crenças pode ser caracterizada por três coisas: pelo seu "credo", ou pelo que se acredita, pela seu "culto" ou sua forma, e pelo "código" ou regras para o comportamento que pratica ou defende.
Vamos considerar o sistema de crença - o credo, culto, e as regras - do graduado universitário médio. O que ele acredita? Eu acho que é justo dizer que ele está convencido de que não existe tal coisa como verdade absoluta, que toda verdade é subjetiva e, portanto, relativa. Por isso, é que, na linguagem comum, ele não diz "eu sei", mas apenas "eu sinto" que algo seja verdade. Ele acredita que a evolução é uma lei da natureza aplicável a todos os campos de experiência. Tudo evolui, não só o homem, mas o conhecimento, a sociedade, e até mesmo Deus! Lembro-me de meu filho de seis anos voltando para casa da escola e me dizer com orgulho que já não acreditava em Deus! Perguntei-lhe o que ele acreditava em seguida, e ele respondeu: "E ... oh, como se diz aquela palavra?" Felizmente pude convencê-lo do contrário. Mas a evolução é inculcada na mente de nossos filhos desde o berço. Alguma vez você já assistiu um programa sobre natureza? As fotos são maravilhosas, mas a mensagem é dirigida várias vezes. Tudo, desde as listras do tigre até o pescoço da girafa evoluiu. Toda criança sabe quem Darwin é. Quanta delas já ouviram falar de Gautama, o Buda ou de João Batista?

A evolução é, claro, um absurdo de ambos pontos de vista científico como filosófico. Do ponto de vista científico: não há absolutamente nenhuma prova a favor da evolução, todas as provas são contra ela. Na geologia, na biologia, na genética e todas as outras disciplinas científicas falam sobre a fixidez das espécies e a impossibilidade do transformismo. Não foram encontrados formas intermediárias entre as espécies. Fala-se muito de "elos perdidos." O problema com as ligações em falta é que eles estão em falta! Acreditar na evolução é acreditar que a maior pode sair do menor, é acreditar que a energia pode ser criada em sui generis, é acreditar que as coisas acontecem "por acaso" no sentido de que o acaso é uma possibilidade aleatória. A teoria das probabilidades nos diz que a chance de um passo evolutivo ocorrendo é tão remoto quanto ser impossível. No entanto, os evolucionistas nos dizem que muitas dessas etapas ocorreram. A coisa mais surpreendente sobre a evolução é que os cientistas que admitem tudo isso, continuam a acreditar na evolução - eles são verdadeiramente homens de profunda - mas cega - fé. Não é o caçador, mas o homem moderno, que acredita nas forças cegas da natureza, que deveria ser rotulado de animista!

Filosoficamente, a evolução também é um absurdo. Se fosse verdade, seria tão impossível que o homem saísse da corrente evolutiva, a fim de examinar o processo que "desenvolveu" ele como seria para um computador para analisar o criador. Como o filósofo de Oxford, Sir Karl Popper, aponta: “Se o Darwinismo é correto, então qualquer teoria é mantida por causa de uma certa estrutura física daquele a suporta - talvez seu cérebro. Assim, estamos enganando a nós mesmos e somos fisicamente determinados de tal modo que sempre cremos que existam tais coisas como argumentos ou razões para qualquer coisa. Condições puramente físicas, incluindo o nosso ambiente físico, fazem-nos dizer ou aceitar qualquer coisa que afirmamos ou aceitamos.”

Na teoria da evolução está implícita a negação do livre-arbítrio. Como Huxley aponta: "a proposição fundamental da evolução" é que "o mundo inteiro, vivo e o não vivo, é resultado de uma interação mútua, de acordo com leis definidas, de forças em poder das moléculas das quais a nebulosidade primitiva do universo era composta." Afinal, como pode "algo" - note, eu não disse "alguém", - que é produto de leis rígidas, leis que controlam o desenvolvimento futuro e que não tem liberdade para sair do processo evolutivo - como pode esse "algo" agir independentemente dessas leis? Como pode esse "algo" ter livre-arbítrio? O evolucionista Jonas Salk admite isso. Ele abertamente admite que sua vacina contra a poliomielite trabalha contra o processo evolutivo da seleção natural. A única maneira que ele pode explicar o seu esforço para desenvolver esta vacina é que ele foi geneticamente programado para fazê-la. Aqui deparamo-nos com mais um enigma, curiosamente partilhado também pelos socialistas, para esses a evolução toma forma de um determinismo histórico. Se a vida do homem é determinada pela evolução ou pela história, como pode ser ele "livre"? No entanto, ambos os evolucionistas e os deterministas históricos proclamam que o homem é livre para ajudar o processo em sua maneira para a perfeição e para uma utopia terrena. Os socialistas vão ainda mais longe. Eles punem o homem por sua falha em fazer isso, e em nome de sua idealização socialista mataram milhões a mais do que todas as guerras dos últimos três séculos.

Pensar desta maneira, como o psiquiatra Karl Stern disse: "é uma loucura", no sentido que os esquizofrênicos descompensados ​​são loucos. Tenho chamado a evolução de uma superstição, mas, na verdade, é o grande pai de todas as superstições modernas. Permitam-me dar-lhe uma definição de "superstição" tirado de uma edição mais antiga do Novo Dicionário Internacional Webster:

Um estado irracional abjeto da mente... proveniente da ignorância, medo irracional do desconhecido ou da escrupulosidade mórbida misteriosa, a crença em magia, ou uma religião ignorante, má intencionada ou não esclarecida da natureza... uma ideia irracional fixa, uma noção mantida apesar das evidências em contrário.

Quem são alguns dos "gurus" mais dominantes do mundo moderno, e o que eles acreditam? Freud, Adler, Fromm, Maslow, Rogers e Jung - são ou foram, todos eles, evolucionistas e, conseqüentemente, ateus. Eles nos dizem que o que é chamado de "inteligência" é composto por "razão", a habilidade para lidar com abstrações, a capacidade de aprender e a habilidade de lidar com situações novas. Um enorme esforço é gasto na tentativa de provar que os animais possuem razão - todas essas habilidades podem ser encontradas em formas inferiores de vida. Por isso, não é surpreendente encontrar Darwin nos dizendo que "os animais têm um intelecto de proporções diferentes", e que "as faculdades intelectuais do homem foram, essencialmente, e gradualmente aperfeiçoadas através da seleção natural ..." Da mesma forma, é nos dito que as motivações e crenças do homem têm a sua origem em seu "subconsciente", um termo para o qual existem inúmeras definições e que é melhor definido como uma espécie de "esgoto de memória evolutiva." Mais uma vez, somos informados de que os motivos finais do homem são uma busca de segurança, prazer, ou o que eles chamam de "auto-ativação" através de um encontro de "meta-necessidades". A verdade é o que é verdade para o indivíduo; a beleza é o que lhe dá prazer; o amor é o cumprimento de "impulsos biológicos." Ao custo de negar tanto a lógica como a experiência, tudo o que é qualitativo no ser humano é declarado como geneticamente determinado, ou seja, determinada pela evolução, e, assim, é reduzido ao mensurável, portanto, para a matéria. Tudo cai sob esta égide. Rousseau considerou que o homem selvagem evoluiu para o homem "civilizado". Huxley deu esta progressão a sua bênção científica. "A grande progressão da natureza é a partir do informe à forma - a partir do inorgânico para o orgânico - da força cega ao intelecto consciente e vontade." Se alguém aceita essas premissas, é fácil de ser convencido de que o homem é apenas uma forma mais elevada de matéria e que Super-Homem está a caminho. Aqueles que pensam o contrário são dispensados como "sonhadores" - como se a matéria pudesse sonhar - que, apesar de todos seus esforços, não produzem nada materialmente benéfico.

Vamos deixar uma coisa bem clara. Não se pode acreditar na evolução e ao mesmo tempo acreditar em Deus. Todo cientista e todo teólogo digno de seu salário vai admitir isso. Você vai ouvir falar muito sobre a evolução teísta ou evolução mitigada - a ideia de que Deus opera através da evolução. Se fosse o caso, então Deus estaria muito chateado com qualquer pessoa que interferiu com a seleção natural. Como ousarmos tratar da criança doente ou alimentar os pobres e famintos? Estas são apenas as maneiras da natureza eliminar os mais fracos. Como ousamos parar as guerras, quando essas são tão bem-sucedidas em controlar a explosão demográfica? Vamos encarar os fatos. Seria estúpido orar a um Deus cuja a única resposta a oração teria de ser "deixe que a seleção natural ou o 'equilíbrio pontual' resolva seu problema" Nenhum cientista jamais surgiu com o ideia de que Deus trabalha através da evolução. Teólogos sim. E por quê? Porque eles queriam parecer atualizados e "científicos".

Passei um longo tempo sobre a questão do credo da evolução porque nós nunca vamos olhar para os Antigos Ensinamentos como fonte de verdade autêntica, a menos que abandonemos nossa crença supersticiosa na evolução e progresso. Por definição, nenhum processo evolutivo pode fornecer-nos autenticidade - e com certeza isso é razoável. Afinal de contas, um processo evolutivo é um processo de mudança e tudo o que é espiritualmente autêntico não pode mudar.

Não admira que os Antigos Ensinamentos são unânimes em declarar que toda a criação é o resultado da atividade de Deus e não da evolução. A Igreja insiste em um creatio ex nihilo, e os Vedas ensinam que "ser é gerado a partir de não-ser." E eles são ainda mais claros ao especificar que o homem, a sociedade e, sobretudo, a verdade, não estão sujeitos a qualquer processo evolutivo.

Voltemos ao nosso graduado da faculdade que se vê - na medida em que ele se incomoda a olhar para si mesmo - como feito à imagem de uma ameba. Tendo lidado com suas premissas fundamentais do credo, o que podemos dizer de sua forma de adoração? Para o homem moderno nenhum "culto" - nenhuma forma de adoração - é possível a não ser uma adoração ao materialismo ou, em menor grau, uma adoração ao "eu" a que nos referimos quando chamamos alguém de egoísta. O que há, além do processo evolutivo ou do homem, que é seu maior produto, para adorar? Como disse Karl Marx: "O humanismo é a negação de Deus e a afirmação total do homem." Isso, então, é o alicerce do humanismo moderno.

Finalmente, chegamos ao "código". Aqui, a regra de ouro é a conveniência. Tudo é permitido desde que não chegue a ferir o outro, mas na verdade, o interesse pessoal geralmente tem precedência. Considere o adultério - e, certamente, o adultério não é um fenômeno raro em nossa sociedade. Quando dormimos com a mulher do vizinho, proclamamos que tais atividades consentidas entre adultos não machucam ninguém. Mas o que dizer do ofendido? Ou ainda, afirmamos que o aborto não fere ninguém, e rapidamente dizemos que o feto não é ninguém.

Isso, então, é o "des-credo", o "des-culto" e o "des-código" do homem moderno. Podemos resumi-lo como sendo progressista, evolucionista, antropocêntrico ou centrada no homem e vazio de princípios metafísicos. O que interessa é que tantas grandes entidades religiosas adotaram essa visão weltanschauungor de mundo. Correndo o risco de ofender alguns católicos, deixe-me dizer que são precisamente estes os princípios que o Vaticano II traz consigo e que formam a base sobre a qual a Igreja pós-conciliar descansa. Nos Antigos Ensinamentos - o que os hindus chamam de Sanatana Dharma, o que Santo Agostinho chamou de "Sabedoria incriada, a mesma agora assim como sempre foi e sempre será", são unânimes por ser diametralmente oposto a tais atitudes. Eles não são progressivos, mas sim estáticos, porque enquanto o pecado pode mudar seu estilo, ele nunca pode alterar a sua natureza. Na verdade, eles são anti-progressistas, porque eles sustentam que o homem caiu de seu antigo patamar elevado. Nascido em uma Idade de Ouro, ou no Jardim do Éden, os homens que vivem na Kali Yuga ou nos "últimos dias" são degenerados. Mais uma vez, as grandes tradições são unânimes em declarar que toda a criação é o resultado da ação direta de Deus - ex nihilo, como os católicos colocaram e ""ser é gerado a partir de não-ser.", como os Vedas colocou, e eles são unânimes em proclamar que o homem é criado, não à imagem de uma ameba, mas à imagem de Deus. São todos teocêntricos, em vez de antropocêntricos. Todos ensinam que o homem qua homem nunca pode ser uma fonte segura de verdade, a dignidade do homem não reside em uma auto-validação de habilidades, mas sim de sua adesão à verdade de Deus. Finalmente, todos afirmam e podem demonstrar que eles são baseados em sólidos princípios metafísicos - isto é, lidam com uma doutrina consistente, não só com a experiência condicionada e quantitativa, mas também com possibilidade universal. Os dois extremos são como óleo e água. Não podem ser misturados. Aceitar um, é rejeitar o outro. Em que conjunto fundamental de ideias devemos encontrar a verdade e autenticidade?

III
Observando os Antigos Ensinamentos, vemos que a coisa mais impressionante que todas as religiões têm em comum é a alegação - certa ou errada - de ser baseada em uma Revelação - o que os hindus chamam Sruti. Em algum momento Deus – ou um Avatar - ou um mensageiro, apareceu na terra e deu ao homem um "credo", um "culto" e um "código" específico ou, usando a terminologia oriental, uma doutrina e um método. Além disso, todos asseguram que esta Revelação é consolidada, completa e inalterável. Os Vedas foram consolidados de uma vez por todas. Novos insights sobre os ensinamentos de Buda podem ocorrer, mas o Buda não proporciona a seus seguidores com uma revelação contínua - que evolui e progride com o passar do tempo. Mohammed é chamado de "Selo dos Profetas", pelo qual se entende que ele forneceu as últimas e definitivas revelações na linha de Abraão. Os muçulmanos não esperam que o Arcanjo Gabriel ainda esteja revelando passagens do Alcorão. A Torá pode ser interpretada, mas Moisés não está nos enviando mensagens. De passagem, deve-se notar que nenhum dos grandes fundadores das religiões afirmou descobrir ou revelar novas verdades. Jesus falou de cumprir, não mudar a lei e proclamou que ele ensinou, não a sua própria, mas a doutrina de seu pai. O Buda disse de que ele próprio somente "seguia o caminho antigo", e acrescentou que "quem pretende que eu estou pregando uma doutrina forjada pelo meu próprio raciocínio e argumentação deve ser expulso." Mohammed afirmava estar voltando para a religião de Abraão. E não nos diz Krishna, no Bhagavad Gita, que ele vem para a terra quando o dharma é esquecido?
As religiões têm outro critério em comum. Seus arcos revelados são frequentemente um tanto elípticos - ou parecem ser tais, para nossos intelectos escurecidos na Kali Yuga. Por isso é que as religiões oferecem intérpretes oficiais - sejam eles santos ou sábios. Os hindus têm o que é chamado smriti, bem como os escritos de tais indivíduos como Shankaracharya - para não falar do Guru Kanchi que é seu descendente vivo. Os muçulmanos têm os comentários sobre o Alcorão como os de Ibn Arabi e Al-Ghazali. Os judeus têm os Haftoras e também os Rebbes - aqueles autorizados a dar interpretações. Os cristãos têm Padres da Igreja, os Doutores e o que é chamado "Ensinamento do Magistério." E o que caracteriza a autenticidade em todas estas fontes vivas é que seus ensinamentos, de modo algum divergem do seus predecessores e, em última instância, de forma alguma afasta-se da revelação original.

Um outro aspecto da Revelação é "culto".  As formas de culto em uma religião nunca são criadas pelo homem. São determinados por Deus ou pelo seu representante. Considere o agnihotraor - o sacrifício de fogo védico. Você pensa que foi feito por alguns velhos numa floresta - o que hoje seria chamado de consilium de teólogos - querendo enganar os pobres camponeses tendo em vista o suado dinheiro deles, ou para apaziguar os raios? E o mesmo é verdade para as orações utilizadas pelos muçulmanos e para a verdadeira e antiga Missa Católica

Da mesma forma em relação ao "código." Foi o próprio Cristo que determinou que o divórcio era proibido aos seus seguidores, embora permitido aos judeus. A prática de Mohamad e suas decisões judiciais, juntamente com o Alcorão constituem a base para a lei muçulmana. As leis do Homem não foram reunidas por uma conferência de empresários, advogados e políticos.

A própria palavra "religião" significa aquilo que "se liga", aquilo que nos liga à Origem e ao Centro. É por isso que uma religião intacta é sempre tradicional, por tradição entende-se passar à frente. E o que é passado à frente que não seja a revelação original? Portanto, todas as religiões falam de "ortodoxia" e "heresia"- oh, como nós modernos odiamos essas palavras!

"Ortodoxia" é definido como a fé pura - aquela que está em conformidade com a revelação original. Heresia é um distanciamento disso, o resultado de selecionar e escolher o que vai ou não vai acreditar. Heresia, como os budistas dizem, é como "um verme no coração de um leão."

Outro fato importante é que não existem doutrinas secretas nas religiões. Existem ensinamentos que não estão prontamente disponíveis, ou que foram formulados em meios obscuros, de modo que evite "lançar pérolas aos porcos", mas eles não são secretos como tal. Todos os textos sagrados dos hindus foram publicados, você pode ter que aprender sânscrito, mas eles não estão escondidos. É claro que é necessário certas coisas para acessar essas fontes: esse alguém precisa possuir certas qualificações intelectuais e morais; esse precisa de orientação e, portanto, um guru; esse precisa de uma iniciação, que é um ato ritual que o liga ao Avatar ou ao fundador da religião e ultimamente a Deus. Agora, se isso ofende nossos preconceitos igualitários, permita-me perguntar se você permitiria que uma pessoa que não treinou com um professor qualificado executar uma cirurgia em você. Eu duvido. Certamente, há textos e descrições anatômicas de operações publicados na literatura médica, mas ainda é necessário certas qualificações, orientações e treinamentos para acessá-los. Por que a religião deveria ser diferente?

Agora, deve ser claro que as religiões nos fornecem critérios objetivos. Gurus e diretores espirituais não são julgados com base na de suas personalidades carismáticas, mas no grau em que eles estão em conformidade com a verdade da religião em questão, na medida em que eles próprios são condutos perfeitos ou veículos para a verdade. Todo ato ritual por parte do sacerdote católico representa a pessoa de Cristo. Confessamos, não ao Pe. Bob, mas a Cristo. É Cristo que na pessoa do sacerdote efetua a consagração na missa.

Religiões não só nos fornecem critérios objetivos, mas além disso, todas elas compartilham uma visão do homem, que é muito diferente daquela do psicólogo moderno. As premissas que a razão utiliza podem ser derivadas a partir de quatro fontes possíveis: fenômenos mensuráveis ​​(ciência), sentimentos, intelecção, ou revelação. Estas fontes são, assim, tanto internas como externas, tanto superiores e inferiores - sendo a intelecção e a Revelação parte de uma ordem mais elevada do que a razão. Julgamento ou discernimento é parte da intelecção e, portanto, pode observar uma conclusão fundamentada na razão e determinar se é ou não verdade. No entanto, nossos intelectos estão obscurecidos por causa da Queda, e, portanto, necessitamos da Revelação.

Os psicólogos modernos nos dizem que a razão é o maior produto do processo evolutivo. Entretanto, a verdade não depende da razão. Nós não dizemos que algo é verdadeiro, porque é lógico, mas, sim, que é lógico, porque é verdade. Isto pressupõe uma faculdade ainda maior de julgamento ou, para usar o termo de São Tomás de Aquino, "discernimento". Filósofos modernos tentam contornar este problema, falando de "princípios racionais", mas nunca se esqueça de que os princípios podem ser derivados da lógica discursiva. A razão não pode provar sua própria validade, pois princípios compreende-se de forma intuitiva e supra-racional. Como Aristóteles disse: "a pessoa não demonstra princípios, mas percebe-se diretamente a verdade dele ..." Para fazer uso da terminologia escolástica, o intelecto puro, que é o principiorum habitus, enquanto a razão é apenas o conclusionum habitus. Homem então possui razão e, com ela a linguagem, só porque, ao contrário dos animais, ele tem acesso, em princípio, a visão supra-racional. É esta visão supra-racional, intelecção ou intuição que dá ao homem, não só o discernimento, mas certeza: certeza de sua própria existência como um ser, a confiança na capacidade funcional da razão, a capacidade de discernir entre o que é real e o que é irreal, o que é verdadeiro e o que é falso. Intelecção é uma espécie de "visão", uma visão com o "terceiro olho", e não uma conclusão, e é isso que abre ao homem a possibilidade da certeza metafísica.

Deve ficar claro que a intelecção não tem nada a ver com a agilidade mental. Isto é bem evidenciado pelo o que os psiquiatras chamam de " idiotas savants ", pessoas que podem funcionar como um computador, mas que são incapazes de pensar, muito menos a intelecção. Mas, se todos os homens são dotados de um intelecto, por que é que nem todos os homens veem com clareza? As várias religiões respondem de forma diferente. O cristianismo e as religiões semitas veem o intelecto como "nebuloso" e o desejo "enfraquecido" pela Queda. Isso não quer dizer que o homem está privado deles, mas só que não funcionam tão bem como deveriam. O hinduísmo explica a mesma situação pelo que é chamado Mayaand, que retrata o pecado em termos de ignorância. E é precisamente por isso que a Revelação é necessária. Adão, ou homem que vivia na Idade de Ouro, não necessitava de Revelação, uma vez que seu intelecto era claro e ele "andava e falava com Deus." Nós, no entanto, especialmente quando nos aproximamos do final do Kali Yuga, estamos desesperadamente precisando de uma orientação, precisamente por isso que existe a Revelação.

Se as religiões proporcionam ao homem critérios objetivos, elas também afirmam que o homem é capaz de objetividade. O homem é capaz de usar seu intelecto para determinar o que é objetivamente real e de discriminar entre este e o ilusório. Isso exige de sua parte um determinado ato de vontade. O homem deve optar por aceitar esses critérios objetivos ou rejeitá-los, e deve sofrer as consequências decorrentes dessa escolha. Com a liberdade vem a responsabilidade. Esta capacidade de exercer o intelecto e o desejo são qualidades homem partilha com Deus e, portanto, o homem é dito ser feito à "imagem de Deus". Exercitando-os corretamente, participamos da vida divina. O homem moderno, vendo-se como feito à "imagem de uma ameba," não acredita que é possível conhecer a Verdade, ou Deus, que é a essência da verdade, muito menos desejá-lo.  Por isso, ele não acredita que é responsável por nada além de seus colegas amebas. E isso nos leva a um outro princípio de que todas as religiões têm em comum: o homem é responsável e, portanto, quando morre, será recompensado ou punido de acordo como ele usa tanto seu intelecto e seu livre arbítrio. Este princípio está incutido numa variedade de maneiras. As religiões semitas falam do inferno e do céu. O hinduísmo fala da transmigração da alma, da necessidade de nascer de novo milhares de vezes em miríades de mundos antes de ser mais uma vez dado a oportunidade central, que é o homem alcançar mokshaor, a libertação. Budismo descreve isso como o "ciclo de existência."

Mais uma vez, todas as religiões estão de acordo que no homem há uma hierarquia na qual o que é superior deve reinar sobre o que é inferior, em que, finalmente, o Atman deve governar o ego e as várias paixões. Como o Bhagavad Gita ensina, é Krishna, que deve controlar e dirigir a carruagem para que os cavalos passionais, sendo deixados desenfreados, não fujam de controle. Colocando isso em outros termos, todas as religiões defendem uma vida espiritual, cujo objetivo é a santificação do indivíduo. Tudo isso se encontra no fato de que as religiões inculcam um código moral estrito, não como um fim em si, mas como um predispositivo para os fins próprios do homem.

É evidente que as religiões estão de acordo sobre a necessidade da oração para santificar nossas vidas. Não só a oração individual, cuja finalidade é a obtenção de favores particulares e purificação da alma, mas também orações que expressam a gratidão do homem, resignação, tristeza, resolução, e louvor. O homem sempre tem motivos para gratidão. Renúncia é a aceitação com antecedência do não cumprimento de alguma solicitação. Arrependimento ou contrição: o ato de pedir perdão, e do desejo de remediar alguma transgressão. Louvor significa não apenas que nos relacionamos cada valor a sua Fonte última, mas também que nós vemos cada provação em termos de sua necessidade e utilidade.

Outro modo de oração é a meditação, onde o contato entre o homem e Deus se torna um entre a inteligência e a Verdade. Enquanto a oração é subjetiva e volitiva, a meditação é objetiva e intelectual - na linguagem do Vedanta é chamada vichara ou "investigação", levando a Viveka ou a discriminação entre o que é real e o que é irreal. Mas o indivíduo que segue um caminho da meditação faz isso dentro do ambiente cultural de uma determinada tradição que lhe proporciona orações canônicas e pressupõe todas as atitudes da oração volitiva como uma espécie de substrato, japa yoga ou a invocação do Nome Divino, abraçando todas essas atitudes.

Todas as religiões se relacionam para o centro ou origem anterior, uma Idade de Ouro, quando o Fundador "caminhou sobre a Terra", uma espécie de Ram Raj, e, portanto, vêem o presente como uma era de uma degeneração ou apostasia. Agora, em vista disso, não é de estranhar que nenhuma das religiões são utópicas. No entanto é preciso estabelecer distinções, todas as religiões visam que a vida do homem na terra deva seguir um padrão de um modelo divino -  precisamente para que a nossa jornada ou o exílio aqui abaixo possa ser uma que nos oriente e nos leve a uma vida acima. Aqui chegamos a outro ponto importante: o homem moderno e o "ethos do culto" - se puder utilizar tal frase - sonha em criar uma sociedade perfeita na terra, uma sociedade que é, como TS Eliot diz: "tão perfeita que ninguém jamais precisa ser bom." O homem moderno foi, por assim dizer, re-orientado e, em vez de olhar "acima", ele olha "à frente". As religiões sabem que uma utopia terrena é um sonho absurdo. Mesmo no Jardim do Éden existia uma serpente - ou, como diz a Escritura, "só Deus é bom." O erro fundamental daqueles imbuídos com o imperativo utópico é a sua crença mecanicista que se alguém muda a natureza da sociedade ele irá mudar o natureza do homem. Mas cada homem é um reino para si mesmo e deve escolher de estar ou não de acordo com a imagem que ele foi criado. No entanto, tudo isso não quer dizer que o homem não deve, em conformidade com sua natureza e com simples bom senso, tentar superar os males que encontra ao longo da vida - isso não exige liminares, seja divina ou humana. Colocando em termos simples, a pessoa não precisa ser um sábio e saber o suficiente para entrar e sair da chuva. Mas, tentar estabelecer um certo estado de bem-estar com Deus em vista é uma coisa, já procurar instituir um perfeito estado de felicidade na terra à parte de Deus é outra. Em qualquer caso, este último objetivo está fadado ao fracasso, precisamente porque a eliminação duradoura de nossas misérias não depende de nós mesmos, mas de nossa conformidade com o Equilíbrio Divino e no estabelecimento do Reino de Deus dentro de nossa própria alma. Enquanto os homens não se deram conta da santificação "interior", a abolição dos julgamentos terrestres é impossível, pois, como o Buda ensinou, nunca poderemos eliminar, tristeza, doença, velhice e morte. Não é apenas impossível, é até mesmo indesejável, porque o pecador - o homem exteriorizado - precisa sofrimento, para assim expiar seus defeitos e se afastar do pecado; a fim de escapar da própria "exterioridade", da qual deriva o pecado. Do ponto de vista espiritual, o único que toma em consideração a verdadeira causa de nossas calamidades, uma sociedade "perfeita" no sentido mundano, uma sociedade com o máximo de conforto e a chamada "justiça", seria, com os fins últimos do homem frustrados, uma das sociedades mais malignas concebíveis. Aqueles que sonham em libertar o homem de suas antigas frustrações são, de fato, os que estão impondo sobre ele a mais radical e irreparável de todas as frustrações. A Civitas Dei e Progresso mundano, tal como previsto pelo homem moderno, jamais podem se mesclar.

Que tipo de ordem social as religiões defendem? Basicamente, uma com um padrão para - o Reino vindouro - Ram Raj Jaya. Tal não é o capitalismo e, certamente, não o socialismo. Pelo contrário, todas as tradições imaginam aquilo que os economistas modernos descrevem como "distributismo", o que eu gosto de chamar de "suficientismo" - isto é, a maior distribuição possível de propriedade privada proporcionando às pessoas o suficiente para viver com dignidade, como é apropriado a sua posição na vida. Sem a propriedade privada não pode haver nenhuma liberdade. Usura, que está no centro da economia moderna, é proibido por todas as tradições religiosas. Também imagina uma sociedade não-industrial, em que "o artista não é um tipo especial de homem, mas cada pessoa é um tipo especial de artista." As pessoas em tais sociedades eram organizados em guildas que funcionavam não só para proteger os seus membros, mas também para insistir em um alto padrão de produção. O termo "obra-prima" era, dessa forma, aplicado ao trabalho que um aprendiz produzia no final do seu período de formação e que, ao ser julgado pela guilda, davam-lhe a licença para abrir sua própria loja.

Agora, as religiões ainda estão de acordo em várias outras questões. Todos estão de acordo em considerar a família como a estrutura básica da sociedade. Católicos encaram a família como uma mini-igreja, onde o pai tem como seu exemplar Deus. Conforme Arjuna diz no Gita "na destruição de uma família, as tradições familiares imemoriais perecem; no perecimento das tradições, a ilegalidade supera toda a família ... a morada dos homens cujos costumes família se extinguem é um inferno eterno." Esta é uma das razões pelas quais, várias tradições envolvem o ato sexual com tantos tabus ou restrições. Não é a única razão, pois, fundamentalmente, o ato sexual é visto como um ato sagrado, um realizado na imitação dos Deuses. Todos os Antigos Ensinamentos insistem numa estrita moralidade, não como um fim em si, mas como um predispositivo para os fins próprios do homem. Na medida em que ele possui a "liberdade" de pensar por si mesmo, assim também, ele tem a liberdade de agir por si mesmo. Mas ele não tem "direito" a se comportar mal, e quando o faz, ele perde a sua dignidade. O homem só é digno, quando ele está em conformidade com a Imagem Divina. Na falta disso, ele se comporta como um animal. Religiões apresentam uma outra característica. Elas são exclusivas. Todos elas afirmam fornecer a humanidade tudo que é necessário para salvar a sua alma e conhecer a sua verdadeira natureza. Por mais que possam apreciar ou admitir que as outras religiões têm elementos de verdade, são claramente anti-sincréticos. Nenhuma delas defende a criação de uma religião única mundial. E há uma boa razão para isso. Inevitavelmente qualquer um que tente sincretizar religiões, abandona objetividade e se entrega a seus sentimentos pessoais e, assim, torna-se o seu próprio juiz da verdade. Se quisermos deixar sincretismo acontecer, todos vão acabar por beber vinho como os cristãos e tendo quatro esposas como muçulmanos. Não há um mandato divino ou celestial para tal abordagem. Junto com essa atitude anti-sincrética, existe uma outra de igual importância.  Deve-se aceitar a totalidade de uma determinada religião. Não se pode ser meio muçulmano - não é possível aceitar os hadiths do Profeta Maomé e rejeitar o Alcorão. Da mesma forma, o catolicismo ensina que a rejeitar um ponto da verdade revelada, é rejeitar todo o corpo da Revelação. Não se pode escolher.

Uma última pergunta: existe ensinamentos antigos à nossa disposição fora das grandes religiões? A resposta é "sim" e "não". "Sim" no sentido de poder se interessar, por exemplo, na religião do Egito Antigo. Mas "não" no sentido que não se poderia ter acesso à totalidade da religião, e "não", porque cada religião demanda a participação ritual como um pré-requisito para a participação na Verdade.

E assim somos levados de volta à nossa tese original: Ensinamentos Antigos ou Superstições Modernas - uma busca pela autenticidade. Nós demonstramos que as revelações nos fornecem critérios objetivos e que o homem é capaz de objetividade. Temos basicamente três alternativas abertas para nós. Ou não existe uma verdade objetiva absoluta fora de nós mesmos, ou existe uma verdade subjetiva relativista elaborada em nosso interior, ou alguma mistura dos dois. Se aceitarmos a verdade objetiva e usar a nossa capacidade inata de discernir entre o que é real e o que é irreal, somos forçados a recorrer aos Ensinamentos Antigos incorporadas nas grandes tradições religiosas. Simplesmente não há outra fonte objetiva. Se nós nos declaramos ser a fonte do que é verdadeiro para nós, ou se escolhermos entre este e a primeira alternativa, aceitando apenas os antigos ensinamentos que gostamos, somos colocados na posição de um médico que se trata ou de um advogado que é seu próprio advogado. No entanto, uma vez que estamos lidando nem com a nossa saúde física, nem o nosso dinheiro, mas sim com a nossa alma, estamos em essência declarando que seremos nossos próprios guias espirituais. Há um antigo ditado oriental que diz "aquele que toma a si mesmo como guia espiritual, tem Satanás como seu guru." A segunda alternativa é, como apologistas católicos tendiam a dizer, uma situação na qual "cada um se torna seu próprio Papa."

Uma advertência final: quando buscamos nos Ensinamentos Antigos, temos de ter a certeza absoluta que são os antigos ensinamentos que nós estamos acessando. Assim, no que se refere ao hinduísmo, traduções de acadêmicos formados com visões céticas e positivistas do Ocidente moderno, e não familiarizados com a teologia cristã, dificilmente pode-se esperar que produzam trabalhos metafisicamente precisos que possa ser confiável. O comentário também se aplica a muitos tradutores hindus que derivam sua formação das mesmas fontes ocidentais. O mesmo se aplica ao catolicismo e qualquer outra religião. Não se pode mais encontrar a verdadeira doutrina hindu nos escritos de Krishnamurti e Aurobindo, da mesma forma que não se pode encontrar a verdadeira doutrina católica nos escritos de Hans Küng e Karl Rahner.

Do ponto de vista dos Ensinamentos Antigos, o homem é colocado neste mundo para que ele possa saber (jnana), amor (bhakti) e servir (karma) a Deus e, assim, salvar a sua alma (moksha). O desdobramento do potencial humano só pode seguir dois cursos alternativos. Ou o homem está de acordo com a imagem em que ele é criado, e como os primeiros Padres da Igreja diziam: "diviniza" a si mesmo - e é isso que os ensinamentos antigos e métodos ajuda-lhe a fazer - ou ele se faz de si mesmo a fonte tanto doutrina e do método e permanece ligado ao seu ego orgulhoso e a sua experiência psicológica de auto-validação, e condena-se a uma migração permanente através infernos samsáricos intermináveis​​. Nosso potencial humano pode ser resumido em duas alternativas simples, "santidade" ou "condenação", moksha ou a ronda interminável da existência. Céu ou inferno. Em última análise, nada mais importa.

Satyam aevam jayati—Veritas vincit omnia.
Rama P. Coomaraswamy