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domingo, 20 de abril de 2014

Um Adeus à Filosofia (Por Emil Cioran)

Afastei-me da filosofia quando se tornou impossível encontrar em Kant qualquer fraqueza humana, qualquer traço autêntico de melancolia; em Kant e em todos os filósofos. Comparado com a música, o misticismo e poesia, a atividade filosófica procede de um impulso reduzido e uma profundidade suspeita, prestigiado apenas pelos tímidos e os medíocres. Além disso, a filosofia - ansiedade impessoal, refúgio entre ideias anêmicas - é o recurso de todos os que se iludem com a exuberância corruptora da vida. Quase todos os filósofos chegaram a um bom final: eis o argumento supremo contra a filosofia. Mesmo a morte de Sócrates nada tem de trágica: é um mal-entendido, o fim de um pedagogo - e se Nietzsche naufragou, foi como um poeta e visionário: ele expiou seus êxtases e não seus argumentos.

Não podemos enganar a existência com explicações, só podemos suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorar ou temer, nessa alternância de felicidade e horror que expressa o próprio ritmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, brilhantes ou amargas.

Expostos pela surpresa ou necessidade de uma derrota irrefutável, quem em seguida, não levanta as mãos em oração, apenas para que os deixe cair em um vazio ainda maior pelas respostas da filosofia? Parece que a sua missão é proteger-nos contanto que a negligência do destino nos permita continuar no limiar do caos, e nos abandonar assim que somos obrigados a mergulhar no precipício. E como poderia ser de outra forma, quando vemos o quão pouco do sofrimento da humanidade passou para filosofia? O exercício filosófico não é fecundo; é apenas honroso. Somos sempre filósofos com impunidade: um métier sem destino que derrama pensamentos volumosos em nossas horas neutras e vagas, as horas refratárias ao Antigo Testamento, a Bach, e até Shakespeare. E ter estes pensamentos materializados em uma única página que é equivalente a uma das exclamações de Jó, dos terrores de Macbeth, ou a altitude de uma das cantatas de Bach? Nós não discutimos o universo; nós expressamos. E a filosofia não expressa. Os verdadeiros problemas começam só depois de distanciados ou esgotados, depois do último capítulo de um enorme volume que aponta o período final como uma renúncia diante do Desconhecido, em que todos os nossos momentos estão enraizados e com o qual devemos lutar, porque é naturalmente mais imediato, mais importante do que o nosso pão de cada dia. Aqui o filósofo nos deixa: inimigo do desastre, ele é são como a própria razão, e como prudente. E continuamos na companhia de uma vítima de uma velha praga, de um poeta que aprendeu em cada loucura, e de um músico cuja sublimidade transcende a esfera do coração. Começamos autenticamente apenas onde a filosofia termina, no seu naufrágio, quando compreendemos sua terrível nulidade, quando compreendemos que era inútil recorrer a ela, que é nenhuma ajuda

(Os grandes sistemas são, na verdade, não mais que tautologias brilhantes. Qual vantagem de saber que a natureza do ser consiste na "vontade de viver", na "ideia", no capricho de Deus ou na Química? O detestável abraço verbal, e nossas experiências mais íntimas, nos revela nada além do momento privilegiado e inexprimível. Além disso, o próprio Ser é apenas uma pretensão do Nada.

Nós definimos somente por desespero. Temos de ter uma fórmula, é preciso ainda ter muitas, apenas para dar justificação para a mente e servir como uma fachada do vazio.

Nenhum conceito ou êxtase são funcionais. Quando a música nos mergulha na "interioridade" do ser, nós rapidamente regressamos à superfície: os efeitos da ilusão se dispersam e nosso conhecimento admite sua nulidade.

As coisas que tocamos e aquelas que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; temos certeza somente no nosso universo verbal, manejável à vontade e ineficaz. Ser é mudo e a mente é tagarela. Isso é chamado de conhecimento.

A originalidade do filósofo trata apenas de termos inventados. Uma vez que existem somente três ou quatro atitudes que nos permite confrontar o mundo - e sobre as maneiras de morrer - as nuances que multiplicam e diversificam elas derivam não mais do que uma escolha de palavras, desprovidas de qualquer intervalo metafísico.

Estamos imersos em um universo pleonástico, em que as perguntas e respostas equivalem à mesma coisa)

sábado, 3 de agosto de 2013

A Rússia e o Vírus da Liberdade (Emil Cioran)

A Rússia e o Vírus da Liberdade
Por Emil Cioran em “História e Utopia”

Às vezes penso que todos os países deveriam se parecer com a Suíça, comprazer-se e arruinar-se, como ela, na higiene, na insipidez, na idolatria das leis e no culto ao homem; por outro lado, só me atraem as nações desprovidas de escrúpulo tanto em pensamento quanto em atos, sempre prestes a devoras as outras e a devorar-se a si mesmas, pisoteando os valores contrários à sua ascensão e a seu êxito, insubmissas à sensatez, essa chaga dos velhos povos cansados de si mesmos e de tudo, e como que satisfeitos de cheirar a mofo.


Do mesmo modo, esforço-me em vão para detestar os tiranos, pois não deixo de constatar que constroem a trama da história, e que sem eles não seria possível conceber nem a ideia nem a marcha de um império. Superiormente odiosos, de uma bestialidade inspirada, os tiranos evocam o homem levado a seus extremos, a última exasperação de suas ignomínias e de seus méritos. Ivã, o Terrível, para citar apenas o mais fascinante deles, esgota os escaninhos da psicologia. Tão complexo em sua demência quanto em sua política, fez de seu reino e, até certo ponto, de seu pais um modelo de pesadelo, um protótipo de alucinação viva e inesgotável, mescla de Mongólia e de Bizâncio, acumulando as qualidade e os defeitos de um clã e de um basileu, monstro de cóleras demoníacas e de sórdida melancolia, dividido entre o gosto pelo sangue e o gosto pelo arrependimento, com uma jovialidade enriquecida e coroada por risos de escárnio. Tinha a paixão do crime; todos nós, enquanto existimos, também a experimentamos, seja atentando contra os outros ou contra nós mesmos. Só que, quaisquer que sejam, provêm de nossa incapacidade de matar ou matar-nos. Não estamos sempre de acordo com isso, já que desconhecemos habitualmente o mecanismo íntimo de nossas debilidades. Se os czares, ou os imperadores romanos, me obsedam, é porque essa debilidades, veladas em nós, aparecem neles a descoberto. Eles nos revelam a nós mesmos, encarnam e ilustram nossos segredos. Penso naqueles que, condenados a uma grandiosa degenerescência, perseguiam seus parentes e, por medo de ser amados, os enviavam ao suplício. Por mais poderosos que fossem, eram no entanto infelizes, pois não se saciavam graças ao tremor dos outros. Não são como a projeção do espírito mau que nos habita e nos convence de que o ideal seria criar o vazio em torno de nós? É com tais pensamentos e tais instintos que se forma um império: para isso coopera esse subsolo de nossa consciência onde se escondem nossas taras mais queridas.

Surgida de profundezas insuspeitadas, de um impulso original, a ambição de dominar o mundo só aparece em certos indivíduos e em certas épocas, sem relação direta com a qualidade da nação onde se manifesta: entre Napoleão e Gengis Khan a diferença é menor do que entre o primeiro e qualquer político francês das repúblicas sucessivas. Mas essas profundezas e esse impulso podem secar, esgotar-se.

Carlos Magno, Frederico II de Hohenstaufen, Carlos V, Bonaparte, Hitler tiveram a tentação, cada um à sua maneira, de realizar a ideia do império universal: fracassaram, com mais ou menos felicidade. O Ocidente, onde essa ideia suscita apenas ironia ou mal-estar, vive agora na vergonha de suas conquistas; mas, curiosamente, é no momento mesmo em que ele se volta para si próprio que suas fórmulas triunfam e se propagam; dirigidas contra seu poder e sua supremacia, elas encontram eco fora de suas fronteiras. Ele ganha perdendo-se. Foi assim que a Grécia só triunfou no domínio do espírito quando deixou de ser uma potência e mesmo uma nação; saquearam sua filosofia e suas artes, asseguraram o sucesso às suas produções, mas não assimilaram seus talentos. Da mesma maneira, pode-se roubar tudo do Ocidente, salvo seu gênio. Uma civilização se revela fecunda pela capacidade que tem de incitar outras a imitá-la; se cessa de deslumbrá-las, reduz-se a um conjunto de resíduos e vestígios.

Quando a ideia de império abandonou esta parte do mundo, encontrou seu clima ideal na Rússia, onde, aliás, sempre existiu, singularmente no plano espiritual. Depois da queda de Bizâncio, Moscou se tornou, para a consciência ortodoxa, a terceira Roma, a herdeira do “verdadeiro” Cristianismo, da verdadeira fé. Primeiro despertar messiânico. Para conhecer um segundo, foi preciso esperar nossos dias; mas desta vez, ela deve o despertar à demissão do Ocidente. No século XV, aproveitou um vazio religioso, como aproveita hoje um vazio político. Duas grandes ocasiões de compenetrar-se de suas responsabilidades históricas.

Quando Maomé II sitiou Constantinopla, a cristandade, dividida como sempre e, além disso, feliz por haver perdido a lembrança das cruzadas, absteve-se de intervir. Os sitiados sentiram primeiro uma irritação que, ante a iminência do desastre, tornou-se assombro. Oscilando entre o pânico e uma satisfação secreta, o Papa prometeu auxílio, mas o enviou tarde demais: para que apressar-se por causa de uns “cismáticos”? O cisma entretanto, ia adquirir força em outra parte. Roma preferiu Moscou à Bizâncio? É sempre preferível um inimigo longínquo do que um próxima. Do mesmo modo, em nossos dias, os anglo-saxões preferiram, na Europa, a preponderância Russa à preponderância Alemã. É que a Alemanha estava perto demais.

As pretensões da Rússia de passar da primazia vaga à hegemonia caracterizada têm um fundamento. O que teria ocorrido com o mundo Ocidental se a Rússia não tivesse detido e absorvido a invasão mongólica? Durante mais de dois séculos de humilhação e de servidão ela foi excluída da história, enquanto que no Oeste as nações se davam ao luxo de despedaçar-se mutuamente. Se a Rússia tivesse sido capaz de desenvolver-se sem obstáculos, teria se tornado uma potência de primeira ordem já no princípio da era moderna; o que ela é agora, o teria sido no século XVI ou XVII. E o Ocidente? Talvez hoje fosse ortodoxo, e, em Roma, em lugar da Santa Sé, se pavonearia o Santo Sínodo. Mas os russos podem recuperar o tempo perdido. Se, como tudo parece prever, levam a cabo seus desígnios, é possível que acertem as contas com o Sumo Pontífice. Seja em nome do marxismo ou da ortodoxia os russos estão chamados a arruinar a autoridade e o prestígio da Igreja, cujos objetivos não poderiam tolerar sem abdicar do ponto essencial de sua missão e de seu programa. Sob os czares, identificando-a como um instrumento do Anticristo, rezavam contra ela; hoje em dia, considerada como um agente satânico da Reação, a sobrecarregam de invectivas um pouco mais eficazes do que seus antigos anátemas; logo a destruirão com todo o seu poder, com toda a sua força. E até é possível que a desaparição do último sucessor de São Pedro permaneça, em nosso século, como uma curiosidade, à maneira de um apocalipse frívolo. 

Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o Marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a Terra. E como a essência do povo russo é religiosa, ela inevitavelmente se reerguerá. Razões de ordem histórica contribuirão em grande medida para isso.

Ao adotar a ortodoxia, a Rússia manifestou seu desejo de separar-se do Ocidente; era sua maneira de se definir desde o princípio. Nunca, fora dos meios aristocráticos, deixou-se seduzir pelos missionários católicos, no caso os jesuítas. Um cisma não exprime tanto divergências de doutrina quanto uma controvérsia abstrata de um reflexo nacional. Não foi a questão ridícula do filioque que dividiu as Igrejas: Bizâncio queria sua autonomia total, e com maior razão Moscou. Cismas e heresias são nacionalismos disfarçados. Mas enquanto a Reforma tomou somente o aspecto de uma disputa familiar, de um escândalo no seio do Ocidente, o particularismo Ortodoxo, ao afetar um caráter mais profundo, ia marcar uma divisão no próprio mundo ocidental. Recusando o catolicismo, a Rússia retardava sua evolução, perdia uma ocasião capital de civilizar-se rapidamente, ao mesmo tempo em que ganhava substância e unicidade, pressentindo, sem dúvida, que o Ocidente lamentaria um dia a vantagem que tinha sobre ela.

Quanto mais forte se tornar, mais adquirirá consciência de suas raízes, das quais, de uma certa maneira, o marxismo a afastou; após uma cura forçada de universalismo, ela se russificará de novo em proveito da ortodoxia. Além disso, marcou de tal maneira o marxismo que o tornou eslavo; todo povo de alguma envergadura que adota uma ideologia estranha a suas tradições, a assimila e a adultera, a desvia no sentido de seu destino nacional, a falseia em seu favor ate torná-la indiscernível de seu próprio gênio. Possui uma ótica própria, necessariamente deformadora, um defeito de visão que, longe de desconcertá-lo, o lisonjeia e estimula. As verdades das quais se orgulha, mesmo que desprovidas de valor objetivo, são no entanto vivas, e produzem, como tais, esse gênero de erros que contrapõem a diversidade da paisagem histórica, entendendo-se aí que o historiador, cético por profissão, temperamento e opção, situa-se de início fora da Verdade. 

Enquanto que os povos ocidentais se desgastavam em sua luta pela liberdade e, mais ainda, na liberdade adquirida (nada esgota tanto quanto a posse ou o abuso da liberdade), o povo russo sofria sem desgastar-se dentro da história e como foi eliminado dela, foi obrigado a sofrer os infalíveis sistemas de despotismos que lhe infligiram: existência obscura, vegetativa, que lhe permitiu fortalecer-se, aumentar sua energia, acumular reservas e tirar de sua servidão o máximo de proveito biológico. A ortodoxia ajudou-o a isso, mas a ortodoxia popular, admiravelmente articulada para mantê-lo fora dos acontecimentos, contrariamente à ortodoxia oficial, que orientava o poder para objetivos imperialistas. Duplas face da Igreja ortodoxa: por um lado, trabalhava para o entorpecimento das massas; por outro, auxiliar dos czares, despertava neles a ambição e tornava possível imensas conquistas em nome de uma população passiva. Feliz passividade que assegurou aos russos seu predomínio atual, fruto de seu atraso histórico. Favoráveis ou hostis, todos os empreendimentos da Europa giravam em torno deles, e, ao situá-los no centro de seus interesses e de suas ansiedades, reconhecem seu domínio virtual. Eis aí quase realizado um de seus mais antigos sonhos. Que o tenham alcançado sob os auspícios de uma ideologia de origem estrangeira acrescenta um suplemento paradoxal e atraente ao seu êxito.O que definitivamente importa é que o regime seja russo e que esteja inteiramente dentro das tradições do país. Não é revelador que a Revolução, saída em linha direta das teorias ocidentalistas, tenha se orientado cada vez mais para as ideias dos eslavófilos? De resto, um povo representa não tanto um conjunto de ideias e de teorias como de obsessões: as dos russos, de qualquer parte que sejam, são sempre, senão idênticas ao menos aparentadas. Tchaadaev, que não via nenhum mérito em sua nação, ou Gogol, que a ridicularizou impiedosamente, estão tão ligados a ela quanto Dostoievski. O mais arrebatado dos niilistas, Netchaiev, estava tão obcecado por ela como Pobiedonostsev, violento reacionário procurador do Santo Sínodo. Só esta obsessão importa. O resto é apenas pose.

Para que a Rússia se ajustasse a um regime liberal, teria que debilitar-se consideravelmente, teria que extenuar seu vigor, mais ainda: teria que perder seu caráter específico e desnacionalizar-se em profundidade. Como conseguiria isso com seus recursos interiores intactos e seus mil anos de autocracia? Supondo que o conseguisse por um movimento brusco, se desarticularia de imediato. Muitas nações, para conservar-se e expandir-se, têm necessidade de uma certa dose de terror. A própria França só pôde engajar-se na democracia a partir do momento em que suas forças começaram a diminuir, e quando, não tendo mais como objetivo a hegemonia, preparava-se para se tornar respeitável e sensata. O primeiro Império foi sua última loucura. Depois, aberta à liberdade, teria que assumi-la penosamente, através de numerosas convulsões, contrariamente à Inglaterra que, exemplo desalentador, havia se habituado a ela há muito tempo, sem choques nem perigos, graças ao conformismo e à esclarecida estupidez de seus habitantes (ao que eu saiba, ela não produziu nenhum anarquista).

A longo prazo, o tempo favorece as nações subjugadas que, acumulando forças e ilusões, vivem no futuro, na esperança: mas, em liberdade, o que se pode esperar? Ou no regime que a encarna, feito de dissipação, de quietude e de amolecimento? A democracia maravilha que não tem nada a oferecer, é, ao mesmo tempo, o paraíso e o túmulo de um povo. A vida só tem sentido graças à democracia, mas a democracia carece de vida. Felicidade imediata, desastre iminente, inconsistência de um regime ao qual não se adere se, enredar-se em um dilema torturante.

Melhor provida, mais afortunada, a Rússia não precisa colocar-se tais problemas, já que o poder absoluto é, para ela, como já observava Karamzine, o “fundamento mesmo de seu ser”. Aspirar à liberdade sem jamais alcançá-la, não é essa sua grande superioridade sobre o mundo ocidental o qual, ai de mim!, já conseguiu há muito tempo? Ela não tem, além disso, nenhuma vergonha de seu império; pelo contrário, só pensa em ampliá-lo. Quem melhor que ela apressou-se em se beneficiar das aquisições de outros povos? A obra de Pedro o Grande, e mesmo a da Revolução, participam de um parasitismo genial. Até os horrores do jugo tártaro ela suportou engenhosamente.

Se, ao confinar-se em um isolamento calculado, a Rússia soube imitar o Ocidente, também soube fazer-se admirar e seduzir seus espíritos. Os enciclopedistas se entusiasmaram com as empresas de Pedro e de Catarina, assim como os herdeiros do Século das Luzes – falo dos homens de esquerda – se entusiasmaram com as de Lênin e Stalin. Este fenômeno advoga em favor da Rússia, mas não em favor do Ocidentais que, complicados e devastados na medida de seus desejos, e buscando o “progresso” em outra parte, fora de si mesmos e de suas criações, encontram-se hoje paradoxalmente mais próximos dos personagens de Dostoievski do que os próprios Russos. Ainda convém precisar que eles só evocam o aspecto enfraquecido desses personagens, pois não têm nem suas extravagâncias ferozes nem sua ira viril: são “demônios” débeis por causa de tantos raciocínios e escrúpulos, corroídos por remorsos sutis, por mil interrogações, mártires de dúvida, deslumbrados e aniquilados por suas perplexidades.

Cada civilização acredita que seu modo de viver é o único bom e o único concebível, e que tem o dever de converter o mundo a esse modo de viver, ou infligi-lo a ele; equivale, para ela, a uma soteriologia expressa ou camuflada; trata-se, de um fato, de um imperialismo elegante, que deixa de sê-lo quando é acompanhado pela aventura militar. Não se funda um império unicamente por capricho. Submetemos os outros para que nos imitem, para que tomem por modelo nossas crenças e nossos hábitos; vem depois o imperativo perverso de farelos escravos para contemplar neles o esboço lisonjeiro ou caricatural de si mesmo. Concordo que existe uma hierarquia qualitativa de impérios: os mongóis e os romanos não subjugaram os povos pelas mesmas razões, e suas conquistas não tiveram o mesmo resultado. Entretanto, ambos foram igualmente peritos em fazer parecer o adversário reduzindo-o à sua imagem e semelhança.

Quer tenha provocado ou sofrido, a Rússia jamais se contentou com desgraças medíocres. O mesmo ocorrerá no futuro. Ela se abaterá sobre a Europa por fatalidade física, pelo automatismo de sua massa, por sua vitalidade superabundante e mórbida tão propícia à geração de um império (no qual se materializa sempre a megalomania de uma nação), por essa saúde tão sua, cheia de imprevistos, de horror e de enigmas, destinada ao serviço de uma ideia messiânica, rudimento e prefiguração de conquistas. Quando os eslavófilos sustentavam que a Rússia devia salvar o mundo, empregavam um eufemismo: não se pode salvá-lo sem dominá-lo. No que diz respeito a uma nação, esta encontra seu princípio de vida em si mesma ou em parte alguma: como poderia ser salva por outra? A Rússia sempre pensou – secularizando a linguagem e a concepção dos eslavófilos – que é sua incumbência assegurar a salvação do mundo, a do Ocidente em primeiro lugar, com respeito ao qual, aliás, nunca experimentou um sentimento claro, mas sim atração e repulsa, ciúme (mistura de culto secreto e de aversão ostensiva) inspirado pelo espetáculo de uma podridão tão invejável quanto perigosa, cujo contato tem que buscar, mas mais ainda evitar.

Recusando-se a se definir e a aceitar limites, cultivando o equívoco em política, em moral e, o que é mais grave, em geografia, sem nenhuma das ingenuidades inerentes aos “civilizados”, que se tornaram opacos ao real pelos excessos de uma tradição racionalista, a Rússia, sutil tanto por intuição como pela experiência secular da dissimulação, talvez seja uma criança historicamente falando, mas de maneira alguma o é psicologicamente. Daí sua complexidade de adulto com instintos jovens e velhos segredos, daí também as contradições, levadas até o grotesco, de suas atitudes. Quando resolve aprofundar (e consegue isso sem esforço), desfigura o menor fato, a mínima ideia. Dir-se-ia que tem a mania da gesticulação monumental. Tudo é vertiginoso, horrível e inapreensível na história de suas ideias, revolucionárias ou de qualquer índole. É ainda um incorrigível entusiasta das utopias; ora a utopia é o grotesco cor-de-rosa, a necessidade de associar a felicidade, logo o inverossímil, ao devir, e de levar uma visão otimista, aérea, até o limite em que se una a seu ponto de partida: o cinismo que pretendia combater. Em suma, um conto de fadas monstruoso.

Que a Rússia seja capaz de realizar o seu sonho de um império universal, é uma eventualidade, mas não uma certeza; em compensação, é óbvio que pode conquistar e anexar toda a Europa, e mesmo que o fará, nem que seja para tranquilizar o resto do mundo... Ela se satisfaz com tão pouco! Onde encontrar prova mais convincente de modéstia, de moderação? Um pedacinho de continente! Enquanto espera, ela o contempla com o mesmo olho com que os mongóis contemplavam a China e os turcos Bizâncio, com a diferença, no entanto, que já assimilou um bom número de valores ocidentais, enquanto que as hordas tártaras e otomanas não tinha sobre sua futura presa senão uma superioridade material. É sem dúvida lamentável que a Rússia não tenha passado pelo Renascimento: todas as suas desigualdades vêm daí. Mas com sua capacidade para queimar etapas será, em um século , ou menos, tão refinada e vulnerável como o é o Ocidente, que atingiu um nível de civilização que só se ultrapassa decaindo. Ambição suprema da história: registar as variações desse nível. O da Rússia, inferior ao da Europa, só pode elevar-se, e ela com ele: isso quer dizer que está condenada Pa ascensão. No entanto, de tanto subir, não se arrisca – desenfreada que está – a perder o equilíbrio, explodir e arruinar-se? Com suas almas modeladas nas seitas e nas estepes, dá uma singular impressão de espaço e de clausura, de imensidão e de sufocamento, de Norte em suma, mas de um Norte especial, irredutível a nossas análises marcado por um sono e por uma esperança que fazem tremer, por ma noite rica em explosões, por uma aurora da qual se guardará lembrança. Nada de transparência e de gratuidade mediterrânea nesses Hiperbóreos cujo passado e presente parecem pertencera uma duração distinta da nossa. Ante a fragilidade e o renome do Ocidente, eles sentem um mal-estar, consequência de seu despertar tardio e de seu vigor ocioso: é o complexo de inferioridade do forte... Eles o vencerão, o superarão. O único ponto luminoso em nosso futuro é sua nostalgia, secreta e crispada, por um mundo delicado, de encantos dissolventes. Se o atingirem (tal parece o sentido evidente de seu destino), se civilizarão à custa de seus instintos, e, perspectiva jubilosa, conhecerão também o vírus da liberdade.

Quanto mais um império se humaniza, mais se desenvolvem nele as contradições que o farão perecer. De atitudes heteróclitas, de estrutura heterogênea (ao contrário de uma nação, realidade orgânica), o império necessita para subsistir do princípio coesivo do terror. Abre-se à tolerância? Ela destruirá sua unidade e sua força, e atuará sobre ele como um veneno mortal que ele próprio teria administrado. É que a tolerância não é apenas o pseudônimo da liberdade, mas também o do espírito; e o espírito, mais nefasto ainda para os impérios que para os indivíduos, os corrói, compromete sua solidez e acelera seu desmoronamento. Assim, ele é o instrumento que uma providência irônica utiliza para golpeá-los.

Se nos divertíssemos, apesar do arbitrário da tentativa, estabelecendo na Europa zonas de vitalidade, comprovaríamos que, quanto mais nos aproximamos do Leste, mais se acentua o instinto, e que ele decresce à medida que nos dirigimos para o Oeste. Os russos não têm a exclusividade do instinto, embora outras nações que o possuem pertençam, em graus diversos, à esfera da influência soviética. Essa nações não disseram ainda sua última palavra; algumas, como a Polônia ou a Hungria, tiveram na história um papel nada desprezível; outras como a Iuguslávia, a Bulgária e a Romênia, tendo vivido na sombra, só conheceram sobressaltos sem futuro. Mas qualquer que tenha sido seu passado, e independentemente de seu nível de civilização, todas dispõem de um fundo biológico que em vão buscaríamos no Ocidente. Maltratadas, deserdadas, precipitadas em um martírio anônimo, dilaceradas entre o desamparo e a sedição, conhecerão talvez no futuro uma compensação para tantos infortúnios, humilhações e mesmo covardias. O grau de instinto não se avalia do exterior; para ,medir sua intensidade, é preciso haver percorrido ou adivinhado esses países, os únicos no mundo a crer ainda, em sua bela cegueira, nos destinos do Ocidente. Imaginemos agora nosso continente incorporado ao império russo, imaginemos depois este império, demasiado vasto, debilitando-se e desagregando-se, tendo como corolário a emancipação dos povos: quais dentre eles tomarão a dianteira e trarão à Europa esse incremento de impaciência e de força sem o qual uma irremediável paralisia a espreita? Não saberia duvidar: são os países que acabo de mencionar . Dada a reputação que têm, minha afirmação parecerá risível. A Europa Central ainda vai, me dirão, mas os Balcãs? Não quero defendê-los, mas também não quero ocultar seus méritos. Esse gosto pela devastação, pela desordem interior, por um universo semelhante a um bordel em chamas, essa perspectiva sardônica sobre cataclismas fracassados ou iminentes, essa aspereza, esse ócio de insones ou de assassinos, não são uma rica e pesada herança que beneficia seus possuidores?ão uma rica e pesada herança que beneficia seus possuidores? E como sofrem de uma “alma”, provam por isso mesmo que conservam um resíduo de selvageria. Insolentes e desolados, gostariam de chafurdar na glória, cujo apetite é inseparável da vontade de afirmação e de ruína, da propensão para um crepúsculo rápido. Se suas palavras são virulentas, seus sotaques inumanos e às vezes ignóbeis, é porque mil razões os impelem a berrar mais alto do que esses civilizados que esgotaram seus gritos. Únicos “primitivos” na Europa, darão a ela talvez um novo impulso; impulso que a Europa considerará sua última humilhação. E, no entanto, se o Sudeste só fosse horror, por que, quando o deixamos e nos encaminhamos para esta parte do mundo, sentimos uma espécie de queda – admirável, é verdade – no vazio?

A vida profunda, a existência secreta dos povos que, tendo a imensa vantagem de haver sido rejeitados pela história, puderam capitalizar sonhos, essa existência escondida, destinada às desgraças de uma ressurreição, começa para além de Viena, extremidade geográfica do enfraquecimento ocidental. A Áustria, cuja deterioração quase atinge o limite do símbolo ou do cômico, prefigura o destino da Alemanha. Não há mais desvios de envergadura entre os germanos, nem mais missão nem frenesi, nada mais que os torne atraentes ou odiosos! Bárbaros predestinados, destruíram o Império romano para que a Europa pudesse nascer; eles a fizeram, cabia a eles desafazê-la; cambaleando junto com eles, ela sofre a consequência de seu esgotamento. O dinamismo que ainda lhes resta já não possui o que esconde ou justifica toda energia. Condenados à insignificância, helvécios em germe, afastados para sempre de seu habitual exagero, reduzidos a ruminar suas virtudes degradadas e seus vícios diminuídos, tendo como única esperança o recurso de ser uma tribo qualquer, os germanos são indignos do temor que ainda possam inspirar: crer neles ou temê-los é fazer-lhes uma honra que não merecem de modo algum. Seu fracasso foi providencial para a Rússia. Se tivessem tido êxito, a Rússia teria sido afastado de seus propósitos por mais um século pelo menos. Mas não podiam triunfar, pois atingiram o ápice de seu poderio material no momento em que não tinham mais nada a nos propor, quando eram fortes e vazios. Havia chegado a hora dos outros. “Não são os eslavos antigos germanos em relação ao mundo que desaparece?”, perguntava-se, no meio do século passado, Herzen, o mais clarividente e o mais dilacerado dos liberais russos, espírito de interrogações proféticas, enojado de seu país, decepcionado com o Ocidente, tão inapto para instalar-se em uma pátria como em um problema, embora gostasse de especular sobre a vida dos povos, matéria vaga e inesgotável, passatempo de emigrado. Os povos, entretanto, segundo outro russo, Soloviev, não são o que imaginam ser, mas o que Deus pensa deles na Eternidade.Ignoro as opiniões de Deus sobre os germanos e eslavos; sei contudo que Ele favoreceu estes últimos, e que é tão inútil felicitá-Lo como condená-Lo.

Hoje está respondida a pergunta que tantos russos se colocavam, no século passado, a respeito de seu país: “Esse colosso foi criado para nada?”; O colosso tem um sentido, e que sentido! Um mapa ideológico revelaria que ele se estende para além de seus limites, que estabelece suas fronteiras onde quer, onde lhe convém, que sua presença evoca, por toda parte, menos a ideia de uma crise que de uma epidemia, salutar às vezes, frequentemente nociva, fulgurante sempre.

O Império romano foi obra de uma cidade, a Inglaterra fundou o seu para remediar a exiguidade de uma ilha; a Alemanha tentou erigir um para não sufocar em um território superpovoado. Fenômeno sem paralelo, a Rússia ia justificar seus desígnios de expansão em nome de seu imenso espaço. “Já que tenho o suficiente, por que não ter demasiado?”, esse é o paradoxo implícito em suas proclamações e em seus silêncios. Ao transformar o infinito em categoria política, ia transtornar o conceito clássico e os padrões tradicionais do imperialismo, e suscitar através do mundo uma esperança grande demais para não degenerar em confusão.

Com seus dez séculos de terrores, de trevas e de promessas, ela estava mais apta do que qualquer outra nação para ajustar-se ao aspecto noturno do momento histórico que atravessamos. O apocalipse lhe convém perfeitamente, está habituada a ele e o aprecia, exercita-se nele hoje mais do que nunca, já que mudou visivelmente de ritmo. “Para onde te apressas dessa maneira, ó Rússia?”, perguntava-se já Gogol, que tinha percebido o frenesi que se escondia sob sua aparente imobilidade. Hoje sabemos para onde ela corre, sabemos sobretudo que, à semelhança das nações com destino imperial, está mais impaciente para resolver os problemas alheios do que os seus próprios. Isso quer dizer que nossa carreira no tempo depende do que ela decidirá ou levará a cabo: ela tem nosso futuro em suas mãos... Felizmente para nós, o tempo não esgota nossa substância. O indestrutível, o alhures, é concebível: em nós? Fora de nós? Como sabê-lo? No ponto em que as coisas se encontram, só merecem interesse as questões de estratégia e de metafísica, aquelas que nos fixam na história e as que nos afastam dela: a atualidade e o absoluto, os jornais e os Evangelhos... Vislumbro o dia em que só leremos telegramas e orações. Fato notável: quanto mais o imediato nos absorve, mais sentimos necessidade de tomar a direção oposta, de forma que vivemos, no interior do mesmo instante, dentro e fora do mundo. Da mesma maneira, ante o desfile dos impérios, só nos resta buscar um meio termo entre o ricto e a serenidade.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mecanismo da Utopia - Emil Cioran

Capítulo intitulado "Mecanismo da Utopia", da obra "História e Utopia", Emil Cioran

"Em qualquer grande cidade onde o acaso me leva, surpreendo-me que não se desencadeiem todos os dias revoltas, massacres, uma carnificina sem nome, uma desordem de fim do mundo. Como, em um espaço tão reduzido, podem coexistir tantos homens sem destruir-se, sem odiar-se mortalmente? Na verdade se odeiam, mas não estão à altura do seu ódio. Esta mediocridade, esta impotência, salva a sociedade, assegura sua duração e estabilidade. De vez em quando produz-se algum abalo que nossos instintos aproveita; depois, continuamos nos olhando nos olhos como se nada tivesse acontecido e coabitamos sem nos despedaçar mutuamente de forma demasiado visível. Tudo retorna à ordem, à calma da ferocidade, tão temível, em última instância, quanto o caos que a havia interrompido.

Mas me surpreende mais ainda que, sendo a sociedade o que é, alguns tenham se empenhado em conceber outra, inteiramente diferente. De onde pode provir tanta ingenuidade, ou tanta loucura? Se a pergunta é normal e trivial, a curiosidade que me leva a fazê-la tem, em compensação, a desculpa de ser maligna.
Em busca de novas provas, e no preciso momento em que estava a ponto de desesperar, tive a ideia de introduzir-me na literatura utópica, de consultar suas “obras-primas”, de impregnar-me delas, de chafurdar nelas. Para minha grande satisfação, encontrei como saciar meu desejo de penitência, meu apetite de mortificação. Passar alguns meses examinando os sonhos de um futuro melhor, de uma sociedade “Ideal”, consumindo o ilegível, que sorte! Apresso-me em acrescentar que esta literatura repugnante é rica em ensinamentos e que, ao frequentá-la, não se perde totalmente o tempo. Desde o princípio se distingue o papel (fecundo ou funesto, não importa) que desempenha, na origem dos acontecimentos, não a felicidade, mas a ideia de felicidade, ideia que explica por que, tendo a idade de ferro a mesma extensão da história, cada época dedica-se a divagar sobre a idade de ouro. Se se pusesse fim a tais divagações, ocorreria uma estagnação total. Só agimos sob a fascinação do impossível: isto significa que uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e de consagrar-se a ela está ameaçada a esclerose e de ruína. A sensatez, à qual nada fascina, recomenda a felicidade dada, existente; o homem recusa esta felicidade, e essa simples recusa faz dele um animal histórico, isto é, um amante da felicidade imaginada.


“Logo será o fim de tudo; e haverá um novo céu e uma nova terra”, lemos no Apocalipse. Se eliminamos o céu e conservamos só a “nova terra”, teremos o segredo e a fórmula dos sistemas utópicos; para maior precisão, talvez fosse preciso substituir “terra” por “cidade”; mas isso é apenas um detalhe; o que conta é a perspectiva de um novo acontecimento, a febre de uma espera essencial, de uma parousia degradada, modernizada da qual surgem esses sistemas tão caros aos deserdados. A miséria é, efetivamente, a grande auxiliar do utopista, a matéria sobre a qual trabalha, a substância com que nutre seus pensamentos, a providência de suas obsessões. Sem ela estaria desocupado, mas ela o ocupa, o atrai ou o molesta, conforme seja rico ou pobre; por outro lado, ela não pode prescindir dele, tem necessidade desse teórico, desse entusiasta do futuro, sobretudo porque ela mesma, meditação interminável sobre a possibilidade de escapar a seu próprio presente, não suportaria sua desolação sem a obsessão por uma outra terra. Vocês duvidam? É porque não experimentaram a indigência completa. Se chegarem a ela, verão que quanto mais desprovido está alguém, mais gasta o tempo e a energia em querer, com o pensamento, reformar tudo, inutilmente. E não penso unicamente nas instituições, criações do homem (estas serão condenadas sem apelação), mas nos objetos, em todos os objetos por mais insignificantes que sejam. Não podendo aceitá-los tal como são, vocês quererão fazer o papel de legislador ou de tirano à custa deles, e ainda quererão intervir na vida dos elementos para modificar sua fisionomia e sua estrutura. O ar é irritante: que mude! E também a pedra. E o vegetal, e o homem. Para além das bases do ser, se quererá até os fundamentos do caos, para apoderar-se dele, para lá estabelecer-se. Quando não se tem um tostão no bolso, a gente se agita, delira, sonha possuir tudo, e esse tudo, enquanto dura o frenesi, se possui realmente: nos igualamos a Deus, mas ninguém se dá conta disso, nem Deus, nem sequer a gente mesmo. O delírio dos indigentes é gerador de acontecimentos, fonte de história: uma multidão de arrebatados que querem um outro mundo, aqui e agora. São eles que inspiram as utopias, é para eles que elas são escritas. Mas lembremos que utopia significa “em parte alguma”.


E de onde seriam essas cidades que o mal não toca, onde se glorifica o trabalho e onde ninguém teme a morte? Nelas nos vemos obrigados a uma felicidade feita de idílios geométricos, de êxtases regulamentados, de mil maravilhas repugnantes: assim se representa necessariamente o espetáculo de um mundo perfeito, de um mundo fabricado. Com uma minúcia risível, Campanella nos descreve os solares isentos de “gota, reumatismo, catarros, ciática, cólicas, hidropisia, flatulências”... Tudo abunda na “Cidade do sol”, “porque cada um procura distinguir-se naquilo que faz. O chefe que preside cada coisa é chamado de rei... Mulheres e homens, divididos em grupos, entregam-se ao trabalho, sem jamais infringir as ordens dos seus reis, e sem jamais mostrar-se cansados como nós faríamos. Consideram seus chefes como pais ou irmãos mais velhos”. Tolices similares se encontram em todas as obras do gênero, sobretudo nas de Cabet, Fourier ou Morris, todos desprovidos dessa gota de aspereza, tão necessária às obras, literárias ou outras.

Para conceber uma verdadeira utopia, para esboçar, com convicção, o panorama da sociedade ideal, é preciso uma certa dose de ingenuidade, e mesmo de tolice, que, demasiado aparente, acaba por exasperar o leitor. As únicas utopias legíveis são as falsas, as que, escritas por jogo, diversão ou misantropia, prefiguram ou evocam as “Viagens de Gulliver”, bíblia do homem desenganado, quintessência de visões não quiméricas, utopia sem esperança. Através de seus sarcasmos, Swift varreu a estupidez de um gênero até quase anulá-lo.

É mais fácil confeccionar uma utopia do que um apocalipse? Ambos têm seus princípios e seus estereótipos. A primeira, cujos lugares-comuns estão mais de acordo com nossos instintos mais profundos, deu origem a uma literatura muito mais abundante do que o segundo. Não é dado a todo mundo confiar em uma catástrofe cósmica, nem amar a linguagem e a maneira como é anunciada e proclamada. Mas aqueles que admite a ideia e a aplaude, lerá, nos Evangelhos, com o arrebatamento do vício, as frases de efeitos e os clicês que se tornaram famosos em Patmos “... o céu se obscurecerá, a lua não dará sua luz, os astros cairão... todas as tribos da terra se lamentarão... esta geração não passará e todas estas coisas ocorrerão.” Este pressentimento do insólito, de um acontecimento capital, esta espera crucial pode converter-se em ilusão, e então aparecerá a esperança de um paraíso sobre a terra ou em outra parte; ou se transformará em ansiedade, e será a visão de um Pior ideal, de um cataclisma voluptuosamente temido.

“... e de sua boca sai uma espada afiada para golpear as nações.” Convenções do horror, fórmulas sem dúvida. São João sucumbiu a isso desde o momento em que optou por esse esplêndido palavrório, desfile de derrocadas preferível, no final das contas, às descrições de ilhas e de cidades onde uma felicidade impessoal sufoca, onde “a harmonia universal” aprisiona e esmaga. Os sonhos da utopia se realizaram em sua maior parte, mas com espírito muito diferente daquele em que ela os havia concebido; o que para a utopia era perfeição, para nós é tera; suas quimeras são nossas desgraças. O tipo de sociedade de que a utopia imagina com um tom lírico nos parece intolerável. Vejam por esta amostra do “Viagem a Icaria”: “duas mil e quinhentas jovens (modistas) trabalham em um ateliê, umas sentadas, outras em pé, quase todas encantadoras... O hábito que tem em cada artífice de fazer a mesma coisa duplica a rapidez do trabalho, acrescentando-lhe também a perfeição. Os mais elegantes enfeites de cabeça nascem aos milhares, cada manhã, das mãos de suas belas criadoras...” Semelhantes elucubrações revelam a debilidade mental ou mau gosto. E, no entanto, Cabet, materialmente falando, foi exato; só que se equivocou no essencial. Sem nenhuma noção do intervalo que separa ser e produzir (só existimos, no pleno sentido da palavra, fora do que fazemos, além de nossos atos), não podia descobrir a fatalidade vinculada a toda forma de trabalho, artesanal, industrial ou outro qualquer. O que mais impressiona nos escritos utópicos é a ausência de perspicácia, de instinto psicológico. Os verdadeiro personagens são autômatos, ficções ou símbolos: nenhum é ideia perdida no meio de um universo sem referências. As próprias crianças se tomam irreconhecíveis. No “estado associado” de Fourier, elas são tão puras que até ignoram a tentação de roubar, de “pegar uma maçã da árvore”. Mas uma criança que não rouba não é uma criança. Que sentido tem formar uma sociedade de marionetes? Recomendo a descrição do Falanstério como o mais eficaz dos vômitos.

Situado nas antípodas de La Rochefoucauld, o inventor de utopias é um moralista que só percebe em nós desinteresse, apetite de sacrifício, esquecimento de si. Exangues, perfeitos e nulos, fulminados pelo Bem, desprovidos de pecados e de vícios, sem espessura nem contornos, sem iniciação à existência, à arte de envergonhar-se de si mesmos, de variar suas vergonhas e seus suplícios, nem sequer suspeitam o prazer que nos inspira o abatimento de nossos semelhantes, a impaciência com a qual antecipamos e seguimos usa queda. Esta impaciência e este prazer podem às vezes provir de uma curiosidade e não comportar nada de diabólico. Enquanto um ser ascende, prospera, avança não se sabe quem ele é, pois sua ascensão o afasta de si mesmo, rouba-lhe a realidade, e assim ele não é. Do mesmo modo, só nos conhecemos a partir do momento em que começamos a decair, quando o êxito, ao nível dos interesses humanos, se revela impossível: derrota clarividente graças à qual, tomando posso de nosso próprio ser, nos separamos do torpor universal. Para melhor apreender a própria derrota, ou a do próximo, é preciso passar pelo mal e, se necessário, mergulhar nele: como consegui-lo nessas cidades e nessas ilhas onde o mal está excluído por princípio e por razão de Estado? Aí as trevas estão proibidas, só a luz é admitida. Nenhum vestígio de dualismo: a utopia é, por essência, antimaniqueísta. Hostil à anomalia, ao disforme, ao irregular, tende para o fortalecimento do homogêneo, do modelo, da repetição e da ortodoxia. Mas a vida é ruptura, heresia, abolição das normas da matéria. E o homem, em relação à vida, é heresia em segundo grau, vitória do individual, do capricho, aparição aberrante, animal cismático que a sociedade – soma de monstros adormecidos – pretende reconduzir ao caminho reto. Herético por excelência, o monstro desperto, solidão encarnada, infração da ordem universal, se compraz em sua excepcionalidade, isola-se em seus privilégios onerosos, e é sendo duração que paga o que ganha sobre seus “semelhantes”: quanto mais se distingue deles, mais frágil e perigoso será, pos é à custa de sua longevidade que perturba a paz dos outros e que cria pra si, no seio da cidade, um estatuto de indesejável.

“Nossas esperanças sobre o estado futuro da espécie humana podem reduzir-se a três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações, os progressos da igualdade em um mesmo povo e, finalmente, o aperfeiçoamento do homem” (Condorcet). Interessada na descrição de cidades reais, a história, atesta em toda parte e sempre o fracasso e não realização de nossas esperanças, não ratificou nenhuma dessas previsões. Para um Tácito não existe uma Roma ideal.

Ao abolir o irracional e o irreparável, a utopia se supõe também à tragédia, paroxismo e quintessência da história. Qualquer conflito desapareceria em uma cidade perfeita; as vontades seriam estranguladas, apaziguadas e milagrosamente convergentes; reinaria somente a unidade, sem ingrediente do acaso ou da contradição. A utopia é uma mistura de racionalismo pueril e de angelismo secularizado.
Estamos afogados no mal. Não é que todos os nossos atos sejam maus, mas quando cometemos alguns bons, sofremos por haver contrariado nossos movimentos espontâneos: a prática da virtude se reduz a um exercício de penitência, à aprendizagem da mortificação. Satã, o anjo decaído transformado em demiurgo, encarregado da Criação, insurge-se contra Deus e revela-se, neste mundo, mais à vontade e até mais poderoso que Ele; longe de ser um usurpador, é nosso mestre, soberano e legítimo que sobrepujaria o Altíssimo se o universo estivesse reduzido ao homem. Tenhamos, pois, a coragem de reconhecer de quem dependemos. As grandes religiões não se enganaram a esse respeito: o que oferecerem Mara ao Buda, Ahriman a Zoroastro, o Tentador a Jesus, é a Terra, e a supremacia sobre a Terra, realidades efetivamente sob o poder do Príncipe do mundo. Querer instaurar um novo reino, utopia generalizada ou império universal, é fazer seu jogo, cooperar com sua empresa e coroá-la; pois o que deseja acima de tudo é que nos comprometamos com ele, e nos desviemos por sua causa da luz, da nostalgia de nossa antiga felicidade.

Fechado há cinco mil anos, o paraíso foi reaberto, segundo João Crisóstomo, no momento em que cristo expirava; o ladrão pôde penetrar nele, seguido por Adão, finalmente repatriado, e por um número restrito de justos, que vegetavam nos infernos esperando “a hora da redenção”.
Tudo leva a crer que se encontra de novo trancado, e que assim permanecerá por muito tempo. Ninguém pode forçar a entrada: os privilegiados oque desfrutam dele levantaram a barricadas, a partir de um sistema cujas maravilhas puderam observar na Terra. Esse paraíso tem toda a aparência de ser o verdadeiro: no mais profundo de nossas depressões, é com ele que sonhamos, e é nele que gostaríamos nos dissolver. Um impulso súbito nos impele para lá e nos faz mergulhar nele: queremos recuperar em um instante o que perdemos desde sempre, e reparar subitamente o erro de haver nascido? Nada desvela melhor o sentido metafísico da nostalgia. Do que sua impossibilidade de coincidir com algum momento do tempo; por isso ela busca consolo em um passado longínquo, imemorial, refratário aos séculos e como que anterior ao devir. O mal de que sofre – efeito de uma ruptura que remonta aos primórdios – a impede de projetar a idade de ouro no futuro; a que naturalmente concebe é a antiga, a primordial; aspira a essa idade, menos para deleitar-se nela do que para desaparecer, para depositar nela o fardo da consciência. Se retorna à origem dos tempos é para reencontrar o verdadeiro paraíso, objetivo de suas nostalgias. Contrariamente, a nostalgia de onde procede o paraíso deste mundo será desprovida precisamente da dimensão da saudade: nostalgia invertida, falseada e viciada, dirigida para o futuro, obnubilada pelo “progresso”, é replica temporal, metamorfose disparata do paraíso original. Contágio? Automatismo? Esta metamorfose acabou por operar-se em cada um de nós. Quer queiramos ou não, apostamos no futuro, fazemos dele uma panaceia, e, identificando-o ao surgimento de um tempo inteiramente outro no interior do próprio tempo, o consideramos como uma duração inesgotável e contudo terminada, com uma história intemporal. Contradição nos termos, inerente à esperança de um novo reino, de uma vitória do insolúvel no seio do devir. Nossos sonhos um mundo melhor se fundam em uma impossibilidade teórica. O que há de espantoso no fato de que, para justificá-los, seja preciso recorrer a paradoxos sólidos?

Enquanto o cristianismo satisfazia os espíritos, a utopia não podia seduzi-los; mas quando começou a decepcioná-los, ela procurou conquistá-los e instalar-se neles. Já era essa sua intenção no Renascimento, mas só iria consegui-lo dois séculos mais tarde, em uma época de superstições “esclarecidas”. Assim nasceu o Porvir, visão de uma felicidade irrevogável, de um paraíso dirigido no qual o acaso não tem lugar, onde a menor fantasia aparece como uma heresia ou uma provocação. Fazer sua descrição seria entrar nos detalhes do imaginável. A própria ideia de uma cidade ideal é um sofrimento para a razão, uma empresa que honra o coração e desacredita o intelecto. (Como pôde um Platão prestar-se a ela? Estava esquecendo que ele é o predecessor de todas essas aberrações, retomadas e agravadas por Thomas Morus, o fundador das ilusões modernas.) Planejar uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos – seus nomes horríveis se parecem com seu destino, pesadelo que também nos está reservado, já que nós mesmos o transformamos em ideal.
De tanto louvar as vantagens do trabalho, as utopias deveriam tomar a direção oposta da Gênese. Neste ponto particularmente, são a expressão de uma humanidade absorvida pelo trabalho, orgulhosa em comprazer-se com as consequências da queda, das quais a mais grave é a obsessão pela produtividade. Carregamos com orgulho e ostentação os estigmas de uma raça que adora “o suor da fronte”, que faz dele um sinal de nobreza, que se agita e sofre exultando; daí o horror que nos inspira, a nós os condenados, o eleito que se recusa a trabalhar ou sobressair no que quer que seja. Só aquele que conserva a lembrança de uma felicidade imemorial é capaz dessa recusa que censuramos. Desorientado no meio de seus semelhantes, ele é como eles e, no entanto, não pode comunicar-se com eles; para onde quer que olhe, não se sente daqui; tudo lhe parece usurpação o fato de possuir um nome... Suas empresas fracassam, aventura-se nelas sem convicção: simulacros dos quais o afasta a imagem precisa de um outro mundo. O homem, uma vez excluído do paraíso, para não sofrer e não pensar mais nele, obteve como compensação a faculdade de querer, de tender para o ato, de perder-se nele com entusiasmo, com brio. Mas o abúlico, em seu desapego, em seu marasmo sobrenatural, para que se esforça, para que o objetivo se entrega? Nada o induz a sair de sua ausência. E, no entanto, ele próprio não escapa inteiramente à maldição comum: esgota-se em uma nostalgia, e gasta nela mais energia do que colocamos em nossas proezas.
Quando Cristo assegurou que o “reino de Deus” não era “aqui” nem “lá”, mas dentro de nós, condenava de antemão as construções utópicas para as quais todo “reino” é necessariamente exterior, sem nenhuma relação com nosso eu profundo ou com nossa salvação individual. Quanto mais as utopias nos tenham marcado, mais esperaremos nossa libertação de fora, do curso das coisas ou da marcha das coletividades. Assim se delineou o Sentido da história, cujo sucesso superou o do Progresso, sem acrescentar-lhe nada de novo. Era preciso entretanto abandonar não um conceito, mas uma de suas traduções verbais das quais se abusou. Não nos renovaríamos em matéria ideológica sem ajuda dos sinônimos.
Por mais diversos que sejam seus disfarces, a ideia de perfectibilidade penetrou em nossos costumes: adere a ela mesmo quem a questiona. Ninguém quer aceitar que a história se desenvolve sem nenhum motivo, independente de uma direção determinada, de um objetivo, “Ela tem um objetivo, corre em direção a ele, virtualmente já o atingiu”, proclamam nossos desejos e nossas doutrinas. Quanto mais carregada de promessas imediatas estivar uma ideia, mais chances terá de triunfar. Incapazes de encontrar o “reino de Deus” em si mesmos, ou, melhor dizendo, demasiados astutos para buscá-lo aí, os cristãos o situaram no devir: perverteram o ensinamento para assegurar seu êxito. Além disso, o próprio Cristo alimentou o equívoco; por um lado, respondendo às insinuações dos fariseus, preconizava um reino interior, fora do tempo; por outro, dava a entender a seus discípulos que, estando próxima a salvação, eles e a “geração presente” assistiriam à consumação de todas as coisas. Como compreendeu que os humanos aceitam o martírio como uma quimera, mas não como uma verdade, chegou um acordo com suas fraquezas. Teria agido de outro modo se isso comprometesse sua obra. Mas aquilo que em Cristo era uma concessão ou tática, nos utopistas é um postulado ou paixão.

Um grande passo à frente foi dado no dia em que os homens compreenderam que, para melhor poder atormentar-se uns aos outros, era preciso reunir-se organizar-se em sociedade. Segundo as utopias, eles só conseguiram parcialmente; por isso elas se propõem a ajudá-los, a oferecer-lhes um cenário apropriado ao exercício de uma felicidade completa, exigindo, em contrapartida, que abdiquem de sua liberdade, ou, se a conservam, que a utilizem unicamente para clamar sua alegria em meio aos sofrimentos que se infligem sem cessar. Tal parece ser o sentido da solicitude infernal que têm relação aos homens. Nessas condições, como não imaginar uma utopia às avessas, uma liquidação do bem ínfimo e do mal imenso vinculados à existência de qualquer ordem social? O projeto é atraente, a tentação, irresistível. Como acabar com um conjunto tão vasto de anomalias? Seria preciso algo comparável ao solvente universal que os alquimistas buscavam e cuja eficácia se apreciaria não nos metais, mas nas instituições. Na espera de que a fórmula seja encontrada, observemos de passagem que a alquimia e a utopia, em seus aspectos positivos, têm uma grande semelhança: perseguindo, em domínios heterogêneos, um sonho de transmutação parecido, se não idêntico, uma se apega ao irredutível na natureza, a outra ao irredutível na história. O elixir da vida e a cidade ideal procedem de um mesmo vício de espírito, ou de uma mesma esperança.
Da mesma forma que uma nação tem necessidade de uma ideia insensata que a guie e que lhe proponha fins incomensuráveis em relação a suas capacidades reais, com o objetivo de distinguir-se das outras nações, para humilhá-las e esmagá-las, ou simplesmente para adquirir uma fisionomia única, da mesma maneira uma sociedade só evolui e se afirma se lhe sugerirem ou inculcarem ideias desproporcionados em relação ao que ela é. A utopia desempenha, na vida das coletividades, a função atribuída à ideia de missão na vida dos povos. As ideologias são o subproduto das visões messiânicas ou utópicas, e algo assim como sua expressão vulgar. Em si mesma, uma ideologia não é nem boa nem má. Tudo depende do momento em que é adotada. O comunismo, por exemplo, atua sobre uma nação viril como um estimulante; a impulsiona para a frente e favorece sua expansão; em uma nação vacilante, sua influência poderia ser menos feliz. Nem verdadeiro nem falso, precipita processos e, não foi por causa dele, mas através dele, que a Rússia adquiriu seu vigor presente. Desempenharia o mesmo papel, uma vez instalado no resto da Europa? Seria um princípio de renovação para ela? Gostaríamos de acreditar; em todo caso, a pergunta só comporta uma resposta indireta, arbitrária, inspirada em analogia de ordem histórica. Reflitamos sobre os efeitos do cristianismo em seus primórdios: deu um golpe fatal na sociedade antiga, paralisou-a e extinguiu-a; em compensação, foi uma bênção para os bárbaros, cujos instintos se exasperaram a seu contato. Longe de regenerar um mundo decrépito, só regenerou  os regenerados. Do mesmo modo, o comunismo fará, no imediato, a salvação daqueles que já estão salvos; não poderá trazer uma esperança concreta aos moribundos, e muito menos reanimar cadáveres. Depois de haver denunciado os ridículos da utopia, falemos de seus méritos; e já que os homens se acomodam tão bem ao estado social, e mal distinguem seu mal iminente, façamos como eles, associemos-nos a sua inconsciência.

O mais louvável nas utopias é haver denunciado os danos que causa a propriedade, o horror que representa, as calamidades que provoca. Pequeno ou grande, o proprietário está contaminado, corrompido em sua essência: sua corrupção recai sobre o menor objeto que toca ou de que se apropria. Se ameaçam sua fortuna, se despojam dela, será obrigado a uma tomada de consciência da qual normalmente é incapaz. Para readquirir uma aparência humana, para recuperar sua “alma”, é preciso que o proprietário se veja arruinado e que consinta em sua ruína. A revolução o ajudará. Devolvendo-o à sua nudez primitiva, ela o aniquila no imediato e o salva no absoluto, pois liberta – interiormente, bem entendido – aqueles mesmos que atinge em primeiro lugar: os que possuem bens e riquezas; ela os reclassifica, lhes devolve sua antiga dimensão e os traz de volta para os valores que traíram. Mas antes mesmo de ter o meio ou ocasião de atingi-los, a revolução mantém neles um medo de salutar: perturba seu sono, alimenta seus pesadelos, e o pesadelo é o começo do despertar metafísico. É, por tanto, enquanto agente de destruição que se revela útil; ainda que fosse nefasta, uma coisa a redimiria sempre: só ela sabe que tipo de terror usar para sacudir esse mundo de proprietários, o mais atroz dos mundos possíveis. Toda forma de posse, não tenhamos medo de insistir nisso, degrada, avilta, lisonjeia o monstro adormecido no fundo de cada um de nós. Possuir, nem que seja uma vassoura, considerar qualquer coisa como seu bem, é participar da indignidade geral. Que orgulho descobrir que nada nos pertence, que revelação! Você se considerava o último dos homens, e eis que, de súbito, surpreendido e como que iluminado por sua penúria, você não sofre mais por causa dela; ao contrário, ela se transforma em motivo de orgulho. E tudo o que você deseja é ser tão despojado quanto um santo ou um alienado.

Quando estamos cansados dos valores tradicionais, nos orientamos necessariamente para a ideologia que os nega. E é por sua força de negação que ela seduz, bem mais que por suas fórmulas positivas. Desejar a transformação da ordem social é atravessar uma crise marcada mais ou menos por temas comunistas. Isto é tão verdadeiro hoje, como o foi ontem e o será amanhã. Tudo se passa como se, depois do Renascimento, os espíritos tivessem sido atraídos, na superfície, pelo liberalismo, e, em profundidade, pelo comunismo, que, longe de ser um produto circunstancial, um acidente histórico, é o herdeiro dos sistemas utópicos e o beneficiário de um longo trabalho subterrâneo; de início capricha ou cisma, adquiriria mais tarde o caráter de um destino e de uma ortodoxia. Hoje em dia, as consciências só podem exercitar-se em duas formas de revolta: comunista e anticomunista. No entanto, como não perceber que o anticomunismo equivale a uma fé raivosa, horrorizada ante o futuro do comunismo?

Quando chega a hora de uma ideologia, tudo contribui para seu êxito, até seus próprios inimigos; nem a polêmica nem a polícia poderão deter sua expansão ou retardar seu triunfo; a ideologia quer, e pode, realizar-se, encarnar-se, mas quanto melhor o consiga, mais corre o risco de esgotar-se; uma vez instaurada, perderá seu conteúdo ideal, extenuará seus recursos para, finalmente, comprometendo as promessas de salvação de que dispunha, degenerar em tagarelice ou em espantalho.

A carreira reservada ao comunismo depende da rapidez com que gaste suas reservas de utopia. Enquanto possuí-las, atrairá inevitavelmente todas as sociedades que ainda não o tenham experimenta; recuado aqui, avançando lá, investido de virtudes que nenhuma outra ideologia detém, o comunismo dará a volta ao mundo, substituindo as religiões defuntas ou cambaleantes, e propondo em toda parte às massas modernas um absoluto e digno de seu nada.

Considerado em si mesmo, o comunismo aparece como a única realidade à qual ainda se pode aderir, por menor que seja a ilusão que se tenha sobre o futuro: eis por que, em diversos graus, somos todos comunistas... Mas não é uma especulação estéril julgar uma doutrina fora das anomalias inerentes a sua realização prática? O homem esperará sempre o advento da justiça; para que triunfe, ele renunciará à liberdade, da qual terá saudades depois. O que quer que faça, o impasse espreita seus atos e seus pensamentos, como se fosse não seu termo, mas o ponto de partida, a condição e a chave. Não há forma social nova que seja capaz de salvaguardar as vantagens da antiga: uma soma mais ou menos igual de inconvenientes se encontra em todos os tipos de sociedade. Equilíbrio maldito, estagnação sem remédio, de que sofrem igualmente os indivíduos e as coletividades. As teorias não podem fazer nada, já que o fundo da história é impermeável às doutrinas que marcam sua aparência. A era cristã foi algo muito diferente do cristianismo; e era comunista, por sua vez, não saberia evocar o comunismo enquanto tal. Não existe acontecimento naturalmente cristão, nem naturalmente comunista.

Se a utopia era ilusão hipostasiada, o comunismo, que vai mais longe ainda, será a ilusão decretada, imposta: um desafio à onipresença do mal, um otimismo obrigatório. Dificilmente o aceitará aquele que, graças a experiências e provações vive na embriaguez da decepção e que, a exemplo do redator do Gênese, se nega a associar a idade de ouro ao devir. E não é que despreze os maníacos do “progresso indefinido” e seus esforços para fazer triunfar a justiça neste mundo; mas sabe, para sua desgraça, que a justiça é uma impossibilidade material, um grandioso contrassenso, o único ideal do qual é possível afirmar com certeza que não se realizará jamais, e contra o qual a natureza e a sociedade parecem haver mobilizado todas as suas leis. Estes desacordos, estes conflitos, não pertencem unicamente a um solitário. Com maior ou menor intensidade, nós também os sentimos: não desejamos a destruição desta sociedade conhecendo, por sua vez, as decepções que nos reserva aquela que a substituirá? Mesmo que fosse inútil uma transformação total, uma revolução sem fé é tudo o que ainda se pode esperar de uma época em que ninguém tem mais candura suficiente para ser um verdadeiro revolucionário. Quando, vítimas do frenesi do intelecto, nos entregamos ao do caos, reagimos como um louco em posse de suas faculdades, louco superior à sua loucura; ou como um deus que, em um acesso de raiva lúcida, se deleitasse em pulverizar sua obra e seu ser.

Nossos sonhos de futuro são doravante inseparáveis de nossos temores. A literatura utópica, em seus primórdios, se rebe contra a Idade Média, contra a alta estima que tinha esta pelo inferno e contra o gosto que professava pelas visões de fim do mundo. Dir-se-ia que os sistemas tão tranquilizadores de Campanella e de Morus foram concebidos com a única finalidade de desacreditar as alucinações de uma santa Hildergada. Hoje em dia, reconciliados com o terrível, assistimos a uma contaminação da utopia pelo apocalipse: a “nova terra” que nos anunciam adquire cada vez mais a figura de um novo inferno. Mas, este inferno, nós o aguardamos, consideramos mesmo um dever precipitar sua chegada. Os dois gêneros, o utópico e o apocalíptico, que nos pareciam tão dessemelhantes, se interpenetram, influenciam um ao outro, para formar um terceiro, maravilhosamente apto para refletir a espécie de realidade que nos ameaça e à qual, entretanto, diremos sim, um sim correto e sem ilusão. Será nossa maneira de ser irrepreensíveis ante a fatalidade."