Mostrando postagens com marcador Russia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Russia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Criação e a Sexualidade. A Espécie e a Personalidade (Por Nikolai Berdiaev)

A vida sexual neste mundo está viciada e corrompida nas suas raízes mais profundas. A sede de reunificação, de ser UM, que atormenta o homem preso ao desejo, é uma sede que não pode ser satisfeita. O ato sexual em particular, diferenciado, aparece como resultado de uma fragmentação original, é sinal do homem que perdeu sua unidade: isso é suficiente para tornar o ato irremediavelmente trágico e ineficaz. O ato sexual representa a tentativa extrema de duas correntes saídas de polos contrários se unificarem e absorverem uma na outra  sem sair delas mesmas. Chegam a se confundir? Certamente, não. Há algo que testemunha contra o ato sexual, e que carrega em si mesmo sua própria profanação, o germe da desintegração, esse transtorno licencioso que é exatamente o oposto do princípio da unidade. A união pelo ato sexual não é mais que ilusória, e esta ilusão tem que ser paga. Pelo fato dessa união ser temporária, estando na ordem natural das coisas, onde tudo é instantâneo e perecível, o sexo carrega o germe da morte. A ilusão fugaz do ato sexual é sempre acompanhada por uma reação, uma volta atrás, uma desunião. A desunião depois do ato sexual é mais completa que antes. Um tipo de isolamento doentio contamina o êxtase do abraço. O ato sexual, segundo seu significado místico, teria que ser eterno, e a união que ele encarna deveria aprofundar indefinidamente, as duas carnes deveriam se fundir em uma só, penetrar uma a outra até o extremo. Em vez disso, se cumpre o ato de uma união passageira, muito temporal e muito superficial. A reunião passageira se paga com uma divisão mais profunda. Dessa forma, a união no ato sexual se manifesta sempre  limitada. A união dos sexos em um sentido místico deveria significar a penetração de cada célula de uma criatura na célula de outra, a fusão total de uma carne na outra carne, de todo espírito no outro espírito. Em vez disso, se cumpre um ajuste superficial, incompleto, fragmentário, a carne permanece separada da outra carne, e o ato sexual diferenciado, isolado, guarda em si algo de defeituoso e mórbido. A união dos sexos teria que ser eterna, não deveria ser abreviada e nem ser acompanhada por uma volta atrás; deveria comunicar-se e expandir-se em toda a prisão onde a criatura está encerrada, teria que ser profunda e infinita. Em vez disso, o ato sexual na ordem da natureza, coloca o homem sob o infinito absurdo da corrente sexual que não conhece mitigação e prazos. Assim, a fonte de vida neste mundo está corrompida em sua base, e aparece como a fonte da escravidão humana. O ato sexual é interiormente contrário e oposto ao espírito do mundo: a vida natural do sexo é sempre trágica e inimiga da personalidade. Esta personalidade é apenas um brinquedo para o gênio da espécie, e a ironia do gênio da espécie acompanha o ato sexual. Sobre isso, tanto Schopenhauer como Darwin podem dar testemunho. O ato sexual é profundamente impessoal, é geral e idêntico, não só nos humanos como também para outros seres vivos. O ato sexual não somente não possui algo de pessoal ou individual, mas também não tem nada especificamente humano. A personalidade está sempre ali sob o poder de uma corrente geradora obscura, que relaciona o mundo humano com o mundo animal. A edificação mística de uma união pessoal em uma carne não pode ser alcançada e realizada em um elemento impessoal. E a tragédia sem solução do sexo é que a sede de uma união pessoal arrasta o homem para a corrente genética da natureza, levando-a, através do ato sexual, não a uma união pessoal, mas a uma concepção, a uma destruição da personalidade na geração, a um infinito maligno e não a uma eternidade.  Nesta vida sexual em busca do prazer e satisfação do desejo, o que prevalece não é uma edificação pessoal, mas sim o interesse da espécie, a continuação da espécie. O pessoal não pode realizar-se através do impessoal. O ato sexual corresponde sempre ao desmoronamento da personalidade e sua dissolução.



Não é, portanto, a imortalidade e a eternidade o que se espera a pessoa no ato sexual, mas sua dispersão em uma pluralidade de novas vidas por vir. O ato sexual afirma um infinito maligno, uma alternância infinita do nascimento e da morte. O que nasceu morre e engendra o que morrerá. O engendrar é sempre um sinal de fracasso da perfeição pessoal, da não adesão a eternidade. O que concebe e o que tem que nascer são princípios igualmente fugitivos. A concepção é de uma só vez o castigo do ato sexual e a redenção de seu pecado: e assim, o nascimento e a morte estão misteriosamente ligados na sexualidade. Pois a sexualidade não é somente a fonte de vida, mas também a fonte da morte. Se nasce e morre por ela. A corrupção e a decadência mortal entraram no mundo pelo caminho da sexualidade. Foi com ela que a personalidade começou a decrescer, a se desprender da eternidade. A sexualidade afunda o homem nessa categoria perecível da natureza na qual reina a alternância infinita de nascimento e morte. O que é mortal engendra e o que é mortal morre. A lei do karma e da evolução infinita da reincarnação que ensina a concepção religiosa da Índia é, na verdade, essa necessidade da morte e o nascimento, ligados ao pecado da sexualidade. A liberdade benfeitora do cristianismo substituiu as consequências obrigatórias da lei do karma. Há um antagonismo profundo entre a vida eterna e perfeita da personalidade e o nascimento de vidas mortais no tempo, entre a perspectiva da personalidade e a perspectiva da espécie. A espécie é a fonte da morte da personalidade, a fonte de vida geradora. Os gregos já sabiam que Hades e Dionísio eram apenas um só deus, sentiam a ligação mística entre a morte e a geração.  A isso se deve que no próprio ato sexual, na união sexual, se oculta uma tristeza mortal. Na vida geradora do sexo se dissimula o pressentimento da morte. O que dá a vida leva consigo a morte. A alegria da união sexual é sempre uma alegria envenenada. E este veneno mortal encerrado na vida sexual sempre foi percebido como um pecado. O ato sexual sempre envolve a tristeza das esperanças dissipadas da personalidade, a passagem do eterno ao temporal. Na união pessoal aqui embaixo sempre há algo que morre. O ato sexual se cumpre na corrente da espécie, fora da personalidade. O instinto sexual, apoderando-se do homem, submete a personalidade eterna à forças passageiras. A sua queda, sua dispersão em uma pluraridade maligna está inscrita antecipadamente na vida das espécies. Nada específico poderia levar a exaltação da pessoa, da eternidade perfeita. A corrente da espécie nasceu da queda e da desintegração do homem. A dissociação eterna do mundo caído e culpável tem como face oposta a reunião artificial dentro da espécie. A espécie humana é uma pseudo-humanidade, que testemunha a dissociação humana. Nela, a própria natureza do homem se encontra escravizada e sufocada. O gênio da espécie é o principal obstáculo para a revelação da humanidade, para a revelação da natureza criadora do homem.  A espécie é uma necessidade maligna, a fonte de escravização do homem e sua desintegração. O vínculo entre o homem e o espírito se transforma em um vínculo específico com a carne e o sangue. Os seres não estão mais unidos pela filiação da Virgem, do eterno feminino no Espírito, mas somente pela engendração, pelo ato sexual. O vínculo da espécie humana, o vínculo sexual, supõe este ato, que os homens se envergonham por ser impuro. As pessoa costumam esconder a fonte de seu vínculo e união com a espécie. A religião da espécie humana terminaria, então, por glorificar e deificar aquilo que os homem escondem e se envergonham. O vínculo da carne e do sangue é o vínculo pelo ato sexual, o vínculo forjado por ele. A grande e a imensa significação de Rosanov reside na sua imposição ao conhecimento religioso esta verdade e tudo que deriva dela.


A liberação da personalidade sobre o ato sexual é a liberação em respeito a espécie, a ruptura do vínculo da espécie em nome do vínculo pelo espírito, a saída do universo maligno do nascimento e morte. A espécie e a personalidade são profundamente antinomicas, seus princípios são mutuamente excludentes.  Tudo que é pessoal no homem é inimigo da sexualidade específica. Só na personalidade, a energia da sexualidade, pode chegar ao seu grau mais elevado; não existe uma personalidade forte sem essa energia, mas sua tendência não deve estar direcionada para a espécie, tem que se opor a queda em uma pluralidade maligna. A personalidade se conhece e se realiza fora do elemento da espécie. Não poderia vencer a morte e adquirir a eternidade no terreno do vínculo da espécie. É preciso nascer uma humanidade nova. A relação entre os pais e os filhos é biológica-zoológica. No que lhe diz respeito, o homem é aceitavelmente semelhante a uma galinha ou cão. Mas a relação dos pais com os filhos pode ser mística. É possível contrariar a ordem da natureza, trocar a espécie pelo espírito. Falo aqui de uma relação ativa entre as gerações e não uma obediência servil ao passado, que nada mais é que uma escravidão genética. O homem se sente culpado pela morte de seus pais e seus antepassados, deve reviver-los. Mas essa reavivação não pode ser feita a não ser mediante ao espírito, fora da espécie. A continuidade místico-ativa entre o homem e seus ancestrais transforma a relação de vínculo de espécie em vínculo espiritual, de vínculo mortal em vínculo imortal. No centro de sua concepção religiosa, Fedorov havia situado esta ideia de reavivamento de seus antepassados mortos. Neste reavivamento (não uma ressurreição) viu a essência do cristianismo. Mas as concepções de Fedorov são afetadas por uma divisão inexplicável. Por uma parte, torna-se corajosamente para frente, exorta o homem a atividade criadora e acredita que tem o pode em suas mãos de reviver os mortos mediante suas forças ativas. Mas, por outro lado, Fedorov segue sendo um conservador, e esta mesma atividade criadora, em vez de direciona-la para o futuro, para uma edificação nova, quer fazê-la servir para restaurar forças antigas. Fedorov é um revolucionário dentro da corrente da espécie, mas caí ainda mais dentro da corrente. No fundo, sua religião é uma religião da espécie. Reforça o vínculo que liga o ser com a espécie, da carne com o sangue, e não com o espírito. Portanto, para ele, os mortos tem que reviver pela espécie e não pelo espírito. E suas visões geniais sobre a espécie tem um sabor específico. Previu genialmente na Santíssima Trindade a forma de toda geração, mas em vez de ver ali somente uma geração essencialmente espiritual, parece não ter entendido vendo apenas a geração da espécie. Na vida da espéice, a morte é inevitável. Somente pelo espírito se pode vencer a morte, ressuscitar os mortos. O primeiro nascimento, na espécie, não é o nascimento autêntico do homem. Apenas o segundo nascimento, o nascimento no espírito, que falavam os místicos, que constituem para o homem o nascimento definitivo. Mas o caminho transitório da espécie teria que ser percorrido pela humanidade.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Wall Street e a Revolução Bolchevique

O cartoon de Minor, datado de 1911, retrata um barbudo, um radiante Karl Marx em pé na Wall Street, com um livro Socialismo debaixo do braço e aceitando os parabéns de famosos financistas como J.P. Morgan, Morgan parceiro de George W Perkins, um presunçoso John D. Rockfeller, John D. Rayan do National City Bank e Teddy Roosevelt - facilmente indentificado pelos seus famoso dentes - em segundo plano. Wall Street está decorada com bandeiras vermelhas. A multidão está aplaudindo e os chapéus sugerem que Karl Marx deve ter sido um companheiro bastante popular no distrito financial de Nova York.

Estava Robert Minor sonhando? Ao contrário, veremos que Minor estava em terra firme ao descrever uma aliança entusiástica entre Wall Street e o Socialismo Marxista. Os personagens do desenho de Minor - Karl Marx (simbolizando os futuros revolucionários Lenin e Trotsky), JP Morgan, John D. Rockefeller - e de fato, o próprio Robert Minor, também são personagens de destaque neste livro.

As contradições sugeridas pelo cartoon de Minor foram varridas para baixo do tapete da história, porque ele não se encaixa no espectro conceitual aceito da esquerda política e direita política. Bolcheviques estão na extremidade esquerda do espectro político e financistas de Wall Street estão na extremidade direita e, portanto, nós ao raciocinar implicitamente, pensamos que os dois grupos não têm nada em comum e qualquer aliança entre os dois é um absurdo. Fatores contrários a este arranjo conceitual puro geralmente são rejeitados como observações bizarras ou erros desafortunados. A história moderna possui uma dualidade embutida e, certamente, muitos fatos desagradáveis tem sido rejeitados e varridos para baixo do tapete.

Por outro lado, pode-se observar que tanto a extrema direita e a extrema esquerda do espectro político convencional são absolutamente coletivista. O nacional socialista (por exemplo, o fascista) e o socialista internacional (por exemplo, o comunista), ambos recomendariam sistemas político-econômicos totalitários que se baseiem poder político irrestrito e coerção individual. Ambos sistemas exigem o controle monopolista da sociedade. Enquanto o controle monopolista das industrias já tinha sido outrora o objetivo de J.P. Morgan e J. D. Rockefeller, no final do século XIX, o "santuário" interno da Wall Street compreendeu que a forma mais eficiente para obter um monopólio incontestável foi "se politizar" e fazer com que a sociedade trabalhe para os monopolistas - sob o nome do bem público e do interesse público. Esta estratégia foi detalhada em 1906 por Frederick C. Howe em sua obra "Confissões de um Monopolista".

Portanto, uma forma alternativa conceitual de agrupar as ideias políticas e sistemas político-econômicos seria classificar o grau de liberdade individual versus o grau de controle político centralizado. De tal ponto de vista, o Welfare-State (Estado de bem-estar social) e o Socialismo estão no mesmo lado final do espectro. Daí vemos que as tentativas de controle monopolista da sociedade pode ter diferentes rótulos, embora possuam características comuns.


Consequentemente, uma barreira para uma melhor compreensão da história recente é a noção que todos os capitalistas são inimigos ferrenhos e inabaláveis de todos os marxistas e socialistas. Essa ideia errônea originou-se com Karl Marx e foi, sem dúvida, útil para seus propósitos. Na verdade, a ideia é um absurdo. Houve uma contínua, embora discreta, aliança entre os capitalistas internacionais e os socialistas revolucionários internacionais - para benefício mútuo. Esta aliança passou despercebida em grande parte porque os historiadores - com algumas notáveis exceções - possuem viés marxista inconsciente e estão, portanto, presos na impossibilidade de pensar que tal aliança exista. O leitor de mente aberta deve ter duas pistas em mente: os capitalistas monopolistas são inimigos ferrenhos dos empresários laissez-faire; e, dadas as deficiências do planejamento central socialista, o estado socialista totalitário é um mercado cativo perfeito para os capitalistas monopolistas, no caso de uma aliança possa ser feita com as figuras poderosas socialistas. Suponha - e é apenas uma hipótese neste momento - e se os capitalistas monopolistas americanos fossem capazes de reduzir a Russia socialista planejada para o status de uma colônia técnica cativa? Esta não seria uma extensão lógica internacionalista do século XX, dos monopólios ferroviários Morgan e os trustes de petróleo Rockefeller, do final do século XIX?

Do livro Wall Street and the Bolshevik Revolution por Anthony C. Sutton 

sábado, 3 de agosto de 2013

A Rússia e o Vírus da Liberdade (Emil Cioran)

A Rússia e o Vírus da Liberdade
Por Emil Cioran em “História e Utopia”

Às vezes penso que todos os países deveriam se parecer com a Suíça, comprazer-se e arruinar-se, como ela, na higiene, na insipidez, na idolatria das leis e no culto ao homem; por outro lado, só me atraem as nações desprovidas de escrúpulo tanto em pensamento quanto em atos, sempre prestes a devoras as outras e a devorar-se a si mesmas, pisoteando os valores contrários à sua ascensão e a seu êxito, insubmissas à sensatez, essa chaga dos velhos povos cansados de si mesmos e de tudo, e como que satisfeitos de cheirar a mofo.


Do mesmo modo, esforço-me em vão para detestar os tiranos, pois não deixo de constatar que constroem a trama da história, e que sem eles não seria possível conceber nem a ideia nem a marcha de um império. Superiormente odiosos, de uma bestialidade inspirada, os tiranos evocam o homem levado a seus extremos, a última exasperação de suas ignomínias e de seus méritos. Ivã, o Terrível, para citar apenas o mais fascinante deles, esgota os escaninhos da psicologia. Tão complexo em sua demência quanto em sua política, fez de seu reino e, até certo ponto, de seu pais um modelo de pesadelo, um protótipo de alucinação viva e inesgotável, mescla de Mongólia e de Bizâncio, acumulando as qualidade e os defeitos de um clã e de um basileu, monstro de cóleras demoníacas e de sórdida melancolia, dividido entre o gosto pelo sangue e o gosto pelo arrependimento, com uma jovialidade enriquecida e coroada por risos de escárnio. Tinha a paixão do crime; todos nós, enquanto existimos, também a experimentamos, seja atentando contra os outros ou contra nós mesmos. Só que, quaisquer que sejam, provêm de nossa incapacidade de matar ou matar-nos. Não estamos sempre de acordo com isso, já que desconhecemos habitualmente o mecanismo íntimo de nossas debilidades. Se os czares, ou os imperadores romanos, me obsedam, é porque essa debilidades, veladas em nós, aparecem neles a descoberto. Eles nos revelam a nós mesmos, encarnam e ilustram nossos segredos. Penso naqueles que, condenados a uma grandiosa degenerescência, perseguiam seus parentes e, por medo de ser amados, os enviavam ao suplício. Por mais poderosos que fossem, eram no entanto infelizes, pois não se saciavam graças ao tremor dos outros. Não são como a projeção do espírito mau que nos habita e nos convence de que o ideal seria criar o vazio em torno de nós? É com tais pensamentos e tais instintos que se forma um império: para isso coopera esse subsolo de nossa consciência onde se escondem nossas taras mais queridas.

Surgida de profundezas insuspeitadas, de um impulso original, a ambição de dominar o mundo só aparece em certos indivíduos e em certas épocas, sem relação direta com a qualidade da nação onde se manifesta: entre Napoleão e Gengis Khan a diferença é menor do que entre o primeiro e qualquer político francês das repúblicas sucessivas. Mas essas profundezas e esse impulso podem secar, esgotar-se.

Carlos Magno, Frederico II de Hohenstaufen, Carlos V, Bonaparte, Hitler tiveram a tentação, cada um à sua maneira, de realizar a ideia do império universal: fracassaram, com mais ou menos felicidade. O Ocidente, onde essa ideia suscita apenas ironia ou mal-estar, vive agora na vergonha de suas conquistas; mas, curiosamente, é no momento mesmo em que ele se volta para si próprio que suas fórmulas triunfam e se propagam; dirigidas contra seu poder e sua supremacia, elas encontram eco fora de suas fronteiras. Ele ganha perdendo-se. Foi assim que a Grécia só triunfou no domínio do espírito quando deixou de ser uma potência e mesmo uma nação; saquearam sua filosofia e suas artes, asseguraram o sucesso às suas produções, mas não assimilaram seus talentos. Da mesma maneira, pode-se roubar tudo do Ocidente, salvo seu gênio. Uma civilização se revela fecunda pela capacidade que tem de incitar outras a imitá-la; se cessa de deslumbrá-las, reduz-se a um conjunto de resíduos e vestígios.

Quando a ideia de império abandonou esta parte do mundo, encontrou seu clima ideal na Rússia, onde, aliás, sempre existiu, singularmente no plano espiritual. Depois da queda de Bizâncio, Moscou se tornou, para a consciência ortodoxa, a terceira Roma, a herdeira do “verdadeiro” Cristianismo, da verdadeira fé. Primeiro despertar messiânico. Para conhecer um segundo, foi preciso esperar nossos dias; mas desta vez, ela deve o despertar à demissão do Ocidente. No século XV, aproveitou um vazio religioso, como aproveita hoje um vazio político. Duas grandes ocasiões de compenetrar-se de suas responsabilidades históricas.

Quando Maomé II sitiou Constantinopla, a cristandade, dividida como sempre e, além disso, feliz por haver perdido a lembrança das cruzadas, absteve-se de intervir. Os sitiados sentiram primeiro uma irritação que, ante a iminência do desastre, tornou-se assombro. Oscilando entre o pânico e uma satisfação secreta, o Papa prometeu auxílio, mas o enviou tarde demais: para que apressar-se por causa de uns “cismáticos”? O cisma entretanto, ia adquirir força em outra parte. Roma preferiu Moscou à Bizâncio? É sempre preferível um inimigo longínquo do que um próxima. Do mesmo modo, em nossos dias, os anglo-saxões preferiram, na Europa, a preponderância Russa à preponderância Alemã. É que a Alemanha estava perto demais.

As pretensões da Rússia de passar da primazia vaga à hegemonia caracterizada têm um fundamento. O que teria ocorrido com o mundo Ocidental se a Rússia não tivesse detido e absorvido a invasão mongólica? Durante mais de dois séculos de humilhação e de servidão ela foi excluída da história, enquanto que no Oeste as nações se davam ao luxo de despedaçar-se mutuamente. Se a Rússia tivesse sido capaz de desenvolver-se sem obstáculos, teria se tornado uma potência de primeira ordem já no princípio da era moderna; o que ela é agora, o teria sido no século XVI ou XVII. E o Ocidente? Talvez hoje fosse ortodoxo, e, em Roma, em lugar da Santa Sé, se pavonearia o Santo Sínodo. Mas os russos podem recuperar o tempo perdido. Se, como tudo parece prever, levam a cabo seus desígnios, é possível que acertem as contas com o Sumo Pontífice. Seja em nome do marxismo ou da ortodoxia os russos estão chamados a arruinar a autoridade e o prestígio da Igreja, cujos objetivos não poderiam tolerar sem abdicar do ponto essencial de sua missão e de seu programa. Sob os czares, identificando-a como um instrumento do Anticristo, rezavam contra ela; hoje em dia, considerada como um agente satânico da Reação, a sobrecarregam de invectivas um pouco mais eficazes do que seus antigos anátemas; logo a destruirão com todo o seu poder, com toda a sua força. E até é possível que a desaparição do último sucessor de São Pedro permaneça, em nosso século, como uma curiosidade, à maneira de um apocalipse frívolo. 

Ao divinizar a história para desacreditar Deus, o Marxismo só conseguiu tornar Deus mais estranho e mais obsedante. Pode-se sufocar tudo no homem, salvo a necessidade de absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e mesmo ao desaparecimento da religião sobre a Terra. E como a essência do povo russo é religiosa, ela inevitavelmente se reerguerá. Razões de ordem histórica contribuirão em grande medida para isso.

Ao adotar a ortodoxia, a Rússia manifestou seu desejo de separar-se do Ocidente; era sua maneira de se definir desde o princípio. Nunca, fora dos meios aristocráticos, deixou-se seduzir pelos missionários católicos, no caso os jesuítas. Um cisma não exprime tanto divergências de doutrina quanto uma controvérsia abstrata de um reflexo nacional. Não foi a questão ridícula do filioque que dividiu as Igrejas: Bizâncio queria sua autonomia total, e com maior razão Moscou. Cismas e heresias são nacionalismos disfarçados. Mas enquanto a Reforma tomou somente o aspecto de uma disputa familiar, de um escândalo no seio do Ocidente, o particularismo Ortodoxo, ao afetar um caráter mais profundo, ia marcar uma divisão no próprio mundo ocidental. Recusando o catolicismo, a Rússia retardava sua evolução, perdia uma ocasião capital de civilizar-se rapidamente, ao mesmo tempo em que ganhava substância e unicidade, pressentindo, sem dúvida, que o Ocidente lamentaria um dia a vantagem que tinha sobre ela.

Quanto mais forte se tornar, mais adquirirá consciência de suas raízes, das quais, de uma certa maneira, o marxismo a afastou; após uma cura forçada de universalismo, ela se russificará de novo em proveito da ortodoxia. Além disso, marcou de tal maneira o marxismo que o tornou eslavo; todo povo de alguma envergadura que adota uma ideologia estranha a suas tradições, a assimila e a adultera, a desvia no sentido de seu destino nacional, a falseia em seu favor ate torná-la indiscernível de seu próprio gênio. Possui uma ótica própria, necessariamente deformadora, um defeito de visão que, longe de desconcertá-lo, o lisonjeia e estimula. As verdades das quais se orgulha, mesmo que desprovidas de valor objetivo, são no entanto vivas, e produzem, como tais, esse gênero de erros que contrapõem a diversidade da paisagem histórica, entendendo-se aí que o historiador, cético por profissão, temperamento e opção, situa-se de início fora da Verdade. 

Enquanto que os povos ocidentais se desgastavam em sua luta pela liberdade e, mais ainda, na liberdade adquirida (nada esgota tanto quanto a posse ou o abuso da liberdade), o povo russo sofria sem desgastar-se dentro da história e como foi eliminado dela, foi obrigado a sofrer os infalíveis sistemas de despotismos que lhe infligiram: existência obscura, vegetativa, que lhe permitiu fortalecer-se, aumentar sua energia, acumular reservas e tirar de sua servidão o máximo de proveito biológico. A ortodoxia ajudou-o a isso, mas a ortodoxia popular, admiravelmente articulada para mantê-lo fora dos acontecimentos, contrariamente à ortodoxia oficial, que orientava o poder para objetivos imperialistas. Duplas face da Igreja ortodoxa: por um lado, trabalhava para o entorpecimento das massas; por outro, auxiliar dos czares, despertava neles a ambição e tornava possível imensas conquistas em nome de uma população passiva. Feliz passividade que assegurou aos russos seu predomínio atual, fruto de seu atraso histórico. Favoráveis ou hostis, todos os empreendimentos da Europa giravam em torno deles, e, ao situá-los no centro de seus interesses e de suas ansiedades, reconhecem seu domínio virtual. Eis aí quase realizado um de seus mais antigos sonhos. Que o tenham alcançado sob os auspícios de uma ideologia de origem estrangeira acrescenta um suplemento paradoxal e atraente ao seu êxito.O que definitivamente importa é que o regime seja russo e que esteja inteiramente dentro das tradições do país. Não é revelador que a Revolução, saída em linha direta das teorias ocidentalistas, tenha se orientado cada vez mais para as ideias dos eslavófilos? De resto, um povo representa não tanto um conjunto de ideias e de teorias como de obsessões: as dos russos, de qualquer parte que sejam, são sempre, senão idênticas ao menos aparentadas. Tchaadaev, que não via nenhum mérito em sua nação, ou Gogol, que a ridicularizou impiedosamente, estão tão ligados a ela quanto Dostoievski. O mais arrebatado dos niilistas, Netchaiev, estava tão obcecado por ela como Pobiedonostsev, violento reacionário procurador do Santo Sínodo. Só esta obsessão importa. O resto é apenas pose.

Para que a Rússia se ajustasse a um regime liberal, teria que debilitar-se consideravelmente, teria que extenuar seu vigor, mais ainda: teria que perder seu caráter específico e desnacionalizar-se em profundidade. Como conseguiria isso com seus recursos interiores intactos e seus mil anos de autocracia? Supondo que o conseguisse por um movimento brusco, se desarticularia de imediato. Muitas nações, para conservar-se e expandir-se, têm necessidade de uma certa dose de terror. A própria França só pôde engajar-se na democracia a partir do momento em que suas forças começaram a diminuir, e quando, não tendo mais como objetivo a hegemonia, preparava-se para se tornar respeitável e sensata. O primeiro Império foi sua última loucura. Depois, aberta à liberdade, teria que assumi-la penosamente, através de numerosas convulsões, contrariamente à Inglaterra que, exemplo desalentador, havia se habituado a ela há muito tempo, sem choques nem perigos, graças ao conformismo e à esclarecida estupidez de seus habitantes (ao que eu saiba, ela não produziu nenhum anarquista).

A longo prazo, o tempo favorece as nações subjugadas que, acumulando forças e ilusões, vivem no futuro, na esperança: mas, em liberdade, o que se pode esperar? Ou no regime que a encarna, feito de dissipação, de quietude e de amolecimento? A democracia maravilha que não tem nada a oferecer, é, ao mesmo tempo, o paraíso e o túmulo de um povo. A vida só tem sentido graças à democracia, mas a democracia carece de vida. Felicidade imediata, desastre iminente, inconsistência de um regime ao qual não se adere se, enredar-se em um dilema torturante.

Melhor provida, mais afortunada, a Rússia não precisa colocar-se tais problemas, já que o poder absoluto é, para ela, como já observava Karamzine, o “fundamento mesmo de seu ser”. Aspirar à liberdade sem jamais alcançá-la, não é essa sua grande superioridade sobre o mundo ocidental o qual, ai de mim!, já conseguiu há muito tempo? Ela não tem, além disso, nenhuma vergonha de seu império; pelo contrário, só pensa em ampliá-lo. Quem melhor que ela apressou-se em se beneficiar das aquisições de outros povos? A obra de Pedro o Grande, e mesmo a da Revolução, participam de um parasitismo genial. Até os horrores do jugo tártaro ela suportou engenhosamente.

Se, ao confinar-se em um isolamento calculado, a Rússia soube imitar o Ocidente, também soube fazer-se admirar e seduzir seus espíritos. Os enciclopedistas se entusiasmaram com as empresas de Pedro e de Catarina, assim como os herdeiros do Século das Luzes – falo dos homens de esquerda – se entusiasmaram com as de Lênin e Stalin. Este fenômeno advoga em favor da Rússia, mas não em favor do Ocidentais que, complicados e devastados na medida de seus desejos, e buscando o “progresso” em outra parte, fora de si mesmos e de suas criações, encontram-se hoje paradoxalmente mais próximos dos personagens de Dostoievski do que os próprios Russos. Ainda convém precisar que eles só evocam o aspecto enfraquecido desses personagens, pois não têm nem suas extravagâncias ferozes nem sua ira viril: são “demônios” débeis por causa de tantos raciocínios e escrúpulos, corroídos por remorsos sutis, por mil interrogações, mártires de dúvida, deslumbrados e aniquilados por suas perplexidades.

Cada civilização acredita que seu modo de viver é o único bom e o único concebível, e que tem o dever de converter o mundo a esse modo de viver, ou infligi-lo a ele; equivale, para ela, a uma soteriologia expressa ou camuflada; trata-se, de um fato, de um imperialismo elegante, que deixa de sê-lo quando é acompanhado pela aventura militar. Não se funda um império unicamente por capricho. Submetemos os outros para que nos imitem, para que tomem por modelo nossas crenças e nossos hábitos; vem depois o imperativo perverso de farelos escravos para contemplar neles o esboço lisonjeiro ou caricatural de si mesmo. Concordo que existe uma hierarquia qualitativa de impérios: os mongóis e os romanos não subjugaram os povos pelas mesmas razões, e suas conquistas não tiveram o mesmo resultado. Entretanto, ambos foram igualmente peritos em fazer parecer o adversário reduzindo-o à sua imagem e semelhança.

Quer tenha provocado ou sofrido, a Rússia jamais se contentou com desgraças medíocres. O mesmo ocorrerá no futuro. Ela se abaterá sobre a Europa por fatalidade física, pelo automatismo de sua massa, por sua vitalidade superabundante e mórbida tão propícia à geração de um império (no qual se materializa sempre a megalomania de uma nação), por essa saúde tão sua, cheia de imprevistos, de horror e de enigmas, destinada ao serviço de uma ideia messiânica, rudimento e prefiguração de conquistas. Quando os eslavófilos sustentavam que a Rússia devia salvar o mundo, empregavam um eufemismo: não se pode salvá-lo sem dominá-lo. No que diz respeito a uma nação, esta encontra seu princípio de vida em si mesma ou em parte alguma: como poderia ser salva por outra? A Rússia sempre pensou – secularizando a linguagem e a concepção dos eslavófilos – que é sua incumbência assegurar a salvação do mundo, a do Ocidente em primeiro lugar, com respeito ao qual, aliás, nunca experimentou um sentimento claro, mas sim atração e repulsa, ciúme (mistura de culto secreto e de aversão ostensiva) inspirado pelo espetáculo de uma podridão tão invejável quanto perigosa, cujo contato tem que buscar, mas mais ainda evitar.

Recusando-se a se definir e a aceitar limites, cultivando o equívoco em política, em moral e, o que é mais grave, em geografia, sem nenhuma das ingenuidades inerentes aos “civilizados”, que se tornaram opacos ao real pelos excessos de uma tradição racionalista, a Rússia, sutil tanto por intuição como pela experiência secular da dissimulação, talvez seja uma criança historicamente falando, mas de maneira alguma o é psicologicamente. Daí sua complexidade de adulto com instintos jovens e velhos segredos, daí também as contradições, levadas até o grotesco, de suas atitudes. Quando resolve aprofundar (e consegue isso sem esforço), desfigura o menor fato, a mínima ideia. Dir-se-ia que tem a mania da gesticulação monumental. Tudo é vertiginoso, horrível e inapreensível na história de suas ideias, revolucionárias ou de qualquer índole. É ainda um incorrigível entusiasta das utopias; ora a utopia é o grotesco cor-de-rosa, a necessidade de associar a felicidade, logo o inverossímil, ao devir, e de levar uma visão otimista, aérea, até o limite em que se una a seu ponto de partida: o cinismo que pretendia combater. Em suma, um conto de fadas monstruoso.

Que a Rússia seja capaz de realizar o seu sonho de um império universal, é uma eventualidade, mas não uma certeza; em compensação, é óbvio que pode conquistar e anexar toda a Europa, e mesmo que o fará, nem que seja para tranquilizar o resto do mundo... Ela se satisfaz com tão pouco! Onde encontrar prova mais convincente de modéstia, de moderação? Um pedacinho de continente! Enquanto espera, ela o contempla com o mesmo olho com que os mongóis contemplavam a China e os turcos Bizâncio, com a diferença, no entanto, que já assimilou um bom número de valores ocidentais, enquanto que as hordas tártaras e otomanas não tinha sobre sua futura presa senão uma superioridade material. É sem dúvida lamentável que a Rússia não tenha passado pelo Renascimento: todas as suas desigualdades vêm daí. Mas com sua capacidade para queimar etapas será, em um século , ou menos, tão refinada e vulnerável como o é o Ocidente, que atingiu um nível de civilização que só se ultrapassa decaindo. Ambição suprema da história: registar as variações desse nível. O da Rússia, inferior ao da Europa, só pode elevar-se, e ela com ele: isso quer dizer que está condenada Pa ascensão. No entanto, de tanto subir, não se arrisca – desenfreada que está – a perder o equilíbrio, explodir e arruinar-se? Com suas almas modeladas nas seitas e nas estepes, dá uma singular impressão de espaço e de clausura, de imensidão e de sufocamento, de Norte em suma, mas de um Norte especial, irredutível a nossas análises marcado por um sono e por uma esperança que fazem tremer, por ma noite rica em explosões, por uma aurora da qual se guardará lembrança. Nada de transparência e de gratuidade mediterrânea nesses Hiperbóreos cujo passado e presente parecem pertencera uma duração distinta da nossa. Ante a fragilidade e o renome do Ocidente, eles sentem um mal-estar, consequência de seu despertar tardio e de seu vigor ocioso: é o complexo de inferioridade do forte... Eles o vencerão, o superarão. O único ponto luminoso em nosso futuro é sua nostalgia, secreta e crispada, por um mundo delicado, de encantos dissolventes. Se o atingirem (tal parece o sentido evidente de seu destino), se civilizarão à custa de seus instintos, e, perspectiva jubilosa, conhecerão também o vírus da liberdade.

Quanto mais um império se humaniza, mais se desenvolvem nele as contradições que o farão perecer. De atitudes heteróclitas, de estrutura heterogênea (ao contrário de uma nação, realidade orgânica), o império necessita para subsistir do princípio coesivo do terror. Abre-se à tolerância? Ela destruirá sua unidade e sua força, e atuará sobre ele como um veneno mortal que ele próprio teria administrado. É que a tolerância não é apenas o pseudônimo da liberdade, mas também o do espírito; e o espírito, mais nefasto ainda para os impérios que para os indivíduos, os corrói, compromete sua solidez e acelera seu desmoronamento. Assim, ele é o instrumento que uma providência irônica utiliza para golpeá-los.

Se nos divertíssemos, apesar do arbitrário da tentativa, estabelecendo na Europa zonas de vitalidade, comprovaríamos que, quanto mais nos aproximamos do Leste, mais se acentua o instinto, e que ele decresce à medida que nos dirigimos para o Oeste. Os russos não têm a exclusividade do instinto, embora outras nações que o possuem pertençam, em graus diversos, à esfera da influência soviética. Essa nações não disseram ainda sua última palavra; algumas, como a Polônia ou a Hungria, tiveram na história um papel nada desprezível; outras como a Iuguslávia, a Bulgária e a Romênia, tendo vivido na sombra, só conheceram sobressaltos sem futuro. Mas qualquer que tenha sido seu passado, e independentemente de seu nível de civilização, todas dispõem de um fundo biológico que em vão buscaríamos no Ocidente. Maltratadas, deserdadas, precipitadas em um martírio anônimo, dilaceradas entre o desamparo e a sedição, conhecerão talvez no futuro uma compensação para tantos infortúnios, humilhações e mesmo covardias. O grau de instinto não se avalia do exterior; para ,medir sua intensidade, é preciso haver percorrido ou adivinhado esses países, os únicos no mundo a crer ainda, em sua bela cegueira, nos destinos do Ocidente. Imaginemos agora nosso continente incorporado ao império russo, imaginemos depois este império, demasiado vasto, debilitando-se e desagregando-se, tendo como corolário a emancipação dos povos: quais dentre eles tomarão a dianteira e trarão à Europa esse incremento de impaciência e de força sem o qual uma irremediável paralisia a espreita? Não saberia duvidar: são os países que acabo de mencionar . Dada a reputação que têm, minha afirmação parecerá risível. A Europa Central ainda vai, me dirão, mas os Balcãs? Não quero defendê-los, mas também não quero ocultar seus méritos. Esse gosto pela devastação, pela desordem interior, por um universo semelhante a um bordel em chamas, essa perspectiva sardônica sobre cataclismas fracassados ou iminentes, essa aspereza, esse ócio de insones ou de assassinos, não são uma rica e pesada herança que beneficia seus possuidores?ão uma rica e pesada herança que beneficia seus possuidores? E como sofrem de uma “alma”, provam por isso mesmo que conservam um resíduo de selvageria. Insolentes e desolados, gostariam de chafurdar na glória, cujo apetite é inseparável da vontade de afirmação e de ruína, da propensão para um crepúsculo rápido. Se suas palavras são virulentas, seus sotaques inumanos e às vezes ignóbeis, é porque mil razões os impelem a berrar mais alto do que esses civilizados que esgotaram seus gritos. Únicos “primitivos” na Europa, darão a ela talvez um novo impulso; impulso que a Europa considerará sua última humilhação. E, no entanto, se o Sudeste só fosse horror, por que, quando o deixamos e nos encaminhamos para esta parte do mundo, sentimos uma espécie de queda – admirável, é verdade – no vazio?

A vida profunda, a existência secreta dos povos que, tendo a imensa vantagem de haver sido rejeitados pela história, puderam capitalizar sonhos, essa existência escondida, destinada às desgraças de uma ressurreição, começa para além de Viena, extremidade geográfica do enfraquecimento ocidental. A Áustria, cuja deterioração quase atinge o limite do símbolo ou do cômico, prefigura o destino da Alemanha. Não há mais desvios de envergadura entre os germanos, nem mais missão nem frenesi, nada mais que os torne atraentes ou odiosos! Bárbaros predestinados, destruíram o Império romano para que a Europa pudesse nascer; eles a fizeram, cabia a eles desafazê-la; cambaleando junto com eles, ela sofre a consequência de seu esgotamento. O dinamismo que ainda lhes resta já não possui o que esconde ou justifica toda energia. Condenados à insignificância, helvécios em germe, afastados para sempre de seu habitual exagero, reduzidos a ruminar suas virtudes degradadas e seus vícios diminuídos, tendo como única esperança o recurso de ser uma tribo qualquer, os germanos são indignos do temor que ainda possam inspirar: crer neles ou temê-los é fazer-lhes uma honra que não merecem de modo algum. Seu fracasso foi providencial para a Rússia. Se tivessem tido êxito, a Rússia teria sido afastado de seus propósitos por mais um século pelo menos. Mas não podiam triunfar, pois atingiram o ápice de seu poderio material no momento em que não tinham mais nada a nos propor, quando eram fortes e vazios. Havia chegado a hora dos outros. “Não são os eslavos antigos germanos em relação ao mundo que desaparece?”, perguntava-se, no meio do século passado, Herzen, o mais clarividente e o mais dilacerado dos liberais russos, espírito de interrogações proféticas, enojado de seu país, decepcionado com o Ocidente, tão inapto para instalar-se em uma pátria como em um problema, embora gostasse de especular sobre a vida dos povos, matéria vaga e inesgotável, passatempo de emigrado. Os povos, entretanto, segundo outro russo, Soloviev, não são o que imaginam ser, mas o que Deus pensa deles na Eternidade.Ignoro as opiniões de Deus sobre os germanos e eslavos; sei contudo que Ele favoreceu estes últimos, e que é tão inútil felicitá-Lo como condená-Lo.

Hoje está respondida a pergunta que tantos russos se colocavam, no século passado, a respeito de seu país: “Esse colosso foi criado para nada?”; O colosso tem um sentido, e que sentido! Um mapa ideológico revelaria que ele se estende para além de seus limites, que estabelece suas fronteiras onde quer, onde lhe convém, que sua presença evoca, por toda parte, menos a ideia de uma crise que de uma epidemia, salutar às vezes, frequentemente nociva, fulgurante sempre.

O Império romano foi obra de uma cidade, a Inglaterra fundou o seu para remediar a exiguidade de uma ilha; a Alemanha tentou erigir um para não sufocar em um território superpovoado. Fenômeno sem paralelo, a Rússia ia justificar seus desígnios de expansão em nome de seu imenso espaço. “Já que tenho o suficiente, por que não ter demasiado?”, esse é o paradoxo implícito em suas proclamações e em seus silêncios. Ao transformar o infinito em categoria política, ia transtornar o conceito clássico e os padrões tradicionais do imperialismo, e suscitar através do mundo uma esperança grande demais para não degenerar em confusão.

Com seus dez séculos de terrores, de trevas e de promessas, ela estava mais apta do que qualquer outra nação para ajustar-se ao aspecto noturno do momento histórico que atravessamos. O apocalipse lhe convém perfeitamente, está habituada a ele e o aprecia, exercita-se nele hoje mais do que nunca, já que mudou visivelmente de ritmo. “Para onde te apressas dessa maneira, ó Rússia?”, perguntava-se já Gogol, que tinha percebido o frenesi que se escondia sob sua aparente imobilidade. Hoje sabemos para onde ela corre, sabemos sobretudo que, à semelhança das nações com destino imperial, está mais impaciente para resolver os problemas alheios do que os seus próprios. Isso quer dizer que nossa carreira no tempo depende do que ela decidirá ou levará a cabo: ela tem nosso futuro em suas mãos... Felizmente para nós, o tempo não esgota nossa substância. O indestrutível, o alhures, é concebível: em nós? Fora de nós? Como sabê-lo? No ponto em que as coisas se encontram, só merecem interesse as questões de estratégia e de metafísica, aquelas que nos fixam na história e as que nos afastam dela: a atualidade e o absoluto, os jornais e os Evangelhos... Vislumbro o dia em que só leremos telegramas e orações. Fato notável: quanto mais o imediato nos absorve, mais sentimos necessidade de tomar a direção oposta, de forma que vivemos, no interior do mesmo instante, dentro e fora do mundo. Da mesma maneira, ante o desfile dos impérios, só nos resta buscar um meio termo entre o ricto e a serenidade.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Entrevista para do Documentário "O Segundo Batismo da Rus"

Vladimir Putin deu uma entrevista para os criadores do documentário O Segundo Batismo da Rus, que foi exibido no canal de televisão, Rossia, em 22 de julho.


O Segundo Batismo da Rus é um documentário de longa-metragem sobre o ressurgimento da Igreja Ortodoxa Russa na Rússia nos últimos 25 anos. O filme dá uma apresentação detalhada das principais etapas da reconstrução da igreja na Rússia a partir de 1988, quando o país marcou o 1000 º aniversário do Batismo da Rus, até hoje.


                                                                        ***

Pergunta: Nós ainda lembramos os momentos em que você poderia estragar suas perspectivas de carreira se você tivesse seu filho batizado e tenha sido descoberto. Você poderia enfrentar problemas na universidade também, sem mencionar a situação em 1920-30s, quando o clero e leigos igualmente enfrentaram a repressão. Quais são as lições que você acha que devemos aprender com os anos de perseguição contra a igreja?


Vladimir Putin: Eu senti os efeitos desses tempos também. Minha mãe me batizou e manteve o segredo de meu pai, que era um membro do partido comunista. Ele não era um oficial do partido de qualquer espécie, apenas trabalhava em uma fábrica, mas ele era uma espécie de organizador popular em sua oficina de fábrica. Enfim, minha mãe, supostamente sem deixar que ele descobrisse, me batizou, fez isso em segredo, e por isso a minha família também sentiu as limitações daqueles tempos.

Eu acho que a lição a ser aprendida é bastante simples. Em todos os momentos mais críticos da nossa história, o nosso povo olha para as suas raízes, aos seus fundamentos morais e valores religiosos. Todos nós sabemos que quando a Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial) começou, o primeiro a anunciar o início da guerra ao povo soviético foi Molotov, que se dirigiu à nação usando a palavra "cidadãos". Mas quando Stalin, em seguida, dirigiu-se à nação, apesar de sua linha-dura, se não brutal postura contra a igreja, ele escolheu uma forma completamente diferente para endereçar-se: "Irmãos e irmãs". Houve um tremendo significado nessa escolha de endereço. Estas não eram apenas palavras, mas um apelo aos corações e almas das pessoas, para a sua história e as suas raízes, de modo a trazer para casa a grandiosidade e a tragédia do desenrolar dos acontecimentos, e para despertar as pessoas, mobilizá-los para aumentar  o sentimento de defesa para sua terra natal. Foi sempre assim, quando o país enfrentou dificuldades e sofrimentos, mesmo durante os anos do estado ateísta, pois o povo russo não conseguia sobreviver sem esses fundamentos morais.

Pergunta: Os líderes da Igreja e as pessoas envolvidas na vida da igreja chamam os 25 anos que se passaram desde que foi celebrado o 1000 º aniversário do Batismo da Rus de um "Segundo batismo da Rus". As relações entre a Igreja e o Estado realmente passaram por mudanças ao longo deste tempo e assumiu uma nova substância. Você acha que é justo falar de um "Segundo Batismo da Rus, e você observa evidencias que faria essas palavras justificadas?


Vladimir Putin: Eu não quero discutir com aqueles que falam de um Segundo Batismo da Rus, mas eu, pessoalmente, não diria que este é o caminho mais adequado para descrever o que aconteceu durante este tempo. Eu diria que, em vez disso, temos visto um retorno às nossas raízes, e isso levanta a questão, claro, por que isso aconteceu. Nossa geração se lembra do código moral dos construtores do comunismo. Essencialmente, era apenas uma versão simplificada dos princípios religiosos partilhados por praticamente todas as religiões tradicionais do mundo.

Mas quando esse mesmo código moral simplificado desapareceu, as pessoas encontraram-se presos em um imenso vácuo moral e espiritual, e que a única maneira de preenchê-lo era retornar aos autênticos e verdadeiros valores. Esses valores foram, inevitavelmente, de natureza religiosa.

Não há, portanto, nada de surpreendente no fato de que as pessoas começaram a procurar  suas raízes, os valores religiosos e espirituais. Este foi um processo de renovação natural para o povo russo. Eles fizeram isso de forma espontânea, sem estímulo de fora, das autoridades ou da igreja. A igreja estava incapaz de incitar alguém naquele momento. Ela estava em um estado lamentável.  No lado material, as autoridades soviéticas tinham roubado mais profundamente do que roubou algum outro, no lado organizacional e espiritual também estavam em uma situação muito seria. Foi um movimento espontâneo das próprias pessoas voltarem às suas raízes.


Pergunta: Senhor Presidente reuniu-se com Metropolitano Lavr, o chefe da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia. Essa foi sua iniciativa ou foi um pedido dele?  O que provocou essa reunião, e esse foi um momento decisivo para reunir a igreja?


Vladimir Putin: Foi mais minha iniciativa, realmente, mas para minha surpresa, a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia e o próprio Metropolitano Lavr respondeu com apoio e compreensão. Eu digo que foi para minha surpresa, porque as relações entre a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia e as autoridades soviéticas sempre tinha sido, no mínimo, tensas, por razões óbvias, e eu estava um pouco surpreso no momento em quão prontos eles estavam a responder ao minha iniciativa, mas após a primeira reunião, em Nova York, se bem me lembro, eu imediatamente entendi por que eles estavam respondendo desta forma.

Eu percebi que os Primazes da Igreja Ortodoxa Russa fora da Russia eram o verdadeiro povo russo. Eles podem viver longe de sua terra natal, mas eles mantêm os seus interesses em seus corações. Eles perceberam que havia chegado a hora de reunir toda a nação russa, para juntar todos os povos da Rússia, todos os diversos grupos étnicos que são unidos pela fé ortodoxa. Como você deve saber, os passaportes emitidos durante o Império Russo não classificava as pessoas por grupo étnico, mas pelo sua fé religiosa.

Os Primazes da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia,  pessoas que conheceram muitas provações e tribulações da vida e que enfrentou grandes desafios e dificuldades, obviamente, chegaram à conclusão que chegara o momento de se reunir. A Igreja Ortodoxa Russa desempenhou um papel único no nosso povo e na história do país, afinal. Essencialmente, foi depois de adotar o cristianismo como uma religião ortodoxa que a nação russa começou a emergir como uma nação unificada e começou a construir um Estado russo centralizado.

Nos fundamentos da nação russa e o estado russo centralizado são os mesmos valores espirituais que unem toda a parte da Europa agora partilhada pela Rússia, Ucrânia e Belarus. Este é o nosso espaço espiritual, moral e de valores comuns, e isso desempenha um papel muito importante na união das pessoas. Naturalmente, a Igreja Ortodoxa Russa por si e a Igreja Ortodoxa Russa fora da  Rússia sentem  isso em seus corações e começaram a aproximar-se uns dos outros. A tarefa das autoridades aqui foi simplesmente apoiar este processo.


Pergunta: Durante sua conversa com o Metropolita Lavr você disse: "Eu quero deixar muito firme e claro que as autoridades jamais interferirão nos assuntos da igreja." Você foi muito convincente. Você mencionou o papel unificador da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia. Após o colapso da União Soviética e com o surgimento de novos países na Ásia Central e Oriental, no Cazaquistão, a Igreja Ortodoxa tem um papel ainda mais unificadora hoje, de reunir as pessoas em toda a área pós-soviética.


Vladimir Putin: Existem diversas áreas onde a Igreja e o Estado pode trabalhar junto. Acima de tudo, isso inclui ensinar nossos jovens valores morais e espirituais, apoiando a família como uma instituição, criar os filhos, apoiando aqueles que necessitam de auxílio especial  e assistência. Eu não estou falando apenas sobre os doentes ou pessoas com deficiência, mas também de pessoas nas prisões, por exemplo. Eles precisam de apoio moral também. A igreja é um parceiro natural para as autoridades do Estado em tais áreas.


A igreja também tem outro papel muito importante a desempenhar dentro da própria Rússia - a criação de condições para a paz e harmonia inter-religiosa e inter-étnica. A este respeito à importância da igreja vai além das dimensões da Federação Russa de hoje, porque também nos ajuda a construir um bom relacionamento com as pessoas em outros países, sobretudo na área pós-soviética, é claro. Eu já mencionei as raízes morais e espirituais históricas comuns que partilhamos com os povos da Ucrânia e da Bielorrússia. Essencialmente, temos uma igreja comum, uma fonte espiritual comum e um destino comum. Quanto aos outros países da região pós-soviética e os seus povos, a Igreja pode desempenhar um papel muito construtivo e positivo também.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte I

Niilismo tem se mostrado na cultura ocidental por muitos séculos, mas nenhum século esteve tão permeado pelo niilismo como o nosso. Com a percepção, Alexander Solzhenitsyn, recentemente observou que a democracia ocidental está no seu “último declínio”,  que já não mais possuem fundações éticas e consistem apenas de “partidos e classes comprometidos em um conflito de interesses, apenas interesses, nada de elevado”. A observação do Solzhenitsyn dificilmente pode ser deixada de lado. Suas palavras descreve o niilismo que é mais proeminente na democracia ocidental. Niilismo chega tão longe quanto o Eclesiásticos no nosso Velho Testamento e o Nargarjuna no Buddismo. Talvez nenhum século existiu sem ele, mas em nosso século este se tornou persuasivo, encontrando expressão não só num avalanche de literatura mas virtualmente em cada fase de nossa existência. O holocausto nazista, guerra do Vietnã, a “morte de Deus”, a queda de Watergate, todo estão no mesmo escopo. É tão persuasivo que merece atenção especialmente dos historiadores da Igreja.

Depois de definir niilismo e fazer uma alusão ao relativismo, subjetivismo, valores destruídos, e preocupação com a morte que convergiu em nossos tempos, vamos olhar para algumas expressões niilistas de nosso século e tentar desenhar algumas conclusões. Isto, é claro, só cobre parte de  um grande tópico.

Definir niilismo é difícil. A dificuldade das raízes parece ser um paradoxo ou uma inconsistência que, um verdadeiro niilista provavelmente não teria nenhuma base para existir; ainda assim os niilistas (ou niilistas incompletos) existem e o niilismo é expressado. O termo comumente conota a violência anárquica associada com os revolucionários da Rússia durante o reinado do Czar Alexander II. O niilismo se manifestou então como um repúdio ao cenário político-religioso. Dimitri Pisarev e seus seguidores em 1850 deram início ao uso do terrorismo, assassinatos, a destruiçãopara quebrar com a tirania do estado, igreja e outros justificadores do status quo. Eles rejeitavam os valores tradicionais da família, religião, e autoridades políticas; eles afirmavam que as condições da estrutura social era tão ruim que a destruição era algo bom, independente de qualquer resultado de suas ações. O termo “nihilism” – do Latim nihil: “nada” – foi popularizado por Ivan Turgenev em sua obra Pais e Filhos (1862). Estes niilistas perceberam as bases de um estabilishment opressor, e em seu desespero eles se deram com uma hipocrisia impregnada. Sergey Nechayev (1847-1881), que morreu pela fome, em uma das prisões do Czar, era um típico destes niilistas. Ele declarou: “Nossa tarefa é difícil, total, universal, e a mais impiedosa destruição”.

Mas as dimensões do niilismo são muito maiores do que a anarquia e a destruição dos tempos de Pisarev e Nechayev. A violência anárquica ainda faz parte do niilismo, este também se tornou a ser um temperamento de desespero, um senso de vazio, a falta de significados, a perda da transcendência, um sentimento que a vida termina no vazio da morte, que as normas morais não podem ser validadas, que relativismo e subjetivismo prestam a todos as afirmações da verdade suspeitas e insustentáveis. Neste sentido, o niilismo é uma atitude que sustenta a ideia que crenças tradicionais e valores não estão fundamentadas numa verdade absoluta ou uma verdade objetiva, sendo assim, não há uma base sólida para fazer distinções entre o bem e o mal.  Se este é o caso, Dostoiévski ponderou e Nietzsche afirmou, então tudo é permitido; poder se torna primário, nascendo assim uma violência de múltiplas formas (libertinagem, engrandecimento, o vandalismo, a tirania, a exploração, o hedonismo a todos os custos). Essa violência é geralmente acompanhada por uma sensação de que a vida está correndo para o nada da morte, e é preciso conseguir tudo que for possível, agora. No entanto, se a morte é o grande nada que no fim nega tudo e engole todos nós, e se não há nenhum centro final para a organização e a continuidade da existência humana, por que se preocupar com alguma coisa? A indiferença torna-se então uma importante expressão do niilismo em formas tais como o tédio, o vazio, falta de propósito, desespero, resignação, a futilidade e suicídio. No niilismo do século XX, a violência e a indiferença são curiosamente misturadas e relacionados. O aspecto violento é cada vez mais evidente no terrorismo, crimes graves contra as pessoas, contra os bens e a tirania. A indiferença é cada vez mais evidente no sentido de alargamento das lacunas da credibilidade sobre a política, a perda de valores morais e o suicídio.


Muitos componentes complexos convergiram para produzir o niilismo do nosso tempo. Um componente geral foi a mudança da ideia de um outro mundo para a preocupação mundana. O realismo e nominalismo medieval eram parte deste processo de mudança. Então ocorreram a ascensão da ciência e do desenvolvimento do nacionalismo. Nos últimos 500 anos a soberania do indivíduo surgiu para desafiar a soberania de ambos Igreja e Estado. Martin Luther favoreceu o processo por romper a autoridade do catolicismo romano e postular homem individual com a Bíblia na mão, como o símbolo do protestantismo. Em Worms, em 1521 a ousadia de Lutero estabeleceu a Bíblia e consciência como as autoridades para os protestantes. Isto introduziu na própria base do protestantismo e da cultura moderna, o elemento instável da autoridade individual e do subjetivismo. Embora Lutero mais tarde tenha recuado, sua postura fez com que a consciência subjetiva de cada pessoa, o guia fundamental para a interpretação da Bíblia e estabeleceu a autoridade individual, defronte a igreja e o estado. Os católicos romanos advertiram Lutero contra a anarquia implícita, mas o golpe já havia sido deferido. A multiplicidade de seitas e grupos que, desde então, surgiram, cada um inflexivelmente interpretando a Bíblia em sua própria maneira, foi um resultado que Lutero não previu.


Fundações foram rachadas, eventos relacionados seguiram. A ciência tornou-se tão envolvida  que se tornou as "leis" da natureza e veio à tona a possibilidade de que o homem poderia controlar tudo, a providência ativa de Deus tão proeminente nos séculos passados ​​foi deslocada por um deísmo que removeu Deus da máquina-mundana. Os filósofos franceses com a afirmação de que a opinião do "homem comum" tinha o mesmo direito de dizer o que é bom teria que ser reconhecido como o mesmo de uma aristocracia centrada na igreja e estado. E “A Crítica da Razão Pura” do Kant limitou o conhecimento para este mundo. Kant argumenta que o conhecimento é inferencial e que as impressões dos objetos são recebidos e organizados por doze categorias e formas de espaço e tempo, tal conhecimento é verificável e, portanto, credível na base das provas repetidas de ciência. Ao limitar o conhecimento do mundo aos cinco sentidos, Kant deu a ciência uma base filosófica necessária. Mas infelizmente o imperativo categórico de Kant e seus postulados não fizeram o mesmo para valores e religião,  pois não foram cientificamente verificáveis. A razão exige o imperativo categórico, disse Kant, e é necessário para que a vida faça algum sentido em tudo. Razão exige também os postulados da liberdade, imortalidade e Deus como essencial para a conclusão da ordem racional, caso contrário, o universo é totalmente caótico e não-racional. No entanto, as exigências da razão e da realidade não são necessariamente as mesmas, a própria razão é finita, relativista e subjetiva.

Dois dos seguidores mais eminentes de Kant usou a razão para tirar conclusões radicalmente diferentes sobre a natureza da realidade - o númeno. Arthur Schopenhauer, influenciado pelo pensamento oriental, concebeu a realidade última (“coisa-em-si” do Kant) como um abrangente não-racional, uma Vontade irracional. Todos os fenômenos são ilusões, disse ele, nada exceto a vontade realmente existe. Fenômenos são objetivações cegas da Vontade; os nossos seres são ilusões, e seriamos bem aconselhados a parar de lutar, deixar de ser, e tornar-se novamente um só com a  Vontade indiscriminada. Toda a bolha de existência e  todas as atividades humanas são miragens.


G. W. F. Hegel, por outro lado, influenciado pelo idealismo grego, concebeu a natureza da realidade - o númeno - como razão absoluta no um processo cósmico do vir-a-ser. Usando um esquema da tese, antítese e síntese, Hegel traçou este vir-a-ser através da história. Karl Marx rejeitou esta razão absoluta, em seu materialismo dialético e afirmou que a sociedade sem classes é o vir-a-ser, e poderá ser ajudada pela revolução. Schopenhauer, Hegel e Marx são exemplos do relativismo e subjetivismo possível graças a Kant.
Até a metade do século XIX, o relativismo e o subjetivismo tinha corroído valores tradicionais e ciência tinha feitos progressos explicando os mistérios e milagres deste mundo (especialmente com a Origem das Espécies de Darwin, 1859) que Friedrich Nietzsche corajosamente celebrou a morte de Deus e "expos" os valores antigos de amor, bondade e humildade como nada mais do que substitutos impostos pela evolução por pessoas fracas conduzidas em conjunto para ganhar força. Nietzsche clamou a entronização da poder nas relações humanas, para o abandono de todos os elementos sufocantes na sociedade e para que a vontade de poder pudesse ser realizada na busca impiedosa da disciplina do Super Homem. Nietzsche espalhou o envoltório de poder - sem apresentação de um padrão definitivo para o seu uso - sobre a vida moderna. Dostoiévski lutou contra a ideia da inexistência de Deus e declarou: "Se Deus não existe, então tudo é permitido". Isto implicava que todo mundo é permitido a realizar seus próprios desejos, por qualquer meio, desde que consiga se safar. Uma série de anarco-psicólogos contribuíram a este desenvolvimento no século XIX.


O século XX começou com esta pensamento, condição epistemológica roedora como um câncer dentro Cultura ocidental. Foi agravado por uma consciência esmagadora da morte e os efeitos desumanizadoras da mega-tecnocracia. Com a perda do sobrenatural, um sentimento avassalador do absurdo rendeu um vazio e por fim a morte veio à tona. Isso deu origem a um sentimento de falta de forma, um abismo do nada no coração da consciência humana. Para o “Grande Inquisidor” de Dostoiévski, esta é a "terrível verdade" que é escondida das pessoas que “além do túmulo encontrarão nada além da morte". Entre aqueles que se atreveram a contemplar sua própria morte aparentemente pouquíssimos escaparam sem uma sensação de vazio absoluto. "Angústia antes do Nada e da Morte parece ser um fenômeno especificamente moderno", escreve Mircea Eliade. Em outras culturas, "A morte é a Grande Iniciação. Mas no mundo moderno Morte é esvaziada de seu significado religioso; E por isso é assimilada ao Nada, e antes Nada homem moderno está paralisado." A bomba nuclear e duas guerras enormes nos fizeram consciente não só da morte, mas também sobre a possível extinção da humanidade. Ernest Becker, sociólogo, está entre aqueles que defendem que a negação da morte, ao invés da repressão do sexo, é o problema subjacente da nossa cultura. A desumanização da mega-tecnocracia tem agravado ainda mais o problema da morte, fazendo com que as pessoas se sintam insignificantes e impotentes. Em sua obra “O Castelo”,  Kafka, simboliza esta desumanização. Este é o tipo do ethos niilista que rapidamente tem se espalhado na Cultura Ocidental. É como se as palavras de Nietzsche tivessem encontrado preenchimento: 

"Será que, nós, que matamos Deus, não estamos mergulhando continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe cima, baixo ou esquerda? Será que estamos desviando de um nada infinito?"

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96

sábado, 29 de junho de 2013

Cidade Zero / Gorod Zero (URSS)

Gostaria de utilizar o blog para recomendações de filmes. Entretanto me limitarei a indicar apenas filmes que são poucos divulgados por cá. Divulgar essas pérolas é um dever. 





Sinopse: Aleksei Varakin é um engenheiro moscovita que viaja para uma cidade interiorana com a missão de especificar para uma indústria local mudanças práticas nos aparelhos de ar condicionado que fabrica. Porém nesta cidade todos agem de maneira estranha e ele acaba envolvido em um misterioso caso de suicídio. Por mais que tente, Varakin não consegue deixar a cidade, sendo obrigado a passar por diversas situações absurdas.








Comentários:

(1) Este filme é uma fábula de nossa vida - nós eventualmente - cada um de nós - com alguams raras exceções, chegamos a lugar desconhecido e ficamos lá preso para nunca - muito de nós, nos libertar. E o resto da nossa vida passamos a observar passivamente, sem nenhuma incredulidade, a idiotice absurda que nos rodeia - abandonando qualquer esperança de tomar um trem para Moscou. Este filme é Cherry Orchard de Checkov recontada em palavras de hoje, com memórias absurdas da história do século XX. A simples explicação ocidental para o sistema soviético como sendo "opressivo regime comunista" não tem nada a ver com a realidade - a opressão não estava vindo do KGB, mas sim, no idiotismo desesperado, o status quo, a estagnação absoluta. Um experimento de ficção científica, a única palavra que descreve a vida na união soviética é "tédio". Nos sabemos que privados de entradas sensoriais, o nosso cérebro começa a gerar ilusões. É isto que você vê neste "filme", escrevo entre aspas, pois pra mim não é um filme de ficção, é um documentário.



(2) Um pequeno tesouro desconhecido do cinema soviético, baseado na história de um homem que é enviado para uma cidade onde nada parece real. Sem dúvidas, uma festa para os amantes do verdadeiro cinema, mesmo um tanto lento às vezes, é intrigante, uma peça minimalista de trabalho. De fato, esta lentidão, somada à falta de música e de um diálogo em partes, torna o filme singular, de uma forma estranha. O filme inteiro parece um sonho, com uma atmosfera Eraserheadeana, que dissimuladamente leva você se sentir como se tivesse assistindo o sonho de alguém na tela.




Fonte

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Rasputine e a seita dos Khlystis (Julius Evola)




Rasputine e a seita dos Khlystis



Poderá apresentar um certo interesse, relativamente àquilo que foi dito na última secção deste capítulo, mencionar fatos orgíacos nos quais figuram, curiosamente reunidos, fatores variados da transcendência erótica que examinamos ao tratar de certas formas liminais do amor sexual profano. Trata-se de ritos praticados pela seita russa dos Khlystis, ritos guardados sob o mais rigoroso sigilo. Os preceitos e as idéias da seita não deveriam ser revelados a nenhum profano, nem mesmo aos próprios pais; prescrevia-se que os adeptos se não afastassem exteriormente da ortodoxia, que se considerava, todavia, corno uma «falsa crença».



Convém, antes de mais nada, declarar que os fatos a que aludimos fazem parte de um conjunto particularmente bastardo e híbrido. Os ritos dos Khlystis perpetuaram-se em formas degradadas, grosseiras e populares, resíduos de cerimônias orgíacas précristãs que perderam o seu fundo original e essencial, para, paradoxalmente, absorver alguns motivos da nova fé. A premissa dogmática da seita é que o Homem é potencialmente Deus. Ele pode tomar consciência deste fato e, assim, sê-lo de fato, realizando, trata-se de um homem, natureza de Cristo (daí o nome da seita), se é mulher a da Virgem, quando através do rito secreto ele ou ela provocam a descida transfigurante do Espírito Santo sobre eles próprios. Este rito secreto celebra-se à meia-noite. Os participantes, homens e jovens mulheres, endossam sobre a nudez mais completa (nudez ritual) somente uma veste branca. Depois da fórmula invocatória inicia-se uma dança de roda, formando os homens um círculo ao centro que se move rapidamente no sentido da marcha do sol, e as mulheres um círculo exterior ao primeiro, na direção oposta, anti-solar (referência ritual à polaridade cósmica refletida pelos sexos). O movimento torna-se cada vez mais vertiginoso e selvagem até que alguns membros se separam dos círculos pondo-se a dançar isoladamente, como os antigos vertiginatores e os derviches árabes, com uma rapidez tal que por vezes (diz-se) não se lhes distingue o rosto, caindo e levantando-se (dança técnica do êxtase). O exemplo atua de modo contagioso e pandêmico. Como fator ulterior de exaltação, utiliza-se a flagelação recíproca da massa dos assistentes, homens e mulheres (a dor como fator erótico-extático). No acume desta exaltação começa a pressentir-se a transformação interior, a descida iminente, que se invocou, do Espírito Santo. Neste momento os homens e as mulheres desnudam-se arrancando do corpo as vestes rituais e copulam na maior promiscuidade; a experiência do sexo e o traumatismo da união sexual fazem este rito atingir a sua intensidade-limite.



A hibridez destes ritos é posta em evidência pelo fato de ter por centro uma jovem, escolhida de cada vez, na qual se vê a «personificação da divindade, e ao mesmo tempo o símbolo da força geradora»; ela é adorada quer como Mãe Terra, quer como Virgem Santa dos cristãos. Ela oferece-se completamente nua no fim deste ritual secreto, para distribuir como um sacramento, bagos de uvas secas. Fácil será reconhecer através deste pormenor da cerimônia secreta dos Khlystis, um prolongamento dos ritos orgíacos antigos, que se celebravam sob o signo dos mistérios da Grande Deusa ctónica, a «Deusa nua.»



É interessante notar que na seita a que nos referimos o sexo é rigorosamente limitado a este uso ritual e extático; com efeito, a seita professa um ascetismo rígido em qualquer outro aspecto, condenando todo o amor físico, a ponto de estigmatizar o próprio matrimônio. Apresenta nesse ponto uma nítida analogia com uma outra seita eslava, a dos Skoptzis, em que o ascetismo chega ao ponto de prescrever a castração dos homens e das mulheres, conservando, porém, o fundo original, pois nesses ritos figura igualmente uma jovem nua à volta da qual tudo se desenrola. Trata-se provavelmente de uma outra forma dos mistérios de Grande Deusa, a Cibele frigia, culto que se associava frequentemente a mutilações semelhantes praticadas no frenesim extático.



Pertencia à seita dos Khlystis o staretz Gregório Efimovitch, dito Rasputine. Conservaram-se nesta figura tão famosa certos traços de orgia mística. É significativo o fato de poder associar-se ao título de staretz, velho santo, o sobrenome de Rasputine que deriva de Rasputnik = dissoluto, e que este personagem sempre conservou. E difícil separar na figura de Rasputine o que é realidade, das lendas criadas pelos seus admiradores ou pelos seus inimigos. É, contudo, incontestável a presença, neste tipo grosseiro de aldeão siberiano, de poderes extraornormais. O seu próprio fim o demonstra, pois não tiveram qualquer efeito as fortes doses de um veneno violento como o cianeto que lhe ministraram; levantou-se depois de vários tiros de revólver desfechados à queima roupa, de tal modo que para conseguirem matá-lo o tiveram de massacrar. A «religião de Rasputine» inspirava-se essencialmente no motivo que indicamos. São suas estas palavras: «Vim trazer-vos a voz da nossa santa Mãe Terra e ensinar-vos o segredo bem-aventurado que ela me transmitiu a propósito da santificação através do pecado»— vemos surgir de novo aqui o tema da Grande Deusa (a Mãe Terra) unido, de um modo híbrido, com o conceito cristão da carne como pecado. Na sua essência, a experiência desenfreada do sexo — a «mistura do pecado» e o que se denominava svalnyi grech — era concebida como meio de «mortificação», manifestando os efeitos positivos duma «morte mística» capaz de retirar ao ato sexual o seu caráter impuro e de produzir no indivíduo a «transformação maravilhosa». A união sexual torna-se assim uma espécie de sacramento transformador e uma via de participação. Em termos objetivos, isto é, excetuando o ponto de vista moral, a «santificação através do pecado» anunciada por Rasputine está relacionada com esta idéia. Quanto à sua interpretação moral e cristã, devemos, ao contrário, relacioná-la com o pecca fortiter luterano e com uma teoria professada pelo próprio Santo Agostinho, segundo a qual, a virtude pode ser pecado, quando inspira o orgulho da criatura decadente que através dela se envaidece. Ceder à tentação da carne seria, neste contexto, uma forma de se humilhar, de destruir o orgulho do Eu — o «déspota obscuro» — até aos últimos resíduos constituídos precisamente pelo orgulho da própria virtude. Em termos existenciais e não morais, o orgulho que é necessário humilhar deixando o caminho livre ao sexo, não opondo resistência e «pecando», está, ao contrário, relacionado com a limitação do indivíduo finito que é preciso destruir por meio de uma experiência especial e paroxística do eros.



Rasputine era, como pessoa e como comportamento, mais repugnante do que atraente. A base do seu poder e do seu fascínio, exercida até nos meios da alta aristocracia russa que, de outro modo seria inacessível a um aldeão sujo e primitivo como ele, deveu-se a uma influência de tipo diferente, ligada pelo menos parcialmente do ponto de vista genético, às experiências dos Khlystis e provavelmente baseada também em certas predisposições excepcionais. Se abstrairmos destes fatos, encontramos em Rasputine uma certa relação com as técnicas dos Khlystis, uma vez que utilizava frequentemente a dança por ele considerada como a parte de um todo que culminava no ato sexual, e tendo uma preferência marcada pela música cigana, a qual, quando autêntica, é das poucas que conservam ainda uma dimensão frenética e elementar. Conta-se que as mulheres com quem Rasputine dançava, por as ter considerado dignas de executar o ritual com ele, «tinham efectivamente o sentimento de participar de uma influência mística» que o staretz havia frequentemente mencionado. O ritmo tornava-se cada vez mais frenético, observava-se como «o rosto da bailarina se iluminava, como pouco a pouco o seu olhar se tornava velado, as pálpebras lhe pesavam e por fim se fechavam». O staretz levava então a mulher quase inconsciente para se unir com ela. A recordação que as mulheres, na sua maioria, conservavam do que se passava em seguida, era a de um êxtase quase místico. Algumas houve, contudo, que ficaram com uma impressão de profundo horror, contando-se mesmo entre elas um caso de meia loucura. Com base no que já dissemos parece-nos absolutamente natural a possibilidade deste duplo efeito.


Julius Evola em Metafísica do Sexo