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quinta-feira, 19 de março de 2015

A Atitude de Direita no Pensamento de András Lászlo

Um ponto altamente significativo na filosofia de András László e que, portanto, deve ser abordado é a atitude de direita. Tradicionalidade é um Weltanschauung complexo que abrange todos os aspectos e níveis da existência humana. No entanto, podemos dizer que a tradição, enquanto conceito de mundo dos povos antigos, e a tradicionalidade como abordagem das pessoas anti-modernas contemporâneas, tem dois pilares. Um desses pilares é a espiritualidade que, sendo um instrumento, um método e um caminho, ao mesmo tempo, leva ao homem a superar a si mesmo, em relação a sua própria totalidade divina última possível; o outro é a política no sentido mais amplo, que organiza as pessoas em uma estrutura hierárquica social e governamental. Espiritualidade carrega a marca da Liberdade, pois seu último objetivo é superar as os laços condicionados, isto é, fazer que o homem reconheça ele mesmo como o Absolutum, a totalidade incondicional do ser. A política, por outro lado, é caracterizada pela Ordem, o reflexo terrestre e imagem do mundo celestial, cuja a missão é garantir essas condições para o mundo humano, tanto para o nível coletivo como para o individual, o que permite a vida harmonizar com os princípios divinos; pois a Ordem terrestre deve, em todos os aspectos, adaptar-se harmoniosamente à Ordem celestial. Assim, o objetivo normativo de uma sociedade ou coletivo deve sempre coincidir com e servir ao propósito normativo de um indivíduo. E isso realmente sempre acontece pois, assim como o sagrado permeia todos os aspectos da vida numa sociedade ideal tradicional, o consumo penetra tudo na sociedade "ideal" moderna.
Na era arcaica, ou de um modo geral, na era da tradição, o homem vivia, quase espontaneamente e sem objetificar qualquer tipo, de acordo com o que podemos chamar de uma atitude de direita, no sentido original da palavra. Aquilo que é chamado uma atitude de esquerda hoje, no entanto, dificilmente é mais velho que algumas centenas de anos; surgiu no período de desintegração da Tradição e desde o seu aparecimento, tornou-se cada vez mais dominante, gradualmente mudando o centro político relativo e atual para a esquerda (o centro absoluto, é claro, nunca muda). Este tipo de deslocamento para a esquerda ainda está em andamento visto que hoje, cada partido político notável, é quase totalmente de esquerda. Aquilo que é considerado como uma atitude de direita hoje, ou o partido que se define como sendo de direita, só pode ser considerado pouco relativamente de direita, do ponto de vista tradicional. O mesmo se dá com a direita parlamentar e a ultra-direita, assim como os movimentos de extrema-direita da primeira metade do século 20, uma vez que eram - e ainda são - contaminados com ideias de esquerdas, de tal forma que, se tivéssemos de designar seu lugar entre a atitude absoluta da direita e da esquerda, eles estariam mais próximos da extremidade da esquerda do que o meio da linha entre os dois extremos, o qual é o centro absoluto (ver ilustração abaixo).

A atitude de direita, no sentido tradicional, portanto, não pode ser identificado com o que é chamado a atitude de direita atualmente, porque o primeira, sendo muito mais à direita que o última, é uma atitude maximamente de direita, não contaminada por idéias de esquerda. A atitude de direita não pertence a qualidades e valores que são de forma otimizada ideal, mas as que são maximamente ideal. Portanto, o termo "atitude de extrema-direita" é, de fato, um contradictio in adjecto, porque a atitude direita não pode ter variações extremas. Só aquilo que tem variações extremas possui um ponto ótimo que, em seguida, oscila sobre esse ponto.  Hoje, o que se chama uma "atitude de extrema-direita", se o termo "extrema" pode ser aplicado, é extremista não por conta da atitude de direita, isto é, não por que exagera os valores de direita, mas por outras razões (atitude agressiva a esquerda, violência, populismo, demagogia, etc.)

AAD ---------------------------------- CPA ---------------------------------- AAE
are2 crd2 ard2 <---------------------------------------------------------- are1 crd1 ard1
 [hoje]                                                                                               [no passado]

A relação entre a atitude absoluta de direita e esquerda
e a atitude relativamente de direita e esquerda.

AAD: Atitude absoluta de direita / CPA: Centro político absoluto / AAE: Atitude absoluta de esquerda / ard1: atitude relativamente de direita no período inicial de desintegração tradicional / crd1: centro relativo direita no período inicial de desintegração tradicional / are1: atitude relativamente de esquerda no período inicial de desintegração tradicional / ard2: atitude relativamente de direita hoje / crd2: centro relativo de hoje / are2: atitude relativamente de esquerda hoje / < ---: a direção do movimento do centro relativo na história.


Quais são os critérios da atitude maximamente de direita? Colocando de forma negativa, é a negação de quaisquer componentes de ideias de esquerda:

seja o democratismo, ou seja, o princípio da soberania dos povos que representa o domínio da quantidade no nível social e que pode-se manifestar sob a forma de democracia burguesa ("governado pela turba" diz Platão), bem como a ditadura comunista (que, devido a sua falta de efeito e sua natureza aparentemente conservadora, teve que desaparecer da cena política);

seja o socialismo que é um humanismo no nível social, isto é, uma espécie de "narcisismo social" quando a sociedade foca em si mesma;

seja o nacionalismo ou internacionalismo, cujo os objetivos são primeiramente desintegrar a velha ordem e, em seguida,m formar uma nova contra-ordem;

seja o igualitarismo que desqualifica todos os individuos, ou liberalismo, a teoria e a pratica da privação universal de valores e ideias que, enquanto anuncia a livre competição de ideias, mantem a posição de direção externa pra si mesmo;

seja a ideologia revolucionária, cujo o princípio fundamental é aquele que, se dois fatores são hierarquicamente dispostos um acima e outro abaixo, o que está na posição maior certamente oprimirá e explorará o subordinado, por isso o último é forçado a recorrer a "violência revolucionária" a fim de abalar o jugo do primeiro;

seja o relativismo, esta sendo a teoria samsárica por excelência, que visa fazer com que todas verdades sejam relativas, exceto a sua própria;

seja o racionalismo, que surge quando a faculdade totalmente instrumental e essencialmente executiva (ratio) - sabendo apenas a questão "como?" -  estreme as "algemas" do intelecto supra-racional (intellectus), que sempre considera uma partícula em relação ao todo, e que é apenas é competente para responder questões de "que?" e "por que?"; fazendo que a razão se torne independente ou entre diretamente em serviço de poderes sub-racionais;

seja o messianismo secularizado, isto é, o utopismo (inseparável das ambas formas da atitude de esquerda) que quanto mais trabalha pela "Causa Nobre", mais tenta esconder a verdadeira natureza do "fim da história" e o "papel lamentável do último homem" na mesma;

seja o self-service religioso, que, em vez de levantar o homem, continuamente degrada o nível da religião;

seja na roda indefinida de produção e consumo, o único ciclo conhecido pelo homem moderno, que é forçado a passar a um ritmo cada vez mais furioso;

e, finalmente, não devemos esquecer que as duas formas mais básicas da atitude de esquerda andam de mãos dadas tanto com o materialismo como com o dogmatismo ideológico (social democracia) e a mente materialista (liberalismo)


A atitude de esquerda também se manifesta no nível psicológico, pois o objetivo geral de hoje é que os instintos devam ser liberados, a ponto de chegarem em posição dominante, onde as inibições devam cessar, e que os desejos continuamente crescentes devam buscar por novas satisfações; o que realmente acontece é que aquilo que deve ficar lá em baixo e em detenção, tem permissão a brotar e mandar (uma das palavras mais assustadoras para uma pessoa esquerdista moderno e pós-freudiano é "repressão"). Este princípio que se tornou a base da psicologia do século 20, nada mais é que a invasão da atitude de esquerda na esfera da psicologia. A atitude de esquerda, sem exceção, tem suas maiores conjunturas políticas determinadas pela kali-yuga, em outras palavras, a atitude de esquerda não controla as mudanças (como acreditavam certos teóricos como Friedrich A. Hayek), serve apenas como um mecanismo cego. De um modo geral, a atitude de esquerda - pelo menos em sua variação liberal, exclusivamente progressiva - tende a deixar que as coisas se organizem por si só, permitindo que sigam seus próprios caminhos ("sistema de auto-adaptação", laissez faire), que naturalmente resulta em uma inflação contínua, uma "nivelação" e perda de valores em todos os campos, seja na economia, na cultura, na religião, etc. Se, no entanto, esse processo não alcançar o ritmo desejado, ou se determinada categoria já atingiu seu nível natural e se espera que não possa afundar mais por si só, a atitude de esquerda muitas vezes tenta "organizar" - mas sim, desorganizar! - processo que levará a um afundamento ainda maior.

Colocando de forma positiva, a atitude pura de direita leva tal conceito de mundo ao ponto de partida, ao ápice onde está posicionado Deus. Analogamente, se tanta organizar todos os campos da vida de tal maneira que seja harmonioso com esse Principium Principorum (cf. "faça- se a tua vontade, assim na terra como no céu"), ajustando o que está embaixo com o de cima e o de cima com o que está acima dele, continuando até chegar ao Ser Supremo que está acima de tudo e, ultimamente, determina todas as coisas. Assim, a direita é teocrática em princípio, dessa forma este domínio divino só pode ser realizado por formações políticas monárquicas e aristocráticas (feudais). No ponto de intersecção entre o céu e a terra está o rei, o homem por excelência, aquele que realizou plenamente o caráter humano, não no sentido de determinadas condições, mas da possibilidade, e que é a personificação do princípio central, que permeia todo o mundo "abaixo do céu", especificamente manifesta-se de acordo com tal campo. A atitude de direita não separa o Estado e a Igreja, as esferas profanas das sagradas, porque, essencialmente, ambos apontam para o mesmo último Ponto, em direção a sua origem.

O slogan do sistema de direita numa sociedade tradicional sempre foi de Ordem baseada em um princípio organizador superior (dharma em sânscrito). A Tradição sempre esteve consciente do fato que o que o povo ou as massas precisam, não é liberdade, mas Ordem. Assim como José Ortega y Gasset apontou excelentemente, a inércia, e não a maioria numérica das pessoas fazem a massa ser massa. A massa pode sempre ser mobilizada. Sabendo disso, a tradição sempre esteve consciente que o povo e as massas, por ser inerte e consequentemente estarem sujeitos ao afundamento, deve ser controlada a partir de cima. Obviamente, se o poder de manutenção da Ordem enfraquece ou deixar de existir, a massa começa a afundar em virtude da força de inércia de seu próprio peso (isso que é o "poder" do povo: o seu próprio momento de inércia). Ao se encontrar com culturas e civilização seculares, os povos tradicionais quase que imediatamente começam a ir de ladeira abaixo, arruinando-se no final, porque as ligações, que sempre os manteve relativamente nas alturas, quebram. Essa modo "desenfreado", característica do período de transição entre a tradicionalidade e a modernidade, foi coroado pela ativação das forças especiais degradantes na era moderna e particularmente na pós-moderna.

Isto, naturalmente, não significa que o mundo tradicional rejeitou a liberdade; ao contrário, só o mundo tradicional manteve a liberdade em sua maior dignidade. Liberdade, como uma faculdade e virtude, era um privilégio de poucos - as pessoas proeminentes -, enquanto que a Ordem era uma tarefa de todos. O "homem antigo" estava ciente do fato de que a Liberdade não pode ser democratizada, pois o virtus, a virtude viril ligada as altas qualidades no sentido geral da palavra, não pode, na prática, ser compartilhada. Liberdade não é uma base a ser fornecida para as pessoas, mas uma faculdade para ser alcançada. Nem o sindicato, nem o Parlamento, nem o movimento pelo direito das mulheres pode obter a liberdade para as pessoas, porque a liberdade que eles garantem nunca é uma liberdade real. Aquele que precisa ser liberado é um servo; e um servo que foi liberado ainda é um servo: um servo liberado. Apenas o vencedor é livre; só aquele que é capaz de controlar e, em primeiro lugar, aquele que é capaz de auto-controle, pode ser livre. Tal como o auto-conhecimento é a base de toda cognição, o autocontrole é a base e o coroamento de todo tipo de controle. Além disso, o controle está intimamente conectado a Ordem, isto é, escolher a Ordem já implica a Liberdade, é um passo importante para a Liberdade, pois a Liberdade só pode ser adquirida superando a Ordem realizada e maximalizada. Seria absurdo pensar que a liberdade pode ser realizada sem força ou poder - ou, sendo mais preciso, sem força pessoal ou poder. Seria igualmente pouco razoável acreditar que qualquer um além do superior pode ser livre; o inferior nunca pode ser livre, pela própria razão que é - até mesmo no seu auge de seu poder político - sempre inferior. Somente aquele que está acima pode ser livre, do mesmo modo, a manutenção do poder só pode ser possível desde cima.

A liberdade considerada pelas massas da esquerda/liberal é apenas uma libertação, um "afrouxamento": emantipatio. Isto não é resultado de um poder pessoal e vitória, mas de uma privação de restrições - que até mesmo algo externo pode realizar. Enquanto liberdade exige poder, o 'afrouxamento', ao contrário, requer fraqueza e a ausência de controle. A massa não pode manter-se, porque a manutenção sempre precisa de um poder controlador interior; a massa só pode ser mantida desde cima: ela deixa-se ir por natureza. Portanto, quando o poder de manutenção e controle da Ordem deixa de existir, as massas entrarão num estado de desenfreio. É isso que a libertação e o "afrouxamento" significa. A massa se sente livre apenas quando é liberada de cima e pode, assim, abandonar-se à força redutora de seu próprio peso, a gravidade ontológica que sempre atua de baixo pra cima e puxando aquilo que está acima. A liberdade da massa, portanto, não é a liberdade do homem que conquistou sua própria força de inércia para que ele possa ascender livremente, mas do homem que está em queda livre. Assim, o que é glorificado como liberdade hoje é diametralmente oposto - e, ao mesmo tempo, uma paródia - da imagem de liberdade real.

Como Julius Evola nitidamente notou, uma pessoa moderna de esquerda se encontra essencialmente atraída para a escravidão e teme a liberdade real. Isto é claramente demonstrado pelo fato de que os tempos arcaicos são considerados a idade do jugo e da escravidão e o homem moderno se identifica com aqueles que eram inferiores e não com aqueles que eram seus superiores e livres naquele tempo. Com uma honestidade surpreendente, Francis Fukuyama, o teórico célebre da democracia liberal diz o mesmo, declarando que o cidadão liberal de hoje é o descendente espiritual do escravo liberto, e de fato, isso pode ser facilmente detectado auto-interesse emparelhado com a mentalidade de escravo, comportamento característico do homem-massa moderno democratizado. Que a liberdade não permeia o estilo de vida do homem moderno é claramente demonstrado pelo fato de que sob o termo "liberdade" ele só pode entender liberdade de escolha - ou, em termos políticos - liberdade de eleição. Pois a liberdade de escolher, na maioria dos casos - seja sobre partidos políticos, bens ou metas de viagens - é apenas de escolher a coisa que mais atraí o homem. Em outras palavras, na liberdade de escolha, o homem pode "livremente" escolher a coisa que é mais fascinante para ele. Portanto, durante sua escolha "livre", o homem médio quase sempre infalivelmente escolhe a maior escravidão em vez da menor. As massas foram enganadas em "ter seus próprios desejos: eles infalivelmente ficam com a ideologia pela qual foram subjugados" - diz Theodor W. Adorno, que não pode ser acusado de ser de direita. Está longe de liberdade, sem mencionar a livre escolha, quando o homem sucumbe ao mais forte, ao fascínio mais atraente entre os vários outros. Liberdade de escolha, então, é a escolha da possibilidade aparentemente mais favorável, apesar de que uma verdadeira escolha livre implica que o homem não está restrito apenas a escolher as alternativas oferecidas, mas por uma rejeição de todas elas, ele é capaz de criar novas. A livre escolha dos homonculi produzidos na linha de montagem da ideologia liberal dificilmente pode ir além da escolha livre do homem que pode - livremente - escolher entre ser preso por 30 dias e pagar uma multa de cem mil forintes. No que diz respeito as eleições políticas, o controle dos processos na democracia moderna não está na mão dos partidos e políticos que representa a pessoa na zona frontal da política, possuindo apenas uma pouca liberdade de movimento.  Está na mão dos poderes de fundo que são icógnitos, seja eles os lobbies acima do partido - que em qualquer ocasião farão valer sua vontade "de cima" -, ou seja eles os chamados "formadores de opinião" que, através da formação da opinião pública, fazem o mesmo desde baixo e que, por isso, fazem as "eleições democráticas" uma mera "peça" que já serviu para ilusão de liberdade do homem desqualificado. Assim, a liberdade é quase desconhecida no mundo liberal moderno, e só nas ocasiões mais raras é que se torna uma questão, de fato. Em vez de liberdade, o homem escolhe Tahiti ou Haiti para tomar um bronze pelo Sol de Deus; Mercedes ou Volvo pelo qual ele pode ir pra lá; o partido político que ele acredita que proporcionará o maior bem-estar social, e assim por diante. Para resumir, ele escolhe a escravidão em vez da liberdade, a maior escravidão ao invés da menor, a menor liberdade ao invés da maior, em uma palavra, ele escolha aquilo que mais satisfaz seus desejos materiais mais crescentes e cada vez mais incorpora-o no sistema de dependência "ser atendido = estar sobre a misericórdia de alguém".

Na verdade, o problema não está no fato de que a liberdade de eleição é a liberdade de escolher entre os "superiores" (e, geralmente, os "superiores" que foram escolhidos força o eleitor a fazer um serviço ainda maior e faz dele um servo); o problema é que a coisa que se tornou o "mestre" do eleitor, não serve o eleitor. Um sintoma desse processo é, como Gábor Czakó colocou, quando o homem "passa" de um estado de ser subjugado pelas pessoas à um estado de ser subjugado as coisas; ou quando, de acordo com Adorno, em vez de ter a matéria impregnada de alma (animismo) eles escolhem ter a alma impregnada de matéria (industrialismo). Zenão de Citium, o fundador da escola estoica, contrário as tipologias psicológicas horizontais, classificava as pessoas em dois grupos, de acordo com uma tipologia vertical e qualitativa: do inútil ao adequado, ou de acordo com outra tradução, do vulgar ao excelente.  Mas quem é o inútil? Nos tempos modernos, o sinal infalível de inutilidade se dá quando o homem, rebelando-se contra a tensão que surge entre seu estado atual e seu estado mais elevado - ou possibilidade -, duvida, mente sobre e "mal-interpreta" seu estado mais elevado e abaixa seu próprio nível (privando a si mesmo a chance de ascender). O inútil nos tempos antigos era capaz de conviver com essa tensão e com sua própria incapacidade de ascender mais alto - o que também prova sua superioridade a seus descendentes -, enquanto o inútil hoje, partindo de sua "dignidade" democrática (Dignidade para todos!) e praticando uma forma específica da velha violência revolucionária, carrega pra baixo tudo o que eles conseguem enxergar acima deles para seu próprio nível. Mas a natureza da inutilidade e da vulgaridade pode vir à tona justamente quando é comparada com a idoneidade, pois os ‘adequados’ não são aqueles que são especialistas em, digamos, artes, profissões ou esportes, mas aqueles que são adequados em superarem a si mesmo, ad indefinitum e ad infinitum, aqueles que podem ganhar a liberdade total para si mesmos. Eles são conhecidos pelo bem conhecido guia, o Buddha: "Olhe a felicidade dos Arhats! Você não pode ver qualquer traço de desejo neles. Eles cortaram o pensamento do "Eu sou" e quebraram a rede ilusória. Eles são imóveis, sem começo, imaculados, Pessoas reais, eles são aqueles que se tornaram Deus, são grandes heróis, são filhos da Consciência, imperturbáveis em qualquer situação, livre da compulsão da reencarnação, são aqueles que estão acima do seu "ego" conquistado, eles venceram sua própria batalha no mundo, eles expressam o "rugido do leão"; aqueles que acordaram são verdadeiramente incomparáveis".  Mas há alguma esperança de alcançar a liberdade e superação - se não a si mesmo - pelo menos de sua própria natureza vulgar, entre aqueles milhões que se tornam vulgares dia a dia? Existe um meio mais eficaz de se fazer vulgar do que assistindo, ouvindo, lendo e fazendo o mesmo que os outros, ou seja, tendo o mesmo alimento cultural como os centenas e centenas de milhares de outros?

A espiritualidade moderna se desvia para um caminho muito perigoso se ela tem aversão, ou melhor, se ela se debruça sobre política e acredita na incompatibilidade da espiritualidade e política, do espírito e poder, porque o apoliticismo inevitavelmente leva - a menos que haja uma negação indiferenciada da política precedida por uma diferenciação afiada - estar à mercê da radiação-de-fundo das políticas vigentes. Obviamente, a espiritualidade que está sob a égide dessa radiação-de-fundo política terá o carimbo de suas características e perderá sua própria espiritualidade que possuía na era da tradição, aquilo que faz a espiritualidade ser o que é em qualquer circunstância. Assim, o homem moderno pseudo-espiritual, em vez de escolher uma batalha espiritual heroica, se entra as forças de poderes obscuros e indefiníveis, e em vez de ascender ele prefere abandonar-se a alguma coisa, embora ele não saiba exatamente o quê. Não é de se estranhar, então, que a "meditação" efeminada no self-service da espiritualidade-de-consumo não é uma "batalha real" (Ramana Maharshi) como aquela do homem antigo mas, na verdade, uma relaxação. A "glória" da era moderna é que ela conseguiu fazer a meditação - que costumava ser privilégio das pessoas mais proeminentes - uma das formas de relaxamento disponíveis para qualquer um. Como todos nós sabemos bem, quando um homem totalmente materializado - demasiadamente pesado - que perdeu contato com sua vida mais elevada, "começa a relaxar", apenas o ponto mais baixo pode definir o limite ao seu afundamento. 


András László and Metaphysical Traditionality by Ferenc Buji 


domingo, 15 de março de 2015

O Presente percebido por Liberais, Conservadores, Céticos, Radicais e Reacionários (Por Eric Hoffer)



É interessante comparar aqui as atitudes em relação ao presente, futuro e passado mostrado pelo conservador, o liberal, o cético, o radical e o reacionário. 

O conservador duvida que o presente possa ser melhorado, e ele tenta moldar o futuro na imagem do presente. Ele vai ao passado para se tranquilizar sobre o presente: "Eu queria o sentido de continuidade, a garantia que os nossos erros contemporâneos eram endêmicos na natureza humana, que os nossos novos modismos eram heresias muito antigas, que as coisas queridas ameaçadas fizeram estremecer não menos fortemente no passado." Como, de fato, o cético é parecido com o conservador! "Existe alguma coisa que se possa dizer: Veja, isso é novo? Isso já esteve nos tempos antigos, muito antes de nós." Para o cético, o presente é a soma de tudo o que foi e que será. "O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol."  O liberal vê o presente como filho legítimo do passado que está constantemente crescendo e desenvolvendo em direção um futuro melhor: danificar o presente é mutilar o futuro. Todos os três, então, valorizam o presente, e, como é de se esperar, eles não aceitam de boa vontade a ideia de auto sacrifício. Sua atitude em relação ao auto sacrifício é melhor expressa pelo cético: "melhor um cão vivo do que um leão morto. Pois o vivo sabe que morrerão: mas o morto não sabe de coisa alguma...  Já não possuem parte alguma de qualquer coisa que se faz debaixo do sol."

O radical e o reacionário detestam o presente. Eles têm o passado como uma aberração e uma deformidade. Ambos estão prontos para prosseguir sem piedade e de forma imprudente com o presente e ambos são favoráveis a ideia de auto sacrifício. Onde então eles diferem? Principalmente na sua visão da maleabilidade da natureza do homem. O radical tem uma fé apaixonada na perfectibilidade da natureza humana. Ele acredita que mudando o ambiente do homem e aperfeiçoando a técnica de formação da alma, a sociedade pode ser forjada de maneira totalmente nova e sem precedentes. O reacionário não acredita que o homem possui potencialidades insondáveis pelo bem. Se uma sociedade estável e saudável deve ser estabelecida, ela deve ser moldada através de modelos comprovados pelo passado. Ele vê o futuro como uma restauração gloriosa, em vez de uma inovação sem precedentes.

Na realidade, a linha divisória entre radical e reacionário nem sempre é distinta. O reacionário manifesta o radicalismo quando ele tenta recriar seu passado ideal. Sua imagem do passado é baseada menos sobre o que realmente era do que sobre o que ele quer que o futuro seja. Ele inova mais do que ele reconstrói. Uma mudança semelhante ocorre no caso do radical quando vai construir seu novo mundo. Ele sente a necessidade de uma orientação prática, e desde que ele rejeitou e destruiu o presente, ele é obrigado a ligar o novo mundo com algum ponto do passado. Se ele tem que empregar a violência na formação do novo, a sua visão da natureza do homem escurece e se aproxima mais àquela do reacionário. A mistura do reacionário e o radical é particularmente evidente naqueles envolvidos em um renascimento nacionalista. Os seguidores de Gandhi na Índia e os Sionistas na Palestina ressuscitavam um passado glorioso e, simultaneamente, criavam um a Utopia sem precedentes. Os profetas também, são uma mistura de reacionário e radical. Eles pregaram o retorno a uma antiga fé e também visavam um novo mundo e uma nova vida.

Retirado do livro The True Beliver por Eric Hoffer 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Realismo – Comunismo – Antiburguesia (Por Julius Evola)

Uma das razões que nós vemos hoje intelectuais simpatizando com o comunismo (o que é paradoxal, pois é bem sabido o desprezo que o comunismo tem para com os intelectuais) está relacionado com a postura antiburguesa que o comunismo assumiu. Entre outras coisas, o comunismo afirma representar a superação da "era burguesa" e que conduzirá a humanidade para um novo realismo, além do subjetivismo, individualismo, o culto do ego, e todas as outras retóricas idealistas. Se não é reconhecido o plano exclusivamente econômico e materialista no qual o comunismo contextualiza essas questões, é provável que este possa exercer certo poder de sugestão sobre os intelectuais.
Não há dúvida que atualmente vários processos estão agindo nesta direção. Após a Primeira Guerra Mundial, esta direção exibiu traços específicos: podemos lembrar na Alemanha o movimento chamado Neue Sachlichkeit, ou Nova Objetividade; na França, a corrente inspirada pelo Espirit Nouveau (de inclinações comunistas) estava destinada a exercer uma influência considerável, especialmente no campo da arquitetura. Hoje, o comunismo encontra solidariedade com questões semelhantes que são formuladas em determinados ambientes; assim, não é nenhuma surpresa que alguns intelectuais sem princípios, que não conseguem entender o último e contaminante significado do comunismo (conhecido apenas de longe e em teoria), fique do lado dele, se iludindo, pensando estar em uma posição de vanguarda.
Este é um erro grave. No entanto, devemos reconhecer que, por si só, uma postura anti-burguesa possui uma razão de ser. Eu não quero dizer burguesa no sentido de uma classe econômica, mas sim aquilo que carrega: há um mundo intelectual, uma arte, costumes e visão geral da vida que, depois de ter sido moldada no último século em paralelo com a revolução do Terceiro Estado, aparecem como vazia, decadente e corrupta. A superação resoluta de tudo isso é uma das condições necessárias para resolver a atual crise da nossa civilização.

Assim, essas tentativas de reagir contra os aspectos mais extremos da subversão mundial são muito perigosas, quando elas visam apenas idéias, hábitos e instituições da era burguesa. Isso equivale a fornecer munição para o inimigo. A mentalidade e o espírito burguês, com seu conformismo, seu apêndice psicológico e romantico, seu moralismo e sua preocupação em uma existência mesquinha e segura em seu materialismo fundamental, encontra sua compensação em um sentimentalismo e na retórica de palavras de grande humanitarismo e democracia - tudo isso apenas em uma vida artificiual, periférica e precária, não importando o quão decididamente sobrevive devido a uma inércia nos estratos sociais de muitos países do "mundo livre". Portanto, afirmo que reagir em nome de ídolos, estilo de vidas e valores medíocres do mundo burguês, como é o caso da grande maioria dos adeptos modernos da "lei e ordem", significa que a batalha esta perdida desde o início.
No entanto, assim como a burguesia nas civilizações anteriores situava-se numa classe socialmente intermediária, entre os guerreiros e a aristocracia política por um lado e o mero "povo" do outro lado - da mesma forma, existe uma possibilidade dupla (uma positiva e uma negativa) de superação da burguesia em geral - a de tomar uma posição firme contra o tipo burguês, a civilização burguesa, seu espírito e seus valores.
A primeira possibilidade corresponde a uma direção que conduz para ainda mais baixo, para uma sub-humanidade coletivizada e materialista, sob a bandeira do realismo marxista - aos valores sociais e proletários contra a "decadência burguesa". De fato, é possível conceber uma liquidação de tudo que diz respeito ao mundo convencional, subjetivista e "irreal" burguês, levando não para cima, mas para baixo daquilo que é próprio da ideia normal da personalidade.  Isso acontece quando o resultado final é o indivíduo em massa, o "coletivo" da ideologia soviética, no clima mecanizado e sem alma que o acompanha. Neste caso, o resultado da liquidação do mundo burguês pode atingir apenas a mais uma regressão: vamos para o que está mais abaixo ao invés daquilo que está acima da pessoa. É o oposto daquilo que aconteceu nas grandes civilizações "objetivas" (para usar a expressão de Goethe), que impulsionava o anonimato e o desdém para o indivíduo, embora num contexto de valores superiores, heróicos e transcendentes.
Da mesma forma, se o esforço em direção a um novo realismo é correto, podemos ver claramente o erro daqueles que consideram apenas os graus inferiores da realidade como real. Isto acontece quando o realismo é formulado essencialmente em termos economicos (como acontece no comunismo). O mesmo se aplica a algumas tendências que surgiram nas artes ou nas margens da filosofia, e que estão ao lado dos movimentos de esquerda, assumindo uma postura anticonformista para a sociedade atual. Uma dessas tendencias se autodenomina "neo-realismo", enquantro a outra é um existencialismo radical inspirado por Sartre e seu círculo. Nessa filosofia, "existência" é identificada com as formas de vida mais rasas; este tipo de existência é separado de qualquer princípio superior, estimando sua imediação angustiada e sem luz. Este tipo de existencialismo tem sua contrapartida na psicanálise, uma doutrina que despe e marca como irreal o princípio consciente e soberano da pessoa, considerando como "real" a dimensão irreacional, inconsciente, coletiva e noturna do ser humano: nesta base, cada faculdade superior é vista como derivada e dependenteIsso também ocorre no plano social e cultural, onde o Marxismo se esforça para retratar como uma mera "superestrutura" tudo aquilo que não pode ser contado como processos sociais e econômicos. Estamos, obviamente, na mesma linha de pensamento quando o existencialismo proclama a primazia da "existência" sobre o "ser", em vez de reconhecer que a existência adquire um significado apenas quando ela é inspirada por algo além de si mesma. Assim, há um paralelo exato e visível entre essas correntes intelectuais revolucionárias e movimentos socio-políticos, pois o que estamos tratando é a manifestação, no domínio individual, daquilo que no domínio social e histórico manifesta-se como uma mudança subversiva do poder para as massas, a substituição do superior pelo inferior e a remoação de qualquer princípio de soberania que não se orgine "de baixo". O "realismo" existencialista e psicoanalítico, juntamente com tendências semelhantes, aponta para uma imagem humana que reflete tais relações no individual; tal imagem aparece como multilada, distorcida e subversiva. Assim, podemos considerá-la como resultado de uma cogenialiadde quando muitos intelectuais de tendências semelhantes simpatizam com essas correntes sociais de esquerda, mesmo quando os líderes políticos dessas correntes não possuem os mesmos sentimentos por eles.
No entanto, há uma segunda possibilidade: pode-se conceber uma visão realística e uma luta contra o espírito burguês, o individualismo e o falso idealismo que é mais radical do que a luta travada contra eles pela esquerda, e ainda orientada para cima, não para baixo. Como já disse no capítulo anterior, essa possibilidade diferente depende de uma retomada dos valores heróicos e aristocráticos quando são assumidos com naturalidade e clareza, sem retórica ou pomposidade: em retrospecto, aspectos típicos exemplificados pelo mundo romano e germânico-romano. É possível manter uma distância de tudo o que tem apenas um caráter especialmente subjetivista humano; sentir desprezo pelo conformismo burguês e seu moralismo e egoísmo mesquinho; para encarnar o estilo de uma atividade impessoal; preferir o que é essencial e real em um sentido mais elevado, livre das armadilhas do sentimentalismo e da superestrutura pseudo-intelectual - e ainda, tudo isso deve ser sentido permanecendo de pé, sentindo a presença na vida daquilo que o leva além da vida, tirando daí as normas precisas da ação e do comportamento.
Tudo o que é antiburguês, nesse sentido, não converge para o mundo comunista; pelo contrário, é a premissa para o surgimento de novos homens e líderes, capazes de erguer verdadeiras barreiras contra a subversão global, em correspondência com o estabelecimento de um novo clima, que disporá de suas próprias expressões únicas, mesmo em termos de cultura e civilização.
Por isso, é imprescindível reconhecer claramente a oposição entre as duas possibilidades ou as direções da postura antiburguesa mencionadas acima. Isto é especialmente verdadeiro na Itália. No passado, o fascismo adotou uma postura antiburguesa e, como parte da renovação a qual pressupunha inaugurar, desejou o advento de um novo homem, que deveria romper com o estilo burguês de pensar, sentir e agir. Infelizmente, foi um dos casos em que o fascismo nunca passou de seus próprios slogans; esses elementos no fascismo que, apesar de tudo, permaneceram burgueses ou se tornaram burgueses por contágio constituiu um dos seus pontos fracos. Na medida em que o presente está em causa, com raras exceções, o Italiano comunista médio é nada além de um burguês que vai as ruas (o próprio Lenin disse que um proletário, deixado a si mesmo, tende a torna-se um burguês), assim como um falso cristão e um membro do Partido Democrata Cristão representam nada mais do que a burguesia do templo. Mesmo aqueles que se dizem monarquistas só pode conceber um rei burguês. O pior mal para a Itália é a burguesia: o burguês-sacerdote, o burguês de trabalho, o burguês "nobre", o intelectual burguês. Este tipo é inconsistente, uma substância sem forma, na qual não existe qualquer "acima" e "abaixo". A palavra de ordem ou grito de guerra deveria ser: "limpar a lousa!" Somente seguindo esta máxima uma mudança para a direção errada pode ser evitada.
Depois de mencionar os intelectuais e realismo, ainda é necessário introduzir um ponto. Sugeri que o flerte de alguns intelectuais com o comunismo é paradoxal, uma vez que o comunismo despreza a figura do intelectual, a quem considera como um membro da odiada burguesia. Aliás, uma atitude semelhante pode ser compartilhada mesmo por aqueles que estão na frente oposta ao comunismo. Na verdade, é possível se opor a qualquer valorização exagerada da cultura e da intelectualidade, considerando o que constituem no mundo contemporâneo. Cultuar eles, definir seus representantes como um estrato social mais elevado, quase uma aristocracia - "aristocracia do pensamento", que acredita ser a verdadeira, legitimamente substituindo as formas anteriores da elite e da nobreza, é um preconceito característico da era burguesa em sua esfera humanista ou liberal. A verdade é que esta cultura e o intelectualismo são nada mais que os produtos da dissociação e neutralização dentro de uma ordem mais ampla das coisas. Como isso não passou despercebido, o anti-intelectualismo tem sido quase uma reação biológica, desempenhando um papel relevante nos últimos tempos: infelizmente, tem prosseguido em direções falsas ou problemáticas.
Não vou, no entanto, me debruçar sobre este último ponto, como já discutimos isso em outro contexto, ao lidar com o erro do anti-racionalismo. Aqui só quero salientar que, se desejamos superar a "cultura" burguesa, há um terceiro ponto de referência possível além de ambos intelectualismo e anti-intelectualismo: uma visão de mundo (em alemão - Weltanschauung). A visão de mundo é baseada não em livros, mas em uma forma interna e uma sensibilidade dotada de um caráter inato, ao invés de adquirido. É essencialmente uma disposição e uma atitude, em vez de uma cultura ou de uma teoria - uma disposição e uma atitude que não apenas dizem respeito ao domínio mental, mas também afetam o domínio dos sentimentos e da vontade, forjam o caráter da pessoa, e se manifestam em reações com a mesma certeza instintiva, dando provas de um sentido certo da vida. Normalmente, uma visão de mundo, ao invés de ser uma questão individual, procede de uma tradição e é o efeito biológico das forças que moldaram um certo tipo de civilização; ao mesmo tempo, uma placa para o sujeito [do ponto de vista do sujeito], a visão de mundo se manifesta como uma espécie de "pista interna" e uma estrutura existencial. Em todas as civilizações, era uma "visão de mundo" e não uma "cultura" que permeava os vários estratos da sociedade; onde a cultura e o pensamento conceitual estavam presentes, eles nunca tiveram a primazia, pois sua função era simples meios expressivos e órgãos em serviço da visão de mundo. Ninguém acreditava que o "pensamento puro" revelaria a verdade e forneceria um sentido para a vida: o papel do pensamento consistia em esclarecer o que já se possuía e que já pre-existia como evidências e sentimento direto, antes de qualquer especulação fosse formulada. Os produtos do pensamento tinham apenas valor simbólico, atuando como indicadores. Assim, a expressão conceitual não tinha um caráter privilegiado em relação as outras formas de expressão. Nas civilizações precedentes o último consistia em imagens evocativas, símbolos e mitos. Hoje as coisas funcionam de outra forma, considerando-se o crescimento e a hipertrofia cerebral do homem ocidental. No entanto, é importante não confundir o essencial pelo acessório, e que as relações acima referidas são reconhecidas e retidas; em outras palavras, sempre que a "cultura" e "intelectualismo" estão presentes, eles podem ter um papel apenas instrumental, expressando alguma coisa de mais profundo e mais orgânica, ou seja, uma visão de mundo. A visão de mundo pode encontrar expressão mais clara em um homem sem educação formal do que em um escritor, assim como pode ser mais fortemente representada em um soldado, um aristocrata, ou um agricultor que é fiel à terra do que no intelectual burguês, o típico "o professor", ou o jornalista.
Em relação a tudo isso, a Itália está em desvantagem, pois todos aqueles com o poder na mídia, na cultura acadêmica, em revistas críticas, e que assim, organizam, monopolizando, sociedades reais quasi-maçonicas, são os piores tipos de intelectuais, que nada sabem do significado da espiritualidade, da totalidade humana, ou do pensamento que reflete princípios fortes.
"Cultura" no sentido moderno deixa de ser um perigo apenas quando aqueles que lidam com ela já possuiem uma visão de mundo. Só então será possível uma relação ativa em direção a ela, pois, já terá uma forma interior que lhe permita discernir com segurança o que pode ser assimilado e o que deve ser rejeitado, mais ou menos como acontece em todos os processos diferenciados de assimilação orgânica.
Tudo isso é bastante evidente, ainda que tenha sido mal interpretado sistematicamente pelo pensamento liberal e individualista: uma das calamidades da "cultura livre" disponibilizada a todos e exposta por esta ideologia é o fato de que, desta forma, muitos que são incapazes de discriminação de acordo com o julgamento apropriado, e que ainda não têm sua própria forma e visão de mundo, encontra-se à mercê de influências similares. Esta situação deletéria, que é ostentada como um triunfo e como progresso, procede de uma premissa de que é exatamente o oposto da verdade: presume-se que, ao contrário dos homens que viviam nas épocas "obscurantistas" do passado, o homem moderno é espiritualmente maduro, e, portanto, capaz de julgar por si mesmo e de estar por si só (esta é a mesma premissa da "democracia" moderna em suas polêmicas contra qualquer princípio de autoridade). Mas isso é pura ilusão: nunca antes, como nos tempos modernos, houve tal número de homens que são espiritualmente sem forma, e, portanto, aberto a qualquer sugestão e intoxicação ideológica, de modo a tornar-se dominado por correntes psíquicas (sem estar ciente disso) e de manipulações pertencentes ao clima intelectual, político e social em que vivem. Mas estas considerações nos levariam muito longe.
Minhas observações sobre a "visão de mundo" complementam os aspectos do problema que tenho lidado quando mencionei o novo realismo; elas especificam onde este problema deve ser situado e resolvido, em um modo antiburguês - pois não há nada pior do que uma reação meramente intelectual contra o intelectualismo. Se o nevoeiro levantará, ficará claro que a "visão de mundo" deve ser o fator de unificação ou divisão, demarcando barreiras intransponíveis espiritualmente. Mesmo em um movimento político ela constitui o elemento principal, porque só uma visão de mundo tem o poder de produzir um determinado tipo humano e, portanto, transmitir um tom específico de uma determinada comunidade.


Com o comunismo já houve situações em que algo começou a chegar a tais profundidades. Muito corretamente, um político contemporâneo falou de uma mudança interior e profunda que, por manifestar-se sob a forma de uma obsessão, é produzido naqueles que realmente aderem ao comunismo; seu pensamento e conduta são alterados por ele. Na minha opinião, é uma alteração ou contaminação fundamental do ser humano: em tais casos, afeta o plano da realidade existencial, o que não é o que acontece com aqueles que reagem de posições burguesas ou intelectualistas. A possibilidade de uma ação revolucionária-conservadora depende essencialmente da medida em que a idéia contrária, ou seja, a tradicional, a aristocrática, a ideia anti-proletária, é capaz de atingir tais níveis existenciais - assim dando a um novo realismo e permitindo a Tradição, como uma visão de mundo, para dar forma a um tipo específico de homem antiburguês como o núcleo de novas elites, que ultrapassa a crise de todos os valores individualistas e irrealistas.

Julius Evola - Cavalcare la Tigre

sábado, 19 de julho de 2014

O Falso Amanhecer do Livre Mercado Global (por John Gray)


A política do laissez-faire que produziu a Grande Transformação na Inglaterra do século 19 foi baseada na teoria de que a liberdade do mercado é natural e as restrições políticas ao mercado são artificiais. A verdade é que o livre mercado é uma criação do poder do Estado e existe apenas enquanto o Estado for capaz de impedir que a necessidade humana de segurança e de controle dos riscos econômicos ganhe expressão política. 

Na ausência de um Estado forte voltado para a execução de um programa econômico liberal, o mercado será inevitavelmente sufocado por uma miríade de restrições e regulamento. Isto surgirá espontaneamente em resposta a problemas sociais específicos, não como elementos de qualquer grande projeto. Os parlamentares que aprovaram as Leis das Fábricas nos anos 1860 e 1870 não reconstruíram a sociedade ou a economia de acordo com um plano. Eles respondiam a problemas do dia-a-dia - perigo, miséria, ineficiência - assim que tomavam consciência deles. O laissez-faire desapareceu como inesperada consequência de uma multiplicidade de reações descoordenadas. 

Mercados controlados são norma em qualquer sociedade, ao passo que os mercados livres são produto de estratagemas, planos e coerção política. O laissez-faire deve ter um planejamento central; mercados regulamentados apenas acontecem. O livre mercado não é, como os pensadores da Nova Direita imaginaram ou afirmaram, o presente da evolução social. É um produto final da engenharia social e da vontade política obstinada. Ele foi exequível na Inglaterra do século 19 somente porque, e enquanto, as instituições democráticas em funcionamento eram deficientes. 

As implicações dessas verdades para o projeto de construção de um livre mercado mundial num período de governo democrático são profundas. É que as regras do jogo do mercado devem ser isoladas da deliberação democrática e da emenda política. A democracia e o livre mercado são rivais, não aliados.
 
A contrapartida natural da economia de livre mercado é uma política de insegurança. Se "capitalismo" quer dizer "livre mercado", então nenhuma visão é mais ilusória do que a crença de que o futuro reside no "capitalismo democrático". No curso normal da vida política democrática, o livre mercado sempre tem vida curta. Seus custos sociais são tais que não podem ser legitimados por muito tempo em qualquer democracia. Esta verdade é demonstrada pela história do livre mercado na Grã-Bretanha e isto é bem entendido pelos mais sagazes pensadores neoliberais que planejam fazer o livre mercado global. 

Aqueles que procuram projetar um livre mercado em escala mundial sempre insistiram que a estrutura legal que o define e fortalece deve ser posta fora do alcance de qualquer legislatura democrática. Estados soberanos podem filiar-se como membros da Organização Mundial do Comércio; mas é esta organização, e não a legislatura de qualquer Estado soberano, que determina o que deve ser considerado livre comércio e o que é restrição a ele. As regras do jogo do mercado devem ser colocadas acima de qualquer possibilidade de revisão através de escolha democrática. 

O papel de uma organização transnacional como a OMC é o de projetar mercados livres na vida econômica de qualquer sociedade. Ela o faz tentando forçar a adesão às regras que libertam o livre mercado dos mercados complicados ou engessados que existem em toda sociedade. As organizações transnacionais podem escapar ilesas somente na medida em que estejam imunes às pressões da vida política democrática. 
A descrição de Polanyi da legislação exigida para criar uma economia de mercado do século 19 ajusta-se com igual força ao projeto de livre mercado global de hoje em dia, como foi antecipado pela Organização Mundial do Comércio e entidades similares. 

Nada que iniba a formação de mercado deve ser permitido nem deve ser admitida que seja através de renda que não seja através de venda. Nem deve haver qualquer interferência em relação ao ajuste de preços para modificar as condições de mercado – sejam os preços das mercadorias do trabalho, da terra ou do dinheiro. Portanto, deve haver não apenas mercado para todos os produtos da indústria, como também não deve ser aprovado nenhuma medida ou política que possa influencias na ação desse mercado. Nem preço, nem oferta, nem procura devem fixados ou regulados; apenas cabem aquelas políticas e medidas destinadas a ajudar a garantir a auto-regulamentação do mercado pela criação de condições que façam do mercado a única força organizada da esfera econômica

Certamente, esta é uma fantasia irrealizável; sua busca, empreendida pelos organismos transnacionais, produziu desordem econômica, caos social e instabilidade política em países imensamente diferentes ao redor do mundo. Nas condições em que foi tentada no final do século 20 a reinvenção do livre mercado envolveu uma ambiciosa engenharia social em grande escala. Nenhum programa de reformas tem chance de êxito hoje, a menos que leve em conta que muitas das mudanças produzidas, aceleradas ou reforçadas pelas políticas da Nova Direta são irreversíveis.  Igualmente, nenhuma reação política às consequências dos planos de livre mercado será eficaz se não dominar as transformações econômicas e tecnológicas que tais planos foram capazes de utilizar. 

A reinvenção do livre mercado provocou profundas rupturas nos países em que foi tentada. As instituições políticas e socais que ela destruiu - os princípios de Beveridge na Grã-Bretanha e o New Deal de Roosevelt nos EUA - não podem agora ser reconstruídas. As economicas de mercado social da Europa continental não podem ser remodeladas como variações reconhecíveis da democracia social ou cristã do pós-guerra. Aqueles que imaginam que possa haver um retorno às "políticas normais" de administração econômica do pós-guerra iludem a si próprios e aos outros. 

Ainda assim, o livre mercado não teve sucesso em estabelecer para si o poder hegemônico projetado. Em todos Estados democráticos a supremacia política do livre mercado é incompleta, precária e, em pouco tempo, solapada. Ele não sobrevive facilmente a períodos de retração econômica prolongada. Na Inglaterra, as consequências inesperadas das próprias políticas neoliberais enfraqueceram o poder político da Nova Direita. A frágil coalização de setores do eleitorado e da área econômica que a Nova Direita mobilizou em defesa de suas próprias políticas logo se desfez. 



Contudo, a desordem da vida econômica e social hoje não é causada unicamente pelo livre mercado. Ultimamente decorre da banalização da tecnologia. As inovações tecnológicas ocorridas nos países ocidentais adiantados são logo copiadas em toda parte. Mesmo sem política do livre mercado, as econômicas dirigidas do período pós-guerra poderiam não ter sobrevivido - o avanço tecnológico as tornariam insustentáveis. 

As novas tecnologias tornam impraticáveis as políticas de pleno emprego tradicionais. O efeito das tecnologias da informação é o de levar a divisão social do trabalho a um fluxo permanente. Muitas ocupações estão desaparecendo e todos os empregos estão menos seguros. A divisão do trabalho na sociedade é agora menos estável do que foi desde a Revolução Industrial. O que os mercados globais fazem é transmitir essa instabilidade a toda economia do mundo e, agindo assim, tornam universal a nova política de insegurança econômica. 



O livre mercado não pode perdurar numa era em que a segurança econômica da maioria do povo está sendo reduzida pela economia mundial. O regime do laissez-faire está destinado a desencadear movimentos contrários que rejeitam suas características. Tais movimentos - sejam eles populistas e xenófobos, fundamentalistas ou neocomunistas - podem atingir poucas de suas metas; mas também podem destroçar ruidosamente a frágil estrutura que sustenta o laissez-faire mundial. Devemos aceitar que a vida econômica mundial não pode ser organizada como um livre mercado universal e que formas melhores de governar pela regulamentação global são inalcançáveis? Seria o nosso destino histórico uma anarquia moderna tardia? 

É necessário uma reforma da economia mundial que aceite a diversidade de culturas, regimes e economias de mercado como uma realidade permanente. O livre mercado global pertence a um mundo no qual a hegemonia ocidental parece assegurada. Como todas as variáveis da utopia iluminista sobre uma civilização universal, esta pressupõe a supremacia ocidental. Não se harmoniza com um mundo pluralista no qual não há poder que possa esperar exercer a hegemonia que a Grã-Bretanha, os Estados unidos e outros Estados ocidentais exerceram no passado. Não vai ao encontro das necessidades de um tempo no qual as instituições e os valores ocidentais não são mais universais. Não permite que as diversas culturas do mundo busquem modernizações adaptadas às suas histórias, circunstâncias e necessidades particulares. 

Um livre mercado global trabalha para jogar os Estados soberanos uns contra os outros em lutas geopolíticas por causa da diminuição dos recursos naturais. O efeito de uma filosofia laissez-faire que condena a intervenção estatal na economia é o de impelir os Estados a se tornarem rivais no controles de dos recursos, cuja conservação não é da responsabilidade de nenhuma instituição. 



Nem, evidentemente, uma economia mundial organizada como um livre mercado global vai ao encontro da universal necessidade humana de segurança. A raison d'être de qualquer governo é a capacidade de proteger seus cidadãos da insegurança. Um regime de laissez-faire global que impede os governos de cumprir esse papel protetor está criando as condições para uma instabilidade política, e econômica, ainda maior. 

Nas economias avançadas, competente e engenhosamente controladas, podem ser encontrados caminhos nos quais os riscos impostos aos cidadãos pelos mercados mundiais possam ser reduzidos. Nos países mais pobres, o laissez-faire global produz regimes fundamentalistas e funciona como um catalisador para a desintegração do Estado moderno. Em nível mundial, bem como no de Estado-nação, o livre mercado não promove estabilidade ou democracia. O capitalismo democrático mundial é uma condição tão irrealizável quanto o comunismo mundial. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Encontro com Roman Ungern von Sternberg

Ferdinand Ossendowski, escreve sobre seu encontro com Ungern-Sternberg no seu livro "Bestas, Homens e Deuses (1922)"

Filhos de Cruzados e de Corsários

— Fale-me de você e de sua viagem — pediu. Contei-lhe tudo que me pareceu poder interessa-lo. Ele ouvia-me com muita atenção.

— Agora  quero  falar-lhe  a  meu  respeito,  assim você  saberá  quem  eu  sou.  O meu nome é circundado  de  tanto  ódio  e  terror  que  ninguém consegue mais isolar a verdade da mentira, e a história da lenda. Quem sabe, qualquer dia você vai querer  escrever  um  livro;  então  você recordará  sua  passagem  pela  Mongólia  e  sua estada na "yurta" do "general sanguinário". Fechou  os  olhos,  e  sem  deixar  de  fumar, começou  a  falar  nervosamente,  sem  completar as frases, como se o tempo fosse escasso.

—  A família  Ungern  von  Sternberg  é antiga; há, nas  suas  origens,  uma  mistura  de  alemães  e húngaros,  de  hunos  no  tempo  de  Átila.  Meus antepassados eram guerreiros e participaram de todas as guerras européias. Foram cruzados: um Ungern morreu perto das muralhas de Jerusalém, combatendo com a tropa de Ricardo Coração de Leão.  Durante  a  trágica  cruzada  das  crianças morreu  outro,  Raoul  Ungern,  que  tinha  apenas onze  anos.  Quando os mais valentes guerreiros do  país  foram  enviados  para  as  fronteiras orientais do império germânico para lutar contra os  eslavos,  no  século  XII,  meu  antepassado Arthur  achava-se  entre  eles;  ele  era  o  Barão Halsa  Ungern  Sternberg.  Os cavaleiros dessas comarcas  fronteiriças  formaram  a  ordem teutônica dos monges cavaleiros, e converteram ao  cristianismo,  pelo  ferro  e  pelo  fogo,  as populações  pagãs  de  lituanos,  estonianos, livônios e eslavos. Sempre houve um membro da minha família  na  ordem  dos  Cavaleiros teutônicos, desde sua fundação. Quando a ordem foi  desmantelada  no  Gruenewald,  derrotada pelas  tropas  polonesas  e  lituanas,  dois  barões Ungern  von  Sternberg  morreram  no  campo  de batalha.  Nossa família  sempre  teve  espírito bélico,  com  tendência  aos ascetismo  e  ao misticismo.
Entre os séculos XVI e XVII vários barões Ungern von  Sternberg  moravam  em  seus  castelos  na  Livônia  e na Estônia. Suas aventuras inspiraram muitos  contos  e  muitas  lendas.  Heinrich  von Sternberg, cuja apelido era "o Machado", era um cavaleiro  errante.  Seu  nome  e  sua lança  eram conhecidos  em  todos  os  torneios  da  França,  da Inglaterra, da Itália e da Espanha, e ele inspirava terror  a  todos  os  seus  adversários.  Morreu  em Cadiz quando a espada de um cavaleiro abriu-lhe o crânio. O Barão Raoul Ungern era um bandido cavaleiro que agia na região entre Riga e Reval. O  castelo  do  Barão  Pierre  Ungern  localizava-se na  ilha  de  Dago,  no  mar  Báltico,  e  daí  ele  saía, para  as  suas  investidas  de  corsário,  contra  os navios mercantes. No  começo  do  século  XVIII  o  Barão  Wilhelm Ungern  ficou  conhecido  pelo  pseudônimo  de "irmão de Satã" pelas suas práticas de alquimia. Meu avô era corsário no Oceano Índico, e exigia um  tributo  dos  navios  mercantes  ingleses. Durante muito tempo conseguiu fugir dos navios de  guerra  britânicos,  mas  foi  finalmente capturado  e  entregue  ao  cônsul  russo,  que  o mandou  para  a  Rússia.  Foi  condenado  ao desterro na Transbaikalia.  Eu também sou oficial da Marinha, mas durante a guerra nipo-russa tive que  abandonar  minha  profissão  e  agregar-me aos Cossacos do Zabaikal. Consagrei minha vida toda à guerra e ao estudo do budismo. Meu avô levara a doutrina budista da Índia: meu pai e eu aderimos a ela. Tentei fundar uma ordem militar budista na Transbaikalia para organizar uma luta implacável contra a depravação revolucionária.
Calou-se  por  um  momento,  enquanto  bebia várias xícaras de chá, forte e preto ao ponto de parecer café.
— Ah,  a  depravação  revolucionária!  Quem  se preocupa  com  ela,  fora  Bergson,  o  filósofo francês, e o sábio Tachi Lama no Tibete?
O  neto  do  corsário,  que  citava  teorias  e  obras científicas,  nomes  de  sábios  e  de  escritores,  a Bíblia e os livros budistas, continuou, misturando o idioma francês ao alemão, ao russo e ao inglês: — Nos livros budistas e nos antigos escritos cristãos  encontram-se  profecias  importantes  a respeito  da  época  na  qual  deverá  começar  a guerra  entre  os  espíritos maus  e  os  espíritos bons.  Então  chegará  a  praga  desconhecida  que dominará  o  mundo,  varrendo  toda  a  civilização, calcando  a  moral  e  destruindo  os  povos.  Sua arma  é  a  revolução.  Durante  toda  revolução,  a inteligência  criadora,  auxiliada  pela  experiência do passado, será substituída pela força jovem e brutal do destruidor. Por isso as paixões vis e os baixos instintos dominarão. O homem se afastará do divino e do espiritual. Durante a guerra ficou provado que a Humanidade deve procurar ideais sempre  mais  elevados:  mas  foi  justamente naquela  época  que  surgiu  a  praga  vaticinada pelo  Cristo,  pelo  apóstolo  São  João,  por  Buda, pelos  primeiros  mártires  cristãos,  Dante, Leonardo  da  Vinci,  Goethe  e  Dostoievsky.  Essa maldição  que  apareceu  estancou  o  progresso, barrando nosso caminho em direção ao divino. A revolução  é  uma  doença  contagiosa  e  a  Europa prejudicou-se  a  si  própria  negociando  com Moscou,  como  já  tinha  prejudicado  as  outras regiões do mundo. O Grande Espírito colocou em nossas  vidas  o  Karma,  que  não  conhece  nem  a cólera,  nem  o  perdão.  Ele  regula  nossa contabilidade, e o resultado será a fome, a destruição,  a  morte  da  civilização,  da  glória  e  da honra, o fim das nações, o fim dos povos. Posso até  vislumbrar  esse  horror,  essa  tétrica  e  louca destruição da humanidade.

[...]

— Você  tem  certeza  que  não  vai  se  entediar? Muito  bem,  vou  continuar  minha  história,  não tenho muito a acrescentar, porém vai ser a parte mais interessante.

— Já disse a você que era minha intenção fundar uma  milícia  budista  na  Rússia.  Por  quê? Para proteger  a  evolução  da  humanidade  e  lutar contra  a  revolução:  estou  convencido  de  que  a evolução leva à divindade, enquanto a revolução só pode levar à bestialidade. Quanto trabalhei na Rússia!  Na  Rússia  os  camponeses  são  gente grosseira,  iletrados,  continuamente  levados  por acessos  de  cólera,  odiando  tudo  e  a  todos  sem nem  saber  porque.  São  desconfiados  e materialistas;  não  possuem  qualquer  ideal.  E  os intelectuais vivem num idealismo imaginário que carece  totalmente  de  realidade.  Eles  tendem  a criticar tudo mas não possuem energia criadora. Eles  não  têm  força  de  vontade;  só  sabem  falar, falar,  falar!  Como  os  camponeses,  também  os intelectuais não  gostam de nada  e  de  ninguém. Seus  sentimentos  são  completamente imaginários,  seus  pensamentos  passam  sem deixar  vestígio,  palavras  vazias.  Meus companheiros evidentemente começaram logo a transgredir  o  regulamento  da  ordem.  Então  ordenei  que  o  celibato  fosse  obrigatório,  assim como  a  abstenção  total  de  contato  com mulheres, dos confortos da vida e de tudo que é supérfluo,  segundo  os  ditames  da  religião amarela,  Para  ajudar  os  russos  a  dominar  seus instintos,  mandei  que  eles  consumissem  álcool, haxixe e ópio em quantidades ilimitadas. Hoje eu mando enforcar os soldados que ingerem álcool; naquela  época,  porém,  nós  bebíamos quantidades  incríveis,  até  contrairmos  a  "febre branca", até o "delirium tremens". Não consegui manter  a  ordem,  mas  agrupei  à  minha  volta trezentos  homens  nos  quais  eu  tinha  instilado uma  audácia  extraordinária  e  uma  ferocidade sem limites. Durante a guerra contra a Alemanha eles  portaram-se  como  heróis,  e  tiveram  a mesma  atuação  contra  os  bolcheviques.  Restou apenas um pequeno grupo.

[...]


— Durante a guerra vimos como o exército russo estava  sendo  aos  poucos  corrompido;  previmos que  a  Rússia  trairia  seus  aliados  e compreendemos  os  perigos  que  adviriam  da revolução.  Então  para  reagir  contra  tudo  isso, planejamos  reunir  os  povos  mongóis  que  não olvidaram  sua  antiga  fé,  nem  esqueceram  seus antigos  costumes, para  formar  um único Estado asiático,  composto  de  tribos  autônomas,  sob  a soberania  moral  e  jurídica  da  China,  pátria  da mais  antiga  e  da  mais  evoluída  civilização.  O  Estado compreenderia os chineses,, os mongóis, os  tibetanos,  os  buriats,  os  kirguizes  e  os calmucos.  O  Estado  devia  ser  material  e moralmente poderoso a fim de poder agir como uma  barreira  contra  a  revolução  e  poder preservar cuidadosamente a filosofia e a política do  respeito  à  pessoa,  sendo  esta  uma  célula daquele. Se a humanidade louca e corrupta continua  afrontando  o  espírito  divino  que  está  no coração  dos  homens,  a  derramar  o  sangue  e  a impedir  a  evolução  moral,  então  esse  Estado asiático  tem  por  obrigação  sustar  com  qualquer meio a marcha para a destruição e restabelecer a  ordem,  e  uma  paz  que  seja  estável  e duradoura.  Durante  a  guerra  essas  idéias  se propagaram  até  entre  os  turcomanos,  os kirguizes os buriats e os mongóis.

[...]

O  carro  corria  novamente  pela  planície,  descrevendo  uma  grande  curva  e  o  barão  estava tecendo considerações sobre a vida asiática, com aquela sua voz rude e nervosa.
— A Rússia traiu a França, a Inglaterra e a América quando assinou o tratado de Brest-Litovsk, e com  isso  trouxe  o  caos.  Naquela  ocasião decidimos  mobilizar  a  Ásia  contra  a Alemanha. Nossos  enviados  penetraram  na  Mongólia,  no Tibete,  no  Turquestão  e  na  China.  Foi  nessa mesma  época  que  os  bolcheviques  iniciaram  a matança  dos  oficiais  russos;  por  esse  motivo tivemos  que  abandonar  nosso  projeto  pan-asiático,  concentrando  todo  nosso  esforço  na guerra  civil.  Esperamos  que  mais  tarde tivéssemos a possibilidade de acordar a Ásia inteira,  e  devolver,  com  a  sua  ajuda,  o  reino  de Deus  e  a  paz  ao mundo  todo.  Estou  muito satisfeito  de  ter  contribuído  para  essa  obra, libertando a Mongólia.
Ficou algum tempo calado, refletindo.

— Alguns  dos  meus  associados  nessa  obra  não gostam de mim, pelo meu rigor e por aquilo que eles  denominam  de  minhas  atrocidades  — acrescentou tristemente. — Eles parecem não ter ainda  compreendido  que  não  estamos  apenas lutando  contra  um  partido  político,  mas  contra uma horda de assassinos, contra os destruidores da  civilização  contemporânea.  Por  que  os italianos  executam  os  anarquistas  que  jogam bombas?  Por  que  então  não  me  reconhecem  o direito  de  livrar  o  mundo  da  corja  que  quer destruir  a  calma  do  povo?  Eu,  descendente  de cavaleiros teutônicos, de cruzados e de corsários, só  reconheço  a  morte  como  castigo  adequado para  os  assassinos!... 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ortodoxia, Direitos Humanos e Marxismo (por Vladimir Moss)


As Origens da Filosofia: Lei Natural


A filosofia moderna dos direitos humanos é uma teoria da moralidade universal que liga todos os homens, todas as instituições e estados independentemente da existência de Deus ou de qualquer legislador pessoal. 

As raízes desta filosofia reside na ideia ocidental medieval da lei natural. Esta nasceu a partir da necessidade de colocar limites em duas instituições que, de formas diferentes, se julgavam estar acima da lei: o Sacro Império Romano e o Papado Romano.


De acordo com a lei romana, o imperador estava acima da lei, ou libertos de leis humanas (Legibus solutus), na medida em que "aquilo que agrada ao Príncipe tem vigor de lei". Mas, se ele rompe suas próprias leis, quem iria julgá-lo e quem iria impedi-lo de criar outra lei com intuito de fazer sua transgressão anterior legal? O papa era igualmente considerado acima da lei - ou seja, livre das disposições do direito canônico. Esta era uma consequência de seu "poder absoluto" (potestas absoluta), pois se ele pecasse contra o direito canônico, ou caso torna-se um herege, quem iria julgá-lo, se não o especialista supremo sobre o assunto, o próprio papa? E quem poderia julgá-lo se ele se recusasse a julgar a si mesmo?

No entanto, embora o Rei possa ser libertado das leis do Estado, e o papa libertado do Direito Canônico da Igreja, ambos estavam, teoricamente, sujeitos a um outro tipo de direito. Esta lei superior foi chamada pelos teóricos medievais da lei natural. A lei natural é definida pelo historiador medieval da filosofia escolástica Pe. Frederick Copleston como "a totalidade das ordens universais da razão pertinentes a natureza do homem, onde o bem deve ser buscado e o mal ser evitado". 

Mas esta definição levanta a questão: como sabemos o que é "razão correta"? E o que é "o bem da natureza humana"? A resposta dada pelos teólogos medievais, de acordo com JS McClelland, era mais ou menos a seguinte: "Para uma máxima de moralidade ou uma máxima de um bom governo ser parte da lei natural, essa tem que ser consistente com a escritura, com os escritos dos Padres da Igreja, com o pronunciamento papal, com o que dizem os filósofos, e também devem ser consistentes com as práticas comuns da humanidade, tanto cristãs e não cristãs".

Mas isso, também, levanta várias questões. O que devemos fazer se "pronunciamento papal" contradizer "os escritos dos Padres da Igreja" (como costuma acontecer)? E "o que os filósofos dizem" provavelmente não estaria ainda mais em desacordo com os Santos Padres? E "as práticas comuns da humanidade, tanto cristãs e não cristãs" um conceito extremamente vago e discutível?

E é, de facto; e é por isso que, mesmo na sua versão mais moderna e secularizada, a filosofia da lei natural, ou direitos humanos, tem-se mantido extremamente vaga e discutível. Mas isso não impede, tanto naquela época como agora, que esse conceito seja uma arma muito poderosa nas mãos daqueles que, por um motivo ou outro, querem derrubar a hierarquia vigente ou sistema de moralidade. Vemos isso até mesmo em Tomás de Aquino, o maior dos escolásticos e um filho fiel da Igreja Católica Romana. Ele definiu a relação entre a lei natural e as leis feitas pelo homem da seguinte forma: "Toda lei estabelecida pelo homem tem natureza de lei na medida em que deriva da lei da natu­reza. Se, pois, discordar em alguma coisa, da lei natural, já não será lei, mas corrupção dela."

A primeira aplicação importante do princípio da lei natural veio durante a crise da Magna Carta na Inglaterra. Papa Inocêncio III havia colocado toda a Inglaterra sob proibição porque o Rei João discordava dele sobre quem deve ser o arcebispo de Canterbury. Ele excomungou Rei João, depuseram-no do trono e sugeriu ao Rei Filipe Augusto da França para que ele invadisse e conquistasse a Inglaterra. João apelou para a mediação papal para salvá-lo de Philip. Ele a recebeu, mas a um preço - a restituição completa dos fundos e terras da igreja, concessão perpétua das terras da Inglaterra e Irlanda para o papado, e ao pagamento de uma renda anual de mil marcos. Só quando todo o dinheiro havia sido pago, a proibição foi suspensa. E então, como Peter De Rosa coloca com acidez: "por gentil permissão do Papa Inocêncio III, Cristo foi capaz de entrar na Inglaterra novamente" No entanto, isso enfureceu o Rei Filipe; pois ele agora havia sido ordenado a abandonar seus preparativos para a guerra e não mais tinha permissão para invadi-las, pois agora não era Inglês, mas solo papal. Além disso, a rendição miserável de João ao Papa, e o juramento de fidelidade que havia feito, despertou os temores dos barões ingleses, cujas demandas levou à famosa Carta Magna de 1215 que limitava os poderes do Rei e é geralmente considerada como o início da democracia ocidental moderna. Assim, o despotismo do Papa provocou o início da democracia parlamentar...

Agora, com a Carta Magna, havia limitação do poder Real, não o poder Papal. No entanto, isso afetou também o papado: em primeiro lugar, porque a Inglaterra deveria ser um feudo papal, mas, ainda mais importante, foi o fato de haver agora precedente perigoso, revolucionário, que poderia ser usado contra o próprio Papa. E assim, Papa Inocêncio III "da plenitude de seu poder ilimitado" condenou a carta como "contrária à lei moral", "nula e sem validade de tudo eternamente", absolveu o rei da obrigação de segui-la e excomungou "qualquer pessoa que continuasse a manter tal traição e pretensões iníquas. "

Mas o Arcebispo Stephen Langton de Canterbury se recusou a publicar esta sentença. E a razão que ele deu foi muito significativa: "A lei natural é vinculativa para os papas, príncipes e bispos da mesma forma: não há como escapar dela. Ela está além do alcance do próprio papa."

E assim, a doutrina da lei natural abriu o caminho para o povo julgar e destituir os papas e reis. No entanto, ao longo do período medieval e no início do período moderno, a lei natural permaneceu ligada ao cristianismo e as normas cristãs de comportamento. E desde que o cristianismo em geral não favorece a rebelião contra os poderes constituídos, o potencial revolucionário completo do conceito ainda não estava realizado.



Da Lei Natural aos Direitos Humanos

Primeiro, o conceito de lei natural precisou ser desenvolvido. A primeira questão foi: se a lei natural existe, quem é o legislador? Ou, se não houver um legislador, qual é a sua base na realidade? A segunda questão: supondo que exista uma base real para lei natural, em oposição ao Divino, ou eclesiástico, ou do estado, o que ela prescreve? Em particular, uma vez que toda lei implica direitos e obrigações, quais são os direitos e obrigações legislados pela lei natural, e para quem são dadas?

Considerável "progresso" em responder a estas perguntas foi feita no início do período moderno. Durante a Renascença, o interesse começou a ser focado na natureza do homem, e, em particular, a liberdade homem e dignidade - uma base promissora, na visão do homem do Renascimento, para uma teoria da lei natural. Assim, Leonardo da Vinci escreveu: "O principal bem da natureza é a liberdade". Mais uma vez, Pico della Mirandola escreveu em sua Oração sobre a Dignidade do Homem:  "O sublime generosidade de Deus Pai! Ó felicidade maior e mais maravilhosa do Homem! Para ele, foi concedido a ser o que ele quer. O Pai dotou-o de todos os tipos de sementes e com os germes de todas as formas de vida. Seja qual for a semente que cada homem cultiva, esta vai crescer e dar frutos nele ". Assim, o homem é supostamente concedido "para ser o que ele quer" ... Mas ele está? Será que, na verdade, ele não está restrito em todas as formas em que ele queira ser?  Se por liberdade do homem, queremos dizer o livre arbítrio, então sim, o homem tem livre-arbítrio. A criação do homem por Deus, em Sua imagem, significa que o homem nasceu com a liberdade e racionalidade à imagem da Racionalidade e Liberdade de Deus. Mas isso é de modo algum igual à capacidade de "crescer os germes de todas as formas de vida" em si mesmo. Pode um homem estúpido "crescer os germes" de um gênio dentro de si?

No entanto, a ideia de que o homem "nasce livre" se tornou agora um lugar-comum do pensamento político, e também a base para muitas conclusões de longo alcance sobre a vida e a moralidade. Se o homem nasce livre, então ele não é pela natureza, sujeito a nenhum poder externo, quer seja Deus, a Igreja, o Estado ou a Família. E uma vez que ele é assim por sua natureza, ele o direito de permanecer assim...

Se há um homem que pode ser considerado o criador da filosofia moderna, não-cristã e não religiosa dos direitos humanos, esse homem, provavelmente é o jurista holandês do século XVII, Hugo Grotius (1583-1645). Grotius estava escrevendo sob a influência das guerras religiosas entre católicos e protestantes, e também as guerras comerciais entre as nações europeias, como a Inglaterra, Holanda e França.  Ele queria encontrar uma maneira de regular as guerras de acordo com princípios que fossem universalmente aceitos. Como a maioria dos homens de sua época, ele era um cristão, e até mesmo escreveu uma obra popular, "Sobre a Verdade da Religião Cristã". No entanto, em sua obra mais influente, sobre o Direito de Guerra e Paz, ele deixou escapar uma frase que apontaria o caminho para uma teoria do direito internacional e dos direitos humanos, que era completamente independente da moral ou teologia: "Até mesmo a vontade de um ser onipotente", escreveu ele, "não é possível alterar ou revogar" a lei natural, que "manteria sua validade objetiva mesmo que se assumíssemos o impossível, que não há Deus ou que Ele não se importa com assuntos humanos"(Prolegômenos XI).      

De acordo com Grotius, portanto, a lei natural é a verdade mais objetiva, mais objetiva, se fosse possível, que a existência de Deus ou o cuidado de Deus para o mundo. Assim sendo, teoricamente, se lei natural diz que algo é certo, ao passo que Deus diz que é errado, devemos nos ater à lei natural. Claro que, se lei natural deriva, em última análise de Deus, não haverá nunca qualquer conflito entre a lei Divina e a lei natural; mas Grotius aparece aqui para prever a possibilidade de um mundo com a lei natural, mas sem Deus. 
Direitos Humanos e a Revolução Francesa

Vamos avançar agora para a Revolução Francesa e da "Declaração dos Direitos, que Homem e do Cidadão", que se tornou sua fundamento teórico:
     “’I. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
      II. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
       III. O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
        IV. A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo.
        V. A lei proíbe senão as ações nocivas à sociedade…”

Não houve menção na Declaração dos direitos das mulheres. Mas, em   "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" (1791), Olympe de Gouges escreveu: "1. Mulher nasce livre, e continua a ser igual ao Homem na direitos ... 4. Os exercícios dos direitos naturais da mulher não encontra outros limites senão na tirania perpétua que o homem lhe opõe... 17. As propriedades pertencem a todos os sexos, reunidos ou separados". Mais uma vez, em "Uma defesa dos Direitos da Mulher" (1792), Mary Wollstonecraft negou que houvesse qualquer qualidades especificamente femininas: "Eu aqui jogo fora minhas luvas, e nego a existência de virtudes sexuais, sem excetuar a modéstia" E havia outro elementos.  Assim, o artigo XXI da Declaração revisada de 1793, declarou: "A assistência pública é uma obrigação sagrada [dette]. A sociedade deve a subsistência aos cidadãos desafortunados, quer para encontrar trabalho para eles, ou para assegurar os meios de sobrevivência daqueles incapazes de trabalhar ".

 Papa Pio VI condenou a Declaração dos Direitos Humanos. Em particular, ele condenou a ideia de "liberdade absoluta", a liberdade "que não só garante às pessoas o direito de não ser incomodadas sobre suas opiniões religiosas, mas também lhes dá licença para pensar, escrever e de imprensa, sendo assim permitindo a impunidade sobre tudo o que a imaginação mais desregrada pode sugerir sobre religião. É um direito monstruoso..." Assim Deus, disse o Papa, também possui direitos: “O que é mais contrário aos direitos do Criador que essa ‘liberdade de pensamento e ação em que a Assembleia Nacional concede ao homem como um direito inalienável da natureza’?”

 Existem duas inovações nesta filosofia revolucionária. Em primeiro lugar, a fonte de autoridade na sociedade é anunciada não ser Deus, nem alguma autoridade política existente, mas "a nação". Portanto as nações devem ser consideradas como agentes livres com direitos, e a fonte de todos os direitos particulares em suas próprias sociedades.

Mas o que constitui a nação? A essência da nação, e a fonte de seus direitos, é o que Rousseau chamou de "Vontade Geral" - um termo muito vago e que ninguém pode afirmar representar. Ao mesmo tempo, esta "nação" ou "Vontade Geral" atribui a si o poder mais completo, de modo que "nenhum homem e nenhum indivíduo pode exercer autoridade que não emana dela diretamente." Isto imediatamente destrói a autoridade, não só do Rei, mas também da Igreja - e, na verdade, de todas as outras pessoas.

A segunda inovação é o conceito que "direitos" que são "imprescritíveis" - isto é, prescritos nem por Deus nem pelo homem. O homem, de acordo com a Declaração, tem o "direito" imprescritível de fazer qualquer coisa que ele gosta - desde que ele não prejudique os outros (artigo 4 º). No entanto, esta última possibilidade não está elaborada e foi, na prática, completamente ignorada na tradição revolucionária francesa. Assim, o homem é, em princípio, livre para fazer qualquer coisa que seja. A única limitação na sua liberdade é a liberdade de outro: o seu direito de não ser limitado ou restringido por ele. 




Direitos Humanos no Século XX


O século XX testemunhou importantes desenvolvimentos na filosofia dos direitos humanos. A mais importante delas foi a localização da fonte dos direitos humanos; não no poder soberano da nação ou o Estado-nação, como a Declaração Francesa dos Direitos Humanos havia decretado, mas em alguma esfera supra-nacional. Ao admitir-se que os direitos humanos são universais, tem-se, por consequência, a necessidade que sejam enquadrados em termos gerais aplicáveis a todos homens e mulheres; dessa forma, localizar sua obrigatoriedade em lugares que não seja supra-nacional ou em uma esfera-metafísica, mas em nações particulares ou estados - que, muito frequentemente, discordam entre si - parece não fazer sentido. 

O problema é que se levarmos esse argumento à sua conclusão lógica, parece implicar que todos os Estados nacionais deveriam abrir mão de seus direitos e entregá-los a um governo mundial, Que por si só pode imparcialmente formular direitos humanos e observar se serão cumpridos. Esta lógica parece ser reforçada pelas duas primeiras guerras mundiais, que tendo desacreditado o nacionalismo, conduziu às primeiras organizações internacionais com poderes legais, ainda que embrionários, acima dos Estados-Nação - a Liga das Nações e as Nações Unidas.


Um dos primeiros a formular este desenvolvimento foi o judeu vienense e professor de Direito, Hans Kelsen, em sua obra, A Teoria Pura do Direito. "A essência de sua teoria," de acordo com Michael Pinto-Duschinsky era que a obrigação de obedecer à lei não deriva da soberania nacional, mas a partir de uma norma fundamental. “Em termos práticos, isto conduziu, após a Primeira Guerra Mundial, para sua defesa em tribunal constitucional austríaco, como parte da constituição e, depois da Seguida Guerra Mundial, o apoio da ideia de uma corte internacional com jurisdição obrigatória era fundamental no contexto das Nações Unidas.”

Outro acadêmico judeu austríaco na mesma tradição foi Hersch Lauterpacht. Sua dissertação "combinou seus interesses em jurisprudência e sionismo com um argumento sobre os mandatos concedidos pela Liga das Nações que implicava que o mandato dado a Grã-Bretanha para governar a Palestina não lhe dava soberania. Pelo contrário, isto levou, argumentou Lauterpacht, as Ligas das Nações que... 

"Apesar do fracasso da Liga das Nações para evitar a agressão nazista e do assassinato de sua família no Holocausto na Segunda Guerra Mundial, Lauterpacht permaneceu ligado às noções de uma ordem jurídica internacional. Antes de sua morte prematura, em 1960, serviu como juiz no Tribunal Internacional de Haia. Lauterpacht era dedicado à visão básica de que direitos humanos fundamentais são superiores as leis de estados internacionais e que essas seriam protegidas por sanções penais internacionais mesmo que as violações estivessem em conformidade com as leis nacionais vingentes. Ele aconselhou os promotores britânicos neste ponto. Juntamente com outro advogado judeu de Lviv, Raphael Lemkin, Lauterpacht teve um papel importante no trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1948. 

"A filosofia pública de Lauterpacht estava baseado na convicção de que os indivíduos têm direitos que não resultam do Estado-Não. Ele era um internacionalista que, ao longo de sua vida, tinha uma desconfiança na soberania do Estado que, para ele, refletia as agressões e injustiças cometidas pelos Estados-Nação e os desastres das duas guerras mundiais".

No entanto, como Pinto-Duschinsky sublinha com razão, enquanto "arbitragem internacional pode ser uma maneira prática e pacífica para resolver disputas entre países, ... tribunais internacionais que clamam jurisdição sobre países individuais não coexistem confortavelmente com as noções de soberania nacional..."

A despeito disso, e apesar da terrível destruição e derramamento de sangue causado pela idéia de liberdade positiva no período 1917-1945, em 1948 as Nações Unidas publicaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que declarou: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade." A Declaração afirma que "o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo." Embora possa parecer inofensivo, mesmo uma leitura superficial da história desde 1789 deveria convencer aqueles que elaboraram a Declaração a serem mais específico sobre o significado das palavras "liberdade" "direitos".  Eles deveriam saber que declarações muito semelhantes serviram como fundamento à Revolução Francesa e também a quase todas as outras revoluções sangrentas até a Revolução Russa, que naquele momento ainda estava destruindo milhões de almas em nome do "espírito de fraternidade"...

Por falar em direitos humanos, no contexto do capitalismo global, John Gray escreve: "Os fundamentos filosóficos desses direitos são frágeis e mal construídos. Não existe uma teoria credível na qual as liberdades particulares do capitalismo desregulamentado possam haver legitimidade dos direitos universais." As concepções mais plausíveis de direitos não se baseiam em ideias de propriedade do século XVII, mas em noções modernas de autonomia. Mesmo estes não são universalmente aplicáveis; eles capturam a experiência apenas daquelas culturas e indivíduos para quem o exercício da escolha pessoal é mais importante do que a coesão social, o controle de risco econômico ou qualquer outro bem coletivo.

"Na verdade, os direitos nunca são fundamentos na teoria moral, política - ou prática. Eles são conclusões, resultados finais de longas cadeias de raciocínio a partir de princípios comumente aceitos. Direitos têm pouca autoridade ou conteúdo na ausência de uma vida ética comum. Eles são convenções duráveis somente quando expressam um consenso moral. Quando há uma discordância ética profunda e ampla, o apelo aos direitos não pode resolver. Na verdade, talvez faça tal conflito perigosamente incontrolável.

“Procurar por direitos para arbitrar profundos conflitos - em vez de tentar moderara-los através de compromissos políticos - é uma receita para uma guerra civil a longo prazo..."

Há um argumento plausível que a filosofia dos direitos humanos foi inventada pelos marxistas como outra forma de minar a sociedade, já que o colapso previsto por Marx não se concretizou. Assim, como Bernard Connolly escreveu, em 1923, um dos fundadores da Escola de Frankfurt de filosofia social "refletiu sobre o fracasso do "proletariado urbano" em criar revoluções bem-sucedidas em países economicamente avançados na forma prevista por Marx. Para combater esse fracasso era necessário, proclamou, "Organizar os intelectuais e usá-los para destruir a civilização ocidental. Só então, depois de terem corrompido todos os seus valores e ter feito a vida impossível, podemos impor a ditadura do proletariado". Corromper os valores da civilização ocidental significava minar e, finalmente, proibir todas as instituições, tradições, estruturas e modos de pensamento ('ferramentas de opressão") que sustentaram a civilização. Uma vez que a soberania nacional e a legitimidade política fossem removidos do caminho, seria muito mais fácil para que um governo central, inexplicável e nefasto ("politicamente correto") proibisse todos os outros fundamentos da civilização." 

Melanie Phillips endossou o pensamento de Connolly, descrevendo o ataque da filosofia dos direitos humanos à cultura cristã tradicional na Grã-Bretanha como "marxismo cultural", a continuação da revolução marxista por outros meios, desde a queda do Muro de Berlim, em 1989: 

"À medida que o comunismo desintegrou-se vagarosamente, os da extrema esquerda que permaneceram hostis para a civilização ocidental encontrou uma outra maneira de realizar seu objetivo de derrubá-la. 

"Isso foi o que poderia ser chamado de "marxismo cultural ". Foi com base no entendimento de que o que mantém a sociedade de pé, são os pilares de sua cultura: as estruturas e as instituições de educação, família, direito, mídia e religião. Transforme os princípios e você pode, assim, destruir a sociedade que fora moldada por eles. 

"A chave da compreensão foi desenvolvido em especial, por um filósofo marxista italiano chamado Antonio Gramsci. Seu pensamento foi retomado por radicais nos anos sessenta - que são, é claro, a geração que detém o poder no Ocidente hoje.

"Gramsci compreendeu que a classe trabalhadora nunca se levantaria para se apossar dos meios de "produção, distribuição e troca ", como o comunismo tinha profetizado. A economia não era o caminho para a revolução.

"Ele acreditava, em vez disso, que a sociedade poderia ser derrubada se os valores que a sustentam pudessem ser formado em sua antítese: se seus princípios fundamentais fossem substituídos por aqueles de grupos que eram considerados estranhos ou que ativamente transgredissem os códigos morais da sociedade.

"Então, ele defendeu uma "longa marcha através das instituições" para capturar as cidadelas da cultura e transformá-las em uma quinta coluna coletiva, minando por dentro e deixando todos os valores fundamentais da sociedade de cabeça para baixo.

"Essa estratégia tem sido realizado ao pé da letra.

"A família nuclear tem sido amplamente destruída. A ilegitimidade foi transformada de um estigma em um "direito". A desvantagem trágica da ausência de um pai foi redefinida como algo neutro, uma "opção de vida". 

"A educação foi destruída, tendo seu princípio central, a transmissão de cultura para as gerações seguintes, sido substituído pela ideia de que as crianças já sabiam o que carregava valores superiores a qualquer coisa que o mundo adulto pudesse impingir neles. 

"O resultado desta abordagem "centrada na criança" tem sido o analfabetismo generalizado, ignorância e a erosão da capacidade de pensamento independente.      

"A lei e a ordem foram igualmente prejudicados, com criminosos sendo considerados acima de qualquer punição, uma vez que são considerados "vítimas" da sociedade e das drogas ilegais - assim, tacitamente encorajando uma campanha para denegrir as leis anti-drogas.

"A agenda de 'direitos' - vulgarmente conhecido como" politicamente correto "- virou moralidade dentro para fora, dispensando qualquer ação ilegal por parte de grupos de autodesignados "vítimas ", alegando que nunca poderiam ser responsabilizado pelo que fizeram.

"O feminismo, anti-racismo e direitos dos homossexuais, portanto, transformou os Cristãos em inimigos do pudor ao serem forçados a saltar obstáculos para provar a sua virtude.

"Essa mentalidade se baseia na crença de que o mundo está dividido entre os poderosos (que são responsáveis por todas as coisas ruins) e oprimidos (que são responsáveis por nenhum deles).

"Esta é uma doutrina marxista. Mas a medida em que tal pensamento marxista foi absorvido involuntariamente até mesmo pelo Estabelecimento, esse foi ilustrado pela observação surpreendente feita em 2005 pelo então sênior, Lord Bingham, que a lei de direitos humanos era toda sobre a proteção das minorias 'oprimidas' da maioria ...

"Quando o Muro de Berlim caiu, nós dissemos a nós mesmos que este era o fim daquela ideologia. Não poderíamos ter sido mais enganados.

 “A Cortina de Ferro caiu apenas para ser substituída por um soco inglês em tom de arco-íris, pois, na medida em que nossos comissários culturais pulverizaram todas as atitudes proibidas, a fim de remodelar sociedade ocidental em um universo pós-democrático, pós-cristão e além das morais. Lenin teria sorrido..."