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sábado, 6 de agosto de 2016

Feminismo e Ideologia de Gênero desde uma perspectiva Tradicional


Voltando ao tema que nos ocupa, sobre a importância do feminino como símbolo do "pilar da emancipação", e sua exclusão posterior do núcleo ideológico do paradigma moderno, se observarmos as antigas tradições espirituais pode-se notar que geralmente se tem associado ao masculino o ativo e o exterior, o aspecto exotérico de uma cultura, enquanto que o feminino está associado ao passivo, o interior, o oculto, aquilo que não é mostrado explicitamente à luz - a alma, por exemplo, está sempre relacionada com o feminino -, e assim, o feminino está relacionado não tanto com o polo exotérico, mas com a dimensão esotérica - interior - da tradição.

 Nós já discutimos em outros momentos sobre o conceito tradicional dos opostos, não como inimigos, que parecem apenas aparentemente, mas como complementares que deverá conduzir a um novo equilíbrio e ordem que os transcende. A superação de ambos produz em uma síntese criativa, que muitas tradições representavam basicamente sob duas imagens:

 - O "mito do andrógino '- assim, por exemplo, em Platão e em toda a tradição hermética ocidental (sob a forma de Rebis).
 
- O Hierogamos - em tradições cabalísticas, como foi recentemente exposto por Moshe Idel e muitas vezes presente na literatura mística ocidental. É a partir deste modelo de Eros platônico e Hierogamos, como forma de ultrapassar manifestação individual, que a cultura do amor cortês medieval se desenvolveu.
 
Às vezes, ambos os mitos tornaram-se complementares e referiam-se a momentos diferentes da manifestação, assim, por exemplo, na tradição platônica, o mito do 'andrógino primordial' foi adicionado como um complemento reconstitutivo do mito do Eros como força de união dos opostos.  




Se considerarmos por um momento o modelo de representação da Árvore Sefirótica, veremos que os pilares exteriores representam os polos masculinos e femininos, enquanto que o Pilar Central representa a (re)-união dos dois opostos em um equilíbrio perfeito, que é imediatamente associado com a ideia mítica do andrógino que estamos analisando. 

 Para mostrar como esta reunificação das potências humanas tomava a forma mítica da androginia e até que ponto o masculino e o feminino eram compreendidos como fatores complementares e não como opostos, tomaremos um exemplo da Cabala Hebraica, uma tradição considerada como o paradigma do machismo patriarcal mais indesejável para o pensamento profano e moderno. 

    "Todos possuem necessariamente aspectos masculinos e femininos. Isto é particularmente o caso de tzaddiq [o 'justo']. (...) O aspecto masculino significa o que sempre emana. (...) Mas também há um aspecto feminino, ou seja, aquele que recebe e atrai o influxo dos mundos superiores para os mundos inferiores". (Heshel de Apta, 'Ohev Yisra'el')

A referência ao 'justo' é particularmente significativa, uma vez que enfatiza como aquele que se realiza espiritualmente aperfeiçoa esta complementaridade entre os aspectos masculino e feminino - que tudo o que existe necessariamente possui - o que nos leva para a reconstrução mítica do andrógino primordial como dizíamos.  O "justo" realiza em si esta verdade primordial que simboliza o mito do andrógino, esse detalhe é importante como mostraremos no fim do artigo. Importa notar que esta ideia da presença inseparável do masculino e do feminino na totalidade do que existe já está contida na representação da Árvore cabalística, pois todas as séfiras, ou esferas, são femininas em relação aquelas que lhe são superiores - pois recebem delas - e masculina em relação aquelas que lhe são inferiores - pois emanam até elas.


O falso retorno do feminino na modernidade
 
No entanto, a modernidade não conjugou estes opostos para desenvolver um equilíbrio entre eles. Devido a algumas razões que analisaremos mais adiante, para o paradigma moderno, o polo que denominamos como o 'de controle' tem sido a tal ponto hegemônico no desenvolvimento da civilização europeia ocidental que tem expulsado por completo aqueles modos de ser e entender o mundo - assim como toda disciplina de conhecimento - que poderiam estar associadas com o polo feminino ou 'emancipador'. Este fenômeno de exclusão da diferença está, como veremos a seguir, na base da extrema rigidez do paradigma moderno e na consequente perda de flexibilidade e diversidade que o acompanha desde sua origem.

 Antecipando em quase dois séculos a revisão cultural que aquilo que o feminismo moderno tem pretendido nas últimas décadas, Goethe advertiu esta expulsão do feminino do quadro mental e conceitual ocidental e alegou que recuperou o que se chamou de o 'eterno feminino'. A este 'eterno feminino' haviam estado secularmente associados as disciplinas humanistas e liberais como as arte, a poesia e outras; disciplinas que, como facilmente nota-se, foram deslocadas do núcleo do novo paradigma dominante e que perdeu muito de seu prestígio na nova ciência, mais semelhante ao paradigma moderno, racionalista, rígido e excludente.

 Desde então, o retorno do feminino visto por Goethe não ocorreu, e o ocidente continuou a abandonar-se ao racionalismo mais extremo e o desenvolvimento mais titânico, que representa - para a modernidade - a essência da masculinidade.

Curiosamente, as primeiras críticas à hegemonia da masculinidade e do racionalismo, que anunciou de alguma forma o começo da desintegração do paradigma atual, vieram da psicanálise, que, ao seu modo, marcadamente anti-tradicional, ao menos voltou sua atenção para a alma humana, desprezada por séculos pelo paradigma racionalista e cientificista. Não queremos dizer com isso que a psicanálise desempenhou um papel saudável ou benéfico para a civilização ocidental, pois não acreditamos que sim, mas que deixou claro as rachaduras no paradigma moderno e colocou a atenção sobre algumas de suas principais falhas. Foi precisamente Jung que recuperou a antiga proposta de Goethe, reivindicando o papel do feminino em mitos e símbolos ocidentais, fazendo amplo uso de algumas expressões que já mencionamos antes, como o "eterno feminino" ou "andrógino".
 
Nós podemos mostrar graficamente as diferentes situações do feminino no contexto dos dois paradigmas - tradicional e o moderno - pela ilustração a seguir.



 
No paradigma tradicional fica claro que se estabelece uma diferença entre os polos masculino e feminino - na retórica moderna seriam "gêneros" - que aparentemente aparecem como opostos. Para representar graficamente tal relação entre o masculino-feminino temos nos inspirados mais uma vez a Árvore Sefirótica e seus dois pilares ou colunas, qualificados tradicionalmente como masculino e feminino. Entretanto, seria um erro interpretar essa diferença como uma superioridade de um polo sobre o outro, porque é claro que se quer indicar a complementariedade. 
 
No fundo, esta divisão, corresponde aquela que já citamos entre a Razão e o Intelecto, sendo o polo racional, o masculino - aquele que requer o desenvolvimento lógico e reflexivo - e o polo intelectual, o feminino - que é considerado intuitivo e direto. O polo feminino seria o âmbito típico de poetas e artistas, mas também dos profetas e xamãs, e o masculino, da ciência e da filosofia racionalista.

De modo que, estritamente falando, o polo feminino deve ser um pouco mais elevado que o masculino, pois a faculdade intelectual, como já dissemos aqui, é superior, por natureza, à faculdade racional, uma vez que é mais principial: está mais próxima dos princípios imutáveis e não depende de acidentes.
 
Justificar tudo o que disse acima seria muito longo, especialmente por causa da imensa propaganda existente direcionada para nos convencer do contrário, então nós preferimos deixar para outra ocasião. Só diremos, como exemplo histórico para ilustrar estas reflexões, que, na Grécia antiga, o profetismo era uma coisa quase exclusiva as mulheres, porém estas - sibilas, sacerdotisas, hetairas - não eram tomadas como inferiores, ao contrário, eram respeitadas por toda a sociedade e em particular por os homens, a tal ponto que o próprio Sócrates diz ter sido iniciado nos Mistérios por uma mulher, Diotima, a qual ele tratava como mestra, com veneração e respeito. Algo inédito e surpreendente para a história moderna, na qual se acusa de doença mental o fenômeno místico, onde se encontra na literatura acadêmica que muitas místicas e visionárias medievais - e algumas delas santas, incluindo até mesmo Doutoras da Igreja - descritas como neuróticas. Claro que é necessário nunca ter lido uma página escrita por estas mulheres nem saber sobre sua vida - assombrosamente ativas - para dizer tais coisas. Gostaríamos de saber se talvez esta não é uma negação a todo custo do nível supra-racional, um desprezo absoluto pelo "feminino".
 
Além do mais, o modo em que a civilização clássica grega aceitava a religião, o misterioso e, em geral, o não-racional (em vez de irracional) - incluindo certas tradições xamânicas que sobreviveram entre eles por muitos séculos - como parte do cotidiano, refuta claramente a imagem hiper-racionalista que o ocidente tem tentado construir desta parte da história em relação com outras civilizações daquela época. Mais uma vez, o núcleo ideológico - e supersticioso - que caracteriza a modernidade não se vê afetado pelo fato de que a realidade desmente seus falsos mitos repetidos ou que seus argumentos sejam tão escandalosamente falsos. 
 
E, finalmente, ver nessa diferença uma injustiça flagrante a ser reparada supõe algo muito próprio do pensamento homogeneizador e impositivo que funciona na modernidade: negar a realidade de que estas diferenças existem. Acaso os homens e as mulheres não são diferentes? Acaso diferente é sinônimo de inferior? E, além do mais, são diferentes por natureza, o que parece ser um detalhe especialmente odioso para modernidade, obcecada desde décadas em mostrar que tais diferenças são relacionadas ao ambiente... É o homem moderno que vê "opressão" e "injustiça" e que deve libertar-se de todas as partes, embora, talvez a maior injustiça - especialmente quando se referem as sociedades passadas que não compreendemos nada - esteja no seu olho e em seu olhar do que na própria realidade.

Dito isto, e retornando à ilustração anterior, na qual o modo pelo qual o feminino é representado nos paradigmas moderno e tradicional, com o esquecimento e desprezo do poder intelectual pelo paradigma racionalista, o polo feminino foi completamente subordinado ao polo masculino, viu-se privado de qualquer direito de existir - representava o anormal e devia ser abolido - e assim foi banido para as profundezas do subconsciente, o único lugar onde poderia sobreviver. Neste ponto, é muito interessante as reflexões de Patrick Harpur, sobre como aquilo que é 'aprisionado' e reprimido no subconsciente volta à consciência de forma cada vez mais monstruosa e problemática, criando, entre outras coisas, doenças mentais e desequilíbrio social. É para isto que Freud e a psicanálise dirigiram sua atenção, como observamos anteriormente. Mas, esta realidade dolorosa, óbvia, não importa de modo algum para a elite intelectualista do paradigma hegemônico da modernidade, nem as doenças de seus habitantes nem os desastres da sociedade que movem as ciências sociais modernas - a (pseudo)-psicologia moderna por exemplo - faz com que abandonem o tão querido paradigma cientificista atual.

 Um subconsciente-feminino que, aliás, perdeu o polo superior - espiritual - que deve guiar a vida humana, não demorou em voltar-se para arte moderna, já desde o romantismo - mas ainda mais nas vanguardas do século XX  - em plena decomposição. O que deixa bem claro que em verdade não há lugar para a arte verdadeira na racionalidade exclusivista, o que quer dizer que o paradigma moderno expulsou a arte para fora de si para poder impor o seu modelo de vida e sociedade, radicalmente pragmático e extremamente vulgar. Isto pode surpreender alguns, mas ficará claro em mostrar que a única 'arte' - se assim pode ser chamada, o que não cremos - que permite o paradigma racionalista ocidental é precisamente aquela que brota da parte mais inferior, passional e irracional da alma humana. Uma 'anti-arte' que, em vez de apontar para algo superior, claramente conduz ao infernal. Com efeito, a arte é uma expressão privilegiada da alma humana e, quando esta alma está doente ou é diretamente negada, que arte pode surgir?
 
Em última análise, no novo paradigma racionalista, cientificista e mecanicista, caracterizado antes de tudo por des-animar - extrair a alma - o mundo, o feminino foi relegado para o subconsciente - identificado com o emocional, o enfermo, o irracional, bruxaria, magia, etc... - e o masculino identificou-se de forma exclusiva com a racionalidade técnico-prática, materialista. Assim, as trevas da razão veio a obscurecer a luz do intelecto.

Em conclusão, acreditamos que é impossível uma crítica profunda à racionalidade prática impositiva e excludente que tem sido praticada no ocidente ao longo dos últimos séculos se se carece de uma perspectiva tradicional que situe a razão e o intelecto em seus devidos lugares. Sem essa perspectiva, todas críticas serão parciais ao paradigma ocidental, e nos encontraremos novamente diante do paradoxo que exige o 'cumprimento do programa ilustrado', quando é este mesmo programa - social e epistemológico - a origem do problema. E esperamos que nunca chegue a ser cumprido, pois o desastre seria de proporções cósmicas.


O feminismo moderno visto desde a Tradição

Disto isto, pode parecer que o feminismo moderno venha a recuperar esta feminilidade perdida a que nos referimos, secularmente associado com o 'pilar da emancipação' e testemunho inegável de outros modos de ser e compreender o mundo, mas a verdade é que este está longe de ser o caso, pois o feminismo moderno é verdadeiramente a antítese do que tradicionalmente simboliza o feminino, opondo-se radicalmente e visando substituir permanentemente. 

Embora seja verdade que durante décadas se reivindica um retorno do feminino à sociedade, com a repetida acusação de promover valores exclusivamente associados à masculinidade - racionalismo, competitividade, etc -, o retorno que tomou lugar é meramente exterior e não envolve a menor mudança no modo de entender e construir a ordem social.  Ao contrário: o que trouxe consigo, esta espécie de 'tendência cultural', que é o feminismo moderno, não tem sido uma mudança no modo de compreender o mundo nem uma transformação revolucionária do mesmo, como o discurso de poder quer nos fazer querer acreditar, mas apenas uma maior visibilidade das mulheres na sociedade, totalmente exterior e, portanto, sem importância para todos efeitos: as mulheres ainda estão completamente imersas em uma sociedade que continua a ser a mesma que era antes de sua especial 'libertação feminista', imersa em um paradigma ideológico e social radicalmente machista e racionalista.

Assim, a maior presença exterior do feminino não se constitui como uma alternativa - nem como uma dissidência - em relação à ordem do paradigma predominante, proveniente do 'pilar do controle', mas, ao contrário, representa um passo em direção ao aprofundamento nele mesmo e em sua hegemonia no ordenamento da sociedade, destruindo as últimas resistências ao mesmo, a saber: a família e a figura da maternidade.

Não é por acaso que a maternidade tornou-se a 'besta negra' do feminismo moderno mais radical, contra a qual se dirigem as mais duras injúrias progressistas, o que confirma outra de nossas teses: o ódio da modernidade à natureza.  É a clássica oposição entre a natureza e a cultura - expressa também como irracional vs racional -, onde a natureza deverá ser completamente abolida para criar uma realidade exclusivamente construida, isto é, técnica, abolindo mais uma vez o emocional e o interior em prol do pragmatismo.

Como podemos ver, mais uma vez, a modernidade não se trata de integrar a diferença - o 'pilar da emancipação' que está associado com o natural e o irracional - mas ao contrário, de eliminá-lo. Assim resulta que, desvendando a retórica progressista que cativa a sociedade, a mulher não é um 'sujeito a libertar-se', mas sim um 'objeto a ser destruído' por parte do feminismo como projeto político e da revolução feminina como fato social. Acrescentamos que, o que se esconde por trás da promessa de libertar o homem e a mulher de todas suas 'correntes' é apenas isto: negar e roubar sua natureza essencial; toda essência, toda qualidade, deve ser destruída para que, por fim, a nova ordem seja imposta, o novo mundo que a modernidade tanto anseia. Finalmente chega-se a imersão na matéria indiferenciada e desqualificada para realização do "reino da quantidade", nas palavras de Guénon.

O que dizemos é confirmado quando comprova-se que o feminismo moderno não se trata da contribuição da mulher para a civilização moderna dos valores que o feminino tradicionalmente incorporaram nas sociedades pré-modernas, trata-se exatamente do oposto: esses valores tradicionais, associados ao 'pilar da emancipação', simbolizada pela mulher, família, o respeito às tradições dos antepassados e o mundo rural, são vistos pelo feminismo moderno não como valores a serem recuperados, mas como desvalores a serem combatidos e apagados, vestígios de um passado que deve ser completamente esquecido - mas uma vez nos deparamos com a 'cultura do palimpsesto' -. O feminismo moderno é apenas um passo nesta direção, da supressão das raízes e desenraizamento do homem moderno, o que significa a construção de uma nova feminilidade ultra-moderna, cada vez mais próxima do 'pólo masculino' que governa a sociedade e que tanto se tem criticado e se diz combater. A realidade é que dessa forma não se combate em verdade o 'pilar do controle' mas, ao contrário, serve a ele mesmo mediante a destruição de suas possíveis alternativas.

Por esta razão, o feminismo nascido depois da Segunda Guerra Mundial,  descaradamente anti-tradicional, não significa o retorno da visão emancipatória e feminina da realidade, mas envolve, ao contrário, sua anulação final com base na derradeira destruição das poucas resistências que poderiam derrubar o domínio absoluto do 'pilar do controle' monolítico e seus ideais humanistas.


Feminismo e machismo, dois lados da mesma modernidade anti-tradicional.

Algumas considerações finais se impõem. Em primeiro lugar, se reconhecermos que o feminino e a emancipação foram expulsos do núcleo paradigmático Ocidental e da construção de sua identidade a partir de sua origem, o retorno do feminino, se é real e não meramente uma aparência revolucionária - uma máscara de poder - como tem sido apresentada pelos diversos feminismos, deve implicar o fim - ou pelo menos uma certa alternativa - da mesma mentalidade moderna lhe marginalizou.

E, uma vez que a modernidade - como paradigma de conhecimento - exclui o polo feminino da emancipação por definição, o retorno dos valores e realidades que isso implica nunca poderá ocorrer dentro da própria modernidade. Portanto, aqueles "feminismos" que defendem e fortalecem a modernidade - que reivindicam uma maior conformidade com o programa ilustrado - só podem ser julgados como cúmplices da ordem vigente, cúmplices da destruição daquilo que verdadeiramente sempre simbolizou o feminino.

Por outro lado, verificamos muitas vezes que o conceito de feminismo opõe-se a seu conceito antagônico: o machismo. Assim, é extremamente necessário notar o paradoxo de que o feminismo moderno, na medida em que é precisamente moderno, não pode lutar contra o machismo sistêmico que diz denunciar - o tão conhecido patriarcado - pois faz parte indissoluvelmente da ordem social que lhe moldou e dele necessita para existir.

O feminismo, com toda sua aparência de oposição e reivindicação, não é mais que um passo no avanço do paradigma machista hegemônico dos últimos séculos e que moldou a civilização atual. Um paradigma em que a técnica, o estado e o capital têm prioridade sobre o indivíduo, seja homem ou mulher. Esta é a terrível realidade de uma sociedade que mistifica um modo de conhecimento - a técnico-ciência - que não está a serviço dos seres humanos, mas de um poder cada vez mais distante e desumanizado, e denunciar as desigualdades de gênero antes de denunciar esta verdade - que se encontra na base daquelas - é demagogia ou mascarar a verdade.

Assim, portanto, o feminismo não é uma luta contra o machismo - contra o qual, ainda se quisesse, não poderia combater, pois são filhos de um mesmo pai: a modernidade anti-tradicional -, mas antes de tudo uma luta contra o gênero, enquanto divisão socialmente apropriada dos papéis masculinos e femininos.

É evidente que o fato de que exista diferenças de 'gênero', assim como seu reconhecimento explícito, não implica por si só que um gênero submeta-se a outro. Mas, esta evidência lógica não significa nada para o feminismo moderno e sua propaganda moderna de desprezo de todo o passado, nem altera em nada seu programa político de redesenho e desconstrução da sociedade. Esta é a verdadeira agenda oculta do feminismo enquanto agente político de divisão e dominação social: a abolição de toda diferença entre o homem e a mulher. Por isso o feminismo jamais afirmou ou reivindicou os valores tradicionais da feminidade - aqueles que chamam de 'cúmplices do patriarcado' - mas antes pretende redefinir a feminidade, dissolvendo-a e destruindo tudo o que possa ser feminino. Aqui, seu caráter anti-tradicional é claramente demonstrado.

Subjacente a este propósito está o caráter que já definimos como fundamental na modernidade desde seu início: o ódio pela diferença; o qual é inevitavelmente seguido por seu corolário positivo: o igualitarismo. Esta abolição dos gêneros não conduz a igualdade alguma mas, como vimos no desenrolar destas páginas, a um estado de coisas muito consistente com o projeto social da modernidade: o igualitarismo a todo custo e a homogeneidade da sociedade.

Ou seja, na linguagem que estamos empregando para definir este paradigma, o que se busca não é outra coisa senão a ausência da diversidade, pois, como já vimos, a diversidade - assim como a liberdade verdadeira, não a libertação revolucionária - é vista como uma ameaça potencial à ordem vigente do 'pilar do controle'. A modernidade considera a igualdade como a 'ausência de diferença' - a conhecida doutrina de 'todos somos iguais' - e, especialmente, tendo em conta a prioridade que o exterior e a aparência possuem nas mentalidades modernas mais radicais, a 'ausência de diferenças exteriores'.


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Ainda há mais. Este igualitarismo esconde atrás de si uma realidade ainda mais inquietante. Tem sido dito muitas vezes que a modernidade impõe um igualitarismo por baixo e há evidências irrefutáveis disso, como visto nas tendências que gradualmente ganham força na sociedade de hoje, como a desconstrução de gêneros, os novos tipos de mulher e de (pseudo)-feminidade - marcados por uma exagerada androgenização, mais uma vez anti-tradicional, incluindo o estético - ou na moda conhecida como unisex, por exemplo, sem necessidade de falar nas novas sexualidades e modelos de relacionamento que todo tempo estão a inventar. É em direção a esta "ausência de diferença" para onde aponta as conquistas feministas do último século.

O que está por trás dessas atitudes não é apenas uma campanha de destruição da masculinidade, aqui há um ódio de igual forma ao masculino e feminino. Portanto, para o feminismo, assim como para todo o projeto globalista, não se trata em combater a desigualdade, mas destruir toda diferença, uma diferença que parece incomodar especialmente a modernidade mais radical.

Não é surpreendente, portanto, que a feminização e a desconstrução do homem - exterior e também de seu caráter - tenha acontecido lado a lado uma extrema androginização da mulher. Tal tendência, já denunciada no início do século XX, demonstra que o paradigma machista-racionalista não mudou em nada e continua a ser hegemônico em todos lugares, inclusive entre as mulheres, pois estas, em vez de afirmarem-se como o que são - mulheres - tem imitado quase sempre o protótipo do sexo masculino para sentirem-se aceitas na sociedade que dizem criticar, já desde os primeiros coletivos feministas - o que denota algo patológico e não um desejo de emancipação; na realidade invejam a situação social dos homens - e mostram-se cada vez mais na sociedade naquilo que antes era competência exclusiva dos homens. E, sobretudo, imitando o polo masculino em seu pior, isto é, naquelas atitudes mais brutas e grosseiras, como é evidente para qualquer pessoa que está livre de preconceitos. Para realizar tudo isso, a ideologia feminista, que, como toda ideologia moderna é "contra alguma coisa" - define-se por seu inimigo - vem aplicando a tática de se vitimizar, problematizar e inferiorizar as mulheres até o ponto em que odeiam quem são.

Sendo o feminismo moderno mais um subproduto, e dos mais grotescos, da pós-modernidade anti-tradicional, aquela que celebra destruir a si mesma, compartilha plenamente com ela seu característico ódio a si mesmo, a seu passado e a tudo o que é; e sua última missão, não é acabar com o 'patriarcado' moderno - representado sobretudo pelo par Estado-Mercado - mas redefinir a noção de sujeito, desconstruir as pessoas desde sua sexualidade e redesenhar a sociedade... em última análise, dissolver.

O feminismo é, portanto, uma força dissolvente mais forte; um verdadeiro niilismo, dos muitos que atualmente desmembram nossa sociedade.


O andrógino moderno como inversão do andrógino primordial.

Chegamos a conclusão de nossa análise. Como podemos ver, estamos aqui diante da inversão exata do mito tradicional do andrógino primordial. Se o ideal dos alquimistas e dos hermetistas cristãos era essencialmente a integração em sua personalidade de suas duas polaridades - entendidas como complementariedades -, o que é, antes de tudo, um processo interior de assunção da própria natureza, não excludente mas inclusivo, em que pouco poderia importar a aparência externa, o ideal do "novo andrógino" é o nivelamento por baixo entre o homem e a mulher, uma espécie de dessexualização e queda na indiferenciação da matéria primordial. Tal indiferenciação primordial é sobretudo uma imagem da ausência de qualidades, o que é um sinal evidente do 'reino da quantidade' como já nos avisou magistralmente René Guénon.

  Assim, a convergência dos gêneros masculino e feminino em um universo unisex, é um caso análogo ao que representa o ideal da proletarização universal que anunciavam e sonhavam os utopismos do século XIX, contrário a ideia tradicional da ordem social baseada em castas. O proletário não supera as castas por cima - o que seria o ideal do ativarna hindu - mas sim por baixo, anunciando a desqualificação completa do homem - que é, de fato, o avarna, literalmente "sem cor", isto é, sem qualidade. Ambos modelos de igualitarismos revolucionários envolvem a desqualificação do sujeito e, portanto, um rebaixamento de sua dignidade ontológica, um sujeito que, coisificado, passa a ser uma peça do sistema, sem qualidades que lhe defina ou lhe diferencie do resto de outras peças, e, sendo assim, perfeitamente intercambiável por qualquer outra peça, em uma homogeneidade que é uma imagem dessa indiferenciação própria da Matéria Prima que dizíamos e que reflete na mesma sociedade a ideia da cadeia de montagem industrial. Tudo isso anuncia um futuro de prevalência indiscutível dos sem castas: a 'ditadura do proletariado', uma massa de pessoas sem passado, sem raízes, sem terra, controlados por um sistema de produção completamente exteriorizado e alheio; como pode-se defender semelhante projeto social?

Se o andrógino tradicional era antes de tudo uma realidade interior e implicava uma superação dos gêneros - para o qual é necessário aceitar e assumir previamente-, com vistas de dar lugar a uma ordem e equilíbrio que transcenderia por cima, pelo alto - tal e como citamos o modelo do ativarna, o homem que supera toda as castas-, agora, o novo equilíbrio unisex passa a negar a diferença, e até mesmo a existência, de tais realidades masculinas e femininas, igualando por baixo, em sua parte inferior, em um retorno à indiferenciação da matéria sem forma, isto é, sem qualidade. Se por um lado a androginia tradicional simboliza a integração da alma do sujeito, em um interior harmônico e equilibrado, a perfeição da alma humana; a androginia pós-moderna, por outro lado, é sua antítese terminal: representa a indiferenciação primordial contida no caos primevo, uma descida ao inferior - o reino da matéria - e, como tal, pode certamente ser descrita como infernal.

Mais um exemplo de como a modernidade é a inversão infernal - inferior - da ordem tradicional ou normal.


Escrito por Ramés, no blog Agnosis (link)

sábado, 6 de junho de 2015

Sobre historicismo (Por Julius Evola)

O que vou dizer pode causar algumas dificuldades para aqueles que não tenham renunciado a mentalidade historicista.

Devemos começar observando que a ênfase dada à noção de "história" é recente e alheio a toda civilização normal; muito mais recente é a personificação da história em algum tipo de entidade mística que é o objeto de uma fé supersticiosa, como são muitas das outras abstrações personificadas que se tornaram moda em uma idade que afirma ser "positivista" e "científica". Muitas pessoas estão acostumadas a escrever História com H maiúsculo, assim como no passado, a primeira letra do nome de uma divindade se encontrava em maiúsculo.

O primeiro e mais geral significado do historicismo refere-se ao colapso ou a desastrosa mudança da civilização do ser (caracterizada pela estabilidade, a forma, a adesão a princípios supratemporais) para civilização do devir (caracterizado pela mudança, fluxo e contingência) [1]. Este deve ser nosso ponto de partida. Numa segunda fase, os valores foram invertidos, e esse "escavamento" passou a ser visto como uma coisa positiva, que não só não deve ser resistido, mas também exaltado, aceitado e desejado. Nestas circunstancias, as ideias de "História", "progresso" e "evolução" estiveram intimamente associadas umas com as outras; assim, o historicismo tem frequentemente aparecido como uma parte integrante do progresso do século XIX, constituindo o fundo de uma civilização racionalista, científica e tecnológica.

Afora isso, o historicismo em um sentido específico está na visão básica da filosofia, originalmente inspirada por Hegel, que esteve representada na Itália pelos filósofos Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Passo agora a explicar sobre o espírito e a "moralidade" do último tipo de historicismo.

Como é conhecido, Hegel viu uma coincidência entre as esferas de realidade e da racionalidade, portanto, seu famoso axioma: "Tudo o que é real é racional, e tudo o que é racional é real". Eu não vou examinar este problema de uma perspectiva metafísica, ou sub specie aeternitatis [a partir da perspectiva da eternidade]. No entanto, é certo que a partir de um ponto vista concreto e humano este axioma é dúbio por duas razões. A primeira é que, a fim de que seja útil, deveria primeiramente conhecer diretamente, a priori, e numa forma determinada, o que deve ser chamado de "racional" e usa-lo como a ordem ou a lei que que a História e todos os eventos sempre supostamente refletem. O desacordo entre os historicistas sobre esta questão é significativa: a verdade é que cada um deles é inspirado por suas próprias especulações subjetivas, no nível de filosofia de faculdade; o que realmente falta aqui é a visão de um 'olho de pássaro' mais modesto, necessário para compreender não só o que está além dos fenômenos, mas também o que está escondido por trás das causas mais evidentes nos levantes históricos. A segunda razão é que (mesmo se fôssemos acreditar no que este ou aquele filósofo postula como "racional") no curso da experiência comum não é possível detectar a identidade completa do racional e do real; assim, podemos nos perguntar se alguém ao fazer a afirmação dessa identidade chama algo "real" porque é racional, ou vice-versa, se ele chama de algo "racional" só porque é apenas real, ou porque se apresenta como realidade factual.

                                                   

Mesmo sem se envolver em uma crítica filosófica apropriada - como fiz em outros lugares, quando critiquei o chamado "idealismo transcendental" [2] - isso é suficiente para expor o caráter ambíguo e efêmero do historicismo. É precisamente por vivemos no mundo do devir, que se caracteriza por uma rápida mudança de eventos, circunstâncias e forças, que, por um lado historicismo se reduz a uma "filosofia passiva do fato consumado" e a uma teoria que concede uma "racionalidade" em tudo o que se afirmou com sucesso [3]; por outro lado, o historicismo pode promover igualmente reivindicações "revolucionárias" quando alguém não quer reconhecer o real como "racional". Neste caso, em nome da "razão" e "História", interpretado em proveito próprio, uma condenação é transmitida no que é. Uma terceira solução ainda é possível, como uma mistura dos dois anteriores, ou seja, rotular tudo como "anti-História" aquilo que procura afirmar-se ou tende a realizar-se ou restaurar uma ordem diferente da existente, mas ainda sem sucesso, exceto quando se justifica e é dado como "racional", no caso de sua vitória ou afirmação, pois então tornou-se "real". 

Assim, dependendo da situação, o historicismo pode, igualmente estar no lado de um conservadorismo de segunda categoria ou que de utopias revolucionárias, ou, como provavelmente ocorre mais frequentemente, do lado de quem sabe como se adaptar a novas circunstâncias, deslocando fidelidade de acordo com o caminho que o vento sopra. Assim, 'História' e 'anti-História torna-se slogans desprovidos de qualquer conteúdo concreto e que podem ser utilizados em ambos os sentidos, de acordo com as preferências pessoais, no contexto de um jogo de dados que os representantes dessa visão chamam de "dialética" ou "dialética histórica".

O exemplo típico disso foi o desenvolvimento que ocorreu na Alemanha, partindo das premissas do historicismo hegeliano, de uma teoria da autoridade e estado absoluto de um lado (uma teoria inútil de um sistema que, estando arraigados em valores tradicionais, não haveria necessidade alguma de uma justificativa filosófica), e uma ideologia marxista revolucionária e "dialética" no outro. Um exemplo mais recente, na Itália, é a inimizade entre Gentile e Croce, ambos eram historicistas comprometidos. No entanto, Gentile, ao assumir como racional o que foi posto na arena política, concedeu o caráter de "historicidade" sobre o fascismo, colocando sua filosofia a seu serviço. Por outro lado, Croce, devido a suas preferências pessoais e ideológicas, pensou que o "racional" correspondia ao anti-fascismo liberal; assim, ele estigmatizou a ordem fascista, embora fosse 'real', como sendo "anti-histórica". Depois que o vento mudou de direção, muitas pessoas que foram fascistas ontem acordou alguns anos mais tarde como anti-fascistas; esses vira-casacas podem ser considerados como os representantes da terceira possibilidade - aqueles que se tornam 'atualizados' sobre o que a "História" e sua "racionalidade" deseja de tempos e tempos. [4]

Estas breves referências mostram o que equivale o historicismo. É essencialmente uma filosofia sem forma, inútil e vã, às vezes até mesmo covarde e oportunista; ou é irrealista ou grosseiramente realista, dependendo das circunstâncias. Mas, além das elucubrações do historicismo como uma filosofia e sua correspondente deformidade mental que parte da cultura academica é culpada, nós devemos expor o mito da História com o H maiúsculo, especialmente quando este mito promove a narcose daqueles que não estão cientes das forças que se renderam, e isso ajuda aqueles que querem que a corrente se torne mais rápida, evitando qualquer oposição para cessar; apelando ao "sentido da história", essas pessoas estigmatizam toda atitude diferente das suas como "anti-histórica" ou "reacionária". 

Este tipo de historicismo, quando não é uma alucinação sem sentido de pessoas que não bate bem da cabeça, se trata obviamente da cortina de fumaça da qual as forças de subversão mundial operam. Surpreendemente, mesmo entre aqueles que anseiam restaurar uma ordem antiga, existem alguns que não estão cientes disto; eles são incapazes de rejeitar o mito historicista em todas as suas formas, não reconhecendo que são os homens que fazem ou desfazem a história, se for dado a oportunidade. Temos que ser opostos a qualquer consagração e "racionalização" do status quo e devemos negar qualquer reconhecimento das forças ou correntes que assumiram o poder. Devemos recordar que o anátema de ser "anti-histórico" e "fora da história" é lançado contra aqueles que ainda se lembram do modo como as coisas eram antes e que chamam a subversão pelo seu nome, em vez de se conformar com os processos que estão precipitando o declínio do mundo.

Tendo feito isso claro, o homem é restaurado a uma liberdade de movimento; ao mesmo tempo, o terreno para trabalho está posto para uma possível investigação destinada a julgar as influencias efetivas que promoveram esta ou aquela reviravolta na história. Tendo vencido todos os historicismo, estamos livre tanto da ideia que o passado é algo que mecanicamente determina o presente e também do conceito de uma lei teleológica, evolucionária e transcendental que, para todos efeitos práticos, nos leva de volta ao determinismo. Em seguida, cada fator histórico aparecerá ter um papel condicionante, mas nunca determinante. A possibilidade de uma atitude ativa para o passado será salvaguardado, especialmente a possibilidade de defender tudo que é inspirado por valores supratemporais.
______________

[1] Em relação às civilizações do ser e devir, ver meu L'Arco e la Clava [O Arco e a Maça] (Milan: Scheiwiller, 1971), cap. 1.
[2] Ver a minha Teoria dell'Individuo Assoluto [Teoria do Absoluto Individual] (Turim: Bocca, 1927) e Saggi sull'Idealismo Magico [Ensaios sobre idealismo mágico] (Roma: Atanor, 1925).
[3] É necessário salientar que o espírito da filosofia original de Hegel era um tipo de processo de sanção da razão pura, tanto assim que Hegel, quase como Platão ou os Eleatas, acusa a natureza ou realidade de 'impotência' onde quer que ela não se apresentou em conformidade com a racionalidade apriorística sancionada. O colapso completo do "racionalismo ético", no sentido historicista de uma conformidade passiva de vontade e realidade; da idéia e fato, ocorreu nos epígonos de Hegel, e especialmente no 'atualismo' de Gentile.
[4] Embora a filosofia de Gentile seja desagradável (ou seja, fraca, presunçosa e confusa) como suas atitudes parternalistas, autoritárias e monopolizadoras durante a era fascista, no entanto, devemos atribuir seu mérito como um homem que teve coragem de permanecer no lado do fascismo mesmo quando ele deveria ter considerado-o como 'historicamente passé', como ficou ao lado perdedor da guerra. 

Retirado do livro Men Among the Ruins: Post-War Reflections of a Radical Traditionalist, por Julius Evola




quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte II (Final)

O século XX começou com o humanismo desolador de Bertrand Russell em "Adoração de um homem livre" (1902). Russel descreveu o homem como um "produto de causas que não tem previsão do fim que está atingindo", o salto do homem, medos, amores e crenças são "nada mais do que um resultado acidental de um arranjo de átomos ". O próprio homem, escreveu Russel, está destinado "à extinção na vasta morte do sistema solar" e tudo que o homem tiver alcançado "deve, inevitavelmente, ser arruinado sob os escombros de um universo em ruínas". Ele reconheceu a "onipotência da Morte", mas insistiu que a humanidade lutasse pela causa do amor e dos nossos ideais. Este humanismo desolador era sem Deus e sem esperança, deixando o homem sem saída a partir do ciclo de nascimento e morte da natureza. Este tipo de humanismo alcançou o status de credo em "O Manifesto Humanista" de 1933, quando a reunião humanistas em Chicago elaborou sua declaração de quinze pontos. Entre eles estavam John Dewey e Harry Elmer Barnes. Eles também reconheceram a onipotência da morte, mas afirmaram o espírito indomável do homem e rejeitaram a transcedência. Seus herdeiros são os que circulam a "morte de Deus" e os que celebram a cidade secular. Eles mostraram ironicamente a relatividade das culturas passadas sem antes, ter tomado conta do pressuposto da relatividade de sua própria cultura. Considerar a morte como o cumprimento de uma personalidade não é muito útil. Sofrimento e morte pedem por respostas que a secularização não tem.

Bertrand Russell 


Muito mais do que um simples humanismo indomável estava se formando no início do século XX. A verdadeira revolução estava ocorrendo. Esta "estendida a todos os campos da atividade artística - música, pintura, escultura, arquitetura, a dança, o teatro e a literatura". A revolução não tinha nenhuma ligação unificadora. Foi enxurrada de rejeições niilistas, e que não cessou. Ele se chamava Dada.





O movimento Dada conscientemente rejeitou todas as normas morais, sociais e a estética proclamou que o só o caos é real. Este movimento niilista foi fundado por Hugo Ball no Cabaret Voltaire em Zurique em 1916 e adquiriu o seu nome por uma abertura aleatória de um dicionário francês-alemão para a palavra "Dada", que soa como um termo sem sentido. Dada se espalhou rapidamente para Paris, Barcelona, Cologne, Berlim, Hannover, e Nova York. Com um fundo de desespero e desgosto da destruição e matança da I Guerra Mundial, os dadaístas tentaram demonstrar que o mundo, longe de ser razoável, não possui razão. Eles expressaram seu niilismo e irreverência no absurdo - na anti-razão, anti-esteticismo, anti-patriotismo e anti-burguesismo. Suas criações artísticas pareciam inútil.

Hugo Ball

Marcel Duchamp (1987-1968) liderou o caminho com absurdos já-prontos, um urinol exibido em Nova York intitulada “A Fonte”, e um conjuntos bizarros feitos com óleo e fios em um vidro chamado “A noiva Despida por seus celibatários, Even”, que foi danificado em seu transporte, mas mesmo assim sem qualquer perda de estética. Para expressar o acaso de propósito, e irracionalidade, os dadaístas, por vezes, simplesmente deixavam cair objetos e tintas em uma tela. Morton Schamberg e Elsa Loringhoven montaram uma a caixa de esquadrias e uma armadilha de canos a qual chamaram Deus.



A revolução Dada foi em busca da poesia inical de TS Eliot, que foi porta-voz para a época da Guerra Mundial I. Em “Prufrock”, “The Wasteland”, e “The Hollow Man”, a montagem do ethos da morte, a relatividade, e afastamento de Deus,  encontraram uma saída. A poesia de Eliot revela formas niilísticas diferentes daqueles revolucionários da Rússia. J. Alfred Prufrock mede a sua vida com colheres de café, conversa fútil, torradas e chá. Ele não tem nenhum propósito. Eliot foi mais a fundo em símbolos niilistas em Gerontion e Retrato de uma Senhora (1920). Os personagens sem propósito, estéreis em “The Wasteland” (1992) que Ezra Pound editou perderam a fé e sucumbiram ao cansaço e desespero espiritual. Desprovido de Deus, sentem uma sede de satisfação sexual, mas nunca estão satisfeitos. O terreno baldio é um deserto humano, um inferno na terra, o nosso mundo. “The Hollow Man” (1925) sonda o descaso do homem, a perdição, e a insignificância. Os homens sabem que a morte está se aproximando, e só possuem "a esperança de homens vazios". Os homens vazios não conseguem reunir fé suficiente para orar, eles estão paralisados, e que o mundo acaba "não com um estrondo, mas com um gemido".


T.S. Eliot

Escreve Karl Shapiro em seu Ensaio sobre Rime: "Por 1920 o gelo fino da crença / quebrou-se e foi embora / O cadáver, o rato rastejando, os ossos e a aparição / Chegou em seqüência, um mundo inteiro estava destruído / E inundado” Eliot retratou "o obituário do espírito" como quem celebra fazendo música macabra. 







Num momento em que Eliot se voltou para o cristianismo como uma resposta ao niilismo, Edna St. Vincent Millay (que acabou sucumbindo ao  álcool) foi escrevendo sobre como todos nós tornamos "aquele monótono, a poeira indiscriminada", mas ela não estava disposta a aceitar a saída: "Eu sei. Mas eu não aprovo. E eu não estou renunciado". Lament, em 1929, aproximou-se do niilismo, retratando uma cena de família após a morte do pai: "A vida tem que continuar, eu esqueço o porquê." Na década de 1930 Millay entrou no niilismo que já envolvia a Europa. Descreveu a vida como infrutífera e absurda, e a morte como um Não Último. Ela escreve que "os cérebros dos homens comidos pelos vermes", como o destino do homem na morte e no nada. Podemos "recolher enfeites" e "sentar-se em um círculo de brinquedos", mas todo o tempo a morte “estar a bater na porta” e "A vida em si é nada". Ela tipificava uma tendência. 

Jean- Paul Sartre
Jean-Paul Sartre (1905 -) considerado como um dos escritores mais influentes deste século seja na sua literatura e suas produções filosóficas. Ganhou o Prêmio Nobel de literatura em 1964. Na filosofia, ele estendeu as idéias de Edmund Husserl, Martin Heidegger, e Soren Kierkegaard, mas pode-se procurar em vão nas obras de Sartre uma dimensão divina, como o misteriso Ser de Heidegger ou o Deus da fé do Kierkegaard. O Ser e o Nada (1934, tradução para o inglês, 1956) esforça-se com a quase impossível tarefa de comunicar conceitos de ser-em-si, ser-para-si e ser-para-os-outros. Sendo assim, é a “coisificação”, e contra isto Sartre afirma que a consciência humana e a liberdade constituem existencialmente ser-para-si. Estamos estão sempre frágeis e em risco de se tornarem objetos - ser-para-os-outros ou ser-em-si. "Para  ser para-si é aniquilar o em-si" expressa o enigma paradoxal que Sartre procura explicar. Liberdade única do homem não pode ser presa a nada, seja os ideais éticos ou a tirania política. Perceber a liberdade é imediatamente para negá-la; e no final, o indivíduo morre e com ele se vai toda a aparência de consciência e liberdade. Destino final do homem é tornar-se um objeto percebido pelos outros, ou talvez não ser percebido em tudo. A ética individual e a responsabilidade social são difíceis para Sartre explicar pois todos os atos do homem estão destinados a ser parte do mundo do ser-em-si. Ao enfatizar a liberdade da consciência existencial do indivíduo como autónoma e incontestável, Sartre fez cada pessoa uma lei para si mesmo e todas as escolhas não só livre, mas arbitrária e sem causa. Ser-para-si não é determinado, e muito embora o indivíduo possa tentar, por dissimulação, auto-engano, ou "má-fé", ele não consegue livrar-se da liberdade. Contudo, os seres humanos continuamente tentam, e isso é uma fonte de angústia. Outras mentes devem ser ter sua existência considerada, mas não podem ser provadas, pois fazer isso é tornar outras mentes meros objetos. Consenso e o comprometimento tornar-se impossível. Este é o cerne da condição humana. Todos os esforços humanos estão condenados a serem inúteis e sem esperança, porque eles se tornam imediatamente o ser-em-si.

Não é surpreendente, então, que em “As Moscas” (1943), o personagem principal, Orestes, é "gloriosamente indiferente" e descomprometido com qualquer coisa - sem laços familiares, nenhuma religião, nenhuma vocação. Ele é autônomo. Mesmo depois de assassinar Clytemnesetra e Aegistheus, ele não sente nenhum remorso. Em sua liberdade e consciência, ele é a sua própria norma final. Muito antes de Richard M. Nixon dizer algo, Orestes disse: "Eu não sou um criminoso, e você não tem poder de me fazer expiar um por ato que eu não considero como crime". Não há um objetivo certo e errado com a qual se precisa cumprir: "Eu estou condenado a ter nenhuma outra lei, mas só a minha", A peça termina com Orestes desejando "ser um rei sem reino". Ele deixa Argos com as moscas gritando para ele. As pessoas, que realmente não pode renunciar à sua liberdade, no entanto, continuar em vão para tentar expiar seus "pecados" em "um belo e perverso odor de arrependimento". A situação é desesperadora, porque não se pode desfazer-se de sua liberdade.

Também não é de estranhar que em “Sem Saída” (1944) Sartre diz que "o inferno são os outros". Inez, Estelle e Garcin são condenados eternamente a sofrer da condição humana. Eles não podem se despir de sua própria consciência livre, não podem comprometer-se para outro o qual persiste em percebê-lo como um objeto, não podem se arrepender de seus pecados, porque esses pecados passados já se tornaram ser-em-si.

No final, o homem morre, ser-para-si torna-se ser-em-si, uma coisa sem consciência, sem liberdade. A descrição de Sartre (pode-se dizer ontologia) da consciência não só desnuda o viver em algo mais definitivo do que o eu individual, mas também destrói a continuidade e qualquer significado que não seja do momento, que imediatamente desaparece no mundo das coisas. Talvez mais do que qualquer outra pessoa, Sartre delineou a base filosófica para o niilismo, a falta de sentido, a inutilidade que assombra o século XX. Sartre abre as portas para a anarquia individual, arbitrária e autônoma, não importa que ação será tomada - seja a violência, compromisso, ou indiferença - porque todas as ações estão, por fim, condenadas a inutilidade e desesperança.

Albert Camus, amigo de Sartre, vencedor do Prêmio Nobel em 1957, coloca o problema do niilismo em “Calígula” (1938), uma peça sobre o governante maluco de Roma, que transforma sua filosofia niilista em cadáveres e se mata em um pesadelo do poder contra o poder. Camus sugere que Caligulas impregnam nosso mundo absurdo, que a violência é de se esperar em um mundo sem Deus. Camus moveu ainda mais para o niilismo em seu romance ”O Estrangeiro” (1942), a história de um jovem que é totalmente entediado e indiferente a tudo. As palavras iniciais dão o tom: "Mãe morreu hoje. Ou, talvez, ontem; Não tenho certeza.". E ele não se importa. Ele é indiferente até mesmo ao assassinato que comete, e, finalmente, em sua cela, diante da morte, em reação a um padre que veio para visitar, ele tem uma grande experiência de salvação: ele é esvaziado da esperança, percebe que tudo no mundo é indiferente, se vive ou morre, não faz diferença. A única realidade é a morte, não há sentido na vida.  Em “Caligua” é sondado a violência do niilismo; No “O Estrangeiro”, a sua indiferença.

lbert Camus
Em uma série de ensaios intitulada "O Mito da Sísifo" (1943), Camus reflete sobre niilismo e coloca o suicídio como a única questão filosófica enfrentada pelos seres humanos. Ele pondera sobre o significado da vida humana, porque não há base para julgamentos de certo e errado, não há congruência entre os valores e a realidade. A vida é um absurdo, a situação humana é um absurdo. Por que viver? No entanto, o suicídio admite falha e compõe a falta de sentido, então por que se suicidar? A contemplação do suicídio enfatiza o absurdo da situação do homem.



Mas muitos acreditam que Camus estava tentando mover-se além do niilismo, além do absurdo de que a vida termina no vazio da morte. Em uma série de obras – “A Peste” (1947), “O Rebelde” (1951), “A Queda” (1956), “O Exílio e o Reino” (1957) - Camus prosa o dilema niilista do homem, que vive e morre sem saber se há qualquer sentido para a vida. Morte reivindica os seres humanos, e em certo sentido, só podemos esperar e fazer ou não fazer o que julgamos melhor. Mas Camus resistiu até mesmo como Dr. Rieux faz em “A Peste”. No “O Rebelde” Camus sugere que o niilismo pode ser útil para demolir absurdos, anexos sem sentido, mas ele não é claro sobre quaisquer princípios de construção de anexos significativos. Em “A Queda”, Camus parece estar dizendo que o absurdo não está aqui, mas no coração do homem, como um pecado original canceroso. Assim, os leitores de Camus ficam com a impressão de que ele estava se movendo além do niilismo até o acidente de um carro em 1960, deixando as questões niilistas expostas mais uma vez. Camus, como Sísifo, vê o absurdo de empurrar uma pedra acima de um monte apenas para vê-la rolar para baixo e ser empurrado para cima novamente. Se esta é a condição eterna do homem, então o absurdo é uma parte inseparável da existência humana. Mas o sorriso de Sísifo é enigmático. Não se sabe, ao ler Camus, se ele encontrou uma solução para o niilismo ele descreveu. Alguém poderia argumentar que Camus estava lutando para ir além do niilismo para uma afirmação positiva da vida, e que ele perdeu a luta.
Samuel Beckett (1906 -), agora aclamado como sumo sacerdote do niilismo, ficou famoso com sua peça “Esperando Godot” (1952). Ela começa com um dos dois mendigos palhaços, dizendo: "Nada a ser feito", e o outro responder: "Estou começando a pensar nessa opinião", por tanto esperaram por Godot. Eles não sabem o que eles estão esperando. Ou mesmo se Godot existe, eles não têm nenhum compromisso, e não sabem se vai ser melhor se Godot vier. Um mensageiro mantém dizendo que Godot virá amanhã. A peça não tem começo, meio ou fim de desenvolvimento, como para contrariar a ideia de que a vida é um crescimento em direção a algum objetivo. Estragon e Vladimir discutem um evangelho, um cadarço, uma cenoura e uma árvore raquítica, como se todos estivessem no mesmo nível, e todos insignificantes: "Em um instante, tudo vai desaparecer e nós vamos estar sozinhos mais uma vez, no meio de nada! ". Ao final, um palhaço pergunta ao outro: "Bem, vamos? "A outra pessoa atende: "Sim, vamos." Mas eles não movem. Os palhaços e o palco desolador simbolizam o viver despojado de fundamentos. Beckett quer saber quem somos e por que estamos aqui, e não há resposta. É como se todos nós estamos à espera de Godot, à espera de nada, o nada da morte, quando Beckett ganhou o Prêmio Nobel em 1969, The London Times elogiou-o por retratar "um mundo que reconhecemos ser real e verdadeiro para a experiência. " Beckett considerado o Prêmio Nobel como mais um absurdo em um mundo absurdo.

Relativamente desconhecida, anterior a “Esperando Godot”, de Beckett produziu uma série de trabalhos reiterando a sua preocupação com o mistério do homem à espera da morte. ”Watt” (1953) é um romance sobre um homem que trabalha para o Sr. Knott, a quem ele nunca é respondido, ele não sabe o que está fazendo na casa do Sr. Knott. “Endgame” (1957), acontece em um palco como se estivessem no interior de um crânio, retrata a desintegração da personalidade humana nos últimos momentos antes da morte. “De Krapp Last Tape” (1958) mostra um homem velho ouvindo uma fita que ele fez quando era jovem e vendo a juventude como um completo estranho, como se a vida não tivesse continuidade. “Happy Days”, uma peça produzida em 1961, é sobre uma mulher que continua a tagarelar sobre futilidades, enquanto ela está afundando na terra, mostrando como nos preocupamos com atividades vazias, como se a vida fosse para sempre. Em 1967, Beckett publicou “Histórias e Textos para o Nada”. Beckett procura conhecer a realidade como ela é, desencapada, nua desmascarada. O que ele encontra é o vazio da morte.

Beckett

Um avalanche de filmes como La Dolce Vita, Five Easy Pieces, Conhecimento Carnal, O Último Tango em Paris, e dezenas de escritores - Rainer Maria Rilke, William Butler Yeats, Tennessee Williams, Ernest Hemingway, Gunter Gras, Wallace Stevens, Edward Albee , Samuel Beckett, Sylvia Plath, Flannery O'Connor, TS Eliot, Edna St. Vincent Millay, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, John Berryman, Jack Kerouac, Ann Sexton, alguns mais do que outros, testemunham a difusão do niilismo em nosso ethos.




Em 1969, Peter L. Berger publicou “A Rumor of Angels”, um livro que diz algo para nós, como historiadores. Ele esperava compensar o "conselho de desespero", criado no seu livro anterior, “The Sacred Canopy” (1967). Berger, um sociólogo, retrata o nosso ethos como aquele do qual o sobrenatural foi expurgado e a verdade é relativizada e subjetivada. O sobrenatural é estranho para as nossas estruturas cognitivas existentes que se baseiam em grande parte de ciências que excluem o sobrenatural. A minoria que detêm a noção de conhecimento que inclui o Supernatural são severamente deficientes, como um curandeiro de uma remota tribo indígena tentando manter a magia e espiritualismos de seu meio, no coração de uma comunidade sofisticada e científica. Cedo ou tarde, as certezas na mente do feiticeiro será prejudicada e exorcizada. Afirmações religiosas e supranaturalistas sofreram esse destino em nosso tempo. Berger aponta para o trabalho de Schleiermacher  “Religion to Its Cultured Despisers” (1799) como o início de um longo processo em que o cristianismo tem sido gradualmente "ajustado" para a "modernidade", significando o desmonte de seus aspectos sobrenaturais. Protestantismo liberal tem sido mais importante no ajuste e desmontagem, seguido de perto pelo judaísmo e catolicismo. O ataque começou com a crítica histórica que mostrou que os livros sagrados bíblicos foram "realmente" produtos humanos. Com a psicologia, Freud, então, explicou que esses livros e a religião eram meramente projeções de necessidades libidinosas humanas, juntando-se, assim, Deus e sexo na mesma cápsula. História e psicologia, assim, mergulharam a teologia em "um verdadeiro turbilhão de relativizações". E então veio a sociologia, demonstrando que qualquer comunidade, a fé é apenas uma entidade construída, feita por seres humanos em uma história específica. A sociologia explica a história e a psicologia como uma necessidade para o nosso estado! Não é de admirar Berger descreve a sociologia como um "triste ciência por excelência", uma "disciplina intrinsecamente desmascaradora que deve ser mais agradável para niilistas, cínicos, e outros assuntos”. Protestantismo liberal ajudou este processo, optando "ir com ele" e "ser relevante". Paul Tillich abraçou "correlação" como uma tarefa da teologia, buscando ajustar as tradições cristãs com a verdade filosófica. Rudolf Bultmann trabalhou em "desmitificar", procurando explicar a mensagem bíblica ivre das noções sobrenaturais do homem antigo. Karl Barth contrariando a tendência com a sua “Epistle to the Romans (1919)”, assim como Reinhold Nie-buhr com a sua obra “Nature and Destiny of Man (1941-1943)”, mas eles não contiveram a maré. Neste processo de aculturação sistemas de crenças, os protestantes foram gravemente erodidos e o próprio protestantismo desfigurados. Catolicismo romano tenazmente manteve a linha contra este modernismo, mas com João XXIII e do Concílio Vaticano II, fez com que o catolicismo abrissem suas portas para a modernidade, e agora passa pelo mesmo que o  protestantismo experimentou. Em 1966, Thomas JJ Altizer anunciou confiantemente a morte de Deus: "Devemos entender que a morte de Deus é um evento histórico, que Deus morreu em nosso cosmos, na nossa história, na nossa Existenz." Berger lamenta este processo, dizendo: "a rendição teológica à suposta morte do sobrenatural... representa, finalmente, a auto-liquidação da teologia e das instituições em que a tradição teológica é encarnada”.

Neste tipo de ambiente Hitler optou pelo poder autônomo. Na ausência de Deus, Hitler assumiu prerrogativas divinas, absolutizou sangue ariano, e procurou manipular o cristianismo e destruir o judaísmo. Em um holocausto do niilismo, ele exterminou seis milhões judeus. Mesmo que Hitler tenha sido derrotado, o niilismo foi promovido. Em reação ao holocausto, o rabino Richard Rubenstein, em “After Auschwitz” (1966) argumentou que Deus é um nada a partir do qual todas as coisas vêm e para onde todas as coisas finalmente entram em colapso. Rubenstein declarou que os horrores do nazismo fez com que, Deus como retratado na Bíblia, não é mais acreditável, o homem está sozinho no mundo, ele tem apenas a si mesmo a depender, e o destino final do homem é simplesmente a morte. Os seres humanos devem agora viver sem esperança final, afirmou Rubenstein, criando para si o que conseguirem. Elie Wiesel, que sobreviveu a Auschwitz, tem negado publicamente a postura de Rubenstein.

Esta é a falta de sentido que se tem trabalhado no tecido de nossa sociedade. Ela afeta todos nós. Ignorando suas próprias relatividades pressuposicionais, os sumos sacerdotes da secularização têm desnudado a cultura ocidental, não só do universo de três camadas, mas também o ciclo da natureza com a qual os cânones da racionalidade podem tratar no espaço-tempo tangível. Mas este espírito secular com o homem entronizado tropeça no sofrimento e na morte. John Dewey e Harvey Cox, por exemplo, tendem a ignorar a morte. Ele não se relaciona de forma significativa com o crescimento e a celebração. Preso no contínuo ciclo de nascimento e morte da natureza, com nada para dar sentido, cada indivíduo finalmente morre e é o fim. A vida é como um pobre personagem de Shakespeare, suportando através de um estágio, significando o nada, ou como Sísifo, empurrando uma rocha acima do monte apenas para vê-la rolar para baixo novamente, significando absurdo. Eu visualizo que é este o ethos niilista que fundamenta e permeia o século XX. Indivíduos que vivem fora deste ethos consciente e inconscientemente acham difícil não sentir o vazio de suas vidas.

Este vazio é intensificado pela despersonalização aparente da industrialização de hoje. Estamos identificados por números de segurança social, estatísticas de crédito, carteiras de motoristas e dados de computador. Esta mecanização em massa requer conformidade e pressiona o indivíduo até que se sinta perdido, insignificante, sacrificado para entidades empresariais que são voltadas para o lucro e perda. Esta industrialização e conformidade nega sentido necessário do ser. Ele sofre uma perda de valor e identidade, dando origem a mal-estar, perplexidade, raiva, resignação e indiferença, como se não adiantasse tentar qualquer coisa.

Estou convencido de que muito da violência e da indiferença da sociedade estão relacionados ao niilismo, mas provar isso é como tentar provar que programas de televisão afetam as crianças. Dr. Marvin Schwartz, presidente do departamento de psiquiatria da MacNeal Memorial Hospital, Berwyn, Illinois, avaliou a causa de um estupro em uma entrevista recente: "Na sociedade de hoje, que operacionalmente rejeita a ética judaico-cristã, o objetivo da vida é visto como o prazer do impulso e da auto-satisfação, independente de seus efeitos sobre os outros.  Até certo ponto, o estuprador é uma horrível sensação que expressa o final desta -  agindo fora da ética da nossa sociedade ". Em um ethos em que os valores foram relativizados, seria lógico esperar que a vontade deva ser exercida, que é o que o estuprador faz. Ele força seus impulsos e desejos em outro, ele se afirma como o seu próprio padrão autônomo. Este é niilista e com o aumento nas estatísticas de esturpo, indica que o comportamento é generalizado.

A criminalidade tem múltiplas causas, o aumento dos crimes graves, suicídio e abuso pessoal em nosso século parece indicar, com base na epidemiologia, uma raiz niilista. Se não existe um padrão final, por que não fazer o que eu quero, o que achar confortável para mim? Em seu trabalho sobre a lógica do indivíduo na anarco-psicologia, John Carroll diz que este ambiente gera sete respostas éticas para os indivíduos: a ética hedonista da auto-satisfação, que é utópica e cego para as necessidades da sociedade como um todo; a ética da rebelião, porque o mundo é um absurdo e não há para cima e para baixo; a ética de fazer do absurdo a estética e o estilo, arte pela arte; a ética do pessimismo estóico; a ética da experiência mística, como Heidegger pincela no ser; a ética da amizade sagrada e a ética individualista com o indivíduo o seu próprio legislador. A anarco-psicologia gera formas sociais de totalitarismo, pois deve haver alguma lei e ordem para a sociedade de existir, e na ausência de consenso, é imposta pelo poder absoluto. Watergate encarna muitas das características do niilismo, e Albert Jenner, advogado republicano do Comitê Judiciário da Câmara, que investigou prevaricação de Richard Nixon no cargo, julgou Nixon ser um homem mentiroso, amoral, cujo objetivo principal era promover a si mesmo por qualquer meio. Watergate poderia muito bem ser o clímax do niilismo em nosso país, e a quebra do acobertamento Watergate demonstra um símbolo de esperança de que os valores básicos ainda estão em curso.

Estes pedaços são de modo algum exaustivo. Eles são destinados apenas para indicar um ethos em que os historiadores dão pouca atenção, mas acredito que os historiadores do futuro vão gravar o niilismo como uma das principais marcas deste século.

Existe uma resposta ao niilismo, uma maneira de sair deste impasse? Pressupostos operaram tanto como posições de crença,  mas sem provas, de modo que os argumentos com base em diferentes pressupostos geralmente passam um pelo outro. Isso pelo menos sugere que as alternativas para a saída do niilismo esta relacionado com a própria vida. O indivíduo e a sociedade estão intrinsecamente interligados. Nem pode um sem o outro. Soberania individual degenera em anarquia, e da soberania social, convida a tirania. Entre os dois o consenso viável deve emergir e a anarquia e tirania devem ser evitados. Eu acredito que um consenso viável se encontra dentro das afirmações da tradição judaico-cristã, apesar das muitas distorções que apareceram na história. Essas distorções não erradicaram o amor divino fornecido pelo Deus da história, apesar de não compreender como isso pode ser. Tal arquétipo é necessário para salvar o indivíduo e a sociedade do niilismo.

Humanismo puro é a resolução oferecida pela maioria dos críticos. Mas o humanismo, embora útil, não resolve o problema da morte, que é central no niilismo. Sem um "outro", um transcendente cujo o ser não é um produto do mundo e não é dependente dele, a humanidade não pode ser capaz,  de por fim, escapar do vazio. Esta foi uma visão de Santo Atanásio, e continua válida.

Para encerrar, deixe-me levantar algumas questões para os historiadores da Igreja nos dias de hoje. Para o que estamos comprometidos? Quais são os nossos pressupostos sobre o cristianismo e a história da Igreja? Será que estamos tendo uma visão que promove o niilismo? Foram os séculos anteriores tão totalmente errados em afirmar a atividade de Deus na história? Se a verdade pode ser julgada apenas com base em um padrão aceito, que padrão estamos aceitando?

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96