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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carta à Thomas Merton, 1962 (Por Seraphim Rose)

Sou um jovem americano convertido ao Cristianismo Ortodoxo - não aquela espiritualidade vaga e "liberal" de muitos russos modernos, "pensadores religiosos", mas a plena Ortodoxia ascética e contemplativa dos Padres e Santos - e há alguns anos tenho estudado a "crise" espiritual dos nossos tempos e atualmente estou escrevendo um livro sobre o assunto. No decorrer do meus estudos tive ocasião de ler obras de um grande número de autores católicos romanos, alguns dos quais (por exemplo, Pieper, Picard, Gilson, P. Danielou, P. de Lubac) achei bastante úteis e não tão distantes da perspectiva Ortodoxa, embora alguns outros achei preocupante no que diz respeito ao que me parece ser o ensinamento da Igreja universal. Eu li vários de seus trabalhos e, especialmente em alguns de seus artigos recentes, percebo sinais de uma das tendências do pensamento contemporâneo romano (que existe também na Ortodoxia, sendo preciso) que mais me preocuparam. Uma vez que você é um monge romano, vejo você como alguém que pode esclarecer as ambiguidades que encontrei nessa tendência de pensamento. O que gostaria de discutir diz respeito principalmente aquilo que pode ser chamado de "missão social" da Igreja.

Em um ensaio intitulado Ação Cristã na Crise Mundial você trata especialmente da questão da "paz". Em uma época que a a guerra se tornou virtualmente "impossível", isto torna-se, claro, uma preocupação central para qualquer Cristão, mas suas observações particularmente sobre este assunto me deixou preocupado.

Quais são, em primeiro lugar, os verdadeiros antagonistas da guerra espiritual de nossa época? Dizer "Russia e America" é, naturalmente, trivial; o inimigo, como você diz, "está em todos nós". Mas você em seguida diz, "O inimigo é a própria guerra" e suas raízes, "ódio, medo, egoísmo, luxúria".

Posso concordar com você que a guerra, hoje, pelo menos a "guerra total" é bastante injustificável por qualquer norma Cristã pela simples razão que sua natureza "ilimitada" escapa medida de qualquer espécie. O ponto em seu argumento que me preocupa é sua afirmação de que a única alternativa a essa guerra é a "paz".

A alternativa à "guerra total" parece ser a "paz total"; mas o que tal "paz" implica? Você diz, "temos de dar o melhor de nós para a eventual abolição" da guerra; e é isto que uma "paz total" deve ser: abolição da guerra. Não é o tipo de paz que o homem já conheceu antes, mas uma paz inteiramente nova e "permanente".

Tal objetivo, claro, é bastante compreensível para a mentalidade moderna; o idealismo político moderno, marxista e "democrático" igualmente sempre ansiaram tal fim. Mas e o Cristianismo? - e me refiro ao Cristianismo completo inflexível, não o idealismo humanista que se autodenomina Cristão. O Cristianismo não é extremamente hostil a todas as formas de idealismo, a todas suas reduções com seus fins "realistas" e suas meras ideias arrogantes? O ideal da "abolição da guerra" é realmente diferente de outros objetivos grandiosos como a "abolição" da doença, do sofrimento, do pecado, da morte? Todos esses ideais animam alguns idealistas modernos, mas é bastante claro que para o Cristão eles são secularizações e por isso, perversões da genuína esperança Cristã. Eles podem ser realizados somente em Cristo, somente em Seu Reino, que não é deste mundo; quando a fé em Cristo e a esperança de Seu Reino está a desejar, quando são feitas tentativas para efetuar tais "ideais" neste mundo - então há idolatria, o espírito do Anticristo. Doenças, sofrimentos, pecado e morte são partes inevitáveis do mundo que conhecemos como consequência da queda. Esses só podem ser eliminados por uma transformação radical da natureza humana, uma transformação possível somente em Cristo e plenamente somente após a morte.


Pessoalmente, penso que a "paz total", é, no fundo, um ideal utópico; mas o fato de que aparentemente seja praticável hoje em dia levanta uma questão profunda. Porque, a meu ver, o inimigo mais profundo da Igreja hoje não é seus inimigos óbvios - a guerra, o ódio, o ateísmo, o materialismo, todas as forças impessoais que levam ao "coletivismo" desumano, a tirania e miséria - estes têm estado conosco desde a queda, apesar de que, de fato, atualmente tomam uma forma mais extrema. Mas a apostasia que levou a este mundanismo óbvio e extremo parece-me um prelúdio de algo muito pior; e este é o principal tema da minha carta.

A esperança pela "paz" é parte de um contexto mais amplo de um idealismo renovado, fruto da Segunda Guerra Mundial e as tensões do mundo pós-guerra, um idealismo que tem, especialmente nos últimos cinco ou dez anos, capturado as mente dos homens - particularmente dos jovens - de todo o mundo, fazendo com que manifestassem concretamente, muitas vezes, em ações. A esperança que subjaz esse idealismo é a esperança de que os homens podem, afinal, viver juntos em paz e fraternalmente em uma ordem social justa, e que este fim pode ser realizado através de meios "não-violentos" que não sejam incompatíveis com esse fim.  Este objetivo aparenta ser uma revelação virtual de um "novo mundo" para todos aqueles cansados da miséria e do caos que marcou o fim do mundo "velho", aquele mundo vazio "moderno" que agora parece ter finalmente - ou quase - descartado todas suas possibilidades terríveis; e, ao mesmo tempo, parece ser algo inteiramente alcançável por meio morais - diferente dos idealismos modernos antecedentes.

Você mesmo, de fato, fala de um possível "nascimento em agonia de um novo mundo", do dever dos cristãos de hoje "executar a paciente e heroica tarefa de construir um mundo que irá prosperar na unidade e na paz", até mesmo, a este respeito, de "Cristo, o Príncipe da Paz". A questão que me preocupa gravemente em tudo isso é, se trata realmente do Cristianismo, ou ainda é só um idealismo? Ou pode ser possível os dois, um "Idealismo Cristão"?

Você fala de uma "ação Cristã", "o Cristão que manifesta a verdade do Evangelho na ação social", "não só em oração e penitência, mas também em seus compromissos políticos e em todas suas responsabilidades sociais". Bem, certamente não direi nada contra isso; se a verdade Cristã não brilha através de tudo que se faz, ao ponto de falhar em ser um Cristão, e se se é chamado para uma vocação política, sua ação naquela área também deverá ser Cristã. Mas, se não me engano, suas palavras significam algo mais que isso; ou seja, que agora, mais do que nunca, precisamos de Cristãos trabalhando na esfera social e política, para realizar ali a verdade do Evangelho. Mas por que, se o Reino de Cristo não é deste mundo? Existe realmente uma "mensagem social" Cristã, ou não é, ao contrário, o resultado da atividade Cristã de alguém que está cuidadosamente trabalhando sua salvação? De maneira alguma estou defendendo a prática do Cristianismo em isolamento; todo o Cristianismo - mesmo aquele do eremita - é um "Cristianismo social", mas isso é apenas um contexto, não um fim.  A Igreja está na sociedade porque os homens estão na sociedade, mas a finalidade da Igreja é a transformação do homem, não da sociedade. É uma boa coisa se uma sociedade e governo professam o Cristianismo verdadeiro, se suas instituições são informadas pelo Cristianismo, porque, assim, um exemplo é dado para os homens que são parte daquela sociedade; mas uma sociedade Cristã não é um fim em si, mas simplesmente um resultado do fato de que os homens Cristãos vivem em sociedade.

Eu não nego, claro, que exista tal coisa como uma "ação social" Cristã; o que questiono é a sua natureza. Quando eu alimento meu irmão com fome, isto é um ato Cristão e uma pregação do Reino que não precisa de palavras; é feito pela razão pessoal que meu irmão - aquele que está diante de mim, neste momento, está com fome, e é um ato Cristão, porque meu irmão é, em certo sentido, Cristo. Mas se eu generalizo a partir deste caso e embarco em uma cruzada política para abolir o "mal da fome", isto é algo inteiramente diferente; embora os indivíduos que participam de tal ato possam agir de maneira perfeitamente Cristã, o projeto inteiro - e precisamente por ser um "projeto", um planejamento humano - torna-se envolvido em uma espécie de manto de "idealismo".

Mais alguns exemplos: A eficiência dos medicamentos modernos não acrescentam nada ao cumprimento do mandamento para confortar os doentes; se eles estiverem disponíveis, muito bem - mas não é Cristão pensar que nosso ato é melhor porque é mais "eficiente" ou porque beneficia mais pessoas. Isso, novamente, é idealismo. Não preciso mencionar o fato de que os medicamentos podem se tornar, de fato, um substituto para o "conforto" Cristão quando a mente do praticante torna-se demasiado absorta em eficiência; e o pesquisador que busca a "cura para o câncer" não esta fazendo nada especificamente "Cristão", mas algo técnico e "neutro".

"Fraternidade" é algo que acontece, aqui e agora, em qualquer circunstância que Deus me coloca, entre eu e meu irmão; mas quando eu começo a pregar o "ideal" da fraternidade e saio deliberadamente para praticá-la, corro o risco de perdê-la por completo. Mesmo se - especialmente se - faço uso de uma aparente "resistência passiva" ou "não-violência" Cristã nesta ou em qualquer outra causa, permita-me antes que eu chame-o de ato Cristão - cuidadosamente me perguntar se seu fim é apenas um ideal elevado mundano, ou algo maior. (São Paulo, para dar um exemplo bastante claro, não disse aos escravos para se revoltarem "não-violentamente"; ele lhes disse para não se revoltar, mas preocupar-se com algo muito mais importante.)

A "Paz de Cristo", localizada no coração, não necessariamente, em nosso mundo decaído, traz a paz exterior, e eu gostaria de saber se há aí qualquer ligação com o ideal da "abolição da guerra."

A diferença entre a "caridade" organizada e a caridade Cristã não precisa de comentários.

Pode haver - e eu não teria escrito essa carta se eu não esperasse que existisse - uma espécie de verdade, porém, por assim dizer, subterrânea, um "ecumenismo" entre Cristãos separados, especialmente em tempos de perseguição; mas isso nada tem a ver com atividades de qualquer "Conselho Mundial de Igrejas".


Você pode, a partir desses exemplos, espero, entender as dúvidas que eu tenho sobre o ressurgimento de ideais aparentemente "Cristãs" em nosso tempo. Digo "dúvidas", pois não há nada intrinsecamente mau em qualquer dessas "cruzadas", e nelas existem cristãos bastantes sinceros e fervorosos que realmente estão pregando o Evangelho; mas, como disse, há uma espécie de manto de "idealismo" envolto sobre todos esses, um manto que parece estar atraindo-os para seu próprio serviço bastante independente (sem negar, dessa maneira, é claro, os atos pessoais Cristãos praticados sob seus auspícios).  Que "serviço" é esse? - o apaziguamento do senso moderno de "idealismo", transformando a interioridade a as verdades cristãs em ideais exteriores - na melhor das hipóteses - em ideais semi-cristãos. E temos de ser realistas o bastante para ver que o efeito geral sobre as mentes das pessoas tanto dentro como fora destes movimentos, dentro e fora da Igreja, é precisamente colocar ênfase sobre a realização de ideais exteriores, ocultando assim verdades interiores; e uma vez que essa ênfase tem sido dada, o caminho se estreita para a falsidade concreta que "em qualquer caso, fazer o bem é o verdadeiro propósito do Cristianismo, e é o único fundamento onde todos Cristãos podem se unir, enquanto os dogmas e as liturgias e similares são questões pessoais que tendem mais separar do que unir."  De fato, quão muitos desses, mesmo Católicos e Ortodoxos, que estão participando no mundo do "Cristianismo social" de hoje, não acreditam que este é o Cristianismo mais "perfeito" e até mesmo mais "interior" que o Cristianismo dogmático, ascético e contemplativo que não alcança "resultados" mais evidentes?

Eu, antes disso, já fui reprovado por alguns Católicos por falta de interesse na missão social da Igreja, por sustentar um Cristianismo unilateral "ascético" e "apocalíptico"; e alguns filósofos e teólogos fizeram tais acusações contra a Igreja Ortodoxa em si - acompanhado, algumas vezes, se não me engano, de um tom um tanto condescendente que assume que a Igreja está um pouco "atrasada" ou "desatualizada" sobre essas coisas, estando sempre "reprimida" pelo Estado e acostumada a olhar pro mundo através de olhos de monges demasiados fora-do-mundo. Longe de mim a presunção de falar pela Igreja; mas pelo menos posso falar de algumas coisas que penso ter aprendido com Ela.

Você pode legitimamente perguntar-me o que, já que sou cético quanto ao "Cristianismo social" - embora, claro, eu não gostaria que abolissem ou entregassem ao diabo, estou apenas apontando sua ambivalência - defendo como "ação Cristã" no meio da "crise" da época com suas alternativas urgentes.

Em primeiro lugar, questiono radicalmente a ênfase na "ação" em si, sobre "projetos" e "planejamentos", sobre a preocupação com o "social" e tudo aquilo que o homem pode fazer sobre isso - todos aqueles que atuam em detrimento da aceitação do que nos é dado, do que Deus nos dá neste momento, bem como de permitir que Sua vontade seja feita, não a nossa. Eu não proponho uma retirada total de todos Cristãos da política e do trabalho social; nenhuma regra arbitrária poderia determinar isso, cabe à consciência individual. Mas em qualquer caso, se muitos podem ser chamados para trabalhar pela "justiça", "paz", "unidade", "fraternidade" no mundo - e esses são, nesta forma ideal e generalizada, metas externas e mundanas - não seria melhor ser chamados para o trabalho totalmente inequívoco do Reino, desafiando todos os ideais do mundo e pregar o único Evangelho necessário: Arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo?  Você mesmo diz com toda razão sobre a America e Rússia, "o inimigo não está apenas de um lado ou de outro... O inimigo está em ambos os lados." Não é possível aprofundar essa percepção e aplicá-la para as outras alternativas aparentemente últimas como, "guerra" e "paz"? Uma delas é muito mais possível para um Cristão do que a outra, se "paz" é uma "paz total (ou seja, idealista)"? E o não reconhecimento dessas duas alternativas igualmente inaceitáveis não nos leva de volta a uma genuína "terceira via" - uma que nunca será popular porque não é nem "nova", nem moderna, e acima de tudo não é "idealista" - um Cristianismo que tem como fim nem uma "paz" nem uma "guerra" mundana, mas um Reino que não é deste mundo?

Isso não é nada "novo", como você diz, e o mundo que se imagina "pós-Cristão" está cansado disso. É verdade que quando nós, como Cristãos, falamos com nossos irmãos frequentemente parecemos ser confrontados com uma "parede", uma má vontade até mesmo de ouvir; e, sendo humano, nós talvez estejamos um pouco "desesperado" por essa falta de resposta. Mas o que pode ser feito sobre isso? Deveríamos desistir de falar daquilo que nossos contemporâneos não querem ouvir, e nos juntar na busca de objetivos que, uma vez que não são especificamente Cristãos, podem ser buscados também por não-Cristãos? Isso me parece uma abdicação de nossa responsabilidade como Cristãos. Eu acho que a necessidade central do nosso tempo não é de modo algum diferente do que sempre foi desde que Cristo veio; ela reside, não na área de "compromissos políticos" e "responsabilidades sociais", mas precisamente na "oração e penitência", jejum e pregação do verdadeiro Reino. A única "responsabilidade social" de um cristão é viver, onde e com quem quer que seja, a vida de fé, para sua própria salvação e como um exemplo para os outros. Se, ao fazer, nós ajudamos a melhorar ou abolir o mal social, isso é uma boa coisa - mas não é o nosso objetivo. Se ficamos desesperados quando a nossa vida e as nossas palavras não conseguem converter outros para o verdadeiro Reino, isso vem da falta de fé. Se queremos viver a nossa fé mais profundamente, seria preciso falar menos dela.

Você fala da necessidade, não apenas de falar da verdade Cristã, mas em "encarnar a verdade Cristã na ação". Para mim, isso significa precisamente a vida que acabo de descrever, uma vinda infundida com a fé em Cristo e a esperança no Seu Reino que não é deste mundo. Mas a vida que você parece descrever é uma bastante envolvida nas cosias deste mundo; considero não diferente de uma adaptação "exterior" da verdadeira interioridade Cristã.

O idealismo moderno, que é dedicado a realização idólatra do "Reino do Homem", durante muito tempo influenciou os círculos cristãos; mas somente nos anos mais recentes que essa influência começou a dar frutos reais dentro do útero da própria Igreja. Penso que não há dúvidas que estamos testemunhando as dores de parto de algo que, para o verdadeiro Cristão, é, de fato, possibilidades assustadoras: um "novo Cristianismo", um Cristianismo que afirma ser "interior", mas é inteiramente preocupado com o resultado exterior; um Cristianismo que não pode realmente acreditar em "paz" e "fraternidade", a menos que entendam por algo generalizado e universalmente aplicado, não em algum aparentemente distante "outro mundo", mas no "aqui e agora."  Este tipo de Cristianismo diz que a "virtude privada" não é suficiente - obviamente dependente de uma compreensão protestante de virtude, uma vez que tudo que um verdadeiro Cristão faz é sentido por todos no Corpo Místico; nada feito em Cristo é feito para si, sozinho - mas não é suficiente para quê? A resposta para isso, penso, é clara: para a transformação do mundo, a definitiva "realização" do Cristianismo na ordem política e social. E isso é idolatria. O Reino não é deste mundo; pensar ou ter esperança que o Cristianismo pode ser exteriormente "bem sucedido" no mundo é uma negação de tudo que Cristo e Seus profetas disseram sobre o futuro da Igreja.  O Cristianismo pode ser "bem sucedido" com uma condição: aquela de renunciar (ou convenientemente esquecer) o verdadeiro Reino e procurar construir o Reino no mundo. O "Reino Terreno" é precisamente o objetivo da mentalidade moderna; a construção dele é o significado da idade moderna. Não é Cristão; como Cristãos, sabemos que Reino é esse. E o que me preocupa bastante é que os cristãos de hoje - Católicos e também Ortodoxos - também estão se juntando, muitas vezes sem estarem cientes, muitas vezes com as melhores intenções possíveis, na construção desta nova Babel...

O idealismo moderno, que espera por um "céu na terra", igualmente espera pela vaga "transformação" do homem - o ideal do "super homem" (em diversas formas, conscientes ou não), que, embora absurdo, tem um grande apelo a uma mentalidade que foi treinada para acreditar na "evolução" e "progresso". E não permita que o desespero contemporâneo nos faça pensar que a esperança por um mundo futuro está morta; desespero pelo futuro só é possível para alguém que ainda quer acreditar nele; e, de fato, misturado com o desespero contemporâneo há um grande senso de expectativa, uma vontade de acreditar que um futuro ideal pode, de alguma maneira, ser realizado.

O poder do inumano e do impessoal governou a primeira parte do nosso século de "crise"; um vago espírito "existencial", semi ou pseudo-religioso, idealista e prático ao mesmo tempo (mas nunca de outro mundo), parece destinado governar a última parte deste século. Eles são duas fases da mesma doença, o "humanismo" moderno, doença causada pela confiança no mundo e no homem, ignorando Cristo - exceto para tomar Seu nome emprestado como um "símbolo" conveniente para homens que, afinal, não conseguem esquecê-lo, bem como para seduzir aqueles que ainda desejam servi-Lo.  O Cristianismo se tornou uma "cruzada", Cristo se tornou uma "ideia", ambos a serviço de um mundo "transformado" por técnicas científicas e sociais e por um homem virtualmente "deificado" pelo despertar de uma "nova consciência": isto está diante de nós. O comunismo, parece claro, está se aproximando de uma transformação, uma "humanização", e disto Boris Pasternak nos dá um sinal antecipadamente; ele não rejeita a Revolução, ele apenas quer que seja "humanizada". As "democracias", por um caminho diferente, estão se aproximando do mesmo objetivo. Em todos lugares, "profetas" - semi ou pseudo-Cristãos - como Berdyaev e Tolstói; pagãos mais explícitos como D. H. Lawrence, Henry Miller, Kazanzakis, bem como as legiões de ocultistas, astrólogos, espiritualistas e milenaristas - todos anunciam o nascimento de uma "nova era." Protestantes e, em seguida, mais e mais Católicos e Ortodoxos, são apanhados neste entusiasmo e imaginam sua própria era ecumênica e harmoniosa, alguns sendo tão ousados - e blasfemos - a ponto de chamá-la de "terceira era", a "descida do Espírito Santo" (como D. H. Lawrence, Berdyaev e, em última instância, Joachim de Floris).

Uma era de "paz" pode vir para o homem cansado, apocaliticamente ansioso; mas o que o Cristão pode dizer de tal "paz"? Não será uma Paz de Cristo; imaginar uma súbita conversão universal dos homens para à plena fé Cristã, não passa de fantasia; e sem essa fé, Sua Paz não pode vir. E qualquer "paz" humana será apenas o prelúdio para a única e verdadeira "guerra" de nossa época, a guerra de Cristo contra todos os poderes de Satã, a guerra dos Cristãos que apenas buscam o Reino que não é deste mundo contra todos aqueles, pagãos ou pseudo-Cristãos, que apenas buscam por um Reino mundano, o Reino do Homem.

A Letter to Thomas Merton, 1962 por Eugene [Fr. Seraphim] Rose

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Primeiro Estágio da Dialética Niilista: Liberalismo (Por Seraphim Rose)

1. LIBERALISMO

O Liberalismo que iremos descrever nas páginas seguintes não é --vamos deixar claro desde o início -- um Niilismo evidente; é antes um Niilismo passivo, ou, melhor ainda, o terreno neutro e fértil para as fases mais avançadas do Niilismo. Aqueles que estão seguindo a nossa discussão anterior sobre a impossibilidade espiritual ou "neutralidade" intelectual nesse mundo, entenderá imediatamente por que nós classificamos o Liberalismo usando um ponto de vista Niilista que, embora não seja diretamente responsável por quaisquer fenômenos Niilistas marcantes, foi um pré-requisito indispensável para o seu surgimento. A incompetente defesa proveniente do Liberalismo por uma herança na que nunca se acreditou plenamente, tem sido uma das causas mais potentes para a criação do Niilismo.


A civilização humanista Liberal, na Europa Ocidental, foi a última forma da Velha Ordem a qual foi efetivamente destruída nas grandes guerras e nas revoluções da segunda década deste século e que continua a existir -- ainda que em uma forma mais atenuada e "democrática" -- no mundo livre de hoje, pode ser caracterizada, principalmente, pela sua atitude para com a verdade. Esta não é uma atitude de franca hostilidade, nem mesmo de indiferença intencional, pois seus sinceros apologistas inegavelmente tem um verdadeiro respeito por aquilo que consideram ser a verdade; em vez disso, é uma atitude em que a verdade, apesar de certas aparências, já não ocupam o centro das atenções. A verdade em que professa crer (além, é claro, dos fatos científicos) é, para ele, não uma moeda espiritual ou intelectual em circulação, mas um capital inativo e sem frutos que sobraram de uma era anterior.  O Liberal ainda fala, ao menos em algumas ocasiões formais, de "verdades eternas", de "fé", de "dignidade humana", da "vocação" do homem ou do seu "espírito inextinguível", até mesmo da "Civilização Cristã"; mas é evidente que essas palavras não mais dizem o que um dia significou. Nenhum Liberal as leva com toda seriedade; elas são, na verdade, metáforas, ornamentos de uma linguagem que se destina a evocar uma resposta emocional, não intelectual - uma resposta largamente condicionada pelo seu uso prolongado, a uma memória que atende a um tempo em que essas palavras realmente tinha um significado positivo e sério.

Hoje em dia ninguém que se orgulhe de sua "sofisticação" -- ou seja, muito poucos nas instituições acadêmicas, no governo, na ciência, nos círculos intelectuais humanistas, nenhum que queira ou afirme estar a par dos "tempos" -- pode ou acredita plenamente na verdade absoluta, ou mais particularmente, na verdade cristã. No entanto, o nome da verdade tem sido mantido, como tem sido com os nomes daquelas verdades humanas uma vez consideradas absolutas, e poucos em posição de autoridade ou influência hesitaria em usá-las, mesmo quando eles estão cientes de que os seus significados mudaram. A verdade, em outras palavras, foi "reinterpretada"; As antigas formas foram esvaziadas e receberam um conteúdo novo, quase Niilista. Isto pode facilmente ser visto por um breve exame de algumas das principais áreas em que a verdade foi "reinterpretada".

Na ordem teológica, a primeira verdade é Deus. Onipotente e onipresente Criador de tudo, revelado pela fé e na experiência dos fiéis, Deus é o fim supremo de toda criação e Ele, ao contrário de sua criação, encontra seu fim em si mesmo, tudo criado se encontra em relação e dependência dEle, o único que nada depende fora de si mesmo, Ele criou o mundo para que pudesse viver em desfrute dele, e tudo no mundo está orientado para este fim, que, contudo, alguns homens podem perder-se por um desvio de sua liberdade.

A mentalidade moderna não pode tolerar tal Deus. Ele é ao mesmo tempo muito íntimo - muito "pessoal", muito "humano" - e demasiado absoluto, muito inflexível em suas exigências para nós, e Ele se faz conhecido somente pela humilde fé - um fato que fere o orgulho da inteligência moderna. Um "novo deus" é claramente necessário pelo homem moderno, um deus mais atentamente modelado segundo o padrão das preocupações centrais modernas, como a ciência e negócios; e, de fato, há uma importante intenção do pensamento moderno para proporcionar tal deus. Esta intenção já é clara em Descartes, é materializado no deísmo do Iluminismo, desenvolvido ao fim no idealismo alemão; o novo deus não é um Ser, mas uma ideia, não revelado pela fé e humildade, mas construído por uma mente orgulhosa que ainda sente a necessidade de "explicação" ao perder o seu desejo da salvação. Este é o deus morto dos filósofos que apenas necessitam uma "causa primeira" para complementar seus sistemas, bem como os "pensadores positivos" e outros sofistas religiosos que inventam um deus pois "necessitam" dele, e pensam que podem usá-lo à vontade. Quer seja "deísta", idealista, "panteísta", ou "imanentista", todos os deuses modernos são construtos mentais, fabricados por almas mortas pela perda de fé no verdadeiro Deus.

Os argumentos ateístas contra tais deuses são tão irrefutáveis quanto irrelevantes; pois tal deus é, de fato, o mesmo que nenhum deus. Desinteressado no homem, impotente para agir no mundo (exceto para inspirar um "otimismo" mundano"), ele é um deus consideravelmente mais fraco que os próprios homens que o inventaram. Em tais alicerces, não é necessário dizer, nada seguro pode ser construído; e é com boas razões que os liberais, enquanto comumente professam crença nessa divindade, na verdade constroem sua visão de mundo em cima do mais óbvio, dificilmente mais estável: a fundação do Homem. O ateísmo Niilista é uma formulação explícita do que já estava, não de uma forma clara, mas de uma forma confusa, presente no Liberalismo.

As implicações éticas na crença de tal deus são precisamente as mesmas daquelas do ateísmo; este acordo interno, no entanto, é mais uma vez disfarçado exteriormente por trás de uma nuvem de metáforas. Na ordem cristã, toda a atividade desta vida é vista e julgada à luz da vida do mundo futuro, a vida além da morte, que não terá fim. O incrédulo não possui ideia do que isso significa para a vida do fiel Cristão; para a maioria das pessoas de hoje, a vida futura, como Deus, tornou-se uma mera ideia, e, por isso, custa pouco de dor e esforço tanto para negá-lo quanto para afirmá-lo. Para o verdadeiro Cristão, a vida futura é uma alegria inconcebível, alegria que supera a alegria que ele conhece através da comunhão com Deus em oração, na Liturgia, no Sacramento; por que, então, Deus será  tudo em todos e não haverá distanciamento desta alegria que certamente será infinitamente melhor. O verdadeiro crente tem o consolo de uma antecipação da vida eterna. O crente no deus moderno, não tendo tal antecipação e, portanto, nenhuma noção da alegria cristã, não pode acreditar na vida futura do mesmo modo, na verdade, se ele fosse honesto consigo mesmo, ele teria que admitir que, no fundo, não acredita.

Existem duas formas principais de tal descrença que se passa pela crença Liberal: a Protestante e a humanista. A visão Liberal Protestante da vida futura -- compartilhada, infelizmente, por um número crescente dos que se professam ser Católicos ou até mesmo Ortodoxos - é, como suas opiniões sobre tudo o mais que pertence ao mundo espiritual, uma mínima profissão de fé que mascara uma fé em nada. A vida futura se tornou um sombrio submundo na concepção popular, um lugar onde se pode ter um "descanso merecido" após uma vida de trabalho. Ninguém tem uma ideia muito clara deste reino, pois corresponde a nenhuma realidade; é, antes, uma projeção emocional, um consolo para aqueles que preferem não enfrentar as implicações de sua descrença real.

Tal "céu" é fruto de uma união da terminologia Cristã com um mundanismo comum, e não é convincente para ninguém que entende que tal compromisso é impossível; nem o verdadeiro Cristão Ortodoxo nem o Niilista é seduzido por ela. O compromisso com o humanismo é, se alguma coisa, ainda menos convincente. Até aqui, dificilmente há uma pretensa ideia de que corresponde à realidade; tudo se torna metáfora e retórica. O humanista já não fala mais sobre céu, pelo menos não de forma séria; mas ele se permite falar do "eterno", de preferência através de figuras de linguagem: "verdades eternas", "eterno espírito dos homens".  Alguém pode, com razão, questionar-se se tais palavras tem algum significado em tais frases. No estoicismo humanista o "eterno" foi reduzido a um conteúdo tênue e frágil a ponto de ser praticamente indistinguível do Niilismo materialista e determinista que tenta, com certa razão, seguramente, destruí-lo.

Em qualquer dos casos, tanto o Liberal "Cristão" e ainda mais o Liberal humanista, a incapacidade de acreditar na vida eterna está enraizada no mesmo fato: eles acreditam apenas neste mundo, não possuem nem experiência ou fé no outro mundo e, sobretudo, acreditam em um "deus" que não é poderoso suficiente para ressuscitar os homens da morte.

Atrás de sua retórica, o sofisticado Protestante e o humanista estão conscientes de que, no seu universo, não há espaço para o Céu, nem para a eternidade; sua sensibilidade completamente Liberal, mais uma vez, não se orienta ao transcendente, mas para uma fonte imanente de sua doutrina ética, e sua ágil inteligência é capaz de transformar este faute de mieux numa apologia positiva. Deste ponto de vista, é tanto "realismo" quanto "coragem" viver sem a esperança na alegria eterna ou sem o medo da dor eterna; para aquele dotado de visão Liberal das coisas, não é necessário acreditar em Céu ou Inferno para ter uma "boa vida" neste mundo. Tal é a cegueira completa da mentalidade Liberal ao significado da morte.

Se não há imortalidade, acredita o Liberal, ainda se pode levar uma vida civilizada; "se não há imortalidade" - uma profunda lógica do Ivan Karamazov no romance de Dostoievski - "tudo é permitido". O estoicismo humanista é possível para certos indivíduos por um certo tempo: ou seja, até que eles percebam as implicações de se negar a imortalidade. O Liberal vive em um paraíso de tolos que deve entrar em colapso quando de frente a verdade das coisas.  Se a morte é, como o Liberal e o Niilista acreditam, a extinção do indivíduo, então este mundo e tudo que há nele - o amor, a bondade, a santidade, tudo - são como nada, nada que o homem possa fazer é tem alguma importância última e o horror da vida está escondido do homem apenas por sua força de vontade em enganar si mesmos; e "tudo é permitido", nenhuma esperança transcendente ou medo impede o homem de experimentos monstruosos e sonhos suicidas. As palavras de Nietzsche são verdades - e a profecia - de um novo mundo resultante deste ponto de vista:

De tudo aquilo que antigamente se tinha por verdade, hoje nem uma palavra é ainda merecedora de crédito. Aquilo que era desprezado como profano, proibido, desprezível e fatal -- todas essas "flores" agora crescem sobre os mais charmosos caminhos da verdade.

A cegueira do Liberal é um antecedente direto do Niilista, e mais especificamente da moralidade Bolchevique; pois este último é apenas uma aplicação coerente e sistemática da descrença Liberal. É uma grande ironia da visão Liberal que, precisamente quando sua mais sincera intenção é posta em prática no mundo, e que todos os homens estão "liberados" do jugo dos padrões transcendentes, e quando o pretexto da crença no outro mundo já desaparecera -- é precisamente aí, que a vida como o Liberal conhece ou deseja, tornar-se-á impossível; o "novo homem" que a descrença produz só pode ver o próprio Liberalismo como a última "ilusão" que o Liberalismo desejava desfazer.

Na ordem política, o cristianismo também foi fundada sobre a verdade absoluta. Nós já vimos, no capítulo anterior, que a principal forma de governo onde havia união com a Verdade Cristã foi no Império Cristão Ortodoxo, onde a soberania estava atribuída a um Monarca, onde a autoridade procedia dele para baixo, através de uma estrutura social hierárquica. Veremos no próximo capítulo, por outro lado, como uma política que rejeita a Verdade Cristã deve reconhecer "o povo" como soberano e entender a autoridade como procedendo de baixo para cima, em uma sociedade formalmente "igualitária”. É claro que um é a inversão perfeita do outro; pois são opostos em concepções tanto quanto sua origem como também ao propósito. A Monarquia Cristã Ortodoxa é um governo divinamente estabelecido, e orientado, em última instância, para o outro mundo; o governo com o ensinamento da Verdade Cristã e a salvação das almas como o seu propósito mais profundo; o governo Niilista - cujo nome mais adequado, como veremos, é a anarquia --- é o governo estabelecido pelos homens, e dirigido exclusivamente a este mundo, governo que não tem nenhum objetivo maior do que a felicidade terrena.

A visão Liberal de governo, como se poderia suspeitar, é uma tentativa de compromisso entre estas duas ideias irreconciliáveis​​. No século 19, este compromisso tomou a forma de "monarquias constitucionais", uma tentativa - mais uma vez - de se casar uma velha forma com um novo conteúdo; hoje, os principais representantes da ideia Liberal são as "repúblicas" e "democracias" da Europa Ocidental e América, grande parte dessas preservam um equilíbrio bastante precário entre as forças de autoridade e de Revolução, enquanto professando a acreditar em ambas.

É claro que é impossível acreditar em ambas com a mesma sinceridade e fervor, e na verdade, nunca ninguém fez isso. Monarcas constitucionais como Louis Philippe pensou fazê-lo, professando a governar "pela graça de Deus e a vontade do povo" - uma fórmula cujos termos anulam o outro, um fato igualmente evidente tanto para o Anarquista quanto para o Monarquista.

Dessa forma um governo está seguro na medida em que tem Deus como seu fundamento e Sua Vontade como guia; mas isso, com certeza, não é uma descrição de um governo Liberal. Trata-se, na visão Liberal, do povo que governa, e não Deus; o próprio Deus é um "monarca constitucional" cuja autoridade foi totalmente delegada ao povo e cuja função é inteiramente cerimonial. O Liberal acredita em Deus com o mermo fervor retórico com o qual acredita no Céu. O governo erguido sobre tal fé é pouco diferente, em princípio, de um governo erigido sobre total descrença, e qualquer que seja seu resíduo presente de estabilidade, está claramente apontado na direção da anarquia.

Um governo deve governar pela graça de Deus ou pela vontade do povo, deve acreditar em autoridade ou Revolução; desta forma um acordo entre os dois só é possível na aparência, e apenas por um tempo. A Revolução, assim como a descrença que sempre a acompanhava, não pode ser interrompida no meio do caminho, é uma força que, uma vez despertada, não vai descansar até que ela termine em um reino totalitário deste mundo. A história dos últimos dois séculos tem provado isso. Apaziguar a Revolução e oferecendo concessões, como os liberais sempre fizeram, mostra, assim, que eles não possuem uma verdade para se opor, mas apenas para, talvez adiar, mas não impedir, a realização de seu fim.  E se opor a Revolução radical com outra Revolução, quer seja "conservadora", "não-violenta", ou "espiritual", não é apenas revelar a ignorância de todo escopo e a natureza da Revolução de nossos tempos, mas também admitir o primeiro princípio da Revolução: de que a velha verdade não é mais verdade, e uma nova deve tomar o seu lugar. No próximo capítulo desenvolveremos este ponto, definindo mais de perto o objetivo da Revolução.

Na visão de mundo Liberal, portanto, em sua teologia, ética e bem como em outras áreas que não examianos -- a verdade tem sido enfraquecida, amolecida, comprometida; em todas as esferas onde a verdade um dia foi absoluta, agora se tem menos certeza, isso caso não tenha sido totalmente relativizada. Dessa forma é possível - e isto, de fato, representa uma definição do projeto Liberal - preservar por um tempo os frutos de um sistema e uma verdade da qual estão incertos e céticos; nada de positivo pode ser construído sobre tal incerteza, nem sobre uma tentativas de torná-lo intelectualmente respeitável nas várias doutrinas relativistas já examinadas. Não existe e não pode haver apologia filosófica para o Liberalismo; suas apologias, quando não são simples retórica, são emocionais e pragmática. Mas, o fato mais impressionante sobre o Liberal, para qualquer observador relativamente imparcial, não é tanto a inadequação de sua doutrina mas também o próprio esquecimento dessa inadequação.

Este fato, que é compreensivelmente irritante aos críticos bem-intencionados do Liberalismo, tem somente uma explicação plausível. O Liberal é imperturbável pelas contradições e deficiências fundamentais de sua própria filosofia, porque seu principal interesse está em outro lugar. Se ele não está preocupado em fundar a ordem política e social mediante a Verdade Divina, se é indiferente à realidade do Céu e do Inferno, se ele concebe Deus como uma mera ideia de um poder impessoal, é porque ele é está muito mais interessado em fins mundanos, e porque todo resto é vago ou abstrato a ele. O Liberal pode estar interessado em cultura, no aprendizado, nos negócios, ou simplesmente no conforto, mas em cada uma de suas atividades a dimensão do absoluto é simplesmente ausente. Ele é incapaz - ou indisposto - em pensar em termos de fins, das coisas finais. A sede da verdade absoluta desapareceu; foi engolida por um mundanismo.

No universo Liberal, naturalmente, a verdade - isto é, o aprendizado- é bastante compatível com o mundanismo; mas existe mais verdade além do aprendizado. "Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz.". Nunca alguém que buscou corretamente a verdade deixou de encontrar, no fim - aceitando-o ou rejeitando-o - nosso Senhor, Jesus Cristo, "o Caminho, a Verdade e a Vida"; Verdade que contrapõe o mundo e reprovação a toda mundanidade. O Liberal, pensa que seu universo protege-o contra essa Verdade, é o "homem rico" da parábola, sobrecarregado por seus interesses e ideias mundanas, relutante de trocá-los pela humildade, pobreza e humilhação; as marcas do verdadeiro buscador da verdade.

Nietzsche deu uma segunda definição do Niilismo, ou melhor, um comentário sobre a definição "não há verdade", e isto é, "não há resposta para a pergunta: 'por que'". O Niilismo significa, portanto, que as questões últimas não têm respostas, ou seja, ausência de respostas positivas; e o Niilista é aquele que aceita implicitamente o "não" que o universo supostamente dá como resposta a estas perguntas. Mas há duas maneiras de aceitar esta resposta. Existe o caminho extremo em que é explicitado e amplificado nos programas da Revolução e da destruição; este é o Niilismo propriamente chamado de Niilismo ativo, pois - nas palavras de Nietzsche - "O Niilismo... não é somente a crença que tudo merece perecer; mas alguém realmente coloca as mãos à obra; destrói-se”. Mas há também um caminho "moderado", que é o passivo ou implícito, Niilismo que estamos a examinar, o Niilismo do Liberal, o humanista, o agnóstico que, concordando que "não há verdade", já não mais anseia pelas questões últimas. O Niilismo ativo pressupõe este Niilismo de ceticismo e descrença.

Os regimes totalitários Niilistas deste século comprometeram, como parte integrante de seus programas, a "reeducação" impiedosa de seus povos. Poucos sujeitos a este processo durante qualquer período de tempo, escaparam inteiramente de sua influência; em uma paisagem onde o cenário é o pesadelo, o senso de realidade e verdade inevitavelmente sofre. A "reeducação" sutil, mais humana em seus métodos, mas ainda assim Niilista em suas consequências, tem sido praticada há algum tempo no mundo livre, e não há lugar mais persistente ou eficaz do que seu centro intelectual, o mundo acadêmico. Aqui coerção externa é substituída pela persuasão interna; um ceticismo mortal reina, escondido atrás dos restos de uma "herança cristã", na qual poucos acreditam, e muito menos com profunda convicção. A profunda responsabilidade que o estudioso uma vez possuiu, a comunicação da verdade, tem sido renegada; fingem "humildade" para esconder esse fato por trás de uma conversa sofisticada sobre "os limites do conhecimento humano", mas é apenas outra máscara do Niilismo que o acadêmico Liberal compartilha com os extremistas de nossos dias.  A juventude que -- até que seja "reeducada" no ambiente acadêmico -- ainda tem sede de verdade, é ensinada em vez da verdade, a "história das ideias", ou então o interesse é desviado para estudos "comparativos"; assim, o relativismo que permeia tudo, e o ceticismo impresso nesses estudos é suficiente para acabar praticamente toda sede natural pela verdade.

O mundo acadêmico tornou-se hoje, em grande parte, uma fonte de corrupção. É corruptor ouvir ou ler as palavras dos homens que não acreditam na verdade. É ainda mais corruptor receber, no lugar da verdade, mais aprendizado e erudição que, se forem apresentadas como fins em si mesmos, não são mais que paródias da verdade da qual foram feitos para servir, não são mais do que uma fachada que por trás da qual não há nenhuma substância. É, infelizmente, corruptor até mesmo estar exposto à virtude primária que ainda resta no mundo acadêmico. Pois a integridade serve, não a verdade, mas a uma erudição cética, e assim seduz os todos homens de forma mais eficaz com o evangelho do subjetivismo e incredulidade que esta erudição esconde.  É corruptor, por fim, simplesmente viver e trabalhar em um ambiente inteiramente permeado por uma falsa concepção de verdade, onde a Verdade Cristã é vista como irrelevante para os problemas centrais acadêmicos, onde mesmo aqueles que ainda acreditam nesta Verdade pode apenas esporadicamente fazer que suas vozes sejam ouvidas acima do ceticismo promovido pelo sistema acadêmico. O mal, é claro, reside principalmente no próprio sistema, que é fundamentado em inverdade, e apenas incidentalmente nos muitos professores que este sistema permite e incentiva a pregar.

O Liberal, homem mundano, é o homem que perdeu a fé; e a perda da fé perfeita é o começo do fim da ordem erigida em cima daquela fé. Aqueles que procuram preservar o prestígio da verdade sem acreditar nela, oferece a arma mais potente para todos os seus inimigos; uma fé meramente metafórica é suicídio. O radical ataca a doutrina Liberal em todos pontos, e o véu da retórica não é proteção contra o forte impulso de sua lâmina afiada. O Liberal, sob o ataque persistente, cede lugar ponto após ponto, forçado a admitir a verdade das acusações contra ele sem ser capaz de contrariar esta situação com alguma de suas verdade positivas; até que, depois de uma transição longa e geralmente gradual, de repente, ele acorda e descobre que a Velha Ordem, indefesa e aparentemente insustentável, foi derrubada, e que uma nova, mais "realista" - e mais brutal - tomou o lugar.


O Liberalismo é o primeiro estágio da dialética Niilista, tanto por sua fé ser vazia e porque esse vazio coloca em reação ainda mais Niilista -- a reação que, ironicamente, proclama ainda mais alto que o Liberalismo, seu "amor pela verdade", enquanto carrega a humanidade um passo adiante no caminho do erro. Esta reação é o segundo estágio da dialética Niilista: o Realismo.

"Nihilism: The Root of the Revolution of the Modern Age", Seraphim Rose

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Death to the World: Do Punk à Ortodoxia (Entrevista)


Conte-nos um pouco sobre como Death to the World começou. Justin Marler (Abestos Death, Sleep) ainda está envolvido?

Death to the World foi criado por punks convertidos à fé Ortodoxa oriental que tornaram-se monges em um mosteiro no norte da Califórnia. Eles deram início a publicação para que chegasse aos velhos amigos que ainda estavam tragados pela cena punk. Sim, uma dessas primeiras pessoas era Justin Marler, da banda Sleep, mas ele não é mais um editor principal. Nós ainda enviamos zines e ele está trabalhando conosco para re-imprimir o livro "Youth of the Apocalypse" que foi impresso pela primeira vez durante os primeiros anos da existência do Death to the World.

Na sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados a pela nossa juventude do século XXI?

Como nosso Padre Serafim Rose disse uma vez, "Nossa vida anormal de hoje pode ser caracterizada como mimada, "super protegida". Desde a infância a criança de hoje é tratada, como regra geral, como um pequeno deus ou deusa na família: seus caprichos são atendidos, seus desejos são cumpridos, ele é cercado por brinquedos, de diversões, conforto; ele não é treinado e educado de acordo com os rigorosos princípios do comportamento Cristão, ao contrário, deixa-se desenvolver de maneira que satisfaça suas inclinações". (The Orthodox World View). Nós somos a geração "MEU", os narcisistas. Vivemos em um mundo de fantasia, uma Disneyworld, desde a juventude, raramente somos dirigidos para a seriedade da vida e para o que o mundo exige de nossas almas. Assim, quando crescemos, somos atormentados pelo desejo de nos cercar de tantas distrações e aparelhos, o tanto quanto pudermos. A vida no século 19 era drasticamente diferente. Hoje, ao invés de uma chama cintilante de uma vela de oração, que em outros tempos servia para iluminar nossas casas, é a televisão que emite sua "des-luminada" luz. Nossos valores já não são mais ditados pelas palavras de Cristo ou pela vida de Seus Santos, os valores são regurgitados através deste aparelho brilhante. As salas costumavam ser usadas para conversações sobre Deus e uns aos outros, agora veja o que temos feito! Nos cercamos em volta da televisão! Quando isto aconteceu?! As crianças andam por aí com as cabeças coladas em telefones celulares; dão preferência aos fones de ouvido tocando música em alto volume nos ouvidos do que uma conversação séria. Onde tudo isso nos levou? Nós que somos tão superiores aos antigos por causa de nossos "avanços". Nós esquecemos a santidade; paramos de lutar pela sabedoria. Muitas almas hoje vivem da corrente elétrica que sai dos nossos computadores e não pela virtude ou pureza. Crimes sexuais, assassinatos, suicídios, etc acontecem nas ruas de hoje como matilhas de cães selvagens, consumindo muitos, alguns que conheço pessoalmente. Toda nossa sociedade e a forma como ela está estruturada é um desafio para a juventude de hoje. Um monge nos primeiros séculos do cristianismo perguntou uma vez ao mais velho, "Será que nos últimos tempos, os Cristãos poderão ressuscitar os mortos ou realizar milagres?" O ancião respondeu-lhe "Será um esforço maior ainda, ser Cristão naqueles tempos". Estes são os tempos em que estamos vivendo; a sociedade que vivemos é demasiadamente anticristã, fazem com que nos olhem como estranhos, radicais religiosos, às vezes até mesmo para os cristãos dos nossos dias. Como Santo Antônio, um monge antigo disse uma vez; "Está chegando a hora em que as pessoas irão enlouquecer e quando encontrarem alguém que não é louco, irão atacá-lo, dizendo: "Você é louco, você não é como nós.".”

Muitos enxergam a subcultura punk, entre aqueles perdidos nas drogas, com comportamento auto-destrutivo ou niilistas, como "causas perdidas". Você obviamente discorda. Por quê?



Ninguém é uma causa perdida. Como Santa Isabel, a Nova Mártir, disse certa vez: "A imagem de Deus pode ser ofuscada, mas nunca destruída." As vezes, essas subculturas criam uma forte rebelião no indivíduo, mas o problema é que eles não sabem para onde direcioná-la. Eles sabem que o mundo é ruim, mas a rebelião que deles é dirigida politicamente, ou, algumas vezes, em formas auto-destrutivas. Death to the World tenta direcionar essa rebelião contra o mundo para uma forma saudável, citamos Santo Isaac da Síria (séc VI d.C) em todas as publicações, "O "mundo" em geral é o nome genérico para todas as paixões [...] Observe para quais dessas paixões você está vivo. Então você vai saber o quão distante você está vivo para o mundo, e quão distante você está morto para ele". Assim, DTTW propaga que quanto mais você morre para seus desejos e quanto mais você corta sua própria vontade, maior a "rebelião" e a rejeição ao mundo. Dessa forma, torna-se não apenas uma luta física, mas desenvolve-se em uma luta espiritual e interior.


Por que você usa a frase "A Última Verdadeira Rebelião"?


As subculturas atuais estão cheias de jovens que querem lutar pela verdade através da rebelião contra esse mundo. A subcultura punk é uma rebelião, mas é falsa rebelião, pois se alguém segue até o seu fim, encontrará o niilismo completo e o desespero. Essas rebeliões dentro das subculturas podem ser eficazes, mas a verdade pela qual eles estão lutando, geralmente não é a mesma verdade tal como a conhecemos, a Verdade enquanto Pessoa, como Jesus Cristo. Ao contrário das rebeliões deste mundo, Death to the World é uma rebelião que não conduz para um beco sem saída, é uma aceitação de algo real, algo de outro mundo. É por isso que é "A Última Verdadeira Rebelião", porque é a única verdadeira.

Death to the World muitas vezes destaca sobre mártires e santos da fé Ortodoxa. Por que histórias sobre mártires parecem ter alguma ressonância com o seu público?



As almas das pessoas de hoje que estão buscando a Verdade estão sendo sufocadas pela nossa sociedade falsa. Em programas de televisão, nos outdoors, nos filmes, etc., na grande maioria das vezes não há qualquer pessoa real e sólida que sirva de inspiração. Nossa sociedade não penas é rodeada, mas também é bombardeada pela falsidade todos os dias. Parece triste dizer, mas algum de nós nem sequer temos pais que nos sirvam de inspiração. Os santos e mártires se relacionam conosco de uma forma que sentimos que nenhuma outra pessoa poderia. Com suas vidas, eles nos trazem a realidade da vida, a realidade do que significa seguir Cristo de uma forma verdadeira, sem compromisso. As mortes brutais dos Santos, Justino, Inácio, George, Pantaleão, e outros grandes cristãos, durante os primeiros séculos contem algumas das mais incríveis histórias de fé inabalável que uma pessoa pode ler. As vidas dos Santos João de São Francisco, Nikolai do Zhica, Herman do Alaska, Raphael do Brooklyn, e outros santos americanos ou aqueles que viveram durante o nosso tempo, revela-nos como Deus não deixou Sua Igreja, mesmo nestes tempos escuros. Na experiência Ortodoxa, os Santos são reais, vivos, e intercedem por nós diante do trono de Cristo. Eles trazem o céu para próximo de nós através de suas orações e adoração diante de nosso Criador nos Céus. Eles são os "amantes da verdade" que sacrificaram completamente tudo e qualquer coisa terrena, dedicando suas vidas para a Verdade Suprema, que é encontrada no Cristo encarnado. Assim, ao ver essas vidas tão reais, radicais e seus testamentos para a vida além-túmulo, as pessoas veem que nossa "rebelião" não é falsa, mas muito real.


A fé Ortodoxa tem uma rica tradição de ter belas obras de artes e ícones. Como você incorpora essa tradição em suas publicações?


Iconografia está na Igreja desde seu início. Segundo a tradição, o Apóstolo Lucas foi o primeiro que pintou Cristo e Sua Mãe em uma prancha de madeira retirada da mesa na casa da Virgem Maria onde Cristo comia. Foi proclamado ao longo dos séculos que o ícone é como uma janela para o céu, revelando o mundo vindouro. Por dois mil anos, a Ortodoxia sempre deu grande ênfase na adoração a Deus com todo o nosso ser, com todos nossos sentidos, e para nós o ícone é a representação visual da teologia. Em um ícone, a pessoa pode ver toda a salvação; a renovação da natureza humana, a promessa e o brilho do céu, a exaltação da humildade, etc. O ícone intriga as pessoas porque é uma forma de arte que é sagrada, provém de uma tradição apostólica e move as almas das pessoas. Em nossas publicações, usamos muitas representações de ícones e eles ressoam nos corações das pessoas, há algo neles que prendem a atenção do indivíduo. São João Damasceno falou que os ícones eram o Evangelho dos iletrados. É bem verdade, pois, mesmo que uma pessoa que possa ler, sua alma pode ser analfabeta para as coisas espirituais e os ícones podem comunicar o Evangelho a eles.


Muitas igrejas (protestantes, católicos, etc) oferecem o evangelho para jovens utilizando música. O que torna a sua abordagem diferente? Como a sua perspectiva única sobre Cristo apela para os seus leitores?
A Igreja Ortodoxa é a Igreja Cristã mais antiga, traçada suas raízes diretamente aos Apóstolos. Tem existido antes tanto do Catolicismo Romano e do Protestantismo, sendo abençoada pelo próprio Cristo, sendo os Apóstolos os primeiros Cristãos Ortodoxos. Pode-se apontar as origens da Igreja Ortodoxa até o tempo de Cristo, mas seria mais apropriado dizer que sempre existiu, como nós exclamamos que nossa Fé "estabeleceu o Universo" (Synodikon Ortodoxo). A Tradição Ortodoxa é muito profunda e não muda desde os primórdios do Cristianismo, mantendo-se em linha com as palavras de São Paulo, quando disse: "...esteja firme e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, ou nossas epístolas" (2 Thess. 2:15). O profundo entendimento do homem e do que significa ser transfigurado através de Cristo têm florescido abundantemente ao longo dos séculos em comunidades monásticas e deu à Igreja um sentido muito consistente e denso do que significa ser cristão neste mundo. A Ortodoxia incubou e floresceu no Oriente, preservando os ensinamentos de Cristo e continua a celebrar a forma mais antiga de cultos cristãos, a Divina Liturgia, que pode ser traçada até o próprio Apóstolo Tiago, o irmão de Cristo. Eu acho que é isso que nos destaca, o que nos torna únicos para nosso público. Há muitas igreja hoje que oscilam com os tempos, que mudam de ano para ano, dependendo da cultura que os cerca, porque eles acham que irão trazer mais pessoas para dentro. As pessoas veem que a ortodoxia não é assim, ela não muda com o mundo ao seu redor, porque ela é profundamente centrada na vida do mundo por vir, jamais será tragada e está dirigida para o céu. As pessoas que veem a falsidade neste mundo e querem a Ortodoxia porque enxergam-na como um refúgio que sempre será preservado e firme entre o mundo que já está se desintegrando em torno deles.

Apesar de tudo, você sente que o Death to the World tem sucedido em trazer os jovens para Cristo? 

Com a depressão, a tristeza e o desconforto que assola a nossa sociedade e as pessoas ao nosso redor, as perspectivas Ortodoxas sobre o sofrimento é uma das principais coisas que o DTTW se relaciona. Os antigos Cristãos e monges do passado viam as lutas e o sofrimento como um meio para colocar a nossa carne em sujeição, para aprender a carregar a nossa cruz sem reclamar, tudo, em última instância, se relaciona com o sofrimento de Cristo. Como a nossa sociedade frequentemente varre o sofrimento, o pobre e os miseráveis para baixo do tapete, longe da vista do "civilizado", a Ortodoxia estende a mão para eles e relacionam a um Deus que sofre com eles, não um Deus envolto em uma bonita caixa Americana com um laço em cima. Nós gostamos de falar das coisas como elas são, a vida não deve ser adocicada. Tanto a alegria como o sofrimento devem ser reconhecidos como partes de nossa viagem em direção à salvação. O sofrimento é parte de nossa vida que deve ser abraçado por nós com mais frequência, sem fugir dele, mas, infelizmente, nós, que crescemos em uma sociedade muito confortável e relaxada, temos muita dificuldade para lidar com isso, para nosso próprio mal. São Doroteu de Gaza disse uma vez que quando Deus expulsou os homens do paraíso Ele olhou pra eles e disse pra Si mesmo com tristeza, "ele [o homem] não sabe como ser feliz; se ele não tiver tempos difíceis, ele provavelmente se perderá completamente, se ele não sabe o que o sofrimento é, ele não vai aprender o que repouso é [...]" [Ensino Prático sobre a Vida Cristã]. Portanto, o sofrimento é dado a nós pelo amor de Deus, para que pudéssemos lembrar a nossa queda e cultivar dentro de nós um amor mais profundo para o Reino dos Céus. Quando jovens e adultos que estão sofrendo veem as vidas dos Santos e os ortodoxos que carregam seus sofrimentos com alegria, dá-lhes a esperança e a coragem para abraçar e conquistar suas lutas. O coração humano é muito complexo e não pode ser remediado por distração ou por prescrição de medicamentos, é necessário algo mais, algo que o homem e este mundo não pode dar. Quando as pessoas que sofrem chegam até nós, sempre nos humilha ver que estas pessoas em sofrimento estão, por vezes, mais perto de nosso Cristo do que nós. Como nós cantamos para Deus, em um serviço chamado Akathist da Ação de Graças, "Tu descendeste até a cama do doente e seu coração comunica Contigo. Tu inspiras a alma pela paz no momento de dor e sofrimento. Envias ajuda inesperada. Tu és o confortador. Tu és o amor onisciente. A ti eu canto: Aleluia!"

O que você diria para os nossos leitores, que estão preocupados com a educação dos seus filhos em Cristo nesta geração?


Faça os crescer dentro da verdade. O mundo em torno deles lhes dará muitas contradições e falsas doutrinas, ajude e explique essas coisas para eles. Cultive dentro de si a pureza e amor para com o seu Criador. Seja uma família, comam juntos, rezem juntos, unam suas almas, sua casa deve ser uma pequena capela. Seja direto, em vez de vago, sobre coisas como sexo, drogas, etc, para que eles saibam o que essas coisas são e quais as suas consequências, não só do corpo, mas o mais importante, sobre a alma. Ajude-os a abraçar o sofrimento e não os mime, eles vão criar a resistência e atenção para com a alma, em vez de distraí-los com coisas temporais. Acima de tudo, eles precisam de buscar alguma verdade que os façam ser capazes de viver em nossa sociedade anticristã - torne-os amantes da Verdade. Há um excelente livro sobre o chamado, "Raising them Right" por São Teófano o Recluso que disse uma vez que, de todas as obras santas, a educação dos filhos é o mais santa.

Onde é que os leitores interessados ​​saber mais sobre Death to the World ou a Igreja Ortodoxa?

Informações sobre DTTW podem ser encontradas em nosso site, www.deathtotheworld.com e informações sobre a Fé Ortodoxa podem ser encontradas no www.orthodoxinfo.com, www.stherman.com ou www.ancientfaith.com.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Novo Homem Espiritual (Hieromonge Damascene)


Hoje, o novo “homem espiritual", pode escolher através das livrarias ou navegar na internet para encontrar alguma ideia ou prática religiosa que se encaixe no seus desejos, desde o Ocidente ao Oriente, do Sufismo ao satanismo. No entanto, quanto mais informações ele guarda na sua cabeça, mais vago sua visão de mundo se torna. Ele tem interesses religiosos em várias áreas, mas, basicamente, acredita que tudo é relativo, i.e.: 'Minhas ideias funcionam para mim, suas ideias funcionam para você'. Ele acredita em tudo ao mesmo tempo, mas não acredita profundamente em nada, e principalmente em nada que exija-lhe um sacrifício. Ele não tem ideal algum pelo qual valeria a pena morrer. Mas, suas antenas estão no ar, em espera por algo que satisfaça seus desejos, algo que irá satisfazer sua vaga inquietude, algo sem a necessidade de honestamente olhar para si mesmo e mudar, algo que não perturbe seu constante esforço de satisfazer seu ego.


Hieromonge Damascene

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cristão: Um Niilista dos Valores Modernos

Para finalizar nossa discussão sobre niilismo, precisamos  estabelecer e nos abrir para a acusação de que nós, possuímos um niilismo de nossa própria maneira; nossa análise, pode-se argumentar, é "pessimista" ao extremo. Categoricamente rejeitando quase tudo realizado valioso e verdadeiro pelo homem moderno, estamos na semelhante posição da completa negação como no caso do mais extremo dos niilistas.

E, de fato, o cristão é, em certo sentido - em um sentido último - um "niilista", pois para ele, no final, o mundo não é nada, e Deus é tudo. Isso é, naturalmente, o exato oposto do niilismo que examinamos aqui, onde Deus é nada e o mundo é tudo; isso é um niilismo que sai do Abismo, os cristãos saem de um "niilismo" que procede da abundância. O verdadeiro niilista coloca sua fé em coisas efêmeras e que acabam em nada; todo "otimismo" sobre este fundamento é claramente inútil. O Cristão, renunciando a tal vaidade coloca sua fé em uma coisa que nunca acabará, o Reino de Deus.

Para quem vive em Cristo, é claro, muitos dos bens deste mundo podem ser deixados para trás, e ainda assim, o Cristão pode apreciá-los mesmo sabendo da evanescência dos bens; mas os bens não são necessários, são verdadeiramente nada para ele. Aquele que não vive em Cristo, por outro lado, já vive no Abismo, e nem  mesmo todos os tesouros deste mundo pode preencher seu vazio.

Mas isso é um mero artifício literário para chamar o nada e a pobreza do Cristão de "Niilismo"; na verdade eles estão em plenitude, abundância e alegria além da imaginação. E somente alguém cheio de tanta ambudância que pode enfrentar diretamente o Abismo para o qual o Niilismo conduziu os homens. Aquele que nega de forma mais extrema, o mais desiludido dos homens, só pode existir se dispensar pelo menos uma dessa analise destrutiva que possui. Esta é, de fato, a raiz psicológica da "nova era" a qual através dela o niilista deve colocar toda a sua esperança; aquele que não pode crer em Cristo deve, e irá, acreditar no Anticristo.

Niilismo: A Raiz da Revolução da Idade Moderna (Seraphim Rose)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Niilismo: A Raiz da Revolução da Idade Moderna (Seraphim Rose)

O seguinte trecho faz parte da introdução do livro "Nihilism: The Root of the Revolution of the Modern Age"

 Devemos, em primeiro lugar, descrever esta mentalidade e suas manifestações mais importantes para nos oferecer um esboço do seu desenvolvimento histórico; e, em seguida, sondar mais profundamente o seu significado e seu programa histórico. Mas antes que seja feito, temos de saber com mais clareza do que estamos falando, é preciso começar, portanto, com uma definição de niilismo.

Esta tarefa não precisará nos deter muito tempo; niilismo foi definido de forma muito sucinta, pela fonte do niilismo filosófico, Nietzsche.

“Aquilo que é nenhuma verdade; aquilo que não é o estado absoluto da ‘coisa-em-si’. Isso por si só é o niilismo e do tipo mais extremo.”

"Não há nenhuma verdade": nós encontramos esta frase mais de uma vez neste livro, e se repetirá com frequência a seguir. A questão do niilismo é, mais profundamente, a questão da verdade.

Mas que verdade? A questão é, antes de tudo, uma de lógica: antes de discutir o conteúdo da verdade, devemos examinar a sua própria possibilidade e as condições de sua postulação. E por "verdade" se entende, é claro - como a negação de Nietzsche torna explícita - a verdade absoluta, que já definimos como a dimensão do início e do fim das coisas.

"A verdade absoluta": a frase tem, para uma geração criada em ceticismo e desacostumados a uma reflexão séria, um tom antiquado. Ninguém, certamente - é a ideia comum - ninguém é ingênuo o suficiente para acreditar na "verdade absoluta" hoje, pois, para a nossa era esclarecida, esta é "relativa". A última expressão, vamos observar-"toda verdade é relativa", é a tradução popular da frase de Nietzsche, "não há (absoluta) verdade", está doutrina é a base do niilismo tanto das massas e da elite.

"A verdade relativa" é representada principalmente, para a nossa época, pelo conhecimento da ciência, que começa em observação, procede por lógica, e progride de forma ordenada a partir do conhecido para o desconhecido. É sempre discursiva, contingente, qualificada, sempre expressa em “relação” para outra coisa, nunca sozinho, nunca categórico, nunca absoluto.


O especialista científico irrefletido não vê necessidade de qualquer outro tipo de conhecimento, ocupados com as demandas de sua especialidade, ele tem, talvez, nem possui tempo nem inclinação para as perguntas "abstratas" que inquire, por exemplo, para os pressupostos básicos dessa sua especialidade. Se ele for pressionado, ou se sua mente espontaneamente se volta a tais perguntas, a explicação mais óbvia é geralmente suficiente para satisfazer a sua curiosidade: toda a verdade é empírica, toda verdade é relativa.




Ambas as declarações, é claro, se auto-contradizem. A primeira declaração em si não é empírica em tudo, mas metafísica, a segunda é em si uma afirmação absoluta. A questão da verdade absoluta é levantada antes de tudo, para um observador crítico, por tais auto-contradições; e a primeira conclusão lógica que somos levados por esta é: se há alguma verdade, esta não poderá ser meramente “relativa”. Os primeiros princípios da ciência moderna, assim como qualquer outro sistema de conhecimentos, são eles próprios imutáveis e absolutos; se eles não fossem não haveria conhecimento, nem mesmo o mais “reflexivo” conhecimento, pois não haveria nenhum critério pelo qual classificar qualquer coisa como conhecimento ou verdade.



Este axioma tem um corolário: o absoluto não pode ser alcançado por meio do relativo. Ou seja, os primeiros princípios de qualquer sistema de conhecimento não podem ser alcançados através dos meios do próprio conhecimento, deve ser construído previamente; pois eles são o objeto, não de demonstração científica, mas de fé. Discutimos, no capítulo anterior, a universalidade da fé, vendo-a como subjacente a toda atividade humana e do conhecimento, e vimos que a fé, se não estiver for vítimas de ilusões subjetivas, esta deve estar radicada na verdade. Portanto, é uma questão legítima, e de fato inevitável se os primeiros princípios da fé científica - por exemplo, a coerência e a uniformidade da natureza, a transubjetividade do conhecimento humano, a adequação da razão para tirar conclusões a partir da observação - são fundada em verdade absoluta; se estes não estiverem, estes podem ser nada mais que probabilidades não verificáveis  O “pragmático”, posição tomada por vários cientistas e humanistas que não podem perder tempo pensando nas últimas coisas – posição aquela que estes princípios não são mais que hipóteses experimentais de várias experiências fiáveis – é certamente insatisfatória; esta pode oferecer uma explicação psicológica de fé inspirados nestes princípios, mas desde que não se estabeleça um fundamento da fé na verdade, este deixa todo o edifício científico sobre areias movediças e não fornece nenhuma defesa segura contra os ventos irracionais que atacam periodicamente.

Na realidade, no entanto, - quer se trate de ingenuidade simples ou de um conhecimento mais profundo que não pode justificar pelo argumento - a maioria dos cientistas e humanistas, sem dúvida, acreditam que sua fé tem algo a ver com a verdade das coisas. Se essa crença é justificada ou não é, naturalmente, outra questão; é uma questão metafísica, e certeza que esta não é justificada pela metafísica bastante primitiva da maioria dos cientistas.


Todo homem, como vimos, vive pela fé, como também a todo homem - algo menos óbvio, mas não menos certo - é um metafísico. A pretensão de qualquer espécie de conhecimento - e nenhum homem vivo pode se abster de esta afirmação - implica uma teoria e padrão de conhecimento, e uma noção do que é em última análise, conhecível e verdadeiro. Esta verdade suprema, seja concebido como o Deus cristão ou simplesmente como a coerência última das coisas, é um primeiro princípio metafísico, uma verdade absoluta. Mas com o reconhecimento, logicamente inevitável, de tal princípio, a teoria da "relatividade da verdade" desmorona: ela própria é revelada como absoluta auto-contradição.



A proclamação da "relatividade da verdade" é, assim, o que poderia ser chamado de uma "metafísica negativa" - mas uma metafísica da mesma forma. Existem várias formas principais de "metafísica negativa", e uma vez que cada uma se contradiz de maneira um pouco diferente, e apela a uma mentalidade um pouco diferente, seria sensato dedicar um parágrafo aqui ao exame de cada um. Podemos dividi-los em duas categorias gerais "realismo" e "agnosticismo", cada uns dos quais por sua vez podem ser subdivididas em "simples" e "crítica".

 "Realismo simples", ou "naturalismo", não nega precisamente a verdade absoluta, mas sim faz reivindicações absolutas de sua própria que não pode ser defendido. Rejeitando qualquer absoluto "ideal" ou "espiritual", afirma a verdade absoluta de "materialismo" e "determinismo". Esta filosofia é ainda atual em alguns círculos - é a doutrina marxista oficial e está exposta por alguns pensadores científicos sofisticados no Ocidente, mas a corrente principal do pensamento contemporâneo tem deixado para trás, e hoje parece uma relíquia exótica de uma simples, de um passado, dia Vitoriano quando muitos transferiram para a “ciência” a fidelidade e as emoções que um dia fora dedicado a religião.

É impossível a formulação de uma metafísica "científica" - impossível, porque a ciência é, por sua natureza, o conhecimento do particular, e a metafísica é o conhecimento do que está subjacente ao particular e está pressuposto por ela. Esta, metafísica “científica, é uma filosofia suicida na qual o “materialismo” e o “determinismo” faz toda a filosofia invalida; já que esta precisa insistir que a filosofia, como tudo mais, é “determinada”, seus defensores só pode afirmar que a sua filosofia, uma vez que existe, é "inevitável", porém  nem tudo é "verdade". Esta filosofia, de fato, se consistente, iria acabar com a categoria da verdade por completo, mas seus adeptos, inocentes de pensamento que seja consistente e profundo, parecem ignorar esta contradição fatal. A contradição pode ser observada, em um nível menos abstrato, na prática altruística e idealistica, como por exemplo, do Niilistas Russos do último século, contradição flagrante de sua teoria puramente materialista e egoísta; Vladimir Solovyov inteligentemente apontou esta discrepância, atribuindo-lhes o silogismo " O homem  é descendente dp macaco, consequentemente, vamos amar uns aos outros. "

Toda filosofia pressupõe, em algum grau, a autonomia das idéias; "materialismo" filsosófico é, assim, uma espécie de "idealismo". É por assim dizer, a auto-confissão daqueles cujas idéias não se elevam acima do óbvio, cuja sede de verdade é tão facilmente amenizada pela ciência que os tornam-a absoluta.

"Realismo crítico" ou "positivismo", é a negação direta da metafísica verdadeira. Partindo da mesma predisposição científica como o naturalismo mais simples, esta professa em maior modéstia em abandonar o absoluto completamente e limitando-se a verdade "empírica" e "relativa". Já notamos a contradição nesta posição: a negação da verdade absoluta é em si uma "verdade absoluta", mais uma vez, como acontece com o naturalismo, o próprio postulado do primeiro princípio do positivismo é a sua própria refutação.

Apenas no "agnosticismo crítico" ou "agnosticismo puro" podemos encontrar, enfim, o que parece ser uma renúncia bem sucedida do absoluto, mas, infelizmente, tal renúncia implica a renúncia de tudo o resto e termina - se é consistente - no total solipsismo. Tal agnosticismo é declaração simples do fato: não sabemos se existe uma verdade absoluta, ou o que a sua natureza poderia ser se esta existisse; vamos, então - este é o corolário – com o conteúdo empírico, a verdade relativa que podemos saber. Mas o que é a verdade? O que é o conhecimento? Se não houver nenhum padrão absoluto, através da qual estes estão a ser medido, estes não podem ao menos ser definidos. O agnóstico, se ele reconhece essa crítica, não s permite que esta perturbe-o, sua posição é de "pragmatismo", "experimentalismo", "instrumentalismo": não existe uma verdade, mas o homem pode sobreviver, pode se dar bem no mundo , sem ela. Tal posição tem sido defendida em lugares altos - e em lugares muito baixos também - em nosso século anti-intelectualista; mas o mínimo que se pode dizer dele é que ele é intelectualmente irresponsável. É o abandono definitivo da verdade, ou melhor, a entrega da verdade ao poder, seja esse poder ser nação, raça, classe, conforto, ou qualquer outro motivo que é capaz de absorver as energias dos homens, uma vez dedicados à verdade.

O "pragmático" e "agnóstico" pode ser muito sincero e bem-intencionado, mas eles só enganam a si mesmos - e outros - se continuarem a usar a palavra "verdade" para descrever o que eles estão procurando. Sua existência, de fato, é o testemunho de que a busca da verdade, que por muito tempo deu vida a ao homem europeu, chegou ao fim. Quatro séculos do pensamento moderno tem sido, de um ponto de vista, um experimento nas possibilidades de conhecimento aberto ao homem, assumindo que não há nenhuma Verdade Revelada. A conclusão - que Hume já viu e do qual ele fugiu para o conforto do "senso comum" e a vida convencional, o qual as multidões sentem hoje sem possuir qualquer abrigo seguro - a conclusão deste experimento é uma negação absoluta: se não existe uma Verdade Revelada, não há verdade; a busca da verdade fora da Revelação chegou a um beco sem saída. O cientista admite isto, restringindo-se ao mais estreito das especialidades, satisfeito se no conteúdo ele vê uma certa coerência em um conjunto limitado de fatos, sem preocupar-se sobre a existência de qualquer verdade, grande ou pequena; as multidões demonstram isso olhando para o cientista, não para a verdade, mas para as aplicações tecnológicas de um conhecimento que não tem mais do que um valor prático; olhando para outras fontes irracionais uma vez que espera-se encontrar na verdade. O despotismo da ciência sobre a vida prática é contemporânea  com o advento de uma série de “revelações” pseudo-religiosas, os dois são os sintomas correlatos do mesmo mal: o abandono da verdade.

A lógica, portanto, pode nos levar a este ponto: a negação ou dúvida da verdade absoluta leva (se este é consistente e honesto) para o abismo do solipsismo e irracionalismo; a única posição que não envolve contradições lógicas é a afirmação de uma verdade absoluta que está na base e protege todas as verdades menores; e essa verdade absoluta não pode ser alcançada por caminhos humanos e relativistas. Neste ponto a lógica nos falha, e devemos entrar em um universo completamente diferente do discurso se quisermos continuar. Uma coisa é dizer que não há barreiras lógicas para a afirmação da verdade absoluta; outra coisa é afirmá-la, de fato. Tal afirmação pode ser baseada em uma única fonte; a questão da verdade deve ser levantada ao fim da questão da Revelação.