domingo, 23 de agosto de 2015

A Justiça Original é a Verdade (Por Jean Borella)


O homem moderno espontaneamente pensa no pecado de forma subjetiva e perde completamente de vista o lado objetivo. Esse erro prejudica toda a sua vida espiritual e moral, e todas suas formas de pensar sobre o pecado original e a redenção. Mas, na realidade, a justiça é definida como ordem e o pecado original como desordem. Essa doutrina é objetiva porque se encontra dentro da natureza das coisas. A justiça original é ordem, e ordem é a harmonia hierárquica refletindo e atualizando a unidade na multiplicidade. Justiça é, de fato, a qualidade do que é justo. A justiça marca a relação entre as coisas, pois o que é justo se apresenta como uma coisa em relação com outra em conformidade com suas respectivas naturezas e, portanto, em conformidade com o direito que elas têm de atualizar estas naturezas. Um relacionamento justo torna possível uma realidade ser o que ela é. Esta possibilidade não está realizada ipso facto no mundo das coisas criadas, e isto, por duas razões: em primeiro lugar, nenhuma realidade é, no seu próprio ser, idêntico a sua natureza, mas, ao contrário, encontra-se sujeita ao devir; segundo, o mundo estando completo, a atualização de uma natureza particular colidirá com as atualizações de todas outras naturezas. Se a primeira razão estabelece o direito de um ser criado ser o que deveria ser por sua natureza, o segundo estabelece a ideia de hierarquia. Considerado em si mesmo, um direito é sempre absoluto e, portanto, exclui todos os outros. Mas é impossível traduzir esse absolutismo em igualdade e dizer que, uma vez que todos os direitos são absolutos, todos eles são iguais, pois igualdades destrói os direitos. Este direito é, em verdade, o direito de uma natureza ser o que ela é. A igualdade é realiza somente no plano puramente quantitativo de unidades numéricas (1=1); assim, sob essa tendência, tudo tende a uma justaposição numérica, que só é possível através da destruição de todas as diferenças qualitativas que especificamente compõem essas naturezas, de modo que, com a igualdade, o direito se torna o direito para o nada. Assim, para preservar este direito (esse ser absoluto incapaz de expressar-se através de uma justaposição igualitária), resta apenas um posicionamento hierárquico, no qual, aquele direito, renunciando ser absoluto, consente com sua própria relatividade, em outras palavras: um posicionamento onde um direito pode ter mais direito a alguma coisa que outro. Mas, para essa renúncia não ser apenas resignação e compromisso, ela tem que ser baseada em algo além de restrição. Por outro lado, para que haja uma subordinação hierárquica, é necessário um princípio de hierarquização que regulamenta a subordinação das naturezas por seu grau de proximidade com o Princípio. Estas duas exigências são satisfeitas em uma operação única e singular: a submissão da criatura ao Criador, do relativo ao Absoluto. Todos os direitos são estabelecidos com a renúncia de seu caráter absoluto em face dos direitos do Absoluto, e é através desta obediência por si só que esses direitos são estabelecidos. Por este ato de submissão, todas as naturezas têm acesso a uma igualdade formal e qualitativa, não horizontalmente entre si, mas verticalmente com respeito a Deus. Referindo-se a esse critério absoluto, cada um é visto - simultaneamente - em sua própria verdade, que define sua posição hierárquica. A justiça consiste, então, na submissão do menor ao maior, porque essa submissão está em conformidade com a verdade ontológica. Mas, sendo uma submissão, trata-se de um ato de vontade; pois, mesmo se por definição o intelecto é sujeito à verdade, ele ainda é impotente para levar-se à submissão, que é uma operação própria da vontade. O intelecto não obedece; é em si mesmo obediência. Mas a vontade obedece, no sentido ativo do verbo, porque pode sempre recusar-se a ser submisso à verdade percebida pelo intelecto. Portanto, se a vontade obedece, e uma vez que isso não ocorre apenas por estar simplesmente ciente da natureza das coisas, isso deve ser um efeito da Graça Divina. A harmonia hierárquica, que dá definição à justiça, é de fato, baseada na natureza das coisas, mas para que possa ser atualizada pela vontade, é necessário o poder da graça. Assim, a justiça é o efeito da verdade, mas também é o efeito da graça sobrenatural.


Ordem e Ordenação

A matéria também pode ser expressada da seguinte maneira: através do Verbo, o ser criado recebe uma forma (ou uma essência ou logos). Esta forma determina a existência do ser criado e sua situação hierárquica na ordem cósmica. Para determinar a natureza de uma coisa, sua "coisidade", o que ela é, é também determinar tudo que ela não é e, portanto, é também atribuir a coisa sua posição entre todas as criaturas, pois sua natureza não é a única natureza - a possibilidade (natureza) não é esgotada por si só. Também não é completamente separada de todas as outras possibilidades (naturezas), se assim fosse seria como não-existente para o resto da criação e vice-versa. Por ser o que é (determinação cardinal) a criatura também é um elemento da ordem universal (determinação ordinal). Assim, uma nota musical, por ser ela mesma, isto é, tal ou qual nota específica, define simultaneamente seu lugar dentro da oitava. Por sua própria natureza a criatura é um nexo de relações implicando o universo inteiro. E é por isso que é correto apropriar essa função de relação ontológica ao Logos. Sem dúvida, essa doutrina de uma determinação dual - cardinal e ordinal - pede para que vemos a criatura em uma totalidade harmoniosa, uma hierarquia cósmica em que cada coisa tem sua razão de ser e ocupa uma posição adequada à sua natureza. Indubitavelmente, há também como consequência da doutrina da correspondência universal, a doutrina da criação corpórea, anímica e angélica, que define, para o homem, os três graus básicos da realidade cósmica, que são como as diversas reverberações do Único Logos. Assim, a doutrina da correspondência universal é só outra maneira de expressar a unidade da criação na multiplicidade dos seus aspectos e, portanto, a própria noção de hierarquia cósmica. Mas é claro que essas noções são, na verdade, inseparáveis da noção de criação, e que, na Bíblia, a beleza e a bondade do universo não representa temas poéticos, mas axiomas metafísicos. Aqui, de forma brevemente resumida, está aquilo que São Tomás chama de o "trabalho de distinção do Verbo".

No entanto, um ser criado não possui sua natureza em acto abinitio (desde o começo); ele realiza por passar (relativamente) de potência ao ato. Neste sentido, dessa forma é fornecido o fim para o qual foi criado, um fim que não pode ser alcançado por nenhuma outra criatura. Mas a organização deste fim está vinculada ao trabalho ordenador do Espírito Santo. É ele, o viniculum perfectionis, o "vínculo da perfeição", que atualiza e aperfeiçoa as criaturas enquanto ordena elas para seu fim. Tal é a condição de toda criatura que pode cumprir seu fim próprio, e portanto, para realizar sua própria natureza, somente entregando-se para outra criatura. Somente através da alteridade é que ela pode descobrir sua própria identidade. E da mesma forma, todas as criaturas realizam-se entregando-se para a criação, enquanto toda criação realiza-se entregando-se a Deus. Pois o fim tudo é verdadeiramente interminável, infinito; caso contrário, uma criatura realizar seu fim significaria simplesmente sua destruição e sua aniquilação. Assim vemos que os dois significados do "fim", fim/aniquilação e fim/perfeição, são dois aspectos de uma mesma realização: "Se o grão de trigo não morrer, não terá frutos." O fim como morte é o mesmo que o fim como cumprimento. Assim, as raízes da árvore chegam ao tronco que contém seiva, encontrando o seu cumprimento nele; o tronco faz o mesmo para os ramos e os ramos para as folhas, flores e frutos. A fruta somente tem seu fim na continuidade da espécie, mas a espécie não é um fim em si mesmo - ela manifesta um aspecto da Beleza Divina, e, através dela, encarna um arquétipo da Verdade Eterna que nos instrui. Então, através do ministério do espírito contemplativo, a própria espécie se torna consciente, pois a consciência, a chaminé cósmica que arde no coração da árvore da criação e que carrega as chamas até ao céu, é a raison-d’être dos estados considerados. 

Certamente o Amor ordena tudo para todo o resto. Se o Verbo é a ordem, o Espírito Santo é a ordenação, Aquele que anima e revela a interseção universal das determinações cardinais e ordinais. Desta forma, vislumbramos a metafísica da caridade em toda sua unidade. De acordo com a ordem da caridade fraterna, o Espírito Santo é o animador e revelador da proximidade ontológica, que deve estar relacionado com o Verbo; de acordo com a ordem da Caridade Divina, podemos vê-lo através de sua função de maternidade hipostática, revelador do Logos; agora podemos vê-lo como animador e revelador do "verbo" das criaturas em sua função como caridade cósmica - a obra da criação exige a concordância das "duas mãos de Deus", o Verbo e o Espírito Santo. Se uma realidade papável pode simbolizar uma realidade inteligível, é em virtude de uma correspondência ontológica, o trabalho do Verbo Divino. Mas é o trabalho da Terceira Pessoa definir realidades palpáveis e inteligíveis em correspondência, trazer o símbolo ao simbolizado (isto é, o próprio símbolo em sua função ordenadora de relacionar um com o outro). A criação prossegue, assim, como uma partitura musical: as notas são compostas pelo Logos, mas é o Espírito Santo quem canta.


Jean Borella em The Secret of the Christian Way: A Contemplative Ascent Through the Writings of Jean Borella

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Criação e a Sexualidade. A Espécie e a Personalidade (Por Nikolai Berdiaev)

A vida sexual neste mundo está viciada e corrompida nas suas raízes mais profundas. A sede de reunificação, de ser UM, que atormenta o homem preso ao desejo, é uma sede que não pode ser satisfeita. O ato sexual em particular, diferenciado, aparece como resultado de uma fragmentação original, é sinal do homem que perdeu sua unidade: isso é suficiente para tornar o ato irremediavelmente trágico e ineficaz. O ato sexual representa a tentativa extrema de duas correntes saídas de polos contrários se unificarem e absorverem uma na outra  sem sair delas mesmas. Chegam a se confundir? Certamente, não. Há algo que testemunha contra o ato sexual, e que carrega em si mesmo sua própria profanação, o germe da desintegração, esse transtorno licencioso que é exatamente o oposto do princípio da unidade. A união pelo ato sexual não é mais que ilusória, e esta ilusão tem que ser paga. Pelo fato dessa união ser temporária, estando na ordem natural das coisas, onde tudo é instantâneo e perecível, o sexo carrega o germe da morte. A ilusão fugaz do ato sexual é sempre acompanhada por uma reação, uma volta atrás, uma desunião. A desunião depois do ato sexual é mais completa que antes. Um tipo de isolamento doentio contamina o êxtase do abraço. O ato sexual, segundo seu significado místico, teria que ser eterno, e a união que ele encarna deveria aprofundar indefinidamente, as duas carnes deveriam se fundir em uma só, penetrar uma a outra até o extremo. Em vez disso, se cumpre o ato de uma união passageira, muito temporal e muito superficial. A reunião passageira se paga com uma divisão mais profunda. Dessa forma, a união no ato sexual se manifesta sempre  limitada. A união dos sexos em um sentido místico deveria significar a penetração de cada célula de uma criatura na célula de outra, a fusão total de uma carne na outra carne, de todo espírito no outro espírito. Em vez disso, se cumpre um ajuste superficial, incompleto, fragmentário, a carne permanece separada da outra carne, e o ato sexual diferenciado, isolado, guarda em si algo de defeituoso e mórbido. A união dos sexos teria que ser eterna, não deveria ser abreviada e nem ser acompanhada por uma volta atrás; deveria comunicar-se e expandir-se em toda a prisão onde a criatura está encerrada, teria que ser profunda e infinita. Em vez disso, o ato sexual na ordem da natureza, coloca o homem sob o infinito absurdo da corrente sexual que não conhece mitigação e prazos. Assim, a fonte de vida neste mundo está corrompida em sua base, e aparece como a fonte da escravidão humana. O ato sexual é interiormente contrário e oposto ao espírito do mundo: a vida natural do sexo é sempre trágica e inimiga da personalidade. Esta personalidade é apenas um brinquedo para o gênio da espécie, e a ironia do gênio da espécie acompanha o ato sexual. Sobre isso, tanto Schopenhauer como Darwin podem dar testemunho. O ato sexual é profundamente impessoal, é geral e idêntico, não só nos humanos como também para outros seres vivos. O ato sexual não somente não possui algo de pessoal ou individual, mas também não tem nada especificamente humano. A personalidade está sempre ali sob o poder de uma corrente geradora obscura, que relaciona o mundo humano com o mundo animal. A edificação mística de uma união pessoal em uma carne não pode ser alcançada e realizada em um elemento impessoal. E a tragédia sem solução do sexo é que a sede de uma união pessoal arrasta o homem para a corrente genética da natureza, levando-a, através do ato sexual, não a uma união pessoal, mas a uma concepção, a uma destruição da personalidade na geração, a um infinito maligno e não a uma eternidade.  Nesta vida sexual em busca do prazer e satisfação do desejo, o que prevalece não é uma edificação pessoal, mas sim o interesse da espécie, a continuação da espécie. O pessoal não pode realizar-se através do impessoal. O ato sexual corresponde sempre ao desmoronamento da personalidade e sua dissolução.



Não é, portanto, a imortalidade e a eternidade o que se espera a pessoa no ato sexual, mas sua dispersão em uma pluralidade de novas vidas por vir. O ato sexual afirma um infinito maligno, uma alternância infinita do nascimento e da morte. O que nasceu morre e engendra o que morrerá. O engendrar é sempre um sinal de fracasso da perfeição pessoal, da não adesão a eternidade. O que concebe e o que tem que nascer são princípios igualmente fugitivos. A concepção é de uma só vez o castigo do ato sexual e a redenção de seu pecado: e assim, o nascimento e a morte estão misteriosamente ligados na sexualidade. Pois a sexualidade não é somente a fonte de vida, mas também a fonte da morte. Se nasce e morre por ela. A corrupção e a decadência mortal entraram no mundo pelo caminho da sexualidade. Foi com ela que a personalidade começou a decrescer, a se desprender da eternidade. A sexualidade afunda o homem nessa categoria perecível da natureza na qual reina a alternância infinita de nascimento e morte. O que é mortal engendra e o que é mortal morre. A lei do karma e da evolução infinita da reincarnação que ensina a concepção religiosa da Índia é, na verdade, essa necessidade da morte e o nascimento, ligados ao pecado da sexualidade. A liberdade benfeitora do cristianismo substituiu as consequências obrigatórias da lei do karma. Há um antagonismo profundo entre a vida eterna e perfeita da personalidade e o nascimento de vidas mortais no tempo, entre a perspectiva da personalidade e a perspectiva da espécie. A espécie é a fonte da morte da personalidade, a fonte de vida geradora. Os gregos já sabiam que Hades e Dionísio eram apenas um só deus, sentiam a ligação mística entre a morte e a geração.  A isso se deve que no próprio ato sexual, na união sexual, se oculta uma tristeza mortal. Na vida geradora do sexo se dissimula o pressentimento da morte. O que dá a vida leva consigo a morte. A alegria da união sexual é sempre uma alegria envenenada. E este veneno mortal encerrado na vida sexual sempre foi percebido como um pecado. O ato sexual sempre envolve a tristeza das esperanças dissipadas da personalidade, a passagem do eterno ao temporal. Na união pessoal aqui embaixo sempre há algo que morre. O ato sexual se cumpre na corrente da espécie, fora da personalidade. O instinto sexual, apoderando-se do homem, submete a personalidade eterna à forças passageiras. A sua queda, sua dispersão em uma pluraridade maligna está inscrita antecipadamente na vida das espécies. Nada específico poderia levar a exaltação da pessoa, da eternidade perfeita. A corrente da espécie nasceu da queda e da desintegração do homem. A dissociação eterna do mundo caído e culpável tem como face oposta a reunião artificial dentro da espécie. A espécie humana é uma pseudo-humanidade, que testemunha a dissociação humana. Nela, a própria natureza do homem se encontra escravizada e sufocada. O gênio da espécie é o principal obstáculo para a revelação da humanidade, para a revelação da natureza criadora do homem.  A espécie é uma necessidade maligna, a fonte de escravização do homem e sua desintegração. O vínculo entre o homem e o espírito se transforma em um vínculo específico com a carne e o sangue. Os seres não estão mais unidos pela filiação da Virgem, do eterno feminino no Espírito, mas somente pela engendração, pelo ato sexual. O vínculo da espécie humana, o vínculo sexual, supõe este ato, que os homens se envergonham por ser impuro. As pessoa costumam esconder a fonte de seu vínculo e união com a espécie. A religião da espécie humana terminaria, então, por glorificar e deificar aquilo que os homem escondem e se envergonham. O vínculo da carne e do sangue é o vínculo pelo ato sexual, o vínculo forjado por ele. A grande e a imensa significação de Rosanov reside na sua imposição ao conhecimento religioso esta verdade e tudo que deriva dela.


A liberação da personalidade sobre o ato sexual é a liberação em respeito a espécie, a ruptura do vínculo da espécie em nome do vínculo pelo espírito, a saída do universo maligno do nascimento e morte. A espécie e a personalidade são profundamente antinomicas, seus princípios são mutuamente excludentes.  Tudo que é pessoal no homem é inimigo da sexualidade específica. Só na personalidade, a energia da sexualidade, pode chegar ao seu grau mais elevado; não existe uma personalidade forte sem essa energia, mas sua tendência não deve estar direcionada para a espécie, tem que se opor a queda em uma pluralidade maligna. A personalidade se conhece e se realiza fora do elemento da espécie. Não poderia vencer a morte e adquirir a eternidade no terreno do vínculo da espécie. É preciso nascer uma humanidade nova. A relação entre os pais e os filhos é biológica-zoológica. No que lhe diz respeito, o homem é aceitavelmente semelhante a uma galinha ou cão. Mas a relação dos pais com os filhos pode ser mística. É possível contrariar a ordem da natureza, trocar a espécie pelo espírito. Falo aqui de uma relação ativa entre as gerações e não uma obediência servil ao passado, que nada mais é que uma escravidão genética. O homem se sente culpado pela morte de seus pais e seus antepassados, deve reviver-los. Mas essa reavivação não pode ser feita a não ser mediante ao espírito, fora da espécie. A continuidade místico-ativa entre o homem e seus ancestrais transforma a relação de vínculo de espécie em vínculo espiritual, de vínculo mortal em vínculo imortal. No centro de sua concepção religiosa, Fedorov havia situado esta ideia de reavivamento de seus antepassados mortos. Neste reavivamento (não uma ressurreição) viu a essência do cristianismo. Mas as concepções de Fedorov são afetadas por uma divisão inexplicável. Por uma parte, torna-se corajosamente para frente, exorta o homem a atividade criadora e acredita que tem o pode em suas mãos de reviver os mortos mediante suas forças ativas. Mas, por outro lado, Fedorov segue sendo um conservador, e esta mesma atividade criadora, em vez de direciona-la para o futuro, para uma edificação nova, quer fazê-la servir para restaurar forças antigas. Fedorov é um revolucionário dentro da corrente da espécie, mas caí ainda mais dentro da corrente. No fundo, sua religião é uma religião da espécie. Reforça o vínculo que liga o ser com a espécie, da carne com o sangue, e não com o espírito. Portanto, para ele, os mortos tem que reviver pela espécie e não pelo espírito. E suas visões geniais sobre a espécie tem um sabor específico. Previu genialmente na Santíssima Trindade a forma de toda geração, mas em vez de ver ali somente uma geração essencialmente espiritual, parece não ter entendido vendo apenas a geração da espécie. Na vida da espéice, a morte é inevitável. Somente pelo espírito se pode vencer a morte, ressuscitar os mortos. O primeiro nascimento, na espécie, não é o nascimento autêntico do homem. Apenas o segundo nascimento, o nascimento no espírito, que falavam os místicos, que constituem para o homem o nascimento definitivo. Mas o caminho transitório da espécie teria que ser percorrido pela humanidade.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mortificação, Depressão e Noite Escura da Alma (Por Charles Upton)

A ciência e a arte da alquimia ensinam que a alma propriamente humana não pode ser forjada sem o colapso da alma subumana do "homem natural" - em termos Sufis a nafs al-ammara - sem o afrouxamento de sua aderência sobre as faculdades humanas para que elas possam ser conformadas, não às paixões subconscientes, mas ao Espírito consciente; isto é equivalente, embora num nível mais circunscrito e essencialmente psicofísico, a doutrina Sufi de fan (aniquilação do ego) e baqa (subsistência em Deus). Se colheita da humanidade integral deve ser semeada, cultivada e colhida, o solo da alma deve ser primeiramente limpo, lavrado e arado; sua resistência à fertilidade espiritual deve ser quebrada.

As três fases fundamentais da Grande Obra alquímica são a melanose ("enegrecimento", mortificação espiritual, simbolizada pelo metal chumbo), a leucose ("branqueamento", receptividade espiritual, simbolizada pela preta) e a iosis ("avermelhamento", realização espiritual, simbolizada pelo ouro); em termos clássicos do caminho místico, estes correspondem a Purgação, a Iluminação e a União. Nada pode ser realizado no Caminho Espiritual sem a mortificação do ego; aquelas "espiritualidades" que dão acesso a estados psíquicos aparentemente exaltados sem requerer, ou mesmo pedir, pela morte do velho eu são enganadoras, possivelmente até mesmo Satânicas: o duas vezes nascido precisa antes morrer.

Às vezes, essa mortificação, essa melanose, pode ser deliberadamente produzida através de um asceticismo e auto mortificação (embora, na ausência da Graça, tal asceticismo geralmente não é nada mais que um egoísmo espiritual, um exercício da própria vontade); em outros momentos ele está diretamente infundido pela Providência. As dificuldades e as tragédias da vida - em presença de uma verdadeira doutrina espiritual, com a Graça de Deus, e com as habilidades necessárias - podem ser transformadas para fins de uma purificação espiritual; este é o método mais profundo e mais radical de transmutar tragédia pessoal em uma grande felicidade. Mas, em outros momentos, as travas virão sobre a alma, sem motivo aparente. Deus simplesmente decide retirar Seu apoio, para que a alma afunde no mundo de natureza material, governado pelas paixões, para assim chamá-la para algo mais elevado. O Profeta Elias foge para o deserto para escapar o tirânico e idólatra Rei Ahab (o ego), onde ele é alimentado pelos corvos (a sabedoria escura de Deus); Jó, devido a aposta de Satã com Yavé, perde tudo que ele tinha - riqueza, saúde e a família - e sofre uma verdadeira metanóia, encontra Deus face-a-face, e é finalmente presenteado com uma nova vida muito maior que sua antiga, pois agora está enriquecido pela Sabedoria. E também há alguma verdade na noção de que a vulgaridade, o caos e o terror da vida moderna podem, por si só, agir como uma espécie de mortificação - se, claro, nós evitarmos a tentação de fugir dela adotando paixões muito tóxicas e distrações que nos oferecem, e assim poderemos enxergá-los como realmente são.

A pisque humana não foi projetada para ser autossuficiente; ela foi projetada para refletir, e conformar-se, à luz do Espírito. Se ela não conscientemente conformar-se ao chamado do Espírito, ela será tomada pela matéria, por um materialismo frio e por um peso de chumbo que destrói todas as esperanças. E nós geralmente não estamos dispostos a sacrificar nosso apego ao nível psíquico até que tal peso de chumbo ameace transformar nossa alma em um sepulcro preenchido por morte e corrupção.

A psique não "quer" que sejamos conscientes desse peso e paralisia, mesmo se já estivermos imersos nele; é por isso que a psique segrega vários glamoures ilusórios, de modo a esconder de nós a nossa condição real, e é por isso a psique coletiva (com ajuda dos engenheiros sociais) cria sua fantástica "cultura de entretenimento" preenchido com "armas de distração em massa". O glamour psíquico nem sempre é totalmente ilusório, no entanto; às vezes participa de vidya-maya ("sabedoria-aparência"), bem como avidya-maya ("ignorância-aparência") -  quero dizer que as realidades físicas e sociais, bem como as espirituais, às vezes, inicialmente, aparecem para nós em uma forma simbólica dramatizada no palco da psique; se não fosse assim, não poderíamos obter qualquer insight psicológico ou metafísico de sonhos. Mas, assim como o alcoólatra só aumenta sua secura por beber, da mesma maneira aquele que sobre o glamour da psique permanece por mais tempo que o designado encontrará só chumbo e cinzas de chumbo.

De acordo com um provérbio dos alquimistas, citado aqui na versão de William Blake, "tudo o que pode ser destruído deve ser destruído!". O glamour psíquico é um tipo de hemorragia, como aquela produzida por álcool ou cocaína ou drogas psicodélicas. Achamos que estamos no meio de toda a riqueza da vida, então despertamos e encontrar-nos deitado em uma poça de nosso próprio sangue. Este tipo de hemorragia, se sobrevivermos, pode (se Deus quiser) agir para queimar e esgotar nosso apego ao glamour psíquico. Se assim for, será sucedido por uma verdadeira mortificação, uma verdadeira melanose, em que, sem dúvida, perdemos nossa vida, mas perdemos por amor a Ele. (A representação estritamente precisa e cinematográfica do estágio da melanose - bem como a leucose e talvez o início de iosis - pode ser encontrada no filme de Robert Duvall, Tender Mercies.)

Uma das primeiras etapas do processo alquímico, então, é queimar tudo que é combustível, reduzir tudo que pudermos - tudo aquilo que não está ligado aos Princípios eternos, aquilo que está envolvido com o ego, e, portanto, intrinsecamente mortal - a cinzas, nas famosas palavras do poeta e padre John Donne: "Morte, morrerás!". O fogo é o fogo do Espírito, e as cinzas - a substancia que foi despojada de tudo que é limitada no tempo, contingente e perecível - são a matéria prima, que em um nível não é nada menos do que o polo passivo da Natureza Divina, a Substancia imperecível de Deus que está eternamente formada e impressa pelo eterno Ato de Deus. (A descoberta da substancia divina é a leucose; a formação e a imprimação dessa Substancia pelo Ato Divino, iosis). Nascemos com milhões de tendências psíquicas herdadas, apenas algumas podem ser trazidas para o campo magnético do Espírito por um esforço consciente. O resto, aquelas que são centrífugas em vez de centrípetas, aquelas que querem se dissipar em fuga de Deus em vez de retornar a sua Origem, deve ser queimado no fogo de suas próprias paixões (que é a face escura e secreta do Espírito) até que tudo seja reduzido a cinzas.

O tempo de cinzas é o tempo de mortificação da própria vontade, o estágio que São João da Cruz chamou de "a noite escura da alma". Pode parecer, de certa forma, como uma depressão clínica, ou até mesmo acompanhado por uma depressão, mas os dois não são a mesma coisa. Em uma depressão nos odiamos nós mesmos, lutamos contra nós mesmos; não podemos evitar que nossos conflitos psíquicos não resolvidos sobrecarreguem e nos deixe amargurado. A noite escura da alma, por outro lado, acontece somente com aqueles que estão em um Caminho espiritual sério. O consolo espiritual, a doçura e a luz dos estágios anteriores do Caminho simplesmente desaparecem. Nenhuma de nossas orações ou práticas meditativas "funcionam" mais, e nós ficamos cara-a-cara com um grande vazio. De forma secundária, nós podemos ficar deprimidos após encontrar este vazio, mas isso não é bem a mesma coisa. A depressão clínica ocorre inteiramente dentro do corpo e da psique. De certa forma, pode ser ainda mais física que psíquica, já que a depressão vegetativa (quando não surge principalmente de alguma doença orgânica), embora possa ser acompanhada por sentimento de tristeza (ou raiva ou medo) não é em si mesmo uma emoção, mas sim - como pânico - uma estratégia psicofísica para evitar a emoção. (A medicina tradicional chinesa vê tanto a depressão como a raiva como relacionadas com o fígado, o que parece confirmar a intuição de Freud de que a depressão é raiva introvertida, uma raiva que voltou-se contra si, isso também explica por que ervas como a de São João, e possivelmente o cardo de leite, são eficazes contra a depressão, uma vez que eles desintoxicam o fígado. E um particular exercício ikons, onde a mão direita "varre" sobre o coração e o fígado, prescrito para depressão). A noite escura da alma, por outro lado, é o momento em que a luz do Espírito é retirada da psique, a fim de que nos leve da psique ao Espírito.

E, no entanto, os dois estão relacionados. Na noite escura da alma nós perdemos completamente o poder de dirigir nossa vida espiritual. Em uma depressão somos ameaçados com a perda da capacidade de liderar nossas próprias vidas na direção que queremos, mas ainda se luta (muitas vezes em um nível profundamente inconsciente) para obter essa capacidade de volta, caso contrário, não estaríamos deprimidos; a raiva que geralmente subjacente a depressão é uma expressão desse esforço frustrado, que é baseado na falta de uma verdadeira submissão a Deus. Se nós estivermos sinceramente tentando levar nossas vidas diárias como um caminho espiritual, uma depressão pode apresentar-nos como uma oportunidade de entrar naquela noite escura: se Deus toma nosso casaco, podemos decidir deixar de lutar para obtê-lo de volta, e dar-Lhe nossa camisa também.

De acordo com a antropologia pneumática tradicional, a alma é composta principalmente de intelecto e vontade ("intelecto" aqui se referindo a razão ou dianoia, a faculdade racional, e não para o Nous ou Intelectus - a capacidade de perceber a Verdade diretamente assim como os olhos percebem a luz - uma faculdade do Espírito), e a raiz da vida espiritual é a mortificação da vontade. (De acordo com essa perspectiva particular, os afetos são considerados um aspecto ou uma "disposição" da vontade). Antes que o processo de mortificação ocorra, antes de aprendermos a dizer "não a minha vontade, mas a Tua seja feita", nosso intelecto será natural, puramente psíquico, baseado somente nas habilidades que nasceram conosco e aquelas adquiridas, impressões e conhecimentos. Entregar-se ao glamour psíquico é meramente uma manifestação desse intelecto natural. Mas quando submetemos nossa vontade à Vontade de Deus, nosso intelecto muda. Nosso brilho superficial pode ser mortificado; podemos sentir como se tivéssemos nos tornando velhos, aborrecidos e estúpidos. O pensamento, o sentimento, a intuição, a sensibilidade, a imaginação, a memória - todas essas faculdades da alma são escurecidas. E o que emerge dessa escuridão não é mais o que se costumava chamar-se de "meu". Se houver luz, já não é nossa luz. Se houver amor e conhecimento, não é mais nosso amor e nosso conhecimento; mas (como os Sufis dizem), Deus ama Deus, e Deus conhece Deus, em nós; nossa única responsabilidade é sair do Caminho. A razão/dianoia deu lugar ao Nous/Intelectus.


Nem o mercúrio, nem cobre, nem ferro, nem estanho, nem mesmo prata - metais que representam vários poderes e disposições psíquicas - podem funcionar como a raiz da metanóia alquímica. Somente se primeiramente formos reduzidos ao chumbo, através da melanose, através de uma mortificação radical, nossa alma poderá ser transmutada (via a prata receptiva da leucose) para o ouro alquímico.


Trecho do livro The Science of the Greater Jihad: Essays in Principial Psychology por Charles Upton

terça-feira, 16 de junho de 2015

O Simbolismo do Teatro (Por René Guénon)

Acabamos de comparar a confusão de um ser com sua manifestação exterior e profana [1] com a identificação de um ator com o personagem que ele está atuando; a fim de demonstrar em que medida esta comparação está correta, algumas considerações sobre o simbolismo do teatro não estarão fora do escopo, embora tal simbolismo não pertença exclusivamente ao domínio iniciático. É desnecessário dizer que este simbolismo pode estar ligado ao caráter original das artes e ofícios, os quais costumavam possuir um significado iniciático pelo fato de que estavam ligados a um princípio superior a partir do qual eles eram derivados como aplicações contingentes; ele só se tornou profano, como já explicamos, muitas vezes, com o resultado da degeneração espiritual da humanidade durante o curso descendente de seu ciclo histórico.

Pode-se dizer, de modo geral, que o teatro é o simbolo da manifestação, do caráter ilusório que expressa tão perfeitamente quanto é possível [2]. Este simbolismo pode ser visto ou do ponto de vista do ator ou daquele do teatro em si. O ator é um simbolo do Si ou do "homem interior" manifestando-se em uma série indefinida de estados e modalidades que podem ser consideradas como os muitos diferentes papéis; e deve-se notar a importância do antigo uso da máscara como uma exata expressão desse simbolismo [3]. Da mesma forma, o "homem interior" continua "não afetado" por suas manifestações; o desaparecimento da máscara, pelo contrário, força o autor mudar sua própria fisionomia. No entanto, em qualquer caso, o agente permanece fundamentalmente diferente daquilo que parece ser, da mesma forma como a "pessoa interior" é diferente da multiplicidade dos seus estados manifestados. São nada mais que as aparências e mudanças exteriores que ele coloca afim de realizar, ao longo dos vários modos que convêm a sua natureza, as indefinidas possibilidades que ele contem dentro de si mesmo no eterno momento de não-manifestação. 


Movendo-se para um outro ponto de vista, podemos dizer que o teatro é uma imagem do mundo: tanto o teatro como o mundo são propriamente "representações". O próprio mundo, por existir somente como uma consequência e uma expressão do Princípio do qual é essencialmente dependente em todos aspectos, pode ser considerado simbolização da ordem principial em sua própria maneira. É este caráter simbólico que confere ao mundo um valor superior aquele que possui em si mesmo, sendo o modo em que participa em um grau mais elevado de realidade. [4] Em árabe, o teatro tem sido designado pela palavra tamthīl que, como todas outras palavras que derivam da mesma raiz, mthl, denota os significados de semelhança, comparação, imagem ou figura; e alguns teólogos muçulmanos usam a expresão “ālam tamthīl", que pode ser traduzida por "mundo figurativo" ou "mundo de representação", para se referir a tudo aquilo que é descrito simbolicamente nas Sagradas Escrituras e, portanto, não podem ser tomadas literalmente. É notável que alguns aplicam esta expressão especificamente para o reino dos anjos e demônios, que na verdade representam os níveis mais elevados e inferiores do ser, que só podem ser descritos por termos simbólicos emprestados do mundo sensível. Além disso, por uma coincidência que é digno de nota, deve-se mencionar o papel considerável que estes anjos e demônios tinham no teatro religioso no Ocidente medieval. 

Do que foi dito, pode-se dizer que o teatro não está necessariamente limitado a função de representar o mundo humano, ou seja, de um único estado de manifestação; também pode representar ao mesmo tempo mundos superiores ou inferiores. Por esta razão, nas peças de mistérios da Idade Média, o palco era dividido em vários níveis correspondendo com os diferentes mundos; esses níveis geralmente correspondiam a sequencia da divisão ternária: céu, terra e inferno. Além disso, uma vez que a peça era realizada simultaneamente dentro dessas várias divisões, se tornava uma representação precisa da essencial simultaneidade dos estados do ser. Por falta de compreensão deste simbolismo, os modernos tem considerado como "ingenuidade", para não dizer desajustado, o que na verdade é algo de mais profundo significado. O que é mais surpreendente é a rapidez com que esta incompreensão apareceu, como é demonstrado pela sua manifestação impressionante entre os escritores do século XVII; este cisma radical entre a mentalidade da Idade Média e da mentalidade dos tempos modernos não é um enigma de mínima importância na história.

Já que falamos das peças de mistério, não acreditamos que seja inútil apontar para a singularidade dessa denominação que tem um duplo sentido: deve-se escrever, em todo rigor etimológico, "mistérios", pois essa palavra deriva da palavra ministerium, que significa "trabalho" ou "função", que claramente indica até que ponto que as representações teatrais deste tipo eram originalmente consideradas partes integrantes de uma celebração de feriados religiosos. [5] O estranho é que esse nome tenha sido usado e resumido de forma a tornar-se exatamente homônima dos "mistérios", e, finalmente, sendo confundida com esta outra palavra, que é de origem grega e tem uma derivação totalmente diferente; é somente através de uma alusão aos "mistérios" da religião, que eram encenados nas peças que assim foram designadas, que essa assimilação foi feita. Isso, sem dúvida, pode ser uma razão plausível; mas, por outro lado, se se considerar que representações simbólicas aconteciam nos "mistérios" da Antiguidade, como na Grécia e provavelmente também no Egito [6], pode-se ser tentado a ver nisto algo que remonta muito mais longe no tempo e se interpretar como uma indicação da continuidade de uma tradição esotérica e iniciática que se afirmava exteriormente, em intervalos mais ou menos distantes no tempo, por manifestações similares, com a adaptação exigida pela diversidade de circunstancias do tempo e lugar. [7] Nós tivemos oportunidades bastantes frequentes para apontar para importância de assimilações fonéticas entre palavras que são filologicamente distintas, como uma modalidade de linguagem simbólica; não há nada de arbitrário nisso, o que quer que a maioria de nossos contemporâneos possam pensar sobre isso,  e este método não é completamente sem conexões com os modos de interpretações pertencentes ao nirukta Hindu; mas os segredos da constituição intima das linguagens são tão completamente perdidas hoje que é difícil fazer alusões sem ser suspeito de ceder a "falsas etimologias" ou até mesmo a um mero "jogo de palavras". O próprio Platão, que ocasionalmente usa esse tipo de interpretação - como nós já indicamos em referência aos "mitos" - não é mais favoravelmente recebido pelo "criticismo" pseudo-científico das mentes que estão limitadas por preconceitos modernos.

A fim de concluir estas poucas observações, mencionaremos ainda um outro ponto de vista sobre o simbolismo do teatro: a do dramaturgo. A partir deste ponto de vista, os vários personagens, assim como as produções mentais, podem ser consideradas como modificações secundárias e como se fossem extensões do autor, aproximadamente da mesma maneira como as formas sutis que são produzidas no estado de sonho [8]. Além disso, a mesma consideração, obviamente, pode ser relevante em respeito a produção de qualquer obras de imaginação de qualquer gênero; no entanto, no caso particular do teatro, esta produção é especificamente realizada em um modo sensível que processa a própria imagem da vida, como também acontece nos sonhos. Por isso, o autor preenche uma função verdadeiramente "demiúrgica" uma vez que ele produz um mundo que é inteiramente elaborado de si mesmo. Ele pode ser considerado, por essa razão, como o próprio símbolo do Ser como produtor da manifestação universal. Neste caso, como no caso dos sonhos, a unidade essencial do produtor de "formas ilusórias" não é afetado por esta multiplicidade de manifestações acidentais, como a unidade do Ser permanece inalterado pela multiplicidade da manifestação. Portanto, a partir de qualquer ponto de vista que se observe, sempre se encontra no teatro este profundo raison d'être - mesmo que seja desconhecido por aqueles que fizeram desta forma de arte algo puramente profano; o de ser, por sua própria natureza, um dos mais perfeitos símbolos da manifestação universal. 

1 No capítulo "Noms profana et noms initiatiques" ("Nomes profanos e iniciáticos").
2 Nós não dizemos irreal; pois é bastante óbvio que a ilusão só pode ser considerada como uma realidade inferior.
3 É relevante notar aqui que essa máscara é chamada no latim persona; o "homem interior" é, literalmente, aquele que se esconde sob a máscara do indivíduo.
4 Esta é também uma consideração ao mundo, quer como ligado ao Princípio ou no seu próprio ser somente, que distingue fundamentalmente o ponto de vista das ciencias tradicionais das ciencias profanas. 
5 É a partir da mesma palavra, ministerium, no sentido de "função", que a palavra francesa métier é derivada. 
6 Pode-se, além disso, conectar diretamente a essas representações simbólicas do ritual de "encenação" de "lendas" iniciáticas que mencionamos anteriormente.
7 A "exteriorização" no modo religioso que ocorreu na Idade Média podem ter sido a conseqüência de tal adaptação. Não constitui, portanto, uma objeção contra o o caráter esotérico desta tradição em si.
8 Cf. Estados Múltiplos do Ser, Capítulo 6. 

domingo, 7 de junho de 2015

Sobre a Índia e Budismo - Conversações com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I

Por trás do movimento "New Age" também se pode perceber uma redescoberta da Índia, e em particular, do Budismo.

Muitos ocidentais atualmente dizem encontrar uma verdadeira serenidade no Budismo. Eles aprendem que existe um dharma (para usar a palavra em sânscrito), um caminho de salvação, uma ordem do mundo; alguém poderia até mesmo chamar de Sabedoria, quase no sentido bíblico da palavra. E este dharma, não muito diferente do Decálogo, pede-lhes para não matar, não roubar ou mentir, ser casto, e (muito útil para as nossas sociedades) abster-se de álcool e drogas! Eles parecem, de certa maneira, se distanciar de suas emoções e tendem a ver os outros e, a si mesmos, com grande tolerância e paz.

Curiosamente, a popularidade do Budismo hoje substitui aquela do Hinduísmo, que parecia ser maior no período seguinte da Segunda Guerra Mundial. Isso pode ser o resultado da expansão do Budismo Tibetano, que hoje constrói mosteiros em toda Europa Ocidental e na América do Norte.  Ou pode ser devido à personalidade marcante do Dalai Lama, que é capaz de interpretar o Budismo para o Ocidente. Mas há algo mais: a Índia representa algo luxuoso, superabundante, uma espécie de alegria robusta; enquanto que o Budismo fala essencialmente de sofrimento e libertação da dor. Portanto, o Budismo parece particularmente atraente para muitas pessoas das sociedades ocidentais que estão cansados, que estão "estressados" e que buscam um pouco de paz e tranquilidade...

Para o Budismo, de fato, tudo é doloroso: nascer, inexoravelmente decair, sofrer muitos tormentos, ser submetido ao que se odeia, e ser separado daquilo que se ama.  E qual é a motivo para este sofrimento? O motivo é que não conseguirmos parar de desejar, de ser "sedento", de "queimar". O desejo nasce da ignorância. Ele acredita na realidade, na importância, dos seres e das coisas. Dessa forma, ele produz erro, luxúria, ódio, que são "as três raízes do mal". O "caminho da libertação" corrige nosso comportamento (as exigências morais são extremas - algo que o Ocidente geralmente se esquece), e, através da prática de meditação, nos permite discernir o processo de crescimento e, finalmente, nos despertar. Despertar para a realidade única, inefável, é apagar as chamas da paixão, do erro e ilusão. É se tornar impassível, ou seja, triunfar sobre as paixões que constantemente nos faz de brinquedo.

Este tipo de ascetismo, que é monástico, é semelhante à nossa ascese monástica. A espiritualidade hesicasta, "a arte das artes e a ciência das ciências", também fala sobre ignorância e das paixões, que começam com o orgulho e avidez, com o egocentrismo - philautia - todos nascem de nossa angústia escondida quando nós somos confrontados com a natureza transitória deste mundo. E os métodos para atingir esta libertação das "paixões" são similares: limpar a mente de "pensamentos", alcançar a apatheia (estado desapaixonado ou de impassibilidade) e o "estado de vigília". Esta última palavra é tão importante no hesicasmo como no Budismo, pois a palavra buddha significa "despertado". De fato, os grandes testemunhas do hesicasmo são os chamados Padres "népticos", um adjetivo derivado do gregro nepsis, que significa vigília! 

O termo Nirvana, muita vezes tão mal compreendido, significa extinção - do desejo, da sede, do fogo. Designa um estado de completamento sobre o qual só se pode falar utilizando negações. Isto nos lembra da "oração além da oração" hesicasta, quando o homem o homem se torna tão infinitamente pequeno que ele observa a luz divina. 

Não seria o Budismo, nas profundezas da Ásia, uma espécie de pré antecipação Cristã? O próprio Budismo, é claro, seria ignorante deste fato. Podemos perceber dois aspectos em sua doutrina: a primeira é uma verdade parcial; a segunda permanece encerrada nesta parcialidade. 

Nirvana é um símbolo negativo de uma entrada no centro divino de seu próprio ser. Que um amor libertador é revelado neste "vazio", que é uma plenitude, um amor que restaura tanto o outro e o mundo - tudo isso é desconhecido ao Budismo. Ou ainda não é conhecido? A questão permanece. Dentro da tradição hesicasta, o coração e o espírito deve morrer para si mesmos, a fim de redescobrir uma "alteridade" de Deus na unidade, uma unidade que se transforma em comunhão. 

Estamos de acordo com os Budistas que "este mundo", como diz o Evangelho, encontra-se no mal. Mas, para os Budistas, o mundo não é nada mais que isso. Ele consiste em agregados transitórios de matéria, que estão constantemente sendo transformados e desaparecendo, apenas para dar à luz a novos agregados, que não são menos transitórios. Para nós, Ortodoxos, sob o véu da ilusão que somos chamados parar remover, a criação de Deus tem substância. É boa, boa precisamente por causa de sua diversidade. Este mundo não esgota a realidade do mundo de Deus. 

De forma semelhante, para o Budismo, o homem é simplesmente uma "combinação" não-essencial que pode, por exemplo, ser comparado com uma carroça. O homem é um simples processo, uma continuidade sem identidade. Certamente há uma reencarnação, mas ocorre através da simples casualidade de ação produzindo efeitos. Não há nenhuma transmigração, porque não há nenhuma alma que pode passar de uma habitação para outra. Se libertar é rejeitar a noção do "eu" - como bem, é claro, qualquer noção do "outro". Reincarnação, a "roda da existência", é um ciclo infernal, mas não existe indivíduos para serem condenados! Buddha nunca deixou de denunciar a "multidão ignorante" que se alimentava das absurdas "teorias da alma" e que acreditavam em reincarnações "pessoais". Este "não-Eu", seja mitigado ou não, é, de fato, não diferente do Si do Vedanta - a escola Hindu que sucedeu em perseguir o Budismo na Índia! Só se pode falar do Si em termos negativos, a fim de identifica-lo com o divino - e é apenas este aspecto divino que é transmigrado! 

Assim, podemos ver, que isto é muito diferente do "reencarnacionismo" ocidental, aquela invenção de turistas ocidentais. Nós também não compreendemos totalmente ioga (e seus objetivos metafísicos são quase sempre mal interpretados no Ocidente). Ioga dá ao seu praticante ocidental a ilusão de descobrir seu verdadeiro Si, enquanto que, normalmente, somente leva-o para expandir e mostrar seu ego! 

Tudo, acrescenta o Patriarca, centra-se no conceito de "pessoa" De acordo com o Budismo, a pessoa não existe. O Cristão, no entanto, afirma a existência da pessoa. Mas a Ortodoxia não identifica a pessoa com o indivíduo, com a "substância individual de natureza racional", como Boethius desajeitadamente declarou no mundo latino. Isto significaria que a pessoa não é nada mais do que uma máscara, que é, de fato, o sentido original da palavra latina persona, ou o grego prosopon. A pessoa só é revelada na conclusão de uma antropologia negativa, e os esforços do Hinduísmo e do Budismo podem ser útil para nós. O absoluto não está além da pessoa (pois então, na verdade, não haveria ninguém!). Em vez disso, o absoluto é a profundidade, a "profundidade sem fundo", da pessoa, ou melhor, da comunhão. E se a pessoa, e portanto, a possibilidade de encontro, existe, então história existe. No entanto, nem o Hinduísmo, nem o Budismo está interessado em história, porque para eles, o tempo, em seus ciclos intermináveis, consiste em nada além de terror. Se a pessoa e, portanto, a comunhão existe, então a atração do homem para Deus transfigura o desejo: eros se transforma em agape. É particularmente o milagre da graça e do perdão que destrói a fatalidade do karma - a relação automática entre o ato e suas consequências - e o medo de que "teremos que pagar tudo" como dizem alguns Cristãos que não conseguem entender a infinita graça da cruz e da ressurreição

De Buda à Gandhi

Devemos, no entanto, estar cientes que o Hinduísmo e o Budismo nunca deixaram de se desenvolver. Isto é certamente verdadeiro em nossa própria época, quando os valores de origem Cristã foram espalhados pelo mundo. Mas também pode ter sido o caso durante séculos, tanto por causa de um impulso cristão que só podemos imaginar, ou através da longa influencia da evangelização "Nestoriana" no coração da Ásia. 

Dentro do Budismo chinês e japonês, por exemplo, tem havido uma evolução, por um lado, em direção a ascese e para uma estética de beleza cósmica, e, por outro, em direção a uma religião de misericórdia. No movimento Zen - Ch'an na China-  o asceta aguçado, durante e depois de um momento de iluminação, experimenta nitidamente o nascimento de uma árvore, de uma flor, da luz. Ele conhece as coisas como elas são. Ele ouve "o ah! das coisas." Isso não está muito longe da "contemplação da natureza", Cristã, que é uma etapa necessária no hesicasmo. No Amidismo, o monoteísmo se afirma. Amida (Omito em Chinês), o meditador, era um monge que, voluntariamente, interrompeu sua ascensão no caminho da iluminação, colocando a realização da perfeição em espera, até que toda a humanidade e toda a criação, até a última folha de grama, sejam salvos por sua intercessão. O fiel pratica o nembutsu, a humilde invocação da fórmula, "Buda Amida, salva-me". Um grupo que veio do Amidismo ainda chamava-se Yuzy Nembutsu, "Invocação em comunhão"! Tudo isso faz com que qualquer Cristão lembrar-se da Oração de Jesus.

O monoteísmo do amor tem gradualmente se espalhado por todo Hinduísmo. Mesmo o ioga, um exercício metódico humano, tem vindo a concentrar-se mais e mais na atração à divindade. O Vedanta Vinshu confessa e adora um Deus pessoal que estava presente na criação, como a alma está presente no corpo - uma imagem que São Gregório de Nissa gostava de usar! O Deus Vinshu, de sua livre Vontade, criou um mundo real que expressa sua beleza e que, portanto, merece uma consideração positiva pelo homem. Ele providenciou cada pessoa uma uma identidade, tornando assim possível, não uma fusão, mas uma comunhão. Como um místico desta escola disse, "se eu amo açúcar, isso não significa que eu desejo virar açúcar!". O movimento Shakti celebra a energia divina, que celebram como uma presença divina: aqui, novamente, nós somos lembrados da Sabedoria! E essa religião tem promovido respeito para com as mulher, para com as esposas. 

No nosso século, um encontro entre este tipo de Hinduísmo e do Evangelho já começou, particularmente na pessoa, ações, e martírio de Gandhi e seus seguidores. Discípulos de Gandhi permanecem nos Estados Unidos e na África do Sul.

Nós, Cristãos, temos muito a fazer para se preparar para esse encontro. E é muito mais interessante que discutir entre nós.

Conversas com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I por Olivier Clement, pp 219-224




sábado, 6 de junho de 2015

Sobre historicismo (Por Julius Evola)

O que vou dizer pode causar algumas dificuldades para aqueles que não tenham renunciado a mentalidade historicista.

Devemos começar observando que a ênfase dada à noção de "história" é recente e alheio a toda civilização normal; muito mais recente é a personificação da história em algum tipo de entidade mística que é o objeto de uma fé supersticiosa, como são muitas das outras abstrações personificadas que se tornaram moda em uma idade que afirma ser "positivista" e "científica". Muitas pessoas estão acostumadas a escrever História com H maiúsculo, assim como no passado, a primeira letra do nome de uma divindade se encontrava em maiúsculo.

O primeiro e mais geral significado do historicismo refere-se ao colapso ou a desastrosa mudança da civilização do ser (caracterizada pela estabilidade, a forma, a adesão a princípios supratemporais) para civilização do devir (caracterizado pela mudança, fluxo e contingência) [1]. Este deve ser nosso ponto de partida. Numa segunda fase, os valores foram invertidos, e esse "escavamento" passou a ser visto como uma coisa positiva, que não só não deve ser resistido, mas também exaltado, aceitado e desejado. Nestas circunstancias, as ideias de "História", "progresso" e "evolução" estiveram intimamente associadas umas com as outras; assim, o historicismo tem frequentemente aparecido como uma parte integrante do progresso do século XIX, constituindo o fundo de uma civilização racionalista, científica e tecnológica.

Afora isso, o historicismo em um sentido específico está na visão básica da filosofia, originalmente inspirada por Hegel, que esteve representada na Itália pelos filósofos Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Passo agora a explicar sobre o espírito e a "moralidade" do último tipo de historicismo.

Como é conhecido, Hegel viu uma coincidência entre as esferas de realidade e da racionalidade, portanto, seu famoso axioma: "Tudo o que é real é racional, e tudo o que é racional é real". Eu não vou examinar este problema de uma perspectiva metafísica, ou sub specie aeternitatis [a partir da perspectiva da eternidade]. No entanto, é certo que a partir de um ponto vista concreto e humano este axioma é dúbio por duas razões. A primeira é que, a fim de que seja útil, deveria primeiramente conhecer diretamente, a priori, e numa forma determinada, o que deve ser chamado de "racional" e usa-lo como a ordem ou a lei que que a História e todos os eventos sempre supostamente refletem. O desacordo entre os historicistas sobre esta questão é significativa: a verdade é que cada um deles é inspirado por suas próprias especulações subjetivas, no nível de filosofia de faculdade; o que realmente falta aqui é a visão de um 'olho de pássaro' mais modesto, necessário para compreender não só o que está além dos fenômenos, mas também o que está escondido por trás das causas mais evidentes nos levantes históricos. A segunda razão é que (mesmo se fôssemos acreditar no que este ou aquele filósofo postula como "racional") no curso da experiência comum não é possível detectar a identidade completa do racional e do real; assim, podemos nos perguntar se alguém ao fazer a afirmação dessa identidade chama algo "real" porque é racional, ou vice-versa, se ele chama de algo "racional" só porque é apenas real, ou porque se apresenta como realidade factual.

                                                   

Mesmo sem se envolver em uma crítica filosófica apropriada - como fiz em outros lugares, quando critiquei o chamado "idealismo transcendental" [2] - isso é suficiente para expor o caráter ambíguo e efêmero do historicismo. É precisamente por vivemos no mundo do devir, que se caracteriza por uma rápida mudança de eventos, circunstâncias e forças, que, por um lado historicismo se reduz a uma "filosofia passiva do fato consumado" e a uma teoria que concede uma "racionalidade" em tudo o que se afirmou com sucesso [3]; por outro lado, o historicismo pode promover igualmente reivindicações "revolucionárias" quando alguém não quer reconhecer o real como "racional". Neste caso, em nome da "razão" e "História", interpretado em proveito próprio, uma condenação é transmitida no que é. Uma terceira solução ainda é possível, como uma mistura dos dois anteriores, ou seja, rotular tudo como "anti-História" aquilo que procura afirmar-se ou tende a realizar-se ou restaurar uma ordem diferente da existente, mas ainda sem sucesso, exceto quando se justifica e é dado como "racional", no caso de sua vitória ou afirmação, pois então tornou-se "real". 

Assim, dependendo da situação, o historicismo pode, igualmente estar no lado de um conservadorismo de segunda categoria ou que de utopias revolucionárias, ou, como provavelmente ocorre mais frequentemente, do lado de quem sabe como se adaptar a novas circunstâncias, deslocando fidelidade de acordo com o caminho que o vento sopra. Assim, 'História' e 'anti-História torna-se slogans desprovidos de qualquer conteúdo concreto e que podem ser utilizados em ambos os sentidos, de acordo com as preferências pessoais, no contexto de um jogo de dados que os representantes dessa visão chamam de "dialética" ou "dialética histórica".

O exemplo típico disso foi o desenvolvimento que ocorreu na Alemanha, partindo das premissas do historicismo hegeliano, de uma teoria da autoridade e estado absoluto de um lado (uma teoria inútil de um sistema que, estando arraigados em valores tradicionais, não haveria necessidade alguma de uma justificativa filosófica), e uma ideologia marxista revolucionária e "dialética" no outro. Um exemplo mais recente, na Itália, é a inimizade entre Gentile e Croce, ambos eram historicistas comprometidos. No entanto, Gentile, ao assumir como racional o que foi posto na arena política, concedeu o caráter de "historicidade" sobre o fascismo, colocando sua filosofia a seu serviço. Por outro lado, Croce, devido a suas preferências pessoais e ideológicas, pensou que o "racional" correspondia ao anti-fascismo liberal; assim, ele estigmatizou a ordem fascista, embora fosse 'real', como sendo "anti-histórica". Depois que o vento mudou de direção, muitas pessoas que foram fascistas ontem acordou alguns anos mais tarde como anti-fascistas; esses vira-casacas podem ser considerados como os representantes da terceira possibilidade - aqueles que se tornam 'atualizados' sobre o que a "História" e sua "racionalidade" deseja de tempos e tempos. [4]

Estas breves referências mostram o que equivale o historicismo. É essencialmente uma filosofia sem forma, inútil e vã, às vezes até mesmo covarde e oportunista; ou é irrealista ou grosseiramente realista, dependendo das circunstâncias. Mas, além das elucubrações do historicismo como uma filosofia e sua correspondente deformidade mental que parte da cultura academica é culpada, nós devemos expor o mito da História com o H maiúsculo, especialmente quando este mito promove a narcose daqueles que não estão cientes das forças que se renderam, e isso ajuda aqueles que querem que a corrente se torne mais rápida, evitando qualquer oposição para cessar; apelando ao "sentido da história", essas pessoas estigmatizam toda atitude diferente das suas como "anti-histórica" ou "reacionária". 

Este tipo de historicismo, quando não é uma alucinação sem sentido de pessoas que não bate bem da cabeça, se trata obviamente da cortina de fumaça da qual as forças de subversão mundial operam. Surpreendemente, mesmo entre aqueles que anseiam restaurar uma ordem antiga, existem alguns que não estão cientes disto; eles são incapazes de rejeitar o mito historicista em todas as suas formas, não reconhecendo que são os homens que fazem ou desfazem a história, se for dado a oportunidade. Temos que ser opostos a qualquer consagração e "racionalização" do status quo e devemos negar qualquer reconhecimento das forças ou correntes que assumiram o poder. Devemos recordar que o anátema de ser "anti-histórico" e "fora da história" é lançado contra aqueles que ainda se lembram do modo como as coisas eram antes e que chamam a subversão pelo seu nome, em vez de se conformar com os processos que estão precipitando o declínio do mundo.

Tendo feito isso claro, o homem é restaurado a uma liberdade de movimento; ao mesmo tempo, o terreno para trabalho está posto para uma possível investigação destinada a julgar as influencias efetivas que promoveram esta ou aquela reviravolta na história. Tendo vencido todos os historicismo, estamos livre tanto da ideia que o passado é algo que mecanicamente determina o presente e também do conceito de uma lei teleológica, evolucionária e transcendental que, para todos efeitos práticos, nos leva de volta ao determinismo. Em seguida, cada fator histórico aparecerá ter um papel condicionante, mas nunca determinante. A possibilidade de uma atitude ativa para o passado será salvaguardado, especialmente a possibilidade de defender tudo que é inspirado por valores supratemporais.
______________

[1] Em relação às civilizações do ser e devir, ver meu L'Arco e la Clava [O Arco e a Maça] (Milan: Scheiwiller, 1971), cap. 1.
[2] Ver a minha Teoria dell'Individuo Assoluto [Teoria do Absoluto Individual] (Turim: Bocca, 1927) e Saggi sull'Idealismo Magico [Ensaios sobre idealismo mágico] (Roma: Atanor, 1925).
[3] É necessário salientar que o espírito da filosofia original de Hegel era um tipo de processo de sanção da razão pura, tanto assim que Hegel, quase como Platão ou os Eleatas, acusa a natureza ou realidade de 'impotência' onde quer que ela não se apresentou em conformidade com a racionalidade apriorística sancionada. O colapso completo do "racionalismo ético", no sentido historicista de uma conformidade passiva de vontade e realidade; da idéia e fato, ocorreu nos epígonos de Hegel, e especialmente no 'atualismo' de Gentile.
[4] Embora a filosofia de Gentile seja desagradável (ou seja, fraca, presunçosa e confusa) como suas atitudes parternalistas, autoritárias e monopolizadoras durante a era fascista, no entanto, devemos atribuir seu mérito como um homem que teve coragem de permanecer no lado do fascismo mesmo quando ele deveria ter considerado-o como 'historicamente passé', como ficou ao lado perdedor da guerra. 

Retirado do livro Men Among the Ruins: Post-War Reflections of a Radical Traditionalist, por Julius Evola




sexta-feira, 29 de maio de 2015

Liberdade Legionária (Por Mircea Eliade)


Há um aspecto do Movimento Legionário que ainda não foi suficiente explorado: a liberdade do indivíduo. Sendo primariamente um movimento espiritual - interessado na criação de um Novo Homem e a salvação de nosso povo - a Legião não pode crescer e não poderia ter amadurecido sem valorizar a liberdade do indivíduo; a liberdade, sobre a qual muitos livros foram escritos, que empilham nas bibliotecas, em defesa da qual muito discursos democráticos têm sido realizados, sem que seja realmente vivida e estimada.


As pessoas que falam de liberdade e se declaram dispostos a morrer por isso são aquelas que acreditam em dogmas materialistas, em fatalidades: classes sociais, guerra de classes, o primado da economia, etc. É estranho, no mínimo, ouvir uma pessoa que não acredita em Deus lutar pela "liberdade", ou aquela que não acredita na primazia do espírito ou na vida após a morte. Tal pessoa, quando falam de boa-fé, mistura "liberdade" com libertarianismo e anarquia. Só se pode falar de liberdade na vida espiritual. Aqueles que negam o espírito em sua primazia, automaticamente caem no determinismo mecanicista (Marxismo) e na irresponsabilidade. 


As pessoas se unem de acordo ou com o hedonismo ou por um destino econômico familiar. Sou camarada de X por que ele é meu parente, ou colega de trabalho, e, portanto, companheiros de pagamento. As conexões entre as pessoas são quase sempre involuntárias, são dados naturais. Eu não posso mudar meu destino familiar. E com relação ao destino econômico, independentemente de quão esforço eu fizer, no máximo, poderia mudar meus companheiros de pagamento - mas sempre me encontrarei, a contragosto, em solidariedade para com certas pessoas que eu não sei se estou ligado pelo fato de ser pobre ou rico.


Há, no entanto, movimentos espirituais em que as pessoas estão ligadas pela liberdade. As pessoas estão livres para aderir essa família espiritual. Nenhuma determinação exterior obriga-os em tornar-se irmãos. Tempos atrás, quando ainda estava se expandindo e convertendo, o Cristianismo era um movimento espiritual em que as pessoas se juntavam por um desejo comum: espiritualizar sua vida e vencer a morte. Ninguém forçava um pagão se tornar um Cristão. Pelo contrário, o Estado, por um lado, e seu instinto de conservação, por outro, inquietamente levantou obstáculos à conversão Cristã.
Mas, mesmo diante de tais obstáculos, a sede de ser livre, de forjar seu próprio destino, de derrotar determinações biológicas e econômicas era muito mais forte. As pessoas se juntavam ao Cristianismo, sabendo que se tornariam pobres do dia para noite, que deixariam suas famílias ainda pagãs para trás, que poderiam ser condenados à prisão perpétua, ou até mesmo enfrentar a morte mais cruel - a morte de um mártir.


Sendo um movimento profundamente. Cristão, justificando sua doutrina no nível espiritual acima de tudo - o legionarismo incentiva e é construído em cima da liberdade. Você adere o legionarismo porque você é livre, porque você decidiu superar os círculos de ferro do determinismo biológico (medo da morte, sofrimento, etc) e do determinismo econômico (medo de ficar desabrigado). O primeiro gesto que um legionário mostrará é nascido de uma liberdade total: ele se atreve a libertar-se da escravidão espiritual, biológica e econômica. Nenhum determinismo pode influenciá-lo. No momento em que ele decide ser livre é o momento em que todos medos e complexos de inferioridade instantaneamente desaparecem. Aquele que entra na Legião veste sempre a camisa da morte. Isso significa que o legionário se sente tão livre que até mesmo a morte não o assusta. Se o legionário nutre um espírito de sacrifício com paixão, e se ele for capaz de fazer sacrifícios - culminando em morte, como Mota e Marin - estes testemunham a liberdade ilimitada que o legionário ganhou. 'Aquele que sabe como morrer nunca será um escravo'. E isso não diz respeito unicamente a escravidão étnica ou política - mas primeiramente, a escravidão espiritual. Se você está pronto para morrer, nenhum medo, fraqueza, ou timidez pode escravizá-lo. Fazer as pazes com a morte é a maior liberdade que um homem pode receber nesta Terra.

 Texto da publicação Romena Iconar, 5 March 1937.