sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Philippe Muray e a demolição do Progressismo (por Rodrigo Agulló)


"Imagine todas as pessoas [...] vivendo sem países, sem religiões, sem nada para lutar ou morrer, a irmandade dos homens compartilhando todo o mundo, e o mundo viverá como um só." Nada melhor do que John Lennon e sua balada pastelosa para saudar a nova era, uma era cujo limiar provavelmente já cruzamos há muito tempo. Bem-vindo ao mundo do futuro rosa-bombom: a mais assustadora utopia, porque tudo indica que é realizável.
Caminhamos, sem dúvida, para um mundo melhor. Um mundo em que a democracia e os direitos humanos reinarão sem alternativa possível. Um universo pacificado onde todas as vozes serão ouvidas, todas as crenças reconciliadas, todas as contradições abandonadas, onde a solidariedade e a transparência serão a norma em um presente eterno liberto dos obstáculos e do atavismo de épocas passadas.  Mas não devemos baixar a guarda. Muito pelo contrário. Hoje mais do que nunca é necessário compromisso. A intervenção humanitária. A luta. Contra a exclusão, contra o populismo, contra o sexismo, o racismo, contra a discriminação em todas as suas formas, contra a xenofobia, contra a poluição, contra o abuso animal, contra o tráfico de marfim e peles, contra os responsáveis pela chuva ácida, contra o massacre da paisagem, o tabagismo, o colesterol, AIDS ... 

Mas o que fazer com o passado? O que fazer dessa história de exclusões, de genocídios, de colonialismos, sexismo e racismo? O passado é culpado, é necessário lançá-lo em um campo de revisões, autoincriminações e ofensas, ou recondicioná-lo, limpá-lo e pasteurizá-lo em um parque temático exemplar e progressista, pois o que importa é que a humanidade seja transformada, reeducada e readaptada nesta ampla tarefa de melhoramento do mundo.

Vivemos na era do açúcar sem açúcar, das guerras sem guerra, do chá sem chá, dos debates em que todos concordam. Mais modernização. Mais globalização. Mais Europa. Mais transparência. Mais pluralismo. Mais miscigenação. Mais igualdade. Mais paridade. Mais de mais. O essencial é a tolerância, muita tolerância, tolerância e respeito, respeito da tolerância, delatemos e sancionemos os inimigos da tolerância! A paz eterna é uma civilização universal, onde não haverá racismo, porque não haverá raças; onde não haverá sexismo, porque não haverá sexos. O ideal supremo: um mundo povoado de social-democratas suecos em celofane, agradáveis, higiênicos, participativos e eco-compatíveis. 

Mas esta cruzada precisa de todos seus militantes, porque é uma luta titânica e de dimensões cósmicas. É uma batalha dos partidários da emancipação individual e da tolerância universal, da sociedade aberta e sem fronteiras, da universalização direito-humanista e da igualdade de gêneros, contra o passado obscuro cheio de dogmas, preconceitos de grupo e religiosos, de uma ordem social hierárquica, conflituosa, intolerante e desigual. 

E cada vitória da inovação contra a tradição é uma conquista radiante da humanidade. Assim, é lógico que os 'inconformistas' - esses que assumem o grave risco de enfrentar as forças "conservadoras, inquisitoriais e homofóbicas" - serão coroados por seus esforços com nomeamentos institucionais, que os subversivos serão subsidiados e que os anarquistas receberão comissões ministeriais. 

E o que você faz, leitor, para vitória? Você é um rebelde? É um transgressor? Por acaso, é um iconoclasta? Se você é um indivíduo flexível, elástico, libertário, sem tabus e proibições, sem ataduras e preconceitos, sem memórias, inocente e perfeitamente integrado quando emancipado, solidário e comprometido com a boa causa, absolutamente de acordo com a voz do tempo, você é um perfeito exemplar do Homos Festivus, o homem da pós-história. E como tal, foi retratado, dissecado excessivamente em suas obras - e o melhor - convertido em matéria prima literária pelo agente, sem dúvida, mais corrosivo na literatura dos últimos tempos: o escritor Philippe Muray.



Quem é Philipe Muray?

Rapidamente cheguei a conclusão de que não se poderia escrever de outra maneira a não ser no sentido contrário das águas do mundo.
Philippe Muray
Nascido na França em 1945 e falecido prematuramente em 2006, Philippe Muray nunca ultrapassou em vida o caráter de escritor "cult". A mídia e o mundo literário construiram um muro de silêncio em torno de sua pessoa, e só no final de sua vida começou a ser reconhecido pelo grande público. Deixa para trás uma obra de vários gêneros: ensaios, novelas, panfletos, critica literária e de arte, poesia e uma extensa coleção de crônicas agrupadas em vários volumes de título dissuasivo: Exorcismos espirituais. Uma produção um tanto enigmática, que exige a familiarização com o léxico peculiar do autor. Mas Muray é um daqueles casos excepcionais em que o talento se impõe contra o silêncio da mídia, e hoje, convertido em referência entre a intelectualidade do país vizinho, muitos continuam ignorando quem na verdade ele era.... Um filósofo, escritor, sociólogo, moralista? Muray desejava ser, simplesmente, um escritor. Sua matéria prima: o tempo atual. Seu estilo: cáustico, irônico, corrosivo, barroco - não é em vão que é comparado com Celine. Seu método: uma máquina em que fatos são introduzidos e se extraem interpretações. Sua vocação: tornar-se o cronista do desastre dos tempos modernos. Seu programa: faremos você detestar o novo milênio

Com essas premissas não é surpreendente que se situe em uma zona maldita: ali onde toda a recuperação se torna impossível. Muray é o grande crítico da modernidade, é seu inimigo ferrenho, irreconciliável, absoluto. E se a literatura para ele mantém alguma função, é para nos fazer detestar este estado de coisas que não pára de apresentar-se como o mais desejável. 

Porque para Muray, e este é o seu ponto de partida, "nenhum mundo jamais foi tão detestável como o mundo atual." E o que é que faz nosso tempo tão detestável? Reposta: o fato de que vivemos em uma época sem precedentes, aquela que se consumou uma metamorfose do ser humano. E esta mutação só pode ser compreendida se aceitarmos uma hipótese: que a humanidade saiu da História, vivemos em tempos pós-históricos - isto é, pós-humanos, uma vez que a história e a humanidade sempre foram termos sinônimos. É um paradigma - o Fim da história - que tem uma filiação intelectual bem conhecida: enraizada na dialética hegeliana e teve sua exposição mais brilhante na obra do filósofo russo-francês Alexander Kojève. 

Adeus à História, adeus ao humano

Simplificando muito, podemos resumir a tese de Kojève da seguinte forma: o desejo de reconhecimento é o que faz o homem um ser com história. Para ele o homem não é suficiente com a auto-percepção: é essencial que os outros lhe percebam como sujeito, e seu desejo de auto-criação, de auto-transformação, é assim alimentado por esse desejo, que é o que lhe empurra para fazer história. E é aqui que se introduz um elemento chave - para Kojéve e Muray -, que é a ideia da negatividade. É esse desejo de reconhecimento - substrato da historicidade do homem - o que lhe leva a negar o mundo tal como ele é, e também negar seus próprios instintos naturais. Só um ser livre é capaz disso: o homem. O homem é a negatividade encarnada, o que implica a reafirmação constante do Senhor que levamos dentro de nós, e a submissão que levamos dentro de nós. E é assim como o desejo de reconhecimento triunfa sobre o instinto animal de auto-preservação: vencer o medo da morte e arriscar a vida, se for preciso, para obter esse reconhecimento. Essa é a luta constante no foro íntimo do homem, essa é a força que põe a História em movimento. Para Kojève, o homem "é verdadeiramente histórico ou humano apenas na medida em que é um guerreiro".


No centro da reflexão de Muray se encontra a constatação: a História terminou e, no entanto, a humanidade não foi capaz de realizar sua própria metamorfose. Porque - segundo Kojève - "a História pára quando o homem deixa de agir no sentido forte do termo, isto é, quando já não nega mais, quando já não transforma o entorno natural e social por uma luta sangrenta e o trabalho criador. E o homem permite isso quando o entorno real lhe dá plena satisfação, realizando plenamente o seu desejo de reconhecimento. Quando o homem está plenamente e verdadeiramente satisfeito com o que é, ele já não deseja nada mais que o real e não muda mais a realidade, cessando assim de mudar a si mesmo."

É no momento em que o mundo se torna completamente racional que o homem esgota todo seu potencial: a Morte, o Mal e as contradições se ofuscam, e já não quer outro projeto exceto perpetuar um presente eterno feito de prazeres e distrações. Em termos econômicos isso é expresso no capitalismo. Em termos psicológico, na democracia liberal e em suas garantias de reconhecimento. E no político, na ordem universal e homogênea em que a política se substitui pela administração das coisas.

A saída da História não é um acontecimento apocalíptico que vem acompanhado de trombetas. É um deslizamento que acontece silenciosamente: é invisível, imperceptível, cotidiano, sem graça, trivial... o Fim da História, é claro, não significa (como muitos se empenham em mal interpretar) o fim dos acontecimentos. O Fim da História significa a ausência de um sentido superior aos acontecimentos, significa que esses se limitam a acontecer, mas sem derivar deles um significado de uma vontade de transformação dos princípios que governam os homens. Significa que esses acontecimentos, pura e simplesmente, não significam nada. O Fim da História pertence à ordem das sensações, e daí a dificuldade em poder capturá-lo. Não é uma descoberta científica, é uma evidência, que se tem ou não se tem. É possível descobri-lo - e a literatura é o melhor meio - mas não se pode prová-lo.

Para Muray - cuja a vida se passa nas fronteiras entre o velho e o novo mundo - o advento da pós-história é um acontecimento de profunda tristeza, catástrofe por excelência. Quando o limite foi ultrapassado? Provavelmente em algum momento entre os anos 60 e 80 do século passado. Mas essa evolução oferece algo a Muray: a matéria prima de sua obra literária. Muray é um cronista do declínio do mundo e de sua substituição por outro. Muray registra como os novos tempos pós-históricos neutralizam todas as contradições, expurgam tudo aquilo que é anterior e incompatível, mas ao mesmo tempo são responsáveis por esconder uma realidade que seria muito difícil aceitar: a História terminou. E para isso é necessário fingir que continuamos os tempos históricos, é necessário inventar inimigos imaginários e contradições que já não existem mais, em um relato épico onde os guardiões da nova ordem - invariavelmente progressistas - sonham sobre ordens de resistência hierárquicas e patriarcais ou sobre regimes autoritários que há tempos foram reduzido a cinzas. São lutas sem risco, lutas vencidas de antemão, paródias e pastiches que só escondem uma realidade: vivemos em uma civilização de controle total que apoderou-se do negativo e o fabrica em série para evitar seu uso exterior. De fato, não há exterior: o "anticonformismo", a "transgressão" e a "marginalidade" são produtos domesticados, e qualquer pensamento verdadeiro se encontra, mais cedo ou mais tarde, afogado sob o peso de sua duplicata. E essa desaparecimento da dialética do real - daquilo autenticamente humano - substitui pela instalação de um parque temático global, onde, em vez do homem dos tempos históricos, habita um novo-homem, o grande protagonista da obra de Muray: Homo Festivus.

A Festa do último homem

Há vida após o fim da história? "Sim!", responde Muray. De fato, não há nada mais que isso: a vida desse turista universal chamado Homo Festivus, uma criatura finalmente livre de todas as questões existenciais associadas à morte que tanto atormentaram seus antepassados. O Homo Festivus é cool e carece dos grandes preconceitos das épocas anteriores, não se considera continuador de qualquer legado histórico. Ele nasceu ontem, ele é seu próprio produto, ele mesmo decide sua própria identidade cultural e sexual. Transgressor e inconformista, o Homo Festivus é aquele que sempre diz "Sim!" a toda novidade que se propõe. Adorador da diversidade, é abstrato e intercambiável com qualquer outro de sua espécie em qualquer parte do mundo.

Homo Festivus está sempre em guarda contra os conservadores, obscurantistas, linha-duras e outros adversários do progresso, periodicamente exumados de um passado defunto para fazer papel de fantoches fáceis. Sem essa presença negativa não haveria festa completa! Onde estaria, sem essa "luta", o glamour transgressor, as faixas libertárias! O Homo Festivus está comprometido com as boas causas do planeta; da velha esquerda não conservam seus dogmas revolucionários, mas sim uma visão moralista e um anseio por uma utopia que os fazem promover uma visão virtuosa e angélica do real. Sua empatia com o sofrimento dos outros se manifesta em um desdobramento emocional que o leva a enfrentar os dramas do planeta de forma lacrimosa-caritativa, o que, por sua vez, permite-o consumir, divertir-se, viajar e socializar-se com um suplemento de boa consciência, sempre que exista um chamado solitário, humanitário ou ecológico envolvidos.

Homo Festivus é uma alegoria, um modelo teórico, é a expressão sintética do festivismo de massa que é retratado na obra de Muray. E é aí que reside a grande descoberta deste autor, a descrição do Festa como estado terminal pós-histórico, como eterno presente onde todos os venenos da negatividade e das contradições se dissolvem. Vivemos em uma Festivocracia, em tempos Hiperfestivos. Entenda-se: não é uma festa no sentido tradicional - uma ocasião excepcional que se contrapõe ao cotidiano.

A Festa agora é a cotidianiedade mesma: tudo contribui para manter uma ilusão de distração permanente onde a festa perde seu caráter distintivo. Entenda-se também que Muray não articula uma crítica - em um sentido marxista - da Festa como "alienação", como pão e circo que os governantes impõem aos governados e de que seria possível "libertar-se" segundo esse otimismo caro ao messianismo revolucionário. Não. A Festa é exigida desde a base porque corresponde a uma evolução sistêmica onde os governantes já não governam muito e onde o mutante Homo Festivus tem a palavra, e tem o que merece. A exacerbação hedonista e a euforia compulsiva, os Prides, as Raves e as festas cada vez mais gigantescas da era hiperfestiva não são mais que sintomas entre outros.

Por ser a Festa muito mais que suas manifestações concretas, ela torna-se um modo integral de produção e reprodução social, é uma organização, é a eliminação de fraturas e divisões, é fusão e unificação, é a forma de "libertar-se" do mundo concreto. A Festa é o processo de substituição do território real pelo mapa festivo. O Homo Festivus pôs em prática, de forma sinistra, o slogan festivo dos revolucionários de sessenta e oito: "tome seus desejos como a realidade". Sob o signo da realidade virtual se desenrolam os tempos pós-históricos.

A chegada do Homo Festivus não é nenhuma surpresa. Não é outro senão aquele Último homem que foi descrito por Nietzsche em uma famosa intuição: o homem da pós-história que chega, sem coragem e sem grandeza, para ficar para sempre. O Último homem que rejeita orgulhosamente todos os ideais e os sonhos do passado ("antes, todo mundo estava louco"); o Último homem que "pensa que inventou a felicidade, e pisca os olhos"; o emancipado absoluto, niilista passivo, o cidadão do mundo, o rebelde de patinete, o consumidor em bermudas, o Homo Festivus.

Riso e subversão

O homem sofre tão profundamente que ele teve que inventar o riso. O animal mais infeliz e mais melancólico é também o mais alegre.
Nietzsche
Nada está mais longe de Muray, diante do deboche fetivista, que uma apologia lamentosa pelos "velhos tempos" e suas duras virtudes. Porque, se Muray rejeita os tempos hiperfestivos, não é porque eles sejam alegres, mas muito pelo contrário: "a característica essencial do pós-humano", diz Muray, "é sua ausência de humor, a impossibilidade de rir". Uma Festa sem riso? Sim, uma liturgia festiva mortalmente séria. O riso adulto requer um fundo de incerteza e indecisão que é incompatível com o moralismo que exige sempre saber onde está o bem e onde está o mal. Se nós rimos, estamos sempre a custa de alguma coisa - ou de alguém. O riso é quase sempre desrespeitoso, muitas vezes cruel e é, em qualquer caso, discriminatório e, portanto, contrário aos valores democráticos de compreensão e respeito pelo Outro. Como rir sem ofender alguma dessas minorias tão minoritárias que são já uma legião? O mundo contemporâneo, livre dos defeitos da História, tornou-se em um esforço coletivo e não admite piadas. O Império do Bem rejeita a ridicularização por ser retrógrado.


Destruída toda transcendência e toda a ilusão, o Homo Festivus tenta escapar do abismo, restaurar a fissura e preencher a lacuna por meio de uma euforia que se sobrepõe as catástrofes do mundo real. Mas é um falso mecanismo. E, todavia, ainda é possível manter aberta a brecha de incerteza. Através do humor. O humor que visa enfatizar o desacordo com o mundo. Porque o riso é o pouco que resta daquela velha negatividade, agora sob assédio em todos os lugares. Nossa época é ridícula, e diante dela a única atitude possível é o riso. Inútil esperar o mínimo pensamento daqueles que se levam a sério. Confrontado com a conversão do mundo em um jardim de infância gigantesco, "rir e pensar tornaram-se sinônimos." O resto é apenas consentimento simplório e entertainment.

O Consenso Totalitário

Os modernos nunca perdem a ocasião de ser autoritário e mandar em todos.
Philippe Muray

A linguagem do Bem é sutil. Se auto-satisfazem no elogio do Outro - queridos Outros! -, através do elogio da diversidade, do pluralismo e da tolerância. Mas com isso querem dizer justamente o contrário. O "Outrismo" trata-se em erradicar a alteridade. A alteridade gera discriminação, rivalidade, ódio ao estrangeiro... e a unificação benéfica da humanidade passa por uma miscigenação universal. Como é possível conciliar o inconciliável? Como é possível encantar-se diante das identidades étnicas e culturais e ao mesmo tempo promover sua dissolução através da miscigenação? Chegamos ao núcleo do projeto progressista: o Outro é sempre bem-vindo se sua religião é dissolvida em cultura, sua cultura em folclore e sua identidade em simulacro. Isto é, se o Outro se converter no Mesmo. O elogio do Outro é sempre o primeiro passo para a padronização do planeta.

Imposição e onipresença do Mesmo. Trata-se de erradicar a negatividade, a contradição, o real, tudo aquilo que constituía a História e, que, na pós-história, nada mais é que "o Mal". É o Império do Bem: um moralismo onipresente que tem seus beatos, seus missionários, suas damas de caridades e suas ligas de Virtude. Com seus evangelhos: o dogma da miscigenação, da mistura, da abolição das fronteiras, da abolição das diferenças sexuais, da abolição de toda diferença. Com seus instrumentos repressivos: a síndrome maníaco-legislativo e uma praga justiceira que Muray batiza como "erótica pelo penal" que se manifesta em um arsenal de mecanismos de delação e de punição contra qualquer opinião ou conduta supostamente discriminatória por motivos de origem, sexo, estado de família, saúde, deficiências, características físicas, orientação sexual, idade, nação, raça, religião etc. E com um zelo perseguidor correspondente contra qualquer ideia, criação ou linha de investigação que seja suspeita de alimentar ou encorajar formas de pensar incorretas. Uma tarefa de purificação ética que exige vigilância, controle, prevenção e que se traduz em uma bulimia normativa que persegue qualquer indício de vazio legislativo, que não para de inventar novos delitos contra a saúde, contra a higiene, contra os costumes julgados como bárbaros ou pré-históricos e que cerca, organiza e classifica qualquer resquício por onde seja possível exibir a vida, ou seja, tudo aquilo que abandona seu ideal de assepsia absoluta e de transparência clara, insípida e frígida.

Com uma consequência: a vitimização geral da sociedade. O estatuto de vítima é rentável: todo mundo quer ser uma vítima! Um histerismo de compaixão e uma exigência obsessiva de proteger que corre em paralelo com um moralismo chorão e uma sentimentalização da política digna de aparecer em uma história universal da melosidade. Com o ponto culminante na culpabilidade geral do passado: o convite para safáris morais para perseguir a xenofobia, o fascismo, o racismo e a homofobia através do séculos, o que nos conforta com uma certeza: nossos valores são universais e definitivos, somos melhores, somos bons.

Claro que um mundo onde toda tensão tenha sido abolida, um mundo sem mistério, sem surpresas, sem enigmas, onde reina apenas o indiferenciado e onde todos sejam iguais, seria mais parecido com o inferno. É por isso que é essencial introduzir ao menos um simulacro de tensão, uma negatividade de papelão. E assim as forças do Mal são ritualmente convocadas, para que os "subversivos" e os "inconformistas" possam oferecer cruzadas progressistas contra a intolerância, o fundamentalismo, a xenofobia e o racismo. Todos os totalitarismos precisam de inimigos. Stalin não parava de impedir conspirações trotskistas; em 1984 de Orwell a Oceania enfrenta uma guerra eterna contra a Eurasia e a Lestásia.

Muray denomina esse consenso suave uma forma sutil de totalitarismo. Na era dos bons sentimentos se faz impossível opor-se as normas higiênicas e idílicas sem que pareça estar atacando o gênero humano. No fundo, ao invés de reprimir a alteridade - como fizeram as tiranias clássicas - se deseja eliminar a possibilidade mesma de sua existência. Dizia Orwell - em sua análise da Novilíngua em 1984 - que quando já não existem palavras para nomear uma coisa, a coisa deixa de existir. O politicamente correto se encarrega dessa purificação da linguagem, de limpá-la, purificá-la e higienizá-la conforme os dogmas do dia.

O que fazer? Para Muray, só cabe uma opção: marcar, através da literatura, uma distância sanitária diante "todas essas formas pomposas e fúnebres da moral contemporânea e todo seu sistema de valores tolerantistas, igualitários, intercambistas, solidariaristas e multiculturrais, mas sempre vigilantes, niveladores e controladores como as beatas da sacristia, que afogam com seu peso de morte e preconceitos o pouco que resta de vida e que, se persistem, é porque seguem sem deixar serem definidos como realmente são: uma ordem moral, a mais odiosa de todas as ordens morais que já governaram a humanidade, mas cuja origem de esquerda lhe protege contra a derrocada que merece".


Quando os castradores se passam por libertadores

As sociedades pós-históricas são caracterizadas por um ódio - beirando o patológico - pelo Patriarcado como configuração arquetípica dos tempos históricos, que se identifica, além disso, com a ordem arcaica de diferenciação entre os sexos. A diferenciação é assimilada aos vestígios da soberania masculina e do antigo regime machista. A supressão de todo o princípio de contradição exige eliminar esse antagonismo básico, essa velha distinção sexual que era "muito ofensiva, muito evidente, também cheia de significado." O Homo Festivus cultiva um ideal unissex. E nos tempos hiperfestivos a figura do Paterfamilia não tem outra função além daquela de se converter em um resíduo naftalinoso ou clown irrisório, condenado a sua reeducação pelas mães e pelas crianças - duas figuras dominantes na ordem simbólica dos tempos pós-históricos.

As formas hegemônicas de produção social tendem a realizar um ideal andrógino conforme a ideia de que todo sujeito porta em si mesmo uma "bissexualidade variável", e que, de qualquer maneira, ser "homem" ou "mulher" são papéis socialmente induzidos, susceptíveis de serem re-ajustados em qualquer fase da vida. A invenção americana da ideologia de gênero vem em resgate para afirmar que a velha humanidade estava equivocada em acreditar que seus membros podiam ser definidos em função do sexo.  O que ocorre é a definição em função do gênero, masculino ou feminino, ao gosto do consumidor. Basta desse escândalo insuportável da natureza que consiste em não poder escolher o sexo! Os transexuais são portadores de uma mensagem de esperança para a humanidade. A liquidação dos velhos papéis sexuais não pode ser reduzida ao âmbito social - a maternização dos pais, viralização das mulheres -, mas deve estender-se ao plano psicossomático: a nova moral leva os homens a "expressar o lado feminino", o mercado  encoraja-os a repolir sua aparência, e o sacrossanto princípio da transparência exorta-os a "reconhecer a bissexualidade latente" quando não a "sair do armário". A "bissexualidade psíquica infantil" será cuidada como uma planta delicada por uma pedagogia que irá acelerar a erradicação de qualquer surto considerado "homofóbico" e os brinquedos considerados "sexistas" serão banidos. Talvez depois de uma ou várias gerações será possível esquecer de uma vez por todas a antiga e maldita divisão dos sexos.

Esta abolição da distinção sexual - na verdade, uma des-sexualização - acompanha dois fenômenos os quais Muray reserva suas críticas mais amargas: a feminização e a infantilidade do corpo social. A criança é o Rei dos tempos pós-históricos. Uma vez que o passado é condenado como um todo, a vantagem do adulto em relação a criança desaparece, e é a criança, a inocência, que passa ao primeiro plano. Na publicidade e no cinema é a criança que sempre sabe o que fazer, o adulto, especialmente o pai, aparece como um "imbecil desajustado que só é tolerado se acomodar-se as regras das crianças que evoluem sob o olhar doce da mamãe amorosa." Toda a pós-história é uma regressão a infância, e o Homo Festivus é uma criança mimada que deve organizar distrações para não se aborrecer. As crianças vivem em um eterno presente, são os melhores consumidores e tem todos os direitos. A maternidade-mundo - assinala Muray - se encarrega de nos convencer que somos crianças irresponsáveis cercado por programas higienistas, de caridade, humanitários, protetores e de que não temos outra coisa a fazer além de flutuar como fetos andróginos na música do hiperfestivismo como no banho matriarcal das origens.

O mais curioso é que, para alguns cérebros em hibernação na mitologia sessento-oitentista (1968), essa desexualização induzida é considerada um levante heroico, uma batalha até a morte contra o puritanismo e a reação. Quando se trata precisamente do contrário: a destruição da antiga libido - considerada como negativa, hierarquizante e conflitante - e de sua substituição por um sistema de assepsia absoluta. Chegamos ao mundo do "Progenitor A, Progenitor B", ao mundo onde para evitar "traumas", é desejado a supressão do "sexo" dos documentos de identidade, ao mundo em que o auto-engendramento e a clonagem são perspectivas reais. E onde o sexo entendido como uma atividade higiênica e quase esportiva marca o fim do erotismo. O sexo é onipresente, mas os sexos desaparecem. Um só sexo, o mesmo para todos. O sexo como consumo, o prazer como obrigação. Não ocultar nada, mostrar tudo. É o reino da Transparência total, o fim da porosidade da vida. O que resta da antiga libertinagem - aquela parte maldita feita de claro-escuro e sombras? O Império do Bem alcança alturas que o velho puritanismo religioso nem chegou a sonhar.

O escritor Philippe Muray é um sujeito histórico perdido na pós-história, é um sujeito sexual que descreve o desaparecimento da sexualidade. E essa descrição é uma chamada implícita para recuperar "o ponto fundamental do equilíbrio humano: a relação humana franca e tradicional por ser histórica, isto é, real, entre o homem e a mulher - sabendo que a mulher deseja um homem que deseja mulher que por sua vez deseja um homem como homem, e não como uma mulher." Restaurar a sexualidade seria uma forma de reconquistar o real, de restaurar a História. 

Progressismo e seus lacaios

Muray está longe de ser um polemista. Ele não aspira a estabelecer um diálogo, trocar ideias ou debater. Muito menos convencer. Para ele, a atividade literária é apenas um meio para restaurar a sua distância frente ao mundo moderno. Porque a catástrofe não tem remédio, a liquidação da antiga humanidade e as antigas condições de vida é irreversível. E se houver um confronto, não será entre conservadores e progressistas, mas entre as várias facções que, dentro da modernidade, mantém a ficção de que a História continua. Moderno contra Moderno, essa é a realidade. Sua tarefa hercúlea consiste em desenvolver uma recessão detalhada - por meio da sátira, da literatura e da sociologia - dos dogmas e aberrações de um mundo que pretende eliminar toda a negatividade e estabelecer uma visão angélica da realidade. Citamos alguns retratos das diferentes faces do Homo Festivus. 

O rebelde

Para Muray é muito fácil reconhecer um "rebelde": é aquele que sempre diz "sim!" a tudo que, de uma forma ou de outra, é proposta como "novo". Isso é um pouco do que o Homo Festivus manteve do marxismo: a comovente crença que o "novo é invencível", que o futuro é  pertence a ele e que o vento da História sopra em suas velas.

Nos tempos hiperfestivos a transgressão, o subversivo e o "politicamente incorreto" estão sempre no controle. E assim se impõe "a Cultura como consenso anti-consensual, a transgressão como uma rotina artística, a subversão e a provocação como pacote de presente em todas as boas causas midiáticas que são apresentadas como conquistas radiantes, mas também perigosas, do espírito." A transgressão como o novo academicismo visa manter a ilusão de "ruptura", de continuidade com os tempos históricos: "a ficção do negativo se manifesta por um louvor contínuo de todo o que antes se manifestava como negatividade, como combate contra a Ordem moral. Mas, a partir do momento em que todos passam a ser subversivos, já não há mais subversão. Se todo mundo se afasta da norma, esta norma é puramente ilusória. A ruptura substitui o padrão, e o conformismo toma a máscara de subversão".

Para Muray o fim do mundo consiste no fim da dialética real e em sua substituição por paródias mais ou menos alcançadas. Os rebelocratas são os grandes figurantes dessa paródia. Mas é uma paródia em que ninguém acredita. Em um mundo sem alteridade, sem enfrentamentos, sem possibilidades múltiplas, isto é, sem negatividade, as palavras subversivas, transgressoras, iconoclastas ou provocadoras, mantém tanto poder agressor quanto as gengivas podres de um nonagenário.

O artista

O exemplo mais nítido da subversão, o artista, "reivindica não só o direito da transgressão sem punição, mas a institucionalização da transgressão - e só um espírito dos antigos poderá enxergar a contradição que isso implica." A Cultura é um desses fundamentos que sobrevivem a transformação de seu conteúdo. O que se chama hoje de "cultura" é um dos agentes mais eficazes do Bem radical. E os "artistas" - alegremente assimilados aos "intelectuais" - estão em melhor posição para disseminar o imaginário do Bem no corpo social. Como o filósofo Jean Claude Michéa diz, "a reciclagem da mitologia romântica do artista rebelde permite que todos os artistas oficiais do showbusiness encontrem-se nas cenas de luta, mas o que está em jogo é a defesa da ordem econômica e cultural para garantir sua celebridade rentável." A "rebelião" é uma operação de lavagem pela qual o capitalismo recria sua virgindade, o que por sua vez permite conciliar o nível de vida burguesa com o estilo de vida do artista: o artista se beneficia das vantagens materiais e morais do conformista, além do prestígio do dissidente. "Em sua boca, a 'cultura' e a 'arte' só servem para instrumentalizar a história secular da consciência imaculada da esquerda - que só agora começa a ver que não é nada mais que uma história de hipocrisias." O artista é o "progressista" por definição.

"Nunca antes os artistas fingiram ser os médicos da humanidade sofredora, os líderes, os comprometidos, os solidários, os libertadores e salvadores do mundo. Nunca antes se auto-designaram como a consciência moral perpétua. Nunca antes exigiram que o governo lhe subsidiassem sua liberdade privada, e que esse subsídio precisasse ser defendido com unhas e dentes como se fosse uma conquista social inalienável. Elite auto-designiada, aristocracia esclarecida, sua boa consciência - tão astuta quanto ingênua - os mantém na ilusão de crer ser o guia e a consciência do povo." Muray tem um nome para eles: artistocratas.

O turista

Alguém disse que o turismo é a indústria que consiste em transportar pessoas que estariam melhor em sua casa para lugares que estariam melhor sem eles. Para Muray o turista - o autêntico quinto Cavaleiro do Apocalipse da modernidade - é, sem dúvida, a face mais verídica do Homo Festivus. Procura o turista e encontrarás a feiura! "O turismo produz no espaço o que a modernidade produz no tempo: fazer feio tudo o que era lindo, fazer acessível tudo o que era inacessível, fazer moderno ou tourist-friendly tudo o que não era." 


O turista é a criatura moderna e festiva por excelência, porque é o melhor agente daquilo que Braudillard denominava "o assassinato da realidade". Com a passagem do turista, tudo se torna simulacro. Tudo o que não é susceptível de ser visitado turisticamente, isto é, tudo o que tudo o que não se curva de forma beata a modernidade inocente e hipersensível, deve ser mais cedo que nunca normalizado, limpo e higienizado para ser consumido pelo Homo Festivus. O turista é o grande museificador da humanidade. "Como transformar os seres falantes em excursionistas? A glória de Walt Disney consiste em ter sido o primeiro que percebeu que a História estava terminando e que o globo, explorado por inteiro e visitável por qualquer um, estava prestes a perder suas últimas atrações. Já não há planeta. Já não há História. Já não há Tempo. Resta apenas o passatempo."

O gay 

A partir do momento que a homossexualidade se fundamenta na valorização do mesmo - ou na desvalorização da diferença - ela deveria assegurar um lugar privilegiado dentro da mitologia festivocrata. De cara se pressupõe que um homossexual pensa - ou deveria pensar - bem. Mais quando Muray descreve o festivismo gay não se trata de modo algum em denegrir a homossexualidade em si - uma orientação ou preferência particular, na melhor das hipóteses, de uma perfeita indiferença -, mas de se perguntar por que a homossexualidade como militância necessita nada mais que obter um aplauso admirado de uma humanidade agradecida. O que nos leva aquilo que chamou de gaytitude, e que consiste em assimilar uma orientação particular a uma visão de mundo, uma categoria sociopolítica e a uma forma de redenção da humanidade. 

Muray assinala que os gays militantes foram os porta-vozes mais eficazes da ideologia politicamente-correta americana. É a cruzada por excelência dos tempos hiperfestivos, que, para conseguir seus objetivos, usou a provocação, a exigência de proteção, a culpabilização, a perseguição, a chantagem e as reivindicações particulares camufladas sob a retórica de igualdade e liberdade. De acordo com uma lógica binária - "quem não está conosco está contra" - que conduziu a uma situação inversa faz décadas: a "homofobia" é hoje susceptível a sanção penal, e "homofóbico" será todo aquele que apresente alguma objeção ou que não mostre uma aprovação em joelhos diante de tão boa causa. 

Assim se torna extraordinário "vê-los lutar contra inimigos que se ouve tão pouco, vê-los denunciar rotineiramente os tabus sobre temas que não se deixa de falar, vê-los partirem para uma cruzada contra censuras que ninguém viu, vê-los serem universalmente aplaudidos por derrubar 'preconceitos sociais' que não são mais que memórias distantes, vê-los ocupar todo o cenário para denunciar que são "rejeitados", vê-los manter o fogo sagrado de uma luta que encontra tão poucos opositores". E por isso a gaytitude arde como palha acesa quando, por acaso, encontra um punhado de crentes da antiga religião, ou quando um punhado de partidários do velho mundo prestam-se a desempenhar o papel de fantoche reacionário, intolerante e homofóbico e, dessa forma, dando uma aparência de heroísmo à causa que já foi ganha.

Ao gay homofestivo se deve a invenção inestimável do Pride, ponto de partida da Festa moderna, inseparável do movimento homossexual. É ao gay a quem o Ocidente deve como o ícone insuperável da Festa, com os confetes, pompons, tamborins e mil e uma maravilhas do festivismo moderno.    

O progressista

Síntese, quintessência ou denominador comum de todas as encarnações festivocratas, o "progressista" - o que hoje é como dizer a "esquerda" - é "o dealer universal desta humanidade em secessão da humanidade." Em sua convicção alucinante em incorporar a guerra contra o Mal, a esquerda é hoje o partido santarrão contemporâneo. Em sua busca sem fim por um amanhã mais brilhante, é preciso para a esquerda incriminar constantemente o mundo, além de acelerar o processo de festivação. Com uma fé fervorosa na ideia - no fundo consoladora - da (des)alienação, a esquerda é congenitamente incapaz de compreender a pós-história, e é, portanto, um fator de mistificação, isto é, um obstáculo para compreender o mundo em que se vive. 


Existe saída? 
 
Philippe Muray, reacionário? Não no sentido mais comum do termo - aquele de alguém que quer voltar ao passado-, pois o escritor francês carece de otimismo daqueles que pensam que isso seria possível. O fim da História é como o fim da virgindade: não há mais volta. Mas são os diretores de cena da festivocracia os primeiros interessados em negar. E eles fingem que "a História continua" cada vez cada vez que qualquer susto estrague seu almoço. Mas não são mais que acidentes. No futuro haverá, sem dúvida, conflitos, rupturas e convulsões - os espasmos agonizantes do mundo velho. Mas é necessário não se enganar: isso só irá fortalecer o processo, porque, diante do horror que geram, sempre será preferível a sedação e a placidez hiperfestiva.  


Um exemplo: é comum pretender que as manifestações violentas - terrorismo, fundamentalismo islâmico - são provas irrefutáveis da continuidade dos tempos históricos. Mas mesmo se tais violências durassem centenas de anos, para Muray, essas não são mais que sobreviventes transitórios que apenas negam uma realidade: o desejo profundo e talvez inconsciente de todos os povos - digam o que digam e façam o que façam - de alinhar-se com a agonia ocidental, entendida como o único modelo viável para a humanidade do futuro. E a loucura sanguinária do fanatismo provavelmente só encobre uma coisa: a frustração de ainda não ter atingido esse estágio. Além disso, o combate entre o terrorista islâmico e o Homo Festivus é um combate desigual, que só pode ser pago com a vitória do segundo. "Venceremos [...] porque somos os mais mortos", diz o Homo Festivus - pela boca de Muray. O Último homem prevalece sobre o guerreiro jihadista. Nada pode matar um morto. 


Também é comum apontar os movimentos antimundialização e antiglobalização como tantas outras rejeições da uniformização festivocrata. Nada mais longe da realidade. De nada serve protestar contra a globalização através de grandes tumultos festivos se não começar a abandonar o "ideal angélico de um mundo sem fronteiras, que é precisamente a fronteira da globalização, sua ilusão lírica particular. Os que defendem furiosamente a livre circulação de capitais e os que defendem ferozmente a livre circulação de pessoas - dos imigrantes sacrossantos - estão no mesmo lado. Todos eles são partidários da des-territorialização, de um mundo confuso-onírico onde as antigas soberanias, produto da humanização, se encontram abolidas para sempre." Os ativistas antiglobalização "estão tão submetidos a modernidade matriarcal e planetária como os Donos transnacionais que afirmam lutar. E suas guerrilhas furiosas de ruas não são mais que um teatro de rua, uma forma como outra qualquer - 'artística', logo, duplamente culpável - de submissão".

Outros falam de um suposto revival religioso - da ascensão dos fundamentalismos, das novas formas de espiritualidade - e querem ver um retorno do sagrado. Não há tal coisa, diz Muray. Não há nenhum "retorno a religião". Nenhuma re-espiritualização. O que há é uma "encenação" de resíduos religiosos - sob formas de resíduos delirantes - pelo próprio Espetáculo e para o benefício do Espetáculo. Se trata de "reavivar o núcleo central do irracional, de retomar a uma ficção mística consistente sem a qual nenhuma comunidade, nenhum coletivismo poderia enfrentar a tempestade." Tudo se encaixa aqui: o pastelão New Age, as extravagâncias ocultistas, a moda budista ou as jornadas católico-espetaculares nas quais a Igreja procura se adaptar à linguagem atual. Festivópolis assim encontra o suplemento de Transcendência necessário para poder afirmar que a perfeição está nela. Show must go on.

Mas é o "populismo" - essa "besta negra" favorita da festivocracia - que fornece o plus de negatividade necessária. É esse populismo que paira quando em algum referendo se produz um resultado equivocado, ou quando o povo diz "merda!" e vota em algum partido de ideias e modos grosseiros. Nesse caso, se impõe um esforço paciente de pedagogia, para que os obtusos que não compreenderam em que mundo vivem deixem de provocar e não tenham outras ideias e desejos diferentes das elites transnacionais. O termo "populismo" é encoberto, nesse sentido, com um profundo desprezo pelo povo simples - por esse conjunto de caipiras, xenófobos, intolerantes, sexistas, resíduos do passado. Evidentemente - afirma Muray - ainda existem surtos do velho mundo, vestígios isolados aqui e acolá que ainda podem dar um susto estranho. Mas se encontram de tal modo cercados e de tal modo trabalhados pelo Império do Bem que é difícil pensar que possam fazer alguma coisa. E embora seja verdade que entre muitas pessoas ainda sobreviva "algum terror obscuro e profundo sobre a marcha do mundo, esse terror também é combatido, no interior de cada um, por uma tendência à submissão igualmente obscura e profunda, pelo desejo de adaptar-se as novas condições, pela sensação que não há escolha." Muray não guarda nenhuma esperança sobre capacidades hipotéticas de "resistência" dos povos que tenham permanecidos "sãos".

Se Muray é um reacionário, não é no sentido pessimista, mas sim em no sentido trágico, de aceitação da realidade. Tampouco é um niilista, porque tem pontos sólidos. Um deles é sua crença no potencial libertador da literatura. Outro ponto é sua crença nas virtudes guerreiras e estéticas do riso. E há um terceiro, surpreendentemente inesperado: sua adesão declarada à fé católica e a Igreja de Roma!

Este é um ponto intrigante no qual os comentadores de Muray não chegaram a um acordo. O certo é que não há em sua obra nada de apologético. Chegou-se a notar que, mas que um catolicismo ontológico, o que se trata em seu caso é um uso instrumental do catolicismo: este lhe forneceria um ponto de vista exterior sobre as coisas, a serviço de sua visão de mundo. Porque nesta visão, como vimos, a ideia de negatividade é essencial. E o catolicismo - isto é, a anti-modernidade por excelência - seria para ele um instrumento da História para manter a contradição no seio do real. Para aceitar esta ideia, o seu seria um catolicismo dialético, um "catolicismo hegeliano" peculiar, condicionado, além disso, por sua ideologia literária, na qual o interesse pelo pecado e pela culpa como pressupostos para a descrição das falhas humanas são elementos destacados. Muray, de qualquer fora, é um tipo estranho de católico, desprovido da esperança que se pressupõe aos seguidores de Cristo.

Um Muray sem esperança? De todo resto, talvez tenha sobre certas possibilidades de que a modernidade se autodestrua. Moderno contra moderno...

Muray, um superstar?

Vários anos depois de sua morte, Muray tornou-se em referência intelectual da moda em seu país. Em uma ironia previsível festivocrata, o Muray "inconformista" foi lançado como um produto do mercado cultural. Seus textos são lidos no teatro e as tiragens de seus livros se multiplicam. Um paradoxo que se explica na medida em que sua obra responde a uma demanda latente: a de converter a idade do vazio em material literário e além disso, rir com isso. Muray - esse estraga-festas vocacional - transforma o idioma francês em uma festa, retorce-o em jogos de palavras e em neologismos de uma comicidade nunca vista, e forja um novo vocabulário para descrever uma época privada de toda forma, de toda razão e de toda beleza. A época do Homo Festivus. Muray é, nesse sentido, muito dependente da língua francesa. Sua retórica eficaz e estética sempre será prejudicada por melhor que seja a tradução.

Muray é um escritor, não um ideólogo ou filósofo. Não trabalha sobre as causas do que escreve. Não busca soluções ou receitas. Não é objetivo. Não se oculta atrás da solidez dos argumentos - como se supõe que o intelectual faria. Ele é demasiado brilhante, demasiado protagonista. O exagero - a redução ao absurdo - é uma de suas armas. E com ela retoma a grande tradição volteriana que combina elegância formal e ferocidade com a caricatura, para ridicularizar assim os novos dogmas, moralismos e hipocrisias. Sua obra é uma Comédia Humana do início da pós-história. Uma criação filosófica e política, mas antes de tudo, artística e literária.

E é aí que os fariseus tentam embalsamá-lo. Chegado o reconhecimento e a fama, é preciso desativá-lo, normalizá-lo. Uma velha história. Os sessenta-e-oitocistas se alinharam com um Nietzsche libertário e jogam nessa medida, abandonaram seu lado desconfortável - seu aristocratismo, seu antidemocratismo. De Philippe Muray se prentede agora fazer dele um antimoderno a la moda, um dandi reacionário com um fundo encantador; um enfant terrible que se tolera os deslizes, um esteta provocador para ser colocado nas prateleiras da cultura-espetáculo.

É uma tentativa de traduzir um desconforto crescente. A verdade é que, hoje, a intelectualidade francesa já não se encontra onde supostamente deveria estar - na militância bem-pensante da esquerda divina - mas em outra história. O discurso de Philippe Muray não é um fenômeno isolado. Encontra-se seus ecos filosóficos e literários em autores como Jean Braudillard, Marcel Gauchet, Houellebecq, Alain Filkienkraut, Jean Clair, Jean Claude Michéa, Gilles Lipovetski, Renaud Camus, Richard Millet... o que não é estranho. É na França hoje onde os processos de engenharia social mais se aceleraram, até torná-la irreconhecível. É na França onde a ditadura do pensamento único se fez mais rigoroso, precisamente ali onde o pensamento crítico e a liberdade de espírito são tradições seculares. Não é estranho também que seja na França onde se levanta as primeiras dissidências importantes - também as resistências mais ruidosas - contra o novo mundo que se ergue contra as ruínas da antiga civilização europeia e seus valores.

Toda dissidência autêntica consiste em uma lição de como estar no mundo sem pertencer a ele. Apesar de que, aos "recuperadores", a mensagem de Muray - para quem quiser escutá-lo - é radical: não pode haver compromisso com o mundo contemporâneo, há de rejeitá-lo em bloco. Isso não significa pregar o desânimo. Ao contrário. Graças a Muray sabemos que a rejeição a Festa é também uma invocação a alegria. A alegria da lucidez e o jubilo da inteligência. Ambas libertam e são dificilmente progressistas. 



Artigo escrito por Rodrigo Agulló El Manifesto

sábado, 29 de outubro de 2016

A Nova Religião (por Abbé Henri Stéphane)

Grosseiramente falando, pode-se dizer que a nova religião é a "religião do Homem." Tendo Deus morrido, podemos dizer que é uma religião "ateia". Não tem mais propósito de "religar" homem à Deus, mas os homens entre eles. É também uma "forma" de socialismo ou comunismo.

Paradoxalmente, assume muitas formas, mas isto é apenas uma aparência exterior: o ateísmo e o humanismo permanecem sendo o denominador comum destas diferentes formas. Há, por exemplo, a "fé sem religião", a fé em estado puro, sem conteúdo, sem dogmas, sem ritos; é uma espécie de protestantismo extremo que Lutero ou Calvino vomitariam. Esta "religião sem fé" era, há cem anos, o "formalismo" exterior as pessoas que praticavam sem crer seriamente, ou por razões comerciais. Hoje esta forma tomou outro aspecto: é o 'comunitarismo'. Repete-se ad nauseam aos Cristão que eles formam uma 'comunidade': o batismo os introduz em uma comunidade, como você se inscreve ao Partido Comunista; a Eucaristia não é mais que uma refeição comunitária; o pecado em si é concebido como uma ruptura ou distanciamento da comunidade, e a penitência, como no tempo da Igreja primitiva, é concebido como a reintegração na comunidade, com a diferença que os judeus e os pagãos convertidos ao Cristianismo acreditavam em Deus. Em nossos dias, as virtudes "teológicas" não possuem nada além de um sentido humano: se crê no Homem, se espera o futuro da Humanidade, graças à Ciência e ao Progresso, e se ama o próximo como tal. 

Em tal perspectiva, o Cristo não é mais do que o chefe da comunidade, e é para isso que "Deus morreu em Jesus Cristo". Outros vão mais longe, e não enxergam em Jesus Cristo mais do que um "agitador social". A tese é bastante conhecida para que julguemos útil em insistir. Em tudo isso, não há mais a questão da "vida eterna", e o Reino de Deus não é mais que a "cidade terrestre" a ser construída.

Desta maneira, só o homem importa, seu trabalho e sua ação no mundo. Alguns até mesmo veem nele um continuador da Criação, que Deus não concluiu, mas tal concepção da Criação é totalmente diferente da concepção tradicional, que equivale a negar Deus: se Deus criou o mundo "no tempo", e não continua "criando-o em cada instante", segundo o conceito exato da criação, então Deus não é o "Criador", e negar um de seus atributos equivale a negá-Lo por completo. Em geral, uma cosmologia não-tradicional, por exemplo, a evolucionista, conduz inevitavelmente a uma ideia falsa de Deus, e, por tanto, a sua negação.

Assim pois, sob qualquer forma em que se enfoque, a "nova religião" é essencialmente ateia. Tudo o que é sagrado - considerado pelos defensores da "fé sem religião" como uma sobrevivência do judaísmo e do paganismo - só pode, então, desaparecer rapidamente. Não se vê nestas condições para que se falar de Sacerdócio, da "crise das vocações", do estatuto clerical, etc. Tudo isto está destinado a desaparecer. 

Chegará, então, uma pseudo-religião, a "religião do Homem", cuja existência será tão efêmera como o "reino do Anticristo" nos "fins dos tempos". E sua decadência já está anunciada pelos estruturalista que predizem a "morte do homem". Depois disso, evidentemente, não restará mais do que a "morte do Cosmos", isto é, precisamente o "fim do mundo" que acabamos de mencionar.

É evidente que, se "Deus está morto", pelo menos na consciência do homem, nem a Igreja, nem a religião, nem o homem, nem o mundo, podem "sobreviver muito tempo". Se for objetado que Deus "não está morto" em si mesmo, mas apenas na consciência do homem, e que a relação ontológica entre Deus e a alma imortal não poderia ser afetada por uma "atitude de conhecimento", responderemos que, devido a identidade do ser e do Conhecer, qualquer deterioração na ordem do Conhecimento tem sua repercussão, se não na ordem do Ser enquanto tal, ao menos na ordem da Existência, da qual o Ser é o Princípio.

O homem enquanto ser certamente não pode desaparecer ou ser destruído (o que é expresso de um modo geral na imortalidade da alma), mas enquanto existente em diferente níveis, ou graus de realidade, pode "morrer". Em outras palavras, não é por uma ou outra de suas modalidades que o homem pode morrer: a morte no sentido ordinário não é nada mais do que o desaparecimento da modalidade corporal do homem, assim como a "segunda morte" que fala no Apocalipse (XX, 14) é nada amais do que a desaparição de sua modalidade psíquica, mas o ser do homem não pode morrer.  Se compreende assim que a morte corporal pode ter sido a consequência do "pecado original". Agora bem, tudo o que acabamos de dizer sobre o homem individual se aplica a toda humanidade: no "fim dos tempos" é uma modalidade da humanidade ou da "humanidade atual" que desaparece, e se concebe que esta, chegado a um grau total de ateísmo, - ainda não estamos lá - seja condenada à morte. Em outras palavras, a humanidade total, ao nível do Ser, não pode desaparecer, mas uma humanidade parcial pode morrer, e outra humanidade pode nascer em condições cósmicas muito diferentes evocadas por um "novo céu e uma nova terra" de que fala o Apocalipse; entre os dois, no entanto, estritamente falando, não há continuidade, isto é, segundo o modo que concebemos comumente: não pode haver senão uma continuidade "analógica". 


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Como o Ocidente tornou-se Ateu (por Jay Dyer)

Como foi possível para o Ocidente, com séculos de fé Cristã, enraizado na tradição da Igreja, ter chegado ao ateísmo e a teomaquia pura e simples, na guerra contra Deus? Nos meus vinte anos, estive inteiramente imerso no sistema religioso-filosófico conhecido como Tomismo. O catolicismo era um castelo intocável de argumentação, imune a qualquer desafio cético que poderia bombardeá-lo (como eu assumia) com ataques fúteis. Lembro-me de ler que, em sua dissertação sobre a estética de Aquino, Umberto Eco comentou que ele, também, já tinha sido um fervoroso tomista até que chegou à conclusão de que o sistema simplesmente não funciona. Naquela época, eu não conseguia entender como alguém poderia chegar aquela conclusão. Como algo tão vasto e, como meu amigo James Kelley diz, "elegante", pode ser fundamentalmente falho? Isso foi há cerca de dez ou mais anos, e nesse espaço de tempo, o Tomismo desmoronou aos meus olhos.


Além disso, o esquema Tomista é precisamente aquilo que conduziu ao Iluminismo e ao subsequente deísmo e ateísmo do Ocidente. Não estamos analisando Agostinho, nem as motivações ou psicologia de Aquinas, nem Calvino sobre esta questão. O que está em jogo aqui é a posição oficial de Aquinas (e Agostinho, por extensão) e se esta exerceu uma influência instrumental no Iluminismo e no percurso da filosofia ocidental até o modernismo e ao lamaçal sem fim que vemos na filosofia atual. Minha convicção é que a crítica - pouco conhecida - do Oriente Cristão está correta ao fazer a forte afirmação que o Tomismo é o passo pivotal no percurso ocidental naquilo que poderia ser chamado de uma epistemologia revelacional até empirismo Iluminista, cienticifismo, o deísmo e o ateísmo.

Isto não quer dizer que considero que a posição oriental é livre de todos os problemas e dificuldades, mas que ela fornece uma crítica suficientemente forte que dificilmente me será possível reconciliar-me com o Tomismo novamente, assim como eu nunca voltaria ao Protestantismo mais uma vez. De fato, é bastante evidente para mim, que o Tomismo, mesmo possuindo alguns pontos que podem ser recuperados, é tão fundamentalmente problemático que ele realmente impulsionou o Ocidente em seu espiral descendente de dissolução.

A questão-chave a ser investigada para entender este problema no Tomismo está na relação e ação de Deus no mundo. Aquinas começa com a suposição da simplicidade divina que significa que Deus é o que Deus tem, e que Deus é o que Deus faz. Deus é actus purs, ou ato puro, sem nenhuma potencialidade. Sua essência é totalmente simples, de tal forma que qualquer predicado de Deus só se distingue logicamente. Isso significa que as distinções feitas entre os atributos são apenas distinções adequadas a cognição finita humana, e não verdadeiras distinções em realidade. Desta forma, o ato de criação de Deus pode ser distinguido, na mente humana, de Sua justiça ou presciência, mas, na realidade, estes atos, atributos e predicados, são rigorosamente idênticos à essência divina, ou ousia. Esta é uma lei fundamental no Tomismo, bem como em Agostinho. Isto é muito claro tanto na Summas como em outras obras como De Veritate.

Como, então, um Ser assim constituído opera em um mundo de fluxo e temporalidade? A resposta de Aquino é dominada pela ideia da analogia entis: nós conhecemos Deus por Seus efeitos criados no mundo. É por isso que a causalidade desempenha um papel tão grande em sua teologia. Deus não é só a Primeira Causa, seguindo Aristóteles, mas também o soberano providencial ao longo da história e da causalidade temporal dentro da história. A presciência de Deus é sua justiça e amor, e toda história está no processo de sua consumação no grande telos de todas as coisas retornando à sua fonte, a Primeira Causa, na visão beatifica da eternidade onde sua criação racional verá todas as coisas na singular e extremamente simples essência. Essa é uma declaração conforme a afirmação geral dentro do sistema Tomista, mas o que emerge é um problema sério: como uma divindade assim definida de fato atua neste mundo?

Para Agostinho, o principal mentor teológico de Tomas, Deus atua através dos efeitos criados de forma que até mesmo as aparentes ações diretas ainda assim são efeitos criados. Ou, para ser mais exato, efeitos criados especiais: no De Trinitate, Agostinho estipula que as manifestações do Anjo do Senhor só poderiam ter sido hologramas angelicais temporários. Elas não poderiam ter sido o Logos (a despeito do que os outros escritores patrísticos tenham dito). Chega-se a essa conclusão porque era impossível que o divino se manifeste diretamente no tempo e espaço, uma vez que isso significaria que Deus não era mais simples. Qualquer ser localizado em um determinado ponto do espaço e tempo era tido como um ser composto ou em partes, e, portanto, não era absolutamente simples. Para Aquino esta lei também é considerada, na medida em que a analogia entis é um componente central de sua superestrutura: Deus só é conhecido por analogia às coisas criadas, porque não temos acesso a ousia divina nesta vida. Deus concede a iluminação, certamente, mas estes dons que Ele dá ainda são um efeito criado da graça sobrenatural. O conhecimento de Deus e a participação na vida divina são teologicamente impossibilitados de qualquer experiência direta divina até a visão beatifica. Isso não quer dizer que Deus não pode falar com os homens ou transmitir bênçãos, mas que estas ainda são, para nós, efeitos criados.

Sendo honesto com Aquinas e Agostinho, eles falam de "vida divina", "deificação", etc. mas como isso é possível, em ambos teólogos, é muitas vezes complicado. Às vezes soa como se os fiéis estão participando na essência divina, e outras vezes a impossibilidade de tal ideia os impede de fazer qualquer sentido. As divisões romanas da graça em todas as "categorias" como precedente, santificante, sobrenatural, etc. frequentemente são empacotadas como explicações, mas nenhuma dessas servem para explicar o problema em mãos: como nós participamos nesta vida divina se não há acesso a ousia divina nesta vida? De fato, quando Cristo ressuscitou na teologia cristã clássica, o que era a luz divina que mostrou-se irradiando Dele? A resposta do Oriente é muito diferente da resposta do Ocidente. Para o Ocidente, tal luz era um efeito criado, enquanto para o Oriente, era a própria energia divina. A questão do Tabor verdadeiramente serve para solidificar estas duas posições, uma vez que a questão da "deificação" da carne de Cristo é o mesmo problema da deificação do fiel.

Da mesma forma, para Aquino, a revelação de Deus só pode ter sido através de efeitos criados devido a abordagem empírica de sua teologia. Uma vez que ele aceita basicamente a abordagem aristotélica para a psique humana, onde o conhecimento do homem, mesmo o de Deus, provém da experiência sensorial. Uma vez que a mente humana, até mesmo na obtenção do conhecimento natural, faz isso através de uma abstração de um conceito universal dos fantasmas apresentados à mente pela experiência sensorial, o mesmo problema de antes surge para epistemologia no local onde Tomas localiza o universal. Os conceitos universais são localizados na Mente divina, que, como você pode ver, é também a essência divina. Na filosofia medieval e clássica, isto é chamado de exemplarismo. Isso significa que as ideias por trás das coisas, muitas vezes funcionando como a essência de uma coisa, estão, em última análise, contidas na Mente de Deus.

Para Aquino e Agostinho, o exemplarismo é verdadeiro, e os exemplares, ou formas das coisas, estão localizados em Deus. Assim, para Aquino, mesmo o conhecimento que o homem possui naturalmente é obtido por meio de uma experiência empírica que, em última análise, baseia-se em um conceito universal localizado em Deus. Mas um dilema surge: como a mente humana supostamente pode abstrair o universal em seu pequeno espelho da mente, quando não possui acesso direito ao divino? A única maneira que isso pode funcionar é se existir alguma ponte entre o fantasma e o conceito atual na Mente divina. Mas mesmo que seja dito que se trata de um espelho débil do conceito "real" na mente divina, não mudaria o caso, uma vez que a definição da simplicidade divina já impede distinções na Mente divina. Em outras palavras, com isso, o problema é movido um passo para atrás, uma vez que nenhuma mente nesta vida tem acesso à visão beatifica. Para que o esquema de Tomas funcione, ele precisa acesso direto ao divino de alguma forma ou de outra, nesta vida. Mas lembre-se: a definição dele de simplicidade opõe-se absolutamente a uma tal experiência direta, revelacional, da própria divindade. Tudo o que pode ser conhecido de Deus nesta vida é Seus efeitos criados no mundo nos quais, de forma debilitada, supostamente nos deveria mostrar alguma analogia com Sua essência. É também por isso que Máximo, o Confessor, identifica o logoi (sua versão de exemplares) como as energias divinas, e não a essência divina.

Outro problema que esta perspectiva possui é que a analogia entis estabelece Deus como se operasse num continuum de ser onde, devido a estranha interpretação de Aquinas do "Eu sou o que Sou" como "Eu sou Ser Puro", faz com que o ser de Deus seja como qualquer outro ser. Esta é a base da analogia entis onde se toma a suposição de que as coisas "são" e Deus "é", então há algum tipo de analogia fraca do ser que pode ser compreendida entre o ser criado e o ser divino. No entanto, o mesmo problema incomodo emerge mais uma vez em relação a simplicidade divina absoluta. Como pode haver qualquer semelhança entre o "ser" do criado, temporal, e o "ser" incriado, eterno? Não há qualquer semelhança.

De fato, a teologia apofática, que Aquino professa manter, diz que o infinito e o incriado só são entendidos pela negação - por aquilo que não é. "Mas espere", você pode responder, "isso significa que nós não podemos conhecer Deus, uma vez que não há predicação analógica. Aquino rejeita a predicação unívoca e equívoca de Deus, optando por uma predicação analógica!". Sr. Tomista, você não entendeu. Aquino não resolveu seu dilema, mas o agravou, fazendo a essência divina análoga ao ser criado (que é idolatria). É a energia divina que é conhecida, não a essência de Deus. A essência divina é inteiramente impossível de ser conhecida ou imaginada, precisamente porque a mente criada será sempre finita. Nenhum homem ou anjo poderia assumir a onisciência, onipresença ou onipotência.

Assim, o que se apresenta é um caminho duplo que o Tomismo pode escolher com essas suposições assumidas. Ele pode 1) dizer que o divino está confinado em seu domínio, interagindo neste mundo somente através de efeitos criados, da graça criada e várias causas criadas, mas este caminho significaria que os fundamentos do Cristianismo não são mais possíveis.  A Pessoa Divina de Cristo não seria realmente capaz de deificar a carne, os sacramentos são apenas condutos da "graça criada", e o conhecimento humano nesta vida nunca é uma iluminação divina, ou 2) pode fazer com que a essência divina seja compartilhada com o ser criado, caso em que o panteísmo seguiria. Ambos caminhos são um beco sem saída, e ambos são necessários por causa da rejeição da distinção essência/energia e da definição neo-platônica rígida, inflexível, do que a simplicidade é. Quero enfatizar que se trata do mesmo problema nestes exemplos, pois referem-se a questão de como relacionar a ideia de Tomas de um ser absolutamente simples do Puro Ato com o mundo criado de fluxo e tempo.

Uma vez que este contexto é apreendido, torna-se claro como isso pode conduzir ao ceticismo iluminista, o deísmo, o racionalismo e o ateísmo. Se tudo o que se pode conhecer de Deus são seus efeitos criados nesta vida, ou se Deus é colocado em um continumm de "ser" onde a essência divina é comparada ao ser criado, então não faz sentido acreditar neste Deus, especialmente quando o ponto de partida da teologia é empírica. Como poderia os dados empíricos dos sentidos dar qualquer "evidência" que seja de um ser que, mesmo de acordo com a definição da simplicidade divina, não tem qualquer relação com o ser criado? A essência divina absolutamente simples não tem causa, e não é ela própria causada ou uma causa, então de que adianta a analogia entis afirmar que é uma "Causa Primeira"? É uma frase sem sentido, uma vez que não nos diz nada e ainda nunca preenche a lacuna impenetrável da simplicidade Tomista. De que adianta dizer que o conhecimento humano é fundamentado no exemplar intocável na essência divina? Mais uma vez, é inútil e nos diz nada - de fato, é impossível dentro desses próprios fundamentos! Aqueles que leram a argumentação de Palamas com Barlão, imediatamente estarão a par com a semelhança da argumentação. Na verdade, é precisamente esses pontos - que Palamas fez a Barlão - que o leva a concluir profeticamente que as pessoas que adotaram este caminho seriam logicamente conduzidas ao ateísmo. Independentemente do que se pensa sobre a teologia oriental, Palamas foi presciente quando previu para onde a teologia ocidental iria.
São Gregório Palamas
O caminho para o ceticismo iluminista, o deísmo, o racionalismo e o cientificismo procede diretamente da teologia empírica que até mesmo precede Aquino em pensadores como Abelardo, sendo contemporâneo de Aquino em pessoas como Ockham. Embora Thomas não tenha sido um nominalista, ele aceitou o mesmo ponto de partida dos nominalistas, nomeadamente, o empirismo, e a teologia baseada empiricamente, que, novamente, deriva da analogia entis. O nominalismo é absurdo, e certamente pior do que Aquino, em muitos aspectos, mas, na medida em que os dois sistemas de pensamento partilham do mesmo ponto de partida empírico, eles eram consistentes.  Se Deus é banido de estar diretamente presente no mundo através de Suas energias imanentes, tudo o que resta é um mundo material de casualidade, presidido por uma divindade desconhecida trancada em si mesma. Essa posição é o deísmo, e o deísmo rapidamente leva ao ateísmo. Se os dados dos sentidos são a única fonte do conhecimento humano, e os dados dos sentidos são, assim, a fonte do conhecimento de Deus, nenhum desses efeitos criados causais equivalem ao conhecimento real da própria divindade. O divino nunca é acessado ou experimentado, mas somente uma série de causas criadas. Isso, meus leitores, é a opinião de David Hume - e é assim como o Tomismo conduz ao ateísmo do Iluminismo.


Por Jay Dyer, encontrado no https://jaysanalysis.com/2016/10/18/how-the-west-became-atheist-2/

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O Terceiro Sexo (por Julius Evola)

I

Não há dúvida de que o aumento da homossexualidade e o avanço do chamado "terceiro sexo" representam um fenômeno característico do nosso tempo, presente não só na Itália, mas também em outros lugares. 

No que diz respeito à homossexualidade ou, mais precisamente, a pederastia, devemos destacar, como um traço particular, que não se limita em absoluto, como é o caso da grande maioria, a certos meios das classes superiores, a classe artística, os estetas, os decadentes entusiastas por perversões e experiências fora da norma, mas é um fenômeno que também tem alcançado as "pessoas simples" e as classes subalternas, sendo preservado apenas a classe média, em certa medida. 

Aqui não é lugar para aprofundar a questão da homossexualidade enquanto tal. Já tivemos a oportunidade, em uma de nossas obras[1], de estudar sistematicamente todas as formas possíveis do eros, sem nos limitar a formas "normais" e ocupando-nos até mesmo com outras épocas e outras civilizações. No entanto, naquele livro, passamos praticamente em silêncio sobre a homossexualidade. Isso porque, partindo do próprio conceito de sexualidade, mesmo em seu sentido mais amplo e além de todo preconceito social, não é fácil esclarecer o fenômeno homossexual. Este encontra-se essencialmente no campo da "patologia" em um sentido mais amplo e objetivo, que não ser definido por oposição ao que seria "saudável" segundo as concepções comuns da moral burguesa. Iremos abordar o assunto de forma sucinta, distinguindo dois aspectos. O segundo nos levará ao nível sociológico e, de alguma forma, para as mesmas considerações do capítulo anterior.

Em nossa obra mencionada anteriormente partimos da ideia de que toda a sexualidade "normal" deriva de estados psicofísicos suscitados pela oposição, como dois polos magnéticos, de dois princípios, do masculino e do feminino. Dizemos masculino e feminino em absoluto, compreendendo com isso dois princípios de ordem metafísica, anteriores e superiores ao plano biológico, princípios que podem estar presentes em variados graus entre os homens e entre as mulheres. Com efeito, em verdade, as mulheres e os homens "absolutos" existem tão pouco quanto o triangulo abstrato da geometria pura. Existem, ao contrário, seres nos quais é predominante a qualidade homem (os "homens") ou a qualidade mulher (as "mulheres"), sem que a outra qualidade por isso esteja completamente ausente. A lei fundamental da atração sexual, lei já percebida por Platão e Schopenhauer, depois exatamente formulada por Weininger, é que a atração sexual em suas formas mais típicas nasce do encontro de uma mulher e do homem de modo que a soma das partes da feminilidade e da masculinidade contida em cada resulte no total em um homem absoluto e uma mulher absoluta. Por exemplo, o homem que tivesse três quartos de homem e um quarto de mulher encontraria seu complemento sexual natural, aquele que se sentiria atraído de um modo irresistível e magnético, em uma mulher que tivesse três quartos de mulher e um quarto de homem: porque, então, a soma será precisamente formada por um homem absoluto e uma mulher absoluta, que se unem. Esta lei aplica-se para todo o erotismo intenso e profundo, elemental entre os sexos; não diz respeito as formas debilitadas, burguesas ou apenas "ideais" e sentimentais do amor e da sexualidade. 

Portanto, esta lei também nos permite descobrir os casos em que a homossexualidade é compreensível e "natural": são os casos em que o sexo, nos dois indivíduos que se encontram, não está muito diferenciado. Tomemos, por exemplo, um homem que não é mais que 55% "homem", e "mulher" no resto. Seu complemento natural será um ser "mulher" em 55% e um "homem" em 45%; mas tal ser, de fato, se diferencia pouco do homem, e uma vez que deve-se considerar não somente o sexo exterior, físico, mas também (se não especialmente) o sexo interior, este ser poderá ser apenas um "homem", o mesmo acontecerá no caso da mulher. 

É possível corresponder o conceito de "terceiro sexo" com as "sexualizações" pouco diferenciadas, ainda que se trate apenas, como vemos, de casos-limites. Assim é esclarecido a origem e a base das relações entre pederastas ou entre lésbicas como fenômenos "naturais" que procedem de uma conformação inata particular e da mesma lei que, com uma conformação diferente, conduz as relações normais entre os sexos. Nestes casos, mas só nestes casos, estigmatizar a homossexualidade como uma "corrupção" não faz sentido (porque, para seres como esses que falamos, as relações chamadas "naturais" não seriam naturais, mas contrárias a sua natureza); crer na eficácia de qualquer profilaxia ou terapia igualmente não tem sentido, rejeita-se pensar (e esta negação é razoável) que com medidas deste tipo seja possível modificar o que na biologia chama-se biotipo, a constituição psicofísica congênita. Se for preciso fazer um julgamento moral diante do estado que correspondem estes casos-limites, é especialmente sobre a pederastia que deve ser censurável, porque aqui um dos dois companheiros - o homem enquanto "pessoa" - é degradado, usado sexualmente como uma mulher. Não é o mesmo caso das lésbicas; se é verdade, assim como diziam os Antigos, que tota mulier sexus, isto é, se a sexualidade é o fundamento essencial da natureza feminina, uma relação entre duas mulheres não parece tão degradante. Desde que não se trate aqui da caricatura grotesca de uma relação heterossexual normal, mas de duas mulheres igualmente femininas, sem que uma delas, masculinizada e degenerada, desempenhe  o papel de homem em relação a sua companheira. 

Se esta estrutura geral não explica todos os casos de homossexualidade, isto é devido ao fato de que uma grande parte deles se enquadram em uma categoria diferente, em uma categoria de formas anormais em um sentido específico, determinadas por fatores extrínsecos, contra os quais os juízos devem ser diferentes. Se temos que dar uma visão geral do fenômeno tal como ele se apresenta na história e em outros povos, devemos considerar uma outra ordem de considerações. Queremos dizer que não mais trata-se de fenômenos explicáveis pela lei de atração sexual suscitada por uma forma qualquer de polaridade do princípio masculino e feminino (tomado em si mesmos, abstraindo sua dosagem variável entre os homens e as mulheres vivas). Por exemplo, a pederastia do mundo clássico representa um fenômeno à parte. Sabemos que Platão procurou relacioná-lo com o fator estético. Mas, neste caso, é evidente que não se pode falar mais de uma atração erótica em sentido estrito. Trata-se, com efeito, do caso em que a faculdade genérica de êxtase e embriaguez que desperta-se geralmente, devido à polaridade dos sexos, frente a um ser de sexo diferente, consegue ser acelerada por outros objetos que simplesmente servem de apoio ou de ocasião a esta faculdade.  Ao mesmo tempo Platão falou do eros como uma forma de "entusiasmo divino", de mania, próxima a outras formas que não tem nada a ver com o sexo, e que separa-se sempre do plano corpóreo, para não dizer carnal. Estabelece então uma progressão onde o encantamento e o eros despertados por um efebo representam apenas o grau mais baixo - o encantamento e o eros são suscitados em outros graus pela beleza espiritual - antes de chegar à ideia de beleza pura, abstrata e supra-terrestre. Até que ponto o tal "amor platônico" homossexual (que, ao seu nível mais baixo, não tendo uma mulher por objeto, seria mais "puro", não podendo ter, obviamente, finalidades genésicas) justificou verdadeiramente a prática efetiva da pederastia antiga, é outra questão. No caso da romanidade na decadência, certamente não há dúvidas.

A teoria de Platão teve certos equivalentes em certos meios islâmicos. Mas seria difícil relacionar com a pederastia comum. Por exemplo, entre os turcos, no exército otomano, chegava a um ponto em que a recusa do soldado em atender os desejos de um superior era tido como insubordinação (ver o caso relatado pelo coronel Lawrence). Por outro lado, neste caso, parece ter atuado, por vezes, um outro fator, alheio à sexualidade em sentido próprio; em uma confissão que nos foi relatada, tratava-se (na Turquia) da embriaguez suscitada no pederasta ativo de um "sentimento de potência". Mas há algo pouco claro aqui, visto o número de maneiras em que uma libido dominandi pode ser exercida e satisfeita em relações normais com mulheres. A pederastia no Japão nos põe um problema semelhante.

Em geral, todos esses fenômenos não se explicam como casos-limites da lei, indicada mais acima, da complementariedade sexual, porque não ocorre a condição de um sexo pouco diferenciado entre os dois parceiros. Em uma relação pederasta, um dos dois indivíduos pode ser fortemente viril, por exemplo (isto é, com uma elevada percentagem de qualidade "homem"); é o oposto de um relacionamento entre dois representantes do "terceiro sexo" como uma forma intermediária híbrida.

O fenômeno observado acima do desvio do eros que possibilita o despertar fora das condições normais da atração sexual (a bipolaridade dos sexos, com o magnetismo relacionado) e, em certo sentido também, os fenômenos de "deslocalização" do eros, sua transferência para um objeto diferente (fenômeno amplamente verificado pela psicanálise), podem, assim, serem considerados como uma explicação adicional da homossexualidade. Mas é preciso acrescentar a isto outra ordem de consideração. 




                                                                          II

Temos considerado a constituição dos indivíduos com relação ao sexo (sua "sexualização", o grau de diferenciação de sua qualidade homem ou mulher) como algo pré-formado e estável. No entanto, deve-se introduzir o caso em que, ao contrário, determinadas alterações tornam-se possíveis sob o efeito de processos regressivos, favorecidos eventualmente pelas condições gerais do meio, da sociedade e da civilização.

A título de premissa, é importante ter uma ideia mais precisa do sexo, nos seguintes termos. O fato de que só excepcionalmente se é cem por cento homem ou mulher e que em cada indivíduo subsistem resíduos de outro sexo está relacionado com outro fato, bem conhecido na biologia, que o embrião, inicialmente, é sexualmente indiferenciado, apresentando na origem as características de ambos sexos.  É um processo posterior (ao que parece, começa a partir do quinto ou sexto mês da gestação) que produz a "sexualização": logo, as características de um sexo prevalecerá e desenvolverá mais e mais, e aquelas do outro sexo se atrofiará ou passará para um estado latente (no domínio puramente somático, se tem como resíduos do outro sexo os mamilos no homem e o clitóris na mulher). Assim, quando o desenvolvimento estiver concluído, o sexo de um indivíduo masculino ou feminino deve ser considerado como o efeito de uma força predominante que imprime sua própria marca, enquanto que neutraliza e exclui as possibilidades originalmente coexistentes do outro sexo, especialmente no domínio corporal e fisiológico (no domínio psíquico, a margem de oscilação pode ser muito maior). 

Desta forma, é admissível pensar que este poder dominante, do qual depende a sexualização, seja enfraquecido pela regressão. Portanto, assim como na política, com o resultado do enfraquecimento da sociedade de toda sua autoridade central, as forças inferiores, até então travadas, podem libertar-se e reaparecer, também podemos verificar no indivíduo uma emergência dos caracteres latentes do outro sexo e, consequentemente, uma tendência bissexual. Nos encontramos, assim, novamente, diante da condição do "terceiro sexo", e é evidente que um terreno particularmente favorável ao fenômeno homossexual está presente. A condição é um decaimento interno, uma debilitação da "forma interior" ou, melhor, do poder que dá forma e que não se manifesta apenas na sexualidade, mas também no caráter, na personalidade, ao fato de ter, como regra, uma "face precisa".

Portanto, é possível compreender por que o desenvolvimento da homossexualidade entre as camadas populares e, eventualmente, sob formas endêmicas, é um sinal dos tempos, um fenômeno que se encaixa logicamente no conjunto dos fenômenos que faz com que o mundo moderno seja apresentado como um mundo regressivo. De tal forma encaminhamo-nos para as considerações formuladas no capítulo anterior.

Em uma sociedade igualitária e democratizada (em um sentido amplo), em uma sociedade em que não existe nem mais castas, nem classes funcionais orgânicas, nem Ordens; em uma sociedade em que a "cultura" tem algo de nivelado, extrínseco, utilitário, e em que a tradição deixou de ser uma força formadora e viva; em uma sociedade em que o pindárico "Seja você mesmo" tornou-se uma frase desprovida de sentido; em uma sociedade em que possuir um caráter é tido como algo luxuoso que só um tolo poderia permitir-se, enquanto que a debilidade interior é a norma; em uma sociedade que, em suma, tem confundido aquilo que pode estar acima das diferenças de raças, de povo e de nação com o que efetivamente está abaixo de tudo isso e que tem, portanto, um caráter informal e híbrido - em tal sociedade atuam forças que, em última análise, não poderiam deixar de ter incidência sobre a própria constituição dos indivíduos, atacando tudo que é típico e diferenciado, mesmo no domínio psicofísico. 

 A "democracia" não é um simples estado político e social; é um clima geral que conduz à consequências regressivas sobre o plano existencial. No domínio particular do sexos,  pode ser favorável, sem dúvidas, ao decaimento interno, este enfraquecimento do poder interior sexualizador que, como dissemos, é a condição da formação e da propagação do "terceiro sexo" e, com ele, de vários casos de homossexualidade, que os costumes atuais nos apresenta de uma forma que não pode deixar de nos chocar (2). Por outro lado, tem-se como consequência a banalização e a barbarização visível das relações sexuais normais entre os jovens das gerações recentes (causado por uma baixa tensão , devido à diminuição da polaridade). Incluso alguns fenômenos estranhos que, ao que parece, eram muito raros em outros tempos, a mudança do sexo no plano físico - homens que se tornam somaticamente mulheres, ou vice-versa - somos levados a considerá-los segundo o mesmo modelo e pelas mesmas causas: é como se as potencialidades do outro sexo - contidas em cada um - tivessem adquirido, no clima geral presente, uma possibilidade excepcional de recorrência e ativação, devido ao enfraquecimento da força central que, também biologicamente, define o "tipo", até chegar a deslocar e alterar o sexo do nascimento.

Em tudo o que podemos dizer de forma convincente até aqui, devemos apenas registrar um sinal dos tempos e reconhecer a completa inutilidade de todas as medidas repressivas de base social, moralista e conformista. Não é possível segurar a areia que escorre por entre os dedos, qualquer que seja o esforço que você fizer. Seria necessário voltar ao plano das causas primeiras, do qual todo o resto, em diferentes domínios, incluindo os fenômenos aqui considerados, são apenas consequências e atuar neste plano, produzir ali uma mudança essencial. Mas isso significa que o começo de tudo deveria ser a superação da civilização e das sociedades atuais, a restauração de um tipo de organização social diferenciada, orgânica, bem articulada graças à intervenção de uma força central viva e formadora. No entanto, uma perspectiva deste gênero parece cada vez mais uma pura utopia, pois, hoje, é no sentido exatamente oposto pra onde conduz o "progresso", em todos os domínios. Aqueles que interiormente não pertencem e não querem pertencer a este mundo, resta apenas a constatação das relações gerais de causa e efeito que escapam a loucura de nossos contemporâneos e a contemplação tranquila de todas as excrescências que, seguindo uma lógica bastante reconhecível, florescem no solo de um mundo em plena decomposição.

(1) Metafísica del sexo, Pequeña Bibliothêque Payot, París, 1976.

(2) Isto está de acordo com o fato de que hoje, o aumento das lésbicas é praticamente insignificante em relação aos pederastas; de fato, como Aristóteles já havia reconhecido, é eminentemente "homem" o portador do princípio em que repousa a "forma".