sábado, 6 de agosto de 2016

Feminismo e Ideologia de Gênero desde uma perspectiva Tradicional


Voltando ao tema que nos ocupa, sobre a importância do feminino como símbolo do "pilar da emancipação", e sua exclusão posterior do núcleo ideológico do paradigma moderno, se observarmos as antigas tradições espirituais pode-se notar que geralmente se tem associado ao masculino o ativo e o exterior, o aspecto exotérico de uma cultura, enquanto que o feminino está associado ao passivo, o interior, o oculto, aquilo que não é mostrado explicitamente à luz - a alma, por exemplo, está sempre relacionada com o feminino -, e assim, o feminino está relacionado não tanto com o polo exotérico, mas com a dimensão esotérica - interior - da tradição.

 Nós já discutimos em outros momentos sobre o conceito tradicional dos opostos, não como inimigos, que parecem apenas aparentemente, mas como complementares que deverá conduzir a um novo equilíbrio e ordem que os transcende. A superação de ambos produz em uma síntese criativa, que muitas tradições representavam basicamente sob duas imagens:

 - O "mito do andrógino '- assim, por exemplo, em Platão e em toda a tradição hermética ocidental (sob a forma de Rebis).
 
- O Hierogamos - em tradições cabalísticas, como foi recentemente exposto por Moshe Idel e muitas vezes presente na literatura mística ocidental. É a partir deste modelo de Eros platônico e Hierogamos, como forma de ultrapassar manifestação individual, que a cultura do amor cortês medieval se desenvolveu.
 
Às vezes, ambos os mitos tornaram-se complementares e referiam-se a momentos diferentes da manifestação, assim, por exemplo, na tradição platônica, o mito do 'andrógino primordial' foi adicionado como um complemento reconstitutivo do mito do Eros como força de união dos opostos.  




Se considerarmos por um momento o modelo de representação da Árvore Sefirótica, veremos que os pilares exteriores representam os polos masculinos e femininos, enquanto que o Pilar Central representa a (re)-união dos dois opostos em um equilíbrio perfeito, que é imediatamente associado com a ideia mítica do andrógino que estamos analisando. 

 Para mostrar como esta reunificação das potências humanas tomava a forma mítica da androginia e até que ponto o masculino e o feminino eram compreendidos como fatores complementares e não como opostos, tomaremos um exemplo da Cabala Hebraica, uma tradição considerada como o paradigma do machismo patriarcal mais indesejável para o pensamento profano e moderno. 

    "Todos possuem necessariamente aspectos masculinos e femininos. Isto é particularmente o caso de tzaddiq [o 'justo']. (...) O aspecto masculino significa o que sempre emana. (...) Mas também há um aspecto feminino, ou seja, aquele que recebe e atrai o influxo dos mundos superiores para os mundos inferiores". (Heshel de Apta, 'Ohev Yisra'el')

A referência ao 'justo' é particularmente significativa, uma vez que enfatiza como aquele que se realiza espiritualmente aperfeiçoa esta complementaridade entre os aspectos masculino e feminino - que tudo o que existe necessariamente possui - o que nos leva para a reconstrução mítica do andrógino primordial como dizíamos.  O "justo" realiza em si esta verdade primordial que simboliza o mito do andrógino, esse detalhe é importante como mostraremos no fim do artigo. Importa notar que esta ideia da presença inseparável do masculino e do feminino na totalidade do que existe já está contida na representação da Árvore cabalística, pois todas as séfiras, ou esferas, são femininas em relação aquelas que lhe são superiores - pois recebem delas - e masculina em relação aquelas que lhe são inferiores - pois emanam até elas.


O falso retorno do feminino na modernidade
 
No entanto, a modernidade não conjugou estes opostos para desenvolver um equilíbrio entre eles. Devido a algumas razões que analisaremos mais adiante, para o paradigma moderno, o polo que denominamos como o 'de controle' tem sido a tal ponto hegemônico no desenvolvimento da civilização europeia ocidental que tem expulsado por completo aqueles modos de ser e entender o mundo - assim como toda disciplina de conhecimento - que poderiam estar associadas com o polo feminino ou 'emancipador'. Este fenômeno de exclusão da diferença está, como veremos a seguir, na base da extrema rigidez do paradigma moderno e na consequente perda de flexibilidade e diversidade que o acompanha desde sua origem.

 Antecipando em quase dois séculos a revisão cultural que aquilo que o feminismo moderno tem pretendido nas últimas décadas, Goethe advertiu esta expulsão do feminino do quadro mental e conceitual ocidental e alegou que recuperou o que se chamou de o 'eterno feminino'. A este 'eterno feminino' haviam estado secularmente associados as disciplinas humanistas e liberais como as arte, a poesia e outras; disciplinas que, como facilmente nota-se, foram deslocadas do núcleo do novo paradigma dominante e que perdeu muito de seu prestígio na nova ciência, mais semelhante ao paradigma moderno, racionalista, rígido e excludente.

 Desde então, o retorno do feminino visto por Goethe não ocorreu, e o ocidente continuou a abandonar-se ao racionalismo mais extremo e o desenvolvimento mais titânico, que representa - para a modernidade - a essência da masculinidade.

Curiosamente, as primeiras críticas à hegemonia da masculinidade e do racionalismo, que anunciou de alguma forma o começo da desintegração do paradigma atual, vieram da psicanálise, que, ao seu modo, marcadamente anti-tradicional, ao menos voltou sua atenção para a alma humana, desprezada por séculos pelo paradigma racionalista e cientificista. Não queremos dizer com isso que a psicanálise desempenhou um papel saudável ou benéfico para a civilização ocidental, pois não acreditamos que sim, mas que deixou claro as rachaduras no paradigma moderno e colocou a atenção sobre algumas de suas principais falhas. Foi precisamente Jung que recuperou a antiga proposta de Goethe, reivindicando o papel do feminino em mitos e símbolos ocidentais, fazendo amplo uso de algumas expressões que já mencionamos antes, como o "eterno feminino" ou "andrógino".
 
Nós podemos mostrar graficamente as diferentes situações do feminino no contexto dos dois paradigmas - tradicional e o moderno - pela ilustração a seguir.



 
No paradigma tradicional fica claro que se estabelece uma diferença entre os polos masculino e feminino - na retórica moderna seriam "gêneros" - que aparentemente aparecem como opostos. Para representar graficamente tal relação entre o masculino-feminino temos nos inspirados mais uma vez a Árvore Sefirótica e seus dois pilares ou colunas, qualificados tradicionalmente como masculino e feminino. Entretanto, seria um erro interpretar essa diferença como uma superioridade de um polo sobre o outro, porque é claro que se quer indicar a complementariedade. 
 
No fundo, esta divisão, corresponde aquela que já citamos entre a Razão e o Intelecto, sendo o polo racional, o masculino - aquele que requer o desenvolvimento lógico e reflexivo - e o polo intelectual, o feminino - que é considerado intuitivo e direto. O polo feminino seria o âmbito típico de poetas e artistas, mas também dos profetas e xamãs, e o masculino, da ciência e da filosofia racionalista.

De modo que, estritamente falando, o polo feminino deve ser um pouco mais elevado que o masculino, pois a faculdade intelectual, como já dissemos aqui, é superior, por natureza, à faculdade racional, uma vez que é mais principial: está mais próxima dos princípios imutáveis e não depende de acidentes.
 
Justificar tudo o que disse acima seria muito longo, especialmente por causa da imensa propaganda existente direcionada para nos convencer do contrário, então nós preferimos deixar para outra ocasião. Só diremos, como exemplo histórico para ilustrar estas reflexões, que, na Grécia antiga, o profetismo era uma coisa quase exclusiva as mulheres, porém estas - sibilas, sacerdotisas, hetairas - não eram tomadas como inferiores, ao contrário, eram respeitadas por toda a sociedade e em particular por os homens, a tal ponto que o próprio Sócrates diz ter sido iniciado nos Mistérios por uma mulher, Diotima, a qual ele tratava como mestra, com veneração e respeito. Algo inédito e surpreendente para a história moderna, na qual se acusa de doença mental o fenômeno místico, onde se encontra na literatura acadêmica que muitas místicas e visionárias medievais - e algumas delas santas, incluindo até mesmo Doutoras da Igreja - descritas como neuróticas. Claro que é necessário nunca ter lido uma página escrita por estas mulheres nem saber sobre sua vida - assombrosamente ativas - para dizer tais coisas. Gostaríamos de saber se talvez esta não é uma negação a todo custo do nível supra-racional, um desprezo absoluto pelo "feminino".
 
Além do mais, o modo em que a civilização clássica grega aceitava a religião, o misterioso e, em geral, o não-racional (em vez de irracional) - incluindo certas tradições xamânicas que sobreviveram entre eles por muitos séculos - como parte do cotidiano, refuta claramente a imagem hiper-racionalista que o ocidente tem tentado construir desta parte da história em relação com outras civilizações daquela época. Mais uma vez, o núcleo ideológico - e supersticioso - que caracteriza a modernidade não se vê afetado pelo fato de que a realidade desmente seus falsos mitos repetidos ou que seus argumentos sejam tão escandalosamente falsos. 
 
E, finalmente, ver nessa diferença uma injustiça flagrante a ser reparada supõe algo muito próprio do pensamento homogeneizador e impositivo que funciona na modernidade: negar a realidade de que estas diferenças existem. Acaso os homens e as mulheres não são diferentes? Acaso diferente é sinônimo de inferior? E, além do mais, são diferentes por natureza, o que parece ser um detalhe especialmente odioso para modernidade, obcecada desde décadas em mostrar que tais diferenças são relacionadas ao ambiente... É o homem moderno que vê "opressão" e "injustiça" e que deve libertar-se de todas as partes, embora, talvez a maior injustiça - especialmente quando se referem as sociedades passadas que não compreendemos nada - esteja no seu olho e em seu olhar do que na própria realidade.

Dito isto, e retornando à ilustração anterior, na qual o modo pelo qual o feminino é representado nos paradigmas moderno e tradicional, com o esquecimento e desprezo do poder intelectual pelo paradigma racionalista, o polo feminino foi completamente subordinado ao polo masculino, viu-se privado de qualquer direito de existir - representava o anormal e devia ser abolido - e assim foi banido para as profundezas do subconsciente, o único lugar onde poderia sobreviver. Neste ponto, é muito interessante as reflexões de Patrick Harpur, sobre como aquilo que é 'aprisionado' e reprimido no subconsciente volta à consciência de forma cada vez mais monstruosa e problemática, criando, entre outras coisas, doenças mentais e desequilíbrio social. É para isto que Freud e a psicanálise dirigiram sua atenção, como observamos anteriormente. Mas, esta realidade dolorosa, óbvia, não importa de modo algum para a elite intelectualista do paradigma hegemônico da modernidade, nem as doenças de seus habitantes nem os desastres da sociedade que movem as ciências sociais modernas - a (pseudo)-psicologia moderna por exemplo - faz com que abandonem o tão querido paradigma cientificista atual.

 Um subconsciente-feminino que, aliás, perdeu o polo superior - espiritual - que deve guiar a vida humana, não demorou em voltar-se para arte moderna, já desde o romantismo - mas ainda mais nas vanguardas do século XX  - em plena decomposição. O que deixa bem claro que em verdade não há lugar para a arte verdadeira na racionalidade exclusivista, o que quer dizer que o paradigma moderno expulsou a arte para fora de si para poder impor o seu modelo de vida e sociedade, radicalmente pragmático e extremamente vulgar. Isto pode surpreender alguns, mas ficará claro em mostrar que a única 'arte' - se assim pode ser chamada, o que não cremos - que permite o paradigma racionalista ocidental é precisamente aquela que brota da parte mais inferior, passional e irracional da alma humana. Uma 'anti-arte' que, em vez de apontar para algo superior, claramente conduz ao infernal. Com efeito, a arte é uma expressão privilegiada da alma humana e, quando esta alma está doente ou é diretamente negada, que arte pode surgir?
 
Em última análise, no novo paradigma racionalista, cientificista e mecanicista, caracterizado antes de tudo por des-animar - extrair a alma - o mundo, o feminino foi relegado para o subconsciente - identificado com o emocional, o enfermo, o irracional, bruxaria, magia, etc... - e o masculino identificou-se de forma exclusiva com a racionalidade técnico-prática, materialista. Assim, as trevas da razão veio a obscurecer a luz do intelecto.

Em conclusão, acreditamos que é impossível uma crítica profunda à racionalidade prática impositiva e excludente que tem sido praticada no ocidente ao longo dos últimos séculos se se carece de uma perspectiva tradicional que situe a razão e o intelecto em seus devidos lugares. Sem essa perspectiva, todas críticas serão parciais ao paradigma ocidental, e nos encontraremos novamente diante do paradoxo que exige o 'cumprimento do programa ilustrado', quando é este mesmo programa - social e epistemológico - a origem do problema. E esperamos que nunca chegue a ser cumprido, pois o desastre seria de proporções cósmicas.


O feminismo moderno visto desde a Tradição

Disto isto, pode parecer que o feminismo moderno venha a recuperar esta feminilidade perdida a que nos referimos, secularmente associado com o 'pilar da emancipação' e testemunho inegável de outros modos de ser e compreender o mundo, mas a verdade é que este está longe de ser o caso, pois o feminismo moderno é verdadeiramente a antítese do que tradicionalmente simboliza o feminino, opondo-se radicalmente e visando substituir permanentemente. 

Embora seja verdade que durante décadas se reivindica um retorno do feminino à sociedade, com a repetida acusação de promover valores exclusivamente associados à masculinidade - racionalismo, competitividade, etc -, o retorno que tomou lugar é meramente exterior e não envolve a menor mudança no modo de entender e construir a ordem social.  Ao contrário: o que trouxe consigo, esta espécie de 'tendência cultural', que é o feminismo moderno, não tem sido uma mudança no modo de compreender o mundo nem uma transformação revolucionária do mesmo, como o discurso de poder quer nos fazer querer acreditar, mas apenas uma maior visibilidade das mulheres na sociedade, totalmente exterior e, portanto, sem importância para todos efeitos: as mulheres ainda estão completamente imersas em uma sociedade que continua a ser a mesma que era antes de sua especial 'libertação feminista', imersa em um paradigma ideológico e social radicalmente machista e racionalista.

Assim, a maior presença exterior do feminino não se constitui como uma alternativa - nem como uma dissidência - em relação à ordem do paradigma predominante, proveniente do 'pilar do controle', mas, ao contrário, representa um passo em direção ao aprofundamento nele mesmo e em sua hegemonia no ordenamento da sociedade, destruindo as últimas resistências ao mesmo, a saber: a família e a figura da maternidade.

Não é por acaso que a maternidade tornou-se a 'besta negra' do feminismo moderno mais radical, contra a qual se dirigem as mais duras injúrias progressistas, o que confirma outra de nossas teses: o ódio da modernidade à natureza.  É a clássica oposição entre a natureza e a cultura - expressa também como irracional vs racional -, onde a natureza deverá ser completamente abolida para criar uma realidade exclusivamente construida, isto é, técnica, abolindo mais uma vez o emocional e o interior em prol do pragmatismo.

Como podemos ver, mais uma vez, a modernidade não se trata de integrar a diferença - o 'pilar da emancipação' que está associado com o natural e o irracional - mas ao contrário, de eliminá-lo. Assim resulta que, desvendando a retórica progressista que cativa a sociedade, a mulher não é um 'sujeito a libertar-se', mas sim um 'objeto a ser destruído' por parte do feminismo como projeto político e da revolução feminina como fato social. Acrescentamos que, o que se esconde por trás da promessa de libertar o homem e a mulher de todas suas 'correntes' é apenas isto: negar e roubar sua natureza essencial; toda essência, toda qualidade, deve ser destruída para que, por fim, a nova ordem seja imposta, o novo mundo que a modernidade tanto anseia. Finalmente chega-se a imersão na matéria indiferenciada e desqualificada para realização do "reino da quantidade", nas palavras de Guénon.

O que dizemos é confirmado quando comprova-se que o feminismo moderno não se trata da contribuição da mulher para a civilização moderna dos valores que o feminino tradicionalmente incorporaram nas sociedades pré-modernas, trata-se exatamente do oposto: esses valores tradicionais, associados ao 'pilar da emancipação', simbolizada pela mulher, família, o respeito às tradições dos antepassados e o mundo rural, são vistos pelo feminismo moderno não como valores a serem recuperados, mas como desvalores a serem combatidos e apagados, vestígios de um passado que deve ser completamente esquecido - mas uma vez nos deparamos com a 'cultura do palimpsesto' -. O feminismo moderno é apenas um passo nesta direção, da supressão das raízes e desenraizamento do homem moderno, o que significa a construção de uma nova feminilidade ultra-moderna, cada vez mais próxima do 'pólo masculino' que governa a sociedade e que tanto se tem criticado e se diz combater. A realidade é que dessa forma não se combate em verdade o 'pilar do controle' mas, ao contrário, serve a ele mesmo mediante a destruição de suas possíveis alternativas.

Por esta razão, o feminismo nascido depois da Segunda Guerra Mundial,  descaradamente anti-tradicional, não significa o retorno da visão emancipatória e feminina da realidade, mas envolve, ao contrário, sua anulação final com base na derradeira destruição das poucas resistências que poderiam derrubar o domínio absoluto do 'pilar do controle' monolítico e seus ideais humanistas.


Feminismo e machismo, dois lados da mesma modernidade anti-tradicional.

Algumas considerações finais se impõem. Em primeiro lugar, se reconhecermos que o feminino e a emancipação foram expulsos do núcleo paradigmático Ocidental e da construção de sua identidade a partir de sua origem, o retorno do feminino, se é real e não meramente uma aparência revolucionária - uma máscara de poder - como tem sido apresentada pelos diversos feminismos, deve implicar o fim - ou pelo menos uma certa alternativa - da mesma mentalidade moderna lhe marginalizou.

E, uma vez que a modernidade - como paradigma de conhecimento - exclui o polo feminino da emancipação por definição, o retorno dos valores e realidades que isso implica nunca poderá ocorrer dentro da própria modernidade. Portanto, aqueles "feminismos" que defendem e fortalecem a modernidade - que reivindicam uma maior conformidade com o programa ilustrado - só podem ser julgados como cúmplices da ordem vigente, cúmplices da destruição daquilo que verdadeiramente sempre simbolizou o feminino.

Por outro lado, verificamos muitas vezes que o conceito de feminismo opõe-se a seu conceito antagônico: o machismo. Assim, é extremamente necessário notar o paradoxo de que o feminismo moderno, na medida em que é precisamente moderno, não pode lutar contra o machismo sistêmico que diz denunciar - o tão conhecido patriarcado - pois faz parte indissoluvelmente da ordem social que lhe moldou e dele necessita para existir.

O feminismo, com toda sua aparência de oposição e reivindicação, não é mais que um passo no avanço do paradigma machista hegemônico dos últimos séculos e que moldou a civilização atual. Um paradigma em que a técnica, o estado e o capital têm prioridade sobre o indivíduo, seja homem ou mulher. Esta é a terrível realidade de uma sociedade que mistifica um modo de conhecimento - a técnico-ciência - que não está a serviço dos seres humanos, mas de um poder cada vez mais distante e desumanizado, e denunciar as desigualdades de gênero antes de denunciar esta verdade - que se encontra na base daquelas - é demagogia ou mascarar a verdade.

Assim, portanto, o feminismo não é uma luta contra o machismo - contra o qual, ainda se quisesse, não poderia combater, pois são filhos de um mesmo pai: a modernidade anti-tradicional -, mas antes de tudo uma luta contra o gênero, enquanto divisão socialmente apropriada dos papéis masculinos e femininos.

É evidente que o fato de que exista diferenças de 'gênero', assim como seu reconhecimento explícito, não implica por si só que um gênero submeta-se a outro. Mas, esta evidência lógica não significa nada para o feminismo moderno e sua propaganda moderna de desprezo de todo o passado, nem altera em nada seu programa político de redesenho e desconstrução da sociedade. Esta é a verdadeira agenda oculta do feminismo enquanto agente político de divisão e dominação social: a abolição de toda diferença entre o homem e a mulher. Por isso o feminismo jamais afirmou ou reivindicou os valores tradicionais da feminidade - aqueles que chamam de 'cúmplices do patriarcado' - mas antes pretende redefinir a feminidade, dissolvendo-a e destruindo tudo o que possa ser feminino. Aqui, seu caráter anti-tradicional é claramente demonstrado.

Subjacente a este propósito está o caráter que já definimos como fundamental na modernidade desde seu início: o ódio pela diferença; o qual é inevitavelmente seguido por seu corolário positivo: o igualitarismo. Esta abolição dos gêneros não conduz a igualdade alguma mas, como vimos no desenrolar destas páginas, a um estado de coisas muito consistente com o projeto social da modernidade: o igualitarismo a todo custo e a homogeneidade da sociedade.

Ou seja, na linguagem que estamos empregando para definir este paradigma, o que se busca não é outra coisa senão a ausência da diversidade, pois, como já vimos, a diversidade - assim como a liberdade verdadeira, não a libertação revolucionária - é vista como uma ameaça potencial à ordem vigente do 'pilar do controle'. A modernidade considera a igualdade como a 'ausência de diferença' - a conhecida doutrina de 'todos somos iguais' - e, especialmente, tendo em conta a prioridade que o exterior e a aparência possuem nas mentalidades modernas mais radicais, a 'ausência de diferenças exteriores'.


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Ainda há mais. Este igualitarismo esconde atrás de si uma realidade ainda mais inquietante. Tem sido dito muitas vezes que a modernidade impõe um igualitarismo por baixo e há evidências irrefutáveis disso, como visto nas tendências que gradualmente ganham força na sociedade de hoje, como a desconstrução de gêneros, os novos tipos de mulher e de (pseudo)-feminidade - marcados por uma exagerada androgenização, mais uma vez anti-tradicional, incluindo o estético - ou na moda conhecida como unisex, por exemplo, sem necessidade de falar nas novas sexualidades e modelos de relacionamento que todo tempo estão a inventar. É em direção a esta "ausência de diferença" para onde aponta as conquistas feministas do último século.

O que está por trás dessas atitudes não é apenas uma campanha de destruição da masculinidade, aqui há um ódio de igual forma ao masculino e feminino. Portanto, para o feminismo, assim como para todo o projeto globalista, não se trata em combater a desigualdade, mas destruir toda diferença, uma diferença que parece incomodar especialmente a modernidade mais radical.

Não é surpreendente, portanto, que a feminização e a desconstrução do homem - exterior e também de seu caráter - tenha acontecido lado a lado uma extrema androginização da mulher. Tal tendência, já denunciada no início do século XX, demonstra que o paradigma machista-racionalista não mudou em nada e continua a ser hegemônico em todos lugares, inclusive entre as mulheres, pois estas, em vez de afirmarem-se como o que são - mulheres - tem imitado quase sempre o protótipo do sexo masculino para sentirem-se aceitas na sociedade que dizem criticar, já desde os primeiros coletivos feministas - o que denota algo patológico e não um desejo de emancipação; na realidade invejam a situação social dos homens - e mostram-se cada vez mais na sociedade naquilo que antes era competência exclusiva dos homens. E, sobretudo, imitando o polo masculino em seu pior, isto é, naquelas atitudes mais brutas e grosseiras, como é evidente para qualquer pessoa que está livre de preconceitos. Para realizar tudo isso, a ideologia feminista, que, como toda ideologia moderna é "contra alguma coisa" - define-se por seu inimigo - vem aplicando a tática de se vitimizar, problematizar e inferiorizar as mulheres até o ponto em que odeiam quem são.

Sendo o feminismo moderno mais um subproduto, e dos mais grotescos, da pós-modernidade anti-tradicional, aquela que celebra destruir a si mesma, compartilha plenamente com ela seu característico ódio a si mesmo, a seu passado e a tudo o que é; e sua última missão, não é acabar com o 'patriarcado' moderno - representado sobretudo pelo par Estado-Mercado - mas redefinir a noção de sujeito, desconstruir as pessoas desde sua sexualidade e redesenhar a sociedade... em última análise, dissolver.

O feminismo é, portanto, uma força dissolvente mais forte; um verdadeiro niilismo, dos muitos que atualmente desmembram nossa sociedade.


O andrógino moderno como inversão do andrógino primordial.

Chegamos a conclusão de nossa análise. Como podemos ver, estamos aqui diante da inversão exata do mito tradicional do andrógino primordial. Se o ideal dos alquimistas e dos hermetistas cristãos era essencialmente a integração em sua personalidade de suas duas polaridades - entendidas como complementariedades -, o que é, antes de tudo, um processo interior de assunção da própria natureza, não excludente mas inclusivo, em que pouco poderia importar a aparência externa, o ideal do "novo andrógino" é o nivelamento por baixo entre o homem e a mulher, uma espécie de dessexualização e queda na indiferenciação da matéria primordial. Tal indiferenciação primordial é sobretudo uma imagem da ausência de qualidades, o que é um sinal evidente do 'reino da quantidade' como já nos avisou magistralmente René Guénon.

  Assim, a convergência dos gêneros masculino e feminino em um universo unisex, é um caso análogo ao que representa o ideal da proletarização universal que anunciavam e sonhavam os utopismos do século XIX, contrário a ideia tradicional da ordem social baseada em castas. O proletário não supera as castas por cima - o que seria o ideal do ativarna hindu - mas sim por baixo, anunciando a desqualificação completa do homem - que é, de fato, o avarna, literalmente "sem cor", isto é, sem qualidade. Ambos modelos de igualitarismos revolucionários envolvem a desqualificação do sujeito e, portanto, um rebaixamento de sua dignidade ontológica, um sujeito que, coisificado, passa a ser uma peça do sistema, sem qualidades que lhe defina ou lhe diferencie do resto de outras peças, e, sendo assim, perfeitamente intercambiável por qualquer outra peça, em uma homogeneidade que é uma imagem dessa indiferenciação própria da Matéria Prima que dizíamos e que reflete na mesma sociedade a ideia da cadeia de montagem industrial. Tudo isso anuncia um futuro de prevalência indiscutível dos sem castas: a 'ditadura do proletariado', uma massa de pessoas sem passado, sem raízes, sem terra, controlados por um sistema de produção completamente exteriorizado e alheio; como pode-se defender semelhante projeto social?

Se o andrógino tradicional era antes de tudo uma realidade interior e implicava uma superação dos gêneros - para o qual é necessário aceitar e assumir previamente-, com vistas de dar lugar a uma ordem e equilíbrio que transcenderia por cima, pelo alto - tal e como citamos o modelo do ativarna, o homem que supera toda as castas-, agora, o novo equilíbrio unisex passa a negar a diferença, e até mesmo a existência, de tais realidades masculinas e femininas, igualando por baixo, em sua parte inferior, em um retorno à indiferenciação da matéria sem forma, isto é, sem qualidade. Se por um lado a androginia tradicional simboliza a integração da alma do sujeito, em um interior harmônico e equilibrado, a perfeição da alma humana; a androginia pós-moderna, por outro lado, é sua antítese terminal: representa a indiferenciação primordial contida no caos primevo, uma descida ao inferior - o reino da matéria - e, como tal, pode certamente ser descrita como infernal.

Mais um exemplo de como a modernidade é a inversão infernal - inferior - da ordem tradicional ou normal.


Escrito por Ramés, no blog Agnosis (link)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre o Burguesismo e o Socialismo (Por Nikolai Berdiaev)

I

Muitas palavras que ora gozam de amplo uso corrente nas ruas, carregam um caráter de efeito mágico; umas fórmulas que ora tomam o seu caminho, assumem um aspecto sacro: são aceitas pelas massas não apenas sem discernimento, mas, igualmente, sem compreensão. E a tais palavras de característica mágica pertencem os termos "burguesia" e "burguesismo". Estas palavras possuem no momento presente uma força sobre as massas, massas estas que se sentem escravizadas por elas, cujo significado, porém, não se consegue compreender adequadamente. A palavra pende a uma profunda obscuridade, não se encontra preparada para abarcar significados complexos, e nem ilumina a escuridão, ao contrário, apenas a aumenta. A magia provoca e estimula algo de instinto obscuro, corresponde a alguns interesses, porém nada de conceito ou idéia revestido de clareza pode ser a ela relacionado. Qual seria a interpretação de "burguesia" no momento presente? Sob termo "burguesia" é compreendida não apenas a classe industrial, não apenas os capitalistas, nem o "terceiro estado". No presente, para nós, a categoria de "burguesia" é empregada num sentido incomensuravelmente amplo. Toda a Rússia, toda a humanidade é dividida em dois mundos irreconciliáveis, dois domínios: um domínio do mal, da escuridão, do demônio — o domínio burguês; e um outro domínio divino, do bem, da luz — o domínio socialista. No caminho desta psicologia há uma re-experimentação da antiga e arcaica divisão e oposição religiosa, porém, de um modo distorcido. Os Social-Democratas, tendo envenenado as massas trabalhadoras com o ódio destrutivo pelos "burgueses" e "burguesismo", fazem uso dessas palavras num sentido classista e materialista, e sob o seu próprio ponto de vista classista conferem-lhes um selo quase religioso. Esse sentido positivista-materialista e classista do mundo não pode, no final das contas, perdurar. E os socialistas, os materialistas estão compelidos a admitir que o "burguesismo" reflete uma certa disposição psicológica. Uma certa moldura de valores relacionados com a vida, não tanto uma condição de problema social, mas uma atitude do espírito humano em relação a ele. Uma disposição "burguesa" e uma série de valores "burgueses" podem se encontrar num homem que não pertença necessariamente à classe burguesa, de forma alguma possuidor de uma propriedade, e, por outro lado, um "burguês" que, apesar da sua posição social, pode ser totalmente destituído do "burguesismo". E absolutamente incontestável que o "burguesismo" seja uma condição do espírito humano, e não uma posição social-classista de um homem, - ele se define pela relação de espírito à vida material, por um espírito preso e impotente para vencer a força da matéria, ao contrário da própria vida material.

Os grandes inimigos do espírito burguês do século XIX foram Nietzsche e Ibsen, que não eram socialistas, nem tiveram qualquer relacionamento com o proletariado e no presente, certamente, seriam consignados ao domínio da "burguesia" uma vez que hoje a sabedoria da rua considera "burguês" todas as pessoas do espírito. E provavelmente a mais vívida expressão de espírito anti-burguês da literatura russa seria o reacionário K. Leont'ev, - toda a sua obra ao longo da vida foi um combate contra o domínio iminente do enfadonho espírito filisteu. Seu espírito era menos "burguês" que o espírito de todos os "bolcheviques" e "mencheviques" que aspiram à felicidade fugaz do seu paraíso terrestre. Na França há o notável escritor Leon Bloy, único como Católico, o reacionário dos reacionários, sem nada ter em comum com o socialismo, e ele se levantou num radicalismo sem precedentes contra as fundações essenciais do burguesismo, contra o espírito burguês reinante no mundo, contra a sabedoria burguesa. Como um Cristão, revelou o campo metafísico e espiritual e vislumbrou o mistério da burguesia, em oposição ao mistério da Gólgota. O "burguês" prefere sempre o visível ao invisível, este mundo ao outro mundo. Nietzsche teria dito que a "burguesia" sempre ama aquilo que se encontra "ao alcance das mãos" àquilo que se encontra "remoto". O espírito do burguesismo está em oposição ao espírito altaneiro de Zaratustra. Ibsen teria dito que o espírito burguês se opõe ao espírito daquele homem que se coloca só no caminho da vida. Para o burguês, o espírito está profunda e essencialmente em oposição não ao espírito socialista e proletário mas, fundamentalmente, ao espírito aristocrático. O domínio burguês é um domínio quantitativo. A ele se opõe o domínio qualitativo. O espírito burguês constrói tudo sobre a base da prosperidade, felicidade e satisfação. Tal espírito que se encontra diametralmente oposto a este, tende a se construir sobre as bases dos valores, e necessita gravitar de encontro com o imenso e longínquo espiritual. O espírito burguês, portanto, não ama e, de fato, teme o sacrifício, enquanto que o espírito anti-burguês possui como base o sacrificai, mesmo quando reclama o poder. O burguesismo não foi criado pelo socialismo, foi criado por um mundo velho, caduco. Entretanto, o socialismo aceita o legado do burguesismo, deseja aumentar e desenvolvê-lo e levar esse espírito a um triunfo universal. O socialismo é nada além de um reflexo passivo do mundo burguês, foi totalmente definido por ele e recebeu dele todos os seus valores. Não há nele uma liberdade criativa.

II
O ideal da organização última deste mundo e da satisfação e felicidade final neste mundo, eliminando a sede por um outro mundo, é também um ideal burguês, se encontra dentro dos limites do burguesismo, um fenômeno globalizante e distribuição equânime do burguesismo pelo mundo inteiro. O espírito burguês é antes de tudo um espírito anti-religioso. O burguesismo é uma conformação anti-religiosa com este mundo. O desejo de defender nele um princípio eterno e estabelecer o espírito humano nesse reino preferindo-o a Deus. E esta idéia do Reino de Deus na terra, neste mundo material tridimensional é a distorção burguesa da verdadeira expectativa religiosa. No antigo quiliasmo judeu havia um burguesismo, que foi renovado por uma transformação social. O burguês se sente exclusivamente um cidadão deste mundo isolado e desta face da terra; distante dele se encontra a cidadania celeste, a cidadania de outros mundos. Para burguês o céu está sempre exclusivamente subordinado aos interesses da terra, e o outro mundo para o interesse deste mundo. Assim é a religiosidade do burguês. E verdadeiramente o anti-burguês é aquele que, coloca os valores muito acima do bem-estar, o interior muito acima do exterior, o sacrifício acima da satisfação, a qualidade acima da quantidade, o remoto acima do alcance das mãos, o outro mundo acima deste mundo, a pessoa acima da massa impessoal, e que ama a Deus mais do que o mundo e a si mesmo. Isso significa o choque de dois princípios do mundo diametralmente opostos. O burguês é um destruidor do eterno em nome do temporal, um escravo de tempo e de matéria. O malogro do mundo, o malogro do homem e o conflito humano são também sua peculiaridade básica. Mas a liberdade de espírito, a vitória sobre a temporalidade e materialidade é também uma vitória sobre o "burguesismo". Cristo condenou os bens como sendo escravidão ao espírito, como sendo instrumento de apego a este mundo limitado. O significado desta condenação não é social, mas espiritual, orientado ao homem interior, e no mínimo pode ser usado para justificar inveja e ódio ao rico. Esta inveja e este ódio é um impulso burguês sobre o coração humano e revela toda aquela escravidão idêntica do espírito humano.

E deve ser afirmado taxativamente que dentro do socialismo não há nada que se opõe ao espírito do burguesismo, não há nele qualquer antídoto contra o supremo reino do burguesismo no mundo. Um trabalhador pode não ser menos burguês típico que um industrial ou comerciante, sua posição economicamente oprimida não lhe garante qualquer sorte de qualidades espirituais, e, de fato, isso freqüentemente priva-o até da nobreza de caráter. Burguesismo não se restringe à pertença a uma classe particular, embora todas as classes possam ser cativadas pelo espírito do burguesismo. Na essência, toda psicologia classista é burguesa, e o burguesismo é superado apenas quando o homem chega acima da psicologia classista em nome de valores mais altos, em nome da verdade. Os operários e lavradores, na sua psicologia puramente classista, nos seus interesses, podem ser espiritualmente burgueses do mesmo modo que os industriais, os mercadores e os latifundiários, indiferentemente dos interesses dos primeiros serem mais justos que os dos últimos. Para um socialismo classista que busca uma pretensa criatividade para uma nova cultura, é fatal que todos os valores mais elevados, os valores da cultura espiritual, os valores da "ciência e arte" sejam criados pela burguesia, no sentido social classista. A classe operária não criou qualquer espécie de valores, nem descobriu os rudimentos de uma nova cultura, ou um novo paradigma espiritual do homem. Ele toma emprestado tudo da burguesia que o mantém despojado espiritualmente e se torna fatalmente "burguês" na medida do seu crescimento de ser cultuado a sua consciência, sua partilha da bênção da civilização. Por cinqüenta anos da sua heróica existência, o proletariado socialista — essa "classe de messias" — nada criou. Na esfera de preocupação religiosa, o proletariado socialista se apropriou do ateísmo burguês e da velha filosofia materialista burguesa, na esfera moral a velha moralidade utilitária burguesa, na vida da esfera artística herdou a alienação burguesa da beleza, a repulsa burguesa ao simbolismo e o amor burguês ao realismo. O nível da cultura proletária não se ergueu mais que o completamente arcaico, banal e em relação a um seguimento mais cultural, ao há muito decrépito "iluminismo". A baixeza intelectual do movimento socialista é surpreendente. Seria assim que o Cristianismo entrou no mundo decadente da antiguidade com as suas boas novas da nova vida? Onde é possível encontrar os sinais de uma criatividade proletária original? Não são os impulsos de criatividades, antes os compromissos de interesses que orienta a psicologia classista. O valor do socialismo em si foi criado pela burguesia, pelo segmento cultural burguês ao qual pertenciam também os primeiros socialistas utópicos e Marx, Lassalle, Engels e os ideólogos russos do Social-Democrata e dos revolucionários sociais. Para o proletariado, o socialismo é uma interpretação de seus interesses e instintos imediatistas. E apenas para os ideólogos vindos do seguimento cultural burguês ele tem sido uma idéia, um valor. Como os interesses de instintos gananciosos de alguma classe particular pode se transformar numa idéia e valor para figuras separadas que emergira de outras classes?, - esta é a questão mais interessante da psicologia e da ideologia do socialismo.
III

O socialismo, no final das contas, é também burguês, de um burguesismo eqüitativo e universalmente difundido, o ideal de um apego sem fim como servos deste mundo num bem-estar burguês. Seria estupidez esperar do socialismo uma vitória sobre a cultura "burguesa" moderna — ele apenas a promove de um modo mais extremo na busca do seu fim. O burguesismo deve ser procurado não em forma exterior do socialismo, mas no seu espírito interior. Esse espírito considera a quantidade muito acima da qualidade, o bem-estar acima do sacrifício, o mundo acima de Deus, - esse espírito se apega a este mundo, move-se por necessidade e não pela liberdade. O socialismo até o momento presente não trouxe nenhuma espécie de valores, senão os valores da segurança, satisfação e saciedade materiais. Espiritualmente vive pelos valores criados pelo mundo "burguês", sua criatividade, suas ciências e artes, suas descobertas. As promessas de formas manifestas de criatividade puramente proletária, puramente socialista, não foram completadas, e o movimento socialista se distancia cada vez mais do cumprimento dessas promessas. O espírito socialista se posiciona com uma atitude hostil contra toda sorte de originalidade pessoal criativa, na qual apenas se vislumbra um antídoto contra o "burguesismo". O socialismo representa espiritualmente um nivelamento, levando todos a um nível mediano de estupidez, e obtém certa elevação do nível de igualdade com o caro preço do desaparecimento ou eliminação de todas as alturas. Ouçam as conversas dos Social-Democratas, leiam seus jornais, suas brochuras, seus livros. Todos dizem uma única coisa, todos batem a mesma tecla, escrevem a mesma linguagem, repetem as mesmas palavras, relembram aqueles mesmos pensamentos estúpidos. Não se encontra pessoa, pensamento pessoal, criatividade pessoal. E tudo isso chega a ser enervante. Descem a um denso e cinzento nevoeiro e prometem um paraíso cinzento, um paraíso do não-ser. O ideal do socialismo —não é criativo, antes, expansivo, não é elevado, mas eqüitativo e plano. O mundo "burguês" — é , de fato, um mundo meio-leviano e pecador, nele não há valores duradouros. O socialismo deseja afirmar-se como que o burguesismo no grau máximo, um "burguesismo" sagrado, um burguesismo eqüitativo, correto e holístico. A religião do socialismo cai na tentação do pão rejeitado por Cristo no deserto. O socialismo faz do pão uma religião e pelo pão trai a liberdade espiritual do homem. Dostoievski revela-o na sua lenda sobre o Grande Inquisitor. E Vladimir Soloviev também o revela na sua história sobre o Anticristo. Cristo rejeitou a tentação do pão e ensinou a orar ao invés do pão de cada dia.

Creio, que o espírito do socialismo classista e materialista, particularmente na sua forma de Social-Democrata, é um espírito profundamente burguês, um espírito profundamente anti-Cristo. Mas digo isso não como um inimigo do socialismo. Creio que no socialismo há sua grande verdade e sua grande questão. Mas penso também que a culpa da mentira espiritual e inverdade do socialismo não se conserva sobre ele, mas sobre aqueles seguimentos sociais, que primeiro enredou o caminho do burguesismo, o caminho da escravidão do espírito pelo materialismo e afirmação classista. O socialismo nada possui além de uma natureza reflexiva, apenas leva adiante o processo, não o inicia, espiritualmente é destituído de iniciativa e é apenas complementar. A verdade tal qual é no socialismo só pode se concretizar num espírito diverso, numa atmosfera espiritual diferente, numa consciência não materialista, e sem ódio entre as classes, sem a pretensão de se estabelecer por força o Reino de Deus sobre a terra através de algum cataclismo revolucionário, mas antes, preservando a liberdade espiritual interior.. O espírito de ódio e malícia entre as classes leva à negação de imagem de Deus no homem, rompe a idéia da humanidade e deixa-a numa contradição irreconciliável com as esperanças do próprio socialismo. A ganância social é um pecado humano, mas a ganância social estabelecida como máxima santidade já é o próprio espírito de Anticristo. Tudo possui dupla face dentro do socialismo e da democracia, - a verdade se mistura com mentira, a luz com escuridão, Cristo com Anticristo. A vida mundial está entrando num período em que não há mais uma clareza cristalina, não há fronteiras facilmente reconhecíveis separando o domínio da luz com o domínio da escuridão O espírito humano é colocado diante do maior das provações e tentações. Tentações do maior dos males podem surgir disfarçados de bem. Há necessidade de vigilância e sobriedade de espírito a fim de discernir a dupla natureza do socialismo que avança sorrateiramente pelo mundo com uma promessa de um novo domínio. E incapazes de discernimento são aqueles que permanecem em condição de embriaguez primitiva e escravidão espiritual.

A uma escuridão ainda mais profunda foram remetidas as massas do povo russo — as sementes de ódio contra os "burgueses" e o "burguesismo". O significado destas palavras odiosas permanece equivocado pelas massas. E do modo como as massas assimilam estas palavras conjuradas sobre "burguesismo", tende a aumentar algo perigoso não apenas ao destino da Rússia, do estado russo, da economia do povo russo, mas — mil vezes mil vezes mais importante - para o destino da própria alma do povo russo, uma alma feminina abatida e débil, que não  freqüentou a severa escola de auto-disciplina e auto-direção. A pregação de ódio contra a "burguesia" e o "burguesismo" também faz do povo russo "burgueses", distorce a sua semblante Cristã. Por enquanto vivemos ainda uma calma e uma espécie de benevolente anarquia, tão característica da tribo russa. Porém, logo poderá irromper algo muito mais vexatório. E então a responsabilidade recairá não sobre o povo, mas sobre aqueles seguimentos da Inteligência, que ao não aperceber-se do profundo significado das palavras, tendem a espalhá-las irresponsável e superficialmente. Assim, dentro da alma russa se elimina o que é sagrado, dando lugar à regra dos interesses especiais. Mas a própria Inteligência deveria estar pregando que a divisão básica dentro do mundo e da humanidade permanece não numa divisão temporal do domínio "socialista" e "burguês", mas antes entre o domínio da verdade e da mentira, do bem e do mal, do Reino de Deus e do demônio, de Cristo e de Anticristo. No sentido espiritual da palavra, apenas o Cristianismo enfrenta e responde eternamente ao "burguesismo". Somente nele o homem interior sairá vitorioso contra o homem exterior.
Nikolai Berdiaev


Parte da coletânea "Campos Espirituais da Revolução Russa" (artigos escritos entre 1917 e 1918). 

(Texto publicado originalmente no semanário "Russkaya svoboda" em 13 de junho de 1917) 

Tradução para o português de T. Morita




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Psicanálise e Antropologia Ortodoxa (por Christos Yannaras)

Apesar das mais diversas desvantagens culturais atualmente existentes, acredito que nossa era goza de um duplo privilégio, em comparação com os séculos de grande ápice do discurso teológico eclesial. Refiro-me especificamente ao conhecimento da natureza que a ciência moderna (especialmente a mecânica quântica) nos deu com a linguagem e o método de investigação científica, assim como os horizontes de estudo do sujeito humano que a ciência da psicologia-psicanálise deu início.

Eu sou da opinião de que os grandes Padres da Igreja e professores da Igreja não ignoraram o conhecimento científico de sua época; em vez disso, o usavam para lançar luz sobre a interpretação do real e do existente que experiência eclesial proclama. Se observa isso, simplesmente examinando os comentários Padres na seção Sobre o Hexameron, ou na terminologia e a metodologia dos Padres adaptada a partir de Sobre a Alma de Aristóteles: a teologia da Igreja é uma continuação vivificante do evento da encarnação do Verbo: ela assume continuamente uma encarnação histórica particular, animando o que foi adotado.

Tentarei demonstrar brevemente como este processo de incorporação intelectual poderia ser tentado hoje, com base nas conclusões da investigação psicanalítica sobre a composição primordial do sujeito humano. Qual o grau de complementaridade mútua existe entre a visão psicanalítica do sujeito humano e a interpretação eclesial do ser humano como pessoa? Eu posso oferecer apenas alguns indícios, mas penso que são férteis para fins de novas explorações. É do conhecimento comum que na ciência moderna não há certezas definitivas. Só pode haver sugestões interpretativas, sujeitas a refutação, mas aceitas contanto que outras interpretações com um alcance interpretativo distinto e mais completo não sejam publicados. 

Eu extraio estas observações da pesquisa psicanalítica francesa da chamada escola de Jacques Lacan, que surge como sendo a mais fiel à chamada tradição freudiana. Os textos que me ajudaram são aqueles do próprio Lacan, bem como livros de Franchise Dolto, Denis Vasse, Gerard Severin e Daniel Lagache. Eu não sou um especialista no campo da psicologia-psicanálise, portanto, quaisquer imprecisões, equívocos ou erros devem ser atribuídos à minha inadequação e não para minhas fontes. 

Como é que o sujeito humano é visto pela psicologia moderna? Em primeiro lugar, como uma realidade existencial distinta do ser biológico, não independente, mas no entanto outro - não idêntico ao indivíduo biológico. Se tentarmos apontar a distinção qualitativa básica entre o sujeito e o ser biológico, devemos empregar o termo «referencialidade»: a possibilidade de referência existencial. Uma criança vem ao mundo sem fala, imaginação ou julgamento. É equipado apenas com a capacidade de se referir. E o que é referido - a forma de referência - é um desejo primordial fundamental. A referencialidade do desejo - a referencialidade desejada - é a definição original da existência do sujeito. Eu desejo, logo existo: «Desidero é o cogito freudiano. É certamente lá [no desejo], que o aspecto essencial do procedimento preliminar da construção do sujeito ocorre» 

Na linguagem positivista do realismo psicanalítico, o desejo é difícil de definir. É a libido - o desejo erótico de um relacionamento pleno. O que cada ser humano procura, desde o momento da separação do útero, é o imediatismo e a plenitude de um relacionamento - coessentia. Não ser, em primeiro lugar, como um eu biológico e, então, ter relações, mas sim extrair a existência a partir da relação - a existir como um evento de relacionamento. 

A libido como desejo erótico por um relacionamento pleno é uma característica exclusivamente humana. Ela transcende o propósito biológico da reprodução e constitui, de acordo com Lacan, «instinto da vida pura, em outras palavras, a vida imortal, ilimitada, a vida sem necessidade de instrumento, uma vida que é simples e sem fim».  

O desejo pela vida é o desejo por um relacionamento pleno e a resposta ao desejo é apenas o potencial de um relacionamento. Mas em um sentido hipotético impreciso, o desejo pela vida é mediado, primeiramente, pelo desejo específico por alimento, que é um pré-requisito vital para sobrevivência biológica das crianças. Uma criança deseja uma relação vivificante coexistente com a comida, mas não meramente para satisfazer o instinto de autopreservação. Assim, uma criança psicologicamente anoréxica pode morrer por iniciativa própria, demonstrando que a sua «alma» é essencial para a existência - muito mais do que o mecanismo de regulação de suas funções biológicas.

O desejo vital da criança pelo alimento encontra sua primeira resposta potencial nos braços de sua mãe. Seu peito significa o potencial de resposta ao desejo vivificante; é o primeiro significante, o evento fundador da relação que constitui o sujeito. A aparência do significante é um pré-requisito para o relacionamento, a origem necessária para o «nascimento» do sujeito. O sujeito nasce uma vez que o significante aparece no campo do Outro - o potencial de resposta ao desejo emerge.  

O evento do relacionamento «engendra» o sujeito, fazendo preciso a referencialidade primordial do modo de existência, um modo que é expresso na fala. «Se o sujeito é definido pela linguagem e fala, isto significa que o sujeito, in initio, começa no espaço do Outro, desde que o primeiro significante apareça ali». 

Esta é a rejeição mais radical da percepção do sujeito como um ser ôntico, mas também da percepção do sujeito como um intelecto individual, como uma unidade com capacidade de raciocinar (animal rationale). Antes do pensamento está o desejo que constitui o sujeito e estabelece sua existência lógica. Qualquer nome que damos ao sujeito, ele é um evento erótico e por ser um evento erótico, é também uma existência lógica. O ímpeto erótico é realizado por meio da fala, e esta realização constitui o sujeito.

O sujeito nasce uma vez que o significante aparece no espaço do Outro. A aparência do significante concretiza o potencial de resposta ao desejo - faz dele «logos». Mas ao mesmo tempo a natureza «lógica» do significante concretiza o desejo como um requerimento lógico. O que significa o significante é o que ele diz na superfície. É o potencial para um relacionamento pleno, uma vida completa. E o significado potencial refere-se ao sujeito concreto - é a resposta lógica ao desejo primordial do sujeito, a referencialidade mútua que constitui o desejo como  «requerimento logos-lógico». 

É a referencialidade mútua que compreende o sujeito enquanto um evento existencial de uma relação, como uma existência lógica, como uma existência capaz de incorporar a razão coletiva da sociedade humana. 

O primeiro significante pode ser o seio da mãe, porque este relacionamento pleno para o qual o desejo primordial é dirigido não é abstrato. Pelo contrário, é uma relação de comunhão com o alimento - um relacionamento real sobre o qual a vida depende. No entanto, receber alimentos não esgota o desejo; o desejo não aspira apenas à sobrevivência biológica, mas a uma vida sem limites, uma vida imortal. «Se receber alimento não está associado com a experiência de uma presença que se mantém ou desaparece sem deixar de ser significada, se o Outro do desejo não é mediado pela presença e ausência alternada do provedor de alimentos, a criança nunca entrará no mundo da humanidade, no mundo da linguagem e símbolos».  

Assim, o agente central e decisivo no estabelecimento e na constituição do sujeito não é o primeiro significante, mas o último significado, para o qual o desejo primordial por um relacionamento pleno,  sempre incompleto, é direcionando. O significante da resposta ao desejo sempre emerge no espaço do Outro, e este emergir estabelece o sujeito lógico. No entanto, o Outro permanece sempre o transcendente objetivo de um relacionamento pleno, da vida imortal. É por isso que Lacan - sem intenções metafísicas e com apenas o realismo da experiência clínica - sempre escreve o Outro transcendente com «O» maiúsculo. O sujeito nasce no espaço do Outro, não há sujeito humano, exceto como uma resposta ao desejo de uma relação plena com o Outro transcendente que convida o sujeito à existência.

No curso da vida individual transitória, o Outro é mediado através do peito da mãe, através da presença ou ausência da mãe, através dos alimentos, através do afeto, através da linguagem da comunicação, através da intervenção da imagem do pai - intervenção que «socializa» a relação vivificante com a mãe e constrói a consciência do ego como um Terceiro autônomo.

O Outro é mediado, uma vez que a maturidade é alcançada, pelo corpo desejando a co-essencialidade erótica, pela surpresa da alteridade familiar dos filhos e descendentes - uma surpresa que liberta o corpo da individualidade espaço-temporal. O Outro é também diversamente mediado pela autoridade da lei, pela beleza erótica da natureza, pela dinâmica ilimitada dos significantes do relacionamento.

O sujeito é processado como um evento existencial em virtude do desejo vivificante por uma relação plena com o Outro transcendente. E o desejo é mantido como um referente existencial porque o espaço do Outro nunca é definido em uma presença dada, mas é um espaço de presença-ausência por parte de um significado multifacetado. Mesmo os significantes mediadores referem-se apenas à presença-ausência de resposta ao desejo que dá vida: se a presença da mãe fosse permanente, contínua e possuída pela criança (se a mãe segurasse o bebê constantemente em seus braços, oferecendo o peito), a criança nunca seria constituído como um sujeito lógico. O significante do desejo não emergiria no espaço da mãe e, portanto, não haveria construção.

Se o Outro que atraí um relacionamento lógico, o Outro do telos desejado do relacionamento, fosse dado e definitivamente possuído em uma presença newtoniana, seria impossível que os significantes atraídos e os significantes do relacionamento emergissem, não haveria nenhuma existência humana lógica. Se Deus não fosse uma presença-ausência, não haveria nenhum ser humano lógico. A distância real entre a física e a metafísica, a recusa de Deus de ser subordinado em certezas definitivas, é o pressuposto existencial do sujeito lógico.

O homem entra no mundo como portador de desejos, o desejo por uma vida eterna e plena. E para o desejo humano, a vida plena é a realização do relacionamento, a comunhão erótica. Por esta razão, a resposta potencial ao desejo - os significantes da realização do desejo - emerge apenas no espaço do Outro. Os potenciais são sempre transitórios e fragmentados em comparação com o desejado relacionamento pleno. Eles não deixam de ser significados como potenciais para o relacionamento. Os significantes do relacionamento são os elementos primários do logos. A aparência dos significantes engendra o sujeito, constituem-no como uma existência lógica. O sujeito existe no modo do logos, no modo de referencialidade. A referencialidade lógica é articulada e construída através da sintaxe linguística e do simbolismo.

A referencialidade lógica é uma de desejo, mas o desejo nunca se esgota com o significado de significantes transitórios e fragmentados. A concretização do desejo na procura não esgota a referencialidade desejada do sujeito. Há sempre uma parte restante do desejo, uma tendência de procurar qualquer relacionamento, mais uma vez, como desejo.

Esta parte restante é designada pela lógica - em outras palavras, a referencialidade do desejo: é um substrato de desejo que preserva o modo do logos, o modo ou a estrutura da fala. É o inconsciente. Por «inconsciente», queremos dizer o que permanece como desejo (no modo do logos, no modo da fala) quando a referencialidade do desejo foi concretizada na procura através do significante.

O inconsciente é construido a partir das consequências dos significantes, isto é, a partir das consequências do fato de que o significante expressa o desejo que foi concretizado como requerimento, sem esgotar a referencialidade do desejo. O desejo permanece o substrato universal de todos os significados procurados, um substrato que é em si mesmo referencial (refere-se a realização transcendente, que é o objeto do desejo).

A principal contribuição de Lacan para a ciência psicanalítica é resumida neste aforismo: "O inconsciente é estruturado como linguagens". Esta conclusão afirma em primeiro lugar o caráter referencial do substrato inconsciente da subjetividade. Afirma tanto o modo referencial em que o inconsciente é construído como também afirma seu referencial, o que poderíamos chamar o conteúdo (ou resto) do inconsciente. Assim, tanto a estrutura como aquilo que é construído são homólogos à linguagem: a linguagem é a soma total de significantes e a composição dos significantes. A linguagem é o modo de referência e de relacionamento.

O inconsciente é estruturado como linguagem, porque é um «resto» ou «substrato» do desejo, e o desejo é referido apenas pelo o Logos, a articulação lógica, a estrutura da linguagem. O inconsciente é a distância insondável - no entanto real - entre a realização sempre deficiente do desejo e a realização desejada de co-essencialidade erótica com o Outro transcendente. O próprio inconsciente continua a ser um desejo articulado pelo logos, revelando a lógica básica e primária de referência que torna o sujeito um sujeito.

O modo pelo qual o inconsciente emerge (através do método psicanalítico) expressa a natureza referencial da constituição do sujeito em todos os níveis. Assumimos algum núcleo da subjetividade, mesmo que inconsciente, que, no entanto, é expressada e referida apenas através do modo do logos.

O «núcleo» hipostático da subjetividade não pode ser classificado através de uma concepção intelectual, porque é, simultaneamente, objetivado e possuído pelo sujeito, não identificado com ele. Qual , então, é a alternativa para a concepção intelectual quando se trata da autodeterminação do sujeito? Lacan responde: «O ser do sujeito, aquilo que está situado sob a concepção intelectual».

No entanto, se a noção objetifica o ser, deixando de fora «aquilo que está sob a concepção intelectual», a escolha do ser enquanto auto-definição do núcleo da subjetividade é perdida na definibilidade da não-concepção. «Seja qual for a escolha, a consequência é nem uma coisa nem a outra. Ao escolhermos o ser, o sujeito desaparece, foge de nós, e caindo de novo na não-concepção. Nós escolhemos a concepção e a concepção sobrevive mutilada por essa parte da não-concepção que é, claramente,  aquilo que estabelece o inconsciente em virtude da realização do sujeito».

Nem a concepção nem o ser. Existe uma terceira opção em relação à auto-definição do sujeito? A Igreja responde: «Meu princípio e minha hipóstase tem sido o seu comando criativo». O núcleo, ou a hipóstase do sujeito, é a convocação de não-ser para o ser. E a hipóstase é pessoal, quando Deus chama os seres do não-ser, seres capazes de relacionamento lógico/comunhão com Ele. A vontade de Deus em comungar Sua existência Incriada com a existência pessoal criativa é uma vontade ativa, é uma obra, e a obra de Deus é Seu verbo: «No caso de Deus, a obra é logos». 

O ser humano é uma existência pessoal, porque o chamado criativo de Deus pressupõe a pessoa como uma resposta hipostática para este chamado. Em outras palavras, como potencialidade existencial para um relacionamento com Deus, como liberdade para afirmar ou rejeitar a comunhão existencial com Ele.  A convocação «cria» as hipóstases, atribuindo identidade real para as potenciais existenciais como consequência do chamado: hipostasia não somente o criativo, mas também a dinâmica atraente da convocação, a potencialidade da relação.

A convocação de Deus pressupõe a resposta humana não simplesmente como uma expressão da vontade, mas como um modo de ser, como um evento existencial. Assim, a referencialidade do relacionamento, o modo do logos, não é um dos «atributos» ou «capacidades» do sujeito, mas a potencialidade condicional do estabelecimento e construção do sujeito.

Portanto, a terminologia psicanalítica permite-nos reafirmar a definição eclesiástica da pessoa humana: o ser humano é uma existência pessoal porque é estabelecido, construído e age como um evento de relacionamento. Não é simplesmente colocado, como todo ser biológico é, na trama de inter-relações e inter-ligações de trocas de energias que compõem a biosfera. Em vez disso, a sua própria existência é uma realização dinâmica de relacionamentos, o ímpeto de desejo por um relacionamento existencial pleno.

A pessoa humana nasce no espaço de Deus. O ímpeto de desejo por um relacionamento pleno com Ele é o Seu chamado que dá vida, que estabelece e constrói a pessoa humana como um evento existencial de referência erótica. A relação entre o ser humano e Deus não é uma decisão intelectual ou uma tentativa ética consciente. É um evento do modo pessoal de existência, um modo de existência que engloba as manifestações conscientes e inconscientes de Sua existência. Por esta razão, a Igreja rejeita a moralidade (que pertence somente a vontade consciente) e insiste na ascese (que aspira o modo total de existência, consciente e inconsciente). Não é a vontade lógica e consciente que informa o evento existencial do relacionamento. É o relacionamento que constrói o logos, e não o logos o relacionamento. O modo do relacionamento molda a consciência e também o inconsciente do sujeito. 

Se a pessoa humana é a resposta hipostática ao chamado divino para um relacionamento, se ela deve sua origem existencial a energia de convocação do Incriado, então seu caráter pessoal repousa sobre a liberdade de realizar ou rejeitar a existência enquanto uma relação mútua, enquanto uma comunhão amorosa do ser. Se a pessoa humana só passa a existir graças à energia do chamado de Deus, que é somente amorosa, e se a resposta existencial para o chamado não é uma afirmação, mas uma negação, então, podemos tirar duas conclusões: ou a livre negação do criado nega e anula a energia amorosa do Incriado, ou a energia do chamado Incriado, que é atemporal, torna a negação existencial do criado também atemporal.

A segunda possibilidade refere-se ao absoluto do amor, que respeita a liberdade, mesmo se a liberdade hipostiza a negação da reciprocidade amorosa. Tal negação significa um corte, uma mutilação, uma diminuição de potencialidades existenciais de desejo, potencialidades de ser enquanto relacionamentos plenos e amorosos. Neste caso não deriva de uma «graça» deficiente (dom da energia do chamado vivificante de Deus), mas de uma livre negação do recipiente em hipostatizar a graça como um evento existencial de relação. E, assim, o rompimento do desejo em objetivos egocêntricos narcisistas é somente auto-punição: a tortura de uma existência que ativamente nega a si mesmo, sem, no entanto, ser capaz de anular sua composição hipostática.

Outra contribuição fundamental da psicologia-psicanálise moderna para o debate teológico é que essa ilumina a auto-tortura do egocentrismo narcisista com a linguagem realista da experiência clínica a respeito da neurose e psicose.
Christos Yannaras


domingo, 13 de março de 2016

René Girard e o Politicamente Correto (por Thomas F. Bertonneau)

Pessoas conscientes chamam o Pós-modernismo de Segunda Realidade, mas também é possível enxergá-lo como uma recorrência evidente à práxis pré-Cristã, que acontece com qualquer comunidade que pensa que pode transcender o bem e o mal, como conhecidos no Evangelho. Desprezando o Evangelho, a esquerda afirma que a utopia é inevitável - assim que os agentes-bloqueadores forem liquidados. O que a esquerda faz é uma inevitável crise sacrificial global, uma vez que os freios restantes dessa crise seja liquidados. Já que o Cristianismo fornece os freios, a liquidação do Cristianismo - o objetivo da desconstrução - garante o inevitável. É, na terminologia de Girard, o "eterno retorno da religião sacrificial." 

Os agentes do politicamente correto e da justiça social nunca se vêem como perseguidores. Eles estão profundamente enredados nas amarras do fecho ritual e da projeção psicológica. Quanto mais eles anatemizam a Revelação, mas profundamente enredados se tornam. Girard aborda novamente o problema em When These Things Begin (2014).  Ele escreve: "A cristalização das tensões do grupo à custa de uma vítima é um processo inconsciente." Um pouco mais tarde ele segue observando que "tornar-se Cristão é, fundamentalmente, perceber que não é apenas as outras pessoas que possuem bodes expiatórios", e lembra seus leitores "que os dois maiores Cristãos, Pedro e Paulo, foram dois perseguidores convertidos", que, "antes de sua conversão... pensaram que não tinham nenhum bode expiatório."  Uma vez que a mentalidade moderna rejeita a religião como algo essencialmente não sério - não esquecendo que retoricamente exaltam qualquer religião exceto o Cristianismo por sua singularidade enriquecedora - tendem a ver rituais como demonstrações folclóricas. "Rituais não só são, como as vezes afirmam, meras pantomimas de reconciliação, uma espécie de 'acontecimento' inofensivo pelo qual os membros do grupo reforçam seus sentimentos de pertencimento". No caso dos rituais, Girard argumenta, "estamos falando sobre a cultura humana naquilo mais forte e poderoso". O Cristianismo, para Girard, é uma massiva dispensa de de-ritualização: "O Cristianismo nos ensina que o mecanismo essencial da condição humana é baseada numa mentira, uma espécie de mentira que é incompreensível por aquilo que os filósofos chamam de o 'encerramento da representação'." 






Depois dos massacres em Paris em novembro de 2015, ou em qualquer perpetração semelhante, os porta-vozes do establishment ocidental disputaram para deturpar o caráter e a causalidade do evento - isso que Girard entende por "a mentira". Claro, uma necessidade apavorada para fazer um evento incompreensível indica que, para aqueles que deliberadamente tentam isso, seja, em verdade, bem compreensível. Este tipo de obscurantismo anti-intelectual só esteve disponível desde a pontuação histórica do Evangelho, mas surgiu em plena articulação muito recentemente, pertencente aos últimos duzentos anos e atingindo uma intensidade nas últimas décadas. Os Cristãos medievais perseguiram abertamente os judeus sem qualquer moral distorcida; eles não sentiam necessidade de uma retórica justificadora além da acusação mítica que os judeus tinham causado a peste por envenenar os poços.  Os esquerdistas precisam de vítimas, mas não querem ser identificados como algozes;  nem pensam em si mesmo como, ou desejam serem visto, sob disfarce religioso. Sob a rubrica de desconstrução os esquerdistas realizam rituais retóricos previsíveis para justificar os rituais práticos efetuados pelos seus proxies virtuais. O fato de que os esquerdistas sabem que seu empreendimento camuflador não é suficiente apenas redobra seu pânico. 

Girard afirma que: "A nossa era já vive ou se prepara para sobreviver o colapso das três tentativas mais poderosas para substituir a religião." O Nacional Socialismo era uma tentativa nesse sentido; O marxismo foi a segunda. "Um terceiro colapso se aproxima", Girard afirma; ele é "o colapso das democracias capitalistas, o que seria o fracasso do cientificismo, das nossas tentativas de amenizar os problemas da humanidade com uma falsa objetividade, uma espécie de higiene física e mental, ao modo do 'capitalismo selvagem' e da psicanálise." Girard tem um estilo casual, mas ele sempre escolhe as palavras com cuidado. Sua caracterização da modernidade como um regime de "higiene" tem uma conexão com sua caracterização dos pogrons anti-judaicos medievais na Idade Média em The Scapegoat como tentativa de buscar termos pseudo-racionais para justificar um ato que está lentamente se tornando perceptivamente grotesco. Ao comentar sobre o relato de Guillaume de Machaut do século XV, sobre a peste e perseguições, Girard comenta que é um romance foi fabricado, baseado nos Gregos, "épidymie" de Guillaume. A expulsão dos judeus das aldeias francesas, como a expulsão de Édipo de Tebas, purificou a comunidade de sua aflição. Os esquerdistas pensam que ainda podem realizar a utopia da igualdade, expulsando todo o pensamento dissidente - e essa é a razão pela qual eles começam a sacrificar os seus próprios.  

O esquerdismo pode ser muito bem um "Cristianismo desviado", afirma Girard. Portanto, "mesmo se a instituição do Cristianismo foi, em uma escala local, o instrumento ou instigador das caças às bruxas, o Cristianismo é o verdadeiro destruidor de tais práticas, pois faz seres humanos conscientes da natureza arbitrária da bola de neve persecutória que conduz à violência." Um "Cristianismo desviado" é, no entanto, um Cristianismo parcial, tomando um único elemento, inflando-o à supremacia, e abolindo todos os outros. O esquerdismo leva a frase teológica "os últimos serão os primeiros" como a única frase em funcionamento em todo o Evangelho, descontextualizando-a e fazendo dela uma agenda de retificação baseada no ressentimento. O esquerdismo, dessa forma, toma para si um motivo Cristão - que somente possui sentido relação com os outros motivos Cristãos - para encenar uma paródia agonizante de retidão moral. O esquerdismo é cultura-em-dissolução tentando desesperadamente se reconstituir, enquanto luta loucamente para criar um novo mito de fundação. Ao descrever a maneira pela qual a crise sacrificial original resolveu-se espontaneamente na imolação da vítima, Girard descreve perfeitamente o regime contemporâneo do politicamente correto. O politicamente correto sacraliza seus inimigos-vítimas. 

Em When These Things Begin Girard diz para Michel Treguer que "a sacralização transforma a vítima em modelo de uma imitação e contra-imitação estritamente religiosa." Onde a mentalidade esquerdista vê o "alien" interno - a presença intolerável do "racista", "sexista", "homofóbico" ou "islamofóbico" - como um algoz ímpio e portanto, também, como o instigador da crise geral, ela responde, em primeiro lugar, anatematizando tudo o que pertence ao Gestalt da vítima. No âmbito do sagrado, Girard explica, "todos... tomam cuidado para não imitar o que a vítima fez, ou apareceu fazer, para desencadear a crise... o grupo se divide e separa seus membros por meios de tabus." Os inúmeros códigos de anti-racismo, anti-sexismo, e todos outros, exemplificam o ethos da "contra-imitação". Ao regularizar os tabus naquilo que consideram externos ao que é "correto", os esquerdistas se esforçam para ter à mão uma quantidade de vítimas prontas, que possam ser colocados na praça da cidade no momento. 


De que maneira, entretanto, os defensores e praticantes do politicamento correto imitam suas vítimas? Aqui a ideia de "privilégio" entra em jogo. O inimigo alienígena possui um "privilégio" de forma ilegítima. O item, portanto, está fora das categorias morais; sua posse só é moral por um possuidor injuriado. Qualquer pessoa justa, assim, pode ter tal posse. Uma apropriação justa, de fato, redime a possessão. Neste esquema, Pedro pode ser demitido de seu cargo de autoridade por ter transgredido um tabu, enquanto João, que pertence ao lado justo da fronteira moral, pode alegremente assumir o escritório de Pedro, adquirindo e santificando a autoridade anteriormente abusada de Pedro. Não surpreende que o politicamente correto tem se mostrado extremamente eficaz, o que impulsa a sua intensificação de restrições, quando o número de prêmios atrativos prováveis diminui.  O mais recente dispositivo do politicamente correto alcança o nível da aldeia medieval da Sicília, onde a viúva enrugada, com uma verruga no nariz, pode ser linchada com impunidade. Uma "microagressão", que a esquerda agora descreve como um verdadeiro épidymie, é o malocchio ou "mau olhado" que qualquer "desconforto" imaginado pode ser atribuído por qualquer atribuidor prejudicado, com consequências devastadoras para o lado do atribuído. Os reivindicadores da ofensa pelo malocchio tem certeza que inúmeros indivíduos imediatamente imitarão sua postura "ofendida". Uma vez que a totalidade do ethos pós-Cristão é um retorno não apenas para ao comportamento pré-Cristão mas para modelos pré-Pagãos, ninguém deveria ficar chocado com a re-invenção da casualidade mágica pré-histórica pelo esquerdismo.