sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Criação e a Sexualidade. A Espécie e a Personalidade (Por Nikolai Berdiaev)

A vida sexual neste mundo está viciada e corrompida nas suas raízes mais profundas. A sede de reunificação, de ser UM, que atormenta o homem preso ao desejo, é uma sede que não pode ser satisfeita. O ato sexual em particular, diferenciado, aparece como resultado de uma fragmentação original, é sinal do homem que perdeu sua unidade: isso é suficiente para tornar o ato irremediavelmente trágico e ineficaz. O ato sexual representa a tentativa extrema de duas correntes saídas de polos contrários se unificarem e absorverem uma na outra  sem sair delas mesmas. Chegam a se confundir? Certamente, não. Há algo que testemunha contra o ato sexual, e que carrega em si mesmo sua própria profanação, o germe da desintegração, esse transtorno licencioso que é exatamente o oposto do princípio da unidade. A união pelo ato sexual não é mais que ilusória, e esta ilusão tem que ser paga. Pelo fato dessa união ser temporária, estando na ordem natural das coisas, onde tudo é instantâneo e perecível, o sexo carrega o germe da morte. A ilusão fugaz do ato sexual é sempre acompanhada por uma reação, uma volta atrás, uma desunião. A desunião depois do ato sexual é mais completa que antes. Um tipo de isolamento doentio contamina o êxtase do abraço. O ato sexual, segundo seu significado místico, teria que ser eterno, e a união que ele encarna deveria aprofundar indefinidamente, as duas carnes deveriam se fundir em uma só, penetrar uma a outra até o extremo. Em vez disso, se cumpre o ato de uma união passageira, muito temporal e muito superficial. A reunião passageira se paga com uma divisão mais profunda. Dessa forma, a união no ato sexual se manifesta sempre  limitada. A união dos sexos em um sentido místico deveria significar a penetração de cada célula de uma criatura na célula de outra, a fusão total de uma carne na outra carne, de todo espírito no outro espírito. Em vez disso, se cumpre um ajuste superficial, incompleto, fragmentário, a carne permanece separada da outra carne, e o ato sexual diferenciado, isolado, guarda em si algo de defeituoso e mórbido. A união dos sexos teria que ser eterna, não deveria ser abreviada e nem ser acompanhada por uma volta atrás; deveria comunicar-se e expandir-se em toda a prisão onde a criatura está encerrada, teria que ser profunda e infinita. Em vez disso, o ato sexual na ordem da natureza, coloca o homem sob o infinito absurdo da corrente sexual que não conhece mitigação e prazos. Assim, a fonte de vida neste mundo está corrompida em sua base, e aparece como a fonte da escravidão humana. O ato sexual é interiormente contrário e oposto ao espírito do mundo: a vida natural do sexo é sempre trágica e inimiga da personalidade. Esta personalidade é apenas um brinquedo para o gênio da espécie, e a ironia do gênio da espécie acompanha o ato sexual. Sobre isso, tanto Schopenhauer como Darwin podem dar testemunho. O ato sexual é profundamente impessoal, é geral e idêntico, não só nos humanos como também para outros seres vivos. O ato sexual não somente não possui algo de pessoal ou individual, mas também não tem nada especificamente humano. A personalidade está sempre ali sob o poder de uma corrente geradora obscura, que relaciona o mundo humano com o mundo animal. A edificação mística de uma união pessoal em uma carne não pode ser alcançada e realizada em um elemento impessoal. E a tragédia sem solução do sexo é que a sede de uma união pessoal arrasta o homem para a corrente genética da natureza, levando-a, através do ato sexual, não a uma união pessoal, mas a uma concepção, a uma destruição da personalidade na geração, a um infinito maligno e não a uma eternidade.  Nesta vida sexual em busca do prazer e satisfação do desejo, o que prevalece não é uma edificação pessoal, mas sim o interesse da espécie, a continuação da espécie. O pessoal não pode realizar-se através do impessoal. O ato sexual corresponde sempre ao desmoronamento da personalidade e sua dissolução.



Não é, portanto, a imortalidade e a eternidade o que se espera a pessoa no ato sexual, mas sua dispersão em uma pluralidade de novas vidas por vir. O ato sexual afirma um infinito maligno, uma alternância infinita do nascimento e da morte. O que nasceu morre e engendra o que morrerá. O engendrar é sempre um sinal de fracasso da perfeição pessoal, da não adesão a eternidade. O que concebe e o que tem que nascer são princípios igualmente fugitivos. A concepção é de uma só vez o castigo do ato sexual e a redenção de seu pecado: e assim, o nascimento e a morte estão misteriosamente ligados na sexualidade. Pois a sexualidade não é somente a fonte de vida, mas também a fonte da morte. Se nasce e morre por ela. A corrupção e a decadência mortal entraram no mundo pelo caminho da sexualidade. Foi com ela que a personalidade começou a decrescer, a se desprender da eternidade. A sexualidade afunda o homem nessa categoria perecível da natureza na qual reina a alternância infinita de nascimento e morte. O que é mortal engendra e o que é mortal morre. A lei do karma e da evolução infinita da reincarnação que ensina a concepção religiosa da Índia é, na verdade, essa necessidade da morte e o nascimento, ligados ao pecado da sexualidade. A liberdade benfeitora do cristianismo substituiu as consequências obrigatórias da lei do karma. Há um antagonismo profundo entre a vida eterna e perfeita da personalidade e o nascimento de vidas mortais no tempo, entre a perspectiva da personalidade e a perspectiva da espécie. A espécie é a fonte da morte da personalidade, a fonte de vida geradora. Os gregos já sabiam que Hades e Dionísio eram apenas um só deus, sentiam a ligação mística entre a morte e a geração.  A isso se deve que no próprio ato sexual, na união sexual, se oculta uma tristeza mortal. Na vida geradora do sexo se dissimula o pressentimento da morte. O que dá a vida leva consigo a morte. A alegria da união sexual é sempre uma alegria envenenada. E este veneno mortal encerrado na vida sexual sempre foi percebido como um pecado. O ato sexual sempre envolve a tristeza das esperanças dissipadas da personalidade, a passagem do eterno ao temporal. Na união pessoal aqui embaixo sempre há algo que morre. O ato sexual se cumpre na corrente da espécie, fora da personalidade. O instinto sexual, apoderando-se do homem, submete a personalidade eterna à forças passageiras. A sua queda, sua dispersão em uma pluraridade maligna está inscrita antecipadamente na vida das espécies. Nada específico poderia levar a exaltação da pessoa, da eternidade perfeita. A corrente da espécie nasceu da queda e da desintegração do homem. A dissociação eterna do mundo caído e culpável tem como face oposta a reunião artificial dentro da espécie. A espécie humana é uma pseudo-humanidade, que testemunha a dissociação humana. Nela, a própria natureza do homem se encontra escravizada e sufocada. O gênio da espécie é o principal obstáculo para a revelação da humanidade, para a revelação da natureza criadora do homem.  A espécie é uma necessidade maligna, a fonte de escravização do homem e sua desintegração. O vínculo entre o homem e o espírito se transforma em um vínculo específico com a carne e o sangue. Os seres não estão mais unidos pela filiação da Virgem, do eterno feminino no Espírito, mas somente pela engendração, pelo ato sexual. O vínculo da espécie humana, o vínculo sexual, supõe este ato, que os homens se envergonham por ser impuro. As pessoa costumam esconder a fonte de seu vínculo e união com a espécie. A religião da espécie humana terminaria, então, por glorificar e deificar aquilo que os homem escondem e se envergonham. O vínculo da carne e do sangue é o vínculo pelo ato sexual, o vínculo forjado por ele. A grande e a imensa significação de Rosanov reside na sua imposição ao conhecimento religioso esta verdade e tudo que deriva dela.


A liberação da personalidade sobre o ato sexual é a liberação em respeito a espécie, a ruptura do vínculo da espécie em nome do vínculo pelo espírito, a saída do universo maligno do nascimento e morte. A espécie e a personalidade são profundamente antinomicas, seus princípios são mutuamente excludentes.  Tudo que é pessoal no homem é inimigo da sexualidade específica. Só na personalidade, a energia da sexualidade, pode chegar ao seu grau mais elevado; não existe uma personalidade forte sem essa energia, mas sua tendência não deve estar direcionada para a espécie, tem que se opor a queda em uma pluralidade maligna. A personalidade se conhece e se realiza fora do elemento da espécie. Não poderia vencer a morte e adquirir a eternidade no terreno do vínculo da espécie. É preciso nascer uma humanidade nova. A relação entre os pais e os filhos é biológica-zoológica. No que lhe diz respeito, o homem é aceitavelmente semelhante a uma galinha ou cão. Mas a relação dos pais com os filhos pode ser mística. É possível contrariar a ordem da natureza, trocar a espécie pelo espírito. Falo aqui de uma relação ativa entre as gerações e não uma obediência servil ao passado, que nada mais é que uma escravidão genética. O homem se sente culpado pela morte de seus pais e seus antepassados, deve reviver-los. Mas essa reavivação não pode ser feita a não ser mediante ao espírito, fora da espécie. A continuidade místico-ativa entre o homem e seus ancestrais transforma a relação de vínculo de espécie em vínculo espiritual, de vínculo mortal em vínculo imortal. No centro de sua concepção religiosa, Fedorov havia situado esta ideia de reavivamento de seus antepassados mortos. Neste reavivamento (não uma ressurreição) viu a essência do cristianismo. Mas as concepções de Fedorov são afetadas por uma divisão inexplicável. Por uma parte, torna-se corajosamente para frente, exorta o homem a atividade criadora e acredita que tem o pode em suas mãos de reviver os mortos mediante suas forças ativas. Mas, por outro lado, Fedorov segue sendo um conservador, e esta mesma atividade criadora, em vez de direciona-la para o futuro, para uma edificação nova, quer fazê-la servir para restaurar forças antigas. Fedorov é um revolucionário dentro da corrente da espécie, mas caí ainda mais dentro da corrente. No fundo, sua religião é uma religião da espécie. Reforça o vínculo que liga o ser com a espécie, da carne com o sangue, e não com o espírito. Portanto, para ele, os mortos tem que reviver pela espécie e não pelo espírito. E suas visões geniais sobre a espécie tem um sabor específico. Previu genialmente na Santíssima Trindade a forma de toda geração, mas em vez de ver ali somente uma geração essencialmente espiritual, parece não ter entendido vendo apenas a geração da espécie. Na vida da espéice, a morte é inevitável. Somente pelo espírito se pode vencer a morte, ressuscitar os mortos. O primeiro nascimento, na espécie, não é o nascimento autêntico do homem. Apenas o segundo nascimento, o nascimento no espírito, que falavam os místicos, que constituem para o homem o nascimento definitivo. Mas o caminho transitório da espécie teria que ser percorrido pela humanidade.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mortificação, Depressão e Noite Escura da Alma (Por Charles Upton)

A ciência e a arte da alquimia ensinam que a alma propriamente humana não pode ser forjada sem o colapso da alma subumana do "homem natural" - em termos Sufis a nafs al-ammara - sem o afrouxamento de sua aderência sobre as faculdades humanas para que elas possam ser conformadas, não às paixões subconscientes, mas ao Espírito consciente; isto é equivalente, embora num nível mais circunscrito e essencialmente psicofísico, a doutrina Sufi de fan (aniquilação do ego) e baqa (subsistência em Deus). Se colheita da humanidade integral deve ser semeada, cultivada e colhida, o solo da alma deve ser primeiramente limpo, lavrado e arado; sua resistência à fertilidade espiritual deve ser quebrada.

As três fases fundamentais da Grande Obra alquímica são a melanose ("enegrecimento", mortificação espiritual, simbolizada pelo metal chumbo), a leucose ("branqueamento", receptividade espiritual, simbolizada pela preta) e a iosis ("avermelhamento", realização espiritual, simbolizada pelo ouro); em termos clássicos do caminho místico, estes correspondem a Purgação, a Iluminação e a União. Nada pode ser realizado no Caminho Espiritual sem a mortificação do ego; aquelas "espiritualidades" que dão acesso a estados psíquicos aparentemente exaltados sem requerer, ou mesmo pedir, pela morte do velho eu são enganadoras, possivelmente até mesmo Satânicas: o duas vezes nascido precisa antes morrer.

Às vezes, essa mortificação, essa melanose, pode ser deliberadamente produzida através de um asceticismo e auto mortificação (embora, na ausência da Graça, tal asceticismo geralmente não é nada mais que um egoísmo espiritual, um exercício da própria vontade); em outros momentos ele está diretamente infundido pela Providência. As dificuldades e as tragédias da vida - em presença de uma verdadeira doutrina espiritual, com a Graça de Deus, e com as habilidades necessárias - podem ser transformadas para fins de uma purificação espiritual; este é o método mais profundo e mais radical de transmutar tragédia pessoal em uma grande felicidade. Mas, em outros momentos, as travas virão sobre a alma, sem motivo aparente. Deus simplesmente decide retirar Seu apoio, para que a alma afunde no mundo de natureza material, governado pelas paixões, para assim chamá-la para algo mais elevado. O Profeta Elias foge para o deserto para escapar o tirânico e idólatra Rei Ahab (o ego), onde ele é alimentado pelos corvos (a sabedoria escura de Deus); Jó, devido a aposta de Satã com Yavé, perde tudo que ele tinha - riqueza, saúde e a família - e sofre uma verdadeira metanóia, encontra Deus face-a-face, e é finalmente presenteado com uma nova vida muito maior que sua antiga, pois agora está enriquecido pela Sabedoria. E também há alguma verdade na noção de que a vulgaridade, o caos e o terror da vida moderna podem, por si só, agir como uma espécie de mortificação - se, claro, nós evitarmos a tentação de fugir dela adotando paixões muito tóxicas e distrações que nos oferecem, e assim poderemos enxergá-los como realmente são.

A pisque humana não foi projetada para ser autossuficiente; ela foi projetada para refletir, e conformar-se, à luz do Espírito. Se ela não conscientemente conformar-se ao chamado do Espírito, ela será tomada pela matéria, por um materialismo frio e por um peso de chumbo que destrói todas as esperanças. E nós geralmente não estamos dispostos a sacrificar nosso apego ao nível psíquico até que tal peso de chumbo ameace transformar nossa alma em um sepulcro preenchido por morte e corrupção.

A psique não "quer" que sejamos conscientes desse peso e paralisia, mesmo se já estivermos imersos nele; é por isso que a psique segrega vários glamoures ilusórios, de modo a esconder de nós a nossa condição real, e é por isso a psique coletiva (com ajuda dos engenheiros sociais) cria sua fantástica "cultura de entretenimento" preenchido com "armas de distração em massa". O glamour psíquico nem sempre é totalmente ilusório, no entanto; às vezes participa de vidya-maya ("sabedoria-aparência"), bem como avidya-maya ("ignorância-aparência") -  quero dizer que as realidades físicas e sociais, bem como as espirituais, às vezes, inicialmente, aparecem para nós em uma forma simbólica dramatizada no palco da psique; se não fosse assim, não poderíamos obter qualquer insight psicológico ou metafísico de sonhos. Mas, assim como o alcoólatra só aumenta sua secura por beber, da mesma maneira aquele que sobre o glamour da psique permanece por mais tempo que o designado encontrará só chumbo e cinzas de chumbo.

De acordo com um provérbio dos alquimistas, citado aqui na versão de William Blake, "tudo o que pode ser destruído deve ser destruído!". O glamour psíquico é um tipo de hemorragia, como aquela produzida por álcool ou cocaína ou drogas psicodélicas. Achamos que estamos no meio de toda a riqueza da vida, então despertamos e encontrar-nos deitado em uma poça de nosso próprio sangue. Este tipo de hemorragia, se sobrevivermos, pode (se Deus quiser) agir para queimar e esgotar nosso apego ao glamour psíquico. Se assim for, será sucedido por uma verdadeira mortificação, uma verdadeira melanose, em que, sem dúvida, perdemos nossa vida, mas perdemos por amor a Ele. (A representação estritamente precisa e cinematográfica do estágio da melanose - bem como a leucose e talvez o início de iosis - pode ser encontrada no filme de Robert Duvall, Tender Mercies.)

Uma das primeiras etapas do processo alquímico, então, é queimar tudo que é combustível, reduzir tudo que pudermos - tudo aquilo que não está ligado aos Princípios eternos, aquilo que está envolvido com o ego, e, portanto, intrinsecamente mortal - a cinzas, nas famosas palavras do poeta e padre John Donne: "Morte, morrerás!". O fogo é o fogo do Espírito, e as cinzas - a substancia que foi despojada de tudo que é limitada no tempo, contingente e perecível - são a matéria prima, que em um nível não é nada menos do que o polo passivo da Natureza Divina, a Substancia imperecível de Deus que está eternamente formada e impressa pelo eterno Ato de Deus. (A descoberta da substancia divina é a leucose; a formação e a imprimação dessa Substancia pelo Ato Divino, iosis). Nascemos com milhões de tendências psíquicas herdadas, apenas algumas podem ser trazidas para o campo magnético do Espírito por um esforço consciente. O resto, aquelas que são centrífugas em vez de centrípetas, aquelas que querem se dissipar em fuga de Deus em vez de retornar a sua Origem, deve ser queimado no fogo de suas próprias paixões (que é a face escura e secreta do Espírito) até que tudo seja reduzido a cinzas.

O tempo de cinzas é o tempo de mortificação da própria vontade, o estágio que São João da Cruz chamou de "a noite escura da alma". Pode parecer, de certa forma, como uma depressão clínica, ou até mesmo acompanhado por uma depressão, mas os dois não são a mesma coisa. Em uma depressão nos odiamos nós mesmos, lutamos contra nós mesmos; não podemos evitar que nossos conflitos psíquicos não resolvidos sobrecarreguem e nos deixe amargurado. A noite escura da alma, por outro lado, acontece somente com aqueles que estão em um Caminho espiritual sério. O consolo espiritual, a doçura e a luz dos estágios anteriores do Caminho simplesmente desaparecem. Nenhuma de nossas orações ou práticas meditativas "funcionam" mais, e nós ficamos cara-a-cara com um grande vazio. De forma secundária, nós podemos ficar deprimidos após encontrar este vazio, mas isso não é bem a mesma coisa. A depressão clínica ocorre inteiramente dentro do corpo e da psique. De certa forma, pode ser ainda mais física que psíquica, já que a depressão vegetativa (quando não surge principalmente de alguma doença orgânica), embora possa ser acompanhada por sentimento de tristeza (ou raiva ou medo) não é em si mesmo uma emoção, mas sim - como pânico - uma estratégia psicofísica para evitar a emoção. (A medicina tradicional chinesa vê tanto a depressão como a raiva como relacionadas com o fígado, o que parece confirmar a intuição de Freud de que a depressão é raiva introvertida, uma raiva que voltou-se contra si, isso também explica por que ervas como a de São João, e possivelmente o cardo de leite, são eficazes contra a depressão, uma vez que eles desintoxicam o fígado. E um particular exercício ikons, onde a mão direita "varre" sobre o coração e o fígado, prescrito para depressão). A noite escura da alma, por outro lado, é o momento em que a luz do Espírito é retirada da psique, a fim de que nos leve da psique ao Espírito.

E, no entanto, os dois estão relacionados. Na noite escura da alma nós perdemos completamente o poder de dirigir nossa vida espiritual. Em uma depressão somos ameaçados com a perda da capacidade de liderar nossas próprias vidas na direção que queremos, mas ainda se luta (muitas vezes em um nível profundamente inconsciente) para obter essa capacidade de volta, caso contrário, não estaríamos deprimidos; a raiva que geralmente subjacente a depressão é uma expressão desse esforço frustrado, que é baseado na falta de uma verdadeira submissão a Deus. Se nós estivermos sinceramente tentando levar nossas vidas diárias como um caminho espiritual, uma depressão pode apresentar-nos como uma oportunidade de entrar naquela noite escura: se Deus toma nosso casaco, podemos decidir deixar de lutar para obtê-lo de volta, e dar-Lhe nossa camisa também.

De acordo com a antropologia pneumática tradicional, a alma é composta principalmente de intelecto e vontade ("intelecto" aqui se referindo a razão ou dianoia, a faculdade racional, e não para o Nous ou Intelectus - a capacidade de perceber a Verdade diretamente assim como os olhos percebem a luz - uma faculdade do Espírito), e a raiz da vida espiritual é a mortificação da vontade. (De acordo com essa perspectiva particular, os afetos são considerados um aspecto ou uma "disposição" da vontade). Antes que o processo de mortificação ocorra, antes de aprendermos a dizer "não a minha vontade, mas a Tua seja feita", nosso intelecto será natural, puramente psíquico, baseado somente nas habilidades que nasceram conosco e aquelas adquiridas, impressões e conhecimentos. Entregar-se ao glamour psíquico é meramente uma manifestação desse intelecto natural. Mas quando submetemos nossa vontade à Vontade de Deus, nosso intelecto muda. Nosso brilho superficial pode ser mortificado; podemos sentir como se tivéssemos nos tornando velhos, aborrecidos e estúpidos. O pensamento, o sentimento, a intuição, a sensibilidade, a imaginação, a memória - todas essas faculdades da alma são escurecidas. E o que emerge dessa escuridão não é mais o que se costumava chamar-se de "meu". Se houver luz, já não é nossa luz. Se houver amor e conhecimento, não é mais nosso amor e nosso conhecimento; mas (como os Sufis dizem), Deus ama Deus, e Deus conhece Deus, em nós; nossa única responsabilidade é sair do Caminho. A razão/dianoia deu lugar ao Nous/Intelectus.


Nem o mercúrio, nem cobre, nem ferro, nem estanho, nem mesmo prata - metais que representam vários poderes e disposições psíquicas - podem funcionar como a raiz da metanóia alquímica. Somente se primeiramente formos reduzidos ao chumbo, através da melanose, através de uma mortificação radical, nossa alma poderá ser transmutada (via a prata receptiva da leucose) para o ouro alquímico.


Trecho do livro The Science of the Greater Jihad: Essays in Principial Psychology por Charles Upton

terça-feira, 16 de junho de 2015

O Simbolismo do Teatro (Por René Guénon)

Acabamos de comparar a confusão de um ser com sua manifestação exterior e profana [1] com a identificação de um ator com o personagem que ele está atuando; a fim de demonstrar em que medida esta comparação está correta, algumas considerações sobre o simbolismo do teatro não estarão fora do escopo, embora tal simbolismo não pertença exclusivamente ao domínio iniciático. É desnecessário dizer que este simbolismo pode estar ligado ao caráter original das artes e ofícios, os quais costumavam possuir um significado iniciático pelo fato de que estavam ligados a um princípio superior a partir do qual eles eram derivados como aplicações contingentes; ele só se tornou profano, como já explicamos, muitas vezes, com o resultado da degeneração espiritual da humanidade durante o curso descendente de seu ciclo histórico.

Pode-se dizer, de modo geral, que o teatro é o simbolo da manifestação, do caráter ilusório que expressa tão perfeitamente quanto é possível [2]. Este simbolismo pode ser visto ou do ponto de vista do ator ou daquele do teatro em si. O ator é um simbolo do Si ou do "homem interior" manifestando-se em uma série indefinida de estados e modalidades que podem ser consideradas como os muitos diferentes papéis; e deve-se notar a importância do antigo uso da máscara como uma exata expressão desse simbolismo [3]. Da mesma forma, o "homem interior" continua "não afetado" por suas manifestações; o desaparecimento da máscara, pelo contrário, força o autor mudar sua própria fisionomia. No entanto, em qualquer caso, o agente permanece fundamentalmente diferente daquilo que parece ser, da mesma forma como a "pessoa interior" é diferente da multiplicidade dos seus estados manifestados. São nada mais que as aparências e mudanças exteriores que ele coloca afim de realizar, ao longo dos vários modos que convêm a sua natureza, as indefinidas possibilidades que ele contem dentro de si mesmo no eterno momento de não-manifestação. 


Movendo-se para um outro ponto de vista, podemos dizer que o teatro é uma imagem do mundo: tanto o teatro como o mundo são propriamente "representações". O próprio mundo, por existir somente como uma consequência e uma expressão do Princípio do qual é essencialmente dependente em todos aspectos, pode ser considerado simbolização da ordem principial em sua própria maneira. É este caráter simbólico que confere ao mundo um valor superior aquele que possui em si mesmo, sendo o modo em que participa em um grau mais elevado de realidade. [4] Em árabe, o teatro tem sido designado pela palavra tamthīl que, como todas outras palavras que derivam da mesma raiz, mthl, denota os significados de semelhança, comparação, imagem ou figura; e alguns teólogos muçulmanos usam a expresão “ālam tamthīl", que pode ser traduzida por "mundo figurativo" ou "mundo de representação", para se referir a tudo aquilo que é descrito simbolicamente nas Sagradas Escrituras e, portanto, não podem ser tomadas literalmente. É notável que alguns aplicam esta expressão especificamente para o reino dos anjos e demônios, que na verdade representam os níveis mais elevados e inferiores do ser, que só podem ser descritos por termos simbólicos emprestados do mundo sensível. Além disso, por uma coincidência que é digno de nota, deve-se mencionar o papel considerável que estes anjos e demônios tinham no teatro religioso no Ocidente medieval. 

Do que foi dito, pode-se dizer que o teatro não está necessariamente limitado a função de representar o mundo humano, ou seja, de um único estado de manifestação; também pode representar ao mesmo tempo mundos superiores ou inferiores. Por esta razão, nas peças de mistérios da Idade Média, o palco era dividido em vários níveis correspondendo com os diferentes mundos; esses níveis geralmente correspondiam a sequencia da divisão ternária: céu, terra e inferno. Além disso, uma vez que a peça era realizada simultaneamente dentro dessas várias divisões, se tornava uma representação precisa da essencial simultaneidade dos estados do ser. Por falta de compreensão deste simbolismo, os modernos tem considerado como "ingenuidade", para não dizer desajustado, o que na verdade é algo de mais profundo significado. O que é mais surpreendente é a rapidez com que esta incompreensão apareceu, como é demonstrado pela sua manifestação impressionante entre os escritores do século XVII; este cisma radical entre a mentalidade da Idade Média e da mentalidade dos tempos modernos não é um enigma de mínima importância na história.

Já que falamos das peças de mistério, não acreditamos que seja inútil apontar para a singularidade dessa denominação que tem um duplo sentido: deve-se escrever, em todo rigor etimológico, "mistérios", pois essa palavra deriva da palavra ministerium, que significa "trabalho" ou "função", que claramente indica até que ponto que as representações teatrais deste tipo eram originalmente consideradas partes integrantes de uma celebração de feriados religiosos. [5] O estranho é que esse nome tenha sido usado e resumido de forma a tornar-se exatamente homônima dos "mistérios", e, finalmente, sendo confundida com esta outra palavra, que é de origem grega e tem uma derivação totalmente diferente; é somente através de uma alusão aos "mistérios" da religião, que eram encenados nas peças que assim foram designadas, que essa assimilação foi feita. Isso, sem dúvida, pode ser uma razão plausível; mas, por outro lado, se se considerar que representações simbólicas aconteciam nos "mistérios" da Antiguidade, como na Grécia e provavelmente também no Egito [6], pode-se ser tentado a ver nisto algo que remonta muito mais longe no tempo e se interpretar como uma indicação da continuidade de uma tradição esotérica e iniciática que se afirmava exteriormente, em intervalos mais ou menos distantes no tempo, por manifestações similares, com a adaptação exigida pela diversidade de circunstancias do tempo e lugar. [7] Nós tivemos oportunidades bastantes frequentes para apontar para importância de assimilações fonéticas entre palavras que são filologicamente distintas, como uma modalidade de linguagem simbólica; não há nada de arbitrário nisso, o que quer que a maioria de nossos contemporâneos possam pensar sobre isso,  e este método não é completamente sem conexões com os modos de interpretações pertencentes ao nirukta Hindu; mas os segredos da constituição intima das linguagens são tão completamente perdidas hoje que é difícil fazer alusões sem ser suspeito de ceder a "falsas etimologias" ou até mesmo a um mero "jogo de palavras". O próprio Platão, que ocasionalmente usa esse tipo de interpretação - como nós já indicamos em referência aos "mitos" - não é mais favoravelmente recebido pelo "criticismo" pseudo-científico das mentes que estão limitadas por preconceitos modernos.

A fim de concluir estas poucas observações, mencionaremos ainda um outro ponto de vista sobre o simbolismo do teatro: a do dramaturgo. A partir deste ponto de vista, os vários personagens, assim como as produções mentais, podem ser consideradas como modificações secundárias e como se fossem extensões do autor, aproximadamente da mesma maneira como as formas sutis que são produzidas no estado de sonho [8]. Além disso, a mesma consideração, obviamente, pode ser relevante em respeito a produção de qualquer obras de imaginação de qualquer gênero; no entanto, no caso particular do teatro, esta produção é especificamente realizada em um modo sensível que processa a própria imagem da vida, como também acontece nos sonhos. Por isso, o autor preenche uma função verdadeiramente "demiúrgica" uma vez que ele produz um mundo que é inteiramente elaborado de si mesmo. Ele pode ser considerado, por essa razão, como o próprio símbolo do Ser como produtor da manifestação universal. Neste caso, como no caso dos sonhos, a unidade essencial do produtor de "formas ilusórias" não é afetado por esta multiplicidade de manifestações acidentais, como a unidade do Ser permanece inalterado pela multiplicidade da manifestação. Portanto, a partir de qualquer ponto de vista que se observe, sempre se encontra no teatro este profundo raison d'être - mesmo que seja desconhecido por aqueles que fizeram desta forma de arte algo puramente profano; o de ser, por sua própria natureza, um dos mais perfeitos símbolos da manifestação universal. 

1 No capítulo "Noms profana et noms initiatiques" ("Nomes profanos e iniciáticos").
2 Nós não dizemos irreal; pois é bastante óbvio que a ilusão só pode ser considerada como uma realidade inferior.
3 É relevante notar aqui que essa máscara é chamada no latim persona; o "homem interior" é, literalmente, aquele que se esconde sob a máscara do indivíduo.
4 Esta é também uma consideração ao mundo, quer como ligado ao Princípio ou no seu próprio ser somente, que distingue fundamentalmente o ponto de vista das ciencias tradicionais das ciencias profanas. 
5 É a partir da mesma palavra, ministerium, no sentido de "função", que a palavra francesa métier é derivada. 
6 Pode-se, além disso, conectar diretamente a essas representações simbólicas do ritual de "encenação" de "lendas" iniciáticas que mencionamos anteriormente.
7 A "exteriorização" no modo religioso que ocorreu na Idade Média podem ter sido a conseqüência de tal adaptação. Não constitui, portanto, uma objeção contra o o caráter esotérico desta tradição em si.
8 Cf. Estados Múltiplos do Ser, Capítulo 6. 

domingo, 7 de junho de 2015

Sobre a Índia e Budismo - Conversações com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I

Por trás do movimento "New Age" também se pode perceber uma redescoberta da Índia, e em particular, do Budismo.

Muitos ocidentais atualmente dizem encontrar uma verdadeira serenidade no Budismo. Eles aprendem que existe um dharma (para usar a palavra em sânscrito), um caminho de salvação, uma ordem do mundo; alguém poderia até mesmo chamar de Sabedoria, quase no sentido bíblico da palavra. E este dharma, não muito diferente do Decálogo, pede-lhes para não matar, não roubar ou mentir, ser casto, e (muito útil para as nossas sociedades) abster-se de álcool e drogas! Eles parecem, de certa maneira, se distanciar de suas emoções e tendem a ver os outros e, a si mesmos, com grande tolerância e paz.

Curiosamente, a popularidade do Budismo hoje substitui aquela do Hinduísmo, que parecia ser maior no período seguinte da Segunda Guerra Mundial. Isso pode ser o resultado da expansão do Budismo Tibetano, que hoje constrói mosteiros em toda Europa Ocidental e na América do Norte.  Ou pode ser devido à personalidade marcante do Dalai Lama, que é capaz de interpretar o Budismo para o Ocidente. Mas há algo mais: a Índia representa algo luxuoso, superabundante, uma espécie de alegria robusta; enquanto que o Budismo fala essencialmente de sofrimento e libertação da dor. Portanto, o Budismo parece particularmente atraente para muitas pessoas das sociedades ocidentais que estão cansados, que estão "estressados" e que buscam um pouco de paz e tranquilidade...

Para o Budismo, de fato, tudo é doloroso: nascer, inexoravelmente decair, sofrer muitos tormentos, ser submetido ao que se odeia, e ser separado daquilo que se ama.  E qual é a motivo para este sofrimento? O motivo é que não conseguirmos parar de desejar, de ser "sedento", de "queimar". O desejo nasce da ignorância. Ele acredita na realidade, na importância, dos seres e das coisas. Dessa forma, ele produz erro, luxúria, ódio, que são "as três raízes do mal". O "caminho da libertação" corrige nosso comportamento (as exigências morais são extremas - algo que o Ocidente geralmente se esquece), e, através da prática de meditação, nos permite discernir o processo de crescimento e, finalmente, nos despertar. Despertar para a realidade única, inefável, é apagar as chamas da paixão, do erro e ilusão. É se tornar impassível, ou seja, triunfar sobre as paixões que constantemente nos faz de brinquedo.

Este tipo de ascetismo, que é monástico, é semelhante à nossa ascese monástica. A espiritualidade hesicasta, "a arte das artes e a ciência das ciências", também fala sobre ignorância e das paixões, que começam com o orgulho e avidez, com o egocentrismo - philautia - todos nascem de nossa angústia escondida quando nós somos confrontados com a natureza transitória deste mundo. E os métodos para atingir esta libertação das "paixões" são similares: limpar a mente de "pensamentos", alcançar a apatheia (estado desapaixonado ou de impassibilidade) e o "estado de vigília". Esta última palavra é tão importante no hesicasmo como no Budismo, pois a palavra buddha significa "despertado". De fato, os grandes testemunhas do hesicasmo são os chamados Padres "népticos", um adjetivo derivado do gregro nepsis, que significa vigília! 

O termo Nirvana, muita vezes tão mal compreendido, significa extinção - do desejo, da sede, do fogo. Designa um estado de completamento sobre o qual só se pode falar utilizando negações. Isto nos lembra da "oração além da oração" hesicasta, quando o homem o homem se torna tão infinitamente pequeno que ele observa a luz divina. 

Não seria o Budismo, nas profundezas da Ásia, uma espécie de pré antecipação Cristã? O próprio Budismo, é claro, seria ignorante deste fato. Podemos perceber dois aspectos em sua doutrina: a primeira é uma verdade parcial; a segunda permanece encerrada nesta parcialidade. 

Nirvana é um símbolo negativo de uma entrada no centro divino de seu próprio ser. Que um amor libertador é revelado neste "vazio", que é uma plenitude, um amor que restaura tanto o outro e o mundo - tudo isso é desconhecido ao Budismo. Ou ainda não é conhecido? A questão permanece. Dentro da tradição hesicasta, o coração e o espírito deve morrer para si mesmos, a fim de redescobrir uma "alteridade" de Deus na unidade, uma unidade que se transforma em comunhão. 

Estamos de acordo com os Budistas que "este mundo", como diz o Evangelho, encontra-se no mal. Mas, para os Budistas, o mundo não é nada mais que isso. Ele consiste em agregados transitórios de matéria, que estão constantemente sendo transformados e desaparecendo, apenas para dar à luz a novos agregados, que não são menos transitórios. Para nós, Ortodoxos, sob o véu da ilusão que somos chamados parar remover, a criação de Deus tem substância. É boa, boa precisamente por causa de sua diversidade. Este mundo não esgota a realidade do mundo de Deus. 

De forma semelhante, para o Budismo, o homem é simplesmente uma "combinação" não-essencial que pode, por exemplo, ser comparado com uma carroça. O homem é um simples processo, uma continuidade sem identidade. Certamente há uma reencarnação, mas ocorre através da simples casualidade de ação produzindo efeitos. Não há nenhuma transmigração, porque não há nenhuma alma que pode passar de uma habitação para outra. Se libertar é rejeitar a noção do "eu" - como bem, é claro, qualquer noção do "outro". Reincarnação, a "roda da existência", é um ciclo infernal, mas não existe indivíduos para serem condenados! Buddha nunca deixou de denunciar a "multidão ignorante" que se alimentava das absurdas "teorias da alma" e que acreditavam em reincarnações "pessoais". Este "não-Eu", seja mitigado ou não, é, de fato, não diferente do Si do Vedanta - a escola Hindu que sucedeu em perseguir o Budismo na Índia! Só se pode falar do Si em termos negativos, a fim de identifica-lo com o divino - e é apenas este aspecto divino que é transmigrado! 

Assim, podemos ver, que isto é muito diferente do "reencarnacionismo" ocidental, aquela invenção de turistas ocidentais. Nós também não compreendemos totalmente ioga (e seus objetivos metafísicos são quase sempre mal interpretados no Ocidente). Ioga dá ao seu praticante ocidental a ilusão de descobrir seu verdadeiro Si, enquanto que, normalmente, somente leva-o para expandir e mostrar seu ego! 

Tudo, acrescenta o Patriarca, centra-se no conceito de "pessoa" De acordo com o Budismo, a pessoa não existe. O Cristão, no entanto, afirma a existência da pessoa. Mas a Ortodoxia não identifica a pessoa com o indivíduo, com a "substância individual de natureza racional", como Boethius desajeitadamente declarou no mundo latino. Isto significaria que a pessoa não é nada mais do que uma máscara, que é, de fato, o sentido original da palavra latina persona, ou o grego prosopon. A pessoa só é revelada na conclusão de uma antropologia negativa, e os esforços do Hinduísmo e do Budismo podem ser útil para nós. O absoluto não está além da pessoa (pois então, na verdade, não haveria ninguém!). Em vez disso, o absoluto é a profundidade, a "profundidade sem fundo", da pessoa, ou melhor, da comunhão. E se a pessoa, e portanto, a possibilidade de encontro, existe, então história existe. No entanto, nem o Hinduísmo, nem o Budismo está interessado em história, porque para eles, o tempo, em seus ciclos intermináveis, consiste em nada além de terror. Se a pessoa e, portanto, a comunhão existe, então a atração do homem para Deus transfigura o desejo: eros se transforma em agape. É particularmente o milagre da graça e do perdão que destrói a fatalidade do karma - a relação automática entre o ato e suas consequências - e o medo de que "teremos que pagar tudo" como dizem alguns Cristãos que não conseguem entender a infinita graça da cruz e da ressurreição

De Buda à Gandhi

Devemos, no entanto, estar cientes que o Hinduísmo e o Budismo nunca deixaram de se desenvolver. Isto é certamente verdadeiro em nossa própria época, quando os valores de origem Cristã foram espalhados pelo mundo. Mas também pode ter sido o caso durante séculos, tanto por causa de um impulso cristão que só podemos imaginar, ou através da longa influencia da evangelização "Nestoriana" no coração da Ásia. 

Dentro do Budismo chinês e japonês, por exemplo, tem havido uma evolução, por um lado, em direção a ascese e para uma estética de beleza cósmica, e, por outro, em direção a uma religião de misericórdia. No movimento Zen - Ch'an na China-  o asceta aguçado, durante e depois de um momento de iluminação, experimenta nitidamente o nascimento de uma árvore, de uma flor, da luz. Ele conhece as coisas como elas são. Ele ouve "o ah! das coisas." Isso não está muito longe da "contemplação da natureza", Cristã, que é uma etapa necessária no hesicasmo. No Amidismo, o monoteísmo se afirma. Amida (Omito em Chinês), o meditador, era um monge que, voluntariamente, interrompeu sua ascensão no caminho da iluminação, colocando a realização da perfeição em espera, até que toda a humanidade e toda a criação, até a última folha de grama, sejam salvos por sua intercessão. O fiel pratica o nembutsu, a humilde invocação da fórmula, "Buda Amida, salva-me". Um grupo que veio do Amidismo ainda chamava-se Yuzy Nembutsu, "Invocação em comunhão"! Tudo isso faz com que qualquer Cristão lembrar-se da Oração de Jesus.

O monoteísmo do amor tem gradualmente se espalhado por todo Hinduísmo. Mesmo o ioga, um exercício metódico humano, tem vindo a concentrar-se mais e mais na atração à divindade. O Vedanta Vinshu confessa e adora um Deus pessoal que estava presente na criação, como a alma está presente no corpo - uma imagem que São Gregório de Nissa gostava de usar! O Deus Vinshu, de sua livre Vontade, criou um mundo real que expressa sua beleza e que, portanto, merece uma consideração positiva pelo homem. Ele providenciou cada pessoa uma uma identidade, tornando assim possível, não uma fusão, mas uma comunhão. Como um místico desta escola disse, "se eu amo açúcar, isso não significa que eu desejo virar açúcar!". O movimento Shakti celebra a energia divina, que celebram como uma presença divina: aqui, novamente, nós somos lembrados da Sabedoria! E essa religião tem promovido respeito para com as mulher, para com as esposas. 

No nosso século, um encontro entre este tipo de Hinduísmo e do Evangelho já começou, particularmente na pessoa, ações, e martírio de Gandhi e seus seguidores. Discípulos de Gandhi permanecem nos Estados Unidos e na África do Sul.

Nós, Cristãos, temos muito a fazer para se preparar para esse encontro. E é muito mais interessante que discutir entre nós.

Conversas com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I por Olivier Clement, pp 219-224




sábado, 6 de junho de 2015

Sobre historicismo (Por Julius Evola)

O que vou dizer pode causar algumas dificuldades para aqueles que não tenham renunciado a mentalidade historicista.

Devemos começar observando que a ênfase dada à noção de "história" é recente e alheio a toda civilização normal; muito mais recente é a personificação da história em algum tipo de entidade mística que é o objeto de uma fé supersticiosa, como são muitas das outras abstrações personificadas que se tornaram moda em uma idade que afirma ser "positivista" e "científica". Muitas pessoas estão acostumadas a escrever História com H maiúsculo, assim como no passado, a primeira letra do nome de uma divindade se encontrava em maiúsculo.

O primeiro e mais geral significado do historicismo refere-se ao colapso ou a desastrosa mudança da civilização do ser (caracterizada pela estabilidade, a forma, a adesão a princípios supratemporais) para civilização do devir (caracterizado pela mudança, fluxo e contingência) [1]. Este deve ser nosso ponto de partida. Numa segunda fase, os valores foram invertidos, e esse "escavamento" passou a ser visto como uma coisa positiva, que não só não deve ser resistido, mas também exaltado, aceitado e desejado. Nestas circunstancias, as ideias de "História", "progresso" e "evolução" estiveram intimamente associadas umas com as outras; assim, o historicismo tem frequentemente aparecido como uma parte integrante do progresso do século XIX, constituindo o fundo de uma civilização racionalista, científica e tecnológica.

Afora isso, o historicismo em um sentido específico está na visão básica da filosofia, originalmente inspirada por Hegel, que esteve representada na Itália pelos filósofos Benedetto Croce e Giovanni Gentile. Passo agora a explicar sobre o espírito e a "moralidade" do último tipo de historicismo.

Como é conhecido, Hegel viu uma coincidência entre as esferas de realidade e da racionalidade, portanto, seu famoso axioma: "Tudo o que é real é racional, e tudo o que é racional é real". Eu não vou examinar este problema de uma perspectiva metafísica, ou sub specie aeternitatis [a partir da perspectiva da eternidade]. No entanto, é certo que a partir de um ponto vista concreto e humano este axioma é dúbio por duas razões. A primeira é que, a fim de que seja útil, deveria primeiramente conhecer diretamente, a priori, e numa forma determinada, o que deve ser chamado de "racional" e usa-lo como a ordem ou a lei que que a História e todos os eventos sempre supostamente refletem. O desacordo entre os historicistas sobre esta questão é significativa: a verdade é que cada um deles é inspirado por suas próprias especulações subjetivas, no nível de filosofia de faculdade; o que realmente falta aqui é a visão de um 'olho de pássaro' mais modesto, necessário para compreender não só o que está além dos fenômenos, mas também o que está escondido por trás das causas mais evidentes nos levantes históricos. A segunda razão é que (mesmo se fôssemos acreditar no que este ou aquele filósofo postula como "racional") no curso da experiência comum não é possível detectar a identidade completa do racional e do real; assim, podemos nos perguntar se alguém ao fazer a afirmação dessa identidade chama algo "real" porque é racional, ou vice-versa, se ele chama de algo "racional" só porque é apenas real, ou porque se apresenta como realidade factual.

                                                   

Mesmo sem se envolver em uma crítica filosófica apropriada - como fiz em outros lugares, quando critiquei o chamado "idealismo transcendental" [2] - isso é suficiente para expor o caráter ambíguo e efêmero do historicismo. É precisamente por vivemos no mundo do devir, que se caracteriza por uma rápida mudança de eventos, circunstâncias e forças, que, por um lado historicismo se reduz a uma "filosofia passiva do fato consumado" e a uma teoria que concede uma "racionalidade" em tudo o que se afirmou com sucesso [3]; por outro lado, o historicismo pode promover igualmente reivindicações "revolucionárias" quando alguém não quer reconhecer o real como "racional". Neste caso, em nome da "razão" e "História", interpretado em proveito próprio, uma condenação é transmitida no que é. Uma terceira solução ainda é possível, como uma mistura dos dois anteriores, ou seja, rotular tudo como "anti-História" aquilo que procura afirmar-se ou tende a realizar-se ou restaurar uma ordem diferente da existente, mas ainda sem sucesso, exceto quando se justifica e é dado como "racional", no caso de sua vitória ou afirmação, pois então tornou-se "real". 

Assim, dependendo da situação, o historicismo pode, igualmente estar no lado de um conservadorismo de segunda categoria ou que de utopias revolucionárias, ou, como provavelmente ocorre mais frequentemente, do lado de quem sabe como se adaptar a novas circunstâncias, deslocando fidelidade de acordo com o caminho que o vento sopra. Assim, 'História' e 'anti-História torna-se slogans desprovidos de qualquer conteúdo concreto e que podem ser utilizados em ambos os sentidos, de acordo com as preferências pessoais, no contexto de um jogo de dados que os representantes dessa visão chamam de "dialética" ou "dialética histórica".

O exemplo típico disso foi o desenvolvimento que ocorreu na Alemanha, partindo das premissas do historicismo hegeliano, de uma teoria da autoridade e estado absoluto de um lado (uma teoria inútil de um sistema que, estando arraigados em valores tradicionais, não haveria necessidade alguma de uma justificativa filosófica), e uma ideologia marxista revolucionária e "dialética" no outro. Um exemplo mais recente, na Itália, é a inimizade entre Gentile e Croce, ambos eram historicistas comprometidos. No entanto, Gentile, ao assumir como racional o que foi posto na arena política, concedeu o caráter de "historicidade" sobre o fascismo, colocando sua filosofia a seu serviço. Por outro lado, Croce, devido a suas preferências pessoais e ideológicas, pensou que o "racional" correspondia ao anti-fascismo liberal; assim, ele estigmatizou a ordem fascista, embora fosse 'real', como sendo "anti-histórica". Depois que o vento mudou de direção, muitas pessoas que foram fascistas ontem acordou alguns anos mais tarde como anti-fascistas; esses vira-casacas podem ser considerados como os representantes da terceira possibilidade - aqueles que se tornam 'atualizados' sobre o que a "História" e sua "racionalidade" deseja de tempos e tempos. [4]

Estas breves referências mostram o que equivale o historicismo. É essencialmente uma filosofia sem forma, inútil e vã, às vezes até mesmo covarde e oportunista; ou é irrealista ou grosseiramente realista, dependendo das circunstâncias. Mas, além das elucubrações do historicismo como uma filosofia e sua correspondente deformidade mental que parte da cultura academica é culpada, nós devemos expor o mito da História com o H maiúsculo, especialmente quando este mito promove a narcose daqueles que não estão cientes das forças que se renderam, e isso ajuda aqueles que querem que a corrente se torne mais rápida, evitando qualquer oposição para cessar; apelando ao "sentido da história", essas pessoas estigmatizam toda atitude diferente das suas como "anti-histórica" ou "reacionária". 

Este tipo de historicismo, quando não é uma alucinação sem sentido de pessoas que não bate bem da cabeça, se trata obviamente da cortina de fumaça da qual as forças de subversão mundial operam. Surpreendemente, mesmo entre aqueles que anseiam restaurar uma ordem antiga, existem alguns que não estão cientes disto; eles são incapazes de rejeitar o mito historicista em todas as suas formas, não reconhecendo que são os homens que fazem ou desfazem a história, se for dado a oportunidade. Temos que ser opostos a qualquer consagração e "racionalização" do status quo e devemos negar qualquer reconhecimento das forças ou correntes que assumiram o poder. Devemos recordar que o anátema de ser "anti-histórico" e "fora da história" é lançado contra aqueles que ainda se lembram do modo como as coisas eram antes e que chamam a subversão pelo seu nome, em vez de se conformar com os processos que estão precipitando o declínio do mundo.

Tendo feito isso claro, o homem é restaurado a uma liberdade de movimento; ao mesmo tempo, o terreno para trabalho está posto para uma possível investigação destinada a julgar as influencias efetivas que promoveram esta ou aquela reviravolta na história. Tendo vencido todos os historicismo, estamos livre tanto da ideia que o passado é algo que mecanicamente determina o presente e também do conceito de uma lei teleológica, evolucionária e transcendental que, para todos efeitos práticos, nos leva de volta ao determinismo. Em seguida, cada fator histórico aparecerá ter um papel condicionante, mas nunca determinante. A possibilidade de uma atitude ativa para o passado será salvaguardado, especialmente a possibilidade de defender tudo que é inspirado por valores supratemporais.
______________

[1] Em relação às civilizações do ser e devir, ver meu L'Arco e la Clava [O Arco e a Maça] (Milan: Scheiwiller, 1971), cap. 1.
[2] Ver a minha Teoria dell'Individuo Assoluto [Teoria do Absoluto Individual] (Turim: Bocca, 1927) e Saggi sull'Idealismo Magico [Ensaios sobre idealismo mágico] (Roma: Atanor, 1925).
[3] É necessário salientar que o espírito da filosofia original de Hegel era um tipo de processo de sanção da razão pura, tanto assim que Hegel, quase como Platão ou os Eleatas, acusa a natureza ou realidade de 'impotência' onde quer que ela não se apresentou em conformidade com a racionalidade apriorística sancionada. O colapso completo do "racionalismo ético", no sentido historicista de uma conformidade passiva de vontade e realidade; da idéia e fato, ocorreu nos epígonos de Hegel, e especialmente no 'atualismo' de Gentile.
[4] Embora a filosofia de Gentile seja desagradável (ou seja, fraca, presunçosa e confusa) como suas atitudes parternalistas, autoritárias e monopolizadoras durante a era fascista, no entanto, devemos atribuir seu mérito como um homem que teve coragem de permanecer no lado do fascismo mesmo quando ele deveria ter considerado-o como 'historicamente passé', como ficou ao lado perdedor da guerra. 

Retirado do livro Men Among the Ruins: Post-War Reflections of a Radical Traditionalist, por Julius Evola




sexta-feira, 29 de maio de 2015

Liberdade Legionária (Por Mircea Eliade)


Há um aspecto do Movimento Legionário que ainda não foi suficiente explorado: a liberdade do indivíduo. Sendo primariamente um movimento espiritual - interessado na criação de um Novo Homem e a salvação de nosso povo - a Legião não pode crescer e não poderia ter amadurecido sem valorizar a liberdade do indivíduo; a liberdade, sobre a qual muitos livros foram escritos, que empilham nas bibliotecas, em defesa da qual muito discursos democráticos têm sido realizados, sem que seja realmente vivida e estimada.


As pessoas que falam de liberdade e se declaram dispostos a morrer por isso são aquelas que acreditam em dogmas materialistas, em fatalidades: classes sociais, guerra de classes, o primado da economia, etc. É estranho, no mínimo, ouvir uma pessoa que não acredita em Deus lutar pela "liberdade", ou aquela que não acredita na primazia do espírito ou na vida após a morte. Tal pessoa, quando falam de boa-fé, mistura "liberdade" com libertarianismo e anarquia. Só se pode falar de liberdade na vida espiritual. Aqueles que negam o espírito em sua primazia, automaticamente caem no determinismo mecanicista (Marxismo) e na irresponsabilidade. 


As pessoas se unem de acordo ou com o hedonismo ou por um destino econômico familiar. Sou camarada de X por que ele é meu parente, ou colega de trabalho, e, portanto, companheiros de pagamento. As conexões entre as pessoas são quase sempre involuntárias, são dados naturais. Eu não posso mudar meu destino familiar. E com relação ao destino econômico, independentemente de quão esforço eu fizer, no máximo, poderia mudar meus companheiros de pagamento - mas sempre me encontrarei, a contragosto, em solidariedade para com certas pessoas que eu não sei se estou ligado pelo fato de ser pobre ou rico.


Há, no entanto, movimentos espirituais em que as pessoas estão ligadas pela liberdade. As pessoas estão livres para aderir essa família espiritual. Nenhuma determinação exterior obriga-os em tornar-se irmãos. Tempos atrás, quando ainda estava se expandindo e convertendo, o Cristianismo era um movimento espiritual em que as pessoas se juntavam por um desejo comum: espiritualizar sua vida e vencer a morte. Ninguém forçava um pagão se tornar um Cristão. Pelo contrário, o Estado, por um lado, e seu instinto de conservação, por outro, inquietamente levantou obstáculos à conversão Cristã.
Mas, mesmo diante de tais obstáculos, a sede de ser livre, de forjar seu próprio destino, de derrotar determinações biológicas e econômicas era muito mais forte. As pessoas se juntavam ao Cristianismo, sabendo que se tornariam pobres do dia para noite, que deixariam suas famílias ainda pagãs para trás, que poderiam ser condenados à prisão perpétua, ou até mesmo enfrentar a morte mais cruel - a morte de um mártir.


Sendo um movimento profundamente. Cristão, justificando sua doutrina no nível espiritual acima de tudo - o legionarismo incentiva e é construído em cima da liberdade. Você adere o legionarismo porque você é livre, porque você decidiu superar os círculos de ferro do determinismo biológico (medo da morte, sofrimento, etc) e do determinismo econômico (medo de ficar desabrigado). O primeiro gesto que um legionário mostrará é nascido de uma liberdade total: ele se atreve a libertar-se da escravidão espiritual, biológica e econômica. Nenhum determinismo pode influenciá-lo. No momento em que ele decide ser livre é o momento em que todos medos e complexos de inferioridade instantaneamente desaparecem. Aquele que entra na Legião veste sempre a camisa da morte. Isso significa que o legionário se sente tão livre que até mesmo a morte não o assusta. Se o legionário nutre um espírito de sacrifício com paixão, e se ele for capaz de fazer sacrifícios - culminando em morte, como Mota e Marin - estes testemunham a liberdade ilimitada que o legionário ganhou. 'Aquele que sabe como morrer nunca será um escravo'. E isso não diz respeito unicamente a escravidão étnica ou política - mas primeiramente, a escravidão espiritual. Se você está pronto para morrer, nenhum medo, fraqueza, ou timidez pode escravizá-lo. Fazer as pazes com a morte é a maior liberdade que um homem pode receber nesta Terra.

 Texto da publicação Romena Iconar, 5 March 1937.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Logos e Metafísica: Palestra sobre Solovyov, Empirismo e Espinosa

A ciência moderna se orgulha do empirismo, a ideia de que é preciso experimento e observação como base de suas operações. Muitas vezes, é difícil perceber o quão isso é verdade, já que a ciência não lida com observação ou seja, com as coisas que são observáveis, mas precisamente de coisas que não são observáveis: conceitos, abstrações e forças. No entanto, o mito da ciência moderna é que ela é racional porque se aproxima das coisas através do experimento. A realidade é que ela é um empreendimento puramente racionalista, utilizando como suas unidades de análise teórica princípios e objetos.
O empirismo é o mais fraco e mais irracional de todas as formas de conhecimento. A existência do observável pode ser atacada por dois pontos:

Em primeiro lugar, que a realidade do mundo exterior não pode ser provada - deve ser tomado com base na fé e somente pela fé. O que nós estamos cientes são apenas impressões sensoriais, o que em si são redutíveis apenas para estados psíquicos, em outras palavras, tudo o que podemos conhecer são estados de nossa própria mente. Chamar isso de "impressões sensoriais do mundo exterior" não provam a existência de coisas fora de nossa mente. Portanto, o empirismo se limita apenas a estados mentais, e não a observações do mundo exterior. Os dados provenientes dos sentidos não provam a existência do mundo exterior, somente prova que nossos sentidos registram certos sons e cores.
Isso também sugere uma outra crítica comum, a da fenomenologia de observação. Todas observações tem um contexto, e por conseguinte, é condicionado por este contexto. As coisas que tomamos como importante ou significativas pode ser ditada pelos nossos estados mentais, que está nos dando pressão social ou normas básicas (e inconscientes) culturais e sociais.

Em segundo lugar, que o objeto em si não está presente em qualquer forma metafísica defensável. O que está presente são forças e energia, a energia de tipo elétrico ou magnético, embora isso até mesmo implique em um posterior substrato não-material. Os observáveis são imediatamente reduzidos a partículas de força; forças que somente seus efeitos podem ser sentidos. Se eu sou um empirista e vejo uma árvore, o que eu vejo só existe em minha mente: são meus sentidos que fizeram aparecer o marrom e o verde das forças elementares da árvore, as energias que são interpretadas por minha mente como cores ou texturas. Quando vejo um objeto e chamo de "coisa", estou me comportando arbitrariamente - chamando o objeto de "único", quando na verdade qualquer objeto imediatamente observável na natureza é uma coleção de milhões de pulsos de forças e energias, em verdade milhões de coisas ao invés de uma única coisa.

O empirismo não é empirismo em tudo - é uma abordagem arbitrária ao mundo que toma as interpretações do mundo exterior como prova de sua existência, ainda que essa existência só exista por fé ou pior, por utilidade - sabemos que algo é verdadeiro porque "funciona", o que normalmente significa que ele pode ser transformado em algum lucro. Mas isso está muito longe das reivindicações da ciência moderna.

O empirismo somente conhece estados internos, psíquicos e nada mais. Não é uma forma de conhecimento, e conduz uma abordagem extremamente superficial do mundo, justificado apenas pela base mais utilitarista. Portanto, até mesmo a energia em si, que afeta o que sentimos em cores, etc deve ser ainda mais reduzida, uma vez que, em alguns casos, nós podemos ver e tocar nas forças e energias, e senti-las trabalhando em nós mesmos de inúmeras maneiras. Por conseguinte, deve-se manter a doutrina das essências, ou forças elementares que não podem ser vistas ou ouvidas, ou sentidas de qualquer forma, pois, se fosse possível ser sentidas, elas cairiam nos problemas a ou b mencionados. Todos os observáveis devem ser reduzidos aquilo que não pode ser observado, a fim de dar sentido a eles. Platão estava correto a este respeito, assim como Agostinho, Espinosa, Skovoroda e Russell. A verdadeira natureza e fundamento da realidade é, portanto, espiritual. Qualquer outra coisa cai sob contradição, um ponto levantado por Fichte e Hegel.

Solovyov, em sua IV Palestra sobre Divina Humanidade, sustenta que essas forças são basicamente monádicas, atuando como energias elementares além das forças observáveis. Elas são imutáveis e são a fonte de todo o ser - além do espaço e tempo. Elas existem como entidades elementares que, por definição, não podem ser vistas ou ouvidas, mas sabemos quais são seus efeitos sempre que sentimos qualquer coisa. Trata-se de outra interpretação das formas Platônicas, ou essências espirituais de todas as coisas existentes.


Para Espinosa, o conceito de numerosas categorias de formas era excessivo, e que o ser fundamental era o próprio Ser, não observável, não energia, mas Deus. Identificar o Deus no sentido de Espinosa com "natureza" é o máximo de vulgaridade - o establishment acadêmico moderno detém precisamente aquilo que querem acreditar, eles querem justificar o materialismo e, portanto, interpretar a história da filosofia como uma longa marcha para vulgaridade moderna e suas próprias carreiras. Espinosa não era um panteísta, mas um platônico que detinha, em primeiro lugar, que o Ser é não-observável, fora do espaço e tempo, e o início de todo o Ser, seu domínio e seu fundamento. Não era ser, mas Ser, e, portanto, a combinação de todas formas platônicas que Espinosa chamou de Substância.

Espinosa considerou que o Ser era imanente nas coisas, mas isso não é diferente de Solovyov. Imanetizar as formas não é cair no Aristotelismo ou outra forma de empirismo, mas simplesmente fazer uma economia mais limpa da metafísica. Onde está Deus? Acima? Claro que não. Deus é imanente em Sua criação, embora não idêntico a ela, os modos são manifestações da Substância e não idêntico as Substâncias, eles são apenas aparências. Deus existe aqui mesmo em nós, mas em uma dimensão da realidade fora do espaço e tempo, além da capacidade dos sentidos de todos, menos dos ascetas mais puros e algumas crianças (como uma nota aparte, eu acredito, assim como Dostoievski, que as crianças, devido à sua inocência, foram dadas o dom de ver além do que existe no espaço e tempo, e que muitas das crianças vivem pelo menos parcialmente no Éden).

O ponto é, se estamos lidando com Espinosa ou Skovoroda, estamos lidando com o melhor da metafísica, uma vez que estamos lidando com uma Substância singular, que faz o sentido das formas platônicas. De certa forma, o "limite" de Filiebo de Platão é, de fato, os atributos e modos de Espinosa, enquanto o Ilimitado, é a substância, o substrato imaterial de ambos Espinosa e Skovoroda. É aquilo que deve existir para explicar qualquer Ser. É a fundação de todas as ciências.
O Logos é a interligação de forças que não são materiais, mas, pela natureza da realidade, são puramente espirituais. A matéria é o mito do homem moderno, o Deus dos evolucionistas, que sustentam que a matéria é eterna e capaz de produzir todas as cosias, inclusive o próprio Deus. Segundo a mitologia evolucionista, a matéria é deus, eterna e sempre presente, capaz de produzir qualquer coisa, tudo a partir de si mesmo, todo-poderoso. Isso está na raiz do gnosticismo contemporâneo, da maçonaria e da ciência moderna - que deus é matéria morta, e matéria morta pode dar a vida.

Não se pode provar a existência da matéria - ela existe porque as forças externas à pessoa são interpretadas pelos sentidos como tendo solidez, textura, etc mas toda essa solidez não existe, apenas existe um redemoinho constante de elétrons. Tudo é energia, mas essa energia em si deriva de uma causa não material, uma vez que a energia, na medida em que pode ser sentida, também é apenas uma questão de interpretação de nossos estados internos. Toda realidade deve ser espírito e imutável, a matéria é apenas o estado psíquico do observador. Qualquer outra coisa que não seja espírito só existe na mente, e, portanto, a matéria não pode ser comprovada. No máximo, podemos dizer como Skovoroda, que a matéria é, em verdade, a mera qualidade de aparecer.

As ideias de Platão e a Substância de Espinosa existem porque não há provas que da realidade obtidos pelos dados dos sentidos, portanto, o verdadeiro ser deve existir fora das impressões sensoriais do "mundo exterior", e, portanto, são de natureza espiritual, existindo fora do espaço e tempo. O que sabemos ser real é a energia, mas a própria energia, na medida em que faz nossos estados interiores dos sentidos, deve também ser ainda mais reduzida. Pode ser reduzida apenas para aquilo que não pode ser visto, as ideias, ou forças elementais, aquilo que está por trás das próprias forças e energias, e que as animam. Solovyov afirma que, uma vez que os dados obtidos pelos sentidos são múltiplos, tem-se que as formas que os criaram também devem ser assim. Esta é uma afirmação razoável, mas Espinosa parece ser mais econômico ao considerar que a força além da força se manifesta em diferentes maneiras, das quais algumas podemos ter conhecimento, ou seja, aquelas relativas aos modos de pensamento e extensão.

A compreensão histórica do asceticismo foi aquela de permitir ao asceta ver além dos dois modos da Substância de Espinosa (extensão e pensamento), as duas únicas dimensões de existência abertas a vida normal dos sentidos, derivando da Substância não-sensorial. Mas o asceticismo, no processo de limpeza e no afiar dos sentidos, se livrando dos desligamentos da vida adulta - maus hábitos e orgulho - abre novos horizontes, novos elementos do Logos/Substância que existem, assim que os santos e as crianças conseguem ver coisas que pessoas ordinárias não podem. Em minha opinião, os "amigos imaginários" das crianças pequenas são substâncias angélicas que só podem ser vistas pelos inocentes, explicado por adultos alienados que só podem ver o que existe para seu benefício e aquilo que apoia seu ego. Foram esses adultos que criaram nossas ciências filosóficas modernas.

A substância é a existência infinita, como o Logos é, e, portanto, o potencial de forças existindo ao mesmo tempo são igualmente infinitas. O que está disponível para o homem médio é apenas os sentidos e a razão - o que está disponível para o asceta e as crianças é uma variedade das dimensões da realidade além daquelas; os primórdios da plenitude da compreensão quando todos os elementos infinitos são relevados aos que foram chamados para serem perfeitos. Mas, mesmo no céu, o reino da forma (que é a infinita dimensionalidade deste mundo), toda infinidade não é revelada, e o processo de aprofundamento do nosso conhecimento da realidade continua após a morte, com ajuda do Logos cuja infinidade é expressada. Tenha em mente que essas forças, ou modos de Espinosa, não são abstrações: elas são inerentes ao sensível e são as causas da aparência do sensível à consciência. Em outras palavras, o empirista abstrai e o conceito abstrato significa menos e menos assim que os traços são sistematicamente removidos. Aqui, estamos lidando com um processo diferente - uma vez que a força é inerente à coisa, e não é uma abstração, mas uma coisa espiritual (cf. Solovyov, Palestra V, 59, onde ele discorda Espinosa).

No entanto, Solovyov, em sua Quarta Palestra parece chegar muito próximo a ideia de Substancia de Espinosa quando ele escreve "... a relação essencial entre ideias é semelhante a relação lógico-formal entre diferentes conceitos. Em ambos casos, há uma relação de maior ou menor generalidade da amplitude. Se as ideias de várias entidades se relacionam com a ideia de uma única entidade como conceitos específicos se relacionam ao conceito genérico, esta última entidade abrange todas as outras; ela os contém em si. Diferentes entre si [Solovyov aqui está falando de formas/forças], elas são iguais em relação ao conceito genérico que é o seu centro comum e que igualmente preenche elas com sua ideia." (Palestra IV, 53).


Esta não é apenas uma abordagem básica a Substância de Espinosa (que também existe fora do tempo e espaço), mas é uma excelente exposição da doutrina do Logos usando uma linguagem lógica moderna. Solovyov continua, "Essa aparece como um complexo organismo de entidades. Vários desses organismos encontram seu centro em outra entidade com uma ideia ainda mais geral, ou mais ampla, e, assim, torna-se partes ou órgãos, de um novo organismo de uma ordem superior, que responde ou cobre a si mesmo com todos os organismos inferiores relativos a ele. Assim, gradualmente ascendendo, nós chegamos na ideia mais geral e mais ampla, que deve, interiormente, cobrir a si mesmo com todas outras. Essa é a ideia da bondade absoluta, ou mais precisamente, o amor absoluto" (ibid). Essa é a doutrina do Logos, considerada cientificamente. Ciência, mecanismo e materialismo, se consistente, deve dar lugar ao Logos, ou a Ideia (por assim dizer) por trás das forças que, por sua vez, compõe nosso universo sensorial em sua relativa irrealidade.

Por isso, como Solovyov diz na Palestra V, há três coisas que a metafísica não pode ignorar se quiser fazer sentido em si mesma: a força, a representação que ela cria em nossa mente, e a Ideia que todas as forças fazem, o Logos, o centro de todas as forças suprassensíveis e o movimento e o conteúdo de todas as forças, em última instância. Assim como Solovyov usa "força", e Platão usa "forma", os modos de Espinosa são duas formas sob as quais a energia pode ser concebida pela o ser pensante médio. Existe pensamento e extensão e somente esses dois, que são as únicas formas pelas quais a Substância se revela para aqueles que ainda não estão no caminho ascético.

Elas são coleções das "forças" de Solovyov, mas reduzidos a sua singularidade, modos genéricos de pensamento e extensão. Naturalmente, a substância é a mais elevada de todas as entidades, e é semelhante à doutrina do Logos e é provável que isto tenha removido Espinosa de sua sinagoga em Amsterdam. Espinosa diria que Aristóteles foi arbitrário quando assumiu os observáveis como possuindo essência, uma vez que, para além das objeções acima, os objetos são interligados em sistemas irredutíveis de energia e força, portanto, a natureza do cosmos é um sistema de sistemas, um sistema de forças que deve ter uma fundação super-sensível. Tomar um observável isolado e fazer dele sujeito de uma essência é arbitrário por esta razão e assim se cai na mesma armadilha como os empiristas mais radicais e reducionistas acima. Assim, para ser consistente, há apenas uma única substância, que contém todos os sistemas em conjunto, essa é energia, e o substrato dessa energia é o Logos. A Substância é energia rarefeita (por assim dizer) e essa energia deve ter uma fonte, uma que detém todos os sistemas irredutíveis em um sistema mais amplo e mais inclusivo. O Logos é o substrato dessa energia. Mas mesmo essa deve ter uma fonte, eternamente concebida.

Só pode haver um Deus, uma única fonte de energia, ou seja, o Logos, que é o substrato de criação de forças (que é expresso em modos). Espinosa argumenta que, se há duas substâncias, elas podem não ter nada em comum. Uma substância é "aquilo que em si é concebida por si mesmo.". Ou seja, de nada depende, o que está implícito em qualquer definição de Ser (como tal). Não há compreensão de Deus sem o entendimento da distinção entre um objeto que é expresso através de alguma coisa, e um objeto que tem sua existência por si. Isto significa, portanto, que a essência envolve necessariamente existência, isto é, o conceito de um ser existindo através de si, em vez de a partir de outro. Se isso for verdade, então só pode haver uma única substância, o próprio Deus, Aquele que está além de toda energia e é a fonte dela. O Logos é esse substrato, essa energia, passando a existir fora do tempo, eternamente com o Pai.

Uma única substância pode existir, e Espinosa argumenta dessa forma: Todas as coisas que existem, existem a partir de uma causa. Essa razão ou causa deve estar dentro da natureza da coisa ou fora dela. Aquilo que tem sua existência a partir de si mesmo deve necessariamente ser eterno e incriado. Não há nenhuma causa que pode trazer isso, uma vez que ela é a sua própria causa. Então Deus existe necessariamente. Só pode haver Um, já que múltiplas substâncias (que existe por si mesmo) é uma contradição. Mas deve existir um ser como Deus uma vez que a Realidade é composta de pensamentos e objetos sensíveis que concordam com os sensíveis (ou seja, os atributos no sentido de Espinosa), esses são os dois modos, eles mesmos a criação da energia final, Substância. Esta substância é o que constitui o objeto de mudança dos sistemas, seu movimento e a causa do movimento. Um corpo não é Deus, Deus não é um corpo, mas o corpo é a solidificação de luz/energia com o Logos como sua fonte raiz.

Tanto Espinosa como Solovyov estão de acordo em vários pontos: primeiro, que a realidade última, o Amor supremo não é um corpo, está além do espaço e tempo, mas é a unidade espiritual que produz nosso mundo sensível. Este mundo sensível não é o mundo real, mas é relativo às forças que derivam da Substância Última. Embora Espinosa não tenha dado a esse amor uma personalidade, a doutrina do Logos sustenta que é o próprio Cristo, o próprio pensamento do Pai. Estou interpretando Espinosa aqui mantendo três construções da realidade em Solovyov: a representação, o sensível, a força, os modos, e a Substância, ou a unidade final de todos modos, a fonte de toda expressão - o centro espiritual do mundo que não é um corpo e está além do espaço e tempo.

Espinosa não reduz tudo ao Um numa ontologia, mas apenas em causa. Solovyov escreve: "Segue-se diretamente que há uma conexão interna entre todas entidades, em virtude da qual o sistema de entidades é um organismo de ideias" (Palestra V, 57). Este organismo é o que Espinosa entende por Substância. Mas Solovyov vai mais longe, e mantem que a personalidade - a vontade e o amor - é um atributo necessário da Substância, a unidade de todas ideias. O argumento é o seguinte: a substância, ou o Logos, que gera todas as forças na natureza, é auto-suficiente - ela contém todas as forças e todo o ser. Isso faz a Substância diferente ontologicamente, mas também subjetivamente. Solovyov escreve: "Quer dizer, ela deve possuir uma realidade separada de sua própria, ser um centro independente para si mesmo, e, consequentemente, deve possuir auto-consciência e personalidade. Pois, se as ideias diferissem apenas objetivamente, por suas qualidades cognoscíveis, mas não fossem auto-diferenciadas em seu próprio ser, elas só seriam representações para o outro e não seres reais.... Assim o portador de uma ideia, ou a ideia como um sujeito, deve ser uma pessoa. Os dois termos, a pessoa e a ideia, são correlativos como sujeitos e objetos e necessariamente exige um ao outro para a plenitude de sua respectiva atividade." (Palestra V, 64).

Colocando de forma diferente, pode-se imaginar, como Solovyov faz, uma personalidade sem uma ideia, uma perda inútil. Mas igualmente mal é uma ideia sem uma personalidade, uma vez que seria o mal oposto, uma força inerte, conteúdo sem veículo, sem vontade. Por isso, as forças que agem na natureza, em algum nível, devem possuir personalidades, e essa ideia metafísica ajuda a explicar por que as civilizações pelo mundo inteiro acreditam em anjos, ou a ideia de forças naturais, elementos do poder do Logos, como possuidoras de personalidades, vontade, amor, etc. Deus está vivo pela mesma razão que um sujeito precisa de um objeto, como a ideia precisa de uma vontade. Vontade sem uma ideia é uma força cega, ideia sem uma vontade é inerte e estagnada, irreal.

Solovyov quer remover o erro de um cosmo simplesmente idealizado como Platão ou Espinosa fez. Tal universo, "tem um caráter especulativo e artístico, um que é exclusivamente contemplativo, não ativo". Tal princípio divino não tem nada a ver com a vontade neste caso, e, portanto, é basicamente inútil. Mas se as formas tivessem uma vontade, estivessem unificadas no Logos, o Filho, uma pessoal real, então, se sustenta que a vontade subjetiva de uma pessoa humana, relativamente inútil e sem força, deve ter o Logos como seu substituto. O Logos não é apenas um ser, uma pessoa, mas uma coleção de todas forças, todas que compõem o universo. O Logos é tanto pessoa como um conceito, homem e Deus, Logos e uma determinação específica humana (Palestra V, 67). Portanto, a Trindade deve existir, e o logos deve ser duas entidades.

É assim porque o conceito da divindade aqui é aquele do Todo, ou de todas as forças da natureza, assim como um homem determinado, Jesus. Ao mesmo tempo, se pode ter um Todo, como o Logos é, mas o Todo deve ter uma fonte, qualquer sistema, a fim de fazer sentido, deve ter uma fonte singular, isto é, o Pai, para além de todos tempos e rótulos, está além da Substância de Espinosa. Em outras palavras, em toda realidade criada, o número três domina. Primeiro, existe a forma, em seguida, o conteúdo determinado, a matéria. Estes dois correspondem ao Pai e o Filho. O Espírito corresponde à unidade atualizada, o todo, os dois juntos. Mas todas as coisas na natureza são deste tipo: existe uma forma, a própria força, e a matéria, o que ela cria e a sua finalidade. A terceira é a plenitude, o todo como um todo, o Todo atualizado no mundo.


Assim, a trindade, quando considerada de forma racional e cientificamente, é o resultado líquido da rejeição da ingenuidade dos empiristas. Objetos no espaço e no tempo podem ser reduzidos a forças, e estas forças devem estar fora do espaço e do tempo. Essas forças são, coletivamente falando, a expressão do Logos, o conteúdo e a manifestação da mente do Pai. Assim é porque o sistema de forças é por si mesmo irredutível, o sistema deve existir antes das partes (por assim dizer). Assim, o Logos existe antes dos séculos. Espinosa é útil em conceituar isso, mas ele nunca foi além da doutrina do Logos, e nunca considerou o que poderia explicar a Substância.

Texto traduzido de uma palestra por Matthew Raphael Johnson na Universidade Mount St. Mary em  2006  original aqui http://reasonradionetwork.com/20060318/the-logos-and-metaphysics-a-lecture-on-solovyov-empiricism-and-spinoza-2006