quarta-feira, 6 de maio de 2015

Transcendência ascendente, descendente e horizontal (por Aldous Huxley)

Sem uma compreensão da profunda e arraigada necessidade do homem pela autotranscendência, de sua natural relutância a empreender o difícil caminho ascendente, de sua busca de uma liberação espúria por debaixo ou à margem de sua personalidade, não podemos esperar dar sentido a nosso próprio período particular da história ou à história em geral, à vida como foi vivida no passado e como é vivida hoje. Por tal razão, proponho discutir alguns dos substitutos mais comuns da graça, nos quais e por meio dos quais, homens e mulheres trataram de escapar à entristecedora consciência de ser, meramente, eles mesmos. 

Na França há atualmente um varejista de álcool por cada cem habitantes. Nos Estados Unidos há, provavelmente mais de um milhão de alcoólicos desesperados, além de um número muito maior de grandes bebedores cujo mal não chegou ainda a ser mortal. Com respeito ao consumo de bebidas alcoólicas no passado, não temos conhecimentos precisos ou estatísticos. Na Europa ocidental, entre os celtas e os teutônicos, durante a Idade Média e os primeiros tempos da Moderna, o consumo de álcool por indivíduo provavelmente superava ao atual. Nas diversas ocasiões em que nós bebemos chá, café ou refrigerantes, nossos antepassados se refrescavam com vinho, cerveja, hidromel e, nos últimos séculos, com gim, conhaque ou aguardente. A ingestão regular de água era uma penalidade imposta aos malfeitores, ou aceita pelos religiosos, junto com um vegetarianismo ocasional, como severa mortificação. Não beber bebidas alcoólicas era uma excentricidade, suficientemente, notável para provocar comentários e a aplicação de um mote mais ou menos desonroso. Assim nasceram sobrenomes tais como o italiano Bevilacqua, o francês Boileau e o inglês Drinkwater. 

O álcool é só uma das múltiplas drogas empregadas pelo ser humano como válvulas de escape do eu isolado. Dos narcóticos naturais, estimulantes e alucinógenos que nos oferece a natureza, não há um só, acredito, cujas propriedades não tenham sido conhecidas desde tempo imemorial. A investigação moderna nos há provido de diversos produtos sintéticos; mas no que corresponde aos venenos naturais desenvolveu, simplesmente, melhores métodos para extrair, concentrar e recombinar os já conhecidos. Da adormidera ao curare, da coca andina ao haxixe da Índia e o agárico da Sibéria, todas as plantas, arbustos ou cogumelos cujos extratos, uma vez ingeridos produzem estupefação ou excitação, ou provocam visões, são conhecidos desde tempos muito remotos e suas propriedades se aproveitam de modo sistemático. O fato é estranhamente significativo, já que parece provar que, em todo momento e lugar, o ser humano sentiu a radical inadequação de sua existência pessoal, a penúria de ser só seu eu isolado e não um pouco mais amplo, algo «muito mais profundamente consubstanciado», empregando as palavras de Wordsworth. Explorando o mundo do homem primitivo não há dúvida que «fez experiência com todas as coisas a seu alcance e procurou aproveitar aquilo que lhe resultava bom». A efeitos da própria conservação, é bom todo fruto e é boa toda folha comestível, toda semente, toda raiz, toda semente aproveitável. Mas, de outro ponto de vista o do descontentamento de si mesmo e do desejo de autotranscendência, o bom se acha assim que existe na natureza, pois por meio do que for pode ser mudada a condição da consciência própria. Tais mudanças podem obedecer, sem dúvida alguma ao pior; podem alcançar-se ao preço de um mal-estar presente, de um apego ao futuro, uma degradação ou uma morte prematura. 

Tudo isto não pertence ao momento. O que importa é ter consciência, embora não seja mais que uma hora ou duas, embora não seja mais que uns minutos, de ser alguém ou melhor ainda, de ser outro distinto, e não o isolado eu que é a gente mesmo. «Eu vivo, mas não vivo propriamente o eu, a não ser o vinho, o ópio, o haxixe que vivem em mim.» Transcender além dos limites do eu isolado é como uma liberação de tal índole que, até quando se alcança a autotranscendência através da náusea, ou em meio ao frenesi, ou como sujeitos pacientes de cãibras e intumescimentos, ou nas alucinações, as experiências que se realizaram valendo-se de medicamentos ou de drogas foram olhadas sempre, tanto pelos homens primitivos como pelas civilizações mais adiantadas, como intrinsecamente divinas. O êxtase ocasionado por meio da intoxicação é considerado ainda como parte essencial dos fatos religiosos em muitos povos da África, da América do Sul e da Polinésia. Em tempos pretéritos, segundo nos testemunham isso documentos irrefutáveis, também foi considerado o êxtase como coisa fundamental nas religiões dos celtas, dos teutônicos, dos gregos, dos povos do Oriente Médio e dos conquistadores arianos da Índia. Não é simplesmente que «a cerveja tenha maior poder que Milton para justificar os caminhos que levam a Deus». É que a cerveja é o deus. Entre os celtas, Sabazios era o nome divino dado ao espírito de alienação produzido pela bebedeira de cerveja. Muito mais ao sul, Dionisos era, entre outras coisas, a objetivação sobrenatural dos efeitos psicofísicos do excesso de vinho. Na Mitologia Védica, Indra era o deus daquela droga não identificada que leva o nome de Soma. Semideus, destruidor de dragões, foi ele a magnífica projeção ao céu da estranha e gloriosa diversidade experimentada pelo intoxicado. Formando como uma só coisa com a droga, constitui-se, assim que Soma-Indra, na fonte da imortalidade, no mediador entre o humano e o divino. 

Nos tempos modernos a cerveja e os outros tóxicos que predispõem a autotranscendência já não são adorados oficialmente como coisa divina. A teoria sofreu uma mudança. Mas não assim a prática, toda vez que milhões e milhões de homens e mulheres civilizados continuam dando fé de sua devoção, certamente que não ao espírito liberador e transfigurador, mas, mais certamente sim ao álcool, ao haxixe, ao ópio e a todos seus derivados, aos barbitúricos e a quantos aditamentos traz o catálogo de tóxicos da antigüidade, capazes de servir como mediadores para obter a autotranscendência. Em todo caso, o que podia parecer um deus é atualmente um demônio. O que tinha que ser liberação é, com efeito, uma escravidão. A autotranscendência se produz para baixo, em direção ao infra-humano, essa zona que se acha a um nível inferior ao da personalidade. O mesmo que a intoxicação, a sexualidade em si, a sexualidade elementar, divorciada do amor, satisfazia por si mesmo e estava considerada como se se tratasse de um deus; adorada não só como o princípio da fecundidade, mas sim como uma manifestação da radical Diversidade, imanente em cada ser humano. Em teoria, a sexualidade elementar deixou, faz já muito tempo, de ser considerada como um deus; mas na prática ainda pode alardear de contar com umas hostes de inumeráveis sectários que assim a consideram. 


Há uma sexualidade elementar que é inocente e há uma sexualidade elementar que moral e esteticamente é sórdida. D. H. Lawrence tem escrito muito belas páginas a respeito da primeira. Jean Genét falou com tons patéticos e horripilantes da segunda. A sexualidade do paraíso e a sexualidade da rede de esgoto têm tanto uma como outra o poder de arrastar ao indivíduo além dos limites de seu isolado eu. Mas a segunda variedade, a mais corrente, toma àqueles que se deixam apanhar até afundá-los na zona do infra-humano e lhes dá o sentido de uma completa alienação, muito mais intensa que a alienação da primeira. Daí uma permanente atração por parte da luxúria e de seus estranhos equivalentes, tal como foram descritos no curso de nosso relato, para todos os que sentem o apresso de escapar à pressão de sua própria e escravizadora identidade. 

Na maioria das comunidades civilizadas a opinião pública condena a luxúria e o vício das drogas por as considerar como um extravio da moral. E à condenação moral terá que adicionar as sanções econômicas e a proibição por parte das leis. O álcool está loteado, a venda de narcóticos está proibida em todos os países, e certas práticas sexuais se acham qualificadas como delitos. Mas quando passamos dos tomadores de drogas e da sexualidade elementar à terceira das vias principais da autotranscendência descendente, encontramo-nos, por parte dos moralistas e dos legisladores, com uma atitude muito diferente e muito mais benévola, o qual parece surpreendente desde que o delírio da massa, mais imediatamente perigoso para a ordem social que a bebida e a luxúria, mais dramaticamente ameaça essa tênue crosta denominada decoro, moderação e mútua tolerância que constitui a cobertura de uma civilização. É verdade que um hábito de indulgência exagerada para com a sexualidade, generalizado e mantido com o passar do tempo, pode determinar como afirma J. D. Unwin [J. D. Unwin: Sex and Culture, Londres, 1934] uma diminuição da energia vital de toda uma sociedade, incapacitando-a, portanto, para alcançar ou manter um elevado nível de civilidade. De modo semelhante, o vício das drogas, se se vai estendendo e generalizando, pode rebaixar a eficiência militar, econômica e política da sociedade que o padeça. Nos séculos XVII e XVIII foi o álcool em bruto a arma secreta do tráfico de escravos na Europa; no XX a heroína foi para os militaristas japoneses. Bêbado, o negro era uma presa fácil e assim, quão mesmo com respeito aos chineses e o uso das drogas, podia-se confiar, graças ao álcool, em que a gente negra não ocasionasse perturbações a seus exploradores. Mas tudo isso tinha uma importância restringida. Na realidade, teria que pensar que toda sociedade permissiva se entrega, geralmente, à influência de seu veneno favorito. A droga é um parasita que atua no corpo político e social, mas um parasita cujo hóspede - falando metaforicamente - conta com suficiente força e bastante sentido para poder mantê-lo sob seu controle. Estas considerações também se aplicam à sexualidade. Nenhuma sociedade que assente a prática da sexualidade nas teorias do Marquês de Sade chegará a sobreviver; de fato, nenhuma sociedade chegou a pôr em prática teorias semelhantes. Até os mais prazenteiros dos paraísos da Polinésia possuem suas regras e suas ordenações, seus imperativos categóricos e seus mandatos. Contra o abuso da sexualidade, como contra o abuso das drogas, a sociedade se acha em condições de poder proteger-se com probabilidades de êxito. Em troca, sua defesa contra o delírio das massas e as desastrosas consequências que conduz é, na maioria dos casos, muito menos eficaz. Os moralistas profissionais que vozeiam invectivas contra a embriaguez guardam um silêncio muito estranho contra a intoxicação gregária, contra essa forma de autotranscendência para baixo que precipita até o nível do infra-humano, pondo em efervescência à massa. 

«Onde dois ou três se reúnam em meu nome, ali estou Eu em meio deles.» Em meio de duzentos ou trezentos, a presença divina se faz mais problemática. E quando o número alcança o nível dos milhares e de milhões, as probabilidades de achar-se Deus presente entre eles e na consciência de cada um, diminuem a tal ponto que se reduzem a zero. Porque é tal a natureza de uma multidão excitada (e toda multidão tem como condição iniludível a de estar sempre aberta à excitação automática), que ali onde se reúnem dois mil ou três mil indivíduos em massa, ali brilha necessariamente por sua ausência, não só a deidade, mas também a mesma humanidade comum a todos. O fato de pertencer a uma massa humana rouba ao homem a consciência de ser ele seu próprio eu e arrasta a estágios inferiores, às onduras de um reino onde o pessoal não conta, nem sequer existe, onde não existem responsabilidades, onde não existem nem o direito nem a ofensa, onde não há necessidade de um pensamento de discriminação e de julgamento, a não ser somente um intenso e confuso sentido de descomunal gravitação, um maciço interesse de instigar à alienação de rebanho. E essa alienação é, ao mesmo tempo, mais permanente e menos exaustiva que o que produz a luxúria; à manhã seguinte a vítima se acha menos deprimida que se se tivesse entregue ao álcool ou à morfina. Além disso, o frenesi da massa pode ficar satisfeito à margem de toda intenção perversa e até com a lucidez de uma intenção honorável. Porque longe de condenar o afundamento a que se leva às massas por meio de sua alienação, os dirigentes de uma Igreja ou de um Estado aspiraram com vivacidade sua prática sempre e quando pudesse ser aproveitada em benefício de seus próprios fins. Individualmente ou constituídos e disciplinados em agrupamentos, os homens e as mulheres que formam parte de uma sociedade sã, mostram uma grande capacidade de intelectualidade, de julgamento e de discernimento e sabem deixar-se iluminar pela luz dos princípios éticos. Agrupados - pelo contrário - como uma plebe, esses mesmos homens e mulheres se conduzem necessariamente como se não possuíssem faculdade racional nem gozassem de livre-arbítrio. A alienação maciça os reduz a uma condição muito abaixo do nível da pessoa e os afunda na irresponsabilidade anti-social. 

Drogados pela misteriosa peçonha que toda multidão transbordada segrega, caem em um estado de exacerbada sugestibilidade, muito parecido ao que produz uma injeção de sódio amytal ou um confinamento de tipo hipnótico. Em tal estado, não só darão crédito a qualquer disparate que seja propagado mas também estarão dispostos a atuar a partir de uma exortação ou uma ordem, tenham ou não tenham sentido, e por mais perversas e criminosas que sejam. Para os homens e as mulheres que se deixam influir pelo frenesi da massa, «tudo o que eu afirme três vezes é verdadeiro» e todo o eu afirme trezentas é revelação, quer dizer: a palavra diretamente inspirada por Deus. E isto é assim porque os homens que gozam de autoridade - os sacerdotes e os legisladores -, nunca proclamaram que modo inequívoco a imoralidade da marcha descendente no caminho da autotranscendência. Pois o delírio da massa, quando foi suscitado pelos membros da oposição e em nome de uns princípios por outros considerados como heréticos, sempre teve que ser condenado pelos que usufruíam o poder. Em troca, esse mesmo delírio ou frenesi promovido pelas pessoas que governam, em nome do que se afirma como ortodoxia, é missa de outro cantar. Em todo caso, onde os interesses dos homens ficam submetidos ao controle da Igreja e do Estado, a alienação das massas é considerada como recurso legítimo e desejável. Peregrinações e concentrações políticas, restaurações coribânticas e patrióticas paradas, tudo isso é apropriado e moralmente defensável quando se trata de nossas peregrinações, de nossas paradas. O fato real de que a maioria dos que tomam parte nestes atos se desumanizam temporalmente ao afundar-se nessa via, não significa nada, ao que parece, em comparação com o fato de que sua desumanização possa ser dirigida facilmente, com o fim de consolidar o poder religioso ou político que seja. 

Quando a alienação das massas é explorada em benefício dos governos e das igrejas ortodoxas, os exploradores sempre se cuidam de não dar excessivo fôlego a esse delírio coletivo. As minorias moderadas se valem dos desejos de seus submetidos dentro dessa via da autotranscendência descendente para duas coisas: primeiro, para distrai-los e transtorná-los e, segundo, para levá-los a um estado infra-pessoal de excitada sugestibilidade. Os cerimoniais religiosos e políticos são aceitos pelas massas com grande complacência, posto que são propícia oportunidade de afundar-se e embriagar-se em sua alienação, e são, ao mesmo tempo, confeccionados agradando pelos que manipulam às massas, porque lhes oferecem oportunidade, por sua vez, de dirigir a seu desejo o subconsciente de todos aqueles que não são capazes de exercitar sua razão nem são donos de sua vontade. 

O sintoma definitivo da alienação das massas é a violência maníaca. Exemplos da culminação desse delírio, exemplos nos quais pulsa um monstruoso espírito de destruição sem fundamento e que se oferecem em brutais auto-mutilações, em fratricida selvageria sem finalidade alguma e contra todo interesse nacional, são centenas de fatos que podem ilustrar e que ilustram muitas páginas dos manuais de antropologia e, com menos freqüência, mas com lamentável regularidade, as histórias dos povos e até das nações mais civilizadas. A não ser quando se trata de liquidar uma minoria impopular, as representações oficiais da Igreja e do Estado sempre procedem com cautela, pois nunca se sentem seguras de controlar o frenesi que provocam. Um escrúpulo que não se dá nos dirigentes revolucionários que odeiam o statu quo e alimentam só um desejo: criar um caos sobre o qual, quando chegarem ao poder, possam impor uma ordem nova. Quando o revolucionário explora a apetência dos homens a lançar-se a transcendência de seu afundamento, explora-a até os limites do frenético e do demoníaco. Aos homens e às mulheres enfermos do mal de sentirem-se isolados em seu eu e afligidos com as responsabilidades inerentes aos membros de uma sociedade, o revolucionário lhes oferece candentes oportunidades para lançar pela amurada todas essas preocupações com o recurso das paradas, das manifestações e das assembléias. Todos os órgãos do corpo político atuam segundo seus próprios fins. Uma multidão é o equivalente social do câncer. O veneno que segrega despersonaliza aos indivíduos que a compõem até tal ponto que os instiga a conduzirem-se com violência selvagem, que não se promoveria neles se estivessem em estado normal. O revolucionário excita seus seguidores a manifestarem seus extremos e piores sintomas de maciça intoxicação, e procede a dirigir seu frenesi projetando-o contra seus inimigos, os detentores do poder político, econômico e religioso. 


Ao longo dos últimos quarenta anos, as técnicas para explorar a ansiedade dos homens pela forma mais perigosa de autotranscendência descendente alcançaram um grau de perfeição único na história. Em primeiro lugar, há mais habitantes por quilômetro quadrado que antes e os meios para transportar grandes rebanhos de homens a considerável distância e de concentrá-los em um edifício ou em um estudo são muito mais eficientes que no passado. Além disso, realizaram-se novos inventos, que antes nem sequer se imaginavam, para excitar às multidões. Um é o rádio, que alargou enormemente o âmbito de percepção das roucas vociferações dos demagogos. Outro é o alto-falante, que amplifica e reduplica indefinidamente a música impetuosa da luta de classes e do nacionalismo militante. Outro é a câmara escura da qual se disse ingenuamente que «não pode mentir» e seus brotos o cinema e a televisão. Estes três deram facilidades de maneira absurda à objetivação de fantasias tendenciosas. Outro é, finalmente, a maior de todas nossas invenções sociais: a educação obrigatória e livre. 

Agora o mundo sabe ler e, em conseqüência, acha-se a mercê dos propagandistas (ou governamentais, ou comerciais), que são os donos das fábricas de papel, dos linotipos e das imprensas dos periódicos. Concentrem multidões de homens e mulheres previamente condicionadas e influídas pela leitura diária dos periódicos; adulem com altissonantes bandas de música; deslumbrem com brilhantes e espetaculares iluminações e confusões com a oratória de um demagogo - e em qualquer parte encontrarão um demagogo que é ao mesmo tempo explorador e vítima da alienação maciça -  e já verão como rapidamente podem reduzi-los a um estado de quase infra-humana necessidade. Jamais antes de agora tiveram oportunidade tão poucos homens para converter em loucos, maníacos ou criminosos a tanta gente. 

Na Rússia comunista, na Itália fascista, na Alemanha nazista, os exploradores da fatal inclinação dos homens ao delírio coletivo seguiram uma mesma direção. Quando se encontravam no campo da oposição revolucionária aspiravam às multidões que tinham sob seu domínio à destruição pela violência. Logo, quando chegaram ao poder, não permitiram que o delírio coletivo alcançasse sua plenitude e expansão total a não ser em relação aos estrangeiros e às vítimas propiciatórias. Tendo que defender os interesses criados em seu próprio statu quo, continham o deslizamento ao infra-humano em um nível prudente. Para estes neo-conservadores a intoxicação das massas era principalmente útil como meio de melhorar a sugestibilidade de seus indivíduos e fazê-los assim mais dóceis aos mandatos da nova autoridade. O pensamento independente e próprio é o melhor antídoto contra os que se acham inundados na massa. Daí a radical objeção dos ditadores às explicações psicológicas: «Intelectuais do mundo, unidos, nada têm a perder, que não seja seus cérebros». 

Drogas, sexualidade elementar, intoxicação coletiva: estes são os três caminhos mais conhecidos de autotranscendência descendente. Há muitos outros, não tão debulhados como estas grandes avenidas, mas sim encaminhados também à mesma meta da negação da pessoa. Considerem, por exemplo, a via do movimento rítmico. Nas religiões primitivas o movimento rítmico prolongado é um recurso ao que se vai para promover por indução um estado de êxtase infra-pessoal e infra-humano. A mesma técnica, para chegar ao mesmo fim, foi usada por muitos povos civilizados; por exemplo: pelos gregos, pelos hindus, por muitos dos dervixes do mundo muçulmano, pelas seitas cristãs dos Shakers e os pios roller. Em todos esses casos o movimento rítmico, lento e reiterativo é uma forma ritual deliberadamente praticada, a fim de suscitar uma ansiedade de transcendência obnubilante. A história recorda muitos casos esporádicos de involuntários incontroláveis dançarinos de giga. Esses zarândeos, que em uns países se chamam tarantismo e em outros baile de São Vito, produziram-se geralmente nos períodos de turbulência que revistam seguir a uma guerra, a uma epidemia ou a uma situação de fome coletiva e que são correntes nas regiões de malária endêmica. A inconsciente finalidade dos homens e mulheres que sucumbem a estas manias coletivas é da mesma espécie que a perseguida pelos sectários que se valem da dança como de um rito religioso, especialmente para escapar da concreta delimitação em que se acha sua pessoa e entrar em um estado no que não existem responsabilidades nem cargos de culpas passadas, nem futuros obsediante, a não ser só o presente, e a venturosa consciência de ser outro.

Intimamente associado com esse rito de produção do êxtase que é o movimento rítmico, temos esse outro rito de produção de êxtase que é o som rítmico. A música tem uma amplitude tão grande como a natureza humana, e pode dizer algo aos homens e às mulheres em cada um dos níveis e aspectos de seu ser, do estrito e sentimental do eu até o abstrato e intelectual, do meramente visceral até o do espírito. Em uma de suas inumeráveis formas, a música é uma droga de grande poder, já seja estimulante, já narcótica, e em alternância um e outro. Nenhum homem, por muito civilizado que seja, pode escutar durante longo momento o rufo do tambor ou do timbal dos africanos, ou as cantarolas da Índia, ou os hinos dos gauleses, e manter intactas suas faculdades de discernimento e sua personalidade autoconsciente. Seria interessante reunir um grupo dos mais eminentes filósofos das universidades mais famosas do mundo, encerrá-los em uma habitação de elevada temperatura, em companhia de alguns dervixes marroquinos e uns quantos bruxos haitianos, e medir, com aparelho de relojoaria ad hoc, o grau de sua resistência fisiológica aos estímulos do ritmo sonoro. Seriam capazes de maior resistência os positivistas, com sua lógica, que são mais fortes que os tomistas ou que os que seguem a doutrina do Vedanta? Que fascinante seria isto! Que frutífero campo o que se oferece a uma experiência semelhante! Enquanto isto não se leve a cabo, tudo o que podemos predizer com absoluta segurança é que, expostos aos tamtam e às cantarolas durante um tempo suficientemente longo, todos e cada um de nossos filósofos terminariam uivando e fazendo cambalhotas quão mesmo os selvagens. 

Os procedimentos do movimento e do som sujeitos a ritmo são, em geral, super-impostos - por assim dizer - quando se pretende a intoxicação coletiva. Mas há além outros procedimentos privados, procedimentos que podem ser experimentados pelo viajante solitário que não tem inclinação às expansões de tipo coletivo ou não conta com suficiente fé nos princípios, instituições e pessoas em cujo nome se leva a cabo a concentração das massas. Um desses procedimentos é o do mantram, [Prática da religião brahamânica] do qual Cristo dizia que era «vã reiteração». Nas cerimônias de adoração que se celebram publicamente, a «vã reiteração» quase sempre vai associada com o movimento de caráter rítmico; cantam-se ou pelo menos se entoam letanias e rezas. Por meio das rezas, quão mesmo com a música, produzem-se efeitos quase hipnóticos. A «vã reiteração», quando se exercita em privado, atua sobre a mente, não por sua associação com os sons compassados - já que surte efeito mesmo que as palavras são simples produto da imaginação-, a não ser em virtude de uma concentração da atenção e da memória. A constante reiteração da mesma palavra ou da mesma frase, origina com freqüência, um estado de iluminação ou um profundo arroubo. Uma vez promovido, esse arroubo pode ser gozado como o é, como uma deliciosa impressão de diversidade infra-pessoal, ou, deliberadamente com o intento de retificar a conduta pessoal por meio da auto-sugestão e de preparar o caminho da autotranscendência para o alto, para a culminação. A respeito da segunda possibilidade diremos algo mais adiante. Aqui estamos nos ocupando da «vã reiteração» como caminho descendente na espera da alienação intra-pessoal. 

Agora temos que considerar uma questão estritamente fisiológica: é o método de salvação da personalidade isolada em si mesmo: a via corporal da penitência. A violência destrutiva, que é o sintoma do frenesi coletivo, não é invariavelmente dirigida para fora. 

A história das religiões abunda em relatos horrendos de autoflagelações, de navalhadas e rasgo em carne própria, de autocastrações e até de suicídios. Esses atos são conseqüência de um delírio coletivo e são executados em estado de frenesi. Coisa muito diferente é a penitência corpórea entendida individualmente e a sangue frio. Neste caso, a tortura que alguém se inflige a si mesmo tem sua origem em um ato de vontade pessoal; mas seu resultado - ao menos em alguns casos - é uma transformação temporária da personalidade, que se achava sozinha, em outra coisa distinta. Em rigor esta outra coisa distinta é a consciência - que por sua intensidade se faz exclusiva - da dor física. A pessoa que se tortura a si mesmo se identifica com sua dor e, ao fazer-se mera consciência do corpo que padece, sente-se livre da presente frustração, daquela obsessiva ansiedade sobre o futuro que constitui, em grande parte, a realidade do eu neurótico. Foi uma liberação da personalidade, um trânsito para baixo, dentro de um estado de pura tortura fisiológica. Quem se atormenta não se vê obrigado por necessidade iniludível a permanecer nessa região da consciência infra-pessoal. À maneira do homem que faz uso da «vã reiteração» para chegar além de si mesmo, que se atormenta a si mesmo pode ser capaz de valer-se de sua alienação temporária da personalidade como de uma ponte - por assim dizer - para partir acima no fluir da vida do espírito.


Isto nos situa ante uma questão muito importante e verdadeiramente difícil: Até onde e em que circunstâncias é possível ao homem empreender a marcha pelo caminho descendente, a fim de obter uma transcendência espiritual? A primeira vista parece óbvio que o caminho para baixo não pode ser jamais caminho que vá para cima. Mas na realidade da existência há questões que não são tão simples como aparecem neste mundo maravilhoso de nossos pulcros e ordenados vocábulos. Na vida atual um movimento descendente pode ser, às vezes, o princípio de uma marcha para o alto. 

Quando sai do ego se quebra e começa a ter consciência de diversificações subliminares e fisiológicas latentes abaixo da personalidade, costuma acontecer que advertimos um vislumbre momentâneo, mas apocalíptico, dessa outra Diversidade que é o Fundamento de todo ser. Entretanto, alguém se encontra confinado em seu interior, isolada personalidade permanece inconsciente dos vários não um mesmo com os quais está associado: o orgânico não um mesmo, o subconsciente não um mesmo, o coletivo não um mesmo do meio psíquico em que todos nossos sentimentos têm sua existência, e o imanente e transcendente não um mesmo do espírito. Qualquer liberação, embora seja por um caminho descendente, fora da personalidade isolada, faz possível, pelo menos, um momentâneo conhecimento do não um mesmo em seus distintos níveis, inclusive o mais elevado. William James, em suas Variedades da experiência religiosa, dá-nos exemplos de «revelações anestésicas» logo depois da inalação de gás hilariante. Os alcoólicos experimentam às vezes teofanias desse tipo e no curso de intoxicação produzida por uma droga qualquer se dão, provavelmente, momentos nos quais a consciência de um não um mesmo, superior ao eu que se desagrega, faz-se, sem mais, possível. Mas esses ocasionais brilhos de revelação terão que obtê-los a um preço muito elevado. Para o viciado em drogas, o momento em que ressurge a consciência de seu espírito (se chegar a produzir-se) dá lugar imediatamente a um estupor infra-humano - ou frenesi, ou alucinação - seguido de um acusado e tremendo mal-estar e, depois, de uma permanente e fatal piora de saúde do corpo e das faculdades mentais. Só de vez em quando pode uma simples «revelação anestésica» obrar como qualquer outra teofania para levar um sujeito receptor a um esforço de autotransformação e autotranscendência para o alto. Mas o fato de que uma coisa assim chegue a acontecer algumas vezes, jamais justificará o emprego dos métodos químicos de autotranscendência. Este é um caminho descendente e, a maioria dos que o seguiram chegarão a um estado de degradação no que os períodos do êxtase infra-humano alternarão com os períodos de personalidade consciente, tão desprezível que, qualquer evasão, embora seja por meio do lento suicídio da entrega às drogas, parecerá preferível ser uma pessoa. 

O que é verdade das drogas é verdade, mutatis mutandis, da sexualidade elementar. O caminho se desliza costa abaixo, mas ao longo desta rota podem dar-se ocasionalmente teofanias. Os deuses opacos - como os denominou Lawrence - podem trocar seu sinal e fazer-se luminosos. Na Índia há uma ioga, a Trantric, apoiada em uma técnica fisiopsicológica, cuja finalidade aponta à transformação da autotranscendência ascendente. No mundo ocidental, o equivalente mais próximo às práticas dessa ioga foi a disciplina sexual ideada pelo John Humphrey Noyes e praticada pelos membros da Oneida Community. Na Oneida Community a sexualidade elementar, não tão somente foi disciplinada com êxito, mas sim também, foi feita compatível com, e subordinada a, uma forma de cristandade protestante que pregava sinceramente e atuava com seriedade. 

A intoxicação maciça desintegra o eu mais a fundo e de raiz que a sexualidade elementar. Seu frenesi, suas loucuras, suas exageradas sugestibilidades, podem ser equiparadas somente com as intoxicações promovidas por drogas como o álcool, o haxixe e a heroína. Mas até aquele que forma parte de um povo excitado pode alcançar - em uma das primeiras etapas de sua autotranscendência em descida - uma genuína revelação da Diversidade que se oferece acima da pessoa. Esta é uma das razões pelas quais um indivíduo pode desprender-se de sua influência e ficar à margem do ambiente opressivo de uma exaltação coribântica, seja religiosa ou política. Em virtude do fato de que os homens ou as mulheres que formam parte de uma multidão se sintam inclinados e inclinem a ser brinquedo de uma sugestibilidade superior a normal, os resultados que se produzam tanto podem ser favoráveis como realmente desastrosos: enquanto se acham neste estado de sugestibilidade, como sujeitos submetidos às exortações dominantes, voltam para a posse de suas faculdades, tal como acontece depois de um período de hipnose. Tanto o demagogo como o pregador ou o ritualista desintegram o eu de seus ouvintes agrupando-os em rebanho e alucinando-os com abundantes dose de vãs reiterações e monótona cantarola. Então = a diferença do demagogo -, os outros apelam a suas particulares sugestões, algumas das quais podem ser efetivamente cristãs. Essas sugestões, se são «assimiladas», resolvem em uma reintegração da personalidade de cada um  - até esse momento afundada e desfeita - a um nível um pouco mais elevado. Podem dar-se também reiterações da personalidade sob a influência de mandatos pós-hipnóticos no processo de excitação de um povo movido por paixão política. Mas esses mandatos são, por uma parte, incitações ao ódio e, por outra, à obediência cega e à ilusão compensatória. Iniciados com uma dose enorme de veneno coletivo, confirmados e estipulados pela retórica de um maníaco que é ao mesmo tempo um maquiavélico explorador das debilidades de outros mortais, a «conversão» política resolve na criação de uma personalidade nova, pior que a anterior e muito mais perigosa, já que está entregue de coração a um partido cuja primeira finalidade consiste na liquidação de seus oponentes. 

Distingui entre demagogos e religiosos, sobre a base de que estes últimos podem fazer algo bom, enquanto que os primeiros apenas se fizerem algo mais dada a natureza das coisas que suscitar a ofensa. O qual não quer dizer que os religiosos que se valem da intoxicação da multidão estejam totalmente isentos de culpabilidade. Pelo contrário, no passado, foram responsáveis por maldades quase tão descomunais como as ocasionadas pelos revolucionários demagogos de nossos tempos, aniquilando vítimas sem conta em um rosário sem fim. No curso das seis ou sete últimas gerações, o poder das organizações religiosas para exercitar o mal declinou, ostensivamente, em nosso mundo do ocidente. Isto é devido, em primeiro lugar, ao assombroso progresso da técnica e a conseqüente demanda, por parte das massas, de ilusões compensatórias, as quais se manifestam melhor como algo positivo que como lucubração metafísica. Os demagogos oferecem essas ilusões pseudo-positivas e os religiosos não. Segundo a força atrativa das igrejas vai declinando, assim vai declinando conseqüentemente sua influência. E assim declinam também sua riqueza, seu poder político e, ao mesmo tempo que estes, sua capacidade para exercitar o mal em grande escala. As circunstâncias liberaram aos eclesiásticos de algumas das tentações às quais nos séculos passados sucumbiam quase invariavelmente seus predecessores. Deveriam ser estimulados a liberar-se voluntariamente e por si mesmos de tais tentações, que ainda subsistem. Entre tais tentações uma muito principal é a de alcançar o poder, a fim de aspirar o desejo dos homens por uma transcendência de inibição. E à verdade, não se pode justificar moralmente o fato de induzir, a consciência à intoxicação alucinante das multidões, nem que seja em nome da religião, nem que se dê como bom que tudo é pelo bem do intoxicado. 

A propósito da autotranscendência horizontal não é necessário dizer muitas coisas e não porque o fenômeno deste tipo de transcendência careça de importância, mas sim porque se trata de coisa muito freqüente e que pode ser facilmente submetida a análise. 


Quanto ao fato de escapar ao espanto de sentir-se pessoa isolada e sozinha, a maioria das pessoas escolhem quase sempre um caminho que não é o que vai para cima nem o que vai para baixo, a não ser um caminho plano. Todos se identificam com alguma causa que supera em amplitude o âmbito de seus interesses imediatos, mas que não é degradantemente inferior e, se resultar que é mais elevada, só o é na classe dos valores sociais correntes. Nesse caminho horizontal  - ou quase horizontal - a transcendência pode dar-se em virtude de um pouco tão corriqueiro como uma mania ou tão estimável como o amor matrimonial. Pode dar-se também pela identificação que alguém faz de si mesmo com qualquer atividade humana, da direção de um negócio até a investigação nuclear, da composição de uma sinfonia até a busca e coleção de selos, das campanhas de tipo político até a educação dos meninos ou o estudo dos costumes matutinos dos pássaros. A autotranscendência horizontal é da maior importância. Sem ela não haveria nem arte, nem ciência, nem lei, nem filosofia e nem sequer civilização. E, certamente, tampouco haveria guerra nem odium theologicum ou ideologicum, nem intolerância sistemática, nem perseguição. Esses grandes bens e esses enormes males são os frutos da capacidade do homem para a total e contínua auto-identificação com uma idéia, um sentimento, uma causa. Como podemos ter o bem sem o mal, como gozar de uma elevada civilização, sem saturação de bombardeios e exterminação de hereges religiosos ou políticos? A resposta é que não podemos manter o bem tão longo tempo como nossa autotranscendência permanece em atitude horizontal. Quando nos identificamos com uma idéia ou com uma causa é que nos achamos de fato em transe de adoração algo de tipo doméstico, algo parcial e paroquial, algo que, não obstante sua nobreza, tem características excessivamente humanas. «O patriotismo», segundo a conclusão a que chega um grande patriota a véspera de sua execução, decretada pelos inimigos de sua pátria, «não é suficiente». Nem é socialismo, nem comunismo, nem capitalismo; nem tampouco é arte, nem ciência, nem ordem pública, nem religião positiva, nem Igreja. Tudo isto é indispensável, mas nenhuma dessas coisas é suficiente. A civilização exige do indivíduo uma decidida auto-identificação com a mais eminente das causas da natureza humana. Mas se esta auto-identificação com o que é humano não vai acompanhada de um consciente e consistente esforço para levar a sua culminação a autotranscendência para o alto na vida universal do Espírito, os bens conseguidos aparecerão sempre mesclados com males que os contrapesem. «Da verdade mesma fazem um ídolo - escreveu Pascal-, posto que verdade sem caridade não é Deus, a não ser sua imagem e ídolo, que nunca devemos amar nem adorar.» E não deixa de ter sua razão o adorar a um ídolo; coisas na verdade inconveniente. A adoração da verdade à margem da caridade - auto-identificação com a ciência que não vai acompanhada de uma auto-identificação com o Fundamento de todo ser - resolve nessa particular situação em que agora nos encontramos. Todo ídolo, exaltado como é, deriva, ao longo de seu curso, fazendo um Moloch faminto de sacrifícios humanos.


Texto tirado do Apêndice do livro "Os demônios de Loudun", de Aldous Huxley.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Julius Evola sobre o uso de drogas

Indo além da música e dança, somos levados para uma área ainda maior e mais problemática, que abrange muitos outros métodos que estão sendo cada vez mais utilizado pela geração mais jovem. A geração Beat norte-americana, reúne álcool, o orgasmo sexual e drogas como ingredientes essenciais para dar-lhes um sentido de vida, técnicas radicalmente associados que, na realidade, têm uma algo em comum ao que me referi mais cedo.

Não preciso ficar muito nesse assunto. Além do que será dito sobre sexo em outro capítulo, devo dirigir aqui apenas algumas considerações sobre as drogas, que são meios que, entre todos aqueles usados em certos setores do mundo contemporâneo, é aquele que mais claramente possui um objetivo de um refúgio em êxtase.

A disseminação crescente de drogas entre os jovens hoje é um fenômeno muito significativo. O especialista, Dr. Laennec, escreve: "Em nossas terras, a categoria mais comum de viciados em drogas é representada pelos neuróticos e psicopatas para quem a droga não é um luxo, mas um alimento essencial, a resposta à angústia ... A toxicomania agora aparece como um sintoma adicional de síndrome neurótica do paciente, um sintoma entre outros, a última defesa, logo tornando-se a única defesa". Essas considerações podem ser generalizadas, ou melhor, estendida, a um círculo ainda maior de pessoas que não são clinicamente neuróticas: estou falando acima de tudo sobre os jovens que têm mais ou menos distintamente percebido o vazio e tédio da existência moderna, e estão buscando uma fuga dela. O impulso pode ser contagioso: o uso de drogas se estende a indivíduos que não têm esse ímpeto original como um ponto de partida e, em tais pessoas, isso só pode ser considerado como um evitável mau hábito. Dando início ao uso de drogas, para se encaixar ou estar em voga, eles sucumbem à sedução dos estados causados ​​pela droga, o que muitas vezes destrói sua já fraca personalidade.

Com as drogas, nós temos uma situação semelhante àquela da música sincopada. Ambas eram frequentemente transposições ao plano profano e "físico" de meios que eram originalmente utilizados para abrir-se até o supra-sensível em ritos de iniciação e experiências similares. Assim como as danças das músicas sincopadas modernas derivam da dança êxtase [Afrikansk], várias das drogas utilizadas hoje e criadas em laboratórios correspondem a drogas que foram muitas vezes utilizadas com fins "sagrados" nas populações primitivas, de acordo com as tradições antigas. Isto é verdade até mesmo para o tabaco; fortes extratos de tabaco eram usados pelos jovens nativos americanos em vista de sua retirada da vida profana e para obter "sinais" e visões. Uma reivindicação semelhante pode ser feita ao álcool, dentro de certos limites; estamos cientes da tradição centrada em bebidas "sagradas", como o uso do álcool nos rituais dionisíacos e similares. Por exemplo, bebidas alcoólicas não eram proibidas no Taoísmo antigo: ao contrário, elas eram consideradas "essências da vida", induzindo uma intoxicação que, como a dança, poderia levar a um "estado mágico de graça", procurados pelos chamados homens de verdade. Além disso, extratos de coca, mescalina, peyote e outros narcóticos eram usados, e muitas vezes ainda utilizados, ​nos rituais de sociedades secretas da América do Sul e Central.

Ninguém mais tem uma ideia clara ou adequada sobre tudo isso, porque não há ênfase suficiente no fato de que os efeitos dessas substâncias são bastantes diferentes de acordo com a constituição, a capacidade específica para reação, e - nesses casos de usos não-profanos - a preparação espiritual e a intenção do usuário. Lewin falou sobre uma "equação tóxica" que é diferente em cada indivíduo, mas esse não foi dado ênfase necessária nesse contexto, dado que a situação existencial bloqueada da maioria de nossos contemporâneos limita a possível variedade de reação as drogas.

No entanto, a "equação pessoal" e a zona específica sobre quais as drogas, incluindo o álcool, agem, levam o indivíduo em direção a uma alienação e uma abertura passiva para estados que lhe dão uma ilusão de maior liberdade, uma intoxicação e uma sensação de intensidade desconhecida, mas que na verdade tem um caráter de dissolução e que de nenhum modo "leva para o além". De modo a esperar um resultado diferente a partir dessas experiências, ele teria que ter em seu comando um grau excepcional de atividade espiritual, e sua atitude seria o oposto daqueles que procuram e precisam de drogas para escapar de tensões, eventos traumáticos, neuroses, e sentimento de vazio e absurdidade.

Já mencionei a técnica africana polirítimica: a energia é bloqueada em uma estase contínua, a fim de desencadear uma energia de ordem diferente. Na estase inferior dos povos primitivos isso abre o caminho para a posse de poderes obscuros. Eu disse que, em nosso caso, essa energia diferente deve ser produzida pela resposta do "ser" ao estímulo. A situação criada pela reação a drogas e até mesmo ao álcool não é diferente. Mas esse tipo de reação quase nunca ocorre; a reação à substância é muito forte, rápida, inesperada, e externa para ser simplesmente experimentada, e, portanto, o processo não pode envolver o "ser". É como se uma poderosa corrente penetrasse na consciência sem a necessidade de consentimento, deixando a pessoa apenas notar uma mudança de estado; ele está submerso nesse novo estado, e é "usado por ele". Assim, o efeito verdadeiro, mesmo que não seja notado, é um colapso, uma lesão do Eu, por todo sentido de uma vida exaltada ou de uma beatitude transcendental.
Para o processo de proceder de forma diferente, deveria ocorrer esquematicamente da seguinte forma: no ponto em que a droga libera energia x de uma forma exterior, um ato do Eu, do "ser", deve trazer sua própria energia dual, x + x, para a corrente e mantém-la até o fim. Da mesma forma, uma onda, apesar de inesperada, pode servir a um nadador hábil com a qual colide, impelindo-o para além dela. Assim, não haveria colapso, o negativo seria transformado em positivo, nenhuma condição de passividade seria formada com respeito à droga, a experiência de uma certa maneira seriam descondicionada, e, como resultado, não se submeteria a uma dissolução extática, desprovido de qualquer verdadeira abertura para além do indivíduo e só apoiada por sensações. Em vez disso, em certos casos, haveria a possibilidade de entrar em contato com uma dimensão superior de realidade, que era a intenção do uso não profano e antigo das drogas. Até certo ponto, os efeitos prejudiciais das drogas seriam eliminados.

Neste ponto, vai ser útil adicionar alguns detalhes. Em geral, as drogas podem ser divididas em quatro categorias: estimulantes, antidepressivos, alucinógenos e narcóticos. As duas primeiras categorias não nos dizem respeito: por exemplo, o uso de tabaco e álcool é irrelevante a menos que se torne um vício, ou seja, leve ao vício.

A terceira categoria inclui drogas que trazem a estados em que se experimenta várias visões e aparentemente outros mundos dos sentidos e espírito. Por conta desses efeitos, elas também são chamadas de "psicodélicas", sob o pressuposto que as visões projetam e revelam conteúdo oculto da profundidade da sua própria psique, mas que não são reconhecidos como tais. Como resultado, os médicos até mesmo tentaram utilizar drogas como mescalina para exploração psíquica análoga a psicoanálise. Entretanto, quando tudo é reduzido a projeção de um substrato psíquico, nem mesmo experiências desse tipo podem interessar ao homem diferenciado. Deixando de lado os conteúdos perigosos das sensações e seus paraísos artificiais, essas fantasmagorias ilusórias não levam alguém para além, mesmo se não se possa excluir a possibilidade que o que está agindo não é meramente apenas o conteúdo do seu próprio subconsciente, mas influências obscuras que, encontrando a porta aberta, se manifestam nessas visões. Podemos até dizer que essas influências, e não o substrato simples reprimido pela psique individual, são responsáveis ​​por certos impulsos que podem estourar nesses estados, até mesmo levando alguns compulsivamente a cometer atos criminosos.

A utilização eficaz dessas drogas pressupõe uma "purificação" preliminar, isto é, uma neutralização adequada do substrato inconsciente do indivíduo que é ativado; assim, as imagens e os sentidos podem se referir a uma realidade espiritual de uma ordem superior, em vez de ser reduzido a uma subjetiva, orgia visionária. Se deve enfatizar que instancias desse uso mais elevado de drogas eram precedidos não somente por períodos de preparação e purificação do sujeito, mas também que o processo seja devidamente guiado através da contemplação de certos símbolos. Às vezes, "consagrações" também eram prescritas para fins de proteção. Há relatos de certas comunidades indígenas na América do Sul, cujos membros, apenas sobre influência de peyote, ouviam as figuras esculpidas nas ruínas de templos antigos "falarem", revelando seu significado em termos de iluminação espiritual. A importância de atitudes individuais claramente aparece dos completamente diferentes efeitos da mescalina sob dois escritores contemporâneos que experimentaram drogas, Aldous Huxley e RH Zaehner. E isso é um fato, no caso de alucinógenos como ópio e, em parte, haxixe, essa suposição ativa da experiência que é essencial, do nosso ponto de vista, é geralmente excluída.

Resta a categoria de narcóticos e de substâncias que também são usados para anestesia geral, cujo efeito normal é a suspensão total da consciência. Isto corresponde a um descolamento que excluiria todas as formas intermediárias "psicodélica" e os conteúdos insidiosos, êxtase, e sensuais, deixando um vazio. No entanto, se a consciência for mantida, com o Eu puro no centro, poderia facilitar a abertura de uma realidade superior. Mas as vantagens seriam compensadas pela extrema dificuldade de qualquer treinamento capaz de manter a consciência individual.

Em geral, deve-se ter em mente que o uso de drogas, mesmo para um fim espiritual, isto é, para vislumbrar transcendência, tem seu preço. Como drogas produzem determinados efeitos psíquicos ainda não foi determinado pela ciência moderna. Diz-se que algumas, como o LSD, destroem certas células cerebrais. Um ponto é certo: uso habitual de drogas traz uma certa desorganização psíquica: deve-se substituir a elas o poder de atingir estados análogos através de meios próprios. Portanto, quando se opta por uma via com base na unificação máximo de faculdades psíquicas, estes inconvenientes devem ser mantidos em mente.

O leitor comum, provavelmente, acha essas ideias tediosas, faltando-lhe os pontos de referências pessoais para dar orientação. Mas, novamente, é o desenvolvimento de nosso argumento que exigiu essa breve digressão. Na verdade, apenas em lidar com essas possibilidades, tão incomuns como são, pode-se identificar adequadamente como uma antítese necessária. Isso nos mostra o bloqueio que impede qualquer valor positivo na evocação do elementar no mundo de hoje, deixando apenas os processos puramente dissolutivos e regressivos que prevalecem cada vez mais nas novas gerações.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Filomania (Por Giovanni Papini)

Hoje á noite, na Coupole, me fizeram conhecer um tal Rabah Tehom, que veio a Paris para iniciar, ao que diz, a revolução anti-filosófica Na nossa "roda", onde estavam reunidos dois romenos, um senegalês, um peruano o um sueco, o pequeno Rabah Tehom, gnomo do Oriente vestido de cor de laranja, arrotava as suas palavras em péssimo francês.

A cor do seu rosto, sob a luz deslumbrante, lutava entre o violeta extinto e o verde pisado. Falta-lhe um braço: diz que o perdeu em uma batalha, mas não se sabe em que guerra. Em torno dos cabelos gordurosos carregava uma corôa de louros de papel dourado. Nenhum licor o atemorizava.

— Que é que tem ganho os senhores — grasnava Rabah Tehom, levantando o único braço para os alampadários — seguindo a razão e adotando a inteligencia? "Não se alcançou a verdade, o homem é cada vez mais infeliz, e a filosofia, que deveria ser, segundo os antigos farsantes gregos, a coroa da sabedoria, se retorce entre as contradições ou confessa a sua impotência. Os dois malfeitores foram castigados desde o princípio - Sócrates com o veneno, Platão com a escravidão - mas não foi suficiente. Eles envenenaram e aprisionaram oitenta gerações com os seus ensinamentos pestilenciais. O monstruoso Sócrates se vingou da cicuta ateniense intoxicando os passivos europeus durante vinte e quatro séculos, com a sua dialética. Os resultados são visíveis. O exercício teimoso e estéril da razão levou ao ceticismo, ao niilismo, ao tédio, ao desespero. As poucas verdades entrevistas com aquele método conduziram ao terror. Na idade moderna, os filósofos se refugiaram finalmente na loucura: Rousseau, Comte e Nietzsche morreram loucos. E só graças a essa fortuna puderam renovar o pensamento ocidental com ideias mais fecundas e temerárias.

"Aqui está o segredo da redenção . Se a inteligencia leva a dúvida ou a falsidade, é de presumir que a insensatez, por idêntica lei, conduza a certeza e a luz. Se o excesso de raciocínio leva, não a conquista da verdade, mas a loucura, é claro que é preciso partir da loucura para chegar a uma racionalidade superior que resolverá os enigmas do mundo.

"A filosofia - amor à sabedoria - precisa ser substituída pela Filomania, o amor à loucura. Mas, a loucura não se ensina como se pode ensinar a lógica e a ciência do método. É necessário desabituar os cérebros humanos das práticas nefastas do velho racionalismo. Não basta abolir o culto desastroso da inteligência; é preciso extirpar das nossas mentes os tumores do intelectualismo, digamos antes, se o querem, a claridade, o bom sentido, a mania indutiva e dedutiva, o intelecto. Quem quiser ascender ao céu superior da revelação interna e universal, deve, antes de mais nada, enlouquecer. O sábio nunca poderá entrar no paraíso da verdade; vinte e cinco séculos de experiência contra a natureza, demonstram-no de modo irrefutável.

"Tomando o caminho contrário, adotando, andazamente, o delírio como ponto de partida, poderemos, talvez, aferrar o que não ponde ser aferrado por nenhuma especie de raciocínios. Contudo, a Filomania não pode ser difundida por meio de livros corno a fracassada Filosofia. É preciso extrair a inteligencia aos mais aptos; educar fora dos sistemas normais, os futuros criadores da Filomania. Não nos podemos servir dos loucos no estado natural, no qual lhes restam muitos rastros do ensino racionalista e do antigo pensamento. Estou percorrendo a Europa para recolher dinheiro que me permita fundar o primeiro "Instituto de Demência Voluntaria", do qual deverão sair os pionniers da Filomania. Os programas estão dispostos e eu me comprometo a transformar, em três anos, o animai mais racional, empestado de lógica, em um louco milagroso, profético e demiúrgico. Em três gerações, a Filomania florescerá sobre a terra, iniciando uma civilização nova,  que corresponderá ás exigências milenares do espirito humano e dará a paz a todos na suprema certeza."

Rabah Tehom reajustou a coroa de louros que lhe havia caído quase sobre os olhos, enxugou a fronte, bebeu whisky que um dos romenos lhe fizera trazer e interrogou com o olhar os ouvintes silenciosos. Apiedando-me de sua melancólica maluquice, tirei do bolso uma nota de cem francos e entreguei-a ao apóstolo da Filomania.

- Aqui está - disse-lhe - o meu donativo para a Escola da Demência Voluntária. É pouco, mas creio que uma escola tal deve ser muito menos necessária do que se lhe afigura.
Rabah Tehom moveu a cabeça com ar de comiseração.

- Todos podres pela inteligencia! - murmurou. - Vem o médico e lhe respondem com uma esmola.
Mas, apesar dos eu mau humor, meteu com cuidado os cem francos na carteira, sem me agradecer, e pôs-se de pé. Tirou a coroa dourada da cabeça, enfiou-a no bolso, e, depois de haver feito uma inclinação muito mesureira, saiu da Coupole, orgulhoso e solene como um profeta enviado ao desterro.


Conto do livro Gog de Giovanni Papini 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sendo você mesmo (por Lord Northbourne)

Se as observações deste capítulo são endereçadas ao leitor em pessoa é porque a questão tratada diz respeito apenas ao indivíduo como tal, como uma relação consigo mesmo. Não é abstrato, teórico e remoto, mas imediato e pessoal. Surge de um conselho, concedido generosamente para nós nesses dias: é necessário acima de tudo “ser você mesmo”. Esse conselho parece simples o bastante até que se comece a perguntar como exatamente aplicar isso em seu próprio caso. Para você, o leitor, “seu próprio caso” é o seu caso e de ninguém mais.

O que exatamente é você, essencialmente e não acidentalmente? O que é você “em você mesmo” e não como um açougueiro, padeiro ou vendedor? Você não pode tirar proveito em ser você mesmo até que você tenha certeza que sabe responder essa questão.

É você um ser criado por Deus a Sua própria imagem, nomeado por ele como seu representante na terra e, portanto, dado o domínio sobre ela, equipado para o cumprimento dessa função com uma relativa liberdade de escolha tanto em pensamento e ação? Você possui liberdade, que reflete a ausência total de restrição atribuível somente a Deus, mas ao que ao mesmo tempo te faz susceptível ao erro? Você é essencialmente isso e somente acidentalmente algo diferente?

Ou, alternativamente, você é essencialmente uma espécie do produto mais avançado até então conhecido de uma evolução contínua e progressiva, começando desde o ajuntamento fortuito de uma molécula proteica em alguma lama primitiva, sendo a própria lama um raro e mais ou menos produto da evolução das galáxias desde um ponto inicial que os físicos ainda não chegaram em consentimento?

Se você escolhe a primeira, a alternativa mística ou religiosa, você não necessariamente exclui a priori qualquer descrição plausível de sua situação física no Universo. Você, entretanto, exclui absolutamente tanto a primazia e a finalidade de tal descrição. Ela nunca pode ser mais que uma descrição, e como tal, não é uma explicação, mesmo se ela for a mais correta e completa que o homem possa fazer. Então, se você aceita a alternativa mística, você deve recusar aceitar qualquer descrição como uma explicação adequada do que você é.

Se você escolhe a segunda, a alternativa física (a palavra ‘física’ aqui está sendo usada no sentido mais ou menos da palavra ‘natural’, então isso inclui tanto a mente como o corpo) você desse modo exclui a primeira. Assim você considera seu corpo, seus pensamentos e seus sentimentos comprometendo tudo que você é, de tal forma que qualquer coisa chamada de ‘mística’ ou ‘religiosa’ só pode ser explicada como um produto desses três. Se você escolhe a alternativa física, “ser você mesmo” significa simplesmente soltar as rédeas de seus desejos corporais, seus pensamentos e seus sentimentos. Isso, de fato, parece o que você e eu, e especialmente nossas crianças, somos aconselhados a fazer. A desordem que daí surge frequentemente provoca nossa surpresa e reprovação.  Incidentalmente, se você solta as rédeas a essas três coisas, você está se jogando diretamente nas mãos de quem sabe como manipula-los para seus próprios fins. Com a ajuda da psicologia moderna, essa manipulação tornou-se uma ciência.

E mesmo assim, quão correto foi o conselho nos deram! Se nós somos ‘feitos à imagem de Deus’, tudo que precisamos fazer é ‘ser nós mesmos’.

Se, com esse fim, você tentar encontrar o que você é através de uma observação de você mesmo, o que você parece ser para você mesmo será o que você quer ser acidentalmente e não o que você é essencialmente. Quando você olha pra si mesmo, ou pensa que você está fazendo algo, há um que olha e há algo que ele vê. Eles não podem ser o mesmo. Se eles fossem o mesmo, eles seriam um só e não dois, portanto nenhuma relação de “olhando para” ou outra de qualquer tipo poderia surgir. Por isso, quando você olha pra si mesmo, o seu “eu” essencial está realmente olhando para o seu “eu” acidental. Em outras palavras, você está olhando para aquilo que nos dias de hoje é chamado de sua “personalidade”.

Ainda assim você é uma pessoa e não duas. Não importa o que aconteça, você é sempre a mesma pessoa; você continua você mesmo sob todas as vicissitudes que possam afetar seu corpo ou sua mente, pelo menos enquanto você é são. Seu corpo e sua mente juntos constitui o que as vezes é chamado de ‘complexo psicofísico’. Esse complexo nunca é o mesmo, nem por dois minutos, seja materialmente ou fisicamente; mas sua identidade se mantem constante seja você jovem ou velho, gordo ou magro, feliz ou triste, estando acordado ou dormindo. Se não fosse assim, não haveria continuidade em sua existência, nenhuma individualidade e nenhuma percepção de mudança. Existe um “você” que é o ponto de referência invariável, ou centro, e existe coisas mutáveis que você é consciente. O primeiro não é identificado com o último. Essas coisas mutáveis incluem tudo que você pode perceber e conhece distintivamente, e elas são do ambiente, periféricas e externas em relação ao centro consciente que é seu verdadeiro “eu”. Seu complexo psicofísico por inteiro, na medida que você pode perceber e conhecê-lo distintamente, evidentemente está entre essas coisas externas e mutáveis. Ele pertence a você, mas não é ao “você” que ele pertence. É a “personalidade” que você pode procurar desenvolver, mas não é o “você” que busca por desenvolvimento.

Assim, se você quer saber quem você realmente é, para que você saiba o que significa “ser você mesmo”, você deve dirigir sua atenção para o interior e não para o exterior; isso é, para longe de todos os objetos dos sentidos, incluindo seu próprio corpo, mente e sentimentos, em direção ao ponto central indistinguível do seu ser. Essa atenção para o interior deve, evidentemente, se voltar para o oposto daquela atenção exterior. Hoje em dia nós somos ensinados que o único caminho para chegar a verdade é pela intensificação e refinamento da observação. Dessa forma, para a maioria de nós, a atenção interior envolve algo que nunca tentamos conscientemente, ou mesmo nem sequer consideramos.

É verdade que não podemos viver sem observação, nossos sentidos não possuem outra função. Entretanto, se aquilo que foi dito é verdade, qualquer aproximação da verdade que se dá pela observação e nada mais, exclui a mais importante de todas as verdades, a verdade onde todas as outras verdades se fixam, isto é, a verdade sobre o que nós verdadeiramente somos. Se nós estamos enganamos sobre o que somos, e por tanto em relação com tudo mais, e sobre o propósito da nossa vida, e sobre qual é nosso destino, não é de muita utilidade saber qualquer coisa a mais, por que as chances são que usemos nosso conhecimento de forma errada, provavelmente para nosso próprio mal. Isso não é óbvio? E isso não sugere, de forma bastante alarmante, exatamente o que parece estar acontecendo?

Sem dúvidas você já deve ter percebido que essa outra aproximação à verdade, essa atenção interior ou ‘concentração’ como se fosse contrária ou complementar a aproximação via observação, não pode ser nada mais que o caminho contemplativo, o caminho seguido pelos homens sábios e santos de todas as épocas e povos. Uma vez que o objetivo não pode ser percebido distintivamente, esse caminho não pode ser mapeado. Apenas aqueles que seguiram esse caminho, e somente eles, podem ensinar.

Se você é um daqueles que somente aceita a validade da aproximação científica, tudo isso parecerá para você como um mero sofismo vazio. Por isso pode valer a pena levar a questão um pouco mais longe.

Você deve ter notado que dizer ‘meu’ ser essencial pode sugerir que ele pertence a você; e que está, até certa medida, ao seu dispor ou sujeito a sua influência, como se fosse sua propriedade.  Mas claro que não é assim. Nada que você pode fazer afeta de alguma maneira o fato de que você é o que você é. Como vimos, seu ser essencial continua o que é enquanto a correnteza de formas mutáveis e perecíveis passam. Mas seu ser essencial não deve ser confundido com os acréscimos que estão tão fortemente associados nele durante sua estadia temporária na terra, incluindo, claro, suas observações do próprio complexo psicofísico. Aqui é onde muito dos religiosos se atrapalham quando estão considerando os estados pós-morte do ser essencial, que são as vezes chamados de ‘paraíso’, ‘purgatório’ e ‘inferno’.

Só mais uma observação. Se somente sua ‘acidentalidade’ é distinguível, enquanto que sua essencialidade não, o mesmo se aplica ao seu vizinho. Isso sugere que você e ele são essencialmente um e apenas acidentalmente dois. Se você ver a situação dessa forma, você naturalmente amá-lo-ia ‘como se fosse você mesmo’; mas você só pode ver a situação dessa forma na medida em que você tiver realizado quem você é. Essa realização envolve o a travessia da multiplicidade em constante mudança da sua acidentalidade terrestre e a busca com todo seu coração, mente e força a Unidade imutável que é a realidade central e essencial de si mesmo, de seu vizinho e de todos os seres. E você só pode esperar encontra-la onde pode ser encontrada, e que é "dentro de si".


 Agora você entende que a frase 'ser você mesmo' pode ser interpretada em duas maneiras criticamente diferentes, não é mesmo?

Lord Northbourne em Looking Back on Progress

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A Doutrina Svadharma e o Existencialismo (por Julius Evola)

Em um ensaio anterior, destaquei a importância de esclarecer alguns pontos em relação as doutrinas tradicionais do leste e certas tendências intelectuais bastante avançadas que emergem no Ocidente. Então disse que, em muitos casos, um conhecimento sério - e não um conhecimento amador das doutrinas - pode muito bem servir para complementar as tendências, libertando-as de seu aspecto de opiniões de natureza puramente individual e especulativa, e também de tudo que está afetado por uma atmosfera de crise, tal como se encontra, de fato, a nossa civilização ocidental moderna. Dessa forma, seria possível elevar a partir dessas intuições ocasionais, atingidas pelos europeus que estão lutando em um estado de profundo trabalho crítico, em um plano de um conhecimento objetivo e supra-pessoal, que deveria ser definido como "sabedoria", em vez de "filosofia".


Eu desejo tratar aqui, neste sentido, com certos aspectos de uma tendência de pensamento, muito na moda hoje em dia, conhecido como "existencialismo", selecionando como contrapartida a ele a doutrina hindu de "svadharma". [seu próprio dharma ou dever em relação a uma maior ordem cósmica]

Em relação ao existencialismo, naturalmente, não considerarei sua forma excêntrica e boêmia, de caráter predominantemente literário, que infelizmente, são os responsáveis pela nova popularização desta tendência. Ao contrário, farei referência ao existencialismo sério, filosófico, que tomou forma mesmo antes da Segunda Guerra Mundial e que, depois de Søren Kierkegaard (e em certos aspectos Nietzsche), teve como seus principais intérpretes Jaspers, Heidegger e Barth. Tentarei, primeiramente, expor algumas ideias básicas do existencialismo de maneira mais acessível. Esta não é uma tarefa fácil em um ensaio curto, tendo em conta a natureza peculiar e sua terminologia quase esotérica dos existencialistas, em quem muitas palavras frequentemente são usadas com significados totalmente diferentes de sua forma usual.

A base do existencialismo reside na concepção de "existência". Essa expressão não deve ser tomada no sentido mais comum e simples. Existência, de acordo com Kierkegaard, significa o ponto paradoxal e contraditório, em que o finito e o infinito, o temporal e o eterno estão implícitos e se encontram. A existência aqui, naturalmente é aquela do Ego, do ser individual, que é, portanto, considerada uma síntese de elementos contraditórios. Sua situação espiritual é tal que ele não pode se afirmar (o ser finito que existe no tempo), sem também afirmar o "outro" além dele próprio (o incondicionado, o temporário e o ser absoluto); mas, por outro lado, ele não pode afirmar o transcendente sem também afirmar ele mesmo, o ser existente no tempo. Duvidar de um desses lados significa também duvidar do outro. Essa é a premissa geral do existencialismo, assim afirmado pelos seus principais intérpretes, de Kierkegaard até Lavelle, de Barth até Jaspers. Aqui é adequado apontar a harmonia dessa linha de pensamento com os pontos de vista do hinduísmo tradicional. Em primeiro lugar, existe uma questão de método: o existencialismo procura alcançar uma intimidade no centro do indivíduo, que deve ao mesmo tempo ter um valor de uma experiência metafísica. Tal método pode ser considerado aquele do conjunto do ioga upanixádico e também da filosofia budista, a qual podemos aplicar a formula de um "experimentalismo transcendental". Em segundo lugar, é óbvio que que este ponto de encontro ambíguo entre o centro do ser finito e o incondicionado de certa forma nos lembra de atma, que apresenta características reais, por assim dizer, de uma "transcendência imanente", de algo que é o Ego, e ao mesmo tempo o Super-Ego, o Brahman eterno.

No entanto, o paradoxo da "existência", entendido no sentido mencionado acima, toma forma de um problema. Encontramo-nos, por assim dizer, diante de uma posição insustentável de equilíbrio instável, que deve ser resolvido em função de um ou de outro dos termos, que se encontram no indivíduo, mas que parecem excluir, bem como a contradizerem entre si: o condicionado e o incondicionado, o temporal e o não-temporal.

As duas soluções possíveis correspondem as duas direções seguidas pelo existencialismo, em relação das quais posso mencionar os nomes de Heidegger e Sartre por um lado, e Jaspers e acima de tudo Barth, de outro.

A solução adequada à filosofia de Heidegger é aquela do homem que tenta encontrar o incondicionado no transitório. O ponto, de acordo com esse pensador, apresenta-se da seguinte forma: a existência no tempo significa existir como um indivíduo e como um ser individualizado. Mas, a individualidade significa particularidade, significa a afirmação e a assunção de um determinado grupo de possibilidades, com a exclusão de outras, e o conjunto de todas outras; mas essas subsistem, elas vivem dentro do indivíduo, elas constituem o senso do infinito dentro dele, e tendem a encontrar expressão, para que se realizem. Isso determina o movimento do Ego no tempo, um movimento concebido no sentido de sair de nós mesmos (de nossa própria particularidade definida), como uma tendência para realizar tudo aquilo que nós excluímos de nós mesmos, para viver com elas como uma sucessão de experiências: uma sucessão que se desenvolve no tempo, e que deve representar o substituto para a totalidade, para tudo aquilo que o indivíduo, enquanto tal, não pode ser simultaneamente. Naturalmente, a infinitude de possibilidades corresponde necessariamente com a infinitude do tempo, e tudo isso nos dá, em certa medida, um sentimento que estamos perseguimos a nossa própria sombra: uma busca que nunca alcançamos, sem nunca termos inteiramente a posse de si mesmo, a fim de acalmar e resolver a antítese e a "angústia" própria da existência.

Esta solução de Heidegger termina, assim, em uma espécie de justificação metafísica da santificação daquilo que, em termos hindus, pode ser chamado de samsara, a consciência samsarica. Isto parece-nos uma posição perigosa, na medida em que tende para as diversas filosofias ocidentais modernas de imanência, de "Vida", de tornar-se, uma posição que, em nossa opinião, dificilmente pode ser vinculada a uma concepção tradicional do mundo. Na verdade, um pessimismo dissimulado e sombrio paira sobre toda a filosofia de Heidegger.

A segunda tendência existencialista, aquela de Jaspers e Barth, se encontra em uma situação diferente. Partindo de premissas mais ou menos semelhantes, a importância é dada ao conceito que, se o indivíduo representa uma possibilidade particular em meio de uma infinidade de outras, que estão fora dele, essa possibilidade definitiva emana de uma escolha. Esta escolha, naturalmente, nos leva a algo anterior ao tempo e anterior a existência dentro do tempo. A solução da antítese é dada pela "ética da fidelidade": que, estando nós no tempo, devemos assumir, devemos considerar "a nossa essência como idêntica a nossa própria existência", devemos permanecer fiéis ao que somos, tendo o pressentimento de que algo é eterno, que, através de nós mesmos, torna-se "temporalizado" em si mesmo, que tudo que aparece como uma necessidade, como um destino, como dificuldade, nos remete a algo desejado, a algo que só é assim por que ele escolheu que fosse assim, assumindo essa natureza particular, excluindo qualquer outra natureza possível.

Assim, juntamente com o preceito de fidelidade a nós mesmos, existe, no existencialismo, também um preceito de esclarecimento (Erhellung). A regra de vida desse existencialismo não é a busca por algo mais, a dispersão de nós mesmos no infinito, na problemática das perspectivas que se apresentam no mundo exterior, e menos ainda significa uma busca no tempo - como Heidegger clama - da miragem do incondicionado que sempre escapa; devemos então assumir nossa própria perspectiva ou visão de mundo, aprender e compreender o seu significado, que é equivalente a sua raiz transcendental, aquela vontade pela qual eu sou o que sou, e que, na existência nós possamos perceber apenas com base em seus traços e seus efeitos. Assim, então, a existência aparecerá apenas como julgamento no tempo de algo que existe antes do tempo, e cada necessidade ou finitude revelar-se-á como a consequência de um ato primordial de poder livre.

Aqueles que conhecem a doutrina do dharma e do svadharma não pode deixar de notar as analogias com essas visões existencialistas. De acordo com a concepção hindu, cada ser tem sua própria natureza. Não é por acaso que somos o que somos e não outra coisa. Para essa natureza - a menos que sentimos uma vocação para uma subida superior - devemos permanecer fiéis; fidelidade a nossa própria natureza, qualquer que seja, é o mais elevado culto que podemos render ao Espírito Supremo.
Assim, para ser nós mesmos devemos assumir nossa própria posição e tender a nossa própria perfeição individual, sem que os interesses exteriores nos distraiam ou seduzam. Não há natureza própria, dharma, superior ou inferior a outra, se tomamos - como devemos tomar - o infinito, aquilo que está além do tempo, como medida. Dessa forma, trair seu próprio dharma - a lei da natureza de si mesmo - assumir o dharma - o jeito de ser, a lei, o caminho - de outro é um erro e culpa: culpa, não no sentido moral, mas no sentido ontológico. É um ferimento contra a própria ordem cósmica - rta - equivalente a uma violência contra nós mesmos; porque, assim, entramos em contradição com nós mesmos, desejamos ser aqui, no tempo, algo diferente daquilo que nós desejamos ser além de todos os tempos. O efeito disso é a desintegração, e, por conseguinte, uma descida na hierarquia dos seres (simbolicamente, o inferno). Estes são conceitos tradicionais hindus que encontramos expressos nas Leis de Manu e, de uma forma ainda mais definida, no Bhagavad Gita. Sabemos que na Índia elas não permaneceram na mera teoria e filosofia, mas exerceram uma forte influência na vida individual e coletiva, constituindo, entre outras coisas, a base ética e metafisica do sistema de castas, aquele sistema que é tão pouco compreendido por ocidentais (embora na Idade Média houve algo do mesmo tipo), enquanto que está prestes a ser posta de lado, pelos orientais modernizados.

Mas, na visão geral do homem e do mundo, em que a doutrina svadharma está enquadrada, existem dimensões que não faltam no existencialismo; é mais integral que esse ponto duvidoso da filosofia ocidental.

Neste contexto Barth deve ser esquecido. Ele termina em um teocentrismo que lhe permite conectar o existencialismo com a teologia cristã. Esta teologia, como sabemos, com o tomismo defendeu a teoria da "nossa própria natureza" - natura própria - e a ética de fidelidade à essa natureza, a qual é diferente em cada homem e é desejada por Deus. Mas aqui, em nossa opinião, nós estamos nos elevando demais, e a referência à divindade teísta, cuja vontade deve ser responsável por estarmos nesse modo particular, é resumir demais a explicação. O problema existencialista só é resolvido pela fé, pela confiança em Deus, embora com a promessa de uma visão de futuro de todas as coisas, e, consequentemente, também de nós mesmos, do curso da sua própria vida, "sub specie aeternitatis", uma visão que através da qual toda a obscuridade desaparecerá. Mas isso tudo é religião em vez de metafísica, e pode não ser satisfatório para todos.

Mas vamos voltar para Jaspers. Os pontos fracos de sua teoria, nos quais as ideias hindus podem ser úteis, dizem a respeito à natureza daquela "escolha", que deve ter sido feita no plano não-temporal e que nos permite explicar a coexistência, dentro da existência, do finito e infinito. Acima de tudo, o lugar desta escolha, continua ser totalmente obscuro - não menos do que em Kant e Schopenhauer, que já tinham formulado algo do tipo com suas teorias sobre o "caráter inteligível".

Essa obscuridade é inevitável, devido a praticamente não-existência, na filosofia ocidental e na religião em si, da doutrina da pré-existência e dos múltiplos estados do ser. Que, antes do nascimento, existia não somente a vontade de Deus, criando a sua boa vontade almas a partir do nada; que, em vez disso, preexistiu uma certa consciência-entidade, a qual a existência de cada um de nós na terra é sua manifestação - tudo isto é "terra incognita" para a maioria dos filósofos ocidentais e teólogos: eles não sabem nada deste tipo.

Mas, sem referências desse tipo, toda a teoria existencialista sofre de uma obscuridade inicial e básica. Aliás, deve ser notado que falamos da teoria da pré-existência e não de "reencarnação" ou karma, como os teosofistas espalharam no fim do último século em certos grupos espiritualistas ocidentais. A primeira teoria não tem nada em comum com a segunda -uma possui um caráter metafísico e a outra um caráter popular- e, como já expliquei em várias ocasiões, quando tomada literalmente, nada explica, e é, na verdade, um erro.

A partir da primeira falta, a segunda é derivada, que se refere ao senso do ato pelo qual nós quisermos ser o que nós nos encontramos ser na terra e no tempo, ou seja, o senso da escolha ou opção transcendental, que toma espaço na vontade Divina e que também é a pre-condição necessária para falar de alguma responsabilidade e para justificar o preceito de fidelidade ao que somos.

Nisso, Jaspers só observa uma falha: ter desejado ser indivíduos significa ter desejado limitar a nós mesmos; mas, limitar nós mesmos significa pecar, pecar contra o infinito, contra o incondicionado, que é fatalmente negado em todas as possibilidades, em todas as maneiras de ser excluído do horizonte dessa única vida definitiva. E com esse pecado está naturalmente associado a angústia, a famosa "angustia existencial" do Ego.

Isso certamente é uma ideia estranha, que traz consigo um certo pessimismo, o qual encontramos vestígios nos primórdios da filosofia grega e até mesmo no Orfismo. Se no início das coisas, lá no alto, no outro lado do tempo, houve verdadeiramente um poder livre, nós não conseguimos entender qual "falha", qual "pecado" pode haver para que permitisse ter feito uma escolha, por ter decidido a favor de um determinado modo de existência e não de outro. Assim, que outras possibilidades devem ter sido excluídas e negadas, é lógico e inevitável, mas não sabemos a quem essa liberdade deve responder.

Em qualquer caso, falar aqui de "pecado" é um verdadeiro absurdo. Se assim for, deveríamos considerar pecado - gerando uma angústia existencial - o fato de, possuindo uma noite livre, eu preferi gastá-la em uma casa noturna, que obviamente me impede de fazer outras coisas igualmente possíveis, como ir ao teatro, ou a uma palestra, ou permanecer em casa estudando, assim por diante.

O verdadeiro infinito, para nós, e para qualquer metafísica de verdade, não é aquele que, por assim dizer, se está condenado a sua infinitude extática e indeterminada, mas é aquele que, deseja ser, permanecendo incondicionado em todos nossos atos, mantendo seu sentido de liberdade primordial e do estado incondicionado em tudo o que ele quis e em que se tornou. Assim, uma vez que entramos no domínio da temporalidade, devemos ter em mente aquilo que os Orientais chamam de lei concordante de ações e reações, e que os hindus chamam de karma, mas em seu verdadeiro sentido, não aquele dado pelos teosofistas e seus popularizadores.

Seria suficiente entrar nesta ordem de ideias para dar as noções existencialistas referidas um significado totalmente diferente, para retirar-lhes tudo que é "crise", "angústia", "invocação", ou dispersão em uma ação arbitrária; tudo passaria em um plano calmo mais elevado, de transparência, de decisão. E o preceito de ser nós mesmos, de fidelidade a nós mesmos e para com a "posição" que nós temos no reino da temporalidade, adquiriria um esclarecimento - graças à sua relação com uma ordem verdadeiramente incondicionada e supra-individual.


Em verdade, a visão hindu correspondente - que o antigo ocidente já sabia (Plotino, por exemplo, ou até mesmo Platão, antes dele) - pode agir nesse sentido sobre os existencialistas que realmente querem viver seus problemas, e este seria um dos pontos significativos de um possível encontro entre o pensamento do Oriente e do Ocidente.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Situando a Psique (por William Stoddart)

A Constituição tripartite do Homem


“Psicologia” significa literalmente “ciência da alma”. Como, então, se deve situar a “alma” metafisicamente? 


De acordo com a metafísica tradicional (seja Vedântica, Grega, Medieval, Islâmica ou outra), a constituição do homem é tripartite: ou seja, Espírito (ou Intelecto), alma e corpo.

O Intelecto (o Espirito) é a faculdade que permite o homem conceber o Absoluto. É a fonte de sua capacidade de objetividade e de sua habilidade de – ao contrário dos animais – livrar-se do aprisionamento na subjetividade; é a própria definição do estado humano. Como Frithjof Schuon mais de uma vez disse: “O Intelecto pode conhecer tudo aquilo que é conhecível”. Isto por que o Conhecimento-do-Coração ou gnosis é inato, e está totalmente presente dentro de nós num estado de virtualidade. Essa virtualidade deve ser realizada e este processo corresponde a doutrina Platônica de “reminiscência” que, em última análise, é a mesma da prática cristã de “lembrança de Deus” (memoria Dei). “O Reino dos Céus está dentro de ti”.

O Intelecto e o Espírito são dois lados da mesma moeda, o primeiro pertencente ao teórico ou intelectual, e o último pertencente a prática ou espiritual. Eles pertencem, respectivamente, ao modo de conhecimento objetivo (ou discriminativo) e o subjetivo (ou contemplativo). 


Os três elementos ou “níveis” na constituição do homem pode ser representada como se segue:

Português
Inglês
Latim
Grego
Árabe
Espírito (Intelecto)
Spirit (Intellect)
Spiritus (Intellectus)
Pneuma (Nous)
Ruh (‘Aql)
alma
soul
anima
psyche
nafs
corpo
body
corpus
soma
jism

O Espírito ou Intelecto, com suas duas “faces”, criada e incriada, é supra-formal ou universal, e é diretamente tocado pelo Divino; É o único elemento supra-individual, “arquetípico”, ou objetivo na constituição do homem. A alma, ao contrário, é formal e individual. O Espírito é, portanto, a “medida” da alma; a alma nunca pode ser a “medida” do Espírito. O erro fundamental dos psicanalíticos como o Jung é sua incapacidade de distinguir entre a alma e o Espírito e, consequentemente, na prática, ocorre a eliminação efetiva do Espírito. Dessa maneira, de uma só vez é abolido a própria base da objetividade e, ao mesmo tempo, da espiritualidade. O caos e o dano resultante desse ato de cegueira, fatal e anti-Platonico, é incalculável. Nós somos deixados num reino satânico onde tudo (verdade, moralidade, arte) é relativo. Apenas as filosofias antigas – os sistemas tradicionais de conhecimento – pode se opor a esse erro moderno da psicologia e dos cultos new age.

Deve-se entender que o termo “Intelecto” aqui é utilizado no senso Eckhartiano (aliquid est in anima quod est increatum et increabile “Existe algo na alma que é incriado e incriável). Deve ser dito de uma vez por todas que não existe uma barreira impenetrável entre o Intelecto e a mente: a relação do primeiro com o último é como a relação do centro do círculo com a circunferência ou como o pináculo do cone com sua base circunferencial. Falando metaforicamente, a maioria dos filósofos desde o fim da Idade Média, somente se preocuparam com a circunferência ou a periferia, com pouco ou nada de transcendente em seus pensamentos.  Assim, o transcendente (que anteriormente se sabia ser acessível através de revelação ou intelecção) foi tachado como um mero “dogma” ou “superstição”. O resultado tem sido uma tumultuosa dégringolade – desde Descartes, através de Kant, aos “filósofos” narcisistas dos dias atuais – conhecida como “história da filosofia”! Uma interrupção milagrosa dessa descida decadente foi dada pelos Platonistas de Cambridge do século 17. Fora esses “milagres”, o processo parece ser irreversível; as palavras de Virgílio nunca foram tão apropriadas: Facilis descensos Averno; sed revocare gradum, hic ops, hic labor est! (“A descida ao inferno é fácil; mas, para voltar a nossa trilha e subir, isso é um trabalho duro!”)

Infelizmente, a descuidada linguagem moderna confunde “intelectual” com “mental” ou “racional”. De fato, diferentemente do Intelecto que se encontra “acima” da alma, a mente ou a razão é um conteúdo da alma, assim como outras faculdades humanas como: vontade, afeição ou sentimento, imaginação e memória. Então: 














A teologia “ordinária” distingue entre Deus e homem e, dentro do homem, entre alma e corpo. Assim, imediatamente, temos três “níveis”: Deus, alma e corpo. A teologia mística, por outro lado, faz uma distinção dentro do próprio Deus, entre “Deus Supremo” e “Deus”, entre “Essência Divina” e “Deus Criador”, entre “Deus Impessoal” e “Deus Pessoal”, ou entre “Supra-Ser” e “Ser”. A Essência Divina e Deus Criador constituem o primeiro dos cinco “níveis”; cada um desses dois elementos é Divino e Incriado. A alma e o corpo é o quarto e o quinto nível; esses são humanos e criados. Ainda resta o nível terceiro ou intermediário, e esse é o Espírito ou Intelecto.  Os termos “criação” e “criado” são sinônimos com os termos “manifestação” e “manifestado”, respectivamente.

Esses “Cinco Níveis de Realidade” ou “Cinco Presenças Divinas”, juntamente com seu significado e suas relações, estão indicados na tabela abaixo: 

A Doutrina do Logos
Frithjof Schuon elucida a doutrina do Logos da seguinte maneira:

A Divindade é absoluta, a criação é relativa. Todavia, dentro do Absoluto (ou a Divina Essência), já existe uma prefiguração do relativo, e este é o Deus Pessoal (ou o Criador). Essa prefiguração da criação dentro do Incriado é o “Logos Incriado”. 


Além disso, dentro da criação, que é relativa, existe uma reflexão do Absoluto, e essa é o Espírito ou o Intelecto. Esta reflexão do Absoluto dentro do relativo (ou do Incriado dentro do criado) se mostra em coisas como Verdade, Beleza, Virtude, Símbolo e Sacramento. É também manifestado como Profeta, Redentor, Tathagatha, Avatara. Essa reflexão do Absoluto é o “Logos criado”. 


Sem o Logos (e suas duas “Faces”, criada e incriada), nenhum contato entre o homem e Deus seria possível. Esta parece ser a posição dos Deístas. Sem o Logos, haveria um dualismo fundamental, e não uma “Unidade” (ahadiya) como os Sufis chamam, ou “Não-dualismo” (advaita) como os Vedantistas chamam. A doutrina e o papel do Logos pode ser expresso em um diagrama como se segue:

As espiritualidades ou misticismos de todas as grandes religiões ensinam que é unindo-se (através de oração e sacramento) com o “Logos criado” que o homem alcança a união com Deus.


William Stoddart - Situating the Psyche

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tradição e o “Inconsciente” (Por René Guénon)

Nós já expomos em outra parte o papel da psicanálise na obra de subversão que, após a "solidificação" materialista do mundo, constitui a segunda fase da ação antitradicional característica na época moderna em sua totalidade. É preciso voltar um pouco sobre essa questão pois, desde um tempo notamos que a ofensiva psicanalista está cada vez maior, no sentido de estar se dirigindo diretamente a tradição com o pretexto de explicar-se, tendendo a deformar de forma mais perigosa. A este respeito, deve-se fazer uma distinção entre as variedades desigualmente "avançadas" da psicanálise: esta, que foi primeiramente concebida por Freud, se encontrava em certa medida limitada a uma atitude materialista, que ele sempre teve a intenção de manter. Naturalmente, a psicanálise até então, não tinha um caráter puramente "satânico", pois Freud tentava proibir qualquer tentativa de penetrar em determinados domínios, ou, mesmo que tentassem, apesar de toda intenção, logravam apenas em falsificações doentes e grosseiras, onde a confusão era relativamente fácil de dissipar. Assim, quando Freud falava em "simbolismo", o que ele designava abusivamente assim, não era senão um simples produto da imaginação humana, variável de um indivíduo ao outro, sem nada em comum verdadeiramente com o autêntico simbolismo tradicional. Mas isso foi apenas o primeiro passo, e estava reservado aos outros psicanalistas modificar as teorias de seu "mestre" no sentido de uma falsa espiritualidade com a finalidade de - em conjunto com uma confusão muito mais sutil - aplicar a uma interpretação do próprio simbolismo tradicional. Foi principalmente o caso de C.G. Jung cujas primeiras tentativas neste domínio datam de bastante tempo; é de se notar que é muito significativo que esta interpretação parta de uma comparação que acreditou estabelecer entre certos símbolos e alguns desenhos de pacientes; e deve-se reconhecer que, de fato, esses desenhos, por vezes, em relação aos símbolos verdadeiros, possuíam certa semelhança "paródica" que continua sendo bastante perturbador em respeito à natureza do que os inspira.

O que agravou muito as coisas é que Jung, para explicar algo que os fatores puramente individuais não pareciam dar conta, foi levado a formular uma hipótese de um suspeito "inconsciente coletivo", existente de alguma forma abaixo do psiquismo de todos os indivíduos humanos, o qual ele acreditou poder se referir indistintamente tanto a origem dos símbolos como as de suas caricaturas patológicas. Não é preciso dizer que o termo "inconsciente" é totalmente inadequado, e aquilo que é designado por ele, na medida em que pode ter alguma realidade, pertence ao que os psicólogos denominam de forma mais habitual de "subconsciente", isto é, um conjunto de extensões inferiores da consciência. Temos observado em outros lugares a confusão que ocorre continuamente entre o "subconsciente" e "superconsciente"; como este escapa completamente, por sua própria natureza, o domínio sobre o qual se dá a investigação de psicólogos, eles nunca conseguem sair, e quando eles têm a oportunidade de se familiarizar com algumas das suas manifestações, atribuem ao "subconsciente". É precisamente essa confusão que encontramos também aqui: que as produções dos pacientes observados pelos psiquiatras procedem do "subconsciente" certamente não é duvidoso; mas, ao contrário, tudo que é da ordem tradicional e, especialmente o simbolismo, só pode ser referido ao "supraconsciente", ou seja, aquele pelo qual se estabelece uma comunicação com o suprahumano, enquanto que o "subconsciente" tende, inversamente, ao infrahumano. Há, portanto, nisso, uma verdadeira inversão que é inteiramente característica do gênero de explicação em questão; e o que lhe dá uma aparente justificação é o fato de que, em casos como esses citados, ocorre que o "subconsciente", graças a seu contato com as influências psíquicas de ordem mais baixa, imita efetivamente o "supraconsciente"; isso, para aqueles que se deixam ser enganado por tais falsificações e são incapazes de discernir sua verdadeira natureza, dá origem a ilusão que leva ao que chamamos de uma "espiritualidade invertida".


Por meio da teoria do "inconsciente coletivo", acredita-se ser possível explicar que o símbolo é "anterior ao pensamento individual" e que o transcenda; o verdadeiro problema, que parecem nem considerar, é saber qual direção que ocorre essa transcendência: se é para baixo, como parece indicar essa referência ao suposto "inconsciente", ou para cima, como afirmam expressamente todas as doutrinas tradicionais. Encontramos em um artigo recente uma frase onde essa confusão aparece de forma mais clara possível: "A interpretação dos símbolos..., é a porta aberta ao Grande Todo, isto é, o caminho que conduz a plena luz através do escuro labirinto do submundo de nossa individualidade".  Infelizmente, há maior probabilidade de que, perdendo-se nesses "labirintos escuros", alcance outra coisa que a "plena luz"; além disso, observe também o perigoso equívoco do "Grande Todo" que, como sendo a "consciência cósmica", em que uns aspiram se unir, não pode ser nada mais nada menos que o psiquismo difuso das regiões mais inferiores do mundo sutil; assim, portanto, a interpretação psicanalítica dos símbolos e sua interpretação tradicional conduzem, em verdade, a extremidades diametralmente opostas.



Cabe entender outra observação importante: entre as muitas coisas que supostamente são explicáveis pelo "inconsciente coletivo", há de se contar, é claro, o "folclore", e este é um dos casos que a teoria pode apresentar alguma aparência de verdade. Para ser mais preciso, deveria se falar de uma espécie de "memória coletiva", que é como uma imagem ou um reflexo, no domínio humano, dessa "memória cósmica" que corresponde a um dos aspectos do simbolismo da lua. Só que pretender concluir que a natureza do "folclore" é a mesma origem da tradição, é cometer um erro semelhante aquele, tão difundido em nossos dias, que considera como "primitivo" o que nada mais é que um produto de uma degradação. É evidente, de fato, que o "folclore", constituído essencialmente por elementos pertencentes a tradições extintas, representa inevitavelmente um estado de degradação em relação as mesmas; mas, por outro lado, é o único meio pelo qual algo delas podem ser guardadas Seria necessário também perguntar em que condições de conservação tais elementos estão confinados na "memória coletiva"; como tivemos oportunidade de afirmar, não podemos ver aí senão um resultado de uma ação plenamente consciente dos últimos representantes de antigas formas tradicionais em ponto de desaparecimento. O que certo é que a mentalidade coletiva, na medida em que exista algo que assim possa ser chamado, se reduz propriamente a uma memória, que é expressa em termos de simbolismo astrológico ao dizer que é de natureza lunar; em outras palavras, pode desempenhar alguma função conservadora, a qual consiste precisamente o "folclore", mas é totalmente incapaz de produzir ou elaborar qualquer coisa, especialmente coisas transcendentes como todos os dados tradicionais.


A interpretação psicanalítica visa, na verdade, negar essa transcendência da tradição, mas de uma maneira nova, pode-se dizer, e diferente das negações até o momento: não se trata, como no racionalismo ou em todas suas formas, seja de negação radical, seja de uma ignorância pura e simples da existência de qualquer elemento "não-humano". Ao contrário, parece admitir que a tradição tenha efetivamente um caráter "não-humano", mas desviando completamente a significação desse termo; assim, ao fim do artigo citado anteriormente, lemos o seguinte: "Voltaremos talvez sobre essas interpretações psicanalíticas de nosso tesouro espiritual, cuja 'constante' através do tempo e civilizações diversas demonstra claramente o caráter tradicional, não humano, se se toma a palavra "humano" em seu sentido separativo, individual". Aqui se mostra talvez o melhor exemplo possível de qual é, no fundo, a verdadeira intenção de tudo isso, pois - querermos crer - não é sempre consciente que se escrevem coisas deste tipo, pois deve ficar claro que o que está em jogo não é esta ou aquela individualidade, assim como o "chefe de escola", Jung, mas uma "inspiração", a mais suspeita, de onde essas interpretações procedem. Não precisa ter ido muito longe no estudo das doutrinas tradicionais para saber que, quando se trata de um elemento "não humano", o que se entende por isso, e que pertence essencialmente aos estados supra-individuais do ser, não tem absolutamente nada a ver com o fator "coletivo", o qual, em si mesmo, em realidade, não pertence senão ao domínio individual humano, o qual é descrito como "separativo", e que, além disso, por seu caráter "subconsciente", não pode de maneira alguma abir uma comunicação com outros estados, exceto em direção ao infrahumano... Se entende, portanto, de maneira imediata, o procedimento de subversão que consiste, aproveitando-se de certas noções tradicionais, em inverter de certo modo, substituindo o "supraconsciente" pelo "subconsciente", o supra-humano pelo infrahumano. Essa subversão não é muito mais perigosa que uma simples negação? E acreditam que exageramos em dizer que isto contribui para preparar o caminho para uma verdadeira "contra-tradição", destinada a servir de veículo a esta "espiritualidade invertida" que, no fim do ciclo, o "reino do Anticristo" deverá aparecer com seu aparente e passageiro triunfo?

Capítulo do livro Miscellanea (Mélanges, 1976)