quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tradição e o “Inconsciente” (Por René Guénon)

Nós já expomos em outra parte o papel da psicanálise na obra de subversão que, após a "solidificação" materialista do mundo, constitui a segunda fase da ação antitradicional característica na época moderna em sua totalidade. É preciso voltar um pouco sobre essa questão pois, desde um tempo notamos que a ofensiva psicanalista está cada vez maior, no sentido de estar se dirigindo diretamente a tradição com o pretexto de explicar-se, tendendo a deformar de forma mais perigosa. A este respeito, deve-se fazer uma distinção entre as variedades desigualmente "avançadas" da psicanálise: esta, que foi primeiramente concebida por Freud, se encontrava em certa medida limitada a uma atitude materialista, que ele sempre teve a intenção de manter. Naturalmente, a psicanálise até então, não tinha um caráter puramente "satânico", pois Freud tentava proibir qualquer tentativa de penetrar em determinados domínios, ou, mesmo que tentassem, apesar de toda intenção, logravam apenas em falsificações doentes e grosseiras, onde a confusão era relativamente fácil de dissipar. Assim, quando Freud falava em "simbolismo", o que ele designava abusivamente assim, não era senão um simples produto da imaginação humana, variável de um indivíduo ao outro, sem nada em comum verdadeiramente com o autêntico simbolismo tradicional. Mas isso foi apenas o primeiro passo, e estava reservado aos outros psicanalistas modificar as teorias de seu "mestre" no sentido de uma falsa espiritualidade com a finalidade de - em conjunto com uma confusão muito mais sutil - aplicar a uma interpretação do próprio simbolismo tradicional. Foi principalmente o caso de C.G. Jung cujas primeiras tentativas neste domínio datam de bastante tempo; é de se notar que é muito significativo que esta interpretação parta de uma comparação que acreditou estabelecer entre certos símbolos e alguns desenhos de pacientes; e deve-se reconhecer que, de fato, esses desenhos, por vezes, em relação aos símbolos verdadeiros, possuíam certa semelhança "paródica" que continua sendo bastante perturbador em respeito à natureza do que os inspira.

O que agravou muito as coisas é que Jung, para explicar algo que os fatores puramente individuais não pareciam dar conta, foi levado a formular uma hipótese de um suspeito "inconsciente coletivo", existente de alguma forma abaixo do psiquismo de todos os indivíduos humanos, o qual ele acreditou poder se referir indistintamente tanto a origem dos símbolos como as de suas caricaturas patológicas. Não é preciso dizer que o termo "inconsciente" é totalmente inadequado, e aquilo que é designado por ele, na medida em que pode ter alguma realidade, pertence ao que os psicólogos denominam de forma mais habitual de "subconsciente", isto é, um conjunto de extensões inferiores da consciência. Temos observado em outros lugares a confusão que ocorre continuamente entre o "subconsciente" e "superconsciente"; como este escapa completamente, por sua própria natureza, o domínio sobre o qual se dá a investigação de psicólogos, eles nunca conseguem sair, e quando eles têm a oportunidade de se familiarizar com algumas das suas manifestações, atribuem ao "subconsciente". É precisamente essa confusão que encontramos também aqui: que as produções dos pacientes observados pelos psiquiatras procedem do "subconsciente" certamente não é duvidoso; mas, ao contrário, tudo que é da ordem tradicional e, especialmente o simbolismo, só pode ser referido ao "supraconsciente", ou seja, aquele pelo qual se estabelece uma comunicação com o suprahumano, enquanto que o "subconsciente" tende, inversamente, ao infrahumano. Há, portanto, nisso, uma verdadeira inversão que é inteiramente característica do gênero de explicação em questão; e o que lhe dá uma aparente justificação é o fato de que, em casos como esses citados, ocorre que o "subconsciente", graças a seu contato com as influências psíquicas de ordem mais baixa, imita efetivamente o "supraconsciente"; isso, para aqueles que se deixam ser enganado por tais falsificações e são incapazes de discernir sua verdadeira natureza, dá origem a ilusão que leva ao que chamamos de uma "espiritualidade invertida".


Por meio da teoria do "inconsciente coletivo", acredita-se ser possível explicar que o símbolo é "anterior ao pensamento individual" e que o transcenda; o verdadeiro problema, que parecem nem considerar, é saber qual direção que ocorre essa transcendência: se é para baixo, como parece indicar essa referência ao suposto "inconsciente", ou para cima, como afirmam expressamente todas as doutrinas tradicionais. Encontramos em um artigo recente uma frase onde essa confusão aparece de forma mais clara possível: "A interpretação dos símbolos..., é a porta aberta ao Grande Todo, isto é, o caminho que conduz a plena luz através do escuro labirinto do submundo de nossa individualidade".  Infelizmente, há maior probabilidade de que, perdendo-se nesses "labirintos escuros", alcance outra coisa que a "plena luz"; além disso, observe também o perigoso equívoco do "Grande Todo" que, como sendo a "consciência cósmica", em que uns aspiram se unir, não pode ser nada mais nada menos que o psiquismo difuso das regiões mais inferiores do mundo sutil; assim, portanto, a interpretação psicanalítica dos símbolos e sua interpretação tradicional conduzem, em verdade, a extremidades diametralmente opostas.



Cabe entender outra observação importante: entre as muitas coisas que supostamente são explicáveis pelo "inconsciente coletivo", há de se contar, é claro, o "folclore", e este é um dos casos que a teoria pode apresentar alguma aparência de verdade. Para ser mais preciso, deveria se falar de uma espécie de "memória coletiva", que é como uma imagem ou um reflexo, no domínio humano, dessa "memória cósmica" que corresponde a um dos aspectos do simbolismo da lua. Só que pretender concluir que a natureza do "folclore" é a mesma origem da tradição, é cometer um erro semelhante aquele, tão difundido em nossos dias, que considera como "primitivo" o que nada mais é que um produto de uma degradação. É evidente, de fato, que o "folclore", constituído essencialmente por elementos pertencentes a tradições extintas, representa inevitavelmente um estado de degradação em relação as mesmas; mas, por outro lado, é o único meio pelo qual algo delas podem ser guardadas Seria necessário também perguntar em que condições de conservação tais elementos estão confinados na "memória coletiva"; como tivemos oportunidade de afirmar, não podemos ver aí senão um resultado de uma ação plenamente consciente dos últimos representantes de antigas formas tradicionais em ponto de desaparecimento. O que certo é que a mentalidade coletiva, na medida em que exista algo que assim possa ser chamado, se reduz propriamente a uma memória, que é expressa em termos de simbolismo astrológico ao dizer que é de natureza lunar; em outras palavras, pode desempenhar alguma função conservadora, a qual consiste precisamente o "folclore", mas é totalmente incapaz de produzir ou elaborar qualquer coisa, especialmente coisas transcendentes como todos os dados tradicionais.


A interpretação psicanalítica visa, na verdade, negar essa transcendência da tradição, mas de uma maneira nova, pode-se dizer, e diferente das negações até o momento: não se trata, como no racionalismo ou em todas suas formas, seja de negação radical, seja de uma ignorância pura e simples da existência de qualquer elemento "não-humano". Ao contrário, parece admitir que a tradição tenha efetivamente um caráter "não-humano", mas desviando completamente a significação desse termo; assim, ao fim do artigo citado anteriormente, lemos o seguinte: "Voltaremos talvez sobre essas interpretações psicanalíticas de nosso tesouro espiritual, cuja 'constante' através do tempo e civilizações diversas demonstra claramente o caráter tradicional, não humano, se se toma a palavra "humano" em seu sentido separativo, individual". Aqui se mostra talvez o melhor exemplo possível de qual é, no fundo, a verdadeira intenção de tudo isso, pois - querermos crer - não é sempre consciente que se escrevem coisas deste tipo, pois deve ficar claro que o que está em jogo não é esta ou aquela individualidade, assim como o "chefe de escola", Jung, mas uma "inspiração", a mais suspeita, de onde essas interpretações procedem. Não precisa ter ido muito longe no estudo das doutrinas tradicionais para saber que, quando se trata de um elemento "não humano", o que se entende por isso, e que pertence essencialmente aos estados supra-individuais do ser, não tem absolutamente nada a ver com o fator "coletivo", o qual, em si mesmo, em realidade, não pertence senão ao domínio individual humano, o qual é descrito como "separativo", e que, além disso, por seu caráter "subconsciente", não pode de maneira alguma abir uma comunicação com outros estados, exceto em direção ao infrahumano... Se entende, portanto, de maneira imediata, o procedimento de subversão que consiste, aproveitando-se de certas noções tradicionais, em inverter de certo modo, substituindo o "supraconsciente" pelo "subconsciente", o supra-humano pelo infrahumano. Essa subversão não é muito mais perigosa que uma simples negação? E acreditam que exageramos em dizer que isto contribui para preparar o caminho para uma verdadeira "contra-tradição", destinada a servir de veículo a esta "espiritualidade invertida" que, no fim do ciclo, o "reino do Anticristo" deverá aparecer com seu aparente e passageiro triunfo?

Capítulo do livro Miscellanea (Mélanges, 1976)


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