quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sobre o Burguesismo e o Socialismo (Por Nikolai Berdiaev)

I

Muitas palavras que ora gozam de amplo uso corrente nas ruas, carregam um caráter de efeito mágico; umas fórmulas que ora tomam o seu caminho, assumem um aspecto sacro: são aceitas pelas massas não apenas sem discernimento, mas, igualmente, sem compreensão. E a tais palavras de característica mágica pertencem os termos "burguesia" e "burguesismo". Estas palavras possuem no momento presente uma força sobre as massas, massas estas que se sentem escravizadas por elas, cujo significado, porém, não se consegue compreender adequadamente. A palavra pende a uma profunda obscuridade, não se encontra preparada para abarcar significados complexos, e nem ilumina a escuridão, ao contrário, apenas a aumenta. A magia provoca e estimula algo de instinto obscuro, corresponde a alguns interesses, porém nada de conceito ou idéia revestido de clareza pode ser a ela relacionado. Qual seria a interpretação de "burguesia" no momento presente? Sob termo "burguesia" é compreendida não apenas a classe industrial, não apenas os capitalistas, nem o "terceiro estado". No presente, para nós, a categoria de "burguesia" é empregada num sentido incomensuravelmente amplo. Toda a Rússia, toda a humanidade é dividida em dois mundos irreconciliáveis, dois domínios: um domínio do mal, da escuridão, do demônio — o domínio burguês; e um outro domínio divino, do bem, da luz — o domínio socialista. No caminho desta psicologia há uma re-experimentação da antiga e arcaica divisão e oposição religiosa, porém, de um modo distorcido. Os Social-Democratas, tendo envenenado as massas trabalhadoras com o ódio destrutivo pelos "burgueses" e "burguesismo", fazem uso dessas palavras num sentido classista e materialista, e sob o seu próprio ponto de vista classista conferem-lhes um selo quase religioso. Esse sentido positivista-materialista e classista do mundo não pode, no final das contas, perdurar. E os socialistas, os materialistas estão compelidos a admitir que o "burguesismo" reflete uma certa disposição psicológica. Uma certa moldura de valores relacionados com a vida, não tanto uma condição de problema social, mas uma atitude do espírito humano em relação a ele. Uma disposição "burguesa" e uma série de valores "burgueses" podem se encontrar num homem que não pertença necessariamente à classe burguesa, de forma alguma possuidor de uma propriedade, e, por outro lado, um "burguês" que, apesar da sua posição social, pode ser totalmente destituído do "burguesismo". E absolutamente incontestável que o "burguesismo" seja uma condição do espírito humano, e não uma posição social-classista de um homem, - ele se define pela relação de espírito à vida material, por um espírito preso e impotente para vencer a força da matéria, ao contrário da própria vida material.

Os grandes inimigos do espírito burguês do século XIX foram Nietzsche e Ibsen, que não eram socialistas, nem tiveram qualquer relacionamento com o proletariado e no presente, certamente, seriam consignados ao domínio da "burguesia" uma vez que hoje a sabedoria da rua considera "burguês" todas as pessoas do espírito. E provavelmente a mais vívida expressão de espírito anti-burguês da literatura russa seria o reacionário K. Leont'ev, - toda a sua obra ao longo da vida foi um combate contra o domínio iminente do enfadonho espírito filisteu. Seu espírito era menos "burguês" que o espírito de todos os "bolcheviques" e "mencheviques" que aspiram à felicidade fugaz do seu paraíso terrestre. Na França há o notável escritor Leon Bloy, único como Católico, o reacionário dos reacionários, sem nada ter em comum com o socialismo, e ele se levantou num radicalismo sem precedentes contra as fundações essenciais do burguesismo, contra o espírito burguês reinante no mundo, contra a sabedoria burguesa. Como um Cristão, revelou o campo metafísico e espiritual e vislumbrou o mistério da burguesia, em oposição ao mistério da Gólgota. O "burguês" prefere sempre o visível ao invisível, este mundo ao outro mundo. Nietzsche teria dito que a "burguesia" sempre ama aquilo que se encontra "ao alcance das mãos" àquilo que se encontra "remoto". O espírito do burguesismo está em oposição ao espírito altaneiro de Zaratustra. Ibsen teria dito que o espírito burguês se opõe ao espírito daquele homem que se coloca só no caminho da vida. Para o burguês, o espírito está profunda e essencialmente em oposição não ao espírito socialista e proletário mas, fundamentalmente, ao espírito aristocrático. O domínio burguês é um domínio quantitativo. A ele se opõe o domínio qualitativo. O espírito burguês constrói tudo sobre a base da prosperidade, felicidade e satisfação. Tal espírito que se encontra diametralmente oposto a este, tende a se construir sobre as bases dos valores, e necessita gravitar de encontro com o imenso e longínquo espiritual. O espírito burguês, portanto, não ama e, de fato, teme o sacrifício, enquanto que o espírito anti-burguês possui como base o sacrificai, mesmo quando reclama o poder. O burguesismo não foi criado pelo socialismo, foi criado por um mundo velho, caduco. Entretanto, o socialismo aceita o legado do burguesismo, deseja aumentar e desenvolvê-lo e levar esse espírito a um triunfo universal. O socialismo é nada além de um reflexo passivo do mundo burguês, foi totalmente definido por ele e recebeu dele todos os seus valores. Não há nele uma liberdade criativa.

II
O ideal da organização última deste mundo e da satisfação e felicidade final neste mundo, eliminando a sede por um outro mundo, é também um ideal burguês, se encontra dentro dos limites do burguesismo, um fenômeno globalizante e distribuição equânime do burguesismo pelo mundo inteiro. O espírito burguês é antes de tudo um espírito anti-religioso. O burguesismo é uma conformação anti-religiosa com este mundo. O desejo de defender nele um princípio eterno e estabelecer o espírito humano nesse reino preferindo-o a Deus. E esta idéia do Reino de Deus na terra, neste mundo material tridimensional é a distorção burguesa da verdadeira expectativa religiosa. No antigo quiliasmo judeu havia um burguesismo, que foi renovado por uma transformação social. O burguês se sente exclusivamente um cidadão deste mundo isolado e desta face da terra; distante dele se encontra a cidadania celeste, a cidadania de outros mundos. Para burguês o céu está sempre exclusivamente subordinado aos interesses da terra, e o outro mundo para o interesse deste mundo. Assim é a religiosidade do burguês. E verdadeiramente o anti-burguês é aquele que, coloca os valores muito acima do bem-estar, o interior muito acima do exterior, o sacrifício acima da satisfação, a qualidade acima da quantidade, o remoto acima do alcance das mãos, o outro mundo acima deste mundo, a pessoa acima da massa impessoal, e que ama a Deus mais do que o mundo e a si mesmo. Isso significa o choque de dois princípios do mundo diametralmente opostos. O burguês é um destruidor do eterno em nome do temporal, um escravo de tempo e de matéria. O malogro do mundo, o malogro do homem e o conflito humano são também sua peculiaridade básica. Mas a liberdade de espírito, a vitória sobre a temporalidade e materialidade é também uma vitória sobre o "burguesismo". Cristo condenou os bens como sendo escravidão ao espírito, como sendo instrumento de apego a este mundo limitado. O significado desta condenação não é social, mas espiritual, orientado ao homem interior, e no mínimo pode ser usado para justificar inveja e ódio ao rico. Esta inveja e este ódio é um impulso burguês sobre o coração humano e revela toda aquela escravidão idêntica do espírito humano.

E deve ser afirmado taxativamente que dentro do socialismo não há nada que se opõe ao espírito do burguesismo, não há nele qualquer antídoto contra o supremo reino do burguesismo no mundo. Um trabalhador pode não ser menos burguês típico que um industrial ou comerciante, sua posição economicamente oprimida não lhe garante qualquer sorte de qualidades espirituais, e, de fato, isso freqüentemente priva-o até da nobreza de caráter. Burguesismo não se restringe à pertença a uma classe particular, embora todas as classes possam ser cativadas pelo espírito do burguesismo. Na essência, toda psicologia classista é burguesa, e o burguesismo é superado apenas quando o homem chega acima da psicologia classista em nome de valores mais altos, em nome da verdade. Os operários e lavradores, na sua psicologia puramente classista, nos seus interesses, podem ser espiritualmente burgueses do mesmo modo que os industriais, os mercadores e os latifundiários, indiferentemente dos interesses dos primeiros serem mais justos que os dos últimos. Para um socialismo classista que busca uma pretensa criatividade para uma nova cultura, é fatal que todos os valores mais elevados, os valores da cultura espiritual, os valores da "ciência e arte" sejam criados pela burguesia, no sentido social classista. A classe operária não criou qualquer espécie de valores, nem descobriu os rudimentos de uma nova cultura, ou um novo paradigma espiritual do homem. Ele toma emprestado tudo da burguesia que o mantém despojado espiritualmente e se torna fatalmente "burguês" na medida do seu crescimento de ser cultuado a sua consciência, sua partilha da bênção da civilização. Por cinqüenta anos da sua heróica existência, o proletariado socialista — essa "classe de messias" — nada criou. Na esfera de preocupação religiosa, o proletariado socialista se apropriou do ateísmo burguês e da velha filosofia materialista burguesa, na esfera moral a velha moralidade utilitária burguesa, na vida da esfera artística herdou a alienação burguesa da beleza, a repulsa burguesa ao simbolismo e o amor burguês ao realismo. O nível da cultura proletária não se ergueu mais que o completamente arcaico, banal e em relação a um seguimento mais cultural, ao há muito decrépito "iluminismo". A baixeza intelectual do movimento socialista é surpreendente. Seria assim que o Cristianismo entrou no mundo decadente da antiguidade com as suas boas novas da nova vida? Onde é possível encontrar os sinais de uma criatividade proletária original? Não são os impulsos de criatividades, antes os compromissos de interesses que orienta a psicologia classista. O valor do socialismo em si foi criado pela burguesia, pelo segmento cultural burguês ao qual pertenciam também os primeiros socialistas utópicos e Marx, Lassalle, Engels e os ideólogos russos do Social-Democrata e dos revolucionários sociais. Para o proletariado, o socialismo é uma interpretação de seus interesses e instintos imediatistas. E apenas para os ideólogos vindos do seguimento cultural burguês ele tem sido uma idéia, um valor. Como os interesses de instintos gananciosos de alguma classe particular pode se transformar numa idéia e valor para figuras separadas que emergira de outras classes?, - esta é a questão mais interessante da psicologia e da ideologia do socialismo.
III

O socialismo, no final das contas, é também burguês, de um burguesismo eqüitativo e universalmente difundido, o ideal de um apego sem fim como servos deste mundo num bem-estar burguês. Seria estupidez esperar do socialismo uma vitória sobre a cultura "burguesa" moderna — ele apenas a promove de um modo mais extremo na busca do seu fim. O burguesismo deve ser procurado não em forma exterior do socialismo, mas no seu espírito interior. Esse espírito considera a quantidade muito acima da qualidade, o bem-estar acima do sacrifício, o mundo acima de Deus, - esse espírito se apega a este mundo, move-se por necessidade e não pela liberdade. O socialismo até o momento presente não trouxe nenhuma espécie de valores, senão os valores da segurança, satisfação e saciedade materiais. Espiritualmente vive pelos valores criados pelo mundo "burguês", sua criatividade, suas ciências e artes, suas descobertas. As promessas de formas manifestas de criatividade puramente proletária, puramente socialista, não foram completadas, e o movimento socialista se distancia cada vez mais do cumprimento dessas promessas. O espírito socialista se posiciona com uma atitude hostil contra toda sorte de originalidade pessoal criativa, na qual apenas se vislumbra um antídoto contra o "burguesismo". O socialismo representa espiritualmente um nivelamento, levando todos a um nível mediano de estupidez, e obtém certa elevação do nível de igualdade com o caro preço do desaparecimento ou eliminação de todas as alturas. Ouçam as conversas dos Social-Democratas, leiam seus jornais, suas brochuras, seus livros. Todos dizem uma única coisa, todos batem a mesma tecla, escrevem a mesma linguagem, repetem as mesmas palavras, relembram aqueles mesmos pensamentos estúpidos. Não se encontra pessoa, pensamento pessoal, criatividade pessoal. E tudo isso chega a ser enervante. Descem a um denso e cinzento nevoeiro e prometem um paraíso cinzento, um paraíso do não-ser. O ideal do socialismo —não é criativo, antes, expansivo, não é elevado, mas eqüitativo e plano. O mundo "burguês" — é , de fato, um mundo meio-leviano e pecador, nele não há valores duradouros. O socialismo deseja afirmar-se como que o burguesismo no grau máximo, um "burguesismo" sagrado, um burguesismo eqüitativo, correto e holístico. A religião do socialismo cai na tentação do pão rejeitado por Cristo no deserto. O socialismo faz do pão uma religião e pelo pão trai a liberdade espiritual do homem. Dostoievski revela-o na sua lenda sobre o Grande Inquisitor. E Vladimir Soloviev também o revela na sua história sobre o Anticristo. Cristo rejeitou a tentação do pão e ensinou a orar ao invés do pão de cada dia.

Creio, que o espírito do socialismo classista e materialista, particularmente na sua forma de Social-Democrata, é um espírito profundamente burguês, um espírito profundamente anti-Cristo. Mas digo isso não como um inimigo do socialismo. Creio que no socialismo há sua grande verdade e sua grande questão. Mas penso também que a culpa da mentira espiritual e inverdade do socialismo não se conserva sobre ele, mas sobre aqueles seguimentos sociais, que primeiro enredou o caminho do burguesismo, o caminho da escravidão do espírito pelo materialismo e afirmação classista. O socialismo nada possui além de uma natureza reflexiva, apenas leva adiante o processo, não o inicia, espiritualmente é destituído de iniciativa e é apenas complementar. A verdade tal qual é no socialismo só pode se concretizar num espírito diverso, numa atmosfera espiritual diferente, numa consciência não materialista, e sem ódio entre as classes, sem a pretensão de se estabelecer por força o Reino de Deus sobre a terra através de algum cataclismo revolucionário, mas antes, preservando a liberdade espiritual interior.. O espírito de ódio e malícia entre as classes leva à negação de imagem de Deus no homem, rompe a idéia da humanidade e deixa-a numa contradição irreconciliável com as esperanças do próprio socialismo. A ganância social é um pecado humano, mas a ganância social estabelecida como máxima santidade já é o próprio espírito de Anticristo. Tudo possui dupla face dentro do socialismo e da democracia, - a verdade se mistura com mentira, a luz com escuridão, Cristo com Anticristo. A vida mundial está entrando num período em que não há mais uma clareza cristalina, não há fronteiras facilmente reconhecíveis separando o domínio da luz com o domínio da escuridão O espírito humano é colocado diante do maior das provações e tentações. Tentações do maior dos males podem surgir disfarçados de bem. Há necessidade de vigilância e sobriedade de espírito a fim de discernir a dupla natureza do socialismo que avança sorrateiramente pelo mundo com uma promessa de um novo domínio. E incapazes de discernimento são aqueles que permanecem em condição de embriaguez primitiva e escravidão espiritual.

A uma escuridão ainda mais profunda foram remetidas as massas do povo russo — as sementes de ódio contra os "burgueses" e o "burguesismo". O significado destas palavras odiosas permanece equivocado pelas massas. E do modo como as massas assimilam estas palavras conjuradas sobre "burguesismo", tende a aumentar algo perigoso não apenas ao destino da Rússia, do estado russo, da economia do povo russo, mas — mil vezes mil vezes mais importante - para o destino da própria alma do povo russo, uma alma feminina abatida e débil, que não  freqüentou a severa escola de auto-disciplina e auto-direção. A pregação de ódio contra a "burguesia" e o "burguesismo" também faz do povo russo "burgueses", distorce a sua semblante Cristã. Por enquanto vivemos ainda uma calma e uma espécie de benevolente anarquia, tão característica da tribo russa. Porém, logo poderá irromper algo muito mais vexatório. E então a responsabilidade recairá não sobre o povo, mas sobre aqueles seguimentos da Inteligência, que ao não aperceber-se do profundo significado das palavras, tendem a espalhá-las irresponsável e superficialmente. Assim, dentro da alma russa se elimina o que é sagrado, dando lugar à regra dos interesses especiais. Mas a própria Inteligência deveria estar pregando que a divisão básica dentro do mundo e da humanidade permanece não numa divisão temporal do domínio "socialista" e "burguês", mas antes entre o domínio da verdade e da mentira, do bem e do mal, do Reino de Deus e do demônio, de Cristo e de Anticristo. No sentido espiritual da palavra, apenas o Cristianismo enfrenta e responde eternamente ao "burguesismo". Somente nele o homem interior sairá vitorioso contra o homem exterior.
Nikolai Berdiaev


Parte da coletânea "Campos Espirituais da Revolução Russa" (artigos escritos entre 1917 e 1918). 

(Texto publicado originalmente no semanário "Russkaya svoboda" em 13 de junho de 1917) 

Tradução para o português de T. Morita




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Psicanálise e Antropologia Ortodoxa (por Christos Yannaras)

Apesar das mais diversas desvantagens culturais atualmente existentes, acredito que nossa era goza de um duplo privilégio, em comparação com os séculos de grande ápice do discurso teológico eclesial. Refiro-me especificamente ao conhecimento da natureza que a ciência moderna (especialmente a mecânica quântica) nos deu com a linguagem e o método de investigação científica, assim como os horizontes de estudo do sujeito humano que a ciência da psicologia-psicanálise deu início.

Eu sou da opinião de que os grandes Padres da Igreja e professores da Igreja não ignoraram o conhecimento científico de sua época; em vez disso, o usavam para lançar luz sobre a interpretação do real e do existente que experiência eclesial proclama. Se observa isso, simplesmente examinando os comentários Padres na seção Sobre o Hexameron, ou na terminologia e a metodologia dos Padres adaptada a partir de Sobre a Alma de Aristóteles: a teologia da Igreja é uma continuação vivificante do evento da encarnação do Verbo: ela assume continuamente uma encarnação histórica particular, animando o que foi adotado.

Tentarei demonstrar brevemente como este processo de incorporação intelectual poderia ser tentado hoje, com base nas conclusões da investigação psicanalítica sobre a composição primordial do sujeito humano. Qual o grau de complementaridade mútua existe entre a visão psicanalítica do sujeito humano e a interpretação eclesial do ser humano como pessoa? Eu posso oferecer apenas alguns indícios, mas penso que são férteis para fins de novas explorações. É do conhecimento comum que na ciência moderna não há certezas definitivas. Só pode haver sugestões interpretativas, sujeitas a refutação, mas aceitas contanto que outras interpretações com um alcance interpretativo distinto e mais completo não sejam publicados. 

Eu extraio estas observações da pesquisa psicanalítica francesa da chamada escola de Jacques Lacan, que surge como sendo a mais fiel à chamada tradição freudiana. Os textos que me ajudaram são aqueles do próprio Lacan, bem como livros de Franchise Dolto, Denis Vasse, Gerard Severin e Daniel Lagache. Eu não sou um especialista no campo da psicologia-psicanálise, portanto, quaisquer imprecisões, equívocos ou erros devem ser atribuídos à minha inadequação e não para minhas fontes. 

Como é que o sujeito humano é visto pela psicologia moderna? Em primeiro lugar, como uma realidade existencial distinta do ser biológico, não independente, mas no entanto outro - não idêntico ao indivíduo biológico. Se tentarmos apontar a distinção qualitativa básica entre o sujeito e o ser biológico, devemos empregar o termo «referencialidade»: a possibilidade de referência existencial. Uma criança vem ao mundo sem fala, imaginação ou julgamento. É equipado apenas com a capacidade de se referir. E o que é referido - a forma de referência - é um desejo primordial fundamental. A referencialidade do desejo - a referencialidade desejada - é a definição original da existência do sujeito. Eu desejo, logo existo: «Desidero é o cogito freudiano. É certamente lá [no desejo], que o aspecto essencial do procedimento preliminar da construção do sujeito ocorre» 

Na linguagem positivista do realismo psicanalítico, o desejo é difícil de definir. É a libido - o desejo erótico de um relacionamento pleno. O que cada ser humano procura, desde o momento da separação do útero, é o imediatismo e a plenitude de um relacionamento - coessentia. Não ser, em primeiro lugar, como um eu biológico e, então, ter relações, mas sim extrair a existência a partir da relação - a existir como um evento de relacionamento. 

A libido como desejo erótico por um relacionamento pleno é uma característica exclusivamente humana. Ela transcende o propósito biológico da reprodução e constitui, de acordo com Lacan, «instinto da vida pura, em outras palavras, a vida imortal, ilimitada, a vida sem necessidade de instrumento, uma vida que é simples e sem fim».  

O desejo pela vida é o desejo por um relacionamento pleno e a resposta ao desejo é apenas o potencial de um relacionamento. Mas em um sentido hipotético impreciso, o desejo pela vida é mediado, primeiramente, pelo desejo específico por alimento, que é um pré-requisito vital para sobrevivência biológica das crianças. Uma criança deseja uma relação vivificante coexistente com a comida, mas não meramente para satisfazer o instinto de autopreservação. Assim, uma criança psicologicamente anoréxica pode morrer por iniciativa própria, demonstrando que a sua «alma» é essencial para a existência - muito mais do que o mecanismo de regulação de suas funções biológicas.

O desejo vital da criança pelo alimento encontra sua primeira resposta potencial nos braços de sua mãe. Seu peito significa o potencial de resposta ao desejo vivificante; é o primeiro significante, o evento fundador da relação que constitui o sujeito. A aparência do significante é um pré-requisito para o relacionamento, a origem necessária para o «nascimento» do sujeito. O sujeito nasce uma vez que o significante aparece no campo do Outro - o potencial de resposta ao desejo emerge.  

O evento do relacionamento «engendra» o sujeito, fazendo preciso a referencialidade primordial do modo de existência, um modo que é expresso na fala. «Se o sujeito é definido pela linguagem e fala, isto significa que o sujeito, in initio, começa no espaço do Outro, desde que o primeiro significante apareça ali». 

Esta é a rejeição mais radical da percepção do sujeito como um ser ôntico, mas também da percepção do sujeito como um intelecto individual, como uma unidade com capacidade de raciocinar (animal rationale). Antes do pensamento está o desejo que constitui o sujeito e estabelece sua existência lógica. Qualquer nome que damos ao sujeito, ele é um evento erótico e por ser um evento erótico, é também uma existência lógica. O ímpeto erótico é realizado por meio da fala, e esta realização constitui o sujeito.

O sujeito nasce uma vez que o significante aparece no espaço do Outro. A aparência do significante concretiza o potencial de resposta ao desejo - faz dele «logos». Mas ao mesmo tempo a natureza «lógica» do significante concretiza o desejo como um requerimento lógico. O que significa o significante é o que ele diz na superfície. É o potencial para um relacionamento pleno, uma vida completa. E o significado potencial refere-se ao sujeito concreto - é a resposta lógica ao desejo primordial do sujeito, a referencialidade mútua que constitui o desejo como  «requerimento logos-lógico». 

É a referencialidade mútua que compreende o sujeito enquanto um evento existencial de uma relação, como uma existência lógica, como uma existência capaz de incorporar a razão coletiva da sociedade humana. 

O primeiro significante pode ser o seio da mãe, porque este relacionamento pleno para o qual o desejo primordial é dirigido não é abstrato. Pelo contrário, é uma relação de comunhão com o alimento - um relacionamento real sobre o qual a vida depende. No entanto, receber alimentos não esgota o desejo; o desejo não aspira apenas à sobrevivência biológica, mas a uma vida sem limites, uma vida imortal. «Se receber alimento não está associado com a experiência de uma presença que se mantém ou desaparece sem deixar de ser significada, se o Outro do desejo não é mediado pela presença e ausência alternada do provedor de alimentos, a criança nunca entrará no mundo da humanidade, no mundo da linguagem e símbolos».  

Assim, o agente central e decisivo no estabelecimento e na constituição do sujeito não é o primeiro significante, mas o último significado, para o qual o desejo primordial por um relacionamento pleno,  sempre incompleto, é direcionando. O significante da resposta ao desejo sempre emerge no espaço do Outro, e este emergir estabelece o sujeito lógico. No entanto, o Outro permanece sempre o transcendente objetivo de um relacionamento pleno, da vida imortal. É por isso que Lacan - sem intenções metafísicas e com apenas o realismo da experiência clínica - sempre escreve o Outro transcendente com «O» maiúsculo. O sujeito nasce no espaço do Outro, não há sujeito humano, exceto como uma resposta ao desejo de uma relação plena com o Outro transcendente que convida o sujeito à existência.

No curso da vida individual transitória, o Outro é mediado através do peito da mãe, através da presença ou ausência da mãe, através dos alimentos, através do afeto, através da linguagem da comunicação, através da intervenção da imagem do pai - intervenção que «socializa» a relação vivificante com a mãe e constrói a consciência do ego como um Terceiro autônomo.

O Outro é mediado, uma vez que a maturidade é alcançada, pelo corpo desejando a co-essencialidade erótica, pela surpresa da alteridade familiar dos filhos e descendentes - uma surpresa que liberta o corpo da individualidade espaço-temporal. O Outro é também diversamente mediado pela autoridade da lei, pela beleza erótica da natureza, pela dinâmica ilimitada dos significantes do relacionamento.

O sujeito é processado como um evento existencial em virtude do desejo vivificante por uma relação plena com o Outro transcendente. E o desejo é mantido como um referente existencial porque o espaço do Outro nunca é definido em uma presença dada, mas é um espaço de presença-ausência por parte de um significado multifacetado. Mesmo os significantes mediadores referem-se apenas à presença-ausência de resposta ao desejo que dá vida: se a presença da mãe fosse permanente, contínua e possuída pela criança (se a mãe segurasse o bebê constantemente em seus braços, oferecendo o peito), a criança nunca seria constituído como um sujeito lógico. O significante do desejo não emergiria no espaço da mãe e, portanto, não haveria construção.

Se o Outro que atraí um relacionamento lógico, o Outro do telos desejado do relacionamento, fosse dado e definitivamente possuído em uma presença newtoniana, seria impossível que os significantes atraídos e os significantes do relacionamento emergissem, não haveria nenhuma existência humana lógica. Se Deus não fosse uma presença-ausência, não haveria nenhum ser humano lógico. A distância real entre a física e a metafísica, a recusa de Deus de ser subordinado em certezas definitivas, é o pressuposto existencial do sujeito lógico.

O homem entra no mundo como portador de desejos, o desejo por uma vida eterna e plena. E para o desejo humano, a vida plena é a realização do relacionamento, a comunhão erótica. Por esta razão, a resposta potencial ao desejo - os significantes da realização do desejo - emerge apenas no espaço do Outro. Os potenciais são sempre transitórios e fragmentados em comparação com o desejado relacionamento pleno. Eles não deixam de ser significados como potenciais para o relacionamento. Os significantes do relacionamento são os elementos primários do logos. A aparência dos significantes engendra o sujeito, constituem-no como uma existência lógica. O sujeito existe no modo do logos, no modo de referencialidade. A referencialidade lógica é articulada e construída através da sintaxe linguística e do simbolismo.

A referencialidade lógica é uma de desejo, mas o desejo nunca se esgota com o significado de significantes transitórios e fragmentados. A concretização do desejo na procura não esgota a referencialidade desejada do sujeito. Há sempre uma parte restante do desejo, uma tendência de procurar qualquer relacionamento, mais uma vez, como desejo.

Esta parte restante é designada pela lógica - em outras palavras, a referencialidade do desejo: é um substrato de desejo que preserva o modo do logos, o modo ou a estrutura da fala. É o inconsciente. Por «inconsciente», queremos dizer o que permanece como desejo (no modo do logos, no modo da fala) quando a referencialidade do desejo foi concretizada na procura através do significante.

O inconsciente é construido a partir das consequências dos significantes, isto é, a partir das consequências do fato de que o significante expressa o desejo que foi concretizado como requerimento, sem esgotar a referencialidade do desejo. O desejo permanece o substrato universal de todos os significados procurados, um substrato que é em si mesmo referencial (refere-se a realização transcendente, que é o objeto do desejo).

A principal contribuição de Lacan para a ciência psicanalítica é resumida neste aforismo: "O inconsciente é estruturado como linguagens". Esta conclusão afirma em primeiro lugar o caráter referencial do substrato inconsciente da subjetividade. Afirma tanto o modo referencial em que o inconsciente é construído como também afirma seu referencial, o que poderíamos chamar o conteúdo (ou resto) do inconsciente. Assim, tanto a estrutura como aquilo que é construído são homólogos à linguagem: a linguagem é a soma total de significantes e a composição dos significantes. A linguagem é o modo de referência e de relacionamento.

O inconsciente é estruturado como linguagem, porque é um «resto» ou «substrato» do desejo, e o desejo é referido apenas pelo o Logos, a articulação lógica, a estrutura da linguagem. O inconsciente é a distância insondável - no entanto real - entre a realização sempre deficiente do desejo e a realização desejada de co-essencialidade erótica com o Outro transcendente. O próprio inconsciente continua a ser um desejo articulado pelo logos, revelando a lógica básica e primária de referência que torna o sujeito um sujeito.

O modo pelo qual o inconsciente emerge (através do método psicanalítico) expressa a natureza referencial da constituição do sujeito em todos os níveis. Assumimos algum núcleo da subjetividade, mesmo que inconsciente, que, no entanto, é expressada e referida apenas através do modo do logos.

O «núcleo» hipostático da subjetividade não pode ser classificado através de uma concepção intelectual, porque é, simultaneamente, objetivado e possuído pelo sujeito, não identificado com ele. Qual , então, é a alternativa para a concepção intelectual quando se trata da autodeterminação do sujeito? Lacan responde: «O ser do sujeito, aquilo que está situado sob a concepção intelectual».

No entanto, se a noção objetifica o ser, deixando de fora «aquilo que está sob a concepção intelectual», a escolha do ser enquanto auto-definição do núcleo da subjetividade é perdida na definibilidade da não-concepção. «Seja qual for a escolha, a consequência é nem uma coisa nem a outra. Ao escolhermos o ser, o sujeito desaparece, foge de nós, e caindo de novo na não-concepção. Nós escolhemos a concepção e a concepção sobrevive mutilada por essa parte da não-concepção que é, claramente,  aquilo que estabelece o inconsciente em virtude da realização do sujeito».

Nem a concepção nem o ser. Existe uma terceira opção em relação à auto-definição do sujeito? A Igreja responde: «Meu princípio e minha hipóstase tem sido o seu comando criativo». O núcleo, ou a hipóstase do sujeito, é a convocação de não-ser para o ser. E a hipóstase é pessoal, quando Deus chama os seres do não-ser, seres capazes de relacionamento lógico/comunhão com Ele. A vontade de Deus em comungar Sua existência Incriada com a existência pessoal criativa é uma vontade ativa, é uma obra, e a obra de Deus é Seu verbo: «No caso de Deus, a obra é logos». 

O ser humano é uma existência pessoal, porque o chamado criativo de Deus pressupõe a pessoa como uma resposta hipostática para este chamado. Em outras palavras, como potencialidade existencial para um relacionamento com Deus, como liberdade para afirmar ou rejeitar a comunhão existencial com Ele.  A convocação «cria» as hipóstases, atribuindo identidade real para as potenciais existenciais como consequência do chamado: hipostasia não somente o criativo, mas também a dinâmica atraente da convocação, a potencialidade da relação.

A convocação de Deus pressupõe a resposta humana não simplesmente como uma expressão da vontade, mas como um modo de ser, como um evento existencial. Assim, a referencialidade do relacionamento, o modo do logos, não é um dos «atributos» ou «capacidades» do sujeito, mas a potencialidade condicional do estabelecimento e construção do sujeito.

Portanto, a terminologia psicanalítica permite-nos reafirmar a definição eclesiástica da pessoa humana: o ser humano é uma existência pessoal porque é estabelecido, construído e age como um evento de relacionamento. Não é simplesmente colocado, como todo ser biológico é, na trama de inter-relações e inter-ligações de trocas de energias que compõem a biosfera. Em vez disso, a sua própria existência é uma realização dinâmica de relacionamentos, o ímpeto de desejo por um relacionamento existencial pleno.

A pessoa humana nasce no espaço de Deus. O ímpeto de desejo por um relacionamento pleno com Ele é o Seu chamado que dá vida, que estabelece e constrói a pessoa humana como um evento existencial de referência erótica. A relação entre o ser humano e Deus não é uma decisão intelectual ou uma tentativa ética consciente. É um evento do modo pessoal de existência, um modo de existência que engloba as manifestações conscientes e inconscientes de Sua existência. Por esta razão, a Igreja rejeita a moralidade (que pertence somente a vontade consciente) e insiste na ascese (que aspira o modo total de existência, consciente e inconsciente). Não é a vontade lógica e consciente que informa o evento existencial do relacionamento. É o relacionamento que constrói o logos, e não o logos o relacionamento. O modo do relacionamento molda a consciência e também o inconsciente do sujeito. 

Se a pessoa humana é a resposta hipostática ao chamado divino para um relacionamento, se ela deve sua origem existencial a energia de convocação do Incriado, então seu caráter pessoal repousa sobre a liberdade de realizar ou rejeitar a existência enquanto uma relação mútua, enquanto uma comunhão amorosa do ser. Se a pessoa humana só passa a existir graças à energia do chamado de Deus, que é somente amorosa, e se a resposta existencial para o chamado não é uma afirmação, mas uma negação, então, podemos tirar duas conclusões: ou a livre negação do criado nega e anula a energia amorosa do Incriado, ou a energia do chamado Incriado, que é atemporal, torna a negação existencial do criado também atemporal.

A segunda possibilidade refere-se ao absoluto do amor, que respeita a liberdade, mesmo se a liberdade hipostiza a negação da reciprocidade amorosa. Tal negação significa um corte, uma mutilação, uma diminuição de potencialidades existenciais de desejo, potencialidades de ser enquanto relacionamentos plenos e amorosos. Neste caso não deriva de uma «graça» deficiente (dom da energia do chamado vivificante de Deus), mas de uma livre negação do recipiente em hipostatizar a graça como um evento existencial de relação. E, assim, o rompimento do desejo em objetivos egocêntricos narcisistas é somente auto-punição: a tortura de uma existência que ativamente nega a si mesmo, sem, no entanto, ser capaz de anular sua composição hipostática.

Outra contribuição fundamental da psicologia-psicanálise moderna para o debate teológico é que essa ilumina a auto-tortura do egocentrismo narcisista com a linguagem realista da experiência clínica a respeito da neurose e psicose.
Christos Yannaras


domingo, 13 de março de 2016

René Girard e o Politicamente Correto (por Thomas F. Bertonneau)

Pessoas conscientes chamam o Pós-modernismo de Segunda Realidade, mas também é possível enxergá-lo como uma recorrência evidente à práxis pré-Cristã, que acontece com qualquer comunidade que pensa que pode transcender o bem e o mal, como conhecidos no Evangelho. Desprezando o Evangelho, a esquerda afirma que a utopia é inevitável - assim que os agentes-bloqueadores forem liquidados. O que a esquerda faz é uma inevitável crise sacrificial global, uma vez que os freios restantes dessa crise seja liquidados. Já que o Cristianismo fornece os freios, a liquidação do Cristianismo - o objetivo da desconstrução - garante o inevitável. É, na terminologia de Girard, o "eterno retorno da religião sacrificial." 

Os agentes do politicamente correto e da justiça social nunca se vêem como perseguidores. Eles estão profundamente enredados nas amarras do fecho ritual e da projeção psicológica. Quanto mais eles anatemizam a Revelação, mas profundamente enredados se tornam. Girard aborda novamente o problema em When These Things Begin (2014).  Ele escreve: "A cristalização das tensões do grupo à custa de uma vítima é um processo inconsciente." Um pouco mais tarde ele segue observando que "tornar-se Cristão é, fundamentalmente, perceber que não é apenas as outras pessoas que possuem bodes expiatórios", e lembra seus leitores "que os dois maiores Cristãos, Pedro e Paulo, foram dois perseguidores convertidos", que, "antes de sua conversão... pensaram que não tinham nenhum bode expiatório."  Uma vez que a mentalidade moderna rejeita a religião como algo essencialmente não sério - não esquecendo que retoricamente exaltam qualquer religião exceto o Cristianismo por sua singularidade enriquecedora - tendem a ver rituais como demonstrações folclóricas. "Rituais não só são, como as vezes afirmam, meras pantomimas de reconciliação, uma espécie de 'acontecimento' inofensivo pelo qual os membros do grupo reforçam seus sentimentos de pertencimento". No caso dos rituais, Girard argumenta, "estamos falando sobre a cultura humana naquilo mais forte e poderoso". O Cristianismo, para Girard, é uma massiva dispensa de de-ritualização: "O Cristianismo nos ensina que o mecanismo essencial da condição humana é baseada numa mentira, uma espécie de mentira que é incompreensível por aquilo que os filósofos chamam de o 'encerramento da representação'." 






Depois dos massacres em Paris em novembro de 2015, ou em qualquer perpetração semelhante, os porta-vozes do establishment ocidental disputaram para deturpar o caráter e a causalidade do evento - isso que Girard entende por "a mentira". Claro, uma necessidade apavorada para fazer um evento incompreensível indica que, para aqueles que deliberadamente tentam isso, seja, em verdade, bem compreensível. Este tipo de obscurantismo anti-intelectual só esteve disponível desde a pontuação histórica do Evangelho, mas surgiu em plena articulação muito recentemente, pertencente aos últimos duzentos anos e atingindo uma intensidade nas últimas décadas. Os Cristãos medievais perseguiram abertamente os judeus sem qualquer moral distorcida; eles não sentiam necessidade de uma retórica justificadora além da acusação mítica que os judeus tinham causado a peste por envenenar os poços.  Os esquerdistas precisam de vítimas, mas não querem ser identificados como algozes;  nem pensam em si mesmo como, ou desejam serem visto, sob disfarce religioso. Sob a rubrica de desconstrução os esquerdistas realizam rituais retóricos previsíveis para justificar os rituais práticos efetuados pelos seus proxies virtuais. O fato de que os esquerdistas sabem que seu empreendimento camuflador não é suficiente apenas redobra seu pânico. 

Girard afirma que: "A nossa era já vive ou se prepara para sobreviver o colapso das três tentativas mais poderosas para substituir a religião." O Nacional Socialismo era uma tentativa nesse sentido; O marxismo foi a segunda. "Um terceiro colapso se aproxima", Girard afirma; ele é "o colapso das democracias capitalistas, o que seria o fracasso do cientificismo, das nossas tentativas de amenizar os problemas da humanidade com uma falsa objetividade, uma espécie de higiene física e mental, ao modo do 'capitalismo selvagem' e da psicanálise." Girard tem um estilo casual, mas ele sempre escolhe as palavras com cuidado. Sua caracterização da modernidade como um regime de "higiene" tem uma conexão com sua caracterização dos pogrons anti-judaicos medievais na Idade Média em The Scapegoat como tentativa de buscar termos pseudo-racionais para justificar um ato que está lentamente se tornando perceptivamente grotesco. Ao comentar sobre o relato de Guillaume de Machaut do século XV, sobre a peste e perseguições, Girard comenta que é um romance foi fabricado, baseado nos Gregos, "épidymie" de Guillaume. A expulsão dos judeus das aldeias francesas, como a expulsão de Édipo de Tebas, purificou a comunidade de sua aflição. Os esquerdistas pensam que ainda podem realizar a utopia da igualdade, expulsando todo o pensamento dissidente - e essa é a razão pela qual eles começam a sacrificar os seus próprios.  

O esquerdismo pode ser muito bem um "Cristianismo desviado", afirma Girard. Portanto, "mesmo se a instituição do Cristianismo foi, em uma escala local, o instrumento ou instigador das caças às bruxas, o Cristianismo é o verdadeiro destruidor de tais práticas, pois faz seres humanos conscientes da natureza arbitrária da bola de neve persecutória que conduz à violência." Um "Cristianismo desviado" é, no entanto, um Cristianismo parcial, tomando um único elemento, inflando-o à supremacia, e abolindo todos os outros. O esquerdismo leva a frase teológica "os últimos serão os primeiros" como a única frase em funcionamento em todo o Evangelho, descontextualizando-a e fazendo dela uma agenda de retificação baseada no ressentimento. O esquerdismo, dessa forma, toma para si um motivo Cristão - que somente possui sentido relação com os outros motivos Cristãos - para encenar uma paródia agonizante de retidão moral. O esquerdismo é cultura-em-dissolução tentando desesperadamente se reconstituir, enquanto luta loucamente para criar um novo mito de fundação. Ao descrever a maneira pela qual a crise sacrificial original resolveu-se espontaneamente na imolação da vítima, Girard descreve perfeitamente o regime contemporâneo do politicamente correto. O politicamente correto sacraliza seus inimigos-vítimas. 

Em When These Things Begin Girard diz para Michel Treguer que "a sacralização transforma a vítima em modelo de uma imitação e contra-imitação estritamente religiosa." Onde a mentalidade esquerdista vê o "alien" interno - a presença intolerável do "racista", "sexista", "homofóbico" ou "islamofóbico" - como um algoz ímpio e portanto, também, como o instigador da crise geral, ela responde, em primeiro lugar, anatematizando tudo o que pertence ao Gestalt da vítima. No âmbito do sagrado, Girard explica, "todos... tomam cuidado para não imitar o que a vítima fez, ou apareceu fazer, para desencadear a crise... o grupo se divide e separa seus membros por meios de tabus." Os inúmeros códigos de anti-racismo, anti-sexismo, e todos outros, exemplificam o ethos da "contra-imitação". Ao regularizar os tabus naquilo que consideram externos ao que é "correto", os esquerdistas se esforçam para ter à mão uma quantidade de vítimas prontas, que possam ser colocados na praça da cidade no momento. 


De que maneira, entretanto, os defensores e praticantes do politicamento correto imitam suas vítimas? Aqui a ideia de "privilégio" entra em jogo. O inimigo alienígena possui um "privilégio" de forma ilegítima. O item, portanto, está fora das categorias morais; sua posse só é moral por um possuidor injuriado. Qualquer pessoa justa, assim, pode ter tal posse. Uma apropriação justa, de fato, redime a possessão. Neste esquema, Pedro pode ser demitido de seu cargo de autoridade por ter transgredido um tabu, enquanto João, que pertence ao lado justo da fronteira moral, pode alegremente assumir o escritório de Pedro, adquirindo e santificando a autoridade anteriormente abusada de Pedro. Não surpreende que o politicamente correto tem se mostrado extremamente eficaz, o que impulsa a sua intensificação de restrições, quando o número de prêmios atrativos prováveis diminui.  O mais recente dispositivo do politicamente correto alcança o nível da aldeia medieval da Sicília, onde a viúva enrugada, com uma verruga no nariz, pode ser linchada com impunidade. Uma "microagressão", que a esquerda agora descreve como um verdadeiro épidymie, é o malocchio ou "mau olhado" que qualquer "desconforto" imaginado pode ser atribuído por qualquer atribuidor prejudicado, com consequências devastadoras para o lado do atribuído. Os reivindicadores da ofensa pelo malocchio tem certeza que inúmeros indivíduos imediatamente imitarão sua postura "ofendida". Uma vez que a totalidade do ethos pós-Cristão é um retorno não apenas para ao comportamento pré-Cristão mas para modelos pré-Pagãos, ninguém deveria ficar chocado com a re-invenção da casualidade mágica pré-histórica pelo esquerdismo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Carta à Thomas Merton, 1962 (Por Seraphim Rose)

Sou um jovem americano convertido ao Cristianismo Ortodoxo - não aquela espiritualidade vaga e "liberal" de muitos russos modernos, "pensadores religiosos", mas a plena Ortodoxia ascética e contemplativa dos Padres e Santos - e há alguns anos tenho estudado a "crise" espiritual dos nossos tempos e atualmente estou escrevendo um livro sobre o assunto. No decorrer do meus estudos tive ocasião de ler obras de um grande número de autores católicos romanos, alguns dos quais (por exemplo, Pieper, Picard, Gilson, P. Danielou, P. de Lubac) achei bastante úteis e não tão distantes da perspectiva Ortodoxa, embora alguns outros achei preocupante no que diz respeito ao que me parece ser o ensinamento da Igreja universal. Eu li vários de seus trabalhos e, especialmente em alguns de seus artigos recentes, percebo sinais de uma das tendências do pensamento contemporâneo romano (que existe também na Ortodoxia, sendo preciso) que mais me preocuparam. Uma vez que você é um monge romano, vejo você como alguém que pode esclarecer as ambiguidades que encontrei nessa tendência de pensamento. O que gostaria de discutir diz respeito principalmente aquilo que pode ser chamado de "missão social" da Igreja.

Em um ensaio intitulado Ação Cristã na Crise Mundial você trata especialmente da questão da "paz". Em uma época que a a guerra se tornou virtualmente "impossível", isto torna-se, claro, uma preocupação central para qualquer Cristão, mas suas observações particularmente sobre este assunto me deixou preocupado.

Quais são, em primeiro lugar, os verdadeiros antagonistas da guerra espiritual de nossa época? Dizer "Russia e America" é, naturalmente, trivial; o inimigo, como você diz, "está em todos nós". Mas você em seguida diz, "O inimigo é a própria guerra" e suas raízes, "ódio, medo, egoísmo, luxúria".

Posso concordar com você que a guerra, hoje, pelo menos a "guerra total" é bastante injustificável por qualquer norma Cristã pela simples razão que sua natureza "ilimitada" escapa medida de qualquer espécie. O ponto em seu argumento que me preocupa é sua afirmação de que a única alternativa a essa guerra é a "paz".

A alternativa à "guerra total" parece ser a "paz total"; mas o que tal "paz" implica? Você diz, "temos de dar o melhor de nós para a eventual abolição" da guerra; e é isto que uma "paz total" deve ser: abolição da guerra. Não é o tipo de paz que o homem já conheceu antes, mas uma paz inteiramente nova e "permanente".

Tal objetivo, claro, é bastante compreensível para a mentalidade moderna; o idealismo político moderno, marxista e "democrático" igualmente sempre ansiaram tal fim. Mas e o Cristianismo? - e me refiro ao Cristianismo completo inflexível, não o idealismo humanista que se autodenomina Cristão. O Cristianismo não é extremamente hostil a todas as formas de idealismo, a todas suas reduções com seus fins "realistas" e suas meras ideias arrogantes? O ideal da "abolição da guerra" é realmente diferente de outros objetivos grandiosos como a "abolição" da doença, do sofrimento, do pecado, da morte? Todos esses ideais animam alguns idealistas modernos, mas é bastante claro que para o Cristão eles são secularizações e por isso, perversões da genuína esperança Cristã. Eles podem ser realizados somente em Cristo, somente em Seu Reino, que não é deste mundo; quando a fé em Cristo e a esperança de Seu Reino está a desejar, quando são feitas tentativas para efetuar tais "ideais" neste mundo - então há idolatria, o espírito do Anticristo. Doenças, sofrimentos, pecado e morte são partes inevitáveis do mundo que conhecemos como consequência da queda. Esses só podem ser eliminados por uma transformação radical da natureza humana, uma transformação possível somente em Cristo e plenamente somente após a morte.


Pessoalmente, penso que a "paz total", é, no fundo, um ideal utópico; mas o fato de que aparentemente seja praticável hoje em dia levanta uma questão profunda. Porque, a meu ver, o inimigo mais profundo da Igreja hoje não é seus inimigos óbvios - a guerra, o ódio, o ateísmo, o materialismo, todas as forças impessoais que levam ao "coletivismo" desumano, a tirania e miséria - estes têm estado conosco desde a queda, apesar de que, de fato, atualmente tomam uma forma mais extrema. Mas a apostasia que levou a este mundanismo óbvio e extremo parece-me um prelúdio de algo muito pior; e este é o principal tema da minha carta.

A esperança pela "paz" é parte de um contexto mais amplo de um idealismo renovado, fruto da Segunda Guerra Mundial e as tensões do mundo pós-guerra, um idealismo que tem, especialmente nos últimos cinco ou dez anos, capturado as mente dos homens - particularmente dos jovens - de todo o mundo, fazendo com que manifestassem concretamente, muitas vezes, em ações. A esperança que subjaz esse idealismo é a esperança de que os homens podem, afinal, viver juntos em paz e fraternalmente em uma ordem social justa, e que este fim pode ser realizado através de meios "não-violentos" que não sejam incompatíveis com esse fim.  Este objetivo aparenta ser uma revelação virtual de um "novo mundo" para todos aqueles cansados da miséria e do caos que marcou o fim do mundo "velho", aquele mundo vazio "moderno" que agora parece ter finalmente - ou quase - descartado todas suas possibilidades terríveis; e, ao mesmo tempo, parece ser algo inteiramente alcançável por meio morais - diferente dos idealismos modernos antecedentes.

Você mesmo, de fato, fala de um possível "nascimento em agonia de um novo mundo", do dever dos cristãos de hoje "executar a paciente e heroica tarefa de construir um mundo que irá prosperar na unidade e na paz", até mesmo, a este respeito, de "Cristo, o Príncipe da Paz". A questão que me preocupa gravemente em tudo isso é, se trata realmente do Cristianismo, ou ainda é só um idealismo? Ou pode ser possível os dois, um "Idealismo Cristão"?

Você fala de uma "ação Cristã", "o Cristão que manifesta a verdade do Evangelho na ação social", "não só em oração e penitência, mas também em seus compromissos políticos e em todas suas responsabilidades sociais". Bem, certamente não direi nada contra isso; se a verdade Cristã não brilha através de tudo que se faz, ao ponto de falhar em ser um Cristão, e se se é chamado para uma vocação política, sua ação naquela área também deverá ser Cristã. Mas, se não me engano, suas palavras significam algo mais que isso; ou seja, que agora, mais do que nunca, precisamos de Cristãos trabalhando na esfera social e política, para realizar ali a verdade do Evangelho. Mas por que, se o Reino de Cristo não é deste mundo? Existe realmente uma "mensagem social" Cristã, ou não é, ao contrário, o resultado da atividade Cristã de alguém que está cuidadosamente trabalhando sua salvação? De maneira alguma estou defendendo a prática do Cristianismo em isolamento; todo o Cristianismo - mesmo aquele do eremita - é um "Cristianismo social", mas isso é apenas um contexto, não um fim.  A Igreja está na sociedade porque os homens estão na sociedade, mas a finalidade da Igreja é a transformação do homem, não da sociedade. É uma boa coisa se uma sociedade e governo professam o Cristianismo verdadeiro, se suas instituições são informadas pelo Cristianismo, porque, assim, um exemplo é dado para os homens que são parte daquela sociedade; mas uma sociedade Cristã não é um fim em si, mas simplesmente um resultado do fato de que os homens Cristãos vivem em sociedade.

Eu não nego, claro, que exista tal coisa como uma "ação social" Cristã; o que questiono é a sua natureza. Quando eu alimento meu irmão com fome, isto é um ato Cristão e uma pregação do Reino que não precisa de palavras; é feito pela razão pessoal que meu irmão - aquele que está diante de mim, neste momento, está com fome, e é um ato Cristão, porque meu irmão é, em certo sentido, Cristo. Mas se eu generalizo a partir deste caso e embarco em uma cruzada política para abolir o "mal da fome", isto é algo inteiramente diferente; embora os indivíduos que participam de tal ato possam agir de maneira perfeitamente Cristã, o projeto inteiro - e precisamente por ser um "projeto", um planejamento humano - torna-se envolvido em uma espécie de manto de "idealismo".

Mais alguns exemplos: A eficiência dos medicamentos modernos não acrescentam nada ao cumprimento do mandamento para confortar os doentes; se eles estiverem disponíveis, muito bem - mas não é Cristão pensar que nosso ato é melhor porque é mais "eficiente" ou porque beneficia mais pessoas. Isso, novamente, é idealismo. Não preciso mencionar o fato de que os medicamentos podem se tornar, de fato, um substituto para o "conforto" Cristão quando a mente do praticante torna-se demasiado absorta em eficiência; e o pesquisador que busca a "cura para o câncer" não esta fazendo nada especificamente "Cristão", mas algo técnico e "neutro".

"Fraternidade" é algo que acontece, aqui e agora, em qualquer circunstância que Deus me coloca, entre eu e meu irmão; mas quando eu começo a pregar o "ideal" da fraternidade e saio deliberadamente para praticá-la, corro o risco de perdê-la por completo. Mesmo se - especialmente se - faço uso de uma aparente "resistência passiva" ou "não-violência" Cristã nesta ou em qualquer outra causa, permita-me antes que eu chame-o de ato Cristão - cuidadosamente me perguntar se seu fim é apenas um ideal elevado mundano, ou algo maior. (São Paulo, para dar um exemplo bastante claro, não disse aos escravos para se revoltarem "não-violentamente"; ele lhes disse para não se revoltar, mas preocupar-se com algo muito mais importante.)

A "Paz de Cristo", localizada no coração, não necessariamente, em nosso mundo decaído, traz a paz exterior, e eu gostaria de saber se há aí qualquer ligação com o ideal da "abolição da guerra."

A diferença entre a "caridade" organizada e a caridade Cristã não precisa de comentários.

Pode haver - e eu não teria escrito essa carta se eu não esperasse que existisse - uma espécie de verdade, porém, por assim dizer, subterrânea, um "ecumenismo" entre Cristãos separados, especialmente em tempos de perseguição; mas isso nada tem a ver com atividades de qualquer "Conselho Mundial de Igrejas".


Você pode, a partir desses exemplos, espero, entender as dúvidas que eu tenho sobre o ressurgimento de ideais aparentemente "Cristãs" em nosso tempo. Digo "dúvidas", pois não há nada intrinsecamente mau em qualquer dessas "cruzadas", e nelas existem cristãos bastantes sinceros e fervorosos que realmente estão pregando o Evangelho; mas, como disse, há uma espécie de manto de "idealismo" envolto sobre todos esses, um manto que parece estar atraindo-os para seu próprio serviço bastante independente (sem negar, dessa maneira, é claro, os atos pessoais Cristãos praticados sob seus auspícios).  Que "serviço" é esse? - o apaziguamento do senso moderno de "idealismo", transformando a interioridade a as verdades cristãs em ideais exteriores - na melhor das hipóteses - em ideais semi-cristãos. E temos de ser realistas o bastante para ver que o efeito geral sobre as mentes das pessoas tanto dentro como fora destes movimentos, dentro e fora da Igreja, é precisamente colocar ênfase sobre a realização de ideais exteriores, ocultando assim verdades interiores; e uma vez que essa ênfase tem sido dada, o caminho se estreita para a falsidade concreta que "em qualquer caso, fazer o bem é o verdadeiro propósito do Cristianismo, e é o único fundamento onde todos Cristãos podem se unir, enquanto os dogmas e as liturgias e similares são questões pessoais que tendem mais separar do que unir."  De fato, quão muitos desses, mesmo Católicos e Ortodoxos, que estão participando no mundo do "Cristianismo social" de hoje, não acreditam que este é o Cristianismo mais "perfeito" e até mesmo mais "interior" que o Cristianismo dogmático, ascético e contemplativo que não alcança "resultados" mais evidentes?

Eu, antes disso, já fui reprovado por alguns Católicos por falta de interesse na missão social da Igreja, por sustentar um Cristianismo unilateral "ascético" e "apocalíptico"; e alguns filósofos e teólogos fizeram tais acusações contra a Igreja Ortodoxa em si - acompanhado, algumas vezes, se não me engano, de um tom um tanto condescendente que assume que a Igreja está um pouco "atrasada" ou "desatualizada" sobre essas coisas, estando sempre "reprimida" pelo Estado e acostumada a olhar pro mundo através de olhos de monges demasiados fora-do-mundo. Longe de mim a presunção de falar pela Igreja; mas pelo menos posso falar de algumas coisas que penso ter aprendido com Ela.

Você pode legitimamente perguntar-me o que, já que sou cético quanto ao "Cristianismo social" - embora, claro, eu não gostaria que abolissem ou entregassem ao diabo, estou apenas apontando sua ambivalência - defendo como "ação Cristã" no meio da "crise" da época com suas alternativas urgentes.

Em primeiro lugar, questiono radicalmente a ênfase na "ação" em si, sobre "projetos" e "planejamentos", sobre a preocupação com o "social" e tudo aquilo que o homem pode fazer sobre isso - todos aqueles que atuam em detrimento da aceitação do que nos é dado, do que Deus nos dá neste momento, bem como de permitir que Sua vontade seja feita, não a nossa. Eu não proponho uma retirada total de todos Cristãos da política e do trabalho social; nenhuma regra arbitrária poderia determinar isso, cabe à consciência individual. Mas em qualquer caso, se muitos podem ser chamados para trabalhar pela "justiça", "paz", "unidade", "fraternidade" no mundo - e esses são, nesta forma ideal e generalizada, metas externas e mundanas - não seria melhor ser chamados para o trabalho totalmente inequívoco do Reino, desafiando todos os ideais do mundo e pregar o único Evangelho necessário: Arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo?  Você mesmo diz com toda razão sobre a America e Rússia, "o inimigo não está apenas de um lado ou de outro... O inimigo está em ambos os lados." Não é possível aprofundar essa percepção e aplicá-la para as outras alternativas aparentemente últimas como, "guerra" e "paz"? Uma delas é muito mais possível para um Cristão do que a outra, se "paz" é uma "paz total (ou seja, idealista)"? E o não reconhecimento dessas duas alternativas igualmente inaceitáveis não nos leva de volta a uma genuína "terceira via" - uma que nunca será popular porque não é nem "nova", nem moderna, e acima de tudo não é "idealista" - um Cristianismo que tem como fim nem uma "paz" nem uma "guerra" mundana, mas um Reino que não é deste mundo?

Isso não é nada "novo", como você diz, e o mundo que se imagina "pós-Cristão" está cansado disso. É verdade que quando nós, como Cristãos, falamos com nossos irmãos frequentemente parecemos ser confrontados com uma "parede", uma má vontade até mesmo de ouvir; e, sendo humano, nós talvez estejamos um pouco "desesperado" por essa falta de resposta. Mas o que pode ser feito sobre isso? Deveríamos desistir de falar daquilo que nossos contemporâneos não querem ouvir, e nos juntar na busca de objetivos que, uma vez que não são especificamente Cristãos, podem ser buscados também por não-Cristãos? Isso me parece uma abdicação de nossa responsabilidade como Cristãos. Eu acho que a necessidade central do nosso tempo não é de modo algum diferente do que sempre foi desde que Cristo veio; ela reside, não na área de "compromissos políticos" e "responsabilidades sociais", mas precisamente na "oração e penitência", jejum e pregação do verdadeiro Reino. A única "responsabilidade social" de um cristão é viver, onde e com quem quer que seja, a vida de fé, para sua própria salvação e como um exemplo para os outros. Se, ao fazer, nós ajudamos a melhorar ou abolir o mal social, isso é uma boa coisa - mas não é o nosso objetivo. Se ficamos desesperados quando a nossa vida e as nossas palavras não conseguem converter outros para o verdadeiro Reino, isso vem da falta de fé. Se queremos viver a nossa fé mais profundamente, seria preciso falar menos dela.

Você fala da necessidade, não apenas de falar da verdade Cristã, mas em "encarnar a verdade Cristã na ação". Para mim, isso significa precisamente a vida que acabo de descrever, uma vinda infundida com a fé em Cristo e a esperança no Seu Reino que não é deste mundo. Mas a vida que você parece descrever é uma bastante envolvida nas cosias deste mundo; considero não diferente de uma adaptação "exterior" da verdadeira interioridade Cristã.

O idealismo moderno, que é dedicado a realização idólatra do "Reino do Homem", durante muito tempo influenciou os círculos cristãos; mas somente nos anos mais recentes que essa influência começou a dar frutos reais dentro do útero da própria Igreja. Penso que não há dúvidas que estamos testemunhando as dores de parto de algo que, para o verdadeiro Cristão, é, de fato, possibilidades assustadoras: um "novo Cristianismo", um Cristianismo que afirma ser "interior", mas é inteiramente preocupado com o resultado exterior; um Cristianismo que não pode realmente acreditar em "paz" e "fraternidade", a menos que entendam por algo generalizado e universalmente aplicado, não em algum aparentemente distante "outro mundo", mas no "aqui e agora."  Este tipo de Cristianismo diz que a "virtude privada" não é suficiente - obviamente dependente de uma compreensão protestante de virtude, uma vez que tudo que um verdadeiro Cristão faz é sentido por todos no Corpo Místico; nada feito em Cristo é feito para si, sozinho - mas não é suficiente para quê? A resposta para isso, penso, é clara: para a transformação do mundo, a definitiva "realização" do Cristianismo na ordem política e social. E isso é idolatria. O Reino não é deste mundo; pensar ou ter esperança que o Cristianismo pode ser exteriormente "bem sucedido" no mundo é uma negação de tudo que Cristo e Seus profetas disseram sobre o futuro da Igreja.  O Cristianismo pode ser "bem sucedido" com uma condição: aquela de renunciar (ou convenientemente esquecer) o verdadeiro Reino e procurar construir o Reino no mundo. O "Reino Terreno" é precisamente o objetivo da mentalidade moderna; a construção dele é o significado da idade moderna. Não é Cristão; como Cristãos, sabemos que Reino é esse. E o que me preocupa bastante é que os cristãos de hoje - Católicos e também Ortodoxos - também estão se juntando, muitas vezes sem estarem cientes, muitas vezes com as melhores intenções possíveis, na construção desta nova Babel...

O idealismo moderno, que espera por um "céu na terra", igualmente espera pela vaga "transformação" do homem - o ideal do "super homem" (em diversas formas, conscientes ou não), que, embora absurdo, tem um grande apelo a uma mentalidade que foi treinada para acreditar na "evolução" e "progresso". E não permita que o desespero contemporâneo nos faça pensar que a esperança por um mundo futuro está morta; desespero pelo futuro só é possível para alguém que ainda quer acreditar nele; e, de fato, misturado com o desespero contemporâneo há um grande senso de expectativa, uma vontade de acreditar que um futuro ideal pode, de alguma maneira, ser realizado.

O poder do inumano e do impessoal governou a primeira parte do nosso século de "crise"; um vago espírito "existencial", semi ou pseudo-religioso, idealista e prático ao mesmo tempo (mas nunca de outro mundo), parece destinado governar a última parte deste século. Eles são duas fases da mesma doença, o "humanismo" moderno, doença causada pela confiança no mundo e no homem, ignorando Cristo - exceto para tomar Seu nome emprestado como um "símbolo" conveniente para homens que, afinal, não conseguem esquecê-lo, bem como para seduzir aqueles que ainda desejam servi-Lo.  O Cristianismo se tornou uma "cruzada", Cristo se tornou uma "ideia", ambos a serviço de um mundo "transformado" por técnicas científicas e sociais e por um homem virtualmente "deificado" pelo despertar de uma "nova consciência": isto está diante de nós. O comunismo, parece claro, está se aproximando de uma transformação, uma "humanização", e disto Boris Pasternak nos dá um sinal antecipadamente; ele não rejeita a Revolução, ele apenas quer que seja "humanizada". As "democracias", por um caminho diferente, estão se aproximando do mesmo objetivo. Em todos lugares, "profetas" - semi ou pseudo-Cristãos - como Berdyaev e Tolstói; pagãos mais explícitos como D. H. Lawrence, Henry Miller, Kazanzakis, bem como as legiões de ocultistas, astrólogos, espiritualistas e milenaristas - todos anunciam o nascimento de uma "nova era." Protestantes e, em seguida, mais e mais Católicos e Ortodoxos, são apanhados neste entusiasmo e imaginam sua própria era ecumênica e harmoniosa, alguns sendo tão ousados - e blasfemos - a ponto de chamá-la de "terceira era", a "descida do Espírito Santo" (como D. H. Lawrence, Berdyaev e, em última instância, Joachim de Floris).

Uma era de "paz" pode vir para o homem cansado, apocaliticamente ansioso; mas o que o Cristão pode dizer de tal "paz"? Não será uma Paz de Cristo; imaginar uma súbita conversão universal dos homens para à plena fé Cristã, não passa de fantasia; e sem essa fé, Sua Paz não pode vir. E qualquer "paz" humana será apenas o prelúdio para a única e verdadeira "guerra" de nossa época, a guerra de Cristo contra todos os poderes de Satã, a guerra dos Cristãos que apenas buscam o Reino que não é deste mundo contra todos aqueles, pagãos ou pseudo-Cristãos, que apenas buscam por um Reino mundano, o Reino do Homem.

A Letter to Thomas Merton, 1962 por Eugene [Fr. Seraphim] Rose

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Misticismo Induzido por Drogas - Uma Entrevista com Charles Upton

Charles Upton, poeta, autor, ativista e veterano da contra-cultura, participou e experimentou de primeira mão muitas das facetas do cul-de-sac New Age, incluindo suas armadilhas que frequentemente são ignoradas. Desde 1960, os psicodélicos ou alucinógenos, agora denominados enteógenos, têm desempenhado um papel crucial para os buscadores modernos e pós-modernos em contornar as armadilhas do ego empírico e alcançar a auto-realização. Depois de um hiato de quase trinta anos, a pesquisa psicodélica tem agora um reavivamento, provocando muita investigação sobre o que está por trás deste fenômeno. É interessante notar que movimentos como o New Age, o Movimento do Potencial Humano, a Psicologia Humanista, e a Psicologia Transpessoal emergiram em um cenário comum e não só compartilham muitas semelhanças, mas também possibilitou o desenvolvimento entre elas. Por exemplo, o escritor inglês, Aldous Huxley (1894-1963), pode ser considerado uma figura que liga todos os movimentos supracitados através de sua popularização da filosofia perene e seus escritos sobre psicodélicos. Huxley não só ajudou a moldar cada um dos movimentos acima, mas forneceu uma teoria integrativa puderam criar raízes. Dito isto, embora tenha popularizado a filosofia perene, ele não é considerado um tradicionalista ou perenialista.

Charles Upton deixa de lado seus camaradas New-Age e a contra-cultura ao ser introduzido as obras dos tradicionalistas ou perenialistas - mais significativamente René Guénon, Frithjof Schuon (1907-1998), e Ananda Coomaraswamy (1887-1947), desde então ele tem se filiado nesta orientação. Upton já escreveu vários livros e artigos sobre metafísica tradicional e filosofia perene, os mais notáveis são  The System of Antichrist: Truth and Falsehood in Postmodernism and the New Age (2001), incluindo sua continuação, Vectors of the Counter-initiation: The Shape and Destiny of Inverted Spirituality (2012).


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Samuel Bendeck Sotillos: Talvez pudéssemos começar com a crítica perenialista fundamental em relação ao que tem sido chamado de "expansão da consciência", "estados alterados de consciência", "estados não-ordinários de consciência" - que distingue o psíquico do espiritual; essa é uma crítica que leitores fora dos círculos tradicionalistas não estão familiarizados e tem criado uma grande confusão aos buscadores contemporâneos. Você se importaria de elaborar sobre esta distinção fundamental, de profundas implicações, no que diz respeito ao reconhecimento da autêntica espiritualidade contra a pseudo-espiritualidade ou a espiritualidade Nova Era?

Charles Upton: O plano psíquico ou intermediário é o mundo da subjetividade; o plano espiritual é a própria objetividade. Enquanto o mundo psíquico é maior que o mundo material e engloba-o, plano do Espírito é superior tanto a psique e a matéria, e engloba-os. O mundo psíquico é composto de crenças, percepções, impressões, experiências; o mundo espiritual é composto de certezas - de coisas que são verdadeiras, mesmo se não temos certeza delas. Quando o poeta da Geração Beat Lew Welch disse: "Eu busco a união com que acontece estando eu observando ou não", ele estava postulando o nível de Espírito. O plano psíquico é relativamente objetivo na medida que não está encerrado dentro da psique individual; Como Jung demonstrou, ele também tem um aspecto coletivo. No entanto, esta coletividade não está limitada a uma massa subjetiva humana ou a um "inconsciente coletivo"; ali também se encontra muitas classes de seres não-humanos, incluindo o que os gregos chamavam de daimones, as fadas dos europeus, e os jinn dos árabes. Ele carrega nada menos que as impressões das experiências de todos seres sencientes. O plano psíquico é um ambiente (relativamente) objetivo da psique-humana, assim como a terra é um ambiente (relativamente) objetivo para o corpo humano. Nossa aparente subjetividade individual é co-extensiva com inúmeras outras subjetividades, tanto humana como não humana; como Huston Smith disse, "o cérebro respira pensamentos assim como os pulmões respiram ar." Mas continua a ser essencialmente subjetivo em todos casos; é o plano das experiências, não de realidades. Uma experiência é uma impressão de uma realidade objetiva, seja material ou espiritual, recebida por um sujeito limitado, uma impressão que é editada pelas limitações inerentes ou adquiridas pelo sujeito que recebe-a. É um fenômeno e não um númeno. Qualquer que seja os dados relativamente objetivos possam ser acessados através de meios psíquicos (clarividência, precognição, etc.), sempre pertencem a entidades contingentes imersas em uma forma ou outra no espaço e no tempo, linear ou multidimensional; realidades eternas não podem ser intuídas por meios psíquicos.

O plano espiritual, por outro lado, é puramente objetivo. Ele não é composto de nossas impressões, mas de coisas que recebemos impressões - dos númenos que transcendem a experiência dos sentidos e não dependem, para sua existência, que estejamos conscientes deles, assim como - no nível de experiência sensorial - a montanha fora de nossa janela realmente está lá, mesmo se estivermos olhando-a ou não. O plano espiritual é o domínio das primeiras manifestações inteligíveis ou "nomes" de Deus - dos princípios metafísicos não são simples idéias abstratas, mas realidades vivas que têm poder, em condições adequadas, para dominar, guiar, purificar, e em conformar nossa psique para "salvar nossas almas."

Portanto, as realidades espirituais transcendem a experiência subjetiva. Mas sem experiência, elas não são eficazes para nos iluminar e nos salvar. As experiências espirituais, então,  - aquilo que os Sufis chamam de ahwal ou estados espirituais (que são elementos espirituais do caminho espiritual) - são experiências psíquicas que não são fundamentadas naquele que está experimentado, mas nas realidades objetivas que transcendem o domínio dos sentidos - nos Nomes de Deus. Estar sujeito a um estado espiritual é ter uma intuição intelectiva direta de uma realidade espiritual objetiva que transcende o estado em questão; onde o estado subjetivo pelo qual é intuído sempre velará e desvelará; e, se as realidades espirituais parcialmente transcendem nossa experiências subjetiva delas, Deus transcende nossa experiência Dele absolutamente. Experimentar Deus é ser chamado para transcender imediatamente aquela experiência necessariamente limitada Dele, e entrar em contato existencial puro com Ele como Ele é em Si mesmo, além de toda a experiência; como os Sufis dizem, "o ser humano não conhece Deus em Sua Essência Absoluta; é Deus que conhece a Si mesmo na forma humana". A prática Sufi de contemplar a Deus dessa maneira é conhecida como Fikr, que pode ser definida como "o sacrifício contínuo de toda concepção do Absoluto, gerado pelo Absoluto, em face do Absoluto."

Assim, podemos dizer que as realidades espirituais são objetivas, e que Deus, a Fonte de todas essas realidades, é o Objeto Absoluto. Mas, "objeto" aqui não significa "qualquer coisa que seja percebido por um sujeito limitado como algo diferente de si mesmo"; tomado neste sentido, "objeto" é relativo aquele sujeito limitado e assim participa de sua subjetividade. Deus, como o Objeto Absoluto é igualmente a morada do Sujeito Absoluto, a Testemunha Absoluta, aquilo que os Hindus chamam de Atman, o que Frithjof Schuon chama de "Sujeito absoluto de nossas subjetividades contingentes." A Testemunha Absoluta se situa "atrás" de todas experiências psíquicas, testemunhando-as impassivelmente, não se identificando com elas; aqui se encontra a diferença exata entre a psique e o Espírito.

Não podemos alcançar Deus através da psique, através da experiência; a essência do caminho espiritual é colocar-nos na presença de Deus e deixar que Ele nos alcance. Ele pode fazer isso através de experiências, através de eventos, ou através de uma ação secreta dentro da alma que não somos sequer conscientes. A função das experiências espirituais, ou estados, não é "enriquecer a alma" com impressões fascinantes do Divino, mas queimar aspectos específicos do ego, apegos e identificações específicas; é por isso que o Sufi realizado, aquele que transcendeu a si mesmo, que morreu para si mesmo, torna-se objetivo para si mesmo - ou melhor, para a Testemunha Absoluta dentro de si - está inteiramente além de todos estado espirituais.

SBS: Dando sequência a este assunto, o que você pode dizer sobre a hipótese que a busca pela expansão da consciência - ou por um estado alterado de consciência - é um fim em si mesmo, como se fosse uma norma humana desejável que contradiz os princípios pereniais - "o objetivo não é estados alterados, mas traços alterados." Esta abordagem perigosa muitas vezes envolve uma mistura ad hoc de técnicas espirituais ao invés de uma aderência persistente em uma forma espiritual ortodoxa. Você poderia por favor falar sobre esse desenvolvimento confuso?


Charles Upton: Isso tudo é uma espécie de desespero, bem como uma indicação que o colapso das religiões tradicionais reveladas, conduzindo a uma Religião Única Mundial, constituída de fragmentos resultantes, - um desenvolvimento que resultará no regime do Anticristo - está prosseguindo de forma programada.

Na medida que as religiões degeneram, o sentimento da realidade de Deus é progressivamente substituído por uma obsessão com a moralidade como um fim em si mesmo, e o fervor religioso considerado como um fim em si mesmo, ambos tomados fora de seu contexto próprio. A pureza moral já não é sentida como algo que naturalmente devemos a Deus em vista de Seu amor por nós e pelo fato de que Ele nos criou, mas algo que nos impede de cair na ingratidão de adorar as paixões como ídolos em Seu lugar; assim, a moralidade se torna-se um ídolo em si mesma. Da mesma forma, o fervor perdeu de vista o Deus que supostamente lhe inspira, tornando-se um substituto de Sua presença em vez de uma resposta a ela. Em vários dos hinos protestantes contemporâneos, por exemplo - ou canções contemporâneas de "pop" Cristão - os cantores cantam principalmente sobre seus próprios sentimentos e não sobre Deus.

De igual modo, vários programas de "estudos da consciência", atualmente disponíveis na academia, tendem a concentrar-se em estados subjetivos de consciência, bem como nos sistemas de crenças que lhes dão suporte e as técnicas pelas quais às vezes podem ser produzidas ao invés de compreender os estados espirituais como reflexos de uma ordem metafísica objetiva e, assim, como instâncias de conhecimento ao invés de simples experiências.  De acordo com a doutrina Sufi, os estados espirituais não são aquisições, mas dons de Deus. Ele os envia a fim de "queimar" paixões específicas, apegos e nós-egóicos; depois que os apegos são dissolvidos, aquele estado particular não retorna. Por exemplo, o hábito de um medo neurótico, queimado por um estado (hal) de um amor extático, é transformado em uma estação (maqam) de coragem e equanimidade; assim, um "estado" temporário resultou em um "traço" estabelecido. E o Sufi totalmente realizado é dito estar além de ambos estados e estações, uma vez que ele já não mantém mais um ego separativo que possa ser sujeitos aos mesmos; ele atingiu uma realização metafísica objetiva. Quando a fé tradicional é forte, é uma fonte de segurança e certeza para os fiéis; eles sentem que estão na presença dos sagrados mistérios. Mas quando as religiões tradicionais enfraquecem, certas pessoas que estariam espiritualmente satisfeitas por simplesmente viver dentro de um ambiente e uma tradição sagrada, e que teriam salvado suas almas, concebem o desejo de uma relação direta mística com Deus, de modo a compensar o que foi perdido - uma relação que pode não ser, de fato, adequada para eles. Eles imaginam que essa relação só pode resultar de um extravagante tour-de-force espiritual - e as drogas psicodélicas imediatamente aparecem como uma maneira plausível de tomar esse caminho. Mas os psicodélicos, bem como as várias técnicas espirituais, tal como o yoga não-tradicional secularizado, são frequentemente abordados em função de um contexto limitante e falso, onde as pessoas buscam libertarem-se de uma vida espiritual como um exercício da vontade-própria (como no caso da moralidade compulsiva), e de Deus concebido como uma experiência ao invés de uma Realidade (como no caso do fervor auto-centrado, por exemplo, que diviniza a experiência e que pode ser descrito como uma espécie de "pentecostalismo não-cristão"). Na ausência de um senso de Graça de Deus, baseado na fé, que São Paulo chama de "o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem", nada é possível na vida espiritual além de uma tentativa Prometéica de tomar o céu por assalto e um narcisismo espiritual - duas patologias que estão intimamente relacionadas entre si e que nunca aparecem separadas. A vontade de cortar relações com o Intelecto espiritual (que está virtualmente em vigor, sempre que a Fé a Graça estão presentes) produz o prometeísmo; a alienação das afeições do Intelecto produz narcisismo.

É bastante interessante que as drogas psicodélicas entram em cena precisamente no mesmo momento em que o Concílio Vaticano II estava abolindo o Catolicismo Romano tradicional e desconstruindo a ordem sacramental. É como se a graça dos sacramentos Católicos Romanos, enquanto estavam intactos, transbordavam - em seu contexto especificamente Católico - e mantinham um certo nível de elevação no "inconsciente coletivo" do mundo ocidental, uma elevação que foi rapidamente perdida quando a graça foi cortada. Diante de um repentino senso - inconsciente ou semi-consciente - de perda espiritual, e a sensação sufocante que sempre surge quando a psique é cortada do plano do Espírito, a coletividade ocidental tornou-se suscetível à tentação dos psicodélicos, que, pelo menos, pode proporcionar (embora não sem consequências extremamente negativas) uma expansividade psíquica horizontal, que surge para compensar - e por vezes, em verdade, falsifica -  a perda de uma elevação espiritual vertical, enquanto ao mesmo tempo esconde o fato de que essa perda já ocorreu. Psicodélicos, em outras palavras, se tornaram uma espécie de "prêmio de consolação" luciférico oferecido como compensação pela queda da cristandade ocidental. 


SBS: Os defensores e os pesquisadores dos psicodélicos afirmam que, devido ao fato de que as propriedades psicoativas se encontram naturalmente em algumas plantas (e até são endógenos ao corpo humano), esses têm sido utilizados em rituais sagrados por todo o mundo desde tempos imemoriais. Sugerem que eles podem ter sido os precursores de fundação das próprias religiões. Tem sido sugerido que essas plantas que alteram a mente eram os componentes centrais do Soma do Rig Veda ou do Hoama do Avesta, identificando como nada menos que o cogumelo Amanita muscaria, e que o principal rito dos mistérios elusianos (dizem que Platão, Aristóteles e Epicteto foram inciados), o Kykeon, supostamente seria o fungo ergo que contém alcaloides psicoativos como o LSD (ácido lisérgico e dietilamida); também se afirmou que o Manna da Bíblia Hebraica era um psicodélico. O uso de cogumelos psicoativos também têm sido atribuído ao culto de Mitra, e dizem ter sido utilizado no Egito antigo e até mesmo nas origens do Cristianismo. Poderiam as drogas psicodélicas serem a verdadeira origem de qualquer religião revelada particular? Quais são seus pensamentos sobre essa importante discussão?

Charles Upton: Uma vez que as religiões são fundadas por uma ação Divina através de profetas e avatares (talvez com exceção do Budismo, embora Gautama Buddha também seja considerado ser o nono avatar de Vishnu, dentro da tradição Hindu), dizer que elas foram iniciadas por psicodélicos é negar que Deus possa ter Sua própria iniciativa e isso é, consequentemente, negar Deus. É fazer da "religião" algo inteiramente humano e, portanto, postular algo que não se encaixa na própria definição dessa palavra. Nenhuma tradição religiosa afirma ter sido fundada com base na experiência psicodélica; tais afirmações emanam de usuários de psicodélicos que gostam de projetar suas fantasias em tradições que eles de modo algum pretendem seguir. Qualquer um que pensa que Moisés encontrou com Deus no Sinai ou que Jesus se tornou "Cristo" depois de comer alguns cogumelos, porque de outra forma como poderiam eles terem feito isso, não tem qualquer senso do sagrado. Dentro de certos contextos e em certas yugas talvez fosse espiritualmente possível abrir aos iniciados as graças de um caminho espiritual já estabelecido através do uso de psicodélicos, mas tais coisas certamente não são possíveis em nosso tempo, exceto por um grande custo - e com que moeda poderíamos pagar esse custo, pobre como nós somos? Em todo caso, é certo que o estabelecimento de um caminho espiritual legítimo através do uso de psicodélicos nunca foi possível e nem necessário.

SBS: Embora a filosofia perene reconheça as tradições Xamânicas dos Primeiros Povos, um desafio central para a noção que os enteógenos ou psicodélicos foram utilizados desde os tempos mais antigos é que, desde o "começo dos tempos" ou "pré-história" - que alguns sugerem ser em torno de 5000 a.C - quando contextualizados dentro do tempo cíclico, é provável que se encontre na Kali Yuga ou Idade de Ferro, na culminação deste ciclo temporal ou na melhor das hipóteses, no Dharma Yuga ou Idade de Bronze, a fase que precede a idade final. Dessa maneira, o uso de plantas sagradas que possuem propriedades psicoativas ocorreram no final do ciclo cósmico (manvantara) e não no seu inicio, na Krita-Yuga ou Satya-Yuga, conhecido como a Idade de Ouro na cosmologia ocidental. Isso apoiaria a observação do proeminente historiador de religião, Mircea Eliade (1907-1986), que "o uso de intoxicantes... é uma inovação recente e aponta para uma decadência na técnica xamânica." Você poderia por favor elaborar sobre a perspectiva perenialista quanto a este ponto?

Charles Upton: Eu concordo com a opinião inicial dos psicodélicos; quando uma tradição espiritual se degenera, não há como dizer o que as pessoas irão tentar a fim de recuperar o que se sente que perdeu. Talvez, se Deus quiser, algo pode ser parcialmente recuperado através dos psicodélicos sob certas condições cósmicas - condições que certamente não desfrutamos hoje - mas, a própria tentativa de recuperar uma exaltação espiritual antiga é uma evidência de uma degeneração. A Krita-Yuga foi caracterizada por uma "consciência teofânica em massa" em que os psicodélicos não eram necessários; nas palavras do Gênesis, a humanidade "passeava com Deus no jardim ao entardecer." Na minha opinião (e eu estou aberto à correção), o xamanismo começou na Tetra-Yuga ou Idade de Prata, quando o ambiente cósmico estava sujeito a desequilíbrios devido às incursões demoníacas que os xamãs - como eles mesmos se intitulam, de acordo com Eliade - foram enviados por Deus para corrigir. E, como os xamãs de nossos tempos têm afirmado, de acordo com Eliade, seus antepassados eram imensamente mais poderosos que eles, e não precisavam de psicodélicos; de modo que o uso da "muleta" psicodélica, sem dúvida, veio mais tarde que a própria dispensação xamânica. Também de grande interesse é o fato de que a visionária Cristã e estigmatista Anne Catherine Emmerich (1774-1824), em seu livro A Vida de Cristo e Revelações Bíblicas, com base em suas visões, menciona um patriarca não-bíblico Hom, que ou foi nomeado posteriormente, ou forneceu um nome para uma planta que considerava sagrada. Essa planta, na minha opinião, é a planta Haoma, dos antigos persas, equivalente ao Soma védico. De acordo com Emmerich, a linhagem que ia desde Hom, que incluia um tal Dsemschid (sem duvidas, o lendário rei persa Jamshid), tornou-se poluída com fantasias satânicas e, embora aparentemente ela não tenha reconhecido a planta em questão como intoxicante, é altamente improvável que Emmerich, uma camponesa quase analfabeta de Vestefália, teria algum conhecimento da história Persa ou erudição Zoroastra, muito menos sobre os efeitos de um psicodélico exótico. Por isso, pode muito bem ser verdade que o uso de tais plantas, pelo menos para além da era cósmica que poderiam ter permitido sua utilização sobre certas condições, representa um desvio verdadeiramente antigo na relação da humanidade com Deus. (Não se deve esquecer, no entanto, que de acordo com René Guénon e Ananda K. Coomaraswamy, o Soma e Haome, em seu sentido simbólico mais elevado, não são plantas psicoativas, mas a fonte da "Bebida da Imortalidade" que retorna a forma humana ao seu fitra, ao seu estado edênico primordial, antes da Queda. Em outras palavras, eles simbolizam um determinado estágio da realização espiritual.)

Quanto à opinião do Eliade que o êxtase psicodélico é idêntico ao êxtase produzido por outros meios, eu especulo que ele disse isso só porque ele mesmo experimentou os psicodélicos e não tinha mais nada que pudesse compará-los. Ele era um estudioso incomparável de religião, mas ele não tinha uma fé religiosa; ele caracterizava as religiões, os mitos, as crenças metafísicas como "criações artísticas" referentes a nenhuma realidade objetiva; ele as colocava no plano psíquico e não no plano espiritual.

SBS: Existe a noção que o uso do peiote (Lophophora williamsii) através da sincretista Igreja Nativa Americana (NAC) é compatível com os outros ritos xamânicos tradicionais que originalmente não utilizavam esta planta. Por exemplo, há alguns que sugerem que a religião da Dança do Sol é compatível com o uso de peiote (alguns até mesmo introduziram a Ayahuasca ou Yajé neste ritual sagrado). No entanto, autoridades espirituais tradicionais dentro dessas comunidades, tais como
o curandeiro e chefe da Dança do Sol, Thomas Yellowtail (1903-1993), sugere exatamente o contrário, que eles não são compatíveis e que tal sincretismo ou mistura de elementos estrangeiros, como o peiote são, de fato, perigosos, e podem ser espiritualmente prejudiciais, sem mencionar que eles não fazem justiça com nenhum dos caminhos espirituais e acabam diluindo cada tradição, levando à morte de ambas. Você tem alguma opinião sobre isso?

Charles Upton: Yellowtail está correto.

SBS: Juntamente com a Igreja Nativa Americana (NAC), há também o fenômeno da bebida psicoativa Ayahuasca ou Yajé na America do Sul, que tem sido amplamente explorada e disponibilizada em todo mundo através das igrejas sincréticas do Santo Daime, fundada pelo Mestre Irineu ou Raimundo Irineiu Serra (1892-1971), e pela União do Vegetal (Centro Espírita Beneficente União do Vegetal ou UDV), fundada pelo Mestre Gabriel ou José Gabriel da Costa (1922-1971), que combina Catolicismo, Espiritismo de Allan Kardec (1804-1869) e Xamanismo Africano e Sul-Americano. Em conjunto com isso, precisamos mencionar que a busca por experiências místicas também trouxe o fenômeno do "turismo espiritual" para partes remotas  da bacia amazônica e tem trazido efeitos nocivos as sociedades tradicionais que vivem nessas áreas, estendendo-se a todas as tradições sapienciais. Você poderia falar sobre esses fenômenos interessantes, que são, sem dúvida, uma marca do pensamento New Age?

Charles Upton: Sincretizar diferentes formas do sagrado, assumindo que são originalmente verdadeiros caminhos espirituais, e não simplesmente "tecnologias" psíquicas, é relativizar e subjetivar-las e, assim, conduzir tudo para baixo, para o nível da psique ao mesmo tempo vedando o acesso ao Espírito; e isso equivale a invocação demoníaca. E, se as práticas em questão são fundamentalmente psíquicas, misturá-las só pode gerar ainda mais caos. A Unidade Espiritual é superior a multiplicidade psíquica e engloba-a, mas, uma vez que a Unidade do Espírito é velada, vem a ideia "Você quer dizer que você só tem um deus? Vocês são espiritualmente privados! Temos centenas" - o "reino da quantidade" com força total! O problema com esta abordagem é que nenhum desses vários deuses pode ser a Realidade Absoluta, nem mesmo um símbolo psíquico dela - pois, por definição, você não pode ter mais de um Absoluto. E o caos psíquico criado pela mistura do Xamanismo Africano e Sul Americano com o Catolicismo e o Espiritismo Europeu só pode ser comparado com com a reprodução da música de Bach, de Moody Blues, Charlie Parker e Inti Illimani todas ao mesmo tempo - uma prática que só conseguiria destruir toda a presença da mente e unidade da alma do ouvinte. É claro que algumas pessoas gostam desse tipo de coisa; em vez de transcender sua individualidade, através da ascensão espiritual, eles simplesmente preferem quebrá-la, e, consequentemente, afundar pra baixo dela, para o nível infra-psíquico. É o chamado "pós-modernismo".

E o turismo espiritual em lugares como a Amazônia causa danos não somente as culturas indígenas, mas também aos turistas. (Recentemente vi uma notícia sobre uma aldeia que proibiu tal turismo; um aldeão chamou de "assustador" os estranhos norte-americanos que lhe visitaram e imediatamente pediram para que falassem tudo sobre os rituais sagrados locais e suas crenças.) Quando os "norteamericanos" e os europeus endinheirados entram nas aldeias sujas e pobres da Amazônia e em outros lugares à procura de satisfazer sua fome espiritual, uma fome baseada no abandono de sua própria tradição espiritual (geralmente o Cristianismo), eles tentam seduzir os anciões da aldeias que troquem coisas sagradas por dinheiro (um pecado que os católicos tradicionais chamam de simonia). Turistas espirituais não são em geral peregrinos, mas ladrões, vampiros. Na maioria dos casos eles não estão à procura de um caminho espiritual para dedicar suas vidas, mas simplesmente pegando aqui e ali qualquer objeto de arte sacra, ou experiências psicodélicas, ou rituais sagrados degradados ao nível de mero espetáculo que se adequem a suas fantasias - isso quando não é o caso de serem em verdade feiticeiros em busca de "poder pessoal". Muitas vezes seu tipo é psíquico em vez de espiritual; como a maioria dos turistas, eles estão buscando por "experiências", não por princípios para viver. Eles deixam para trás as influências destrutivas de suas próprias atitudes profanas pós-modernas, e voltam para casa poluídos com os resíduos psíquicos tóxicos das formas sacras que saquearam de modo a liberá-las para fazer estragos dentro de suas próprias culturas.

SBS: Outro ponto importante a discutir é que, embora exista sociedades tradicionais xamânicas que ainda hoje utilizam plantas psicoativas em seus ritos sagrados, - i.e. os Huichol, Tarahumara, Cora, Mazatec, Bwiti, Kayapo, Fang, Mitsogo, Jivaro, Yanomami, Koryak, etc - isso não significa necessariamente que aqueles que estão fora desses grupos raciais e étnicos também terão a mesma resposta espiritual e benéfica com o uso dessas plantas. É como se aos diferentes povos indígenas foram dadas diferentes plantas medicinais específicas para sua constituição humana e contexto ecológico. Você poderia por favor falar sobre este tema  sensível, pois, talvez seja, "politicamente incorreto"?

Charles Upton: Isto é, sem dúvida, verdade em muitos casos. Se pela invocação do divino nome Allah não se espera que seja espiritualmente fecundo para um Budista, então, pela mesma razão, o uso de certas plantas psicoativas fora de seu contexto tradicional e ritual, é provável que não tenha o mesmo efeito que teria dentro desses contextos, e provavelmente terá um efeito negativo. Essas transferências psíquicas e culturais podem ser comparadas - com precisão - ao colapso de ecossistemas distintos e independentes. A Carpa Asiática estão muito bem na Ásia; nos Grandes Lagos elas são um desastre. E aqueles que esperam se beneficiar com as cosmovisões sagradas dos Huichols, dos Tarahumara ou da Igreja Nativa Americana, deveriam estar dispostos a viver sob as mesmas condições de privação, opressão e marginalização social, como os Huichols, os Tarahumara e a Igreja Nativa Americana. Se você quer a espiritualidade da Reserva, aceite o sofrimento da Reserva. O Xamanismo, mesmo aquele relativamente degenerado, tem uma certa justificativa prática em condições verdadeiramente primitivas, uma vez que representa grande parte da herança tecnológica da tribo. O xamã cura as doenças,  cria os jogos, desenvolve as investigações criminais, influencia o tempo, protege a tribo em guerra, e protege contra os desequilíbrios psicológicos e / ou incursões demoníacas. Mas, sob condições modernas, quando ao menos algumas dessas funções podem ser cumpridas por outros meios, o xamanismo perde certo grau de sua razão de ser. Jean Cocteau (1889-1963), cineasta e poeta francês, conta a história de um antropólogo que estava estudando as tradições populares dos nativos no Haiti, onde as árvores são (ou eram) utilizadas para a comunicação de longa distância; quando o marido de alguma mulher estava longe, no mercado, ela podia enviar uma mensagem para ele conversando com uma árvore e recebia a resposta pela mesmo meio. Quando o antropólogo perguntou por que os nativos falavam com as árvores, responderam "Porque somos pobres. Se fôssemos ricos teríamos um telefone." Na minha opinião, pessoas do ocidente pós-moderno, cuja natureza psicofísica ainda não está totalmente integrada ao Espírito, ou pelo menos totalmente submetido a Ele - uma condição extremamente rara em nosso tempo - nunca deveriam ter contato com o xamanismo das culturas primitivas, uma vez que os ocidentais não possuem a proteção fornecida por um conjunto espiritual  básico e os caracteres de formação dessas culturas. O caso raro e excepcional é da pessoa que, pela graça de Deus, encontrou e foi aceito, não somente por um curandeiro ou um xamã tradicional, mas por um verdadeiro homem santo dos caminhos espirituais primitivos - no entanto, como ele ou ela poderia, em primeiro lugar, reconhecer tal homem santo, é difícil de imaginar. 

Entrevista publicada no livro Psychology and the Perennial Philosophy: Studies in Comparative Religion
por Samuel Bendeck Sotillos