domingo, 18 de maio de 2014

Simbolismo e Antropomorfismo (Por René Guénon)


A palavra “símbolo”, no sentido mais geral, pode ser aplicada a toda expressão formal de uma doutrina, seja ela verbal, visual ou outra; uma palavra não tem outra função ou justificativa senão a de simbolizar uma ideia, o que significa dizer que ela fornece, desde que seja possível, uma representação sensível - e de alguma forma analógica - de uma ideia. Partindo desde sentido, o simbolismo, nada mais é do que o emprego de formas ou imagens como sinais de ideias ou de coisas suprassensíveis, sendo, evidentemente natural a mente humana e, assim, necessário e espontâneo; a linguagem nos dá um simples exemplo deste processo. Existe também, em um sentido mais especial, um simbolismo calculado intencional, que de certa forma cristaliza os ensinamentos doutrinários em figuras simbólicas; e, realmente, entre estes dois tipos de simbolismo não existe, verdade seja dita, uma linha divisória precisa, pois é quase certo que a escrita, na sua origem, era completamente ideográfica, isto é, essencialmente simbólica, mesmo no sentido mais especial que temos referido, embora seja apenas na China, que este estado exclusivamente este ainda permanece. Todavia, o simbolismo, como geralmente compreendido, está mais em uso constante para a expressão do pensamento Oriental que o Ocidental; e isso é perfeitamente compreensível quando se percebe que se trata de um meio muito menos limitado para expressão do que a linguagem comum; sugerindo, dessa forma, muito mais do que aquilo que expressa, fornecendo o suporte que melhor se adapta as possibilidades de concepções que se encontram além do poder das palavras.

De fato, no simbolismo, a indefinitude conceitual de modo algum impossibilita uma exatidão absolutamente matemática, conciliando, assim, qualidades aparentemente contraditórias, ele representa, como se poderia dizer, a linguagem natural da metafísica; além disso, os símbolos originalmente metafísicos podem se tornar símbolos religiosos, por um processo de adaptação secundária em funcionamento ao lado da própria doutrina. Todos os ritos, por exemplo, possuem um caráter eminentemente simbólico, qualquer que seja domínio que esse esteja ligado, e é sempre possível transpor o significado dos ritos religiosos para um sentido metafísico, assim como a da doutrina teológica da qual estão vinculados; mesmo em ritos puramente sociais, se alguém deseja descobrir as razões mais profundas de sua existência, é necessário passar da esfera de aplicações, que contém as condições imediatas relativas, para a esfera dos princípios, isto é, para sua fonte tradicional, que é metafísica em sua essência. Nós não estamos, no entanto, tentando sugerir que os ritos não são nada mais que símbolos puros; são simbólicos, sem dúvida, e eles não podem deixar de ser assim, pois de outra forma seriam bastantes desprovidos de sentido, mas devem ao mesmo tempo serem concebidos de forma a possuir uma eficácia própria, como um meio de realização que funciona tendo em vista o fim para o qual foram instituídos e ao qual estão subordinados. No plano religioso, talvez reconheçam a concepção católica da virtude dos "sacramentos", enquanto que no ponto de vista metafísico se descobre o princípio subjacente a certas formas de realização para o qual faremos referência mais tarde, e é isso que nos possibilita em falar de ritos especificamente metafísicos. Além disso, pode-se dizer que cada símbolo, na medida em que deve essencialmente servir como suporte de um conceito, também é dotado de uma eficácia real; e o próprio sacramento religioso, na medida em que é um sinal sensível, de fato desempenhar um papel similar como apoio da "influência espiritual", que irá transformar o sacramento em um instrumento de regeneração psíquica imediata ou atendida; assim como as potencialidades intelectuais estão inclusas, os símbolo são capazes de despertar ou uma concepção efetiva ou simplesmente uma concepção virtual, de acordo com a capacidade receptiva de cada indivíduo. Deste ponto de vista, um rito ainda é um tipo particular de símbolo: é, pode-se dizer, um símbolo "promulgado", mas apenas se o símbolo for tomado por aquilo que ele realmente é e não considerando meramente o seu exterior ou sua aparência contingente: aqui, assim como no estudo dos textos, é preciso aprender a olhar para além da "letra", a fim de descobrir o "espírito".

Isso, no entanto, é precisamente o que os ocidentais geralmente não conseguem fazer: as interpretações defeituosas dos orientalistas nos fornecem exemplos característicos, muito frequentemente assumem a forma de distorcer os símbolos que são os objetos de estudo, da mesma forma que a mente ocidental em geral distorce espontaneamente quaisquer símbolos que venha a encontrar. A causa determinante do erro, neste caso, é a predominância das faculdades sensíveis e imaginativas: em confundir o próprio símbolo com aquilo que ele representa, por meio de uma incapacidade de elevar ao seu teor puramente intelectual, essa é a confusão fundamental encontrada na raiz de todas "idolatrias", tomando esta palavra seu sentido mais estrito, como é visto com clareza especialmente no Islam. Quando nada de um símbolo resta, mas a sua forma exterior, tanto a sua justificação e sua virtude real igualmente desaparecem; o símbolo então se tornou nada mais que um "ídolo", isto é, uma imagem em vão, e sua preservação equivale a mera "superstição"; até que alguém dotado de um entendimento capaz de efetivamente restaura-lo, seja parcialmente ou totalmente, aquilo que foi perdido, ou pelo menos aqueles elementos que já não estão contidos, salvo nos casos de possibilidade latente. Isso se aplica aos vestígios deixados para trás por todas as tradições em que o real significado caiu no esquecimento, e, especialmente, a qualquer religião que tenha sido reduzida pela incompreensão geral de seus adeptos a um mero formalismo externo; já dissemos que o exemplo talvez mais marcante de tal degeneração é o caso da religião grega. É também entre os gregos que a tendência se encontrava na sua forma mais extrema, que parece ser inseparável da "idolatria" e a materialização de símbolos, ou seja, uma tendência para o antropomorfismo:  eles olhavam para seus deuses como representações de certos princípios, mas eles retratava-os como seres de formas humanas, afetados por sentimentos humanos e agindo segundo as maneiras humanas; e esses deuses, para os gregos, já não possuíam qualquer coisa pela qual fosse possível distingui-los das formas em que a poesia e a arte lhes tinha revestidos, de modo que eles eram literalmente nada além da próprio forma.

Tal redução completa para uma perspectiva humana só poderia servir de pretexto para a teoria que tem sido chamado de "Evemerismo", - nome de seu inventor, segundo a qual os deuses eram inicialmente nada mais do que os homens ilustres; de fato, seria impossível ir mais longe na incompreensão grosseira, mais grosseira até mesmo que certos modernos que se recusam a ver nos símbolos antigos nada mais do que uma figuração ou uma tentativa de explicação dos diversos fenômenos naturais; a tão famosa teoria do "mito solar" é o exemplo mais conhecido deste último tipo de interpretação. "Mitos", assim como "ídolos", nunca foram outra coisa senão símbolos mal compreendidos: um corresponde na ordem dos discursos enquanto que o outro está na ordem visual;  entre os gregos, a poesia deu origem ao primeiro, assim como a arte produziu o segundo; mas entre os povos, como os orientais, naturalismo e antropomorfismo são igualmente estrangeiros, nem um nem o outro pode surgir senão na imaginação dos ocidentais que pretendiam estabelecer-se como intérpretes de coisas que eles falharam em entender completamente. A interpretação naturalista realmente inverte as relações normais: um fenômeno natural, como qualquer outra coisa pertencente à ordem sensível, pode ser tomada para simbolizar uma ideia ou um princípio, e um símbolo não tem uso ou justificativa salvo em virtude do fato de ele pertencer a uma ordem inferior a coisa simbolizada. Da mesma forma, há, sem dúvida, uma tendência geral e natural no homem para empregar a forma humana para fins simbólicos; mas esta prática, o que em si não constitui nenhum problema assim como uso de figuras geométricas ou qualquer outro método de representação, de modo algum constitui antropomorfismo, desde que o homem não se torne um joguete da figuração que ele adotou.

Na China e na Índia, nunca houve qualquer paralelo com o que ocorreu na Grécia, e os símbolos baseados na figura humana, embora comumente utilizados, nunca foram transformados em "ídolos"; e, neste contexto, também pode-se notar o quão oposto é a concepção ocidental de arte ao simbolismo: nada é menos simbólico do que a arte grega "clássica" e nada é mais simbolico do que as artes orientais; mas onde a arte é considerada apenas como um meio de expressão para servir como veículo de certas concepções intelectuais, obviamente não poderia ser tomada possuindo um fim em si mesma, só acontecendo entre os povos de mentes voltadas ao sentimentalÉ nesses povos que antropomorfismo acontece naturalmente, e deve-se notar que estes são os povos entre os quais, pela mesma razão, o ponto de vista religioso propriamente dito foi capaz de estabelecer-se; a religião, no entanto, sempre tentou reagir contra a tendência antropomórfica e combater-lo em seu princípio, até mesmo quando uma concepção mais ou menos distorcida na mente popular tenha ajudado a desenvolve-la na prática.  Os povos chamados semitas, como os judeus e árabes, são neste aspecto semelhante aos povos ocidentais: de fato, não há nenhuma razão para explicar a proibição de símbolos sob uma forma humana, que é comum tanto ao judaísmo e no islamismo, mas com a exceção, que no Islam nunca foi aplicado de forma estrita entre os persas, para quem o emprego de símbolos deste tipo oferecia menos perigos porque, sendo mais inteiramente Oriental que os árabes, e além disso, de uma raça bem diferente, eles estavam muito menos propensos a cair no antropomorfismo.
Estas últimas observações nos dão a oportunidade de proferir algumas palavras sobre a ideia de "criação". Essa concepção, que é tão estranha para os orientais, sendo os muçulmanos uma exceção, assim como também estranho para a antiguidade greco-romana, aparenta ser especificamente judaica em sua origem; a palavra que a denota é realmente de forma Latina, mas ela não carrega mais o significado que o cristianismo lhe deu mais tarde, uma vez que creare, a princípio, significava nada mais do que "fazer", um sentido em que a raiz verbal kri, que é idêntica a raiz da palavra latina, sempre preservou em Sânscrito; a mudança de significado que ocorreu foi profunda e, como já apontado, foi semelhante a alteração sofrida pelo termo "religião".


É claramente do Judaísmo que essa ideia passa para o Cristianismo e ao Islam e a razão para isso é essencialmente a mesma que deu origem à proibição de símbolos antropomórficos. Na prática, a tendência de conceber a Deus como "um ser," mais ou menos semelhante ao um indivíduo e, especialmente, aos seres humanos, onde quer que se encontre, certamente produz como corolário natural uma tendência de atribuir a Deus uma função simplesmente "demiúrgica", isto é, uma atividade exercida sobre uma "matéria" que é encarada como externa a Ele e que é um modo de ação próprio de seres individuais. Sob essas condições, de modo a salvaguardar a noção da Unidade Divina e Infinito, tornou-se necessário declarar expressamente que Deus "criou o mundo a partir do nada", o que equivale a dizer "de nada que fosse externo a Si mesmo", de outra forma a suposição resultaria em limitar-Lo ao dar à luz a um dualismo radical. Neste caso, a heresia teológica eleva-se a uma expressão metafísica absurda, que é, aliás, o que normalmente acontece; mas esse perigo, quase inexistente no que se refere a metafísica pura, se torna bem real do ponto de vista religioso, porque nesta forma derivada, o absurdo não fica imediatamente claro. A concepção teológica de "criação" é uma tradução apropriada da concepção metafísica da "manifestação universal", sendo aquela que melhor se adapta à mentalidade dos povos ocidentais; há, porém, nenhuma equivalência real entre essas duas concepções, uma vez que elas necessariamente devem ser separadas por toda a diferença que distanciam os pontos de vista a que se referem. 

René Guénon em Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Psicologia "Principial": A Natureza Tripartite da Psique Humana na Queda e Restauração (Por Charles Upton)


Giovanni di Paolo - The Creation of the World and the Expulsion from Paradise
A natureza tripartite do microcosmo humano - Espírito, Alma e Corpo - está diretamente relacionada com a natureza tripartite do macrocosmo - O Plano Celestial / Inteligível / Espiritual; o Plano Psíquico/Imaginário e o Plano Físico/Sensual - encontra-se refletido em um nível inferior dentro da alma ou da própria psique. Em conformidade com esta verdade, podemos dizer que a alma humana é composta de três faculdades principais: a mente racional, as afeições e a vontade. A mente racional é o reflexo psíquico do Intelecto; a vontade simbolicamente está relacionada com o corpo, uma vez que ela se manifesta mais visivelmente e concretamente como um movimento voluntário; e as afeições são, por assim dizer, o símbolo da psique como um todo. A alma é também sede dAquilo que a transcende, o intelecto espiritual, o Nous. Na alma original não caída, como Deus o criou, a mente racional se volta para o Intelecto para os seus princípios fundamentais; a vontade obedece às diretrizes que a mente racional obtém desses princípios; e as afeições capacita a vontade para obedecer à mente racional constantemente e de boa vontade.

Na alma decaída, no entanto - a alma condicionada por e identificada com o ego - o Intelecto espiritual é vendado; consequentemente, esta hierarquia é invertida. As afeições são agora atraídas para objetos inadequados (um estado simbolizado na Gênesis por Eva comendo fruto proibido) sem levar em conta o que a mente racional - em seu estado decaído - direciona; a vontade segue estas afeições rebeldes intencionalmente e aprovando o que elas sugerem (simbolizado oferta do fruto proibido  para Adão, que também comeu); e a mente racional (algo como a serpente no jardim) é pressionada a serviço da vontade, tanto para sugerir várias formas e métodos pelos quais poderia transgredir, como para justificar e racionalizar essas transgressões.

Assim, a alma caída, ou a dependência de um determinado vício, é hierarquizado (em ordem decrescente) como Afetos / Vontade / Racionalidade; A sugestão afetiva/sensual para o pecado aparece como um impulso que é imediatamente atendido, muitas vezes em quase completa inconsciência. A tentação para pecar, por outro lado, não quando impulsivamente cedemos a ela, mas quando pelo menos resistimos inicialmente  (já que se nós não resistíssemos ao impulso, nós não reconheceríamos como uma tentação), é hierarquizado como Afeições/Racionalidade/Vontade: a sugestão primeiramente aparece para as afeições, e em seguida é "entretida" pela mente racional que irá produzir argumentos a favor ou contra, e finalmente - a não ser que a tentação seja impedida com êxito - é promulgada pela vontade, seja mentalmente ou fisicamente. A culpabilidade cármica só surge quando a ação entra na terceira fase; somente a vontade pode pecar.

Mas o que exatamente é este "ego" que define a alma "caída"? O ego, no sentido em que estou usando o termo, não é a personalidade consciente de Freud e Jung, mas sim, o nosso apego obsessivo pela auto-definição, que é inseparável do nosso ato de definir quem são as outras pessoas e o que é o mundo. Quando a presença e providência de Deus estão encoberta para nós, a auto-definição se torna obsessiva e fixa; começamos a acreditar - inconscientemente, mas mesmo assim de forma eficaz - que somos autocriados; consequentemente, torna-se impossível para nós vermos que Deus está continuamente recriando nós e o mundo em que vivemos, e, assim, deixamos de apreciar a singularidade de cada momento. Perdemos a capacidade de deixar o mundo e as outras pessoas se revelem para nós, e nem mesmo estamos interessados em aprender algo novo ou surpreendente sobre nós mesmos. A vida fica estagnada, e nós voltamos para as várias paixões, como a luxúria, avareza e a ira, em uma tentativa auto-destrutiva para superar essa estagnação. Além disso, o conhecimento e experiência, que estão necessariamente excluídos pelas nossas definições fixas do eu e do mundo começam a formar uma grande "mente inconsciente" - a inconsciência sendo simplesmente todas as coisas sobre nós mesmos e o mundo, e aos mundos superiores, que não queremos estar consciente, individual ou coletivamente, porque não queremos estar consciente de Deus. A prescrição de Platão para lidar com esse "inconsciente" foi a anamnese - a "recordação" (ou, mais literalmente, "a não-não-recordação"). Todo conhecimento está virtualmente presente em nós; a necessidade para atualiza-lo, para retornar ao que conhecíamos antes do "descuido", é o que os muçulmanos chamam de ghaflah, que nos expulsou do Paraíso.

Além disso, o conhecimento e a experiência excluída pelo ego é, paradoxalmente, inseparável do ego, sendo uma parte dele; encontra-se no sinal obsessivo da auto-definição. O ego é como um iceberg, uma parte consciente relativamente pequena no ápice e uma grande base do inconsciente. E já que é impossível de assumir responsabilidade por coisas que estamos inconscientes, e conscientemente colocamos nas mãos de Deus, nosso inconsciente se torna caótico e indisciplinado; ele aparece como um domínio das paixões. A psicologia Sufi chama esse ego inconsciente (comparável em alguns aspectos, de acordo com o professor Sufi Javad Nurbakhsh, ao id freudiano) de nafs al-Ammara, a "alma comandando para o mal". Se a mente racional for cortada do Intelecto, se as afeições governarem a vontade, e a vontade domina a mente racional em vez de servi-la, isso se dá inteiramente devido ao fato de que a nossa obsessiva auto-definição relega a maior parte da nossa psique, e maioria de nossa experiência potencial tanto deste mundo material como os mundos superiores sutis, à esfera inconsciente. Cada psicopatologia de qualquer que seja (excluindo, claro, aquelas condições, obviamente baseadas em causas físicas) em última instância, nasce do fato de que o ego, e não o Espírito de Deus, tomou posse do centro da psique humana, o coração espiritual. O fato de que esta ou aquela doença mental é refletida na fisiologia e química do cérebro também não prova que a fisiologia e a química do cérebro são necessariamente as causas da mesma. Quando estamos assustado por um evento interior ou exterior - a visão de um acidente de automóvel, por exemplo – faz a frequência de batimentos cardíacos aumentar. Será que isso significa que o nosso aumento na frequência cardíaca realmente causou o acidente de automóvel?

Assim, a inversão da hierarquia das faculdades psíquicas e nossa servidão ao ego são duas maneiras de falar sobre a mesma condição. Nós falamos da alma "caída" - mas quanto exatamente ela "caiu"? Já houve um "tempo", quando as faculdades da alma não estavam invertidas, pelo menos em parte, onde não havia "inconsciente"? Falamos, mais ou menos em termos míticos, da Idade de Ouro ou o Jardim do Éden; e idealizamos (ou pelo menos nós costumávamos) o paraíso da infância e / ou a "experiência oceânica" da vida no útero. Mas o fato é que, de acordo com a nossa noção de tempo linear, nenhum paraíso perdido está em evidência. A auto-definição obsessiva era um problema menor em nossa infância, mas a nossa capacidade de tomar decisões racionais, controlar nossos impulsos e conscientemente submeter nossas vidas a Deus também era menos desenvolvida (se, de fato, tiver melhorado até agora!) Então, somos forçados a concluir que, se há de fato houve uma "queda", foi uma queda da eternidade para o tempo, não necessariamente uma queda de um momento anterior e melhor. Em Deus todos nós estávamos perfeitamente, na forma como Ele nos conhecia e nos criou para ser; e considerando que a eternidade é um aspecto de Deus, todos nós estamos, em certo sentido, lá. Mas quando o tempo sobreveio - quando, devido à natureza excludente da nossa obsessiva auto-definição fez a experiência deixar de ser global e, fazendo-se parcial, necessariamente também se tornou sequencial (assim como uma sala escura, depois do pôr do sol, já não se pode mais ver tudo de uma vez, somente como sequencias parciais de pontos de vista de acordo para onde nós fixamos nossa lanterna), a alma caiu; a hierarquia adequada das faculdades psíquicas se inverteu. "Quando", ou mesmo "como" isso aconteceu pode vir a cair sob as perguntas que o Buda classificou como "tendendo a não edificação": a verdadeira questão é, não como entramos nessa prisão, mas como podemos sair novamente. A resposta a essa pergunta é o caminho espiritual, a expressão por excelência da "misericórdia especial" de Deus, al-Rahim, no curso desta caminhada, todas as perguntas necessárias serão respondidas, enquanto que todas as perguntas desnecessárias e estéreis serão alegremente esquecidas.

Nos primeiros estágios do caminho espiritual - aqueles conhecidos como "os mistérios menores" - o objetivo é devolver a alma à sua natureza original, como Deus a criou, assim, restabelecer a sua hierarquia própria, onde a mente racional obedece ao intelecto, a vontade obedece à mente racional, e as afeições obedecem à vontade. A alma é "edificada", construída como um edifício sólido, com uma ampla base de caráter forte apoiando o "pináculo" da consciência exaltada. Essa edificação representa o re-ordenamento da alma em seu modo ativo, o retorno de sua capacidade de agir em consonância com os princípios espirituais. A alma humana também é capaz, no entanto, de operar em modo receptivo - como no caso da memória, por exemplo, assim como na imaginação ativa ou objetiva, que está em polos opostos da fantasia subjetiva. Quando as afeições são receptivas, elas recuperam a capacidade de refletir o Intelecto diretamente, sem a mediação de qualquer mente racional ou vontade individual - uma capacidade que define todo o aspecto imaginário da contemplação espiritual, bem como a contemplação da beleza espiritual na natureza, na arte e no corpo humano. Quando a vontade é pacificada mediante a obediência à mente racional, e a mente racional é corretamente reorientada obedecendo ao intelecto espiritual, a turbulência das afeições desaparecem, até que a substância emocional torna-se como um lago imóvel em um dia sem vento, capaz de refletir o sol, não como uma grande quantidade de pontos de luz separados e efêmeros, mas de uma forma unificada.
William Blake - Satan Watching the Caresses of Adam and Eve

A mente racional, a vontade e os afetos são as três faculdades principais da psique humana. A psique, no entanto, é também sede de várias faculdades de composição. A principal delas é a memória e a imaginação, ambas assumem três formas diferentes: passiva, ativa e transcendentais, que estão relacionados com as três gunas ou modos de Prakriti (Substância universal) no Hinduísmo: tamas, rajas e sattwa. A imaginação ativa pode ser dividida em modos introvertidos e extrovertidos.

Na memória passiva, a ação é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade, diretamente linha da condição da alma decaída. As afeições sugerem uma impressão, a vontade segue imediatamente, e então o pensamento elabora. A memória passiva - devaneio nostálgico - é, em última análise, baseada na atração das afeições a forma sutil da natureza material, mediante ao anseio de voltar à nossa "mãe", nossas origens maternas no mundo natural, para além do conhecimento da mente racional e a resolução da vontade. (As pessoas viciadas na memória passiva verão toda a vida, mesmo sendo uma experiência humana, como um processo de "fazer memória"). Essa memória se torna quase necessária como uma "atividade recreativa" para a alma devorada pela obstinação racional da vida moderna, baseada na escravidão da mente racional à vontade, segundo a qual a alma está sempre tentando colocar as afeições em trabalho para abastecer esta ou aquela obsessão. A poesia crepuscular e putrescente de Georg Trakl é a expressão quintessencial desse estado. De certa forma pode ser vista uma vingança sutil dos afetos reprimidos sobre a obstinação que os reprime. A nossa natureza emocional, cansada de ser explorada e drenada por nossas ambições e obsessões, enfraquece-os periodicamente "desligando" a nossa racionalidade e vontade - mas como René Guénon apontou, o "sentimentalismo burguês" nada mais é que a face oposta do voluntarismo burguês racionalista. E na medida em que a memória passiva é apenas um recuar para "Este Mundo" como uma matriz projetiva (por mais que nós possamos inconscientemente temer este Mundo), ela destrói progressivamente a virtude da vigilância que faz a contemplação das realidades eternas possível. Essa busca inconsciente por segurança, ou por inconsciência como segurança, juntamente com os vícios de curiosidade e ambição cruel, é o que define a conquista da alma pelo poder de "deste mundo", o sistema coletivo de egoísmo e ilusão. É melhor se relacionar com o mundo natural através do trabalho, ou mesmo através de perigo, do que tomá-lo como uma espécie de resort de férias; se entendermos o mundo natural como rigoroso, assim como belo, então ele não se tornará para nós "as trevas deste mundo" (a escuridão imposta pelo complexo Ego / Mundo, porque não querem que nós observe ou acredite em nada além de seu horizonte ou fora do seu controle) mas sim o conjunto de Nomes e Sinais de Allah - um suporte para a contemplação, e não seu substituto.

Quando William Blake disse "A Memória é a Morte Eterna", ele estava se referindo a memória passiva. A existência governada pelo tempo e devir sempre está falecendo em Hades, no reino dos fantasmas; a condescendência com tal fantasmagoria nos faz moribundos, quase transformando nossas almas nos próprios fantasmas, mesmo antes da morte física, garantindo que nós deixaremos grande parte da nossa realidade humana para trás, na forma fantasmagórica. Tampouco a memória passiva realmente é livre da racionalidade intencional só porque tem o poder de separar-se temporariamente dela; ela permanece ligada à racionalidade voluntarista, assim como a sombra está vinculado ao objeto sólido. Como tal, ela permanece sob a hierarquia invertida de Afeições / Vontade / Racionalidade que caracteriza a alma caída em si. O estado da memória passiva é bem analisada por William Blake em seu poema Tiriel.

Dependendo se nossas lembranças são agradáveis ​​ou desagradáveis​​, a memória passiva irá chamar sentimentos nostálgicos por um lado, ou de arrependimento e / ou repulsa por outro. E a memória passiva, seja agradável ou desagradável, é a expressão emocional do estado da alma caracterizado por Kierkegaard, em O Desespero Humano, como "desespero da necessidade", não aquele desespero em que a necessidade é ausente, mas aquela necessidade, não em termos eternos como o Ser Necessário, mas no temporal como o destino irrevogável, é a base do nosso desespero. Ambas as lembranças agradáveis ​​e desagradáveis​​, quando estão sob o poder da memória passiva, geram desespero; a expressão poética clássica do reconhecimento consciente de tal desespero (que, embora muito doloroso, também pode representar uma chance real para acordar, para começar nossa luta pela liberdade) está no poema de Francis Thompson A Cidade da Noite Terrível.

A memória ativa é algo mais elevado que a memória passiva. É o uso intencional da mente racional para acessar este ou aquele item de informação factual (informação verdadeira, não de fantasia), empregando as afeições, colocando em uso seu poder de simpatia. A memória ativa é hierarquizada Vontade / Afeições / Racionalidade: a intenção de lembrar algo emprega as afeições como seu "motor de busca", depois da qual a mente racional corrige os resultados com o saber consciente. A memória ativa representa, portanto, uma reparação parcial da condição caída da alma, que é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; é um passo em direção a edificação.

Em busca do passado, a memória ativa não procura por potenciais, mas por fatos, por coisas que já foram realizadas; consequentemente, ela está operando, de modo imperfeito, mas válido, no reino do Ser Necessário. Na medida em que os fatos habitam no passado, eles estão separados da ordem metafísica, que subsiste no eterno presente; mas na medida em que são realidades, e não meras possibilidades ou potenciais, eles participam desse reino - uma vez que, de acordo com os filósofos escolásticos, Deus é tanto Ser Necessário e Ato Puro. De forma que quando a história acabada, ela está concluída; na medida em que está concluída, ela está perfeita. Já não está sujeita ao devir. Assim, a compreensão de eventos passados ​​é uma abordagem real da intuição da eternidade, no sentido metafísico. E isso é ainda mais verdadeiro no estudo das leis físicas e axiomas matemáticos, que são os mesmos em todos os lugares e tempos; é por isso que Platão considerava o estudo da matemática como o melhor caminho preparatório para o entendimento da metafísica.

A memória transcendental se baseia em realidades situadas além da hierarquia das faculdades psíquicas; ela pode ser vista como a oitava superior da memória ativa. Em termos do caminho espiritual, a memória transcendental possui uma função mais elevada do que a busca de fatos objetivos - que é, no entanto, um bom treinamento preparatório para ela, uma vez que a essência do caminho é superar subjetividade egóica e alcançar a Verdade Objetiva. Na terminologia tradicional aplicável ao caminho espiritual, a memória transcendental é a recordação, cuja forma mais elevada é a lembrança de Deus (dhikr; japam; Mnimi Theou). Lembrar a Deus é reconhecê-Lo como o Único Absoluto e Fato Todo-abrangente, do qual todos os outros fatos são meros reflexos - é por isso que os verdadeiros fatos de qualquer situação, passado ou presente, são um modo da presença real de Deus ali. A lembrança de Deus é "memória" no sentido de que ela lembra, ou chama de volta, uma realidade esquecida; esquecida, no entanto, não no passado, mas (ou debaixo) no presente. A memória que estamos buscando terá como conteúdo algum evento passado, mas a verdadeira forma dela já se situa abaixo da superfície da consciência, neste exato momento.

A lembrança de Deus invoca a pré-eternidade, que é muitas vezes sentida como uma nostalgia de um paraíso perdido - não o paraíso natural da memória passiva, mas o paraíso celestial da forma humana Eterna. Lembrar que estávamos uma vez unidos a Deus na pré-eternidade é começar a lembrar que a pré-eternidade não é se situa fundamentalmente no passado, mas no presente. Deus está aqui; A eternidade é agora. (Os cabalistas dizem: "o que está aqui está em outro lugar, o que não está aqui, está em lugar algum" Isso pode ser parafraseado, em termos temporais, ao invés de espaciais, como: "O que é real agora sempre foi e sempre será real; o que não é real agora nunca vai ser, e nunca foi ". À luz disto, a procura "alquímica" de William Blake "o que pode ser destruído, deve ser destruído!", faz todo o sentido).

Na medida em que reconhecemos Deus como presente neste momento, começamos o processo de "retirada de projeções". Projeção é a tendência de falsamente ver a si mesmo como ser em alguma coisa, pessoa ou situação no mundo exterior, ou no mundo como todo. Mas uma vez que Deus é infinito e absoluto, e uma vez que "o reino dos céus está dentro de ti", a realização de Sua presença corta todos os laços com a memória e a expectativa; o que tem sido, é agora, e assim o passado é apagado - como passado, isto é - não esquecendo, mas lembrando, dado que todas as coisas estão presentes em Deus. Além disso, o que será já está aqui, de modo que o futuro também é obliterado: tudo o que poderia ser desejado (pelo coração) ou temido (pelo ego) está aqui na Presença Única.

A lembrança de Deus, portanto, afeta a lembrança da forma humana. O ser humano imerso no devir, ligado à roda do nascimento e morte, é desmembrado, não espacialmente, mas temporalmente; o desmembramento de Osíris e sua reconstituição por Ísis é um símbolo desta condição.  Ele deixa o passado coberto de sua experiência, o futuro cheio de sua intenção. Mas, quando a presença de Deus é recordada no momento presente, e essa lembrança é estabilizada, então os membros dispersos do memorial, magicamente remontam-se, como os ossos secos da visão de Ezequiel; nas palavras de Rumi (dirigida a Deus) de uma das suas quadras, "Quando Você voltar, tudo retorna." O desapego do passado e do futuro, quando este é o lugar onde a maior parte da nossa identidade é posta, é experimentada como a aniquilação, a Fana Sufi. E o retorno das nossas auto-projeções psíquicas do passado e futuro, quando completo, é experimentada como o Baqa Sufi, a subsistência em Deus -  subsistência como a forma humana integral residente no eterno presente, a essa realidade os sufis chamam de al-insan al-Kamil, o Homem Perfeito. O retorno dessas projeções é legitimamente simbolizado pela ressurreição dos mortos - nesse ponto, nas palavras de Blake, "Filhas de Memória [Musas] tornam-se as Filhas da inspiração".  Este é o reino do Tantra, a dimensão em que as nossas paixões e obscuridades (os nossos medos e desejos, nossos afastamentos e anseios, nossas projeções), em vez de serem suprimidos ou cortados, passam por uma metanoia, até que eles se revelam como a própria substância da manifestação universal de Deus, que é igualmente o Shakti ou Poder de Atenção pelo qual nós contemplamos.

Quando a memória ativa culmina na lembrança de Deus e a memória passiva é superada, o desejo nostálgico e / ou a repulsa da memória passiva são transformados em gratidão - gratidão pela misericórdia de Deus. E esta transformação ocorre, precisamente, por intermédio do desgosto. Desgosto é uma das sensações mais desagradáveis ​​que podemos experimentar, mas também é um dos sinais mais esperançosos da catarse, da purificação espiritual.

Imaginação passiva, como a memória passiva, é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; seu outro nome é "fantasia". (Aqui, podemos ver como as paixões da alma decaída estão diretamente relacionadas com a passividade e, portanto, quão deliberada, uma ação de princípios, embora possa ter certas consequências negativas, ainda é um verdadeiro passo para a redenção.) Nossas afeições são atraídos por este ou aquele conjunto de impressões dentro do reino sutil; nossa vontade é apropriado por eles e se envolve com eles; nossa mente pensante (em grande parte mediada pelo discurso inconsciente) desenvolve-os, forma-os em imagens articuladas; é isto que é fantasiar. Imaginação passiva é como a memória passiva exceto que essa lida com as coisas que nunca existiram no mundo material, e pode nunca vir a este mundo - como possibilidades, isto é, não como necessidades.

Imaginação passiva tem a ver não com fatos, mas com potenciais. Talvez nunca tenhamos a intenção de trazer esses potenciais para o mundo real, optando desfruta-los como se fossem um mundo em si, ainda assim estão sempre pressionando por uma encarnação, e são fantasias de luxúria ou raiva que nos conduzem frequentemente a ações luxuriosas ou violentas. E se nós desfrutarmos dos potenciais que nunca pretendemos realizar, nossas vidas se tornam irreais; assim, a imaginação passiva, pode ser comparada, com precisão, a sexualidade quando divorciada tanto da reprodução como da contemplação, os quais representam a realização das potencialidades inerentes a ela. (A resistência da imaginação passiva à realização concreta de potenciais é analisada por William Blake em O Livro de Thel.)

 Imaginação passiva, uma vez que tem a ver com o Ser Possível em vez do Ser Necessário, existe em um nível ontológico inferior a memória passiva. Ela evita a realidade, tanto prática como metafísica, e, portanto, tende a substituí-la. É um parasita da realidade. Ela pode dar uma sensação de que muito é possível, que a nossa vida e alma são tão ricas em potencial que se pode usar seu precioso tempo na concretização deste potencial, uma vez que é praticamente imortal. As desvantagens desta ilusão são analisados ​​na peça japonesa Nō Kantan e na canção de Simon e Garfunkel "Hazy Shade of Winter".

Imaginação passiva, claro, também está sujeita a pesadelos, à apreensão dos potenciais negativos; sendo rica, convida-nos para contemplar aquilo que gostaríamos de ver acontecer, ou apenas ver, assim ela se encontra inseparável da temorosa contemplação daquilo que temos medo que possa acontecer, ou o aquilo que estávamos com medo de nunca testemunhar, mesmo no nível imaginário. A irresponsabilidade que alimenta a imaginação passiva positiva é sempre eventualmente compensada pela insegurança rastejante que convida a imaginação passiva negativa; se não estamos cumprindo nossos deveres, podemos legitimamente temer que a vida vai nos dar um sério golpe. A imaginação passiva (especialmente em sua forma positiva) é analisada por Kierkegaard em O Desespero Humano como "desespero da possibilidade" - e não o desespero do impossível (o que seria o "desespero da necessidade"), mas o desespero que se esconde na fantasia da própria possibilidade.  No entanto, o desespero da necessidade, muitas vezes subjaz desespero da possibilidade. A falsa esperança que costuma dizer "tudo é possível!", enquanto não toma sequer o primeiro passo para realizar tal possibilidade à mão, geralmente não passa de uma negação de um sentimento subjacente de que "nada é possível", que se  alguém tomasse as medidas concretas necessárias para realizar determinado potencial, esse inevitavelmente daria de cara com a porta da realidade.
Imaginação ativa é um passo acima do mundo de fantasia "infra-psíquico" da imaginação passiva. É hierarquizado (como uma tentação conscientemente resistida) como Afeições / Racionalidade / Vontade; consequentemente, ela também é um passo parcial em direção a edificação. Ela assume duas formas. Na imaginação ativa introvertida, nós conscientemente interagirmos com as imagens simbólicas que a nossa psique nos apresenta, assim interrogando-as, desafiando-as, para alcançar maior insight psicológico (e por vezes mesmo espiritual). A substância afetiva da alma recebe a impressão de uma imagem simbólica interior; a faculdade racional questiona esta imagem e, assim, transforma sua aura evocativa de significado oculto em conhecimento consciente; a vontade, em seguida, tem a intenção de realizar existencialmente as conseqüências psicoespirituais do conhecimento, assim ganhadas. Esta é uma das principais ferramentas do método psicanalítico de Carl Jung e sua escola. Na sua forma extrovertida, a imaginação ativa representa o processo de trazer potenciais para fora do reino imaginário e para a manifestação física concreta neste mundo. As afeições "atraem" e "entretém" o potencial em questão, a mente racional transforma esse potencial em um plano eficaz; e a vontade leva-o para fora. 

A imaginação transcendental, assim como a memória transcendental, baseia-se em realidades que existem além da hierarquia psíquica. É a imaginação Eterna de William Blake, em linha caracterizava o Espírito Santo como "uma fonte intelectual". Ibn al-'Arabi fala de dois níveis discretos do mundo da imaginação, o alam al-mithal. Enquanto o inferior surge a partir das impressões armazenadas de experiência sensorial; o mais elevado (al-Malakut) recebe impressões diretas do Plano Inteligível dos Arquétipos eternos ou das idéias platônicas (al-Jabarut), e os veste de forma imaginária. A forma inferior da imaginação recorre as impressões de experiência sensoriais do passado mostra a identidade oculta ou afinidade entre a memória passiva e a imaginação passiva. A forma mais elevada de imaginação emana diretamente do Plano inteligível, e, portanto, constitui o mais próximo, a relação mais plenamente encarnada (no sentido sutil) entre a psique humana e o mundo dos princípios metafísicos, não mediada pelo discurso racional abstrato, mas pela reverberação imaginal concreta da intelecção direta, estabelece a identidade entre o plano elevado imaginário de Ibn al-'Arabi e da Imaginação Divina de Blake ou a inspiração poética. Estes dois níveis de imaginação, no entanto, não são completamente independentes, tendo em conta que uma inspiração que emana a partir do nível mais elevado deve revestir-se com a substância do inferior; nós não poderíamos imaginar a Sabedoria como uma linda mulher se nós nunca tivessemos visto mulheres bonitas. É verdade que o arquétipo da beleza feminina existe em um plano mais elevado do que o material, e que toda a beleza feminina neste mundo é derivada dela. No entanto, se esse arquétipo tentasse se manifestar diretamente neste mundo, na ausência de quaisquer memórias da beleza feminina, ou de presente contemplação desta beleza em forma humana, seria irreconhecível e, assim, ininteligível. Beatrice de Dante era um raio da beleza divina, cujo lar adequado era o Paraíso - ainda que ele nunca a vira, mesmo que brevemente, neste mundo, ele nunca poderia tê-la reconhecido em seu ambiente celestial. (Aqui, aliás, pode residir uma verdade por trás afirmação problemática de Tomás de Aquino, que parece negar a realidade da intelecção direta, que o conhecimento pode alcançar a alma somente através dos sentidos.) Não obstante, enquanto o ta'wil (exegese no sentido de "retorno à fonte") da imaginação mais elevada conduz ao plano dos princípios metafísicos eternos, o ta'wil da parte inferior, a menos se transportar em si parte do mais elevado, leva apenas a escuridão do mundo material, cortado dos níveis mais elevados da hierarquia ontológica e, portanto, praticamente inexistente. (Para a melhor introdução à doutrina da imaginação de Ibn al-' Arabi, consulte Imaginal Worlds por William Chittick. Devemos também observar que Ibn al-' Arabi postula um terceiro nível de imaginação, o universal, que é simplesmente afirmar que o todos os mundos, celestial, psíquico e materiais, brotam e constituem a Imaginação Universal de Deus.)

Imaginação transcendental é extremamente ativa; no entanto, não em relação a nossa ação, mas a de Deus, que imprime diretamente sobre a substância afetiva de nossas almas em seu estado quintessencial as verdades que Ele nos quer, não apenas para fantasiar sobre ou pensar, mas para realizar. Quando a camada afetiva da psique está polarizada e diferenciada em várias emoções específicas, não é possível receber as impressões da imaginação transcendental. Quando, no entanto, ela retorna ao seu estado indiferenciado através da virtude da apatia ou da impassibilidade espiritual, que pode ser representado como a resolução dos quatro elementos ou quatro qualidades emocionais primitivas [ver Capítulo II] em sua origem comum no Aether, que é sua Quintessência ("emoções" sendo determinações específicas da substância afetiva que estão em seu caminho para se tornarem "impulsos", "motivos" ou "motivações", em sua interação com a vontade), esta torna-se receptiva às impressões que emanam não a partir do ambiente circundante psíquico mas diretamente do espiritual ou Plano inteligível. Imaginação passiva é passiva, não receptiva; não é propriamente intencional. A imaginação ativa é realmente ativa e intencional, mas apenas no plano individual, embora os símbolos que ela interaja individualmente possam ter um aspecto transcendental. Imaginação transcendental é uma atividade em si, a união de uma determinada verdade eternamente atualizada na Mente de Deus com a boa vontade ativa para que o sujeito humano receba e conceba (e não simplesmente permanecer passivos a ela) esta verdade. Quando a Virgem Maria disse, em Lucas 1:38, "Faça-se em Mim Segundo a Palavra Tua", ela estava abrindo não apenas sua psique, mas seu próprio corpo para a imaginação transcendental de Deus.

Como vimos, a imaginação passiva é ontologicamente inferior memória passiva porque lida com potenciais não realizados. Da mesma forma a imaginação ativa é ontologicamente inferior memória ativa, mas é espiritualmente superior, no sentido de que a contemplação da Necessidade através da memória, embora mais elevada do que o entretenimento da Possibilidade através da imaginação, nem sempre é fértil para nós em termos espirituais, pois é um atributo de Deus, e não da psique humana, e, conseqüentemente, pode, por vezes, ter um efeito paralisante sobre nossa vida espiritual. A contemplação da Verdade eterna como Ser Necessário apenas, completo em um Passado eterno governado pelo Ancião dos Dias, irá - a não ser que nosso próprio futuro torne-se espiritualmente grávido, a menos que possibilidade seja ativada - tornar o progresso espiritual impossível. Em certo sentido, Ser Necessário é o próprio Deus, o único que não pode deixar de ser. Em relação ao ego humano, no entanto, o Ser Necessário é transformado no desespero da necessidade, os laços de fatalidade e karma. Da mesma forma, embora o Ser Possível não seja o que deve ser, mas apenas o que pode ser - meramente contingente, não absoluto - em relação ao ego humano ele pode, se Deus quiser, ser transformado em virtude de esperança. Podemos certamente esperar que uma das coisas que podem ser, seja a nossa própria realização de Deus. Na medida em que estamos imersos na possibilidade do devir, e não na Necessidade da Verdade Eterna, apenas a manifestação dessa Necessidade como uma possibilidade concreta em nossas próprias vidas nos pode oferecer alguma esperança de libertar-nos. Assim, poderíamos dizer, parafraseando os Padres Orientais, que "O Ser Necessário se torna ser possível para que essa possibilidade possa se tornar Necessidade". O que só "pode ​​ser" é perpetuamente incerto e pouco confiável - e ainda outro significado da palavra "pode" é precisamente poder. O poderoso é aquele que tem o poder de atualizar possibilidades, de transformar o ser possível em Ser Necessário; portanto, "Com Deus, todas as coisas são possíveis."

Memória ativa e a memória transcendental são, respectivamente, uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do passado; a imaginação ativa e imaginação transcendental são uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do futuro - ou melhor, elas são o futuro no ato de se aproximar de nós, e se tornando presente para nós como Eternidade, para além do medo e desejo. Quando a pré-eternidade da memória e a pós-eternidade da imaginação estão unidos no eterno presente, esta é a Eternidade em si, na qual a lembrança de Deus como Eterna Realidade e a auto-revelação de Deus como a Misericórdia de Possibilidade são um e o mesmo.

Quando a memória transcendental e a imaginação transcendental se unem, o intelecto divino é revelado; quando o intelecto divino nos é revelado, a alma decaída é edificada, sua hierarquia invertida das faculdades se configuram corretamente - ou melhor, na posição vertical. As faculdades estão corretamente hierarquizadas ao longo do axis mundi e, conseqüentemente, orientada para o que os sufis chamam de Qutb, o Pólo do intelecto espiritual, tanto cosmológico e pessoal - a realidade que TS Eliot chamou de "o ponto imóvel do mundo que gira", e que aparece na pessoa do Mestre espiritual. Tornamo-nos edificados, eretos, seres humanos justos - Tzaddikim. (A letra hebraica tsade simboliza, entre outras coisas, "o norte", o quarto do Pólo.) A racionalidade serve a Intelecção diretamente; a vontade serve a Intelecção indiretamente, obedecendo os ditames da razão; as afeições capacitam a vontade para servir e assim purificando a mente racional, bem como abrindo-a mais plenamente para Intelecção; também estará presente o poder de refletir diretamente a Intelecção espiritual no plano da psique, assim como um espelho reflete a luz. Esta é a cumprimento dos "mistérios menores" que, no contexto do caminho espiritual, é o próprio objeto da Psicologia principial. Além disso, além da psicologia, além da própria psique, encontram-se os "maiores mistérios" que constituem a união final da alma com Deus.

Charles Upton - Principal Psychology

domingo, 20 de abril de 2014

Um Adeus à Filosofia (Por Emil Cioran)

Afastei-me da filosofia quando se tornou impossível encontrar em Kant qualquer fraqueza humana, qualquer traço autêntico de melancolia; em Kant e em todos os filósofos. Comparado com a música, o misticismo e poesia, a atividade filosófica procede de um impulso reduzido e uma profundidade suspeita, prestigiado apenas pelos tímidos e os medíocres. Além disso, a filosofia - ansiedade impessoal, refúgio entre ideias anêmicas - é o recurso de todos os que se iludem com a exuberância corruptora da vida. Quase todos os filósofos chegaram a um bom final: eis o argumento supremo contra a filosofia. Mesmo a morte de Sócrates nada tem de trágica: é um mal-entendido, o fim de um pedagogo - e se Nietzsche naufragou, foi como um poeta e visionário: ele expiou seus êxtases e não seus argumentos.

Não podemos enganar a existência com explicações, só podemos suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorar ou temer, nessa alternância de felicidade e horror que expressa o próprio ritmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, brilhantes ou amargas.

Expostos pela surpresa ou necessidade de uma derrota irrefutável, quem em seguida, não levanta as mãos em oração, apenas para que os deixe cair em um vazio ainda maior pelas respostas da filosofia? Parece que a sua missão é proteger-nos contanto que a negligência do destino nos permita continuar no limiar do caos, e nos abandonar assim que somos obrigados a mergulhar no precipício. E como poderia ser de outra forma, quando vemos o quão pouco do sofrimento da humanidade passou para filosofia? O exercício filosófico não é fecundo; é apenas honroso. Somos sempre filósofos com impunidade: um métier sem destino que derrama pensamentos volumosos em nossas horas neutras e vagas, as horas refratárias ao Antigo Testamento, a Bach, e até Shakespeare. E ter estes pensamentos materializados em uma única página que é equivalente a uma das exclamações de Jó, dos terrores de Macbeth, ou a altitude de uma das cantatas de Bach? Nós não discutimos o universo; nós expressamos. E a filosofia não expressa. Os verdadeiros problemas começam só depois de distanciados ou esgotados, depois do último capítulo de um enorme volume que aponta o período final como uma renúncia diante do Desconhecido, em que todos os nossos momentos estão enraizados e com o qual devemos lutar, porque é naturalmente mais imediato, mais importante do que o nosso pão de cada dia. Aqui o filósofo nos deixa: inimigo do desastre, ele é são como a própria razão, e como prudente. E continuamos na companhia de uma vítima de uma velha praga, de um poeta que aprendeu em cada loucura, e de um músico cuja sublimidade transcende a esfera do coração. Começamos autenticamente apenas onde a filosofia termina, no seu naufrágio, quando compreendemos sua terrível nulidade, quando compreendemos que era inútil recorrer a ela, que é nenhuma ajuda

(Os grandes sistemas são, na verdade, não mais que tautologias brilhantes. Qual vantagem de saber que a natureza do ser consiste na "vontade de viver", na "ideia", no capricho de Deus ou na Química? O detestável abraço verbal, e nossas experiências mais íntimas, nos revela nada além do momento privilegiado e inexprimível. Além disso, o próprio Ser é apenas uma pretensão do Nada.

Nós definimos somente por desespero. Temos de ter uma fórmula, é preciso ainda ter muitas, apenas para dar justificação para a mente e servir como uma fachada do vazio.

Nenhum conceito ou êxtase são funcionais. Quando a música nos mergulha na "interioridade" do ser, nós rapidamente regressamos à superfície: os efeitos da ilusão se dispersam e nosso conhecimento admite sua nulidade.

As coisas que tocamos e aquelas que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; temos certeza somente no nosso universo verbal, manejável à vontade e ineficaz. Ser é mudo e a mente é tagarela. Isso é chamado de conhecimento.

A originalidade do filósofo trata apenas de termos inventados. Uma vez que existem somente três ou quatro atitudes que nos permite confrontar o mundo - e sobre as maneiras de morrer - as nuances que multiplicam e diversificam elas derivam não mais do que uma escolha de palavras, desprovidas de qualquer intervalo metafísico.

Estamos imersos em um universo pleonástico, em que as perguntas e respostas equivalem à mesma coisa)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Características essenciais da Metafísica (Por René Guénon)

Enquanto o ponto de vista religioso necessariamente implica a intervenção de um elemento proveniente da ordem sentimental, o ponto de vista metafísico é exclusivamente intelectual; apesar de nossa parte acharmos que tais sinais são suficientemente claros, para muitas pessoas, esta forma pode parecer descrever o ponto vista metafísico de forma inadequada, por ser estranho aos ocidentais, de modo que algumas explicações adicionais não serão desnecessárias. Ciência e filosofia, tais como são encontradas no mundo ocidental possuem, também, de fato, pretensões para a intelectualidade; se não reconhecermos que essas afirmações são bem fundamentadas e mantemos que um abismo separa todas as especulações deste tipo da metafísica, é porque a intelectualidade pura, tal como a entendemos, é algo muito diferente das ideias bastante vagas que passam normalmente sob esse nome.

Importa explicitar em primeiro lugar que, ao adotar o termo "metafísica", não estamos muito preocupados com a origem histórica da palavra, que está aberta a algumas dúvidas, e que ainda tem de ser considerada puramente acidental se admitir a opinião, definitivamente improvável, na nossa opinião, segundo a qual a palavra foi usada pela primeira vez para designar aquele que vai "além da física" nas obras completas de Aristóteles. Do mesmo modo, não precisamos nos preocupar com várias outras interpretações bastante rebuscadas que certos autores ajustam para associar essa palavra em momentos diferentes; estas não são razões, no entanto, para desistir de seu uso, pois, tal como ela é, é muito bem adequada para o que deveria normalmente expressar, pelo menos em relação a qualquer outro termo emprestado das línguas ocidentais. Na verdade, tomado em seu sentido mais natural, mesmo etimologicamente, denota o que quer que resida "além da física"; a palavra "física", aqui, deve ser tomada para indicar as ciências naturais vistas como um todo e consideradas de uma forma muito geral, como sempre foram vistas pelos antigos; não se deve ser tomada para se referir a uma dessas ciências em particular de acordo com o significado restrito em voga nos dias de hoje. É, portanto, com base em tal interpretação que fazemos uso do termo "metafísica", e devemos deixar claro de uma vez por todas que, se persistimos em sua utilização, é apenas pelas razões já dadas e porque consideramos que é sempre indesejável recorrer a neologismos, exceto em casos de extrema necessidade.


Agora podemos afirmar que a metafísica, entendida desta forma, é essencialmente o conhecimento do Universal, ou, se preferir, o conhecimento dos princípios pertencentes à ordem universal, que, aliás, sozinha pode validamente reivindicar em nome dos  princípios; mas ao fazer tal afirmação, não estamos realmente tentando propor uma definição da metafísica, pois tal coisa é uma pura impossibilidade em razão de sua própria universalidade que observamos como principal dentre suas características, a partir da qual todos as outras são derivadas. Na realidade, apenas algo que é limitado é capaz de definição, ao passo que a metafísica é, pelo contrário, por sua própria natureza, absolutamente ilimitada, e simplesmente por este motivo não nos permite encaixá-la dentro de uma fórmula mais ou menos estreita; e, uma definição neste caso, seria ainda mais imprecisa, ainda que fosse a mais exata que se pudesse fazer.

É importante notar que temos falado do conhecimento e não da ciência; nosso propósito ao fazer isso é enfatizar a distinção radical que deve ser feita entre a metafísica, por um lado, e as várias ciências, no sentido próprio da palavra, do outro, ou seja, todas as ciências particulares e especializadas, que são direcionados para o estudo deste ou daquele determinado aspecto de coisas individuais. Fundamentalmente, esta distinção não é outra senão aquela, entre as ordens universais e individuais, uma distinção que não tem como ser jamais encarada como uma oposição, uma vez que não pode haver nenhuma medida comum nem qualquer relação possível de simetria ou coordenação entre os dois termos. De fato, nenhuma oposição ou conflito de qualquer tipo entre a metafísica e as ciências é concebível, precisamente por seus respectivos domínios serem amplamente separados; e exatamente a mesma coisa se aplica ao relacionamento entre a metafísica e a religião. Deve, contudo, ser entendido que a divisão em questão não concerne tanto com as coisas da mesma forma como os pontos de vista a partir do qual são considerados. É fácil de ver que o mesmo objeto pode ser estudado por diferentes ciências sob diferentes aspectos; da mesma forma, tudo o que possa ser examinado a partir de um ponto de vista individual e particular pode, por uma transposição adequada, igualmente ser considerado do ponto de vista universal (que não deve ser considerado como um ponto de vista especial), e o mesmo se aplica no caso de coisas incapazes de serem consideradas a partir de um ponto de vista individual qualquer. Desta forma, pode-se dizer que o domínio da metafísica engloba todas as coisas, o que é uma condição indispensável de seu ser verdadeiramente universal, da forma que necessariamente deve ser; os respectivos domínios das diferentes ciências permanecem, no entanto, distinto do domínio da metafísica, pois este último, não ocupa o mesmo plano que as ciências especializadas, e é de modo algum análogo a elas, de modo que não pode haver qualquer motivo para fazer uma comparação entre os resultados obtidos por esse e aquele.

Por outro lado, o reino metafísico certamente não consiste daquelas coisas das quais as várias ciências falharam em tomar conhecimento simplesmente porque o seu estado atual de desenvolvimento está mais ou menos incompleto, como é suposto por alguns filósofos que dificilmente podem ter percebido o que está em questão aqui; o domínio da metafísica consiste em aquilo que, por sua própria natureza, encontra-se fora da gama dessas ciências e excede em muito no escopo de tudo o que podem legitimamente reivindicar a conter. O domínio de toda ciência é sempre dependente da experimentação em uma ou outra das suas várias modalidades, enquanto que o domínio da metafísica é essencialmente constituído por aquilo que não pode ser investigado externamente: ser "além da física" também somos, pelo mesmo motivo, para além do experimento. Consequentemente, o campo de todas as ciências independentes pode, se for capaz disso, ser prorrogado indefinidamente, sem nunca encontrar o mínimo ponto de contato com a esfera metafísica.


A partir das observações anteriores segue-se que quando se é feito a referência ao objeto da metafísica não deve ser considerado como algo mais ou menos comparável com o objeto específico desta ou daquela ciência. Segue-se também que o objeto em questão deve ser sempre absolutamente o mesmo e de maneira alguma poderá ser algo que mude ou que esteja sujeito às influências de tempo e lugar; o contingente, o acidental e a variável pertence essencialmente ao domínio individual; que são características que necessariamente condicionam coisas individuais como tal, ou, para sendo ainda mais preciso, as condições do aspecto individual das coisas em suas modalidades múltiplas. Onde a metafísica está em questão, tudo aquilo que esteja susceptível a alterar-se com o tempo e o lugar, por um lado, é uma forma de expressão, isto é, as formas mais ou menos externas que a metafísica pode assumir e que pode ser indefinidamente variadas, e por outro lado, mostra o grau de conhecimento ou ignorância na forma em que é encontrada entre os homens; mas a metafísica em si permanece fundamentalmente inalterável, sempre a mesma, pois seu objeto é um em sua essência, ou para ser mais exato, "sem dualidade", como os hindus colocam, e esse objeto, novamente pelo simples fato de se encontrar "além da natureza", também está além de toda mudança: os árabes expressam isto dizendo que "a doutrina da Unicidade é uma”.

Seguindo a mesma linha de argumentação, podemos acrescentar que é absolutamente impossível fazer qualquer "descoberta" na metafísica, pois um tipo de conhecimento que não exige uso de meio especializado ou externo de investigação, tudo que for possível de ser conhecido pode ter sido conhecido por determinadas pessoas em todo e qualquer período; e isso, de fato, emerge claramente a partir de um estudo profundo das doutrinas metafísicas tradicionais. Além disso, mesmo admitindo que as noções de evolução e progresso pode ter um certo valor relativo em biologia e sociologia - embora isso longe de ter sido provado - é contudo certo que eles não podem encontrar um lugar na metafísica; além disso, essas ideias são completamente estranhas para os orientais, assim como estranhas até mesmo para os ocidentais até quase o final do século XVIII, embora as pessoas no Ocidente já as tomam como certas de que elas são fundamentais para pensamento humano. Isto implica também, deve se notar, uma condenação formal de qualquer tentativa em aplicar o "método histórico" para a ordem metafísica; na verdade, o ponto de vista metafísico é, em si, radicalmente oposto ao ponto de vista histórico, ou aquilo que se passa por tal, e essa oposição aumenta não só em questão de método, mas também, o que é muito mais importante, a uma verdadeira questão de princípio, uma vez que o ponto de vista metafísico, em sua imutabilidade essencial, é a própria negação das noções de evolução e progresso. Pode-se dizer, de fato, que a metafísica só pode ser estudada metafisicamente. Não serão encontradas contingências, tais como influências individuais, que são rigorosamente inexistentes deste ponto de vista e que possa afetar a doutrina de qualquer forma; o último, sendo da ordem universal, é, assim, essencialmente supra-individual, e necessariamente permanece intocado por tais influências. Mesmo circunstâncias de tempo e espaço, temos de repetir, só pode afetar a expressão externa, mas não a essência da doutrina; além disso, não pode haver nenhuma questão aqui, como aquelas encontradas nas ordens relativas e contingentes de "crenças" ou "opiniões" que são mais ou menos variáveis e estão mudando precisamente porque são mais ou menos abertas para dúvidas; o conhecimento metafísico implica essencialmente na certeza permanente e imutável.

De fato, por não se encontrar compartilhada na relatividade das ciências, a metafísica é obrigada a implicar a certeza absoluta como uma de suas características intrínsecas, não só em virtude de seu objeto, que é a própria certeza, mas também em razão de seu método, se esta palavra ainda pode ser usada no presente contexto, pois caso contrário este "método", ou o que mais possa ser assim chamado, não seria adequado ao seu objeto. Metafísica, portanto, necessariamente exclui qualquer concepção de caráter hipotético, onde se segue que as verdades metafísicas, em si, não podem de forma alguma ser contestáveis. Consequentemente, se houver, algumas vezes, ocasiões para discussão e controvérsia, isso só dá como resultado de um defeito na exposição ou por uma compreensão imperfeita dessas verdades. Além disso, cada possível exposição, neste caso, é necessariamente defeituosa, pois concepções metafísicas, em razão da sua universalidade, nunca podem ser inteiramente expressas, nem sequer imaginadas, já que sua essência é atingível pela inteligência pura e "sem forma"; superam em muito todas as formas possíveis, especialmente as fórmulas em que a linguagem tenta colocá-la, que são sempre inadequadas e tendem a restringir seu alcance e, portanto, a distorcê-la. Estas fórmulas, como todos os símbolos, só podem servir de ponto de partida, um "apoio" por assim dizer, que atua como uma ajuda para a compreensão daquilo o que em si permanece inexprimível; compete a cada homem tentar concebê-la de acordo com a extensão de seus poderes intelectuais, fazendo-o bem, em proporção de seu sucesso, entre as deficiências inevitáveis ​​de expressão formais e limitadas; é também evidente que essas imperfeições atingirão seu máximo quando a expressão tiver que ser transmitida por meio de certas línguas, como as línguas europeias e especialmente as modernas, que parecem particularmente pouco adequadas para a exposição das verdades metafísicas. . . . Metafísica, por abrir um panorama ilimitado de possibilidades, deve-se tomar cuidado para nunca perder de vista o inexprimível, que constitui de fato sua própria essência.

Conhecimento pertencente à ordem universal, necessariamente encontra-se para além de todas as distinções que condicionam o conhecimento das coisas individuais, das quais aquela entre sujeito e objeto é um tipo geral e básica; isso também serve para mostrar que o objeto da metafísica é de modo algum comparável com o objeto específico de qualquer outro tipo de conhecimento que seja, e, na verdade ele só pode ser referido como um objeto meramente por analogia, pois, a fim de falar dele em todo, somos forçados a anexar a ele alguma denominação ou outra. Da mesma forma, quando se fala dos meios de alcançar o conhecimento metafísico, é evidente que tais meios só podem ser um e a mesma coisa que o próprio conhecimento, em que o sujeito e objeto estão essencialmente unificados; isso equivale a dizer que os meios em questão, se de fato, nos é permitido descrevê-los com essa palavra, não podem de forma alguma se parecer com o exercício da faculdade discursiva, como a razão humana individual. Como já dissemos antes, estamos lidando com o supra-individual e, consequentemente, com a ordem supra-racional, o que não significa de modo algum o irracional: a metafísica não pode contradizer a razão, mas está acima da razão, que não tem qualquer influência aqui, exceto como um meio secundário para a formulação e expressão externas de verdades que estão para além sua província e fora de seu escopo. Verdades metafísicas só são concebíveis pelo uso de uma faculdade que não pertence à ordem individual, e que, em razão do caráter imediato de seu funcionamento, pode ser chamada de "intuitiva", mas somente sob a estrita condição de que ela não tenha nada em comum com a faculdade que certos filósofos contemporâneos chamam de intuição, uma faculdade puramente instintiva e vital que está muito abaixo da razão e não acima dela. Para ser mais preciso, deve-se dizer que a faculdade que estamos referindo é intuição intelectual, uma realidade que tem sido constantemente negada pela filosofia moderna, que não conseguiu captar a sua verdadeira natureza, quando não preferem simplesmente ignorá-la; esta faculdade também pode ser chamado de intelecto puro, seguindo a prática de Aristóteles e seus sucessores escolásticos, pois para eles o intelecto, de fato, era a faculdade que possuía um conhecimento direto dos princípios. Aristóteles declara expressamente que "o intelecto é mais verdadeiro do que a ciência", o que equivale a dizer que é mais verdadeiro do que a razão que constrói a ciência; ele também diz que "nada é mais verdadeiro do que o intelecto", pois é necessariamente infalível, pelo fato de que sua operação é imediata e porque, não sendo realmente distinta da seu objeto, ela é identificada com a própria verdade.

Tal é a base essencial da certeza metafísica; poderá, assim, ser visto que o erro só se mostra com a utilização da razão, isto é, com a formulação das verdades que o intelecto concebeu, e isso decorre do fato de que a razão é, obviamente falível em consequência de seu caráter discursivo e mediador. Além disso, uma vez que toda expressão está fadada a ser imperfeita e limitada, o erro é inevitável em sua forma, se não em seu conteúdo: mesmo que se tente criar uma expressão exata, o que é deixado de fora é sempre muito maior do que está incluído; mas esse erro inevitável na expressão, nada contém de positivo enquanto tal, e simplesmente equivale a uma verdade menor, uma vez que reside apenas na formulação parcial e incompleta da verdade integral.

Torna-se agora possível compreender o profundo significado da distinção entre o conhecimento metafísico e o científico: o primeiro é derivado do intelecto puro, que tem o Universal por seu domínio; o segundo é derivada da razão, que tem o geral como seu domínio, pois, como Aristóteles declarou, "não há ciência, mas o geral." Não se deve, de forma alguma, confundir o Universal com o geral, como muitas vezes acontece entre os logicistas ocidentais, que aliás nunca vão além do geral, mesmo quando eles erroneamente aplicam lhe o nome universal. O ponto de vista das ciências, como temos mostrado, pertence à ordem individual; o geral não se opõe ao individual, mas somente ao particular, já que nada mais é do que o individual estendido; Além disso, o individual pode receber uma extensão indefinida sem assim alterar a sua natureza e sem fugir de suas condições restritivas e limitantes; é por isso que dizemos que a ciência poderia ser estendida indefinidamente sem nunca tocar a metafísica, da qual permanecerá sempre completamente separada, porque a metafísica por si só engloba o conhecimento Universal.


. . . Tudo o que acabamos de dizer pode ser aplicado, sem reservas, a cada uma das doutrinas tradicionais do Oriente, apesar das grandes diferenças de forma que possam esconder sua identidade fundamental dos olhos de um observador casual: esta concepção da metafísica é igualmente verdade no taoísmo, na doutrina hindu, e também no aspecto interior e extra-religioso do Islam. Há algo do tipo a ser encontrado no mundo ocidental? Se fosse apenas para considerar o que realmente existe no momento presente, certamente não seria possível outra resposta diferente de uma negativa, pois o que o pensamento filosófico moderno, por vezes, se contenta em afirmar que a metafísica não tem relação alguma com o concepção que acabamos de mostrar. . . No entanto, o que dissemos sobre Aristóteles e da doutrina escolástica, ao menos mostra que a metafísica realmente existiu no Ocidente, até certo ponto, e de forma incompleta; e apesar desta reserva necessária, pode-se dizer que ali estava algo que não possui equivalente algum na mentalidade moderna e que parece estar totalmente para além do sua compreensão. Por outro lado, se a reserva acima é inevitável, é porque, como dissemos anteriormente, existem algumas limitações que parecem ser inatas em toda a intelectualidade ocidental, pelo menos desde o tempo da antiguidade clássica em diante; já observamos, a este respeito, que os gregos não tinham noção do Infinito. Além disso, porque é que os ocidentais modernos, quando imaginam que estão a conceber o Infinito, representam sempre como um espaço, que só pode ser indefinido, e por que eles persistem confundindo a eternidade, que permanece essencialmente no "intemporal", se assim se pode expressar, na perpetuidade, que é apenas um prolongamento indefinido de tempo, enquanto que tais equívocos não ocorrem entre os orientais? O fato é que a mente ocidental, sendo quase exclusivamente inclinada ao estudo das coisas dos sentidos, é constantemente levada a confundir a concepção com a imaginação, na medida em que aquilo que não for capaz de representação sensível parece ser impensável por essa mesma razão; mesmo entre os gregos as faculdades imaginativas foram preponderantes. Isto é, obviamente, o oposto do pensamento puro; nestas condições não pode haver nenhuma intelectualidade no sentido real da palavra e, consequentemente, nenhuma metafísica. Se fossemos adicionar aqui outra confusão comum, a saber, aquela do racional com o intelectual, torna-se evidente que a suposta intelectualidade ocidental, especialmente entre os modernos, na realidade, equivale nada mais do que o exercício das faculdades exclusivamente individuais e formais da razão e imaginação; assim, pode-se então entender que um abismo separa da intelectualidade Oriental, que considera nenhum conhecimento como real ou valioso se esses não possuírem suas mais profundas raízes no Universal e no sem forma.


René Guénon em Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Autoridade espiritual e poder temporal: Conhecimento e Ação (Por René Guenon)


Temos dito que as relações entre o poder espiritual e temporal devem ser determinadas por aqueles de seus respectivos domínios. A questão, portanto, nos traz de volta ao seu princípio, e nos parece muito simples, pois é, no fundo, nada mais do que a relação entre conhecimento e ação. Pode-se objetar, a partir do que acabamos de mostrar, que aqueles que possuem o poder temporal deve, normalmente, possuir um certo conhecimento também; no entanto, deixando de lado por um momento o fato de que eles não possuem conhecimento em si mesmos - uma vez que eles derivam da autoridade espiritual - este conhecimento está, em todo caso, relacionado com as aplicações da doutrina e não aos próprios princípios e, portanto, se trata apenas de um conhecimento por participação. O conhecimento, por excelência - o único que realmente merece este nome em seu sentido mais amplo - é o conhecimento dos princípios, independentemente de todas as aplicações contingentes; e este pertence exclusivamente a aqueles que possuem autoridade espiritual pois não há nada nele decorrente da ordem temporal, mesmo levando isso ao seu sentido mais amplo. Aplicações deste conhecimento, por outro lado, referem-se à ordem temporal, pois este conhecimento não é mais previsto somente em si e por si, mas na medida em que dá à ação o seu direito; e é neste ato que se faz necessário aqueles cuja função é essencialmente adequada ao domínio da ação.

É evidente que em todas as suas diversas formas - militar, judicial e administrativa - o poder temporal está inteiramente envolvido na ação; em virtude de dessas mesmas atribuições, ele está confinado, portanto, dentro dos limites da ação, dentro daquilo que se equivale  ao mundo que se pode ser chamado "humano", incluindo neste termo possibilidades muito mais extensas do que as normalmente imaginadas. A autoridade espiritual, ao contrário, se baseia inteiramente no conhecimento, já que, como vimos, a sua função essencial é a conservação e o ensino da doutrina, e, assim, seu domínio é tão ilimitado quanto a própria verdade. O que é reservado para esta autoridade - devido à própria natureza das coisas - não se pode comunicar com os homens cujas funções são de outra ordem, porque as suas possibilidades não o incluem - é o conhecimento transcendente e "supremo", o que está além do domínio "humano" e ainda, de modo mais geral, para além do mundo manifestado - isto é, o conhecimento que não é mais "físico", mas "metafísico" no sentido etimológico da palavra. Deve ficar claro que não há aqui qualquer desejo por parte da casta sacerdotal em manter o conhecimento de certas verdades para si, mas de uma necessidade que resulta diretamente das diferenças de natureza existente entre os seres, as diferenças que, como já dissemos, constituem a razão de ser e o fundamento das distinções de casta. Aqueles que são feitos para a ação, não são feitos para o conhecimento puro, e em uma sociedade constituída em bases verdadeiramente espirituais, cada pessoa deve cumprir a função para a qual ele é realmente 'qualificado'; caso contrário, tudo se mostra confuso e desordenado e nenhuma função é realizada como deveria ser - que é precisamente o caso de hoje.

Estamos bem cientes que por causa desta confusão, as considerações estamos fazendo constar aqui, podem aparecer como algo apenas estranho para o Ocidente moderno, onde o que é chamado de "espiritual" geralmente tem apenas uma conexão remota com o estrito ponto de vista doutrinal e com conhecimento livre de toda contingência. Aqui pode-se fazer uma observação bastante curiosa: hoje as pessoas já não se contentam simplesmente em distinguir entre o espiritual e o temporal, que é legítimo e até necessário, mas também querem separá-los radicalmente; no entanto, acontece que as duas ordens nunca estiveram tão misturadas como estão no presente, e que, acima de tudo, as preocupações temporais nunca estiveram tão afetadas por aquilo que deveria ser absolutamente independente. Isto é, sem dúvida, inevitável, em virtude das próprias condições de nossa época, descrito em outro lugar. De forma a evitar todas as interpretações falsas, devemos, portanto, afirmar claramente que o que dizemos aqui diz respeito apenas aquilo que temos chamado de autoridade espiritual em seu estado puro, o qual devemos ser cautelosos ao procurar por exemplos. Se preferível, pode ser pensada como um tipo teórico - um "ideal", por assim dizer - embora na verdade este modo de considerar as coisas não é inteiramente nosso. Nós reconhecemos que nas aplicações históricas, é sempre necessário ter em conta as contingências, pelo menos até certo ponto; mas, mesmo ao fazer isso, temos de tomar a civilização do Ocidente pelo que é: um desvio e uma anomalia que se explica pelo fato de que ela corresponde à última fase do Kali Yuga.

Mas voltemos ao relacionamento entre o conhecimento e ação. Já tivemos ocasião de tratar esta questão, até certo ponto, e, consequentemente, não devemos repetir tudo o que foi dito na época. É indispensável no entanto, pelo menos, recordar os pontos mais essenciais. Consideramos a antítese do Oriente e do Ocidente, no presente estado de coisas chegando a isso: o Oriente mantém a superioridade do conhecimento sobre a ação, enquanto o Ocidente moderno afirma, pelo contrário, a superioridade da ação sobre o conhecimento (quando não se chega ao ponto de negar o conhecimento completamente). Estamos nos referindo apenas para o Ocidente moderno, uma vez que as coisas eram bem diferente na Antiguidade e na Idade Média. Todas as doutrinas tradicionais, seja oriental ou ocidental, são unânimes em afirmar a superioridade e até mesmo a transcendência do conhecimento em relação à ação, em referência ao que de uma forma desempenha o papel do "motor imóvel" de Aristóteles, o que, naturalmente, não significa que a ação não tem lugar legítimo e importância dentro de sua própria ordem. Mas essa ordem é apenas a de contingências humanas. Mudança seria impossível sem um princípio do qual a procede e que, pelo simples fato de ser o princípio da mudança, não é possível que esteja sujeito a alterações, sendo, assim, necessariamente 'imóvel' e no centro da "roda das coisas".

Da mesma forma, a ação, que pertence ao mundo de mudança, não pode ter seu princípio em si mesmo, uma vez que deriva sua realidade a partir de um princípio que está além de seu domínio e que só pode ser encontrado no conhecimento. De fato, o conhecimento por si só capacita alguém deixar para trás o mundo da mudança e suas limitações inerentes; e quando ele atinge o imutável, como é o caso do conhecimento em princípio ou metafísico - que é o conhecimento por excelência - em si possui imutabilidade, pois todo o conhecimento verdadeiro é essencialmente a identificação com seu objeto. Pelo próprio fato da posse desse conhecimento, a autoridade espiritual também possui a imutabilidade. O poder temporal, ao contrário, está sujeito a todas as vicissitudes do contingente e do transitório, a menos que um princípio superior comunique a ele, em uma medida compatível com a sua natureza e caráter, pois a estabilidade ele não pode ter por conta própria. Este princípio só pode ser o representado por autoridade espiritual. A fim de sobreviver, então, o poder temporal precisa de uma consagração que vem da autoridade espiritual; esta consagração que lhe confere legitimidade, isto é, a conformidade com a própria ordem das coisas. Tal era a razão de ser da "iniciação real ", como explicamos no capítulo anterior; e é nisso que o "direito divino" dos reis consiste corretamente, é o que a tradição extremo-oriental chama de "mandato do Céu": o exercício do poder temporal em virtude de uma delegação da autoridade espiritual, para qual esse poder 'eminentemente' pertence, como explicamos anteriormente. Toda ação que não procede do conhecimento carece em princípio e, portanto, nada mais é que uma agitação vão; da mesma forma, todo o poder temporal que não reconhece sua subordinação vis-à-vis a autoridade espiritual é vão e ilusório: separado de seu princípio, pode somente exercer-se de forma desordenada e mover-se inexoravelmente para sua própria ruína.

Como falamos em "mandato do Céu", não estaremos fugindo do escopo em relatar aqui como, de acordo com o próprio Confúcio, este mandato deve ser realizado: "A fim de fazer com que as virtudes naturais brilhem nos corações de todos os homens, os príncipes antigos, antes de tudo se dedicavam a governar bem o seu próprio principado. Para governar bem o seu principado, eles primeiramente restauravam a ordem adequada de suas famílias. A fim de estabelecer a ordem adequada em suas famílias, eles trabalhavam duro para aperfeiçoar-se em primeiro lugar. A fim de aperfeiçoar-se, eles regulavam primeiramente os movimentos de seus corações. Para regular os movimentos de seus corações, primeiro aperfeiçoaram a sua vontade. Para aperfeiçoar a sua vontade, eles desenvolveram os seus conhecimentos ao mais alto grau. Se desenvolve conhecimento examinando a natureza das coisas. Uma vez que a natureza das coisas é examinada, o conhecimento atinge seu mais alto grau. O conhecimento tendo chegado ao seu mais alto grau, a vontade torna-se perfeita. Tendo sido controlado os movimentos do coração, cada um é livre de falhas. Depois de ter corrigido si mesmo, se estabelece a ordem na família. Com a ordem reinante na família, o principado é bem governado. Com o principado sendo bem governado, o império em breve desfrutará de paz.


É preciso admitir que esta é uma concepção do papel do soberano difere singularmente do que este papel é imaginado no Ocidente moderno, tornando-o mais difícil de pôr em prática, embora também dando-lhe um significado completamente diferente; e pode-se notar, em particular, que o conhecimento é indicado explicitamente como condição primordial para o estabelecimento da ordem, mesmo no domínio temporal. É fácil agora compreender que a inversão das relações entre conhecimento e ação em uma civilização é uma consequência da usurpação da supremacia pelo poder temporal; este poder deve, de fato, afirmar que não há domínio superior ao seu próprio, que é precisamente o da ação. Se as coisas parassem aí, no entanto, nós ainda não teríamos atingido o nosso impasse atual, onde o conhecimento é negado a qualquer valor. Para que isso ocorra, os xátrias por si mesmos tiveram de ser privados de seu poder pela castas mais baixas. [1] De fato, como observamos anteriormente, mesmo quando os xátrias se rebelaram, eles ainda tinham uma tendência a afirmar uma doutrina truncada, falsificada pela ignorância ou pela negação de tudo o que vai além da ordem "física", mas dentro da qual ainda há certo conhecimento real, no entanto inferior. Eles fizeram uma pretensão dessa doutrina incompleta e irregular como se fosse uma tradição genuína, uma atitude - condenável, embora possa ser algo, no que diz respeito a verdade - não totalmente desprovida de uma certa grandeza. [2] Além disso, termos como "nobreza", "heroísmo" e "honra" não designa, em sua acepções originais, qualidades que são essencialmente inerentes à natureza dos xátrias? Por outro lado, quando os elementos que correspondem às funções sociais de uma ordem inferior passaram a dominar, toda a doutrina tradicional, ainda que mutilada ou alterada, desaparece totalmente; não subsiste nem mesmo o menor vestígio de "ciência sagrada", de modo que o reinado do "conhecimento profano" é introduzido, o reinado, que é, da ignorância pretendendo ser ciência, tomando prazer em sua nulidade. Tudo pode ser resumido em poucas palavras: a supremacia dos brâmanes mantêm a ortodoxia doutrinária; a revolta dos xátrias leva a heterodoxia; mas com a dominação das castas inferiores vem a noite intelectual, e isso é o que em nossos dias se tornou o Ocidente, que ameaça alastrar a sua própria escuridão sobre o mundo inteiro.
Alguns, talvez, nos reprovarão por ter falado como se castas existissem em todos os lugares, e por indevidamente estender a todas as organizações sociais uma designação que se encaixam corretamente apenas na Índia; mas como esses últimos apontam essencialmente para funções necessariamente encontradas em todas as sociedades, não acho essa extensão indevida. É verdade que a casta não é apenas uma função; é também, e acima de tudo, aquilo que se encaixa na natureza do indivíduo para exercer esta ou aquela função em vez de qualquer outra, mas essas diferenças de natureza e aptidão existem onde quer que haja homens. A diferença entre uma sociedade onde existem castas no verdadeiro sentido da palavra, e uma sociedade onde não há nenhuma é que, no primeiro caso, há uma correspondência normal, entre a natureza dos indivíduos e as funções que desempenham (sujeito apenas a erros de aplicação que estão em todas os eventos), enquanto que no segundo, essa correspondência não existe, ou pelo menos só existe acidentalmente; o último caso mostra o que acontece quando uma organização social carece de uma base tradicional. [3] Em casos normais, há sempre algo comparável à instituição de castas, com a modificação adequada deste ou aquele povo; mas a organização que encontramos na Índia é aquela que representa o tipo mais completo no que diz respeito à aplicação da doutrina metafísica da ordem humana. Em suma, isso por si só deveria ser suficiente para justificar os termos que adotamos em detrimento de outros que poderíamos ter emprestado de instituições que têm, em sua forma mais especializada, um campo muito mais limitado de aplicação, estes outros termos seriam incapazes de fornecer as mesmas possibilidades para expressar certas verdades de ordem mais geral. Além disso, existe outra razão, apesar de ser mais contingente, de que os termos não são desprezíveis: é muito notável que a organização social do mundo ocidental na Idade Média era baseada justamente na divisão de castas, o clero correspondentes aos brâmanes, a nobreza para os xátrias, o terceiro-estado ao vaixiás, e os servos aos shudras.  Não eram castas no sentido pleno da palavra, mas esta coincidência, que certamente não é por acaso, permita ainda realizar uma transposição muito simples de termos na passagem de um caso para o outro; e esta observação encontrará a sua aplicação nos exemplos históricos que iremos considerar a seguir.

[1] Em particular, a preponderante importância dada na consideração de uma ordem econômica, que é uma característica muito marcante de nossos tempos, pode ser considerada como um sinal de dominação dos vaixás, cujo equivalente aproximado é representado pela burguesia no mundo ocidental. Na verdade, é este último que têm dominado desde a Revolução Francesa. E de fato, são estes últimos que têm dominado desde a Revolução Francesa.

[2] A atitude dos xátrias rebeldes poderia ser muito bem caracterizado pela denominação “luciferianismo “, que não pode ser confundido com "satanismo ", embora haja, sem dúvidas, uma certa ligação entre os dois: “luciferianismo” é a recusa de reconhecer uma autoridade superior enquanto "satanismo" é uma inversão das relações normais e da ordem hierárquica, sendo este último muitas vezes uma consequência do primeiro, assim como depois de sua queda de Lúcifer tornou-se Satanás


[3] É necessário recordar que as "classes" sociais, como são entendidos hoje no Ocidente, nada têm em comum com as verdadeiras castas, sendo, no máximo, apenas uma espécie de imitação, sem validade ou o significado, uma vez que elas não são inteiramente baseadas nas diferenças de possibilidades implícitas na natureza dos indivíduos.