sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Primeiro Estágio da Dialética Niilista: Liberalismo (Por Seraphim Rose)

1. LIBERALISMO

O Liberalismo que iremos descrever nas páginas seguintes não é --vamos deixar claro desde o início -- um Niilismo evidente; é antes um Niilismo passivo, ou, melhor ainda, o terreno neutro e fértil para as fases mais avançadas do Niilismo. Aqueles que estão seguindo a nossa discussão anterior sobre a impossibilidade espiritual ou "neutralidade" intelectual nesse mundo, entenderá imediatamente por que nós classificamos o Liberalismo usando um ponto de vista Niilista que, embora não seja diretamente responsável por quaisquer fenômenos Niilistas marcantes, foi um pré-requisito indispensável para o seu surgimento. A incompetente defesa proveniente do Liberalismo por uma herança na que nunca se acreditou plenamente, tem sido uma das causas mais potentes para a criação do Niilismo.


A civilização humanista Liberal, na Europa Ocidental, foi a última forma da Velha Ordem a qual foi efetivamente destruída nas grandes guerras e nas revoluções da segunda década deste século e que continua a existir -- ainda que em uma forma mais atenuada e "democrática" -- no mundo livre de hoje, pode ser caracterizada, principalmente, pela sua atitude para com a verdade. Esta não é uma atitude de franca hostilidade, nem mesmo de indiferença intencional, pois seus sinceros apologistas inegavelmente tem um verdadeiro respeito por aquilo que consideram ser a verdade; em vez disso, é uma atitude em que a verdade, apesar de certas aparências, já não ocupam o centro das atenções. A verdade em que professa crer (além, é claro, dos fatos científicos) é, para ele, não uma moeda espiritual ou intelectual em circulação, mas um capital inativo e sem frutos que sobraram de uma era anterior.  O Liberal ainda fala, ao menos em algumas ocasiões formais, de "verdades eternas", de "fé", de "dignidade humana", da "vocação" do homem ou do seu "espírito inextinguível", até mesmo da "Civilização Cristã"; mas é evidente que essas palavras não mais dizem o que um dia significou. Nenhum Liberal as leva com toda seriedade; elas são, na verdade, metáforas, ornamentos de uma linguagem que se destina a evocar uma resposta emocional, não intelectual - uma resposta largamente condicionada pelo seu uso prolongado, a uma memória que atende a um tempo em que essas palavras realmente tinha um significado positivo e sério.

Hoje em dia ninguém que se orgulhe de sua "sofisticação" -- ou seja, muito poucos nas instituições acadêmicas, no governo, na ciência, nos círculos intelectuais humanistas, nenhum que queira ou afirme estar a par dos "tempos" -- pode ou acredita plenamente na verdade absoluta, ou mais particularmente, na verdade cristã. No entanto, o nome da verdade tem sido mantido, como tem sido com os nomes daquelas verdades humanas uma vez consideradas absolutas, e poucos em posição de autoridade ou influência hesitaria em usá-las, mesmo quando eles estão cientes de que os seus significados mudaram. A verdade, em outras palavras, foi "reinterpretada"; As antigas formas foram esvaziadas e receberam um conteúdo novo, quase Niilista. Isto pode facilmente ser visto por um breve exame de algumas das principais áreas em que a verdade foi "reinterpretada".

Na ordem teológica, a primeira verdade é Deus. Onipotente e onipresente Criador de tudo, revelado pela fé e na experiência dos fiéis, Deus é o fim supremo de toda criação e Ele, ao contrário de sua criação, encontra seu fim em si mesmo, tudo criado se encontra em relação e dependência dEle, o único que nada depende fora de si mesmo, Ele criou o mundo para que pudesse viver em desfrute dele, e tudo no mundo está orientado para este fim, que, contudo, alguns homens podem perder-se por um desvio de sua liberdade.

A mentalidade moderna não pode tolerar tal Deus. Ele é ao mesmo tempo muito íntimo - muito "pessoal", muito "humano" - e demasiado absoluto, muito inflexível em suas exigências para nós, e Ele se faz conhecido somente pela humilde fé - um fato que fere o orgulho da inteligência moderna. Um "novo deus" é claramente necessário pelo homem moderno, um deus mais atentamente modelado segundo o padrão das preocupações centrais modernas, como a ciência e negócios; e, de fato, há uma importante intenção do pensamento moderno para proporcionar tal deus. Esta intenção já é clara em Descartes, é materializado no deísmo do Iluminismo, desenvolvido ao fim no idealismo alemão; o novo deus não é um Ser, mas uma ideia, não revelado pela fé e humildade, mas construído por uma mente orgulhosa que ainda sente a necessidade de "explicação" ao perder o seu desejo da salvação. Este é o deus morto dos filósofos que apenas necessitam uma "causa primeira" para complementar seus sistemas, bem como os "pensadores positivos" e outros sofistas religiosos que inventam um deus pois "necessitam" dele, e pensam que podem usá-lo à vontade. Quer seja "deísta", idealista, "panteísta", ou "imanentista", todos os deuses modernos são construtos mentais, fabricados por almas mortas pela perda de fé no verdadeiro Deus.

Os argumentos ateístas contra tais deuses são tão irrefutáveis quanto irrelevantes; pois tal deus é, de fato, o mesmo que nenhum deus. Desinteressado no homem, impotente para agir no mundo (exceto para inspirar um "otimismo" mundano"), ele é um deus consideravelmente mais fraco que os próprios homens que o inventaram. Em tais alicerces, não é necessário dizer, nada seguro pode ser construído; e é com boas razões que os liberais, enquanto comumente professam crença nessa divindade, na verdade constroem sua visão de mundo em cima do mais óbvio, dificilmente mais estável: a fundação do Homem. O ateísmo Niilista é uma formulação explícita do que já estava, não de uma forma clara, mas de uma forma confusa, presente no Liberalismo.

As implicações éticas na crença de tal deus são precisamente as mesmas daquelas do ateísmo; este acordo interno, no entanto, é mais uma vez disfarçado exteriormente por trás de uma nuvem de metáforas. Na ordem cristã, toda a atividade desta vida é vista e julgada à luz da vida do mundo futuro, a vida além da morte, que não terá fim. O incrédulo não possui ideia do que isso significa para a vida do fiel Cristão; para a maioria das pessoas de hoje, a vida futura, como Deus, tornou-se uma mera ideia, e, por isso, custa pouco de dor e esforço tanto para negá-lo quanto para afirmá-lo. Para o verdadeiro Cristão, a vida futura é uma alegria inconcebível, alegria que supera a alegria que ele conhece através da comunhão com Deus em oração, na Liturgia, no Sacramento; por que, então, Deus será  tudo em todos e não haverá distanciamento desta alegria que certamente será infinitamente melhor. O verdadeiro crente tem o consolo de uma antecipação da vida eterna. O crente no deus moderno, não tendo tal antecipação e, portanto, nenhuma noção da alegria cristã, não pode acreditar na vida futura do mesmo modo, na verdade, se ele fosse honesto consigo mesmo, ele teria que admitir que, no fundo, não acredita.

Existem duas formas principais de tal descrença que se passa pela crença Liberal: a Protestante e a humanista. A visão Liberal Protestante da vida futura -- compartilhada, infelizmente, por um número crescente dos que se professam ser Católicos ou até mesmo Ortodoxos - é, como suas opiniões sobre tudo o mais que pertence ao mundo espiritual, uma mínima profissão de fé que mascara uma fé em nada. A vida futura se tornou um sombrio submundo na concepção popular, um lugar onde se pode ter um "descanso merecido" após uma vida de trabalho. Ninguém tem uma ideia muito clara deste reino, pois corresponde a nenhuma realidade; é, antes, uma projeção emocional, um consolo para aqueles que preferem não enfrentar as implicações de sua descrença real.

Tal "céu" é fruto de uma união da terminologia Cristã com um mundanismo comum, e não é convincente para ninguém que entende que tal compromisso é impossível; nem o verdadeiro Cristão Ortodoxo nem o Niilista é seduzido por ela. O compromisso com o humanismo é, se alguma coisa, ainda menos convincente. Até aqui, dificilmente há uma pretensa ideia de que corresponde à realidade; tudo se torna metáfora e retórica. O humanista já não fala mais sobre céu, pelo menos não de forma séria; mas ele se permite falar do "eterno", de preferência através de figuras de linguagem: "verdades eternas", "eterno espírito dos homens".  Alguém pode, com razão, questionar-se se tais palavras tem algum significado em tais frases. No estoicismo humanista o "eterno" foi reduzido a um conteúdo tênue e frágil a ponto de ser praticamente indistinguível do Niilismo materialista e determinista que tenta, com certa razão, seguramente, destruí-lo.

Em qualquer dos casos, tanto o Liberal "Cristão" e ainda mais o Liberal humanista, a incapacidade de acreditar na vida eterna está enraizada no mesmo fato: eles acreditam apenas neste mundo, não possuem nem experiência ou fé no outro mundo e, sobretudo, acreditam em um "deus" que não é poderoso suficiente para ressuscitar os homens da morte.

Atrás de sua retórica, o sofisticado Protestante e o humanista estão conscientes de que, no seu universo, não há espaço para o Céu, nem para a eternidade; sua sensibilidade completamente Liberal, mais uma vez, não se orienta ao transcendente, mas para uma fonte imanente de sua doutrina ética, e sua ágil inteligência é capaz de transformar este faute de mieux numa apologia positiva. Deste ponto de vista, é tanto "realismo" quanto "coragem" viver sem a esperança na alegria eterna ou sem o medo da dor eterna; para aquele dotado de visão Liberal das coisas, não é necessário acreditar em Céu ou Inferno para ter uma "boa vida" neste mundo. Tal é a cegueira completa da mentalidade Liberal ao significado da morte.

Se não há imortalidade, acredita o Liberal, ainda se pode levar uma vida civilizada; "se não há imortalidade" - uma profunda lógica do Ivan Karamazov no romance de Dostoievski - "tudo é permitido". O estoicismo humanista é possível para certos indivíduos por um certo tempo: ou seja, até que eles percebam as implicações de se negar a imortalidade. O Liberal vive em um paraíso de tolos que deve entrar em colapso quando de frente a verdade das coisas.  Se a morte é, como o Liberal e o Niilista acreditam, a extinção do indivíduo, então este mundo e tudo que há nele - o amor, a bondade, a santidade, tudo - são como nada, nada que o homem possa fazer é tem alguma importância última e o horror da vida está escondido do homem apenas por sua força de vontade em enganar si mesmos; e "tudo é permitido", nenhuma esperança transcendente ou medo impede o homem de experimentos monstruosos e sonhos suicidas. As palavras de Nietzsche são verdades - e a profecia - de um novo mundo resultante deste ponto de vista:

De tudo aquilo que antigamente se tinha por verdade, hoje nem uma palavra é ainda merecedora de crédito. Aquilo que era desprezado como profano, proibido, desprezível e fatal -- todas essas "flores" agora crescem sobre os mais charmosos caminhos da verdade.

A cegueira do Liberal é um antecedente direto do Niilista, e mais especificamente da moralidade Bolchevique; pois este último é apenas uma aplicação coerente e sistemática da descrença Liberal. É uma grande ironia da visão Liberal que, precisamente quando sua mais sincera intenção é posta em prática no mundo, e que todos os homens estão "liberados" do jugo dos padrões transcendentes, e quando o pretexto da crença no outro mundo já desaparecera -- é precisamente aí, que a vida como o Liberal conhece ou deseja, tornar-se-á impossível; o "novo homem" que a descrença produz só pode ver o próprio Liberalismo como a última "ilusão" que o Liberalismo desejava desfazer.

Na ordem política, o cristianismo também foi fundada sobre a verdade absoluta. Nós já vimos, no capítulo anterior, que a principal forma de governo onde havia união com a Verdade Cristã foi no Império Cristão Ortodoxo, onde a soberania estava atribuída a um Monarca, onde a autoridade procedia dele para baixo, através de uma estrutura social hierárquica. Veremos no próximo capítulo, por outro lado, como uma política que rejeita a Verdade Cristã deve reconhecer "o povo" como soberano e entender a autoridade como procedendo de baixo para cima, em uma sociedade formalmente "igualitária”. É claro que um é a inversão perfeita do outro; pois são opostos em concepções tanto quanto sua origem como também ao propósito. A Monarquia Cristã Ortodoxa é um governo divinamente estabelecido, e orientado, em última instância, para o outro mundo; o governo com o ensinamento da Verdade Cristã e a salvação das almas como o seu propósito mais profundo; o governo Niilista - cujo nome mais adequado, como veremos, é a anarquia --- é o governo estabelecido pelos homens, e dirigido exclusivamente a este mundo, governo que não tem nenhum objetivo maior do que a felicidade terrena.

A visão Liberal de governo, como se poderia suspeitar, é uma tentativa de compromisso entre estas duas ideias irreconciliáveis​​. No século 19, este compromisso tomou a forma de "monarquias constitucionais", uma tentativa - mais uma vez - de se casar uma velha forma com um novo conteúdo; hoje, os principais representantes da ideia Liberal são as "repúblicas" e "democracias" da Europa Ocidental e América, grande parte dessas preservam um equilíbrio bastante precário entre as forças de autoridade e de Revolução, enquanto professando a acreditar em ambas.

É claro que é impossível acreditar em ambas com a mesma sinceridade e fervor, e na verdade, nunca ninguém fez isso. Monarcas constitucionais como Louis Philippe pensou fazê-lo, professando a governar "pela graça de Deus e a vontade do povo" - uma fórmula cujos termos anulam o outro, um fato igualmente evidente tanto para o Anarquista quanto para o Monarquista.

Dessa forma um governo está seguro na medida em que tem Deus como seu fundamento e Sua Vontade como guia; mas isso, com certeza, não é uma descrição de um governo Liberal. Trata-se, na visão Liberal, do povo que governa, e não Deus; o próprio Deus é um "monarca constitucional" cuja autoridade foi totalmente delegada ao povo e cuja função é inteiramente cerimonial. O Liberal acredita em Deus com o mermo fervor retórico com o qual acredita no Céu. O governo erguido sobre tal fé é pouco diferente, em princípio, de um governo erigido sobre total descrença, e qualquer que seja seu resíduo presente de estabilidade, está claramente apontado na direção da anarquia.

Um governo deve governar pela graça de Deus ou pela vontade do povo, deve acreditar em autoridade ou Revolução; desta forma um acordo entre os dois só é possível na aparência, e apenas por um tempo. A Revolução, assim como a descrença que sempre a acompanhava, não pode ser interrompida no meio do caminho, é uma força que, uma vez despertada, não vai descansar até que ela termine em um reino totalitário deste mundo. A história dos últimos dois séculos tem provado isso. Apaziguar a Revolução e oferecendo concessões, como os liberais sempre fizeram, mostra, assim, que eles não possuem uma verdade para se opor, mas apenas para, talvez adiar, mas não impedir, a realização de seu fim.  E se opor a Revolução radical com outra Revolução, quer seja "conservadora", "não-violenta", ou "espiritual", não é apenas revelar a ignorância de todo escopo e a natureza da Revolução de nossos tempos, mas também admitir o primeiro princípio da Revolução: de que a velha verdade não é mais verdade, e uma nova deve tomar o seu lugar. No próximo capítulo desenvolveremos este ponto, definindo mais de perto o objetivo da Revolução.

Na visão de mundo Liberal, portanto, em sua teologia, ética e bem como em outras áreas que não examianos -- a verdade tem sido enfraquecida, amolecida, comprometida; em todas as esferas onde a verdade um dia foi absoluta, agora se tem menos certeza, isso caso não tenha sido totalmente relativizada. Dessa forma é possível - e isto, de fato, representa uma definição do projeto Liberal - preservar por um tempo os frutos de um sistema e uma verdade da qual estão incertos e céticos; nada de positivo pode ser construído sobre tal incerteza, nem sobre uma tentativas de torná-lo intelectualmente respeitável nas várias doutrinas relativistas já examinadas. Não existe e não pode haver apologia filosófica para o Liberalismo; suas apologias, quando não são simples retórica, são emocionais e pragmática. Mas, o fato mais impressionante sobre o Liberal, para qualquer observador relativamente imparcial, não é tanto a inadequação de sua doutrina mas também o próprio esquecimento dessa inadequação.

Este fato, que é compreensivelmente irritante aos críticos bem-intencionados do Liberalismo, tem somente uma explicação plausível. O Liberal é imperturbável pelas contradições e deficiências fundamentais de sua própria filosofia, porque seu principal interesse está em outro lugar. Se ele não está preocupado em fundar a ordem política e social mediante a Verdade Divina, se é indiferente à realidade do Céu e do Inferno, se ele concebe Deus como uma mera ideia de um poder impessoal, é porque ele é está muito mais interessado em fins mundanos, e porque todo resto é vago ou abstrato a ele. O Liberal pode estar interessado em cultura, no aprendizado, nos negócios, ou simplesmente no conforto, mas em cada uma de suas atividades a dimensão do absoluto é simplesmente ausente. Ele é incapaz - ou indisposto - em pensar em termos de fins, das coisas finais. A sede da verdade absoluta desapareceu; foi engolida por um mundanismo.

No universo Liberal, naturalmente, a verdade - isto é, o aprendizado- é bastante compatível com o mundanismo; mas existe mais verdade além do aprendizado. "Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz.". Nunca alguém que buscou corretamente a verdade deixou de encontrar, no fim - aceitando-o ou rejeitando-o - nosso Senhor, Jesus Cristo, "o Caminho, a Verdade e a Vida"; Verdade que contrapõe o mundo e reprovação a toda mundanidade. O Liberal, pensa que seu universo protege-o contra essa Verdade, é o "homem rico" da parábola, sobrecarregado por seus interesses e ideias mundanas, relutante de trocá-los pela humildade, pobreza e humilhação; as marcas do verdadeiro buscador da verdade.

Nietzsche deu uma segunda definição do Niilismo, ou melhor, um comentário sobre a definição "não há verdade", e isto é, "não há resposta para a pergunta: 'por que'". O Niilismo significa, portanto, que as questões últimas não têm respostas, ou seja, ausência de respostas positivas; e o Niilista é aquele que aceita implicitamente o "não" que o universo supostamente dá como resposta a estas perguntas. Mas há duas maneiras de aceitar esta resposta. Existe o caminho extremo em que é explicitado e amplificado nos programas da Revolução e da destruição; este é o Niilismo propriamente chamado de Niilismo ativo, pois - nas palavras de Nietzsche - "O Niilismo... não é somente a crença que tudo merece perecer; mas alguém realmente coloca as mãos à obra; destrói-se”. Mas há também um caminho "moderado", que é o passivo ou implícito, Niilismo que estamos a examinar, o Niilismo do Liberal, o humanista, o agnóstico que, concordando que "não há verdade", já não mais anseia pelas questões últimas. O Niilismo ativo pressupõe este Niilismo de ceticismo e descrença.

Os regimes totalitários Niilistas deste século comprometeram, como parte integrante de seus programas, a "reeducação" impiedosa de seus povos. Poucos sujeitos a este processo durante qualquer período de tempo, escaparam inteiramente de sua influência; em uma paisagem onde o cenário é o pesadelo, o senso de realidade e verdade inevitavelmente sofre. A "reeducação" sutil, mais humana em seus métodos, mas ainda assim Niilista em suas consequências, tem sido praticada há algum tempo no mundo livre, e não há lugar mais persistente ou eficaz do que seu centro intelectual, o mundo acadêmico. Aqui coerção externa é substituída pela persuasão interna; um ceticismo mortal reina, escondido atrás dos restos de uma "herança cristã", na qual poucos acreditam, e muito menos com profunda convicção. A profunda responsabilidade que o estudioso uma vez possuiu, a comunicação da verdade, tem sido renegada; fingem "humildade" para esconder esse fato por trás de uma conversa sofisticada sobre "os limites do conhecimento humano", mas é apenas outra máscara do Niilismo que o acadêmico Liberal compartilha com os extremistas de nossos dias.  A juventude que -- até que seja "reeducada" no ambiente acadêmico -- ainda tem sede de verdade, é ensinada em vez da verdade, a "história das ideias", ou então o interesse é desviado para estudos "comparativos"; assim, o relativismo que permeia tudo, e o ceticismo impresso nesses estudos é suficiente para acabar praticamente toda sede natural pela verdade.

O mundo acadêmico tornou-se hoje, em grande parte, uma fonte de corrupção. É corruptor ouvir ou ler as palavras dos homens que não acreditam na verdade. É ainda mais corruptor receber, no lugar da verdade, mais aprendizado e erudição que, se forem apresentadas como fins em si mesmos, não são mais que paródias da verdade da qual foram feitos para servir, não são mais do que uma fachada que por trás da qual não há nenhuma substância. É, infelizmente, corruptor até mesmo estar exposto à virtude primária que ainda resta no mundo acadêmico. Pois a integridade serve, não a verdade, mas a uma erudição cética, e assim seduz os todos homens de forma mais eficaz com o evangelho do subjetivismo e incredulidade que esta erudição esconde.  É corruptor, por fim, simplesmente viver e trabalhar em um ambiente inteiramente permeado por uma falsa concepção de verdade, onde a Verdade Cristã é vista como irrelevante para os problemas centrais acadêmicos, onde mesmo aqueles que ainda acreditam nesta Verdade pode apenas esporadicamente fazer que suas vozes sejam ouvidas acima do ceticismo promovido pelo sistema acadêmico. O mal, é claro, reside principalmente no próprio sistema, que é fundamentado em inverdade, e apenas incidentalmente nos muitos professores que este sistema permite e incentiva a pregar.

O Liberal, homem mundano, é o homem que perdeu a fé; e a perda da fé perfeita é o começo do fim da ordem erigida em cima daquela fé. Aqueles que procuram preservar o prestígio da verdade sem acreditar nela, oferece a arma mais potente para todos os seus inimigos; uma fé meramente metafórica é suicídio. O radical ataca a doutrina Liberal em todos pontos, e o véu da retórica não é proteção contra o forte impulso de sua lâmina afiada. O Liberal, sob o ataque persistente, cede lugar ponto após ponto, forçado a admitir a verdade das acusações contra ele sem ser capaz de contrariar esta situação com alguma de suas verdade positivas; até que, depois de uma transição longa e geralmente gradual, de repente, ele acorda e descobre que a Velha Ordem, indefesa e aparentemente insustentável, foi derrubada, e que uma nova, mais "realista" - e mais brutal - tomou o lugar.


O Liberalismo é o primeiro estágio da dialética Niilista, tanto por sua fé ser vazia e porque esse vazio coloca em reação ainda mais Niilista -- a reação que, ironicamente, proclama ainda mais alto que o Liberalismo, seu "amor pela verdade", enquanto carrega a humanidade um passo adiante no caminho do erro. Esta reação é o segundo estágio da dialética Niilista: o Realismo.

"Nihilism: The Root of the Revolution of the Modern Age", Seraphim Rose

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Festival Revolucionário (Por Roger Griffin)

Cerca de duas décadas atrás, Mona Ozouf, em seu livro ‘Festivais e a Revolução Francesa’ apresentou um impressionante depoimento sobre a centralidade do mito e do ritual na dinâmica das chamadas revoluções “modernas”, “racionais”, supostamente realizada em nome de princípios iluministas. Agora que, finalmente, alguns estudiosos estão levando a sério a proposição de que tanto o Fascismo quanto o Nazismo tentaram criar um novo tipo de cultura, parece ser um momento propício para examinar se o componente visivelmente ritualizado e teatral do Fascismo, ou do fascismo genérico, pode ser iluminado pelo conceito de "festival revolucionário". Como veremos, a aplicação de tal conceito tem um valor heurístico especial quando aplicada a ideologia e a prática fascista, apesar das diferenças radicais que separam a espontânea explosão das energias míticas populistas desencadeadas pela Revolução Francesa e daqueles casos deliberadamente projetados em cidadãos comuns por elites fascistas e nazistas. No momento em que escreveu Mein Kampf, Hitler já estava ciente da necessidade de emular o poder das manifestações em massa realizadas pelos comunistas que
fazia queimar, dentro do pequeno e miserável indivíduo, a orgulhosa convicção de que, mesmo sendo um verme insignificante, ele, todavia, fazia parte de um grande dragão, sob o qual o sopro ardente aquecia o mundo burguês e que um dia em fogo, as chamas e a ditadura do proletariado iria celebrar sua vitória final.



A noção de que pode existir, qualitativamente, diferentes experiências do tempo é fundamental para tal investigação. A questão dos 'tempos' subjetivos possui uma enorme complexidade psicológica e antropológica, e é, por natureza, suscetíveis a todo o número de esquemas conceituais. No entanto, é importante notar que não somente poetas, mas também alguns dos principais intelectuais do ocidente sugeriram que há uma dicotomia entre o tempo 'comum' e o tempo 'especial' persiste na era da modernidade. Emile Durkheim, por exemplo, não apenas distinguiu entre o tempo 'sagrado' e o tempo 'profano', mas deu uma considerável atenção as "assembleias efervescentes”, tempo desordenados que dão lugar a um sentimento coletivo de pertencimento e de propósito temporal. Da mesma forma, um dos efeitos que Max Weber atribuiu a "racionalização" progressiva de todos os aspectos da existência moderna foi o "desencanto" (Entzauberung), a erosão pela secularização da religiosidade, da dimensão mágica da realidade que unia as comunidades pré-modernas, embora ele tenha reconhecido que essa dimensão possa ressurgir espasmodicamente na forma de energias carismáticas para temporariamente libertar os seres humanos de sua gaiola de ferro da razão. Analistas culturais, antropologicamente orientados, como Joseph Campbell, com base em estudos pioneiros de Carl Jung sobre o "arquétipo inconsciente", explorou como a consciência mítica ainda fornece o substrato da experiência humana "moderna", levantando os indivíduos fora do tempo normal, sempre que as suas vidas se cruzam com padrões primordiais da consciência cosmológica ('mitopoética') e ritualística. Uma das figuras mais influentes na investigação da distinção entre tempo profano e o sagrado é Mircea Eliade, que, em um fluxo de escritos, documentou o constante recurso dos seres humanos ao mito e ritual, a fim de evitar o "terror de história ", a invasão da vida pelo todo consumidor tempo.

Visto de uma tal perspectiva, a rebelião cultural contra o projeto iluminista que congregou força a partir da década de 1880 em diante na Europa - hoje geralmente conhecido como "a revolta contra o positivismo" - pode ser vista como o aparecimento de uma série de buscas altamente idiossincráticas para pôr fim à "decadência" (isto é, um tempo 'decaído', desencantado, entrópico, privado) e inaugurar um "renascimento" (ou seja, entrar em um tempo "superior", mágico, regenerativo, coletivo, novo). Se restrito a esfera experimental de indivíduos ou pequenos grupos, isso pode envolver mais do que um culto ao visionário, ao estado místico da consciência, ou a uma busca de conhecimentos e percepções negligenciados pela cultura ocidental dominante, a ponto de causar cultos de Carl Jung, William Blake, e Carlos Castaneda, durante a 'revolta' contra-cultural da década de 1960. No entanto, tão generalizado era a insatisfação com o culto ao progresso material, liberal, e ao um tempo linear que os intelectuais e artistas de toda Europa foram atraídos para a ideia de que tentar se libertar de uma embrutecedora "normalidade" fazia parte de um impulso mais amplo, uma mudança radical na história. Em experiências individuais, isto estava muitas vezes existencialmente caracterizados por uma mudança qualitativa no próprio tempo, a partir do insignificante pessoal ao coletivamente significativo. Personalidades de liderança no renascimento do ocultismo, e muitos pioneiros do modernismo artístico, se encaixam nesse padrão. Assim, figuras como Helena Blavatsky, Rudolf Steiner, William Butler Yeats, Richard Wagner, Igor Stravinsky, Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Vincent Van Gogh, e Rainer Maria Rilke, e artistas de tais movimentos tão díspares como o expressionismo, o cubismo e o surrealismo foram, em suas diferentes formas, preocupados tanto com a conquista de um "ecstasy" (estados que lhes permitiu "ficar de fora" do tempo normal) e com uma forma de catalisar, para a difusão de novas formas de consciência para "salvar" o Ocidente do que eles viam como um processo de atrofia espiritual. Para alguns, a própria noção de "moderno" foi infundida com um senso de regeneração cultural, o nascimento de uma nova era. Por exemplo, Hermann Bahr, escreveu em 1890:

Pode ser que estamos no fim, na morte de uma humanidade esgotada, e que nós estamos experimentando últimos espasmos da humanidade. Pode ser que estamos no início, com o nascimento de uma nova humanidade e que estamos vivendo apenas as avalanches de primavera. Estamos subindo para o divino ou mergulhando, mergulhando na noite e destruição - mas não há como parar.
O credo do Die Moderne é que a salvação vai surgir de dor e desespero, que a aurora virá depois dessa escuridão horrível e que a arte vai manter a comunhão com o homem e que haverá uma gloriosa e abençoada ressurreição.

Uma investigação do final do século XIX na Europa vanguardista, com base em sua filosofia do tempo e da história, iria mostrar o quão profundamente associada ambos estão com a crença apaixonada que formas rotineiras e escleróticas de sentir e ser - associada com a era do materialismo e do filistinismo - podem ser transfiguradas, individual ou coletivamente, através do despertar de uma visionária faculdade em sintonia com tempo "superior". De fato, este ponto pode muito bem provar ser o principal, senão o único denominador comum, que está na base da rica profusão de tantas estética, nuances e visões conflitantes da realidade que são contemplados pelos termos 'modernismo' e 'avant-garde'.


Contudo, o ocultismo e a arte visionária não eram os únicos canais através dos quais tais desejos podiam ser expressados no "fin de siècle" - o próprio conceito implicava que não só uma era de valores e sensibilidade estava encerrando, mas que outra poderia estar aberta. Outras personalidades tentaram contribuir para a inauguração de um novo tempo através da filosofia e teoria social, Friedrich Nietzsche e Georges Sorel são exemplos notáveis. Ambos olharam especialmente para (de formas diferentemente concebidas) energias míticas em vez da razão iluminista como base para uma regeneração da sociedade europeia.  A extraordinária ressonância que suas obras se encontram entre seus contemporâneos pode ser melhor explicada pelo fato de que a cultura européia foi permeada por uma expectativa palingénetica não cumprida e que demandava articulação. Ao contrário de Nietzsche, Sorel transgrediu da "pura" especulação cultural e filosófica para um território desconhecido onde havia maiores aspirações palingéneticas, ou seja, a política revolucionária. Esta abordagem revolucionária, por definição, tentou criar um novo tempo, avançando na ideia utópica de uma sociedade melhor sustentando uma força motriz, não importando o quão, sistematicamente, tais políticas possam ser racionalizadas por doutrinas e teorias.

A Fascist Century: Essays by Roger Griffin

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Irreligião (Por Oswald Spengler)

Cada cultura tem, portanto, o seu modo peculiar de extinguir-se espiritualmente, e esse modo, consequência absolutamente inevitável de toda a sua vida, só pode ser um único. Por isso são o Budismo, o Estoicismo e o Socialismo fenômenos finais, que se equivalem morfologicamente.

Isso aplica também ao Budismo, cujo o último sentido sempre foi interpretado erroneamente em tempos anteriores. Ele não é um movimento puritano, como, por exemplo, o Islã e o Jansenismo; não é uma reforma, tal como foi a corrente dionisíaca em oposição ao apolinismo; não é nenhuma religião nova, e nem sequer pode ser considerado como religião do gênero dos Vedas e dos ensinamentos do apóstolo São Paulo. É o sentimento básico da civilização indiana e, por essa razão, “contemporâneo” com o Estoicismo ou o Socialismo, e equivalente a eles. A quintessência dessa mentalidade totalmente profana, nada metafísica, encontra-se na célebre prédica de Benares, sobre as “quatro sagradas verdades do sofrimento”, por meio das quais o príncipe-filósofo conquistou seus primeiros adeptos. As raízes de tal concepção acham-se na filosofia racionalista, ateia, de Sankhya, cuja atitude em face do mundo é tacitamente pressuposta; assim como a ética social do século XIX tem sua origem no sensualismo e no materialismo do século XVIII, e a Stoa procede de Protágoras e dos sofistas, em que pese a sua exploração superficial de Heráclito. Em todos esses casos, a onipotência da razão é o ponto de partida da reflexão moral. Não se fala de religião, se é que por religião se entende a fé em certos assuntos metafísicos. Não há nada mais estranho à religião do que esses sistemas, em sua forma original. Não nos referimos neste ponto às modificações que eles sofreram nas fases posteriores da sua respectiva civilização.

Deparamos com três tipos de niilismo, usando o termo no sentido que lhe conferia Nietzsche. Os ideias de ontem, as formas religiosas, artísticas, politicas, desenvolvidas no curso de vários séculos, acham-se abolidos. Mas até mesmo esse último ato da Cultura, a de negação de si própria, expressa mais uma vez o símbolo primordial de toda sua existência.

O niilista faustiano – Ibsen tanto como Nietzsche, Marx tanto como Wagner – destrói os ideiais; o niilista apolíneo – Epicuro tanto como Antístenes e Zenão – permite que eles desmoronem ante seus olhos; o indiano afasta-se deles, a fim de recolher-se a si mesmo. O Estoicismo tem em mira o comportamento do indivíduo, uma realidade estatuária, puramente atual, sem relação nem com o passado nem com o futuro nem com outras pessoas. O Socialismo trata o mesmo tema de maneira dinâmica: a mesma defesa referida, não a atitude, mas aos efeitos da vida, porém com poderosa tendência agressiva, rumo a regiões distantes, apontando para o futuro e dirigindo-se à totalidade dos homens, que deve ser submetida a um único método. O Budismo – que somente um diletante da pesquisa religiosa comparará com o Cristianismo – quase que não pode ser definido pelo vocabulário das línguas ocidentais. É, todavia, lícito falar de um nirvana estoico, mencionando a personalidade de Diógenes. Também cabe estabelecer o conceito de nirvana de um socialista, tendo-se em mira a fuga da luta pela vida, que a Europa cansada procura disfarçar pelas palavras de paz mundial, humanismo e fraternidade entre os homens. Mas nada disso chega as misteriosas profundezas do nirvana budista.


Toda alma tem religião. Religião é apenas outra palavra suscetível de expressar sua existência. Todas as formas vivas nas quais a alma se manifesta, todas as artes, as doutrinas, os costumes, todos os mundos de formas metafísicas e matemáticas, cada ornamento, cada coluna, cada verso, cada ideia são, no seu âmago, religiões e têm de sê-lo. A certo momento, porém, já não pode ser assim. A essência de toda cultura é religião; por conseguinte, a essência de toda a civilização é a irreligião. Basta confrontar as próprias metrópoles com as velhas cidades cultas – Alexandria com Atenas, Paris com Bruges, Berlim com Nuremberg – para verificar que elas são irreligiosas (o que não se confunda com “antirreligiosas”), em todas suas peculiaridades, desde o aspecto das suas ruas até o linguajar e a expressão seca, inteligente, das fisionomias. Irreligiosas, desprovidas de alma são, por essa mesma razão, também essas emoções éticas universais, cosmopolitas. A extinção da religiosidade íntima, viva, que aos poucos se estende por todos os setores da realidade, inclusive os mais insignificantes, tomando conta deles, é o que caracteriza no panorama histórico a transição da Cultura para a Civilização. É o climatério da cultura, para repetir um termo que já usei em outra ocasião. É o crepúsculo de uma era, que tem lugar, quando a fecundidade psíquica de um grupo de homens se esgotou para sempre a construção substitui o ato de gerar. 

Oswald Spengler, em "A Decadência do Ocidente"

sábado, 7 de dezembro de 2013

Wall Street e a Revolução Bolchevique

O cartoon de Minor, datado de 1911, retrata um barbudo, um radiante Karl Marx em pé na Wall Street, com um livro Socialismo debaixo do braço e aceitando os parabéns de famosos financistas como J.P. Morgan, Morgan parceiro de George W Perkins, um presunçoso John D. Rockfeller, John D. Rayan do National City Bank e Teddy Roosevelt - facilmente indentificado pelos seus famoso dentes - em segundo plano. Wall Street está decorada com bandeiras vermelhas. A multidão está aplaudindo e os chapéus sugerem que Karl Marx deve ter sido um companheiro bastante popular no distrito financial de Nova York.

Estava Robert Minor sonhando? Ao contrário, veremos que Minor estava em terra firme ao descrever uma aliança entusiástica entre Wall Street e o Socialismo Marxista. Os personagens do desenho de Minor - Karl Marx (simbolizando os futuros revolucionários Lenin e Trotsky), JP Morgan, John D. Rockefeller - e de fato, o próprio Robert Minor, também são personagens de destaque neste livro.

As contradições sugeridas pelo cartoon de Minor foram varridas para baixo do tapete da história, porque ele não se encaixa no espectro conceitual aceito da esquerda política e direita política. Bolcheviques estão na extremidade esquerda do espectro político e financistas de Wall Street estão na extremidade direita e, portanto, nós ao raciocinar implicitamente, pensamos que os dois grupos não têm nada em comum e qualquer aliança entre os dois é um absurdo. Fatores contrários a este arranjo conceitual puro geralmente são rejeitados como observações bizarras ou erros desafortunados. A história moderna possui uma dualidade embutida e, certamente, muitos fatos desagradáveis tem sido rejeitados e varridos para baixo do tapete.

Por outro lado, pode-se observar que tanto a extrema direita e a extrema esquerda do espectro político convencional são absolutamente coletivista. O nacional socialista (por exemplo, o fascista) e o socialista internacional (por exemplo, o comunista), ambos recomendariam sistemas político-econômicos totalitários que se baseiem poder político irrestrito e coerção individual. Ambos sistemas exigem o controle monopolista da sociedade. Enquanto o controle monopolista das industrias já tinha sido outrora o objetivo de J.P. Morgan e J. D. Rockefeller, no final do século XIX, o "santuário" interno da Wall Street compreendeu que a forma mais eficiente para obter um monopólio incontestável foi "se politizar" e fazer com que a sociedade trabalhe para os monopolistas - sob o nome do bem público e do interesse público. Esta estratégia foi detalhada em 1906 por Frederick C. Howe em sua obra "Confissões de um Monopolista".

Portanto, uma forma alternativa conceitual de agrupar as ideias políticas e sistemas político-econômicos seria classificar o grau de liberdade individual versus o grau de controle político centralizado. De tal ponto de vista, o Welfare-State (Estado de bem-estar social) e o Socialismo estão no mesmo lado final do espectro. Daí vemos que as tentativas de controle monopolista da sociedade pode ter diferentes rótulos, embora possuam características comuns.


Consequentemente, uma barreira para uma melhor compreensão da história recente é a noção que todos os capitalistas são inimigos ferrenhos e inabaláveis de todos os marxistas e socialistas. Essa ideia errônea originou-se com Karl Marx e foi, sem dúvida, útil para seus propósitos. Na verdade, a ideia é um absurdo. Houve uma contínua, embora discreta, aliança entre os capitalistas internacionais e os socialistas revolucionários internacionais - para benefício mútuo. Esta aliança passou despercebida em grande parte porque os historiadores - com algumas notáveis exceções - possuem viés marxista inconsciente e estão, portanto, presos na impossibilidade de pensar que tal aliança exista. O leitor de mente aberta deve ter duas pistas em mente: os capitalistas monopolistas são inimigos ferrenhos dos empresários laissez-faire; e, dadas as deficiências do planejamento central socialista, o estado socialista totalitário é um mercado cativo perfeito para os capitalistas monopolistas, no caso de uma aliança possa ser feita com as figuras poderosas socialistas. Suponha - e é apenas uma hipótese neste momento - e se os capitalistas monopolistas americanos fossem capazes de reduzir a Russia socialista planejada para o status de uma colônia técnica cativa? Esta não seria uma extensão lógica internacionalista do século XX, dos monopólios ferroviários Morgan e os trustes de petróleo Rockefeller, do final do século XIX?

Do livro Wall Street and the Bolshevik Revolution por Anthony C. Sutton 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Notas sobre o Existencialismo (Frithjof Schuon)

A mentalidade ocidental deu origem a quatro perspectivas metafísicas que são perfeitas, ou no mínimo satisfatórias, conforme cada caso, a saber: Platonismo, incluindo o Neo-Platonismo, Aristotelismo, Escolasticismo, Palamismo.

Uma questão: Por que Kierkegaard não era Platônico, nem Aristotélico, nem Escolástico, nem Palamita? Será que é porque ele era um Vedantista ou um Mahayanista? Certamente que não. Consequência: Sua doutrina é nula e sem efeito. A prova disso é que ele rejeita o Cristianismo "institucionalizado", portanto, também a teologia tradicional que sustenta, e ele faz isso em favor de um subjetivismo que não é intelectual (pois nesse caso ele teria reconhecido a metafísica objetiva cujo o modo de expressão necessariamente é racional e abstrato) mas voluntarista e sentimental; de onde provém o seu moralismo subjetivista ou individualista, sua insistência em pensar "existencialmente", sua nulidade do ponto de vista de uma verdadeira e eficaz espiritualidade que salva.

As mesmas observações - mutatis mutandis -se aplicam a Heidegger, com a agravante de que este filósofo decadente não é sequer cristão, em qualquer grau, sendo, na verdade, para colocá-lo resumidamente, um ateu; e quanto a dizer sobre o conceito, completamente antimetafísico e histérico, de angústia?

Pascal não pode ser classificado entre os existencialistas; simplesmente acreditava no racionalismo, sem saber que dados rigorosos para a ciência metafísica pré-existem no intelecto puro; se Pascal é um existencialista, então todo o fideísmo é existencialismo, o que certamente não é assim.

Em nenhum grau o existencialismo é construtivo, pois não tem nenhum direito de criticar o abuso de uma racionalidade cuja natureza ele nem mesmo tem a percepção. Se a crítica do existencialistas para a razão - ou do racionalismo - é justificada, por que eles não se tornam Platônicos ou Vedantistas? De fato, o existencialismo não nos traz para próximo da verdade; para o erro racionalista, que consiste no raciocinar sobre realidades metafísicas ou simplesmente cosmológicas, na ausência de dados intelectuais indispensáveis, o existencialismo acrescenta o erro inverso e substitui, pelo raciocínio do bom ou mau, verdadeiro ou falso, uma experiência que é, de fato, infra-intelectual, um cul-de-sac. Portanto, o movimento existencialista, que é uma reação cega, nos leva a lugar nenhum, e não faz sentido em dizer que "Na Ásia, não havendo separado a razão da intelecção, não precisou-se de um movimento existencialista", além do fato de que a Índia existiu alguns racionalistas como os Chârvâkas, quem na verdade não precisa do existencialismo? Não se pode necessitar de algo falso, algo que não leva a nada. 

Tendo em vista Kierkegaard e outros como ele, como Klages, por exemplo, que apaixonadamente opõe a "vida" pelo "pensamento" e paradoxalmente faz isso usando o pensamento, eu escrevi sobre o assunto: "O que pode ser dito de um filósofo que 'pensa' despreocupadamente sobre a falta de sinceridade, ou a mediocridade, do "pensamento" como tal?” A palavra "despreocupadamente" ("allégrement"), neste caso, significa: sem escrúpulos, sem estar consciente de uma contradição, sem se dar ao trabalho de refletir um pouco, sem manifestar o mínimo de objetividade; afinal de contas, por que um confesso subjetivista seria objetivo? Isso não tem absolutamente nada a ver com Kirkegaard, sendo uma questão exclusivamente do estilo irresponsável do seu pensamento, a sua falta de senso crítico e de proporção. Ele liquidou o "Cristianismo institucionalizado" com uma caneta não é o suficiente? Ele tinha a pretensão de apresentar uma imagem adequada da verdade total e, assim, estar indicando um caminho; bem, ele estava enganado e deve ser rejeitado sem piedade, diria até mesmo: rejeitado com horror. Sobre a questão de saber se ele estava certo em algum momento, não vem ao caso; todo filósofo está certo em algum momento, e isso sem qualquer interesse. O que importa é a doutrina global, suas reivindicações e suas consequências.

O que Kikerkegaard faz contra o pensamento racional nunca poderia coincidir com o que eu faço contra a mentalidade do homem caído, pois faço minha crítica em nome do Intelecto, o qual Kikerkegaard não tinha a menor ideia. Sem dúvida vou ser informado que este pensador, se ele não faz uma crítica em nome da intelecção, pelo menos, ele fez em nome da fé; mas ele era ignorante quanto ao que constitui a verdadeira fé, uma vez que, em nome de sua fé, ele ataca a teologia, que é precisamente uma objetivação indispensável e uma condição sine qua non da fé do coração. A fé de Kierkegaard é individualista, e não santificadora.

Kierkegaard, sem dúvida, tinha um profundo respeito por Sócrates, mas isso é porque ele compreendeu-o muito imperfeitamente; A sinceridade socrática tem fundações diferentes do sincerismo existencialista.  Da mesma forma, a Gelassenheit de Heidegger não poderia ter o mesmo significado e nem o alcance da Gelassenheit de Meister Eckhart, sendo meramente uma falsificação profana e individualista. "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis", disse Cristo.

Heidegger "busca" um modo de conhecimento que vai além do pensamento discursivo; isto é bom, mas o pensamento discursivo vale infinitamente mais em si mesmo do que qualquer coisa que um Heidegger pode conceber, buscar ou encontrar.

É óbvio que Kierkegaard teve que admitir o Apocalipse - ou seja a Bíblia - desde que era um protestante; ele tinha um cero mérito em ser Cristão, isto é, acreditar em Cristo, em Deus e na vida eterna; mas ele não tem nenhum mérito especial em admitir o Apocalispe como um princípio ou um fenômeno, a existência do Apocalipse é algo mínimo como um adversário do "Cristianismo institucionalizado". Não admitir o fato do Apocalipse não é ser deísta ou um ateu.

Uma coisa absolutamente ausente nos existencialistas, e que faz reduzir suas teorias a nada, bem como suas atitudes morais, é uma verdade objetiva, metafisicamente integral, quer seja uma teologia ortodoxa ou uma metafísica autentica. Assim, todos seus méritos parciais caem em um vazio. "Aquele que comigo não ajunta, espalha", disse Cristo; o "comigo" aqui é o Logos, e é Ortodoxo no sentido universal, bem como no sentido particular.

É verdade que Kierkegaard observou que a racionalidade quando deixada por si mesmo, ou racionalidade sem fé, ou seja, "racionalismo", não leva a lugar algum; mas então, nem mesmo sua fé subjetiva, por completo - seu existencialismo, se você preferir - leva a lugar algum; e se a objeção é levantada, que essa fé deriva sua inspiração a partir do Evangelho, eu posso responder que o racionalismo também tem sua inspiração a partir de certos dados desde que o homem vive em um mundo que é relativamente real. O Evangelho, no caso de Kierkegaard, arbitrariamente reduzido às fantasias de um indivíduo, é uma experiência limitada para os racionalistas; e se o filosofo Dinamarquês - que era, aliás, um teolólogo muito pobre - tomou como base o Evangelho, então por que ele estava tão longe de entender o espiríto da coisa? Do seu ponto de vista até mesmo o obriga a tornar-se nem mais nem menos do que um santo; mas, na verdade, ele estava infinitamente longe da santidade de um Alberto Magno ou Tomás de Aquino, os quais aceitaram completamente a racionalidade que ele, o subjetivista, rejeitou.

O existencialismo é um substituto pernicioso para a contemplação intelectiva e a santidade. Se os existencialistas, tão imbuído do sincerismo, eram realmente sinceros, seriam santos ou heróis e deixar iam a racionalidade em paz.

Certamente as verdades devem ser encontradas em todos filósofos, sobretudo as meias-verdades, mas essas verdades são acompanhadas de erros e inconsistências; portanto é inútil se debruçar neles. As verdades parciais são apenas aceitadas no domínio da ortodoxia tradicional, porque só são aceitáveis no contexto da Verdade total, o que por si só garante sua exatidão e sua eficácia. Pensar enquanto se nega a Verdade total, que é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, é completamente inconsistente; não se está realmente pensando. 

O subjetivo só pode ser comunicado pelo objetivo. Se Kierkegaard estava certo, a fé não seria comunicável; pois, de modo a ser comunicada, a fé requer meios que são objetivos, portanto, racional. 
Verdades incorporadas em erros estão, indiretamente, repletas com o veneno do seu contexto errôneo. O existencialismo tem, seja protestante ou ateu, promovido nada exceto o individualismo; sem a compreensão das doutrinas metafísicas, jamais a santidade! 

original

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Death to the World: Do Punk à Ortodoxia (Entrevista)


Conte-nos um pouco sobre como Death to the World começou. Justin Marler (Abestos Death, Sleep) ainda está envolvido?

Death to the World foi criado por punks convertidos à fé Ortodoxa oriental que tornaram-se monges em um mosteiro no norte da Califórnia. Eles deram início a publicação para que chegasse aos velhos amigos que ainda estavam tragados pela cena punk. Sim, uma dessas primeiras pessoas era Justin Marler, da banda Sleep, mas ele não é mais um editor principal. Nós ainda enviamos zines e ele está trabalhando conosco para re-imprimir o livro "Youth of the Apocalypse" que foi impresso pela primeira vez durante os primeiros anos da existência do Death to the World.

Na sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados a pela nossa juventude do século XXI?

Como nosso Padre Serafim Rose disse uma vez, "Nossa vida anormal de hoje pode ser caracterizada como mimada, "super protegida". Desde a infância a criança de hoje é tratada, como regra geral, como um pequeno deus ou deusa na família: seus caprichos são atendidos, seus desejos são cumpridos, ele é cercado por brinquedos, de diversões, conforto; ele não é treinado e educado de acordo com os rigorosos princípios do comportamento Cristão, ao contrário, deixa-se desenvolver de maneira que satisfaça suas inclinações". (The Orthodox World View). Nós somos a geração "MEU", os narcisistas. Vivemos em um mundo de fantasia, uma Disneyworld, desde a juventude, raramente somos dirigidos para a seriedade da vida e para o que o mundo exige de nossas almas. Assim, quando crescemos, somos atormentados pelo desejo de nos cercar de tantas distrações e aparelhos, o tanto quanto pudermos. A vida no século 19 era drasticamente diferente. Hoje, ao invés de uma chama cintilante de uma vela de oração, que em outros tempos servia para iluminar nossas casas, é a televisão que emite sua "des-luminada" luz. Nossos valores já não são mais ditados pelas palavras de Cristo ou pela vida de Seus Santos, os valores são regurgitados através deste aparelho brilhante. As salas costumavam ser usadas para conversações sobre Deus e uns aos outros, agora veja o que temos feito! Nos cercamos em volta da televisão! Quando isto aconteceu?! As crianças andam por aí com as cabeças coladas em telefones celulares; dão preferência aos fones de ouvido tocando música em alto volume nos ouvidos do que uma conversação séria. Onde tudo isso nos levou? Nós que somos tão superiores aos antigos por causa de nossos "avanços". Nós esquecemos a santidade; paramos de lutar pela sabedoria. Muitas almas hoje vivem da corrente elétrica que sai dos nossos computadores e não pela virtude ou pureza. Crimes sexuais, assassinatos, suicídios, etc acontecem nas ruas de hoje como matilhas de cães selvagens, consumindo muitos, alguns que conheço pessoalmente. Toda nossa sociedade e a forma como ela está estruturada é um desafio para a juventude de hoje. Um monge nos primeiros séculos do cristianismo perguntou uma vez ao mais velho, "Será que nos últimos tempos, os Cristãos poderão ressuscitar os mortos ou realizar milagres?" O ancião respondeu-lhe "Será um esforço maior ainda, ser Cristão naqueles tempos". Estes são os tempos em que estamos vivendo; a sociedade que vivemos é demasiadamente anticristã, fazem com que nos olhem como estranhos, radicais religiosos, às vezes até mesmo para os cristãos dos nossos dias. Como Santo Antônio, um monge antigo disse uma vez; "Está chegando a hora em que as pessoas irão enlouquecer e quando encontrarem alguém que não é louco, irão atacá-lo, dizendo: "Você é louco, você não é como nós.".”

Muitos enxergam a subcultura punk, entre aqueles perdidos nas drogas, com comportamento auto-destrutivo ou niilistas, como "causas perdidas". Você obviamente discorda. Por quê?



Ninguém é uma causa perdida. Como Santa Isabel, a Nova Mártir, disse certa vez: "A imagem de Deus pode ser ofuscada, mas nunca destruída." As vezes, essas subculturas criam uma forte rebelião no indivíduo, mas o problema é que eles não sabem para onde direcioná-la. Eles sabem que o mundo é ruim, mas a rebelião que deles é dirigida politicamente, ou, algumas vezes, em formas auto-destrutivas. Death to the World tenta direcionar essa rebelião contra o mundo para uma forma saudável, citamos Santo Isaac da Síria (séc VI d.C) em todas as publicações, "O "mundo" em geral é o nome genérico para todas as paixões [...] Observe para quais dessas paixões você está vivo. Então você vai saber o quão distante você está vivo para o mundo, e quão distante você está morto para ele". Assim, DTTW propaga que quanto mais você morre para seus desejos e quanto mais você corta sua própria vontade, maior a "rebelião" e a rejeição ao mundo. Dessa forma, torna-se não apenas uma luta física, mas desenvolve-se em uma luta espiritual e interior.


Por que você usa a frase "A Última Verdadeira Rebelião"?


As subculturas atuais estão cheias de jovens que querem lutar pela verdade através da rebelião contra esse mundo. A subcultura punk é uma rebelião, mas é falsa rebelião, pois se alguém segue até o seu fim, encontrará o niilismo completo e o desespero. Essas rebeliões dentro das subculturas podem ser eficazes, mas a verdade pela qual eles estão lutando, geralmente não é a mesma verdade tal como a conhecemos, a Verdade enquanto Pessoa, como Jesus Cristo. Ao contrário das rebeliões deste mundo, Death to the World é uma rebelião que não conduz para um beco sem saída, é uma aceitação de algo real, algo de outro mundo. É por isso que é "A Última Verdadeira Rebelião", porque é a única verdadeira.

Death to the World muitas vezes destaca sobre mártires e santos da fé Ortodoxa. Por que histórias sobre mártires parecem ter alguma ressonância com o seu público?



As almas das pessoas de hoje que estão buscando a Verdade estão sendo sufocadas pela nossa sociedade falsa. Em programas de televisão, nos outdoors, nos filmes, etc., na grande maioria das vezes não há qualquer pessoa real e sólida que sirva de inspiração. Nossa sociedade não penas é rodeada, mas também é bombardeada pela falsidade todos os dias. Parece triste dizer, mas algum de nós nem sequer temos pais que nos sirvam de inspiração. Os santos e mártires se relacionam conosco de uma forma que sentimos que nenhuma outra pessoa poderia. Com suas vidas, eles nos trazem a realidade da vida, a realidade do que significa seguir Cristo de uma forma verdadeira, sem compromisso. As mortes brutais dos Santos, Justino, Inácio, George, Pantaleão, e outros grandes cristãos, durante os primeiros séculos contem algumas das mais incríveis histórias de fé inabalável que uma pessoa pode ler. As vidas dos Santos João de São Francisco, Nikolai do Zhica, Herman do Alaska, Raphael do Brooklyn, e outros santos americanos ou aqueles que viveram durante o nosso tempo, revela-nos como Deus não deixou Sua Igreja, mesmo nestes tempos escuros. Na experiência Ortodoxa, os Santos são reais, vivos, e intercedem por nós diante do trono de Cristo. Eles trazem o céu para próximo de nós através de suas orações e adoração diante de nosso Criador nos Céus. Eles são os "amantes da verdade" que sacrificaram completamente tudo e qualquer coisa terrena, dedicando suas vidas para a Verdade Suprema, que é encontrada no Cristo encarnado. Assim, ao ver essas vidas tão reais, radicais e seus testamentos para a vida além-túmulo, as pessoas veem que nossa "rebelião" não é falsa, mas muito real.


A fé Ortodoxa tem uma rica tradição de ter belas obras de artes e ícones. Como você incorpora essa tradição em suas publicações?


Iconografia está na Igreja desde seu início. Segundo a tradição, o Apóstolo Lucas foi o primeiro que pintou Cristo e Sua Mãe em uma prancha de madeira retirada da mesa na casa da Virgem Maria onde Cristo comia. Foi proclamado ao longo dos séculos que o ícone é como uma janela para o céu, revelando o mundo vindouro. Por dois mil anos, a Ortodoxia sempre deu grande ênfase na adoração a Deus com todo o nosso ser, com todos nossos sentidos, e para nós o ícone é a representação visual da teologia. Em um ícone, a pessoa pode ver toda a salvação; a renovação da natureza humana, a promessa e o brilho do céu, a exaltação da humildade, etc. O ícone intriga as pessoas porque é uma forma de arte que é sagrada, provém de uma tradição apostólica e move as almas das pessoas. Em nossas publicações, usamos muitas representações de ícones e eles ressoam nos corações das pessoas, há algo neles que prendem a atenção do indivíduo. São João Damasceno falou que os ícones eram o Evangelho dos iletrados. É bem verdade, pois, mesmo que uma pessoa que possa ler, sua alma pode ser analfabeta para as coisas espirituais e os ícones podem comunicar o Evangelho a eles.


Muitas igrejas (protestantes, católicos, etc) oferecem o evangelho para jovens utilizando música. O que torna a sua abordagem diferente? Como a sua perspectiva única sobre Cristo apela para os seus leitores?
A Igreja Ortodoxa é a Igreja Cristã mais antiga, traçada suas raízes diretamente aos Apóstolos. Tem existido antes tanto do Catolicismo Romano e do Protestantismo, sendo abençoada pelo próprio Cristo, sendo os Apóstolos os primeiros Cristãos Ortodoxos. Pode-se apontar as origens da Igreja Ortodoxa até o tempo de Cristo, mas seria mais apropriado dizer que sempre existiu, como nós exclamamos que nossa Fé "estabeleceu o Universo" (Synodikon Ortodoxo). A Tradição Ortodoxa é muito profunda e não muda desde os primórdios do Cristianismo, mantendo-se em linha com as palavras de São Paulo, quando disse: "...esteja firme e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, ou nossas epístolas" (2 Thess. 2:15). O profundo entendimento do homem e do que significa ser transfigurado através de Cristo têm florescido abundantemente ao longo dos séculos em comunidades monásticas e deu à Igreja um sentido muito consistente e denso do que significa ser cristão neste mundo. A Ortodoxia incubou e floresceu no Oriente, preservando os ensinamentos de Cristo e continua a celebrar a forma mais antiga de cultos cristãos, a Divina Liturgia, que pode ser traçada até o próprio Apóstolo Tiago, o irmão de Cristo. Eu acho que é isso que nos destaca, o que nos torna únicos para nosso público. Há muitas igreja hoje que oscilam com os tempos, que mudam de ano para ano, dependendo da cultura que os cerca, porque eles acham que irão trazer mais pessoas para dentro. As pessoas veem que a ortodoxia não é assim, ela não muda com o mundo ao seu redor, porque ela é profundamente centrada na vida do mundo por vir, jamais será tragada e está dirigida para o céu. As pessoas que veem a falsidade neste mundo e querem a Ortodoxia porque enxergam-na como um refúgio que sempre será preservado e firme entre o mundo que já está se desintegrando em torno deles.

Apesar de tudo, você sente que o Death to the World tem sucedido em trazer os jovens para Cristo? 

Com a depressão, a tristeza e o desconforto que assola a nossa sociedade e as pessoas ao nosso redor, as perspectivas Ortodoxas sobre o sofrimento é uma das principais coisas que o DTTW se relaciona. Os antigos Cristãos e monges do passado viam as lutas e o sofrimento como um meio para colocar a nossa carne em sujeição, para aprender a carregar a nossa cruz sem reclamar, tudo, em última instância, se relaciona com o sofrimento de Cristo. Como a nossa sociedade frequentemente varre o sofrimento, o pobre e os miseráveis para baixo do tapete, longe da vista do "civilizado", a Ortodoxia estende a mão para eles e relacionam a um Deus que sofre com eles, não um Deus envolto em uma bonita caixa Americana com um laço em cima. Nós gostamos de falar das coisas como elas são, a vida não deve ser adocicada. Tanto a alegria como o sofrimento devem ser reconhecidos como partes de nossa viagem em direção à salvação. O sofrimento é parte de nossa vida que deve ser abraçado por nós com mais frequência, sem fugir dele, mas, infelizmente, nós, que crescemos em uma sociedade muito confortável e relaxada, temos muita dificuldade para lidar com isso, para nosso próprio mal. São Doroteu de Gaza disse uma vez que quando Deus expulsou os homens do paraíso Ele olhou pra eles e disse pra Si mesmo com tristeza, "ele [o homem] não sabe como ser feliz; se ele não tiver tempos difíceis, ele provavelmente se perderá completamente, se ele não sabe o que o sofrimento é, ele não vai aprender o que repouso é [...]" [Ensino Prático sobre a Vida Cristã]. Portanto, o sofrimento é dado a nós pelo amor de Deus, para que pudéssemos lembrar a nossa queda e cultivar dentro de nós um amor mais profundo para o Reino dos Céus. Quando jovens e adultos que estão sofrendo veem as vidas dos Santos e os ortodoxos que carregam seus sofrimentos com alegria, dá-lhes a esperança e a coragem para abraçar e conquistar suas lutas. O coração humano é muito complexo e não pode ser remediado por distração ou por prescrição de medicamentos, é necessário algo mais, algo que o homem e este mundo não pode dar. Quando as pessoas que sofrem chegam até nós, sempre nos humilha ver que estas pessoas em sofrimento estão, por vezes, mais perto de nosso Cristo do que nós. Como nós cantamos para Deus, em um serviço chamado Akathist da Ação de Graças, "Tu descendeste até a cama do doente e seu coração comunica Contigo. Tu inspiras a alma pela paz no momento de dor e sofrimento. Envias ajuda inesperada. Tu és o confortador. Tu és o amor onisciente. A ti eu canto: Aleluia!"

O que você diria para os nossos leitores, que estão preocupados com a educação dos seus filhos em Cristo nesta geração?


Faça os crescer dentro da verdade. O mundo em torno deles lhes dará muitas contradições e falsas doutrinas, ajude e explique essas coisas para eles. Cultive dentro de si a pureza e amor para com o seu Criador. Seja uma família, comam juntos, rezem juntos, unam suas almas, sua casa deve ser uma pequena capela. Seja direto, em vez de vago, sobre coisas como sexo, drogas, etc, para que eles saibam o que essas coisas são e quais as suas consequências, não só do corpo, mas o mais importante, sobre a alma. Ajude-os a abraçar o sofrimento e não os mime, eles vão criar a resistência e atenção para com a alma, em vez de distraí-los com coisas temporais. Acima de tudo, eles precisam de buscar alguma verdade que os façam ser capazes de viver em nossa sociedade anticristã - torne-os amantes da Verdade. Há um excelente livro sobre o chamado, "Raising them Right" por São Teófano o Recluso que disse uma vez que, de todas as obras santas, a educação dos filhos é o mais santa.

Onde é que os leitores interessados ​​saber mais sobre Death to the World ou a Igreja Ortodoxa?

Informações sobre DTTW podem ser encontradas em nosso site, www.deathtotheworld.com e informações sobre a Fé Ortodoxa podem ser encontradas no www.orthodoxinfo.com, www.stherman.com ou www.ancientfaith.com.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Decadência do Ocidente: As Culturas como Organismos

Uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em maio ao informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, ao qual se apega, como uma planta. Uma cultura morre, quando essa alma tiver realizado a soma de suas possibilidades, sob a forma de povos, línguas, dogmas, artes, Estados, ciências, e em seguida retorna à espiritualidade primordial. Mas a sua existência viva, aquela série de grandes épocas, cujos rígidos contornos designam o progressivo arremate, é uma luta íntima, profunda, passional, com o objetivo de afirmar a ideia contra as forças do caos, no exterior, e contra o inconsciente, no interior, para onde elas se retiram, agastadas. Não somente o artista luta contra a resistência da matéria e aniquilamento da ideia. Todas as culturas encontram-se numa realização simbólica, quase mística, à extensão, ao espaço, dentro do qual e por meio do qual tencionam realizar-se. Alcançando o destino, realizada a ideia, a totalidade das múltiplas possibilidades intrínsecas, com a sua projeção para fora, fossiliza-se repentinamente. Definha-se. Seu sangue coagula. Seu vigor diminui. Ela se transforma em civilização. Eis o que sentimos e depreendemos das palavras “egipticismo”, “bizantinismo”, “mandarinato”. Talvez seja tal cultura ainda capaz de estender durante séculos e milênios seus galhos mortos ao alto, igual a uma árvore gigantesca, ressequida na mata virgem. É o que observa na China, na Índia, no mundo islâmico. A civilização “antiga” da fase imperial erguia-se, gigantesca, com aparente vigor e exuberância juvenil; mas, na realidade, o que fazia era privar de ar e de luz a jovem cultura árabe do Oriente. 

Este é o sentido de todas as decadências na História, da conclusão íntima e externa, do acabamento que, inevitavelmente, aguarda qualquer cultura viva. A que mais nitidamente se nos depara, quanto aos seus contornos, é a “decadência da Antiguidade”. Mas já podemos perceber com absoluta clareza, tanto dentro de nós como ao nosso redor, os primeiros sinais de um acontecimento perfeitamente semelhante, no que se refere à sua duração e ao seu transcurso, e que ocorrerá nos séculos iniciais do próximo milênio. Trata-se de nossa própria decadência, da “decadência do Ocidente”. 

Cada cultura percorre fases de envelhecimento iguais às da vida do indivíduo. Todas elas têm sua infância, sua adolescência, sua virilidade e sua velhice. Na aurora das épocas românticas e góticas, revela-se uma alma mais jovem, tímida, prenhe de sentimentos. Era ela que enchia a paisagem faustiana, desde a Provença dos trovadores até a catedral de Hildesheim, construída pelo Bispo Bernwar Soprava ali uma aragem primaveril. [...] Quanto mais uma cultura se avizinhar do meio-dia da sua vida, tanto mais viril e austera, mais disciplinada, mais saturada, tornar-se-á a consciência da sua força, e suas características delinear-se-ão com crescente nitidez. Então, na plenitude íntima da madureza de seu gênio criador, todos os detalhes da expressão parecerão selecionados, sérios, comedidos, cheios de admirável leveza e espontaneidade. Nessa fase ocorrerão em toda parte momentos de brilhante perfeição. Posteriores ainda, mais delicadas, quase frágeis, impregnadas de melancólica doçura dos últimos dias de outubro, são obras como a Afrodite de Cnido, o pórtico das Cariátides do Erection, os arabescos dos arcos de ferradura dos sarracenos, o castelo de Dresde, as teclas de Watteau, a música de Mozart. Por fim, na decrepitude da incipiente civilização, extinguir-se-á o fogo da alma. Mais uma vez com vigor diminuto e êxito incompleto, a inspiração decrescente ousará empreender uma criação grandiosa. É o caso do Classicismo com o qual topamos em todas as culturas agonizantes. A alma torna a recordar-se tristemente – no Romantismo-  da sua infância. Enfim cansada, sorumbática, fria, perde a vontade de viver e anela – assim como aconteceu na época dos imperadores romanos – abandonar a luz milenar, para mergulhar, outra vez, nas trevas místicas dos estados primitivos, no seio materno, na sepultura. Nisso reside o encanto da “segunda religiosidade”, que os cultos de Ísis, de Mitra e do Sol exerciam sobre os homens da última fase da Antiguidade, esses mesmos cultos que uma alma recém-despertada, no Oriente, acabava de encher de inusitado fervor, como primeira manifestação sonhadora, angustiosa, da sua solitária existência neste mundo. 

Oswald Spengler, em "A Decadência do Ocidente"