quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sobre a Reforma (Por René Guénon)

Assim, pode-se observar que a simplificação segue estritamente o curso descendente que, em termos atuais, inspirados pelo dualismo cartesiano, poderia ser descrito como conduzindo do "espírito" em direção a "matéria":  esses termos inadequados podem ser como substitutos por "essência" e "substância", que talvez possa ser empregado aqui para uma melhor compreensão. Por isso, é ainda mais extraordinário que alguém tente aplicar este tipo de simplificação para coisas que pertencem ao domínio "espiritual", ou pelo menos como as pessoas são capazes de imaginar, de forma que estendem a simplificação às concepções religiosas, bem como as concepções filosóficas ou científicas. O exemplo mais típico é o do protestantismo, em que a simplificação assume a forma tanto na supressão quase completa de ritos como a uma atribuição da predominância da moralidade sobre a doutrina; e a doutrina em si, torna-se mais e mais simplificada e diminuída, de modo que é reduzida a quase nada, ou até algumas fórmulas rudimentares que qualquer um pode interpretar da maneira que lhe convém.  Além disso, o protestantismo em suas diversas formas é a única religião produzida pelo espírito moderno, e surgiu em um momento em que o espírito ainda não havia chegado ao ponto de rejeitar todas as religiões, mas estava no caminho para fazê-lo em virtude das tendências anti-tradicionais que lhe são inerentes. No desfecho desta "evolução" (como é chamado hoje), a religião é substituída por "religiosidade", ou seja, por um vago sentimentalismo sem nenhum significado real; é isso que é aclamado como "progresso", e isso mostra claramente como todas as relações normais são revertidas na mentalidade moderna, para isso, as pessoas tendem a ver uma "espiritualização" da religião, como se o "espírito" fosse um mero quadro vazio ou um ideal tão nebuloso que é insignificante. É isto que alguns de nossos contemporâneos chamam de "religião purificada", mas é "purificada" na medida em que é esvaziada todo o conteúdo positivo e não tem mais nenhuma ligação com qualquer realidade.


Outra coisa que merece atenção é que todos auto-intitulados "reformadores", constantemente exibem sua pretensão em voltar para a "simplicidade primitiva", que certamente nunca existiu, exceto em suas imaginações. Isso às vezes pode ser apenas uma maneira conveniente de esconder o verdadeiro caráter de suas inovações, mas também pode ser uma ilusão da qual eles próprios são vítimas, pois é muito difícil determinar até que ponto os aparentes promotores do espírito anti-tradicional estão realmente conscientes do papel que estão desempenhando, pois eles não poderiam cientemente promovê-lo a menos que eles próprios tenha uma mentalidade muito distorcida. Além disso, é difícil imaginar como a pretensão de simplicidade primitiva pode ser conciliada com a ideia de "progresso", da qual eles simultaneamente afirmam ser agentes; a contradição é bastante por si mesmo para indicar que há algo realmente anormal em tudo isso Seja como for, e com atenção a ideia de "simplicidade primitiva", não parece haver nenhuma razão que faça com que as coisas sempre comecem por algo simples e continue a ficar mais complexa, ao contrário: considerando que o germe de qualquer ser deve necessariamente conter a virtualidade de tudo o que o ser será no futuro, de modo que todas as possibilidades a serem desenvolvidas no decorrer da sua existência devem estar inclusas no germe desde o início, a conclusão de que a origem de todas as coisas deve ser extremamente complexa é inevitável. Isso dá uma noção exata da complexidade qualitativa da essência; o germe é pequeno apenas em relação à quantidade ou substância e, simbolicamente transpondo a ideia de 'tamanho' pode-se deduzir por analogia inversa que, o que está menos em quantidade, deve ser maior em qualidade. De forma semelhante todas as tradições na sua origem contém a doutrina inteira, compreendendo, em princípio, a totalidade dos desenvolvimentos e adaptações que podem legitimamente proceder dela, juntamente com a totalidade das aplicações a que podem dar origem a todos os domínios; intervenções humanas não podem fazer nada, apenas restringir e diminuir, se não for o caso de desnaturar completamente, e o trabalho de todos "reformadores" consiste em nada mais do que isso.

René Guénon em "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos"

domingo, 27 de outubro de 2013

O Bolchevismo e as Ciências Sociais (Por Nikolai Berdiaev)

Berdiaev afirma que, o melhor exemplo para onde nos leva a técnica científica, aplicada a vida humana, é o Bolchevismo. Ele assegura os seres humanos como algo menos que humanos, sustenta que eles não possuem alma e, portanto, eles não possuem liberdade.  Para o ser humano possa ser livre, ele deve ter uma alma e essa alma deva ser a sede de sua razão, pensamento e sentimento. No mundo ortodoxo, por vezes, refere-se ao coração como o centro da pessoa. A alma deve ser imaterial, se a liberdade existe, então o espírito existe. Por outro lado, se a alma é um objeto material, então, não é livre, apenas se torna uma das muitas coisas físicas sujeita a tirania da causa e efeito.  Portanto, se a liberdade, em qualquer sentido real da palavra, existe, a alma, deverá ser imaterial, deve ser este coração da humanidade. Sendo assim, não será tiranizada pela causa e efeito, e é deste lugar que Berdiaev inicia o conceito de liberdade.


Em relação a Rússia, no século XX, desnecessário será dizer que o problema é o Bolchevismo. O Bolchevismo é um conceito materialista muito consistente de causa e efeito, sobre a tecnologia, as classes sociais e ao desenvolvimento do potencial tecnológico da humanidade. Desta forma, no seu centro, a humanidade não é livre. Não existe tal coisa como espírito na mentalidade bolchevique, e, portanto, não existe tal coisa como a liberdade. Mas, o ponto de Berdiaev,  é precisamente a mesma hipótese das ciências sociais ocidentais moderna.  As ciências sociais são concebidas para prever a reação da humanidade para certos estímulos externos. O pressuposto por trás disso é que, o espírito humano, é, na verdade, não um espírito, mas uma coisa física, e, portanto, objetos da causa e efeito. Se tudo isso for verdade, então, a humanidade pode ser legitimamente controlada por uma elite científica.

O famoso pensador francês, Augusto Comte, desenvolveu essa ideia de uma elite científica que dispõe dos certos estímulos para levar a humanidade para onde quer. As ciências sociais são baseadas nesse conceito. Se não há alma, se não há espírito, não há liberdade; se não há liberdade, então a ação e o comportamento humano está sujeito a uma rigorosa e poderosa análise científica. E ainda implica que, se tudo isso for verdade, então, não há nada especial em particular sobre a humanidade em relação ao resto da criação e, assim, eles podem manipular, destruir, pois não existe nenhum conceito de direitos, deveres e responsabilidades, fora da utilidade. Fora de algo que seja útil ou proveitoso para a elite. É assim que Berdiaev dá início a sua filosofia: para qualquer coisa que dizemos sobre o mundo faça sentido para uma pessoa livre, essa deve possuir, de fato, um espírito. Algo que não seja material. O elemento imaterial é a alma e fonte do pensamento, do intelecto e da vontade livre. 


Trecho transcrito do episódio “Berdiaev e Dostoiévski, Modernismo, Materialismo e Crítica da burguesia”, Reason Radio Network

sábado, 26 de outubro de 2013

Uniformidade vs Unidade (Por René Guénon)

A conclusão que emerge de tudo isso é que, para que seja possível a ‘uniformidade’, é tomado como pressuposto que todos os seres sejam privados de todas suas qualidades e reduzidos para nada mais do que ‘unidades numéricas’; também conclui-se que a uniformidade nunca será verdadeiramente atingida, enquanto que todos os esforços realizados, notadamente no domínio humano, somente poderá roubar dos seres, quase que completamente, suas qualidades próprias, sendo assim, transformando-os o mais próximo possível em meras máquinas; e as máquinas, produto típico do mundo moderno, são representantes do mais alto grau da predominância da quantidade sobre a qualidade. De um ponto de vista social, as concepções "democrática" e "igualitária" tendem exatamente ao mesmo fim, pois de acordo com elas, todos os indivíduos são equivalentes entre si. Essa ideia traz consigo a suposição absurda que todos são igualmente preparados para qualquer coisa que seja, ainda que a natureza não ofereça nenhum exemplo de tal "igualdade", pelas razões já dadas, uma vez que isso implicaria em nada, mas somente uma semelhança completa entre indivíduos; mas é óbvio que, em nome da suposta "igualdade", que é um dos ideais mais confusos e mais prezados pelo mundo moderno, os indivíduos estão de fato direcionados a tornarem-se mais próximo ao outro o tanto que natureza permite, e para isto, em primeiro lugar, com a tentativa de impor uma educação uniforme para todos. Não é menos evidente que as diferenças de aptidão não podem, apesar de tudo, serem totalmente suprimidas, então, uma educação uniforme não dará mesmos resultados para todos; mas é bem verdade que, embora não se possa garantir a qualquer pessoa uma qualidade que não possui, é, pelo contrário, muito provável que suprimam em todos, todas as possibilidades acima do nível comum; assim, o "nivelamento" trabalha sempre para baixo: de fato, não poderia funcionar de outra forma, sendo em si apenas uma expressão da tendência em direção ao mais baixo, isto é, para a 'quantidade' pura, situada em um nível mais baixo que todas as manifestações corporais, não apenas abaixo do grau ocupado pelos mais rudimentares seres vivos, mas também abaixo do ocupado por aquilo que os nossos contemporâneos têm o hábito de chamar de "matéria inanimada", embora ainda que essa última, uma vez que se manifesta aos nossos sentidos, ainda está longe de ser totalmente despida de qualidade.

René Guénon em "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos"

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Novo Homem Espiritual (Hieromonge Damascene)


Hoje, o novo “homem espiritual", pode escolher através das livrarias ou navegar na internet para encontrar alguma ideia ou prática religiosa que se encaixe no seus desejos, desde o Ocidente ao Oriente, do Sufismo ao satanismo. No entanto, quanto mais informações ele guarda na sua cabeça, mais vago sua visão de mundo se torna. Ele tem interesses religiosos em várias áreas, mas, basicamente, acredita que tudo é relativo, i.e.: 'Minhas ideias funcionam para mim, suas ideias funcionam para você'. Ele acredita em tudo ao mesmo tempo, mas não acredita profundamente em nada, e principalmente em nada que exija-lhe um sacrifício. Ele não tem ideal algum pelo qual valeria a pena morrer. Mas, suas antenas estão no ar, em espera por algo que satisfaça seus desejos, algo que irá satisfazer sua vaga inquietude, algo sem a necessidade de honestamente olhar para si mesmo e mudar, algo que não perturbe seu constante esforço de satisfazer seu ego.


Hieromonge Damascene

domingo, 6 de outubro de 2013

O Credo do Reacionário (Por Erik von Kuehnelt-Leddihn)

I

Eu não hesito em anunciar que sou um reacionário. Eu tomo com um profundo orgulho, na verdade. Não vejo mais razão em olhar para a frente, para um futuro desconhecido, ao invés de olhar para trás nostalgicamente para valores conhecidos e comprovados.

O termo "reacionário", na forma em que uso, não representa um conjunto de ideias definitivos e imutáveis. Representa uma atitude de espírito. Como um reacionário, eu me ressinto em opor o espírito e as tendências da época em que sou obrigado a viver e buscar restaurar o espírito que teve a sua melhor personificação em períodos já passados.

As circunstâncias em que o termo "reacionário" é aplicado como um epíteto para fascistas e outras marcas do homem moderno - as quais um verdadeiro reacionário tem apenas desprezo -  não é minha culpa.

Como um reacionário honesto, eu naturalmente rejeito o Nazismo, Comunismo, Fascismo e todas as ideologias relacionadas que são, de fato, um reductio ad absurdum da chamada democracia e do “povo no poder”. Eu rejeito os pressupostos absurdos do governo da maioria, do parlamento hocus-pocus, o falso liberalismo materialista da Escola de Manchester e o falso conservadorismo dos grandes banqueiros e industrialistas. Eu abomino o centralismo e a uniformidade da vida em rebanho, o espírito estúpido racista, o capitalismo privado, bem como o capitalismo de estado (socialismo) que contribuíram para a ruína gradual da nossa civilização nos últimos dois séculos. O verdadeiro reacionário desses dias é um rebelde contra os pressupostos prevalecentes e um "radical" que vai até as raízes.

Pessoalmente, sou um reacionário da fé Cristã Tradicional, com uma perspectiva liberal e com propensões agrárias. Onde tantos ao redor adoram o "novo", eu respeito as formas e as instituições que têm crescido organicamente por um longo período de tempo. Os períodos que precederam as duas grandes tempestades - a Idade Média e a Renascença, terminadas pela Reforma e no século XVIII, terminada pela Revolução Francesa – essas são ricas em formas e ideias de importância duradouras.  A universalidade de Nicolas de Cues ou de um Alberto Magno, a glória da Catedral de Chartes e o barroco tardio da Áustria, figuras inspiradoras como a Maria Teresa, Pascal, George Washington ou Leibnitz fascinam-me mais do que os três "homens comuns" do nosso tempo - Mussolini, Stalin e Hitler ou o esplendor democrático de uma loja de departamentos ou o vazio espiritual dos comícios comunistas e fascistas magnetizados por uma multidão em êxtase.

A nota introdutória a este declínio da civilização foi escrita por Martin Luther, que cultuava a nação, exaltava o estado e vociferava contra os Judeus; pelo bárbaro real do trono Inglês que suplantou o espírito católico do seu país com um provincianismo paralisante; pelo primeiro  "moderno" - o de Genebra, que negou a base de toda a liberdade filosófica, livre arbítrio - e o outro de Genebra que pregava o retorno à selva na forma de um barbarismo idílico.  Estes quatro cavaleiros - Lutero, Henrique VIII, Calvino e Rousseau - eram apenas os arautos das coisas mais fatídicas que estavam por vir. O desastre final foi, na Revolução Francesa, diante do eterno dilema de escolher entre liberdade e igualdade, decidiu-se pela igualdade. A guilhotina e os magistrados de Estrasburgo que acreditavam que a torre da catedral deveria ser demolida porque essa estava acima do nível igualitário de todas as outras casas, são símbolos do modernismo e do "progresso" perverso.

As massas, formando maiorias organizadas e abraçando ideias idênticas e odiando uniformemente todos aqueles que ousam ser diferentes, são o produto atual dessas várias revoltas.   Padre ou judeu, aristocrata ou mendigo, gênio ou imbecil, o não conformista-político e explorador da filosofia - todos eles estão na listas dos proibidos. O rebanho manda hoje em quase todos os lugares, com diversos meios e sob os mais diversos rótulos. É a essa tirania que eu me oponho.

II

Como um reacionário, acredito em liberdade, mas não igualdade. A única igualdade posso aceitar é a igualdade espiritual de dois bebês recém-nascidos, independentemente da cor, credo ou raça de seus pais. Não aceito nem o igualitarismo degradante dos "democratas", nem as divisões artificiais do racistas, nem as distinções de classe dos comunistas e esnobes.

Seres humanos são únicos. Eles devem ter a oportunidade de desenvolver suas personalidades -- e isso significa responsabilidade, sofrimento, solidão. Não somente gosto do princípio da monarquia como também gosto de todas as pessoas que são coroadas. E há todos os tipos de coroas, a mais nobre delas, composta por espinhos. O Homem Moderno -- este animal dócil, "cooperativo" e urbanizado -- não é preferência de um reacionário.

Eu acredito na família, na hierarquia natural dentro da família e no abismo natural entre os sexos. Eu amo os velhos cheios de dignidade e pais orgulhosos, mas também adoro crianças corajosas e justas. Em uma hierarquia o membro mais inferior é funcionalmente tão importante quanto o mais elevado. E o abismo entre os homens e as mulheres me parece uma coisa boa também. Não há triunfo na construção de uma ponte sobre uma mera poça.

Eu gosto de pessoas com propriedades. Não estou nada entusiasmado com um colega desenraizado em um apartamento, com um número social como sua principal distinção. Eu detesto o capitalismo que concentra a propriedade na mão de poucos, não menos do que o socialismo que quer transferi-lo para o grande ninguém, uma hidra com um milhão de cabeças e sem alma: Sociedade. Gosto de pessoas com sua própria morada, com seus próprios campos, com seus próprios pontos de vista levando-os a ações independentes. Eu tenho medo da massa: os 51 por cento que votaram em Hitler e Hugenberg; a multidão em frenesi que apoiou o Terror Francês; os 55 por cento dos brancos dos Estados do Sul que mantiveram 45 por cento dos negros "em seu lugar" com uma ajuda de torchas e cordas.

Eu temo todas as massas que consistem de homens com medo de serem únicos, de serem pessoas; se importando mais com a segurança do que a liberdade, temendo seus vizinhos ou a "comunidade" mais do que Deus e suas consciências. Essas são pessoas que não exigem somente a igualdade, mas também identidade. Eles suspeitam de qualquer um que se atreve a ser diferente. Eles preferem apenas os "ordinary, decent chaps" ingleses, "regular  guys" americanos ou "rechte Kerle" no padrão alemão. O homem moderno parece ter apenas um desejo: ver tudo moldado na sua própria imagem; ele detesta personalidade e tenta se assimilar. O que ele não consegue assimilar, ele extirpa. Toda a nossa época é marcada por um vasto sistema de nivelamento e agências que compõem as escolas, anúncios, quartéis, bens, jornais, livros e ideias produzidos em massa. O lado sombrio dese processo pode ser visto no ostracismo social praticado contra as minorias nas democracias pseudo-liberais; nos matadouros humanos e campos de concentração das nações totalitárias superdemocráticas; nos fluxos intermináveis de refugiados vagando sem rumo em todo o mundo.

Liberdade, afinal, é um ideal aristocrático. Em Washington, na frente da Casa Branca, na Jackson Square, há um simbolo maravilhoso: o monumento ao igualitarismo americano cercado por estátuas dos quatro nobres europeus que vieram para a América lutar pela liberdade e não pela identidade - o nobre Russo - Kosciuszko, Barão yon Steuben, o Conde de Rochambeau e o Marquês de Lafayette. O Barão de Kalb é comemorado em outros lugares e ao Conde Pulaski foi dado o nome a uma rodovia em Nova Jersey e uma estatua em Savannah. Pulaski foi o único general morto no Grande Levante Whigs Americano. Nós , reacionários (quer saibamos ou não) somos todos Whigs. Nossa tradição, em países de lingua inglesa, repousa sobre a Carta Magna, que só os ignorantes chamará de "democrática".

Eu não tenho afinidade pelo "liberalismo" do século XIX, com seu materialismo grosseiro e a crença pagã na "sobrevivência do mais apto", ou seja, do mais  inescrupuloso. Nas condições europeias, sou naturalmente monarquista,  porque a monarquia é, basicamente, supra-racial e supra-nacional. As instituições livres sobrevivem melhor não somente nas monarquias do Noroeste da Europa, mas também na área etnicamente mista da Europa Central e Oriental. Um europeu deve preferir monarcas de origem estrangeira com esposa estrangeira, mãe e filhos estrangeiros do que um "líder" político pertencente apaixonadamente a uma nacionalidade, classe ou partido específico.

Eu me sinto mais livre como um homem que não faz parte da escolha de ninguém do que se fosse alguém nomeado pela maioria, seguindo cegamente as emoções superaquecidas. Voltaire teve mais chances de influenciar os tribunais de Paris, Putsdam e São Petersburgo do que um Dawson, Sorokin, Ferrero ou um Bernanos tiveram para influenciar as massas "democraticas". Os monarcas europeus intelectualmente e moralmente igualaram-se com seus imitadores republicanos. Os Bourbons certamente são comparáveis com os politicos das três Republicas Francesas. Os Fuhers da era totalitária podem ter sido muitas vezes mais "brilhante" e bem sucedidos pois eram menos escrupulosos. Apoiado por plebiscitos cuidadosamente encenados, eles se sentiram justificados em tolerar matanças que nenhum Bourbon, Habsburg ou Hohenzollern teriam arriscado. Platão nos disse, há mais de dois mil anos atrás, que a democracia se degenera inevitavelmente em ditaduras e de-Toccqueville re-enfatizou isso em 1835.  A maioria dos idiotas, de ambos os lados do Atlântico, continuaram a confundir democracia com liberalismo, dois elementos que podem, ou não, coexistir. Uma "proibição" apoiada por 51 por cento do eleitorado pode ser muito democrático, mas é dificilmente liberal.

III

O que nós reacionários queremos, é liberdade e a diversidade. Nós acreditamos que existe uma força peculiar na diversidade. St. Estevão, Rei da Hungria, disse a seu filho: "Um reino de apenas uma linguagem e um costume, é tolo e frágil". Isso é contrário a crença supersticiosa demo-totalitária de nossa época da uniformidade. Os fascistas italianos que destruíram todas as instituições culturais de não-italianas. Os Tecnocratas progressistas clamavam que, uma vez que essa guerra chegasse à América, iriam confiscar toda a impressa de língua estrangeira.

Como um reacionário, gosto de patriotas; que ficam entusiasmados com a sua pátria, sua terra natal; e não gosto de nacionalistas, que ficam excitados com sua língua e seu sangue. O reacionário defende a ideia de solo e liberdade, ele luta contra o complexo de sangue e igualdade.

Como um reacionário, eu possuo opiniões definitivas como também opiniões provisórias. "Nas coisas necessárias, a unidade; nas duvidosas, a liberdade; e em todas, a caridade" é um bom programa reacionário. Se eu considerar algo ser a Verdade, eu desconsidero toda opinião que contrária.  Mas discordo com alguns eclesiásticos medievais ou com os conservadores de visão curta, que acreditavam que o erro pode ser combatido pela força. Qualquer erradicação meticulosa de erro por meios artificiais (sempre dirigida contra pessoas e não contra a idéia em si) acaba fazendo a Verdade ser intragável, obsoleta e desinteressante. Como reacionário, respeito qualquer pessoa que, com coragem e sinceridade, mantém visões errôneas, embora seguindo sua consciência. Eu tenho infinitamente mais respeito a um anarquista fanático catalão, ou por um Judeu Ortodoxo, ou por um Calvinista linha dura do que a um humanitário pseudo-liberal com uma veneração secreta a um estado onipotente. Um verdadeiro reacionário é um homem de fé absoluta e generosidade absoluta. Ele concilia dogma e liberdade.

Como um reacionário, gostaria de ver materializado neste país, mais ideias anti-democráticas dos Pais Fundadores. De fato, poucos escritores europeus escreveram mais fortemente contra ao demos do que Madison, Hamilton, Marshall, John Adams ou mesmo Jefferson que esteve do lado da aristocracia do mérito, não pela regras da massa. No entanto, o centralismo de Hamilton é basicamente esquerdista. Nem aqui nem na Europa isso deve prevalecer. O que precisamos de ambos os lados do Atlântico é mais uma atitude pessoal. Colossialismo e coletivismo são o inimigo. O agricultor de Hindelang, por exemplo, deve antes de tudo, ter orgulho de ser o chefe de uma família, dono de uma fazenda e depois, de ser um morador de Hindelang. Após um reflexão mais aprofundada, ele deve encontrar orgulho em ser um dos camponeses do Vale do Allgau e também por ser Bávaro. Seu Germanismo deveria ser uma unidade mística no próprio horizonte de seus pensamentos. Mas a tendência moderna é a de estabelecer uma hierarquia inversa de lealdades. A ênfase nazista em noventa milhões de alemães, a ênfase Soviética sobre "as massas", a identificação pelo "maior" com o "melhor, nos mostra a degradação expressa na adoração da quantidade, o nosso desprezo pela pessoa, todo o nosso desespero moderno pela singularidade humana.

Eu defendo que o Estado, as empresas e as fábricas, são os grandes donos de escravos de nossos tempos. "Fulano" trabalha como o seu antepassado espiritual, o servo medieval, um dia e meio por semana para o seu senhorio. De quatro cheques semanais, ele entrega pelo menos um para a empresa que aluga o seu habitat. Se não fazê-lo, resultará em desapropriação, uma ameaça desconhecida para o servo feudal do século XIII. Na fábrica, ele trabalha, diferentemente de um membro da guilda, para investidores desconhecidos, bem como para líderes sindicais corruptos, se não, como na URSS, para uma combinação leviatã de Estado e Sociedade. Os trabalhadores devem possuir as ferramentas de produção; não existe nenhuma razão terrena para que eles não devam possuir fábricas, em um sentido literal ou ser titulares de todas as ações comercializadas. Uma usina pode ser uma comunidade viva não menos do que uma oficina medieval.

Eu gosto das pessoas que são "atrasadas", como os tiroleses, os alpinistas suíços  os escoceses, os moradores de Navarra, os bascos, os sombrios camponeses dos Bálcãs  os curdos. Eles escaparam de um mal menor da servidão na Idade Média e do grande mal da urbanização dos tempos modernos. Eles são bastante reacionários, conservadores e amam a liberdade. Eles podem dar ao luxo de serem conservadores porque sua cultura está fora de sintonia com os tempos modernos; o que eles possuem, vale a pena preservar. O conservador urbano, por outro lado, não é senão um "progressista" inibido.

Eu acredito no homem de excelência, no homem do dever; contra o Homem-Comum cuja a única força está nos números, cuja a manifestação política é a submissão à "convicções" pré-fabricadas ou a "líderes" que, diferentemente dos "governantes", não diferem das massas, mas personificam todas as suas piores características.

Hoje, um grupo de genuínos reacionários carregam o peso da luta contra o super-progressismo na sua forma totalitária. Eles sabem que a democracia, como força, não pode lidar com os totalitários; formas embrionárias não podem ter sucesso contra manifestações mais maduras. Platão, de Tocqueville, Donoso Cortes, Burckhardt sabiam disso. A democracia progressista como um pseudo-liberalismo nada mais é que um Girondino, um precursor do Terror.


Entre este punhado estão Winston Churchill e o Conde Galen, Conde Preysing e yon Faulhaber, Niemoller e Georges Bermanos, Giraud e d'Ormesson, Conde Teleki, Calvo Sotelo, Schuschnigg e Edgar Jung. Nenhum deles fez compromisso com a perversidade quer dos Girondinos ou com o Terror em suas formas modernas; vivos ou mortos, eles não iram ceder. Eles não acreditaram necessariamente em um Passado Glorioso em oposição a um Admirável Mundo Novo, mas eles viram as calamidades do presente, crescendo dos erros do passado, nas catástrofes do futuro.   Eles estão isolados pela suspeita que os rodeia. Eles são considerados desmancha-prazeres por não entrar na apologia universal do Progresso. Eles se tornaram inflexíveis e apaixonados. Eles vão levar suas bandeiras até a morte, e suas bandeiras são muito antigas, vaidosas e ilustres.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O Homem Religioso (Por Mircea Eliade)

Um homem não religioso de hoje ignora o que ele considera sagrado, mas, na estrutura da sua consciência, ele não poderia ficar sem as ideias do ser e do sentido. Ele pode considerar esses como aspectos puramente humanos da estrutura da consciência. O que nós vemos hoje é que o homem considera não possuir nada de sagrado, nenhum deus; mas, ainda assim, sua vida possui um significado, pois se não houvesse, ele não poderia viver; ele seria um caos. Ele olha para o ser e não imediatamente entende isso como o ser, mas apenas como significados e objetivos; ele se comporta na sua existência como se ele tivesse uma espécie de centro. Ele está indo para algum lugar, ele está fazendo algo. Nós não vemos nada religioso aqui; apenas vemos um homem se comportando como um ser  humano. Mas, como um historiador da religião, eu não estou certo que não há nada de religioso aqui...

Eu não posso considerar somente o que aquele homem conscientemente diz: 'Eu não acredito em Deus, acredito na história ", e assim por diante. Por exemplo, eu não acho que Jean-Paul Sartre dá tudo de si em sua filosofia, porque eu sei que Sartre dorme, sonha, gosta de música e vai para o teatro. E, no teatro, ele entra em uma dimensão temporal em que ele já não vive seu 'historique momento'. Lá ele vive em outra dimensão bem diferente. Vivemos em uma outra dimensão quando ouvimos Bach. Outra experiência de tempo é dado em um drama. Nós gastamos duas horas em uma peça, e ainda o tempo representado na peça ocupa anos e anos. Eu não posso limitar esse homem em um universo puramente auto-consciente, racionalista em que ele finge morar, já que esse universo não é humano.


- Mircea Eliade (O Sagrado no Mundo Secular, 1973)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ensaios de Interpretação Dostoievskiana (Por Otto Maria Carpeaux)

EXISTEM  poucos  escritores  cuja  obra  tenha  sido  tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoievski. Dostoievski é, se não o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX; ou  do  século  XX,  pois  a  sua  obra  constitui  o  marco  entre  dois séculos  da  literatura.  Literariamente,  tudo  o  que  é  prédostoievskiano  é  pré-histórico;  ninguém  escapa  à  sua  influência subjugadora,  nem sequer  os  mais  contrários.  Parece,  porém, que toda a Europa tentar resistir-lhe, instintivamente e obstinadamente; e como esse  bárbaro barbado, com  a  face sulcada  de  sofrimentos, parece  irresistível,  os  europeus  entrincheiram-se,  ao  menos,  num baluarte de interpretações erradas.

Quando,  em  1870,  apareceram  as  primeiras  traduções  do Raskolnikov,  os  críticos  literários  não  viam  na  obra  senão  um extraordinário romance policial. Recordações da casa dos mortosalimentou neles o novo equívoco de se encontrarem diante de um naturalista à maneira de Zola; a estúpida combinação de "Tolstoi e Dostoievski"  fecha,  por  este  "e"  comparativo,  o  caminho  da compreensão,  e  deixa  apenas  admirar  o  "forte  colorido  russo". Depois, percebe-se que Dostoievski não expõe nunca o exterior das suas personagens, das quais conhecemos tão perfeitamente os mais íntimos  movimentos  da  alma;  que  ele  não  descreve  nunca  a paisagem  russa,  mas  unicamente  a  paisagem  urbana  de  São Petersburgo,  e  que  este  Petersburgo  dostoievskiano  é, principalmente, o fantasma de uma cidade visionária. O que ele fixa - e com que segurança! - são as paisagens da alma. E o espírito sensitivo  do  fin  de  siècle  admira,  sobretudo,  esta  psicologia requintada, na qual acredita reconhecer a sua própria decadência; Dostoievski será um assunto de predileção da psicanálise. Daí se origina a pretensão de reclamar Dostoievski em favor das rebeliões mais  subversivas  do  espírito  anárquico  do  après-guerre,  e  certa interpretação anarquista ressoa até no livro de André Gide. Que esta  psicologia se baseia numa antropologia cristã foi a descoberta do após-guerra. Depois de Merejkovski, que se perde em especulações gnósticas, Vjatcheslav Ivanov reconhece o individualismo cristão de Dostoievski; o pastor Thurneysen descobre nele o transcendentalista, perto do cristianismo "incondicional" dos neocalvinistas; Berdiaev revela  o  Dostoievski  hagiocrata,  quase  um  Pai  da  Igreja.  Mas  a satisfação dessas descobertas é perturbada pelo conhecimento das estranhas convicções políticas do escritor. Enquanto quase todos os poetas russos do século são revolucionários, liberais, democratas e socialistas,  Dostoievski  é  conservador;  ou,  melhor,  reacionário intratável:  ajoelha-se,  não  somente  perante  as  imagens  da  Igreja russa, como também ante o retrato do tzar, e à sua concepção de uma humanidade cristã ele mistura um ódio violento à Europa e ao sonho  de  um  Império  Universal  russo;  sonho  que  constituiu antigamente, para nós outros, o pesadelo do pan-eslavismo, e que se transformará, amanhã, em pesadelo bolchevista.

Nesse mundo, seja ele negro ou vermelho, não existe lugar para nós outros. Mas como aceitar um poeta cujo pensamento nos abala? Dostoievski não faz "arte pela arte"; ele nos arrasta até às últimas conseqüências. Inúteis quaisquer concessões. Reconhecendo-se que certas acusações violentas à Europa são plenamente justificadas, é preciso  admitir  que  daí  para  uma  revolução  total,  mesmo espiritualista,  vão  poucos  passos,  dos  quais  somente  o  primeiro custa.  Inútil,  igualmente,  distinguir  entre  os  frutos  da  inspiração poética, válidos também para nós, e as opiniões íntimas do autor, objeto  somente  da  crítica  psicológica  e  da  história  literária.  Em virtude de tal distinção, a obra de arte se tornaria o fruto sublime dum solo impuro, produto exclusivo do subconsciente, resultado de uma partenogênese misteriosa; e nós não aceitaríamos esse artifício unicamente  para  isentar  o  autor,  à  nossa  maneira,  de responsabilidades, às quais ele não desejaria fugir. Ao contrário, cumpre admitir que na obra de Dostoievski a política ocupa um lugar maior do que a literatura, e que as suas convicções políticas nos surpreendem. É justamente isto.
A literatura russa do século XIX é profundamente política. O país não tem imprensa nem tribuna, nem mesmo cátedras livres, e a literatura é a única voz do povo, em plena evolução política e social. Todas as coisas, a ciência, a própria teologia, estão impregnadas de política.  A  literatura  torna-se  uma  tribuna.  Existem  aí,  como  no parlamento inglês, dois partidos opostos. Um, o dos "Ocidentais", que  glorificam  a  Europa  e  desejam  a  europeização  integral  da Rússia; para isto é preciso primeiramente destruir as instituições estabelecidas, o que lhes vale a acusação de niilismo. Os outros, os "eslavófilos", glorificam o passado nacional, mesmo o asiático; é necessário esmagar as influências estrangeiras, o que lhes vale a acusação  de  obscurantistas.  A  literatura  invade,  por  sua  vez,  a política.  O  tzar  Alexandre  II,  o  emancipador  dos  camponeses,  é "ocidental". O seu sucessor, Alexandre III, faz do eslavofilismo a doutrina oficial do pan-eslavismo; exterminar, pela força, todas as nacionalidades  e  religiões  estrangeiras  que  se  acham  sobre  o território  russo,  voltar-se  para  o  despotismo  asiático,  derrubar  a Europa corrompida, erguer o Império Eslavo. E é diante do retrato do tzar Alexandre III que Dostoievski se ajoelha.

Dostoievski  é  escritor  político,  e  o  é  apaixonadamente.  No Diário de um escritor, comentário indispensável dos seus romances, ele afirma a decadência do Ocidente, a apostasia da Igreja romana, e prega  o  domínio  universal  dos  eslavos  ortodoxos.  Faz-se  mister destruir a Europa, "o cemitério das artes e o foco das revoluções". Dostoievski também é revolucionário. Mas o é contra nós.

É irritante. Seria necessário aceitar essas convicções políticas para poder aprovar integralmente o escritor; e isso é impossível. Admitir a coexistência de uma força artística e de um pensamento confuso seria arriscar muito. Admitir, então, que muitas censuras de Dostoievski  à  Europa  são  justificadas,  mas  que  elas  derivam  de outra fonte que não desse pan-eslavismo louco? Quer dizer que o pan-eslavismo representa na obra de Dostoievski papel diferente do que o supôs o escritor. Primeira possibilidade de achar um terreno onde Dostoievski e nós poderemos encontrar-nos.

Quando Dostoievski escrevia um romance, via primeiramente os  problemas  e  depois  as  personagens.  O  aspecto  dos  seus manuscritos, muitos dos quais foram editados em fac simile, é muito curioso. No começo ele emenda mais do que escreve, e as margens são cheias de figuras, representando catedrais, demônios, anjos, que simbolizam os seus problemas. Depois, a personificação começa; o texto corre mais ligeiro, e os desenhos simbólicos se transformam em  retratos  imaginários;  a  comparação  permite  estabelecer  as preferências  do  poeta,  e  esta  comparação  prova  aquilo  que  a interpretação dos textos deixava prever: as preferências do poeta são para os seus inimigos ideológicos. Dostoievski é de uma perfeita imparcialidade artística. Ele sabe que o mundo não é governado pelos anjos, ou o é apenas pelo anjo vencido. Parece que ele forma os  seus  "anticristos"  -  um  Raskolnikov,  um  Kirillov,  um  Ivan Karamazov - com grande simpatia, e que estes constituem, às vezes, os intérpretes do escritor. Isto explica o mal-entendido, muito tempo reinante, de que o próprio Dostoievski era revolucionário e ateu. As outras  personagens,  os  verdadeiros  russos,  um  Schatov,  um Aljoscha, conservam-se como sombras. Não lutam pelos seus ideais; defendem, acima de tudo, o seu direito de viver entre as figuras mais fortes dos inimigos. Raskolnikov, convertido no fim de  Crime e castigo, Aljoscha, ao terminar Os irmãos Karamazov, representam a esperança do futuro; mas Dostoievski nunca escreveu as prometidas continuações  desses  romances.  O  príncipe  Myschkin,  o  "idiota" ideal,  sucumbe;  mas  os  niilistas  verdadeiramente  idiotas,  os Possessos,  escapam,  e,  possivelmente,  serão  os  vencedores. Dostoievski  é  mestre  em  denunciar  o  mundo  inimigo;  mas  não consegue jamais criar a sua visão redentora. Acaba ou pela negação desoladora do Idiota ou pelas vagas promessas de Raskolnikov e dos Karamazov. Quando se interroga o eslavófilo Schatov sobre as suas convicções, ele professa a fé no tzar, no povo russo, na ortodoxia oriental...  -  "E  Deus?"  Ele  começa  a  balbuciar:  -  "Eu...  eu...  eu acreditarei também em Deus." O futuro do verbo acreditar é traidor. Dostoievski não crê nos seus próprios ideais.

Seria ele verdadeiramente um revolucionário? Com efeito, a sua ética de humildade não fornece a razão de Estado no regime tzarista. A religião do Staretz, nos Karamazov, não se assemelha em nada à doutrina da Igreja oficial. O negativismo do príncipe Myschkin em relação ao seu meio tem qualquer coisa de perigoso. Dostoievski sabe perfeitamente o que quer dizer; mas não sabe sempre o que diz. Irrita-se contra a revolução política. Mas luta pela revolução social.  

Inútil acentuar o sentimento muitas vezes sádico de Dostoievski para explicar por ele todas as formas do sofrimento; qualquer leitor o sabe. Raramente o romancista se esquece de indicar a condição humana",  as  causas  sociais  da  miséria  e  da  humilhação.  Já  compararam  a  luta  de  Dostoievski  contra  o  hegelianismo revolucionário dos socialistas com a luta deste outro revolucionário cristão, Soeren Kierkegaard, contra o hegelianismo anticristão dos protestantes liberais? Ambos combatem a idéia que não se realiza: Kierkegaard  contra  os  pastores  filosóficos  que  não  seguem  o Evangelho;  Dostoievski  contra  os  chefes  esquerdistas  que  não cumprem  suas  promessas.  Kierkegaard  transforma  em  utopia  o Sermão da Montanha. Dostoievski erige em utopia a velha Igreja de Jerusalém,  onde  os  apóstolos  viviam  num  pretenso  comunismo cristão,  como  o  conservou  a  organização  econômica  de  alguns grandes mosteiros russos, e o continua o mir, a coletividade agrária dos  camponeses  russos.  Essas  instituições  primitivas  têm  um inimigo terrível: a nova burguesia dos "ocidentais", que criou, em troca, um proletariado desarraigado, de onde um novo comunismo nasce; mas desta vez ateísta.

Em  Os  possessos,  Dostoievski  predisse  claramente  esta catástrofe. Ele desejava impedir a invasão do capitalismo na Rússia patriarcal. O seu sonho de uma humanidade espiritualizada é o de uma humanidade emancipada das forças econômicas que, uma vez desencadeadas, tornariam inevitável a queda no abismo materialista.

Contra  esses  irmãos  inimigos,  a  burguesia  e  o  socialismo igualmente  materialistas,  Dostoievski  levanta,  no  apêndice  ao Discurso sobre Puchkin, a utopia da Igreja-Estado, na qual reina o  comunismo  da  perfeita  fraternidade  cristã.  Tiremos  a  fraseologia teológica: fica um bolchevismo um tanto idealizado.
É  por  isso  que  os  bolchevistas  nunca  baniram  este  profeta cristão, este protagonista da autocracia tzarista e da Igreja ortodoxa. Ao contrário. Publicaram-lhe até uma edição monumental das Obras Completas, com todos os manuscritos, até então inéditos; não se escandalizaram nem mesmo com os seus artigos no jornal, com os ataques mais violentos ao socialismo e à revolução: não se deixam enganar pelas aparências. Essa fraseologia dostoievskiana, dizem os bolchevistas, não é senão um reflexo ideológico, restos educacionais e supersticiosos, mas de nenhuma significação real. Essa ideologia é somente um véu sobre a condição social. Dostoievski é um pequeno burguês. Contra as forças feudais, ele aprova a revolução. Mas a revolução  à  qual  os  "ocidentais"  o  convidam  é  a  revolução  dos burgueses.  Não  existe  ainda  movimento  operário.  Então, Dostoievski alia-se às forças do passado para combater a invasão burguesa. Todos os ataques que ele dirige à revolução justificam-se em vista da revolução de 1905, na qual os social-democratas e os burgueses estavam ligados contra o tzar. Mas Dostoievski teria sido partidário da revolução de 1917, em que somente eles, os operários, derrotaram o tzar e a burguesia ao mesmo tempo. Toda a sua vida este nacionalista falou do cristianismo verdadeiramente russo; em 1917, os véus ideológicos lhe cairiam dos olhos, e ele teria saudado a revolução verdadeiramente russa. Eis a interpretação bolchevista.

Um ponto, enfim, de contato, pelo menos para um socialista europeu?  Mas  houve  alguma  vez  um  pequeno-burguês  europeu, mesmo genial, que tivesse o ar de um Dostoievski? Como sempre, a argumentação marxista encontra acertadamente o lado negativo e falta-lhe completamente o lado positivo. Dostoievski e Lenin, ambos imbuídos  de  "fraternidade  eslava",  odeiam  o  individualismo europeu, e utilizam as mesmas expressões de desprezo: "o operário de Londres, o burguês de Paris e o professor de Heidelberg, todos a mesma coisa". Essa "fraternidade" é russa e bolchevista ao mesmo tempo. Mas Dostoievski vê mais claro. Em Os possessos, o liberal Stefan Verkhovenski é o pai do socialista Piotr e o preceptor do  niilista Stavrogin. O liberalismo começou a libertar a humanidade da sua base religiosa. Para o pai Verkhovenski a Madona Sistina é um ideal estético; para seu filho, um fetiche desprezível. O socialismo, para Dostoievski, é apenas a propagação do egoísmo burguês entre os proletários. O eu, na sua superficialidade, permanece odioso, e tem necessidade da conversão e da fraternidade cristã. Mas o grande psicólogo desce até os mais profundos recantos da alma, onde o homem se torna consciente da sua dependência de Deus. A primeira aproximação sugere quase um tratado de sociologia cristão, cujo fim não é a coletividade bolchevista, mas a "comunhão dos santos". A última aproximação fornece  um  tratado  de  antropologia  cristã, aproximando-se da teologia de Pascal e dos protestantes da "teologia dialética", mas superando o pessimismo pela aleluia da ressurreição.

Dostoievski é cristão. Nós também. Campo de encontro, enfim? Não, absolutamente. Pois Dostoievski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos. Ao contrário. Ao lado do operário de Londres, do burguês de Paris e do professor de Heidelberg, ele coloca o padre romano.  Vosso  pretenso  cristianismo  -  diz  ele  -  é  a  religião  do Anticristo. Eis aí o assunto de O Grande Inquisidor.

As  interpretações  formam  legião.  Protestos  contra  toda  a organização eclesiástica, de acordo com Berdiaev, herança do velho sectarismo  eslavo  de  uma  Igreja  invisível,  sem  padres  e  sem sacramentos? Protestos, de acordo com Simon Frank, contra toda idéia  de  uma  elite  dirigente,  que  alivia  o  homem  das responsabilidades  da  sua  existência  metafísica?  Quanto  a  um aspecto, quase todos os comentadores, católicos ou não-católicos, estão de acordo: Dostoievski não visou, ou não visou unicamente, a Igreja Romana. Creio, porém, que esta Igreja não tem que temer as polêmicas, e deve mesmo sentir-se orgulhosa desta polêmica.

Que  me  conste,  só  um  apologista  católico,  o  cônego  Paul Simon, reconheceu o verdadeiro alcance da acusação. Dostoievski -disse ele - acusa a Igreja Romana de já não ser a Igreja de Deus, mas unicamente a Igreja dos homens. A censura é arquivelha; ela foi mil vezes destruída e volta sempre, cada vez mais violenta. Isto - diz o  cônego - deve ter uma causa profunda; e - continua - se nisto não há verdade, deve haver uma eterna "possibilidade". Assim é.

A Igreja espiritualista, da qual Dostoievski se faz apologista, eleva-se para o alto e abandona os homens; ela abandona o homem às  misérias  terrestres,  e  permitiu  esta  confusão  terrível:  certas questões  e  interrogações  muito  cristãs  foram  deixadas  para  o bolchevismo. A Igreja Romana não é espiritualista; é a Igreja de Deus  e  a  Igreja  dos  homens,  ao  mesmo  tempo.  Ela  é,  até, profundamente  humana;  daí  vem  a  eterna  "possibilidade"  de "humanizar-se", mesmo demasiadamente, razão por que, no dizer de Rosmini, "as cinco chagas do corpo humano de Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja". Mas, justamente por isso, esta  Igreja  é,  deve  ser  a  rocha  da  nossa  condição  humana,  a advogada da humanidade perante o trono de Deus.

É  deste  humanismo  -  ousemos  o  termo  -  que  Dostoievski censura a Igreja romana, mais ainda, todo o nosso mundo europeu. Conseqüência  gravíssima  do  fato  de  a  Rússia  não  ter  tido Renascença,  nunca  ter  conhecido  a  Antiguidade  senão  por intermédio  da  especulação  gnóstica,  meio  oriental.  Nós  outros, porém, nunca deixaremos de sentir, nesse cristianismo espiritualista à margem do abismo, alguma coisa de sobre-humano. O humanismo não é a nossa religião; é a nossa razão de viver. As "Humanidades" constituem a base da nossa civilização, e é esse humanismo que a Rússia  bárbara,  espiritualista  ou  bolchevista,  nos  censura violentamente.  Mas,  tendo  perdido  as  humanidades,  a  nossa civilização, sim, a nossa civilização cristã, chegará ao fim. É uma questão de vida ou morte. O abismo entre nós e ele está aberto, mais profundamente do que nunca.  

Mas lá, precisamente lá, nós nos encontraremos. A Europa – e eis a terrível justificação das censuras dostoievskianas - a Europa deixou,  há  muito  tempo,  de  ser  cristã.  Porém,  enquanto  viver, continuará  humanista.  A  Rússia  nunca  foi  humanista.  Mas continuou,  assim  mesmo,  cristã,  até  ao  risco  de  deixar  de  ser humana. A morte, temporal ou espiritual, nos espreita, cá e lá. Aqui, o humanismo descristianizado, petrificado na letra morta da filologia  ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. Lá, o cristianismo  desumanizado,  petrificado  pelo  dogma  da  Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista. Mais  claramente:  esses  perigos  já  não  nos  espreitam,  eles  nos devoram. Cumpre recomeçar. Cumpre recristianizar o mundo e a fé, por um esforço de síntese, por um "humanismo cristão", que lance uma ponte sobre o abismo.


Sempre é necessário saber aquilo que nos separa e aquilo que nos  une.  O  que  nos  separa  é  muito  e  muito.  Mas  não  sejamos intransigentes diante dessa face barbada, sulcada pelos sofrimentos. O que nos une é o Cristo; e "tout le reste est littérature".
Otto Maria Carpeaux