quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Visita a Gandhi - GOG (Por Giovanni Papini)

Trecho de Gog, por Giovanni Papini. 
Encontra-se com o português original da obra (1944). 


Visita a Gandhi
 Ahmedabad, 3 de março.

Eu não queria abandonar a India sem ter visto o mais célebre hindú vivo, e fui, ha dois dias ao Satiagraha-Ashram, domicilio de Gandhi. O Maatma me recebeu em um quarto quasi nú, onde êle, sentado no chão, meditava junto de um cêsto imovel. Pareceu-me mais feio e mais descarnado do que aparece nas fotografias.

- O senhor quer saber - disse-me entre outras coisas - porque queremos expulsar os ingleses das Indias. A razão é muito simples: foram os proprios ingleses que fizeram nascer esta idéia essencialmente européa. O meu pensamento se formou durante a minha longa estadia em Londres. Compreendi que nenhum povo europeu suportaria ser administrado e mandado por homens de outro povo. Entre os ingleses, especialmente, esse senso da dignidade e da autonomia nacional está desenvolvidissimo. Não quero ingleses na minha casa precisamente porque me assemelho demais aos ingleses. Os antigos hindus se preocupavam muito pouco com as questões da terra e menos com as de política. Imersos na contemplação do Atman, do Brahma, do Absoluto, só desejavam fundir-se na Alma unica do universo. Para êles, a vida ordinaria, exterior, era um tecido de ilusões e o importante era libertar-se dela o mais cêdo possível, primeiro pelo extase, depois pela morte. A cultura inglesa, de sentido ocidental - importada em consequencia da conquista - mudou o nosso conceito de vida. Digo nosso para dizer dos intelectuais, pois a turba permaneceu, durante séculos, refrataria á mensagem européa da liberdade politica. O primeiro a sentir-se impregnado das idéias ocidentais fui eu e tornei-me o guia dos hindús exatamente por que sou o menos hindú dos meus irmãos. 

"Si o senhor lêr os meus livros e acompanhar a minha propaganda, verá claramente que quatro quintos da minha cultura e de minha educação espiritual e politica são de origem européa. Tolstoï e Ruskin são os meus verdadeiros mestres. O Cristianismo, mais do que o Budismo, me inspirou a minha teoria da não resistencia. Traduzi Platão, admiro Mazzini, meditei sobre Bacon, sobre Carlyle, sobre Böhme, servi-me de Emerson e de Carpenter. As minhas idéias sobre a necessidade da desobediencia procedem de Thoreau, o sabio soltiario de Concord; e a minha campanha contra as maquinas é uma repetição da que os ludistas, quer dizer, os sequazes de Ned Lud, realizaram de 1811 e 1818 na Inglaterra. Finalmente, a poesia do homem belicoso manifestou-se-me lendo o episodio de Margarida no Fausto de Goethe. Como vê, as minhas teorias nada devem á India, veem todas da Europa, e especialmente dos escritores de lingua inglesa. Figure-se que só em Londres, em 1890, estudei a Bhagavad Gita, por indicação de Mrs. Besant, uma inglesa! E ao propugnar, hoje, por uma união entre hindús, maometanos, parsis e cristãos, nada mais faço do que seguir o principio da unidade religiosa, prégada pela Teosofia, creação essencialmente eropéia. Cumpre acrescentar que a minha condenação das castas deriva dos principios de igualdade da Revolução Francesa. 

"A história da Europa no século XIX teve sobre mim uma influencia decisiva. As lutas dos gregos, dos italianos, dos polacos, dos húngaros, dos eslavos do Sul para se subtraírem á dominação estranjeira, abriram-me os olhos. Mazzini foi o meu profeta. A teoria do Home Rule da Irlanda é o modelo do movimento em que eu chamei aqui de Hind Swarai. Introduzi, portanto, na India, um principio absolutamente estranho á mentalidade hindú. Os hindús, homens metafísicos e cordatos, sempre consideraram a politica uma atividade inferior: si é necessario um poder e si ha gente que o queira exercer - pensavam - deixemo-los agir, será um incomodo a menos para nós. O hindú vive no reino do espirito puro, aspira a eternidade. Que importa os governem rajahs indigenas ou imperadores estranjeiros? Por isso suportamos, durante séculos, o dominio mongol e o maometano. A seguir, vieram os franceses, os holandeses, os portugueses, os ingleses; estabeleceram feitorias na costa, avançaram para o interior: deixamo-los fazer. São os europeus, e unicamente os europeus, os responsaveis pelo nosso desejo atual de repelir os europeus. As suas idéias nos transformaram, isto é, desindianizaram, e então, convertidos em discipulos dos nossos amos, nasceu em nós o desejo de já não querermos amos. O que mais saturado está de pensamento inglês é, por isso, o destinado a ser o chefe da cruzada anti-inglesa. Não se trata aqui, como presumem os jornalistas europeus, de uma luta entre o Ocidente e o Oriente. Ao contrario: o europeismo impregnou por tal fórma a india que nos vimos obrigados a levantarmos contra a Europa. Si a India houvesse permanecido puramente hindú, quer dizer, fiel ao Oriente, toda contemplativa e fatalista, nenhum dos nossos teria pensado em sacudir o jugo inglês. No momento em que traí o espirito antigo da minha patria, apareci como o libertador da India. As idéias européias através do meu proselitismo - ótimamente preparado pela cultura inglesa difundida nas nossas escolas - penetrou nas multidões e já não ha remedio. Um hindú autentico póde tolerar a escravidão; um hindu anglicanizado quer ser o dono da India, como os ingleses da Inglaterra. Os maiores anglófilos - como eu era até fins de 1920 - são necessariamente, anti-britanicos. 

"Este é o verdadeiro segredo do que se chama "movimento gandista"; mas que se deveria mais propriamente denominar movimento dos hindús convertidos ao europeismo contra os europeus renegados, isto é, contra os ingleses que morreriam de vergonha si os franceses ou os alemães fossem mandar no seu país, e que, entretanto, pretendem governar, com a desculpa da filantropia, um país que lhes não pertence. Mudastes-nos a alma e já agora nós não queremos saber de vós! Lembra-se do Aprendiz de Mago, de Goethe? Os ingleses despertaram em nós o demonio da politica, que dormia no fundo do nosso espirito de ascetas desinterassados, e já agora não sabem como fazê-lo desaparecer. Peior para êles!"

Havia já alguns minutos que um discipulo entrára no quarto e fizéra, silenciosamente, um sinal ao Maatma. Assim que êle terminou de falar, pus-me de pé para deixá-lo em liberdade e, depois de lhe haver agradecido as inesperadas informações, regressei de automovel para Amedabad.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Bela Aldeia, Bela Chama / Lepa Sela Lepo Gore (1996)


Sinopse: O ano é 1980. Halil, um muçulmano, e Milan, um sérvio, são amigos na Iugoslávia. Os dois meninos cresceram juntos. Eles moravam perto de um túnel inacabado, o Túnel da União e da Fraternidade, que deveria ligar Em 1980, Halil e Milan são amigos de infância.

Cresceram juntos, morando perto de um túnel inacabado, que deveria ligar Belgrado a Zagreb. Nenhum dos dois tem coragem de entrar lá dentro - um espaço povoado por ogros, fantasmas e monstros.

Doze anos depois, estoura a guerra da Bósnia e os dois, agora adultos, encontram-se em lados opostos. Os soldados sérvios se embriagam e passam à destruição sistemática de aldeias inteiras, assassinando homens, velhos e crianças.

Um dia, um batalhão sérvio é emboscado no túnel por seus inimigos muçulmanos. O cerco dura dias. Presos sob imensa tensão, sem água nem comida, tendo como refém uma jornalista americana, os soldados passam a encenar histórias e trocar idéias sobre assuntos inusitados: a Coca-Cola, o comunismo, os sonhos da juventude, o consumo, a guerra dos sexos.


Comentário:

O filme da Guerra Bósnia do diretor Srjdan Dragojevic "Bela Aldeia, Bela Chama" é um filme surpreendente sobre dois amigos separados devido a uma guerra. Milan é um Sérvio e Halil é um muçulmano. Eles são melhores amigos e apreendemos sobre suas vidas através de suas memórias. O filme é construído fora da sequência, de modo que vemos Milan no hospital e através de vários flashbacks testemunhamos o que levou-o para o hospital. Uma das imagens do filme que destaca-se em minha mente é a inauguração do Túnel da Paz de 1980. Durante a celebração um homem corta seu dedo em vez da fita. E então, somos forçados a nos mover até o presente onde a paz está longe de qualquer circunstância. Os dois amigos, como crianças, com medo de entrar no túnel por temerem um ogro que vive lá dentro. Todos cresceram e, no calor da batalha, Milan e seu esquadrão se escondem dos muçulmanos naquele túnel, presos por dias em um extenuante impasse entre os Sérvios e os muçulmanos. Eles quase se tornam os ogros. Mulan se lembra dos bons momentos com Halil, antes que a guerra estivesse iniciado. Um caminhão de suprimentos médicos dirigido por um viciado em recuperação fica preso também no túnel, junto com uma jornalista americana que está escondida. O filme é muito realista, mas, ao mesmo tempo é apto a nos jogar em um humor negro. Mesmo quando Mulan está no hospital quase sem poder se mover, ele ainda está furioso e convicto para matar um soldado Bósnio que está ao seu lado. Tudo que ele consegue pensar é sobre sua mãe e sua família que está morta, e seu companheiro que está quase morto. Seu outro amigo, o professor, tenta confortá-lo e convencê-lo que a vingança não vale a pena. Daquele ponto em diante o filme se torna mais e mais psicologicamente perturbador. Há tanta coisa neste filme que é difícil descrever a não ser que você já tenha conhecimento sobre o conflito na Bósnia. "Bela Aldeia, Bela Chama" está longe de ser um filme de guerra hollywoodiano. Mesmo que o filme seja contado de uma perspectiva da Sérvia, nenhum ato militar é justificado. Este deve ser um dos filmes mais tristes que já vi. Outra imagem que me assombra, até mesmo depois do fim do filme, é a cena em que o chão está coberto de cabeças e pés de vários corpos, incluindo crianças. Música emocional de acordeão toca ao fundo, de uma maneira natural e brutal da guerra mostrado de uma maneira que nenhum filme Hollywoodiano seria capaz de fazer. "Bela Aldeia, Bela Chama" é um dos melhores e mais subestimados filmes de guerra de todos os tempos. Assista-o para lembrar-se de como terrível e triste a guerra é. É um filme tenso e dramático que continua com você, mesmo depois de terminado. 

sábado, 24 de agosto de 2013

O Ex-Covarde (Nelson Rodrigues)

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.



O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.


Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.



Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.


Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".


RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Príncipe Charles e o Tradicionalismo

Temenos foi desde o início, de certo ponto, um jornal Tradicionalista. O jornal atraiu a atenção de Sir Laurens van der Post, um amigo Sul Africano e seguidor de Jung e previamente ambientalista. Van der Post foi por muitos anos um amigo próximo ao Príncipe Charles, o herdeiro do trono Britânico, e tem sido visto como um mentor espiritual do Príncipe Charles. Em 1992, van der Post mostrou o jornal Temenos ao Príncipe, que gostou o suficiente para querer conhecer Raine, a fundadora do jornal. O Príncipe, em seguida, incentivou-a para criar a Academia Temenos, fazendo parte da Fundação do Príncipe, um órgão que atua como um guarda-chuva de seus projetos culturais.

Príncipe Charles é mais anti-modernista do que um tradicionalista, embora, evidentemente, admira Burckhardt e suas influencias Tradicionalistas são cada vez mais visíveis em alguns de seus discursos. Em 2000, por exemplo, na sua posição de Alto Comissário da Igreja da Escócia, o príncipe Charles se dirigiu à Assembléia Geral da Igreja, como segue:

"Estamos cada vez mais imersos em uma era secular que está em perigo de ignorar, ou esquecer, todo o conhecimento do sagrado e espiritual, e todos os princípios de ordem e harmonia que se encontram no centro do universo... Tenho o maior respeito pelos trabalhos da mente racional... mas o risco inerente... é que estamos em perigo de desequilibrar nossas vidas... A Tradição e a sabedoria perene que subjaz nosso mais profundo entendimento do mundo visível e invisível, está sendo desvalorizada ou ignorada."

O Tradicionalismo pode também estar por trás de uma abordagem do Islam que é muito mais simpática do que é na vida pública britânica. Em 1993, em um discurso dado na abertura do Centro Oxford para Estudos Islâmicos, do qual o Príncipie Charles é patrono, ele falou vigorosamente contra os mal-entendidos e os temores ocidentais ao Islam, sublinhando a importância da "visão monoteísta comum" do Islam e do Cristianismo e falando sobre a necessidade de "além de uma dimensão materialista, uma dimensão metafísica nas nossas vidas". A reação a esse discurso mostra as dificuldades encontradas pelo Tradicionalismo Suave em todos lugares: o jornal de circulação em massa, Evening Standard, informou sobre o discurso sob o título  "Charles ataca as mentiras de Saddam Hussein", concentrando-se em uma referência local e ignorando a substância quase inteiramente  a substância do discurso do Príncipe Charles. Não foi todos os jornais britânicos que tomaram essa linha, é claro, mas no final, o dicurso fez mais a imagem do Príncipe Charles no mundo islâmico do que para a imagem do Islam na Grã-Bretanha.

A organização mais importante dentro da Fundação do Príncipe do Instituto Temenos é o Instituto de Arquitetura do Príncipe Walles (fundada em 1992), que, como o próprio Príncipe  é mais anti-modernista do que Tradicionalista. A outra organização educacional, entretanto é, inteiramente Tradicionalista. Este é o Programa de Artes Islâmicas Visuais e Tradicionais (VITA), que foi fundada em 1984 por Keith Critchlow e se juntou a Fundação do Príncipe em 1993. VITA oferece o mestrado em artes, mestrado em filosofia e cursos de pós doutorado, atraindo certa de vinte estudantes por ano. Os cursos são extremamente práticos, ensinando os alunos a produzirem trabalhos impressionantes - miniaturas seguindo o padrão Mogul, telhas seguindo o padrão Ottomano e mosaicos com caligrafia e geometria de inspiração Islamica. Na medida em que o elemento teórico  é puramente Tradicionalista - obras do Guenon, Schuon, Coomarasawamy e outros escritores do tipo. Os tutores de visita incluía Nasr e Lings. As reações de alunos do VITA para o componente Tradicionalista do seu curso variam: alguns sentem que foram enganados (não é isso que eles se inscreveram), alguns aceitam uma abordagem Tradicionalista às artes, em maior ou menor grau, e alguns são suficientemente interessados em ir mais longe, ocasionalmente ingressar Maryamiyya, que é bem representado entre os docentes VITA.

[...]


Existe limites, entretanto, o que mesmo o Príncipe Charles pode fazer pelo Tradicionalismo no Ocidente contemporâneo. A maior parte da imprensa popular britânica recebe rotineiramente seu ponto de vista e suas atividades com uma mistura de hostilidade e ridicularização, mesmo em um artigo simpático pode terminar da seguinte forma: "É evidente que alguns de seus súditos estão cientes que as teorias do Príncipe Charles são estranhas, se não malucas. O aspecto filosófico e espiritual de sua cruzada [contra o materialismo] é considerada ou constrangedora ou sem sentido em algumas partes do reino."


Trecho do livro Contra o Mundo Moderno: Tradicionalismo e a História Secreta do Intelectualismo do Século XX - Mark Sedgwick 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Culpa Probabilística (Aleksandr Solzhenitsyn)



"Sucede que nesse ano de sinistra memória, num discurso que se tornou célebre nos círculos especializados, Andrei Ianuariévtch Vichinski, fazendo apelo ao espírito flexível da dialética (que não é permitida aos simples súditos do Estado, nem agora às máquinas eletrônicas, que dado que para eles o sim é sim, e o não é não), lembrou que, para a humanidade, nunca é possível estabelecer a verdade absoluta, mas apenas a verdade relativa. E vai daí deu um passo que os juristas metafísicos não tinham ousado dar em dois mil anos: o de que, em consequência, a verdade estabelecida pela instauração do processo e pelo próprio processo não pode ser absoluta, mas simplesmente relativa. Assim, ao assinar uma sentença de fuzilamento nós nunca podemos estar absolutamente convictos de executar o culpado, mas só com um certo grau de aproximação, baseados em certas suposições, num certo sentido. Daí a conclusão mais prática: a de que é tempo perdido buscar provas documentais absolutas (elas são todas relativas) e testemunhas irrefutáveis (elas podem contradizer-se). Quanto às provas relativas, ou aproximativas, o juiz pode muito bem obtê-las mesmo sem documentos, sem sair do seu gabinete , “apoiando-se não só na sua inteligência, mas também na sua intuição de membro do Partido nas suas forças morais” (isto é, na superioridade do homem que dormiu, que está saciado e não foi espancado ) “e no seu caráter” (ou seja, na sua vontade ou crueldade)."


Alexander Soljenítsin - Arquipélago Gulag 

domingo, 11 de agosto de 2013

O Navio dos Tolos (Ted Kaczynski)

Era uma vez, um capitão e os imediatos de um navio que ficaram tão vaidosos de sua marinheiraria, tão cheios de insolência e tão impressionados com eles mesmos, que eles enlouqueceram. Eles viraram o navio para o norte e velejaram até eles encontrarem com icebergs e campos de gelo, e eles continuaram a velejar para o norte para águas mais e mais perigosas, somente para dar-lhes oportunidades para realizarem façanhas cada-vez-mais-brilhantes de marinheiraria.

À medida que o navio alcançava latitudes cada vez mais altas, os passageiros e a tripulação ficaram cada vez mais desconfortáveis. Eles começaram a terem disputas entre eles e a se queixarem das condições em que viviam.



"Meus ossos tremem", disse um marinheiro hábil, "se essa não é a pior viagem que eu já estive. O convés está escorregadio com gelo; quando eu estou de vigia o vento corta pela minha jaqueta como uma faca; toda vez que eu enrolo as velas eu quase congelo meus dedos; e tudo que eu ganho com isso são miseráveis cinco xelins por mês!"

"Você acha que está mal!" disse uma dama passageira. "Eu não consigo dormir à noite por causa do frio. As damas nesse navio não têm a mesma quantia de cobertores do que os homens. Não é justo!"

Um marinheiro mexicano soou junto: "¡Chingado! Eu só estou ganhando a metade do salário dos Anglo marinheiros. Nós precisamos de bastante comida para nos mantermos quentes nesse clima, e eu não estou ganhando a minha parte; os Anglos ganham mais. E o pior de tudo é que os imediatos sempre me dão ordens em Inglês ao invés de em Espanhol."

"Eu tenho mais razão para reclamar do que todos," disse um marinheiro Índio Americano. "Se os cara-pálida não tivessem me roubado de minhas terras ancestrais, eu nem estaria nesse navio, aqui entre icebergs e ventos árticos. Eu só estaria remando em uma canoa em um lago agradável e plácido. Eu mereço compensação. No mínimo, o capitão deveria permitir que eu organizasse um jogo de dados para que eu pudesse ganhar algum dinheiro."

O contramestre falou: "Ontem o primeiro imediato me chamou de "fruta" só porque eu chupo paus. Eu tenho direito chupar paus sem ser chamado de nomes por isso!"

"Não são apenas os humanos que são maltratados nesse navio," exclamou um amante de animais entre os passageiros, sua voz tremendo de indignação. "Ora, semana passada eu vi o segundo imediato chutar o cachorro que vive no navio duas vezes!"

Um dos passageiros era um professor universitário. Apertando suas mãos ele exclamou,

"Isso tudo é terrível! É imoral! É racismo, sexismo, especismo, homofobia, e exploração da classe trabalhadora! É discriminação! Nós temos que ter justiça social: Salários iguais para o marinheiro Mexicano, maiores salários para todos os marinheiros, compensação para o Índio, cobertores iguais para as damas, um direito garantido para chupar paus, e não mais chutar o cachorro!"

"Sim, sim!" gritaram os passageiros. "Ai-ai!" gritou a tripulação. "É discriminação! Nós temos que exigir nossos direitos!"

O camaroteiro limpou sua garganta.

"Ha-ham. Todos vocês têm boas razões para se queixar. Mas me parece que o que nós realmente precisamos fazer é virar esse navio e rumar de volta para o sul, porque se nós continuarmos indo para o norte nós com certeza iremos cedo ou tarde naufragar, e então seus salários, seus cobertores, e seu direito de chupar paus não vão te adiantar nada, porque nós todos iremos afogar."

Mas ninguém prestou atenção nele, porque ele era apenas o camaroteiro.

O capitão e os imediatos, de seus postos na popa, estavam observando e ouvindo. Agora eles sorriam e piscavam-se entre si, e com um gesto do capitão o terceiro imediato desceu da popa, passeou para onde os passageiros e a tripulação estavam reunidos, e abriu caminho entre eles. Ele fez uma expressão muito séria em sua face e disse exatamente assim:

"Nós oficiais temos que admitir que algumas coisas realmente indesculpáveis têm acontecido nesse navio. Nós não havíamos percebido o quão ruim a situação estava até ouvirmos suas queixas. Nós somos homens de boa vontade e queremos fazer o certo para vocês. Mas - bem - o capitão é um tanto conservador e tem seus modos, e talvez tenha que ser cutucado um pouco antes dele fazer quaisquer mudanças substanciais. Minha opinião pessoal é que se vocês protestarem vigorosamente - mas sempre pacificamente e sem violar quaisquer das regras do navio - vocês irão tirar o capitão da inércia e forçá-lo a ele dar atenção aos problemas dos quais vocês se queixam tão justamente."

Tendo dito isso, o terceiro imediato dirigiu-se de volta para a popa. Enquanto ele ia, os passageiros e a tripulação gritaram para ele, "Moderado! Reformista! Bom-liberal! Bobo do capitão!" Mas contudo eles fizeram como ele disse. Eles se reuniram em um grupo ante a popa, gritaram insultos aos oficiais, e exigiram seus direitos: "Eu quero maiores salários e melhores condições de trabalho," clamou o marinheiro hábil. "Cobertores iguais para as mulheres," clamou a dama passageira. "Eu quero receber minhas ordens em Espanhol," clamou o marinheiro Mexicano. "Eu quero o direito de organizar um jogo de dados," clamou o marinheiro Índio. "Eu não quero ser chamado de fruta," clamou o contramestre. "Sem mais chutar o cachorro," clamou o amante de animais. "Revolução agora," clamou o professor.

O capitão e os imediatos se amontoaram e deliberaram por vários minutos, piscando, concordando com a cabeça e sorrindo uns aos outros enquanto isso. Então o capitão deu um passo à frente da popa e, com uma grande demonstração de benevolência, anunciou que o salário do marinheiro hábil seria aumentado para seis xelins por mês; o salário do marinheiro Mexicano seria aumentado para dois-terços dos salários dos Anglo marinheiros, e a ordem para enrolar as velas seria dada em Espanhol; as damas passageiras iriam receber um cobertor a mais; o marinheiro Índio seria permitido de organizar um jogo de dados nos Sábados à noite; o contramestre não seria chamado de fruta contanto que ele mantivesse a sua chupação de pau estritamente privada; e o cachorro não seria chutado a menos que ele fizesse algo realmente malcriado, como roubar comida da cozinha do navio.

Os passageiros e a tripulação celebraram essas concessões como uma grande vitória, mas na manhã seguinte, eles estavam novamente se sentindo insatisfeitos.

"Seis xelins por mês é uma ninharia, e eu ainda congelo meus dedos quando enrolo as velas," resmungou o marinheiro hábil. "Eu ainda não estou ganhando os mesmos salários dos Anglos, ou comida suficiente para esse clima," disse o marinheiro Mexicano. "Nós mulheres ainda não temos cobertores suficientes para nos manterem aquecidas," disse a dama passageira. Os outros tripulantes e passageiros exprimiram queixas similares, e o professor os encorajou.

Quando eles terminaram, o camaroteiro falou - mais alto dessa vez para que os outros não pudessem ignorá-lo facilmente:

"É realmente terrível que o cachorro seja chutado por roubar um pedaço de pão da cozinha do navio, e que as mulheres não tenham cobertores iguais, e que o marinheiro hábil tenha seus dedos congelados; e eu não vejo porque o contramestre não deva chupar paus se ele quiser. Mas olhem quão densos os icebergs estão agora, e como o vento sopra cada vez mais severo! Nós temos que virar esse navio de volta para o sul, porque se nós continuarmos indo para o norte nós iremos nos naufragar e afogar."

"Oh, sim," disse o contramestre, "É realmente horrível que nós continuemos rumando ao norte. Mas porque eu tenho que continuar chupando paus no armário? Porque eu tenho que ser chamado de fruta? Eu não sou bom como todos os outros?"

"Velejar ao norte é terrível," disse a dama passageira. "Mas você não vê? É exatamente por isso que as mulheres precisam de mais cobertores para mantê-las aquecidas. Eu exijo cobertores iguais para as mulheres agora!"

"É realmente verdade," disse o professor, "que velejar para o norte impõe grandes apuros em todos nos. Mas mudar o rumo em direção ao sul seria irrealístico. Você não pode voltar o relógio. Nós devemos encontrar um modo maduro de lidar com a situação."

"Olhem," disse o camaroteiro, "Se nós deixarmos esses quatro loucos lá na popa fazerem como querem, nós todos nos afogaremos. Se nós conseguirmos retirar esse navio do perigo, então nós poderemos nos preocupar com as condições de trabalho, cobertores para mulheres, e o direito de chupar paus. Mas primeiro nós temos que virar essa embarcação para o outro lado. Se alguns de nós nos juntarmos, fizermos um plano, e demonstrarmos alguma coragem, nós podemos nos salvar. Não seria preciso muitos de nós - seis ou oito dariam. Nós poderíamos atacar a popa, atirar aqueles lunáticos ao mar, e virar o navio para o sul."

O professor elevou seu nariz e disse austeramente, "Eu não acredito em violência. É imoral."

"Não é ético usar violência jamais," disse o contramestre.

"Eu tenho pavor de violência," disse a dama passageira.

O capitão e os imediatos estavam observando e ouvindo durante tudo aquilo. A um sinal do capitão, o terceiro imediato desceu para o convés principal. Ele passou pelos passageiros e a tripulação, dizendo que ainda haviam muitos problemas no navio.

"Nós fizemos muito progresso," disse ele, "Mas resta muito ainda a ser feito. As condições de trabalho para o marinheiro hábil ainda são duras, o Mexicano ainda não está ganhando os mesmos salários dos Anglos, as mulheres ainda não têm o mesmo tanto de cobertores que os homens, o jogo de dados aos Sábados à noite do Índio é uma compensação insignificante por suas terras perdidas, é injusto para o contramestre que ele tenha que manter sua chupação de pau no armário, e o cachorro ainda é chutado às vezes."

"Eu acho que o capitão precisa ser cutucado novamente. Iria ajudar se vocês todos fizessem outro protesto - contanto que ele permaneça não-violento."

Enquanto o terceiro imediato caminhava de volta à popa, os passageiros e a tripulação gritaram insultos para ele, mas eles mesmo assim fizeram o que ele disse e se reuniram à frente do convés da popa para outro protesto. Eles discursaram e se enfureceram e brandiram seus punhos, e eles até mesmo atiraram um ovo podre no capitão (que ele se esquivou habilmente).

Após ouvir as queixas, o capitão e os imediatos se amontoaram para uma conferência, durante a qual eles piscaram e ficaram amplamente risonhos entre eles. Então o capitão deu um passo à frete do convés da popa e anunciou que seria dado luvas ao marinheiro hábil para manter seus dedos aquecidos, o marinheiro Mexicano iria receber salários iguais a três-quartos dos salários de um Anglo marinheiro, as mulheres iriam receber mais um cobertor, o marinheiro Índio iria poder organizar um jogo de dados nas noites de Sábados e Domingos, o contramestre seria permitido a chupar paus após escurecer, e ninguém poderia chutar o cachorro sem permissão especial do capitão.

Os passageiros e a tripulação estavam em êxtase sobre essa grande vitória revolucionária, mas pela manhã seguinte eles estavam novamente se sentindo insatisfeitos e começaram a resmungar sobre os mesmos velhos sofrimentos.

O camaroteiro dessa vez estava ficando furioso.

"Seus tolos malditos!" ele gritou. "Vocês não vêem o que o capitão e os imediatos estão fazendo? Eles estão mantendo vocês ocupados com suas queixas triviais sobre cobertores e salários e o cachorro sendo chutado para que vocês não pensem sobre o que realmente está errado com esse navio --- que ele está indo cada vez mais longe para o norte e nós todos iremos nos afogar. Se somente alguns poucos de vocês recuperarem a razão, se juntarem, e atacarem o convés da popa, nós poderemos virar esse navio de volta e nos salvarmos. Mas tudo o que vocês fazem é choramingar sobre questões insignificantes e triviais como condições de trabalho e jogos de dados e o direito de chupas paus."

Os passageiros e a tripulação estavam exasperados.

"Insignificantes!!" gritou o Mexicano, "Você acha que é razoável que eu ganhe somente três-quartos dos salários de um Anglo marinheiro? Isso é trivial?"

"Como você pode chamar minha queixa de trivial?" gritou o contramestre. "Você não sabe quão humilhante é ser chamado de fruta?"

"Chutar o cachorro não é uma "questão insignificante e trivial!" berrou o amante de animais. "É insensível, cruel, e brutal!"

"Tudo bem então," respondeu o camaroteiro. "Essas questões não são insignificantes e triviais. Chutar o cachorro é cruel e brutal e é humilhante se chamado de fruta. Mas em comparação com o nosso problema real - em comparação com o fato de que o navio ainda está rumando ao norte - suas queixas são insignificantes e triviais, porque se nós não virarmos esse navio logo, nós todos iremos nos afogar."

"Fascista!" disse o professor.

"Contra-revolucionário!" disse a dama passageira. E todos os passageiros e a tripulação soaram um após o outro, chamando o camaroteiro de fascista e de contra-revolucionário. Eles o afastarampra longe e voltaram a resmungar sobre salários, e sobre cobertores para mulheres, e sobre o direito de chupar paus, e sobre como o cão era tratado. O navio continuou a navegar para o norte, e após um tempo ele foi esmagado entre dois icebergs e todos morreram.



Ted Kaczynski, 1999

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Suécia: O Novo Totalitarianismo (Por Roland Huntford)

As palavras dos profetas do apocalipse são perversamente fascinante para os homens que amam se auto-flagelar. Portanto, quase não surpreende que, em toda a literatura de predições que floresceu com a ciência, as obras sobre lamentações conseguiram maior fama. Duas visões pessimistas do futuro já se tornaram folclore; dois pesadelos clássicos que muito provavelmente nos espera, dois esboços de uma prisão que parecem feitas para erguer-se em torno de nós mesmos com nossa ingenuidade desastrosa. As obras são, é claro, 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Admirável Mundo Novo foi publicado pela primeira vez em 1932; Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, em 1949. O tempo já mostrou o quão proféticos esses escritos são. Ambos adivinharam algo que agora está se tornando incômodo e aparente: a de que o avanço da ciência está produzindo um novo tipo de classe dominante, com poderes desconhecidos antes. Ambos predisseram a subserviência final dos seres humanos a um híbrido revolucionário de manipulação tecnológica e de gestão política.




Mas, embora ambos aparentam ser semelhantes, Admirável Mundo Novo parece mais aplicável ao Ocidente no nosso tempo. Enquanto 1984 descreve a conclusão lógica de uma ditadura Comunista, o clímax da Revolução Bolchevique, como se mostrou, Admirável Mundo Novo apresenta a corrupção final do estilo de vida ocidental. Esse é o cerne da diferença. Orwell postula um reino de terror para garantir a posição da nova classe dominante, mas Huxley supõe que são os avanços científicos que os trazem para o poder e também, necessariamente, induzem a uma mudança da mentalidade, de modo que a compulsão física é desnecessária.

Huxley, embora que descreva que certos desenvolvimentos estão se tornando familiar, assume a necessidade das mudanças políticas e se concentra nos resultados humanos. Se tornou um clichê dizer que este ou aquele fenômeno é um pedaço do Admirável Mundo Novo, e isso se tornou tão evidente ao ponto de ser banal que certos aspectos se mova em direção de sua realização no Ocidente. Nós demos os primeiros passos para os bebês de proveta e a engenharia genética; cultos de drogas alucenógenas e suas "viagens", da mesma forma que os habitantes do Admirável Mundo Novo tomam umas "férias" com o "soma; atitudes mecânicas ao sexo; a mutabilidade do passado e a adoração da tecnologia. Mas para focar em tudo isso, com suas várias facetas desenhadas num só sistema, é uma coisa bastante difícil.


E ainda assim, muita das necessidades científicas já estão conosco. Nós temos contraceptivos infalíveis, comunicação ilimitada, energia elétrica e aparelhos tecnológicos em abundância. Sua correta aplicação espera somente pela máquina social eficiente: ciência, como sempre, está muito a frente da política.

A vitória da tecnologia sobre o homem, diz Huxley, em uma de suas edições posteriores do seu romance, depende somente de um governo totalitário altamente centralizado. Mas, ele diz, não há nenhuma razão para que o novo totalitarianismo seja semelhante ao antigo. O governo através do uso de esquadrões ... não é meramente desumano.... é comprovadamente ineficiente, e em uma era de tecnologia avançada, ineficiência é um pecado contra o Espírito Santo.    Um estado totalitário realmente eficiente seria aquele que o todo-poderoso chefe político e seu exército de administradores  controlasse a população de escravos sem precisar do uso da força, pois eles amam a sua servidão.

De todos os povos, são os suecos que estão mais próximos a este estado de coisas. Eles possuem todo o fundo e as predileções necessárias. Fora a Russia, somente eles compreenderam a necessidade de adaptar a política à tecnologia, sem se preocupar com dúvidas ou restrições. Eles oferecem o primeiro exemplo de um sistema que cumpre a profecia de Huxley. Um acidente histórico e idiossincrasias nacionais levaram a Suécia à frente no caminho para o Admirável Mundo Novo. Mas mesmo sendo isolada, inata e não totalmente ocidental, ela apresenta um estado que não pode ser descartado como algo estranho e excêntrico, um curioso a ser examinado, que não implica nada para o resto de nós. Tudo que está entre nós e a Suécia é um certo escudo protetor garantido pela herança da Europa Ocidental. Mas ele é frágil e está sendo corroído de dentro pra fora. Observar os Suecos pode ser observar nosso futuro.

Para começar, diza Huxley, o Admirável Mundo Novo depende da segurança econômica; sem isso, o amor a servidão é impossível. E neste aspecto, a fundação do "novo totalitarianismo" na Suécia está bem avançado. Ela resolveu o problema da segurança e aboliu os enclaves da angústia dentro de uma prosperidade coletiva. Ela foi ajudada por um século e meio de paz, isolação e neutralidade, por ser pequeno e facilmente governado e por ser povoado nas proporções de seus recursos naturais.

Segurança econômica por si só, não implica necessariamente um amor de servidão. São necessárias outras condições: do lado dos governantes, uma profunda compreensão da interação entre economia e poder, do lado dos governados, submissão à autoridade e uma reverência aos especialistas. Além disso, em ambos os casos, uma aversão a individualidade, um instinto para o coletivo, uma suspeita de instituições parlamentares, a adoração do Estado e uma preferência para o governo  burocrata e não por políticos.

Durante toda a sua história, os suecos têm consistentemente cumprido estas especificações. Foi assim que se deu o estabelecimento tecnopolítico que levou tomou o poder na Suécia por uma revolução científica e industrial que encontrou uma população singularmente maleável para manipular, e que tem sido capaz de alcançar resultados rápidos e quase indolor. A Suécia de 1973 carrega pouca semelhança a si mesma de 1930, da mesma forma como a União Soviética de hoje comparado a Rússia czarista. Foi nos últimos quarenta anos, particularmente desde 1950, que a metamorfose sueca ocorreu.

É o produto do Partido Social Democrata, que chegou ao poder em 1932 e foi continuamente se dividindo para manter-se no governo, no poder por mais de quatro décadas. Seu sistema provou ser uma ferramenta incomparável para aplicar a tecnologia na sociedade. Eles mudaram a natureza do governo, tornando-a uma questão de economia e tecnologia somente.  Os políticos perderam a sua importância na Suécia, suplantados por um tipo de oligarquia tecnocrática, que aparentemente é indiscutível, porque seus princípios são universalmente aceitos. Daí em diante, as mudanças da composição política é pouco provável pois significa mudanças nas circunstâncias atual, o mesmo desenvolvimento, então, é de se esperar de qualquer partido que tome o poder.

Visualizar isso é preocupante. Não é como se os suecos eram dotados de originalidade na política. Eles são imitadores e assimiladores. Eles não possuem chaves mágicas. Eles mostraram que já existem os meios para construir a fundação do Admirável Mundo Novo. Neste sentido, eles demonstraram que Huxley não previu algo muito distante.

Segurança [ele diz no referido comentário sobre Admirável Mundo Novo] tende muito rapidamente ser adquirida. Sua conquista é meramente superficial, uma revolução externa. O amor à servidão não pode ser estabelecida tão facilmente somente como resultado de uma revolução pessoal na mente e no corpo humano. Para trazer essa revolução, é necessário, entre outras, as seguintes descobertas e invenções. Primeiro, uma técnica muito melhorada para o condicionamento infantil e, depois, uma ajuda de medicamentos, como a escopolamina. Segundo, uma ciência completamente desenvolvida sobre as diferencias humanas, permitindo o governo atribuir qualquer individuo para seu lugar propício na hierarquia social e econômica. (Pinos redondos em buracos quadrados tendem a ter pensamentos perigosos sobre o sistema social e podem infectar os outros com seus descontentamentos). Terceiro (a realidade, mesmo Utópica, há uma necessidade das pessoas sentirem que precisam de férias frequentemente), um substituto para o álcool e outros narcóticos, algo menos nocivo e que dê mais prazer que um gin ou heroína.  E quarto (mas este seria um projeto a longo prazo, o que levaria gerações de controle totalitário para levar a uma conclusão bem-sucedida) um sistema infalível de eugenia, destinado a padronizar o produto humano e, assim, facilitar a tarefa dos gestores.

A concretização dos suecos que tem mostrado que isso pode ser feito sem estas manifestações de perfeição. Eles mostraram que através da "revolução da mente humana e do corpo" pode ser realizada através de, num grau notável, métodos já disponíveis. Eles demonstraram, por exemplo, que a doutrinação relativamente bruta oferecida pela televisão e a educação convencional podem propor grandes possibilidades, fornecidas apenas se houver um controle centralizado e efetivo de ambos. Eles provaram o quão poderosos são os agentes que induzem o amor a servidão. Eles são os primeiros Novos Totalitários.

Na busca para que as profecias sejam cumpridas, é útil fazer uma excursão em 1984. Os suecos têm demonstrado o poder da manipulação semântica chamado Novilíngua: a mudança das palavras para que signifique outra coisa. Desta forma o pensamento pode ser direcionado, e conceitos indesejáveis eliminados, porque o meio de se expressar foram removidos. "Liberdade" ainda não existe em Sueco, como na criação do Ministério da Verdade de Orwell, significa exatamente "escravidão", mas na Suécia já implica em "submissão", e uma palavra poderosa do vocabulário da oposição foi assim neutralizada. Da mesma maneira, é extremamente difícil falar de forma negativa para o Estado, porque as palavras já carregam em si como algo positivo.

Mas, por outro lado, Admirável Mundo Novo já é suficiente. "A civilização industrial somente é possível" diz Mustapha Mond, "quando não existe a auto-negação. A auto-indulgência deve ser levada ao seu limite pela higiene e a economia. Caso contrário, as rodas param de girar." Isto é precisamente o que os governantes da Suécia estão tentando dizer, embora não tão diretamente, mas sim com uma maior verbosidade.
Os suecos descobriram outros dispositivos, extremamente úteis para induzir o "amor à servidão", na manipulação da sexualidade e o apoio oficial nas mudanças na moral. É um erro pensar que os suecos são particularmente avançados ou emancipados. Os ingleses não são menos sexualmente livres. Mas o que diferencia a Suécia é que a moralidade tornou-se uma preocupação do governo, onde em qualquer outro lugar ela é independente e que cresce com as mudanças dentro da sociedade.  

O crime máximo em Admirável Mundo Novo é se desviar da norma. A norma é inocente de éticas e moralidade. A situação já é uma doutrina na lei sueca. Foi-se a ideia do que é certo ou errado, ou sobre o conteúdo moral de uma ação. O crime agora é definido como um desvio social. O teste para saber se uma ofensa é punível somente depende se esta acarreta efeitos constrangedores sobre o coletivo. Analogamente, nas esferas não criminais o pior tipo de má-educação é ser diferente. A Suécia, assim como na Russia Soviética, pertence a um grupo de países que a "individualidade" é um termo pejorativo.

Tudo isso não é porque a Suécia é tão avançada, mas porque, em todos os sentidos, exceto o puramente tecnológico, ela é muito para trás. A Suécia é uma relíquia da Idade Média, um estado de corporações e comunas, e os suecos são povos medievais que vivem apenas como membros de um grupo. É uma situação ideal para a encarnação de Admirável Mundo Novo.


Assim como os governantes do Admirável Mundo Novo, os gestores da Suécia aboliram a história, a fim de cortar fora o passado e, dessa forma, desorientar o sentido do tempo para tornar as pessoas mais fáceis de serem manipuladas. Mas os líderes Suecos, de alguma forma, atuam historicamente e, com o controle privilegiado de Huxley, pelo menos eles estão conscientes de suas raízes históricas.


Trecho do livro Os Novos Totalitários por Roland Huntford