sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Mito da Ciência Exata

A última esperança da física mecânica clássica era de alcançar um ponto o qual todo casualismo pudesse ser deduzido e explicado. Os métodos da física clássica, em outras palavras, estavam apontados para a descoberta de uma lei universal. Este determinismo mecânico se mostra claramente na teoria de La Place, na qual descreve o mundo como um sistema de pontos materiais com relações fixas uns com os outros. Se estas relações são conhecidas, se as posições e os movimentos são conhecidos para qualquer tempo específico, então é possível, através do uso de equações diferenciais para frente e para trás, determinar o estado do mundo em qualquer momento do passado ou do futuro. Por exemplo, se nós obtivermos as condições da teoria de La Place, nós poderíamos ser capazes de redescobrir os trabalhos perdidos de Praxiteles ou dos pintores Gregos.

O problema dos limites dentro dos quais a física pode ser aplicada nunca é mencionado, ou a questão se as leis da natureza pode ou não estarem mudando com o curso do tempo.

Este determinismo restrito está, no momento, desaparecendo das leis das físicas que, em teoria, aparentam ser nada mais do que resultados estatísticos. A hipótese que a luz consiste de quantas e a apresentação da mecânica quântica por Heisenberg não pode mais ser reconciliada com os conceitos antigos. A mecânica quântica de Heisenberg, em particular, demonstra que nenhum método de medida pode obter dados absolutamente exatos de eventos minutos.

Esta hipótese da física teórica reflete um ato de resignação na mente dos físicos, em outras palavras, uma renúncia da tentativa de ir além de certas limitações. Eles restringem a validade das leis físicas em uma área limitada.[...] O conceito do universo então se torna mais elástico.

As propostas para esse efeito, no entanto, demonstram o desejo crescente de várias ciências para se tornar filosoficamente legítima. Isso é mais evidente na física, uma ciência que está virando mais uma vez filosofia, particularmente na sua ocupação com o conceito de tempo. Além disso, a física esta inconfundivelmente voltando-se para a teologia, e isso não é surpreendente. Para um cientista exato que acredita que ele se libertou de problemas teológicos, que está preocupado apenas com uma verdade e uma realidade que não conhecem o dogma, está entregando-se ao auto-engano. Ele pode fazer tais afirmações e fingir que ele está preocupado apenas com o conhecimento das leis que regem os processos da natureza. Que há ainda muito a ser concedido. Mas esse conhecimento não pode ser isolado e quem tenta isolar, consequentemente, não conseguirá uma plataforma independente para ficar; ele simplesmente perde de vista as inter-relações de todas as coisas. A teoria da evolução, os problemas dos fatores, a teoria da seleção – todas elas converge na ideia da criação. Dentro de outras, estas teorias dependem se nós assumimos um único ato de criação ou uma criação continua.

O problema da casualidade não pode ser tratado sem considerar a questão do livre-arbítrio ou determinação, e esta questão é intimamente ligada as doutrinas religiosas de predestinação. O mesmo é verdade para o problema de formas pré-estabelecidas e de toda teoria da hereditariedade. Conexões deste tipo podem ser traçadas direto de dentro das fundações da mecânica. E aqueles que acreditam que a lei da energia na física, ou que as ondas ou a mecânica quântica, ou a teoria cinética do calor foram “limpadas” dessas conexões filosóficas, simplesmente falham em entender que essas conexões são integrais e são formadoras da percepção em si. Neutralizá-las não significa liquidá-las. O cientista exato meramente fecha os seus olhos para elas. E ainda assim, ele prefere acreditar que só a mecânica possui exatidão. O matemático também assume que a matemática é a única fonte de exatidão. O que ele negligencia é que o conceito de exatidão, como que de propósito, é um conceito relativo, que recebe significado somente se as premissas são concedidos. Por exemplo, nós não podemos obter a absoluta exatidão de medidas, mas nós podemos fazer nossas medidas tão exatas quanto possíveis dentro de certas condições. Não existe o absoluto e universal conceito de perfeição, somente um específico resultado que satisfaça determinadas condições. Sendo assim, só existe um conceito específico de exatidão, e somente este conceito e nada mais é expressado na matemática e na exatidão casual.

Kant acreditava que só havia ciência enquanto houvesse a matemática. O mesmo erro pode ser encontrado no meio de diversos matemáticos e físicos que acreditavam que sozinhos possuiam a exatidão. Entretanto, o que eles possuem está apenas dentro do seu campo. Esta exatidão também se encontra nos movimentos dos animais, nas emoções e nas paixões do homem. O Hexâmetro de Homero ou a Ode Pindárica possui tanta exatidão quanto uma relação causal ou uma fórmula matemática. Mas esta ritmicidade e exatidão métrica é de uma outra e maior ordem. O fato de que esta não pode ser calculada não é razão de chamá-la menos exata do que os resultados disso ou daquela medida quantitativa.


Trecho do livro "O Fracasso de Tecnologia" - Friedrich Georg Jünger

Friedrich Georg Jünger (1 de Setembro de 1898, Hannover - 20 de julho 1977, a Überlingen) foi um poeta alemão, autor, ensaísta e crítico cultural. O irmão mais novo de Ernst Jünger, ele se ofereceu para o serviço militar em 1916 e ficou gravemente ferido na Batalha de Langemarck. Após a Primeira Guerra Mundial, ele estudou direito e cameralismo nas universidades de Leipzig e Halle-Wittenberg.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cristão: Um Niilista dos Valores Modernos

Para finalizar nossa discussão sobre niilismo, precisamos  estabelecer e nos abrir para a acusação de que nós, possuímos um niilismo de nossa própria maneira; nossa análise, pode-se argumentar, é "pessimista" ao extremo. Categoricamente rejeitando quase tudo realizado valioso e verdadeiro pelo homem moderno, estamos na semelhante posição da completa negação como no caso do mais extremo dos niilistas.

E, de fato, o cristão é, em certo sentido - em um sentido último - um "niilista", pois para ele, no final, o mundo não é nada, e Deus é tudo. Isso é, naturalmente, o exato oposto do niilismo que examinamos aqui, onde Deus é nada e o mundo é tudo; isso é um niilismo que sai do Abismo, os cristãos saem de um "niilismo" que procede da abundância. O verdadeiro niilista coloca sua fé em coisas efêmeras e que acabam em nada; todo "otimismo" sobre este fundamento é claramente inútil. O Cristão, renunciando a tal vaidade coloca sua fé em uma coisa que nunca acabará, o Reino de Deus.

Para quem vive em Cristo, é claro, muitos dos bens deste mundo podem ser deixados para trás, e ainda assim, o Cristão pode apreciá-los mesmo sabendo da evanescência dos bens; mas os bens não são necessários, são verdadeiramente nada para ele. Aquele que não vive em Cristo, por outro lado, já vive no Abismo, e nem  mesmo todos os tesouros deste mundo pode preencher seu vazio.

Mas isso é um mero artifício literário para chamar o nada e a pobreza do Cristão de "Niilismo"; na verdade eles estão em plenitude, abundância e alegria além da imaginação. E somente alguém cheio de tanta ambudância que pode enfrentar diretamente o Abismo para o qual o Niilismo conduziu os homens. Aquele que nega de forma mais extrema, o mais desiludido dos homens, só pode existir se dispensar pelo menos uma dessa analise destrutiva que possui. Esta é, de fato, a raiz psicológica da "nova era" a qual através dela o niilista deve colocar toda a sua esperança; aquele que não pode crer em Cristo deve, e irá, acreditar no Anticristo.

Niilismo: A Raiz da Revolução da Idade Moderna (Seraphim Rose)

Revolução Francesa (Donoso Cortés)

Donoso Cortés fala sobre Ditadura ao Parlamento Espanhol, 04 janeiro de 1849
Aqui, como em outros lugares as revoluções são sempre atribuídas a erros dos governos; os homens esquecem que as catástrofes universais, imprevistas e simultâneas são sempre providenciais; pois tal, senhores, são as características que distinguem as obras de Deus das obras do homem.

Quando as revoluções traem esses sintomas, não se esqueça de que eles vêm do céu e que eles vêm como resultado de nossos erros e para a punição de todos nós. Devo dizer-lhe a verdade, senhores, toda a verdade sobre as causas da última revolução francesa? A verdade, então, é que chegou o dia, no ultimo Fevereiro, do grande ajuste de contas com a Providência para todas as classes da sociedade, e que naquele terrível dia todas as classes foram consideradas em falência. Eu vou mais longe: a própria República, no dia da sua vitória, confessou que foi à falência. A República disse que estava caminhando para estabelecer no mundo o reino da liberdade, igualdade e fraternidade, três dogmas que não nasceram na República, mas no Calvário. O que, senhores, ela realizou desde então? Em nome da liberdade proclamou necessário e aceito uma ditadura. Em nome da igualdade, em nome do republicano, ela inventou um tipo curioso da democracia aristocrática tendo um ridículo brasão de armas. Por fim, em nome da fraternidade, esta restaurou a fraternidade da antiguidade pagã de Eteochus e Polinice: irmãos cortaram a garganta de irmãos nas ruas de Paris, na mais sangrenta batalha dos séculos que alguma vez já ocorreu dentro dos muros de  uma cidade. Eu desminto esta República que se diz a República das três verdades: esta é a República dos três blasfêmias, a República das três mentiras.

Vamos agora abordar as causas desta revolução. O partido progressista encontra sempre as mesmas causas para tudo. Senor Cortina disse-nos ontem que as revoluções ocorrem por causa de certas ilegalidades e porque os instintos das pessoas os fazem crescer uma reação de maneira uniforme e espontânea contra os tiranos. Senor Ordax Avecilla nos disse anteriormente: Se você quiser evitar a revolução, dê o pão pra quem tem fome. Aqui, em toda a sua sutileza, se encontra a teoria progressiva: as causas da revolução se encontram, por um lado, nas condições de pobreza e, por outro, na tirania. Esta teoria, senhores, é o contrário, absolutamente contrário, dos fatos históricos. Eu desafio qualquer pessoa a citar-me um exemplo de uma revolução que foi iniciada e levada até a sua conclusão por homens eram escravos ou famintos. As revoluções é uma doença dos povos ricos, dos povos livres. Os escravos formavam a grande parte da raça humana na antiguidade: diga-me uma revolução que alguns desses escravos já fez.

Tudo o que eles podiam fazer era fomentar algumas guerras de escravos, mas as revoluções profundas foram sempre o trabalho de ricas aristocracias. Não, senhores, o germe da revolução não é para ser encontrado na escravatura ou na situação de pobreza, o germe da revolução reside nos desejos da multidão, que são manipulados por líderes que os exploram para sua própria vantagem. "Você vai ser como os ricos" - tal é a fórmula de revoluções socialistas contra as classes médias. "Você vai ser como os nobres" - tal é a fórmula das revoluções feitas por classes médias contra a aristocracia. "Você vai ser como Reis" é a fórmula da revolução feita pela aristocracia contra Reis. Finalmente, senhores, "Sereis como deuses" - tal era a fórmula da primeira revolta do primeiro homem contra Deus. Desde Adão, o primeiro rebelde, para Proudhon, o último blasfemo, tal tem sido a fórmula de cada revolução.

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Liberdade, a liberdade verdadeira, a liberdade de todos e por tudo, só veio ao mundo com o Salvador do mundo; que é  mais uma vez um fato incontestável, reconhecido até mesmo pelos socialistas. Sim, os socialistas admitem isso, eles chamam Jesus de divino, eles vão mais longe, eles dizem que continuar o trabalho de Jesus. Gracioso céu! Continuar o seu trabalho! Os homens de sangue e vingança continuar o trabalho daquele que só viveu para fazer o bem, que só abriu a boca para abençoar, que só fazia milagres livrar os pecadores de seus pecados e os mortos da morte; Aquele que no espaço de três anos realizou a maior revolução que o mundo já presenciou e sem qualquer derramamento de sangue, apenas o seu.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Progresso (Oswald Spengler)

Cada maquina serve um processo, e deve sua existência ao pensamento a respeito desse processo. Todos os nossos meios de transporte se desenvolveram da ideia de movimentar um carro, de remar, de navegar a vela e não do simples conceito de carro ou de barco. Os próprios métodos são armas. E consequentemente a técnica não é uma parte da economia, do mesmo modo que a economia (ou a guerra ou a política) não pode ser considerada uma parte da vida existente por si mesma. Todos esses são apenas aspectos de uma vida ativa, lutadora e cheia. Não obstante, da guerra primeva das bestas extintas emerge um caminho que leva aos processos dos modernos inventores e engenheiros, do mesmo modo que da cilada, a mais antiga de todas as armas, sai uma estrada que conduz ao desenho das maquinas com que hoje fazemos guerra a Natureza, superando-a em estratagemas.




Ao movimento nesses caminhos se da o nome de Progresso. Foi essa a grande epigrafe do século passado (sec. XIX). Os homens viam a historia a sua frente como uma rua pela qual a “humanidade” marchava corajosa e sempre para a frente; e com “humanidade” queriam designar as raças ou, mais exatamente, os habitantes de suas grandes cidades, ou, com maior precisão ainda, os “educados”.
Mas... marcha para onde? Por quanto tempo? E... depois?

Era um pouco ridícula essa caminhada rumo do infinito, dum alvo em que os homens não pensavam seriamente, dum objeto que ninguém concebia com nitidez ou, para falar a verdade que ninguém ousava imaginar. Porque um alvo é um fim. Ninguém faz uma coisa sem pensar no momento em que atinge o que deseja. Ninguém começa uma guerra ou uma viagem ou mesmo um simples passeio sem pensar na direção ou na conclusão. Todo o ser humano realmente criador conhece e teme o vazio que se segue a terminação de uma obra.

A evolução implica em cumprimento – cada evolução tem um principio e cada cumprimento é um fim. A velhice está implícita na juventude; o nascimento no perecimento; a morte na vida. Porque o animal, cujo pensamento está preso ao presente, conhece ou fareja a morte como alguma coisa que está no futuro, alguma coisa que não o ameaça. Ele apenas conhece o medo da morte no momento de ser morto. Mas o homem, que tem o pensamento emancipado das cadeias do aqui e do agora, do ontem e do amanha, investiga o “uma vez” do passado e do futuro, e o seu triunfo ou derrota final ante o medo da morte depende da profundidade ou superficialidade de sua natureza. Conta velha lenda grega, sem a qual não existiria a Ilíada, que, tendo a mãe de Aquiles oferecido a este a escolha de uma vida longa e vazia ou uma vida breve mas cheia de feitos e de fama, ele preferiu a segunda.

O homem era e é demasiadamente superficial e covarde para suportar a ideia da mortalidade de todas as cosias vivas. Ele a envolve no otimismo cor-de-rosa do progresso, amontoa sobre ela as flores da literatura, fica a rastejar por trás de uma muralha de ideais para não enxergar nada. Mas a transitoriedade, o nascimento e o passamento, é a forma de tudo quanto tem realidade – desde as estrelas, cujo destino para nós é incalculável, até o efêmero formigueiro de nosso planeta. A vida do individuo, seja ele animal, planta ou homem, é tão perecível como a dos povos e das Culturas. Cada criação está predestinada à decomposição; todo o pensamento, todo o descobrimento, todo o feito estão condenados ao esquecimento. Aqui e ali, por toda a parte vislumbramos cursos da historia de grandioso destino e hoje desaparecidos. Vemos em torno de nós ruinas das obras “que fora”, de culturas mortas. No descomedimento de Prometeu, que ergueu as mãos para os céus para submeter as potencias divinas ao homem, estava implícita a queda. Que é feito, pois, dessa palavrosa alusão as “realizações imorredoiras”?

A historia do mundo tem um aspecto completamente diferente daquele que nosso século permite sonhar. A historia do homem, comparada a do mundo animal e vegetal deste planeta – para não falar na vida dos mundos estelares, - é realmente breve. É uma ascensão e um declínio de uns poucos milênios um período que não tem a menor importância na historia da terra mas que, para nós que nascemos com ele, está cheio de força e grandeza trágicas.  E nós, seres humanos do século vinte, descemos a encosta vendo a descida. Nossa faculdade de perceber a historia, nossa capacidade de escreve-la, é um sinal revelador de que nosso caminho se dirige para baixo. Nos picos das Culturas superiores, no momento em que estas se acham em transito para a civilização, esse dom de penetrante conhecimento lhes aparece por um instante, mas só por um instante.

Entre os enxames das estrelas “eternas” intrinsecamente não importa qual seja o destino deste pequeno planeta que segue seu curso por breve tempo em algum lugar do espaço infinito. Ainda mais insignificante é aquilo que em sua superfície se move durante alguns instantes. Mas cada um de nós, intrinsecamente um nada, se vê lançado nesse universo rodopiante por um minuto indizivelmente breve. Por isso este mundo em miniatura, esta historia universal, é algo de suprema importância. E, o que é mais, o destino de cada um desses indivíduos não consiste apenas em, por seu nascimento, terem sido eles trazidos para dentro desta historia universal, mas sim em haverem aparecido num determinado século, num determinado povo, numa determinada religião, numa determinada classe. Não está ao nosso alcance escolher entre ser filho dum camponês egípcio de 3.000 a.C., de um rei persa ou então de um vagabundo de nossos dias. A esse destino temos apenas que nos adaptar. Ele nos condena a certas situações, concepções e ações. Não existe “o homem em si” tal como querem os filósofos, mas apenas homens de uma época, de uma localidade, de uma raça, de uma índole pessoal, homens que travam batalha com um dado mundo e acabam vencendo ou sucumbindo, enquanto o universo ao redor deles segue lentamente o seu curso com uma indiferença divina. Essa batalha é a vida – a vida, sim, no sentido nietzschiano – uma luta torva, impiedosa e sem quartel, que nasce da vontade-de-poder.

Trecho do livro "O Homem e a Técnica" por Oswald Spengler

terça-feira, 30 de julho de 2013

Entrevista para do Documentário "O Segundo Batismo da Rus"

Vladimir Putin deu uma entrevista para os criadores do documentário O Segundo Batismo da Rus, que foi exibido no canal de televisão, Rossia, em 22 de julho.


O Segundo Batismo da Rus é um documentário de longa-metragem sobre o ressurgimento da Igreja Ortodoxa Russa na Rússia nos últimos 25 anos. O filme dá uma apresentação detalhada das principais etapas da reconstrução da igreja na Rússia a partir de 1988, quando o país marcou o 1000 º aniversário do Batismo da Rus, até hoje.


                                                                        ***

Pergunta: Nós ainda lembramos os momentos em que você poderia estragar suas perspectivas de carreira se você tivesse seu filho batizado e tenha sido descoberto. Você poderia enfrentar problemas na universidade também, sem mencionar a situação em 1920-30s, quando o clero e leigos igualmente enfrentaram a repressão. Quais são as lições que você acha que devemos aprender com os anos de perseguição contra a igreja?


Vladimir Putin: Eu senti os efeitos desses tempos também. Minha mãe me batizou e manteve o segredo de meu pai, que era um membro do partido comunista. Ele não era um oficial do partido de qualquer espécie, apenas trabalhava em uma fábrica, mas ele era uma espécie de organizador popular em sua oficina de fábrica. Enfim, minha mãe, supostamente sem deixar que ele descobrisse, me batizou, fez isso em segredo, e por isso a minha família também sentiu as limitações daqueles tempos.

Eu acho que a lição a ser aprendida é bastante simples. Em todos os momentos mais críticos da nossa história, o nosso povo olha para as suas raízes, aos seus fundamentos morais e valores religiosos. Todos nós sabemos que quando a Grande Guerra Patriótica (Segunda Guerra Mundial) começou, o primeiro a anunciar o início da guerra ao povo soviético foi Molotov, que se dirigiu à nação usando a palavra "cidadãos". Mas quando Stalin, em seguida, dirigiu-se à nação, apesar de sua linha-dura, se não brutal postura contra a igreja, ele escolheu uma forma completamente diferente para endereçar-se: "Irmãos e irmãs". Houve um tremendo significado nessa escolha de endereço. Estas não eram apenas palavras, mas um apelo aos corações e almas das pessoas, para a sua história e as suas raízes, de modo a trazer para casa a grandiosidade e a tragédia do desenrolar dos acontecimentos, e para despertar as pessoas, mobilizá-los para aumentar  o sentimento de defesa para sua terra natal. Foi sempre assim, quando o país enfrentou dificuldades e sofrimentos, mesmo durante os anos do estado ateísta, pois o povo russo não conseguia sobreviver sem esses fundamentos morais.

Pergunta: Os líderes da Igreja e as pessoas envolvidas na vida da igreja chamam os 25 anos que se passaram desde que foi celebrado o 1000 º aniversário do Batismo da Rus de um "Segundo batismo da Rus". As relações entre a Igreja e o Estado realmente passaram por mudanças ao longo deste tempo e assumiu uma nova substância. Você acha que é justo falar de um "Segundo Batismo da Rus, e você observa evidencias que faria essas palavras justificadas?


Vladimir Putin: Eu não quero discutir com aqueles que falam de um Segundo Batismo da Rus, mas eu, pessoalmente, não diria que este é o caminho mais adequado para descrever o que aconteceu durante este tempo. Eu diria que, em vez disso, temos visto um retorno às nossas raízes, e isso levanta a questão, claro, por que isso aconteceu. Nossa geração se lembra do código moral dos construtores do comunismo. Essencialmente, era apenas uma versão simplificada dos princípios religiosos partilhados por praticamente todas as religiões tradicionais do mundo.

Mas quando esse mesmo código moral simplificado desapareceu, as pessoas encontraram-se presos em um imenso vácuo moral e espiritual, e que a única maneira de preenchê-lo era retornar aos autênticos e verdadeiros valores. Esses valores foram, inevitavelmente, de natureza religiosa.

Não há, portanto, nada de surpreendente no fato de que as pessoas começaram a procurar  suas raízes, os valores religiosos e espirituais. Este foi um processo de renovação natural para o povo russo. Eles fizeram isso de forma espontânea, sem estímulo de fora, das autoridades ou da igreja. A igreja estava incapaz de incitar alguém naquele momento. Ela estava em um estado lamentável.  No lado material, as autoridades soviéticas tinham roubado mais profundamente do que roubou algum outro, no lado organizacional e espiritual também estavam em uma situação muito seria. Foi um movimento espontâneo das próprias pessoas voltarem às suas raízes.


Pergunta: Senhor Presidente reuniu-se com Metropolitano Lavr, o chefe da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia. Essa foi sua iniciativa ou foi um pedido dele?  O que provocou essa reunião, e esse foi um momento decisivo para reunir a igreja?


Vladimir Putin: Foi mais minha iniciativa, realmente, mas para minha surpresa, a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia e o próprio Metropolitano Lavr respondeu com apoio e compreensão. Eu digo que foi para minha surpresa, porque as relações entre a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia e as autoridades soviéticas sempre tinha sido, no mínimo, tensas, por razões óbvias, e eu estava um pouco surpreso no momento em quão prontos eles estavam a responder ao minha iniciativa, mas após a primeira reunião, em Nova York, se bem me lembro, eu imediatamente entendi por que eles estavam respondendo desta forma.

Eu percebi que os Primazes da Igreja Ortodoxa Russa fora da Russia eram o verdadeiro povo russo. Eles podem viver longe de sua terra natal, mas eles mantêm os seus interesses em seus corações. Eles perceberam que havia chegado a hora de reunir toda a nação russa, para juntar todos os povos da Rússia, todos os diversos grupos étnicos que são unidos pela fé ortodoxa. Como você deve saber, os passaportes emitidos durante o Império Russo não classificava as pessoas por grupo étnico, mas pelo sua fé religiosa.

Os Primazes da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia,  pessoas que conheceram muitas provações e tribulações da vida e que enfrentou grandes desafios e dificuldades, obviamente, chegaram à conclusão que chegara o momento de se reunir. A Igreja Ortodoxa Russa desempenhou um papel único no nosso povo e na história do país, afinal. Essencialmente, foi depois de adotar o cristianismo como uma religião ortodoxa que a nação russa começou a emergir como uma nação unificada e começou a construir um Estado russo centralizado.

Nos fundamentos da nação russa e o estado russo centralizado são os mesmos valores espirituais que unem toda a parte da Europa agora partilhada pela Rússia, Ucrânia e Belarus. Este é o nosso espaço espiritual, moral e de valores comuns, e isso desempenha um papel muito importante na união das pessoas. Naturalmente, a Igreja Ortodoxa Russa por si e a Igreja Ortodoxa Russa fora da  Rússia sentem  isso em seus corações e começaram a aproximar-se uns dos outros. A tarefa das autoridades aqui foi simplesmente apoiar este processo.


Pergunta: Durante sua conversa com o Metropolita Lavr você disse: "Eu quero deixar muito firme e claro que as autoridades jamais interferirão nos assuntos da igreja." Você foi muito convincente. Você mencionou o papel unificador da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia. Após o colapso da União Soviética e com o surgimento de novos países na Ásia Central e Oriental, no Cazaquistão, a Igreja Ortodoxa tem um papel ainda mais unificadora hoje, de reunir as pessoas em toda a área pós-soviética.


Vladimir Putin: Existem diversas áreas onde a Igreja e o Estado pode trabalhar junto. Acima de tudo, isso inclui ensinar nossos jovens valores morais e espirituais, apoiando a família como uma instituição, criar os filhos, apoiando aqueles que necessitam de auxílio especial  e assistência. Eu não estou falando apenas sobre os doentes ou pessoas com deficiência, mas também de pessoas nas prisões, por exemplo. Eles precisam de apoio moral também. A igreja é um parceiro natural para as autoridades do Estado em tais áreas.


A igreja também tem outro papel muito importante a desempenhar dentro da própria Rússia - a criação de condições para a paz e harmonia inter-religiosa e inter-étnica. A este respeito à importância da igreja vai além das dimensões da Federação Russa de hoje, porque também nos ajuda a construir um bom relacionamento com as pessoas em outros países, sobretudo na área pós-soviética, é claro. Eu já mencionei as raízes morais e espirituais históricas comuns que partilhamos com os povos da Ucrânia e da Bielorrússia. Essencialmente, temos uma igreja comum, uma fonte espiritual comum e um destino comum. Quanto aos outros países da região pós-soviética e os seus povos, a Igreja pode desempenhar um papel muito construtivo e positivo também.

domingo, 28 de julho de 2013

Treinamento Técnico vs Educação

Vamos estudar a relação da tecnologia em outro campo: dentro da organização das escolas e universidades. Conforme o técnico entra neste campo, ele converte todas as instituições de ensino para seu interesse, ou seja, ele promove a formação técnica, que, como ele afirma, é o único atualizável, o conhecimento útil, prático.

As importâncias das reformas nesse sentido não devem ser subestimadas. Eles constituem um ataque direto contra a idéia de uma "educação encíclica" (encyclios disciplina) que prevaleceu na época clássica e medieval. As consequências desse ataque não é, obviamente, composto apenas no declínio do papel da gramática na educação, no retiro de astronomia e música, no desaparecimento de dialetos e retórica. Esse corte, do que uma vez foi as sete artes liberais [1], apenas a aritmética e geometria sobreviveram, o que não significa nada. A ciência técnica que vem a uma posição de supremacia é tanto empírica e causal. Suas incursões na educação significa a vitória do conhecimento factual sobre o conhecimento integrado. O estudo das línguas antigas é empurrado para o fundo, e assim desaparecem os meios para entender a cultura em sua totalidade. A capacidade lógica do aluno, sua capacidade de dominar a forma de conhecimento está enfraquecida. Conhecimento factual é empírico e assim, tão infinito quanto são as filas intermináveis de causas e efeitos em que é descrito. Nós muitas vezes nos  encontrarmos com um orgulho na acumulação ilimitada de conhecimento factual, o que tem sido comparada a um oceano em que o navio da civilização orgulhosamente navega. Mas este oceano é um tenebrosum mare ("um mar escuro"); um conhecimento que se tornou ilimitado tornou-se também sem forma. Se para a mente humana todas as coisas são igualmente valoráveis, então o conhecimento perde todo o valor. Portanto, pode-se concluir que este conhecimento factual acabará por afogar-se no oceano de seus fatos. Hoje os esforços humanos mais valorosos são inundados pela maré crescente de fatos. Não seria surpreendente se, por estamos cansados dessa vastidão de conhecimento, sentíssemos uma sensação de um peso esmagador sobre nossas costas.

Onde a ênfase é colocada sobre os fatos, à educação se esforça para um conhecimento manual, transmitido para o aluno por meio de pesquisas, perfis, gráficos e estatísticas da matéria. A verdadeira educação é incompatível com este tipo de conhecimento e com este método de ensino, para o empirismo bruto que essa formação tem se tornado, pode ser visto apenas como um empilhamento mecânico de fatos. Esta formação estabelece nenhum fundamento. Ele contém nenhum princípio formação que seria superior a, e que dominaria, o assunto.

Esse ditado duvidoso que diz: "Conhecimento é poder", é menos válido hoje do que sempre foi, pois o conhecimento desse tipo é exatamente o oposto do poder mental, na verdade, ele enerva completamente a mente. Universidades entram em declínio na medida em que o progresso técnico se espalha para as escolas secundárias. A universidade torna-se um centro de formação técnica e serva do progresso técnico. Tecnologia, por sua vez, não deixa de oferecer doações generosas e novos institutos são criados nas universidades que trabalham arduamente para a transformação das universidades em conglomerados de laboratórios especializados.

Deve-se notar aqui que a idéia clássica da educação encíclica, confinada como era para a formação da cultura e da sabedoria, está em forte oposição à idéia de uma enciclopédia das ciências, isto é, um conhecimento que é disposto por ordem alfabética como um dicionário ou enciclopédia. A idéia de uma enciclopédia das ciências pertence ao século XVIII. Conhecimento nessa descrição tem sido o precursor de toda a ciência moderna técnica. É o conhecimento de um Diderot, um D'Alembert, La Mettrie, que declarou que todo o pensamento filosófico ser nulo e sem efeito, que em obras como Histoire Naturelle de l'ame e L'homme a máquina defende um empirismo em que tudo é explicado em termos de reflexos causais entre cérebro e corpo. O pensamento de Hume, seu contemporâneo Inglês, é mais forte e mais fino, mas sua doutrina da associação de idéias, e os princípios de todas as associações possíveis (ele assume a similaridade, contigüidade no tempo e no espaço, e causa ou efeito) levam para o mesmo resultado (Philosophical Essays Concerning Human Understanding and An Enquiry Concerning Human Understanding). De acordo com Hume, as percepções não necessitam de uma substância que os transporta, ele diz que todas as substâncias são apenas compostas de conceitos simples e pensamento. Tais teorias de pensamento associativo sempre tendem a fazer associações materialmente independentes. Hume pode ser considerado o pai espiritual de Ulisses, de Joyce, um livro que faz associação independente, e destrói toda a ordem intelectual tão radicalmente que nada é deixado, senão uma grande pilha de lixo de associações.


Trecho do livro "O Fracasso de Tecnologia" - Friedrich Georg Jünger

Friedrich Georg Jünger (1 de Setembro de 1898, Hannover - 20 de julho 1977, a Überlingen) foi um poeta alemão, autor, ensaísta e crítico cultural. O irmão mais novo de Ernst Jünger, ele se ofereceu para o serviço militar em 1916 e ficou gravemente ferido na Batalha de Langemarck. Após a Primeira Guerra Mundial, ele estudou direito e cameralismo nas universidades de Leipzig e Halle-Wittenberg.

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As sete Artes Liberais

Foi durante o reinado de Carlos Magno que as Sete Artes Liberais tornaram-se um curiculo disciplinar, para fins de ensino. Organizadas por Alcuino, capelão – mor daquele rei, as disciplinas foram divididas em duas partes: o trivium (retórica, gramática e lógica) e o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). Essa divisão já vinha sendo aplicada desde os tempos de Aristóteles, e durante o Império Romano, esse era o currículo que orientava o aprendizado dos cidadãos bem educados de Roma. 

As Sete Artes Liberais estão vinculadas a outros conhecimentos tradicionais e apresentam grandes simetrias com outras disciplinas, especialmente a astronomia. Nesse sentido, é possível fazer uma analogia com o simbólismo dos planetas, relacionando a retórica com Vênus; a gramática com a Lua; a lógica com Mercúrio; a aritmética com o Sol; a música com Marte; a geometria com Júpiter e a astronomia com Saturno. 



Nos tempos de Roma, e mais tarde, durante a época de Carlos Magno, o estudante das Artes começava a sua vida escolar aos catorze anos, estudando, em primeiro os chamados “três caminhos” do trivium, que o monge Pedro Abelardo (1079-1142) chamava de os três componentes da ciência da linguagem. Essa tríplice disciplina era composta pela gramática (a ciência de falar sem erro), a dialética, (a aprendizagem que consiste em saber distinguir o verdadeiro do falso), e a retórica, que é a disciplina que nos ensina a arte da persuasão

O trivium era o que poderíamos chamar, numa analogia com a educação moderna, o primeiro grau do aprendizado. De fato, para o aluno poder aprender outras coisas era preciso primeiro aprender a falar, a escrever e a pensar. Por isso tinha que aprender gramática, retórica e dialética. Sem esses conhecimentos, dificilmente o estudante conseguiria acompanhar o difícil e rigoroso método escolástico de ensino, que se fundamentava principalmente na lógica de Aristóteles. Depois vinha o quadrivium, como uma espécie de segundo grau, para complementar o aprendizado do estudante. Em algumas escolas americanas, especialmente aquelas que seguem o modelo clássico, ainda se trabalha com um currículo semelhante, para os alunos que desejam tornar-se Master-of-Arts. No Brasil, até algumas décadas atrás, o chamado ensino clássico também guardava alguma semelhança com esse modelo.

A importância do trivium é que cada elemento contém potencialmente as habilidades filosóficas exigidas para a vida intelectual madura. É uma pena que esse sistema tenha sido banido das escolas brasileiras, substituído por um currículo que só sobrecarrega a mente do aluno com  informações, ( muitas vezes inúteis para a careira que ele escolheu, ou mesmo para os seus projetos de vida) sem ensiná-lo a usá-las adequamente. 

original

sábado, 27 de julho de 2013

Dostoiévski e sua Teologia

DOSTOIÉVSKI E SUA TEOLOGIA











I. Introdução

Alfred Einstein declarou: "Dostoiévski me dá mais do que qualquer outro pensador." Nicholas Berdiaev foi professor de filosofia na Universidade de Moscou até ser expulso pelo regime comunista em 1922. Berdiaev testemunhou que Dostoiévski "agitou e levantou minha alma mais do que qualquer outro escritor ou filósofo fez... foi quando me virei para Jesus Cristo pela primeira vez”. Alguns afirmam que “Os Irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo” são uns dos maiores romances já escritos. Alguns pensadores dentro do campo cristão afirmaria que Dostoiévski é um dos nossos, dando assim, um valor especial para um estudo como este.

II. Uma Breve Biografia

Fiódor Dostoiévski (1821-1881) era filho de um medico Ortodoxo Russo ultra rigoroso. Ele costumava chamar seus filhos (por exemplo, de estupido), quando eles erravam suas declamações. Obrigava sues filhos ficarem atentos quando falava ele. Assim, o jovem Dostoievski não recebeu uma imagem muito precisa de Deus, o Pai, de seu pai humano rigoroso.

Quando Dostoiévski tinha 18 anos, um dos eventos mais marcantes de sua vida ocorreu. Seu severo pai foi brutalmente assassinado por seus próprios servos. O cadáver ficou no campo, durante dois dias, e a polícia nunca realizou uma investigação ou fez qualquer prisão. Há evidências de que o jovem Dostoiévski sentiu-se culpado, com uma espécie de cumplicidade, neste crime - apenas, talvez, como um desejo de morte. Todos os quatro grandes romances de Dostoiévski giram em torno de um assassinato e Os Irmãos Karamazov é construído em torno de parricídio.

Dostoiévski acertou em cheio no seu primeiro romance, Gente Pobre. O principal crítico literário da época, Belinksy, anunciou que uma nova estrela surgira no horizonte literário. Entretanto, o fato de que os próximos trabalhos do Dostoievski tenham sido mais voltados ao psicológico pessoal ao invés de focado no social, o radical Belinksy e outros escritores russos começaram a ser mais severos em suas criticas.

Eventualmente Dostoiévski se envolveu no redemoinho sócio-politico de sua era. Ele entrou em um grupo conhecido como O Circulo Petrashevsky, composto de ateístas e revolucionários (durante o período pré-comunista). Eles planejavam publicar propagandas antigovernamentais em uma prensa escondida. Então a policia chegou. Dostoiévski foi preso no Forte Pedro e Paulo e uma investigação de quatro meses foi conduzida. Vinte e uma pessoas desse grupo foram sentenciados a morte. 

Em 22 de dezembro, 1849, as 8 da manha, Dostoiévski e seus compatriotas foram preparados e levados para frente do esquadrão de fuzilamento. Eles seriam executados de três por vez. No ultimo momento um enviado do Czar, galopando a cavalo, anunciou que as sentenças foram diminuídas. Foi como se tivessem garantido ao escritor uma nova vida. 

Entretanto, quatro anos de prisão, na Sibéria, esperava por ele. Correntes pesadas foram amarradas em seus calcanhares. O trenó dos prisioneiros era dirigido (algumas vezes em -40 C) no meio da Sibéria para a prisão em Omsk. Dostoiévski relembrou sua vida infestada de piolhos e sua viagem imunda, o cemitério dos vivos em sua obra Recordações da Casa dos Mortos. Após seu lançamento, seguiu para quatro anos de serviço militar perto da fronteira da China. O único livro que Dostoiévski era permitido ler na prisão era O Evangelho, o qual ele preservou ate seu dia de morte. 

Depois de cerca de dez anos na Sibéria, Dostoiévski voltou para a sociedade. Ele foi o autor de uma dúzia de romances, muitas vezes enquanto ele estava em dívida ou beirando a fome. Em 1880, ele deu um grande discurso em homenagem ao poeta, Pushkin. Para sua segunda esposa, Anna, ele anunciou o dia de sua morte. Naquele dia, implorou a sua esposa que lhe trouxesse a cópia da prisão do Evangelho, e pediu que lessem a parábola do filho pródigo. Entre 30.000 e 40.000 pessoas compareceram ao funeral de Dostoiévski, o primeiro funeral de Estado para homenagear um dos escritores da Rússia.

III. Quatro Grandes Romances

Sua produção literária incluiu quatro obras-primas. Eles são, em ordem de aparição: Crime e Castigo, O Idiota, Os demônios e Os Irmãos Karamazov. Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov podem estar entre as principais obras, dentro das 10 grandes obras do mundo, como mencionado acima.

Crime e Castigo é um tipo de comentário sobre o conceito de consciência em funcionamento. Revela uma pessoa mentalmente atormentada por seu crime, até que ele finalmente confessa. Raskolnikov é um pobre ex-aluno que mata uma desprezada agiota. No processo, ele também é forçado a acabar com a  fraca irmã da agiota por meio de um machado.

Raskolnikov tinha convencido a si mesmo que sua desesperada irmã, Dunya, e sua mãe realmente merecia o dinheiro roubado mais do que a "parasita" de uma agiota. Antes do assassinato, ele também tinha escrito um artigo dividindo o mundo em pessoas comuns e heróis talentosos (como Napoleão), que estão acima das leis ordinárias. Raskolnikov executou o crime sob o pretexto de que sua vítima estava neste grupo composto de pessoas indignas.

Curiosamente, o "salvador" de Raskolnikov é uma mulher jovem, Sonya, que faz parte de uma família pobre e que foi conduzida à prostituição pelo seu pai alcoólatra. Um dos clássicos do romance é a leitura da história da ressurreição de Lázaro para Raskolnikov, o assassino por Sonya, a humilde prostituta.
Através do persistente trabalho do detetive Porfírio e de sua suave persuasão de Sonya, Raskolnikov, eventualmente, confessa sua culpa e é condenado a trabalhos forçados na Sibéria, onde ele é fielmente acompanhado por Sonya.

O Idiota começa como um conto de Dostoiévski sobre a figura de Cristo, o homem ideal. Como Dom Quixote, no entanto, este homem honrado e atencioso (príncipe Míchkin) é muitas vezes tratado como um idiota. (Nosso termo "idiota" não chega a essencia do título russo.) O príncipe é ligeiramente socialmente inepto, despretensioso, ingênuo, excessivamente amigavel e inocente. Ele também possui próprio estigma social de Dostoiévski: ele é um epiléptico. No entanto, ele é cortês, gentil, suave e muito mais, uma verdadeira série de qualidades.

Príncipe Míchkin é atraído pelo retrato de Nastácia Filippovna, uma bela "mulher mantida". Ao retornar de um sanatório suíço, ele faz conexões com a família lepántchin e, finalmente, chega o momento de saber se ele vai se casar com a filha dos lepántchin, Aglaia. No entanto, ele ainda se sente atraído pela  Nastácia, que sofre de problema. Entretanto, em seu casamento com o príncipe Míchkin, um canalha rico chamado Rogozhin carrega Nastácia para longe. O livro termina estranhamente com o príncipe Míchkin e Rogójin (o assassino) sentado na mesma sala, sofrendo com o cadáver da mulher. Eventualmente, no entanto, a figura de Cristo aparente entra em colapso e retorna novamente ao seu antigo estado de incapacidade (física e mentalmente).


Os Demônios (cujo título também é variadamente traduzido como Os Possessos) é romance mais politicamente direcionado de Dostoiévski contra os revolucionários niilistas. Stepan Verkhovensky é um liberal aristocrático da década de 1840. Seu filho negligenciado, Petr, é um agitador niilista da década de 1860. Petr Verkhovensky admira um jovem chamado Stavrogin, que havia sido ensinado pelo pai de Petr. Stavrogin, misteriosamente frio, é o eixo em torno do qual outros personagens do romance gira. Os outros influenciados por ele, são Kirillov (um intelectual que se pronunciou o próprio Deus e comete suicídio) e Shatov (que quer sair do grupo de células  revolucionárias e por isso é assassinado pelo resto).




Todos os revolucionários são presos pelo assassinato de Shatov, exceto o principal catalisador, Petr Verkhovensky, que foge para a Europa. Seu pai, que tornou-se desiludido com a efervescência revolucionária, compara a situação ao relato evangélico dos demônios que são lançados no rebanho de suínos (daí o título do romance).

Livros de Dostoiévski foram serializados, mas uma seção de Demônios não foi permitida ser publicada em um jornal de família. É a confissão do estupro de uma menina menor de idade e seu conseqüente suicídio, o que culminou no próprio suicídio de Stavrogin.

Os Irmãos Karamazov é um dos principais candidatos como o melhor romance do mundo. Alyosha é - de acordo com o próprio autor - o personagem principal do romance, dentro de  seus quatro grandes romances, este vem mais próximo de apresentar uma coleção inteira de personagens principais. A família Karamazov é composta por quatro irmãos: Ivan é o ateu intelectual. Dmitri é o mulherengo emocional. Alyosha é o mais amável - um monge temporário. Smerdyakov é filho ilegítimo de seu pai, que é tratado como um servo da família.

Fiódor Pávlovitch Karamazov é um pai libertino e negligente. Ele ignora totalmente seus filhos e praticamente mantém um harém em casa. Dmitri (que é o mais parecido com o pai) vem a odiá-lo. A principal razão para o ódio é que ambos querem a mesma mulher, Grushenka. Porque Dmitri havia ameaçado matar seu pai e também por suspeitarem de ter usado o dinheiro de seu como suborno (para Grushenka), ele é acusado do assassinato de seu pai. No entanto, Smerdyakov, o lacaio, é o verdadeiro assassino.

No florescer do romance está um dos maiores argumentos anti-Deus da literatura, estabelecidas pelo Ivan Karamazov. Além das atrocidades recitadas por Ivan que foram cometidos contra crianças indefesas, ele apresenta um clássico sobre as tentações de Cristo. É chamado de "A Lenda do Grande Inquisidor". Também outro elogiado e comovente capítulo é o intitulado "Os Peritos Médicos e um Quilo de Nozes."
Embora ele não seja tecnicamente culpado do assassinato, Dmitri Karamazov é declarado culpado pelo tribunal do júri. Como Raskolnikov e o próprio Dostoiévski, Dmitri é condenado a Sibéria. De alguma forma todos os irmãos reconhecem sua culpa coletiva no assassinato.





IV. Avaliação Teológica

Neste momento, vamos avaliar cinco grandes pilares na estrutura teológica de Dostoiévski. Dostoiévski, é claro, não era um teólogo sistemático de profissão, então ele é ainda menos sistemático do que um pensador teológico, como John Wesley, na maneira como ele formula verdade.


A. Sua visão de Deus

Em geral, a doutrina de Deus de Dostoiévski parece ser ortodoxa. Ele não exibe nenhum vista dissidente, assim como seu contemporâneo Leo Tolstoy, que era anti-trinitário. Fato intrigante é que os ateus principais dos romances de Dostoiévski (Stavrogin e Kirillov em O Idiota, Ivan e Smerdyakov em Os Irmãos Karamazov, e Svidrigaylov em Crime e Castigo), todos cometem suicídio. É como se Dostoiévski estivesse dizendo que, pelo fato desses personagens deixaram a Vida - Aquele que é a vida - consequentemente não vêem sentido na vida e assim acabaram com suas vidas terrenas.

Em Demônios, o autor diz que "a fé em [Deus] é o refúgio para a humanidade ..., bem como a esperança de bênção eterna prometida para os justos ..." 

Deus foi o dado essencial sob todos os escritos de Dostoiévski. Isso não quer dizer que Dostoiévski não evitou em lutar com essa realidade. De fato, ele admitiu que iria lidar com as dúvidas até o dia de sua morte. Joseph Frank, em sua obra de cinco volumes sobre o famoso escritor comentou: "Dostoiévski estava tentando dizer... que o problema da existência de Deus o tinha atormentado por toda sua vida; mas isso só confirma que, para ele, sempre foi emocionalmente impossível  aceitar um mundo que não tinha nenhuma relação com um Deus de qualquer espécie. " Como sugerido anteriormente, o tipo cruel de pai do Dostoiévski que experimentou no início de sua vida, provavelmente, contribuiu significativamente para a criação de suas dúvidas  posteriores.

Ao filtrar teologia do romancista em seus escritos, é preciso levar em conta o fato de que nem todos os personagens de Dostoievski enunciam as crenças pessoais do autor. Na verdade, Dostoiévski "como um artista, concebeu direitos iguais aos seus ateus" e "E é nos ateus em suas novelas que mais falam teologicamente!”.

Um personagem em Os Irmãos Karamazov que reflete uma visão aberrante de Deus é um monge semi-louco chamado Padre Ferapont que faz uma comentários antibíblicos sobre o Espírito Santo. No entanto, a excentricidade geral que Dostoiévski atribui a esse personagem torna abundantemente claro que o próprio escritor não tem essa visão bizarra.

Nenhum grande analista levantou sérias questões sobre a visão ortodoxa de Deus que Dostoiévski aparentemente possuía.

B. Cristo

Enquanto Dostoiévski não se expressa em todas as ocasiões explicitamente na terminologia de um teólogo moderno, não parece haver dados significativos para não aceitar o romancista como ortodoxo em suas opiniões sobre a pessoa de Cristo. Dostoiévski não hesitou em falar de Cristo como o "Deus-homem". Mesmo o caráter anti-teísta em Ivan Karamazov refere-se à posição ortodoxa de Cristo como sendo "o único sem pecado" e indica que "Cristo era Deus ..." (Parte III, Livro V, cap 4). Também seu irmão Dmitri detém que "Cristo é Deus" (Parte I, Livro III, cap 5). Joseph Frank afirmou sobre romances e cartas de nosso autor: "A menos que rejeitada a veracidade das cartas, revelam Dostoiévski ser um cristão que acreditava em sua própria maneira, interiormente se esforçando para aceitar os dogmas essenciais da divindade de Cristo, a imortalidade pessoal, a segunda vinda e da Ressurreição. "



Em mais de uma ocasião Dostoiévski expressou uma opinião que deixaria um evangélico surpreso. Ele diz que se caso houvesse um confronto entre rejeitar a Cristo e a verdade, ele ficaria do lado de Cristo, defronte a verdade! Para aqueles que tomam João 14:6 pelo valor verdadeiro, a declaração atinge uma nota estranha. Provavelmente, a sua declaração é simplesmente uma hipérbole literária na adoração de Cristo.

Transcrito em seu caderno entre as notas de Dostoiévski nos seus últimos anos havia um plano de escrever um livro sobre a vida de Cristo. Obviamente, se ele tivesse vivido para cumprir a seu plano, uma determinação mais precisa poderia ser feita sobre a ortodoxia de sua posição. No entanto, ao longo de toda a gama de suas publicações, o autor não havia escrito nenhuma nota inquietante sobre este assunto, por isso, parece melhor assumir, como até mesmo os analistas seculares fazem, que o grande russo foi amplamente ortodoxo sobre a divindade e a humanidade de Cristo.

C. O Pecado

O último livro que Dostoiévski tinha a esperança de escrever deveria ser  intitulado “A Vida de um Grande Pecador”. Depois que Dostoiévski se tornou famoso, as pessoas escreviam para ele da maneira que fazem hoje a Ann Landers, pedindo conselhos. Consequentemente, Dostoiévski respondeu a uma mãe desconhecida em 1878 (relativo a um problema de criança): "se a criança é ruim, da culpa cabe ... tanto com suas inclinações naturais (porque uma pessoa certamente nasce com elas) e aqueles que o criaram até então ... "9 Este comentário revela que Dostoiévski certamente tratava o pecado inato e instintivo.

Em uma ocasião, Dostoiévski ofereceu algo de sua própria definição: "Quando um homem não tem cumprido a lei do esforço em direção a um ideal, isto é, se não através do amor sacrificou seu ego com as pessoas ... ele sofre e chama essa condição de pecado." Isso é quase uma definição formal a ser encontrada em um livro teológico, e nem têm uma orientação vertical (ou Godward). Pelo contrário, é uma cristalização experiencial que ele trabalhou em meio a vida do âmago da questão e é congruente com a sua compreensão do sofrimento (que será tratada na próxima seção).

William Leatherbarrow falou sobre como a experiência da prisão, nos campos da Sibéria, através do contato próximo com os criminosos "desenganou Dostoiévski das utopias que acreditava anteriormente e na fé da bondade essencial do homem ..."  Dostoiévski refere a um prisioneiro no campo como um "Quasimodo moral." A realidade obstinada do pecado corre como um rio subterrâneo debaixo de toda a escrita romanesca de Dostoiévski.

Homileticamente, o pecado revela-se graficamente no corpus de Dostoiévski em pelo menos quatro características (tudo começa com a letra "s"). Primeiro, o pecado é visto como rancor ou maldade. Próprio Dostoiévski era uma pessoa muito irritável e maldosa. Sua segunda esposa, Anna, cita (depois que seu marido tinha insultado um garçom) que "ele não podia conter seu rancor."

Os romances de Dostoiévski são repletos do termo "rancor" e seus cognatos. Em Crime e Castigo, Raskolnikov, o assassino tem um "maldoso ... sorriso nos lábios ..." (Parte I, cap 3). Em "Uma criatura dócil", uma história curta, as observações do narrador para uma menina de quinze anos de idade: "Eu era rancoroso." Em Demônios pode-se encontrar a terminologia "rancor"  pp. 252, 255, 340-41, 378 (duas vezes), 441, 461, 521, 524, 533, 558, 591, 610, 612, 617, 675 (duas vezes) , 676, 693, e 701.

A segunda forma figurativa que o pecado assume na obra de Dostoiévski é o de "passar por cima". Esta linguagem visual imediatamente lembra o estudante da Bíblia do conceito de transgressão (passando por cima de um limite). Por exemplo, quando Raskólnikov comete seu assassinato, a nota simbólica da seu "passou dos limites" o limite é explicitamente mencionado (como é em outras ocasiões significativas).

A terceira representação do pecado toma a forma de poluição. Dostoiévski escreveu uma vez em sentido figurado: "O pecado é ... fumaça, e a fumaça desaparece quando o sol se levanta no seu poder."

A quarta alegoria para o pecado no Dostoiévski é o de cisma ou divisão. O teólogo liberal Paul Tillich uma vez retratou o pecado em termos de "lacunas e que se divide." O pecador principal (Raskolnikov), em Crime e Castigo carrega em seu nome russo a raiz raskol, que significa "cisão". Berdiaev afirmou: "Essa clivagem no espírito ... é o tema essencial de todos os romances de Dostoiévski."  William Leatherbarrow ao analisar a condição humana em nosso tema, afirmou: "O homem nas obras de Dostoiévski, como na Gênesis, é trágico, criatura dividida, excluídos paraíso, mas com o desejo de reconciliação. "

Galeria de personagens de Dostoiévski consiste em um desfile de casos clínicos de psicologia anormal. (Aliocha em Os Irmãos Karamazov é um dos muito poucos caracteres normais e saudáveis no seu cânone de obras). Este fenômeno de divisão revela-se repetidamente ao longo de seus contos e romances. A divisão assume a forma de ódio e irracionalidade, um desejo de agradar, mas apenas um desejo, como diz o Homem do Subterrâneo (ou narrador), em Notas do subterrâneo.

Um dos casos mais intrigantes de todos para os estudantes da Bíblia é a história de "O Duplo”. É praticamente um ensaio sobre o clássico capítulo de Romanos 7. "O Duplo" narra o caso de um funcionário civil, cujos problemas sociais levá-lo a ter alucinações, criando assim a sua própria "personalidade dupla que se separou de seu verdadeiro eu." (Dostoiévski, muitas vezes possui o dom de escrever de modo que o leitor não pode sempre dizer que é pretendido como fato e o que é pretendido como fantasia.) O teólogo Bernard Ramm analisou esta fissura-na-the-alma como fascinante, tirando os paralelos entre Romanos 7 e de Dostoiévski "O Duplo".

Como os principais existencialistas, Dostoiévski realizou uma teologia cristã ao pintar os retratos de pessoas de uma forma que é consonante com a da ortodoxia cristã. Berdiaev afirmou que Dostoiévski "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser."  E estes vulcões são sempre estrondosos!

D. Salvação

Em O Idiota, em seu aniversário, o príncipe Míchkin desafia os ateus presentes ao dizer "com o que eles vão salvar o mundo?" De um modo geral Dostoiévski respondeu à pergunta de seu personagem em uma carta: "O cristianismo sozinho... a salvação da terra russa de todos os seus sofrimentos e mentiras." Leatherbarrow chamou Dostoiévski "um romancista com uma missão. Não deve haver harmonia sem redenção, não há salvação sem Deus, e não há paraíso na terra " Joseph Frank avaliou: " Os valores de expiação, perdão e amor estavam destinados a ter precedência sobre todos os outros no universo artístico de Dostoiévski ... "

Inicialmente, parece necessário dizer algo sobre o gênero de literatura em nossa análise aqui. Uma novela não foi concebida como um aparelho evangelístico. Um tristes dilemas é que um leitor cristão, muitas vezes parece ter de escolher entre uma profunda leitura de Dostoiévski (cujas obras podem aparecer defeituosas evangelicamente falando) e alguns romances banais "cristão" tudo em volta sobre o personagem principal ser salvo.

Do paragrafo anterior, o leitor pode já sentir que (enquanto suas doutrinas de Deus, Cristo e o pecado aparecem razoavelmente ortodoxos), a doutrina da salvação de Dostoiévski deixa algo a desejar, do ponto de vista bíblico. Se Dostoiévski possuía uma "missão" (termo de Leatherbarrow), qual era a sua missão? Na luz de uma missão bíblica, as soluções de Dostoiévski ficaram aquém de uma marcação. 

Na melhor das hipóteses, os grandes romances de Dostoiévski podem ser descrito como pré-evangelísticos. Se o romancista estava planejando oferecer uma resposta distintivamente cristã, Dmitri Karamazov (em Os Irmãos Karamazov), Raskolnikov (em Crime e Castigo) e Stepan Verkhovensky (em Demons) estão fora do alvo. No final destes três grandes romances todos os três personagens estão preparados para a conversão, mas o melhor que é dado cai sob a categoria de sugestões esperançosas. Boyce Gibson observa: "No epílogo de Crime e Castigo, Raskolnikov evita a fórmula cristã [de conversão]..." Da mesma forma, Richard Paz comentou sobre Stepan Verkhovensky (em Os demônios) que suas "últimas palavras... parece mais de acordo com algumas ideias vagas teístas dos anos [18]40 anos do que com o verdadeiro cristianismo.”.

E que diremos da "conversão" de Alyosha? Alyosha (tendo passado por algumas sérias dúvidas) atirou-se sobre a terra para beijá-la. "Alguma coisa... inabalável, como a abóbada celeste por cima dele, estava entrando em sua alma por toda a eternidade" (Os Irmãos Karamazov, Parte II, Livro VII, capítulo 4). Alyosha articula sua experiência ao afirmar: "Alguém visitou minha alma naquele momento." Uma experiência extática, sim. Uma conversão cristã? Na melhor das hipóteses, um analista deve manter uma postura agnóstica sobre o assunto. É sem dúvida um grande grito do "Jesus é o Senhor" experiência de Saulo de Tarso em Atos 9. Não há conteúdo proposicional real ou referenciais teológicos identificáveis para encontro místico de Alyosha. Quem é o "alguém" que encontra Alyosha?

Padre Zósima é o ancião amável do mosteiro (em Os Irmãos Karamazov) para que Alyosha está temporariamente ligado. Padre Zósima diz a seu inquiridor: "Não é apenas um meio de salvação... se leve e torne-se responsável pela vida de todos os homens." Para um cristão o que é o "único meio de salvação..."? A resposta de Padre Zósima dificilmente é considerada a resposta ortodoxa à pergunta. Parece anos-luz de distância de Atos 16:31.

Ivan surpreende Alyosha com argumentos intelectuais ateístas.  Uma das respostas de Alyosha é dizer a Ivan "Amar a vida acima de tudo" a esta declaração Ivan responde "Mais do que o sentido da vida?” Alyosha responde: ”Metade seu trabalho está feito, Ivan, você ama a vida, agora você só precisa fazer a segunda metade [presumivelmente para encontrar o significado da vida] e você está salvo.” São declarações estranhas a qualquer cristão evangélico.

De seus outros escritos sabemos que em Notas do Subterrâneo, Dostoiévski tinha planejado "para defender a fé cristã como um meio de alcançar a liberdade moral", mas "que os porcos censuraram" (como Dostoiévski chamava os que trabalhavam com a censura) não o permitira a publicar uma mensagem cristã através da voz de um personagem tão não-cristão. Dostoiévski se queixou de que o governo censurou a parte onde havia a necessidade da fé e Cristo. Se tivéssemos esta versão sem censura talvez poderíamos ser capazes de avaliar melhor a soteriologia de Dostoiévski.

Há um tema sob essa rubrica, no entanto, que é tão difundido nos escritos de Dostoiévski que não pode ser ignorado. Esse é o tema da salvação através do sofrimento. Em 1960, Martin Luther King, Jr., falou sobre "a convicção de que sofrimento imerecido é redentor." Suspeita-se que Martin Luther estava falando de libertação social. No entanto, o que exatamente Dostoiévski quis dizer usando linguagem semelhante permanece ambígua.

Berdiaev declarou: "Dostoiévski acreditava firmemente no poder redentor e regenerativo do sofrimento: a vida é a expiação do pecado, pelo sofrimento" Quando Dostoiévski colocou no papel o seu plano de Crime e Castigo, ele transcreveu, "O criminoso se resolve ao aceitar sofrimento e assim expiar sua ação”. Dunya adverte Raskolnikov: "Sofra e deixe expiar seus pecados" (Crime e Castigo, Parte V, cap 4). Mais tarde, o detetive Porfírio declara para o assassino, "Este pode ser um meio de Deus para te trazer de volta a ele" (Parte VI, capítulo 2). A irma de Raskolnikov pergunta a seu irmao, que esta a ponto de confessar: "Você não está em parte expiando o crime, enfrentando o sofrimento?" (Livro VI, capítulo 7).






Em Demônios, o quase sociopata Stavrogin confessa: "Eu quero perdoar a mim mesmo e esse é o meu objetivo... inteiro" (por sua responsabilidade no suicídio de uma jovem). Ele continua: "É por isso que eu procuro sofrimento sem limites.” Para Stavrogin, Bispo Tikhon oferece o estranho conselho (do ponto de vista bíblico): “. Cristo... vou te perdoar, se somente você perdoar a si mesmo". Será que algum apóstolo diria isso a um indagador fervoroso?

William Leatherbarrow anunciou: "Em Humilhados e Ofendidos, pela primeira vez nos romances de Dostoiévski, a idéia do poder de cura espiritual do sofrimento se opõe ao sonho de céu na terra." Enquanto ele analisa o sofrimento físico de Dmitri e sofrimento mental de Ivan (em Os Irmãos Karamazov), Leatherbarrow conclui: "Todos devem ser resgatados através do sofrimento." No mesmo romance um homem que projetou um assassinato bem-sucedido sem ser pego diz: "Eu quero sofrer por meus pecados" (Parte II, Livro VI, capítulo 2). Finalmente, Alyosha diz para Dmitri (depois que ele for condenado, injustamente, por homicídio): "você queria fazer-se [um novo homem] pelo sofrimento" (Epílogo, cap 2). Em outro lugar Dmitri declarou: "Eu quero sofrer e pelo sofrimento eu devo purificar-me" (Parte III, livro IX, cap 5).

Em uma ocasião, Dostoiévski escreveu a sua esposa: "Deus me deu você para que ... eu pudesse expiar meus grandes pecados ..." A repetição desta salvação através do tema sofrimento é muito inexorável em Dostoiévski para ser subestimado. Joseph Frank concluiu que "o maior objetivo do cristianismo de Dostoiévski ... não é a salvação pessoal, mas a fusão do ego individual com a comunidade em uma simbiose de amor; o único pecado que Dostoiévski parece reconhecer é a incapacidade de cumprir esta lei do amor ".
O livro de Hebreus parece conceder algum poder pedagogico aperfeiçoando o sofrimento quando corretamente é respondido. (veja Hb 2:10, 5:9; 12:2-11). Deus usa o sofrimento como uma ferramenta de ensino para nos conformar a Cristo. No entanto, Dostoiévski (através da boca de seus personagens) parecia investir na ideia do sofrimento como um poder de regeneração espiritual - e isso, devemos repudiar. Enquanto Dostoiévski oferece soluções espirituais para a regeneração através de seus personagens para outros personagens carentes em seus romances, eu não encontro  qualquer prescrição bíblica clara para a salvação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo.

Em relação ao catolicismo romano, Dostoiévski estabeleceu inúmeros discursos inflamados e virulentos em seus livros. No entanto, nunca é claro se ele está tomando catolicismo em sentido de soteriologia não-bíblica. Ele viu o poder temporal do catolicismo romano como a principal ameaça à verdade e observou isso como uma possível adesão ao socialismo ateu.


E. Escatologia

"O fim do mundo está chegando", escreveu Dostoievski em suas notas. No tempo em que Dostoiévski vivia, havia um excesso de Irreligião (sob a forma de ateísmo) e um excesso da religião (sob a forma de apocalipticismo). Há uma quantidade considerável de conversa apocalíptica ocorrendo em ambos O Idiota e Os Demônios.

Um dos personagens menos sérios em O Idiota, Lebedyev, é um "intérprete auto-intitulado do Apocalipse" [isto é, o livro do Apocalipse]. Em linha com Matt 24:6, Dostoiévski observou que "o próprio Cristo ... previu ... que luta e desenvolvimento irá continuar até o fim do mundo ..." Em Recordações da Casa dos Mortos, há uma discussão sobre a possibilidade do retorno dos judeus para Jerusalém.

Apocalipse 6 surge em uma conversa entre Lebedyev e o príncipe Míchkin (em O Idiota). Obviamente, o intérprete, neste caso, adota uma posição historicista, citando eventos em Apocalipse 6 com o mundo contemporâneo de 1800. Lebedyev diz: "Ela concordou comigo que estamos vivendo na era do terceiro cavalo, o negro [Apocalipse 6:05, 6], e o cavaleiro que tem uma balança na mão, vendo que tudo na idade atual é pesado na balança e mediante acordo, e as pessoas estão em busca de nada, mas os seus direitos - uma medida de trigo por centavos, e três medidas de cevada por um centavo '... e depois seguirá o cavalo amarelo e ele, cujo nome era Morte e com quem o inferno seguirá ... [Apocalipse 06:08] " (Parte II, capítulo 2). A interpretação apocalíptica de Lebedyev mais tarde é chamada de “mero charlatanismo” pelo general Ivolgin (na Parte II, cap 6). No mesmo livro o nome da Princesa Belokonskaya reflete o simbólico quarto cavalo do Apocalipse 6, para o belo em russo significa "branco" e kon significa "cavalo".

Em Os Irmãos Karamazov Ivan interpreta Apocalipse 08:11 como a heresia de se manifestar com o anti-supernaturalismo do iluminismo Alemão, mais uma vez um exemplo de uma hermenêutica historicista. Lebedyev (em O Idiota) conecta a Estrela que cai, no Apocalipse 08:11 - surpreendentemente - com a rede de ferrovias europeias (Parte II, capítulo 11)!

Apocalipse 10:06 também aparece em dois romances apocalípticos chefe de Dostoiévski. Em Os Demônios diz  "no Apocalipse, o anjo jura que o tempo não mais existirá" (Parte II, cap 5). A doente Ipolit ironicamente clamando pela morte brinca sobre o Apocalipse 10:06 (à luz de seu suicídio secretamente projetado), quando ele informa o príncipe Míchkin: "amanhã não haverá 'mais tempo'" (parte III, cap 5). Em seguida, ele pergunta: "E você se lembra, príncipe, que proclamou que não haverá" mais tempo "? Foi proclamada pelo grande e poderoso anjo no Apocalypse". Claro, a maioria das versões modernas da Bíblia entendem o "tempo ... não mais" na forma como na versão do New King faz: "não deve haver mais demora." Enquanto isso a retradução enfraquece as idéias dos dois intérpretes anteriores, no entanto, revela a familiaridade de Dostoiévski com o texto do Apocalipse.


O sistema de interpretação que giram em torno Apocalipse 13 e o Anticristo também faz sentir a sua presença nos romances de Dostoiévski. "É verdade que você expôs o  Anticristo?", Lebedyev o interprete amador é solicitado (O Idiota, Parte II, capítulo 2). Lebedyev respondeu que "desdobrou a alegoria e as datas embutidos ali”.

A maioria dos analistas literários concordam em ver o Stavrogin da obra Os Demônios como uma figura do anticristo. Stavrogin não é flagrantemente vilão, mas ele é a personalidade polar, de sangue  frio, ousado e imprevisível atraves do qual muitos dos outros personagens da novela gira. O nome Stavrogin está relacionado com a palavra bizantina Stavros (e stauros em grego), que significa "cruz". No entanto, a parte rog de seu nome russo significa "chifre", fazendo com que o estudante de escatologia pense no Apocalipse 13:01 e Dan 7:20-25.39 Além disso, o primeiro nome de Stavrogin é Nikolai (que significa "conquistador do povo"), como o nome dos Nicolaítas em Apocalipse 02:06 e 15.

O principal capanga de Stavrogin é Peter Verkhovensky. Verkhovenstvo em russo significa "supremacia". Verkhovensky é o mesquinho, niilista revolucionário e agitador.Ele diz para Stavróguin, "Você é o meu ídolo" e "Eu tenho de inventar você" (Parte 2, capítulo 8). Com essas noções deve ser comparado ao Ap 13:11-15. Na narrativa Verkhovensky é um incendiário, de modo que, na verdade, traz o fogo à terra, em paralelo com Apocalipse 13:13. Em Demônios o condenado Fiedka fala com Verkhovensky "todas as bestas a partir do livro do Apocalipse" (parte III, cap 3).

Também em Os Demônios nas conversações intelectuais de Kirillov para Stavróguin sobre "o deus-homem". Para estas perguntas Stavróguin diz "[Você quer dizer que] o Deus-homem [pelo qual ele se refere a Cristo]?" Kirillov na sua vez reencontra, "O Homem-Deus - que é toda a diferença" (Parte II, cap 5). Novamente, o estudante da Bíblia não pode deixar de refletir sobre a paródia de Cristo encontrado no anticristo (como em 2 Tessalonicenses 2:3-4).

Em Crime e Castigo Marmeladov, o pai alcoólatra, refere-se a os bêbados "feitos à imagem da besta e sua marca" (Parte I, cap 2). Comparação com o Apocalipse 13:15-17. Conseqüentemente, o pensamento e a terminologia do Apocalipse cap13 desempenhou um papel significativo no pensamento de Dostoiévski.
Um paralelo com Apocalipse 17 e 18 vem à tona quando a Europa da década de 1860 é comparada a Babilônia: "sua Babilônia está realmente para entrar em colapso; grande será a sua queda..." (Os demônios, Parte II, cap 5).

Joseph Frank escreveu que Dostoiévski "procurou a aceitar os dogmas essenciais da divindade de Cristo, a imortalidade pessoal, a Segunda Vinda e da Ressurreição." Quando Raskolnikov (em Crime e Castigo) decide não acabar com sua vida em um rio "ele não conseguia entender que a sua decisão contra o suicídio surgiu a partir de um pressentimento de uma futura ressurreição e uma nova vida. "

Em Os Demônios, Shatov, um nacionalista que apóia o cristianismo, embora ele próprio não seja cristão, "acredita que a segunda vinda de Cristo será entre o povo russo, que irá, em seguida, trazer o renascimento espiritual do resto do mundo." Assim, um dos personagens de Dostoiévski oferece um locus mais interessante para o retorno de Cristo.

Em Os Irmãos Karamazov, Ivan refere-se ao retorno de Cristo em glória celestial, como um relâmpago (Parte II, Livro V, cap 5). Mais tarde, o amigo do Padre Zosima diz: "O sinal do Filho do Homem vai ser visto nos céus" (Parte II, Livro VI, capítulo 2), como em Mateus 24:30.

Os Irmãos Karamazov termina com uma nota importante. Depois de voltar do funeral do menino Ilyusha, o jovem Kolya pergunta Alyosha: "Pode ser verdade o que nos ensinaram na religião que todos nós ressuscitarão dos mortos e viverá para nos ver outra vez, Ilyusha também?" À pergunta do jovem Alyosha responde: "Certamente" (Epílogo, cap 3).

O julgamento não está faltando nos romances de Dostoiévski. Frank observa que, no corpus dos romances há um "espreita iminência do Dia do Juízo e do Juízo Final." Os Demônios se refere ao Juízo Final (Parte I, cap 4).

Inferno parece ser uma realidade em Dostoiévski. Dmitri Karamazov pergunta se ele vai "para o Céu ou para o Inferno...?" (Os Irmãos Karamazov, Parte III, Livro IV, cap 8). Berdiaev informou que "mal [por Dostoiévski] era ruim, e devia ser queimado no fogo do inferno." Afirmou: "Uma característica marcante de Os Irmãos Karamazov... é a medida que os personagens são obcecados pelo inferno ..." O pai libertino (em Os Irmãos Karamazov) declarou: "Eu acredito no inferno" (Parte I, Livro I, cap 4). No entanto, Padre Zosima "não acredita literalmente no fogo do inferno."

Em resumo, então, Dostoiévski mostra um respeito geral para a escatologia da Bíblia, embora alguns de seus personagens promovessem interpretações bizarras. Em O Adolsecente, "Versilov fala da Segunda Vinda que vai acabar com o hino arrebatador que saúda" a última ressurreição. ".

Assim, Dostoiévski parece concordar com a ortodoxia histórica que a Segunda Vinda de Cristo é que o um evento divino distante para o qual todos a criação se move.

IV. Dostoiévski era um Cristão?

A conclusão do filósofo Nicholas Berdiaev é: "Eu, pessoalmente, não conheço nenhum escritor mais profundamente cristão que Dostoiévski ..." e afirma que Dostoiévski "amou Cristo profundamente..." Dadas tais conclusões complementares, alguns leitores poderiam considerar quase um sacrilégio para levantar a pergunta que intitula este secção do artigo. No entanto, uma vez que os cristãos são ordenados a ser testadores (em 1 Tessalonicenses: 5:21 e 1 João 4:1), a questão deve ser considerada uma questão legítima de levantar, especialmente à luz do que foi previamente discutido sobre o defeito da soteriologia. Vamos fazer um levantamento da herança religiosa de Dostoiévski e, em seguida, lidar com a questão de possíveis pontos de conversão em sua experiência.

A. Sua Herança Religiosa

Dostoiévski foi criado dentro do seio da Igreja Ortodoxa Russa. Seu avô era um arcipreste, seu tio era um padre da aldeia, três tias casaram sacerdotes da aldeia, e seu pai até participou do seminário por um tempo. Além disso, seu avô materno corrigiu provas de legislação teológica em Moscou. Dostoiévski disse "Eu vim de uma família russa piedosa... Em nossa família, nós sabíamos o Evangelho quase desde o berço". Ainda na sua infância iniciou leitura de 104 histórias sagradas do Antigo e Novo Testamentos. Jó foi uma das histórias da Bíblia que mais o fascinou ainda jovem. Além disso, um diácono visitou a casa Dostoiévski e ensinou lições bíblicas "de uma hora e meia a duas horas" a cada semana.

Um item estratégico na história de Dostoiévski  foi o envio de uma cópia do Evangelho por uma mulher enquanto estava a caminho da prisão na Sibéria. Uma das três, Natalya Fonvízina "sabia [da Bíblia] quase de cor, ela lê as obras dos Padres da Igreja Ortodoxa e os escritores das igrejas católicas e protestantes..." Dostoiévski valorizou e preservou este presente do Evangelho até o dia de sua morte, como já observamos.
B. A questão da conversão

Esta é uma pergunta complicada, porque Dostoiévski era uma pessoa complexa, com textos complicados. A questão é agravada pelo seu envolvimento na Igreja Oriental. Quando pequeno, Fyodor disse que fazia orações diárias em fronte  do ícone da família da Virgem Maria: "Mãe de Deus, mantenha-me e guarda-me em tuas asas!" Sua segunda esposa relatou que ele falava esta oração favorita com seus filhos todas as noites. Muitas vezes, essas igrejas orientais não enfatizam a importância de uma decisão de conversão clara.
É possível que Dostoiévski começou a acreditar em Cristo durante a sua experiência de infância. Como muitas crianças que crescem em uma família cristã, pode ser difícil de rastrear qualquer tipo de antes e depois dessa experiência. Essa pode ser uma das possibilidades para tentar localizar um ponto de partida para o cristianismo de Dostoiévski.

Sua experiência traumática em ter sua vida poupada diante do pelotão de fuzilamento, em 1849, deixou a sensação de que ele tinha recebido uma nova vida, uma espécie de ressurreição, mas outros fatores documentados parece ser contrario este evento que está sendo avaliada como uma conversão cristã. Suas palavras relatadas para seu irmão Mikhail naquela ocasião eram. "Agora, na mudança de a minha vida, estou a renascer em uma nova forma. Irmão! Eu juro que eu... vou manter a minha alma e meu coração puro. Vou renascer para o melhor. Essa é toda a minha esperança, toda a minha consolação!" Note que o escritor diz “eu renasci” e “estou a renascer”. Por causa daquilo que Dostoiévski disse anteriormente a outro prisioneiro, é melhor assumir que aqui ele estava simplesmente usando uma linguagem figurada. Ele foi, sem dúvida, rejuvenescido, mas pouco provável que tenha regenerado neste momento da sua vida. Ele usou palavras similares, quando as correntes de suas pernas foram retiradas após a sua libertação da prisão da Sibéria (“Liberdade, vida nova, a ressurreição dos mortos”!...).

Se Dostoiévski já era um cristão antes de ele sair da Sibéria, em 1859, ele "nunca pareceu crescer como cristão", relatou um repórter anônimo do Christianity Today. "Ele teve um caso. Ele se tornou um jogador compulsivo e perdeu tanto dinheiro que foi praticamente à falência.". 59 Este vício do jogo, que colocou sua família em situação de pobreza, é narrada no romance de Dostoiévski O Jogador.

Outra experiência enquanto estava na prisão siberiana é frequentemente citada pelos biógrafos. Durante uma semana da Páscoa, na prisão, Dostoiévski relatou uma experiência mística. Antes disso, ele tinha desprezado os outros presos. Depois sua atitude foi completamente alterada. Ele relatou: "... de repente senti que eu poderia olhar para esses infelizes com olhos bastante diferentes, e de repente, como que por milagre, todo o ódio e rancor tinham desaparecido do meu coração." No entanto, como Joseph Frank avalia esta "conversão, “não era a fé em Deus ou Cristo ... mas sim, é uma fé nas pessoas russas comuns”. A regeneração de Dostoiévski [aqui] ... centra principalmente em suas relações com as pessoas ... " Esta foi uma conversão social e não estritamente espiritual.

O principal problema com a salvação de Dostoiévski é a sua doutrina da salvação conforme expresso (ou não expressa) em seus romances. É que existe tal ênfase sobre a salvação pelo sofrimento e este tema levanta questões reais sobre um cristianismo autêntico famoso no próprio autor. Dostoiévski, sem dúvida, acreditava que ele tinha uma missão religiosa em sua escrita, mas existe uma mensagem clara, e de como se tornar um cristão, através dos grandes romances. Na melhor das hipóteses, eles têm um propósito pré-evangelístico, que é de fato uma função valiosa. No clímax de seus romances o cristianismo vem através de uma luz cintilando no final de um túnel escuro. Mesmo o filosofo Berdiaev, famoso por elogiar Dostoiévski, observou que o famoso russo "não nos diz como adquirir [a liberdade de espírito], como podemos alcançar a autonomia espiritual e moral..."

Em uma carta de 1875, Dostoiévski aconselhou NL Ozmidov: "Não seria melhor para voce ir direto ao ponto ... se você ler um pouco mais atentamente as epístolas de São Paulo?" Ah, só podemos desejar que Dostoiévski tivesse atendido a sua advertência quando veio com o tema da soteriologia!


Felizmente, existem algumas evidências que pode ser feita no lado positivo da cerca. Temos própria expressão de Dostoiévski: "Se você acredita em Cristo, então você vai viver eternamente." Sua esposa Anna também narrou uma visita a um mosteiro onde seu marido foi perguntado à queima-roupa por um Padre se ele era um crente . Para o Padre, Dostoiévski respondeu que era. Quando Dostoiévski estava prestes a ser atirado em 1849, um companheiro de prisão chamado FN Lvov documentou que Dostoiévski exclamou para Spechniev: "Vamos estar com Cristo." (O problema aqui é que Spechniev era um ateu conhecido!) William Lyon Phelps, um professor cristão da Universidade de Yale, reconheceu que Dostoiévski "encontrou na religião cristã a única solução do enigma da existência ..." 


V. Conclusão

Sua apresentação de Deus, Cristo e o pecado são geralmente alinhados com o pensamento teológico da ortodoxia cristã. Infelizmente, porém, as suas cristalizações que se relacionam com o tema da salvação em suas novelas, muitas vezes aparecem com defeito. Nós sofremos por nossos pecados, ou (como o Novo Testamento declara) Cristo suficientemente sofreu por nossos pecados (Hb 9:26-28; 1 Pe 2:21-24; 3:18)? Dostoiévski quase parecia abraçar um purgatório na presente vida. O sofrimento aqui na terra é purificador, regenerativo para ele, que não se enquadra com o que o Novo Testamento ensina. O sofrimento fez provar pessoalmente benéfico na própria vida de Dostoiévski, então ele provavelmente leu seu Novo Testamento através desta ótica. Mas a experiência não será necessariamente prescritiva para a um esclarecimento.




Do Jornal da Graça da Sociedade, Outono 1997 - Volume 10:19.