terça-feira, 23 de julho de 2013

Aforismos de Nicolás Gómez Dávila

Aforismos de NÍCOLAS GÓMEZ DÁVILA


O ironista desconfia do que diz sem crer que o contrário seja certo.
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Temos necessidade de que nos contradigam para afinarmos nossas idéias.
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A literatura toda é contemporânea para o leitor que sabe ler.
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A prolixidade não é excesso de palavras, mas sim escassez de idéias.
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O homem mais desesperado é somente o que melhor esconde sua esperança.
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Dos seres que amamos sua existência nos basta.
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Quem critica ao burguês recebe duplo aplauso: o do marxista, que nos julga inteligentes porque corroboramos seus prejuízos; o do burguês, que nos julga acertados porque pensa em seu vizinho.
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Vencer a um idiota nos humilha.
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Como pode viver quem não espera milagres?
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Pensar que só importam as coisas importantes é sintoma de barbárie.
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Vivemos porque não nos vemos com os olhos que os demais nos vêem.
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Entre a anarquia dos instintos e a tirania da ordem, estende-se o fugitivo e puro território da perfeição humana.
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O tom professoral não é próprio do que sabe, senão do que tem dúvidas.
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Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.
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A “psicologia” é, propriamente, o estudo do comportamento burguês.
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Amor é o ato que transforma a seu objeto de coisa em pessoa.
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O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.
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O que distancia de Deus não é a sensualidade, mas a abstração.
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O estado moderno fabrica as opiniões que recolhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.
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Amar é compreender a razão que teve Deus para criar ao que amamos.
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Amar é rondar sem descanso em torno da impenetrabilidade de um ser.
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A verdade está na história, mas a história não é a verdade.
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A Bíblia não é a voz de Deus, senão a do homem que o encontra.
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Educar a alma consiste em ensinar-lhe a transformar em admiração sua inveja.
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Crer é penetrar nas entranhas do que meramente sabíamos.
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O pior vício da crítica de arte é o abuso metafórico do vocabulário filosófico.
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A hipocrisia não é a ferramenta do hipócrita, senão sua prisão.
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Só o imbecil não se sente nunca co-partidário de seus inimigos.
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A imparcialidade é filha da preguiça e do medo.
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O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
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A estatística é a ferramenta daquele que renuncia a compreender para poder manipular.
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A grandiloqüência das teorias estéticas cresce com a mediocridade das obras, como a dos oradores com a decadência de sua pátria.
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A inteligência não consiste no manejo de idéias inteligentes, mas no manejo inteligente de qualquer idéia.
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Toda reta leva direto a um inferno.
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As “soluções” são as ideologias da estupidez.
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A crença na solubilidade fundamental dos problemas é característica própria ao mundo moderno. Que todo antagonismo de princípios é simples equívoco, que  haverá aspirina para toda cefaléia.
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A ética deve ser a estética da conduta.
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Se o burguês de ontem comprava quadros porque seu tema era sentimental ou pitoresco, o burguês de hoje não os compra quando têm tema pitoresco ou sentimental. O tema segue vendendo o quadro.
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Todo o que faça sentir ao homem que o mistério o envolve torna-o mais inteligente.
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Ensinar exime da obrigação de aprender.
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O otimismo inteligente nunca é fé no progresso, mas esperança no milagre.
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O homem inteligente costuma fracassar, porque não se atreve a crer no verdadeiro tamanho da estupidez humana.
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A superficialidade consiste, basicamente, no ódio às contradições da vida.
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O impacto de um texto é proporcional à astúcia de suas reticências.
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Não há verdade que não seja lícito estrangular se há de ferir a quem amamos.
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O sacrifício da profundidade é o preço que exige a eficácia.
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Já não existem anciões senão jovens decrépitos.
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A inveja não é vício de pobre, mas de rico. Do menos rico ante o mais rico.
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O cinismo não é indício de agudeza mas de impotência.
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As duas asas da inteligência são a erudição e o amor.
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A imaginação não é o lugar onde a realidade se falsifica, mas onde se cumpre.
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A vulgaridade não é um produto popular senão um subproduto da prosperidade burguesa.
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O que significa a beleza de um poema não tem relação alguma com o que o poema significa.
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A pessoa que não seja algo absurda resulta insuportável.
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“Encontrar-se”, para o moderno, quer dizer dissolver-se em uma coletividade qualquer.
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Os problemas metafísicos não acossam ao homem para que os resolva mas para que os viva.
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A feiúra do rosto moderno é um fenômeno ético.
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Chamam-se progressos os preparativos das catástrofes.
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A sensibilidade não projeta uma imagem sobre o objeto, mas uma luz.
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A função didática do historiador está em ensinar a toda época que o mundo não começou com ela.
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Aprender a morrer é aprender a deixar morrer os motivos de esperar sem deixar morrer a esperança.
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A poesia resgata as coisas ao reconciliar na metáfora a matéria com o espírito.
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Uma resenha de literatura contemporânea nunca permite saber se o crítico crer viver no meio de gênios ou se prefere não ter inimigos.
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O anonimato da sociedade moderna obriga a todo o mundo a pretender-se importante.
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Ao divorciar-se religião e estética não se sabe qual se corrompe mais depressa.
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Os museus são o castigo do turista.
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Problema que não seja econômico não parece digno, em nosso tempo, de ocupar um cidadão sério.
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O moderno não tem vida interior: apenas conflitos internos.
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A lei é o método mais fácil de exercer a tirania.
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Só o inesperado satisfaz plenamente.
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A vida é um combate cotidiano contra a estupidez própria.
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O individualismo é o berço da vulgaridade.
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A estupidez se apropria com facilidade do que a ciência inventa.
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Ao repudiar os ritos, o homem se reduz a animal que copula e come.
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As pessoas sem imaginação nos congelam a alma.
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Só a religião pode ser popular sem ser vulgar
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A fé não é uma convicção que possuímos, mas uma convicção que nos possui.
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Os ritos preservam a fé, os sermões minam a fé.
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O calor humano em uma sociedade diminui à medida que sua legislação se aperfeiçoa.
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A moda, mais ainda que a técnica, é causa da uniformidade do mundo moderno.



Tradução de Wanderson Lima

 [In: DÁVILA, Nícolas Gómez. Escolios a un texto implícito (selección). Bogotá - Colômbia:
Villegas editores, 2002]


Abaixo, segue outros aforismos traduzidos por um autor desconhecido:


“Entrar em compromisso é sacrificar um bem distante a uma urgência imediata.”
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“Para Deus existem apenas indivíduos.”
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“Todo o objectivo que não seja Deus desonra-nos.”
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“Uma “sociedade ideal” será o cemitério da grandeza humana.”
-“O indivíduo encolhe na proporção do aumento do Estado.”
-“A autenticidade do sentimento depende da clareza do pensamento.”
-“A recusa da preocupação é a marca da besta.”
-“Aquele que renuncia parece fraco aos olhos daquele incapaz de o fazer.”
-“A genuína aliança com uma ideia ultrapassa motivações sociais e psicológicas.”
-“ Vulgaridade consiste em pretender ser o que não se é.”
-“O interlocutor incoerente é mais irritante que o hostil.”
-“Um filósofo que adopta noções científicas predetermina as suas conclusões.”
-“Depender apenas de Deus é a nossa verdadeira autonomia.”
-“A violência não é necessária para destruir uma civilização. Cada civilização morre pela indiferença em relação aos valores únicos que a criaram. ”
-“A perfeição é o ponto onde coincidem aquilo que temos a possibilidade de fazer, aquilo que queremos fazer e aquilo que devemos fazer.”
-“O homem moderno não ama mas procura refúgio no amor; não tem esperança mas quer refugiar-se na esperança; não acredita mas quer refúgio no dogma.”
-“O homem moderno destrói mais quando constrói do que quando destrói.”
-“A literatura contemporânea, em toda e cada época, é o pior inimigo da cultura. O tempo limitado do leitor é desperdiçado lendo mil livros que embotam o sentido crítico e arruínam a sua sensibilidade literária.”
-“Numa era onde os mídia difundem incontáveis disparates, o homem educado é definido não pelo que sabe mas pelo que desconhece. ”
-“As ideologias políticas contemporâneas são falsas no que afirmam e verdadeiras no que negam.”
-“Todas as épocas exibem os mesmos vícios mas não todas as virtudes. Todas as eras têm cabanas mas apenas em algumas existem palácios.”
-“A tragédia moderna não é a da derrota da razão mas do seu triunfo.”
-“O homem moderno é um prisioneiro que se julga livre porque se recusa em tocar nas paredes do seu calabouço.”
-“Ter opiniões é a melhor forma de escapar à obrigação de pensar.”
-“A Igreja tinha a função de absorver os pecadores; hoje incumbe-se de absolver os pecados.”
-“A civilização parece ser a invenção de uma espécie agora extinta.”
-“A punição para o idealista consiste no triunfo da sua causa.”
-“Ser civilizado consiste em conseguir criticar aquilo em que se acredita sem deixar de acreditar.”
-“O objectivo da filosofia não é pintar novos objectos mas dar aos objectos familiares a sua verdadeira cor.”
-“Aqueles que começam por proclamar que o nobre é desprezível acabarão por proclamar que o desprezível é nobre.”
-“Toda a solução parece trivial para quem não entendeu o problema.”
-“O homem culto tem a obrigação de ser intolerante.”
-“A estupidez num homem velho imagina-se a si mesma como sabedoria; num adulto, como experiência; e na juventude como genialidade.”
-“De Deus não falamos com qualquer rigor e seriedade excepto na poesia.”
-“A imaginação é o único lugar no universo onde é possível viver.”
-“O optimismo nunca é fé no progresso mas esperança num milagre.”
-“A importância de um acontecimento é inversamente proporcional ao espaço que ocupa nos jornais.”
-“Um indivíduo que se declara membro de um grupo, pede em nome do grupo aquilo que se envergonha de pedir em próprio nome.”
-“Ter um diálogo com aqueles que não partilham connosco as premissas básicas não é mais que uma estúpida forma de passar o tempo.”
-“A fé não é o conhecimento de um objecto mas a comunhão com ele.”
-“A poesia morreu, asfixiada por metáforas.”
-“É injusto repreender os escritores hodiernos pelo mau gosto quando a própria noção de gosto morreu.”
-“Se acreditamos em Deus não devemos dizer “Acredito em Deus”, mas “Deus acredita em mim.””
-“A fúria dos imbecis é menos assustadora que a sua benevolência.”
-“”Ser útil à sociedade” é a ambição, ou desculpa, de uma prostituta.”
-“Quem nos trai nunca nos perdoará a sua traição.”
-“Toda a sociedade não-hierárquica está dividida em duas.”
-“Os inimigos do mito não são os amigos da realidade mas da trivialidade.”
-“O racista inquieta-se porque suspeita em segredo que todas as raças são iguais. O anti-racista inquieta-se porque suspeita em segredo que não são.”
-“As hierarquias são celestiais. No inferno todos são iguais.”
-“Os imperativos, éticos ou estéticos, devem ser negativos. Imperativos positivos apenas aumentam a impostura.”
-“A vontade de ser original é uma afectação causada pela falta de talento.”
-“A alma moderna é uma paisagem lunar.”
-“No idioma da arquitectura moderna nada de complicado pode ser dito.”
-“O pecado do homem abastado não é a sua riqueza mas o seu apegamento a ela.”
-“Ideias da esquerda dão origem a revoluções. Revoluções dão origem às ideias da direita.”
-“A verdade é tão subtil que nunca inspira tanta confiança como uma tese errada.”
-“A adaptação ao mundo moderno requer uma sensibilidade esclorosada e um carácter degradado.”
-“A opinião pública nos dias de hoje não é a soma das opiniões privadas. Pelo contrário, as opiniões privadas é quê são o eco da opinião pública.”
-“O excesso de polidez paralisa; a sua falta brutaliza.”
-“Não ter noção da putrefacção do mundo moderno é sintoma de contágio.”
-“Existe uma iliteracia da alma que nenhum diploma pode curar.”
-“O leitor genuíno lê por prazer os livros que os outros apenas estudam.”
-“A diferença entre “orgânico” e “mecânico” em matérias sociais é moral: o “orgânico” é o resultado de inumeráveis actos humildes; o “mecânico” é o resultado de um único e decisivo acto de arrogância.”
-“Dizer que ”o gosto é relativo” é uma desculpa adoptada nas épocas onde reina o mau gosto.”
-“Os objectos modernistas não possuem vida interna; apenas conflitos internos.”
-“A mecanização brutaliza porque faz as pessoas acreditarem que o universo é inteligível.”
-“A falta de transparência é o primeiro sintoma de declínio de uma língua.”
-“Falsificar o passado é o método que a Esquerda usa para produzir o futuro.”
-“A sede modernista de originalidade faz o artista medíocre acreditar que o segredo da originalidade é simplesmente ser diferente.”
-“Mais irritante que a estupidez vulgar é a verborreia de vocabulário científico.”
-“As pessoas modernas acreditam viver num ambiente de pluralidade de opiniões, quando o que de facto reina é uma unanimidade asfixiante.”
-“Em filosofia, uma simples questão ingénua basta para todo um sistema entrar em colapso.”
-“Para o moderno progressista a nostalgia é a suprema heresia.”
-“Nada se torna mais rapidamente obsoleto que o moderno mais arrojado.”
-“A claridade na exposição é o único sinal incontroverso de maturidade de uma ideia.”
-“Se a filosofia não resolve nenhum problema científico, a ciência, por sua vez, não resolve nenhum problema filosófico.”
-“Uma das maiores catástrofes intelectuais reside na apropriação dos conceitos e vocabulário científico por inteligências medíocres.”
“As verdades não são relativas. Relativas são as opiniões sobre a verdade.”


Nícolas Gómez Dávila nasceu em Bogotá, Colômbia, em 1913 e morreu naquela mesma cidade em 1994. Educou-se em Paris e, voltando a seu país natal, passou a  maior parte da vida entre seu ciclo de amigos e sua biblioteca, composta de mais  30.000 volumes nos idiomas originais. Sua obra concisa – composta, basicamente, de  três livros de aforismos (que ele preferia denominar “escólio”) e um livro de prosa  corrente – foi notoriamente concebida com lentidão e rigor, numa prosa clara e de  riqueza estilística incomum. Enquadrava-se a si mesmo na linhagem de Pascal e  Nietzsche, sendo que com este último a parecença era acima de tudo estilística. De  acordo com Franco Volpi, um de seus melhores intérpretes, a obra de Goméz Dávila,  “por seu pessimismo exasperante, a intransigência de seus juízos, e a escandalosa arrogância de seus dogmas recorda a Cioran ou a Carasco, mas não se nutre de amargura ou niilismo, senão de fé e férreas certezas. Tem em comum com  pensadores como De Maistre ou Donoso Cortés, a indestrutível convicção nas verdades tradicionais, mas não tem a periodicidade vasta e lenta da prosa do Oitocentos, ao contrário está cheia de ânimo, de desencanto, de espírito rebelde e de lucidez” (In: Um ángel cautivo caido en lo tiempo).


domingo, 21 de julho de 2013

Eric Voegelin sobre Karl Popper

Carta do Eric Voegelin para Leo Strauss sobre Karl Popper:


Caro Sr. Strauss,

A oportunidade de falar poucas — porém profundas — palavras sobre Karl Popper a uma alma querida é algo valioso demais para suportar uma longa espera. Esse Popper tem sido por anos, não exatamente uma pedra pela qual se tropeça, mas um incômodo cascalho que eu preciso ficar a todo momento chutando para fora do caminho, pois ele é constantemente colocado na minha frente por pessoas que insistem que sua obra A Sociedade aberta e seus inimigos é uma das obras-primas das ciências sociais da nossa era. Essa insistência me persuadiu a ler a obra — coisa que, de outro modo, não faria. Você está assaz certo em dizer que é um dever profissional nos familiarizarmos com as ideias de uma obra quando elas se colocam no nosso campo; contra esse dever, eu diria que há outro: o de não escrever ou publicar tal obra. Em sua obra, Popper violou esse dever profissional elementar e roubou-me várias horas da minha vida que foram dedicadas em cumprir o meu dever profissional, de tal forma que eu me sinto completamente justificado em dizer sem reservas que esse livro é uma porcaria sem-vergonha e impudente. Cada uma das sentenças é um escândalo, mas mesmo assim ainda é possível destacar algumas contrariedades.


Karl Popper
1. A expressão “sociedade aberta” e “fechada” foram tiradas dos Deux Source de Henry Bergson. Sem explicar as dificuldades que induziram Bergson a criar esses conceitos, Popper toma os termos para si porque eles soavam bem. Ele comenta de passagem, que em Bergson os termos tinham um significado “religioso”, mas que ele usaria o conceito de sociedade aberta mais próximo ao da “grande sociedade” de Graham Wallam ou do conceito de Walter Lippmann. Talvez eu seja supersensível com tais coisas, mas eu não acredito que filósofos respeitáveis como Bergson desenvolvem seus conceitos com o único propósito de serem remendados pela escória nas conversas de cafeteria. Também surge outro problema relevante: se a teoria de Bergson da sociedade aberta é filosoficamente e historicamente defensável (o que de fato eu acredito), então a ideia de sociedade aberta de Popper não passa de lixo ideológico. Só por esse motivo, ele deveria ter discutido o problema com todo cuidado possível.

2. O impertinente desrespeito para com as conquistas da sua área em particular — muito evidente em relação a Bergson — está presente em toda a obra. Quando se lê as deliberações dele sobre Platão ou Hegel, tem-se a impressão de que Popper é de fato estranho à literatura do assunto — embora ele ocasionalmente cite um autor. Em alguns casos, como por exemplo Hegel, eu acreditaria que ele jamais viu uma obra como Hegel e o Estado de Rosenzweig. Em outros casos, onde ele cita obras sem parecer que entendeu o conteúdo, outro fator deve ser adicionado:

3. Popper é inculto filosoficamente, um completo e primitivo ideólogo intratável, inapto sequer a reproduzir corretamente o conteúdo de uma única página de Platão. Ler é algo dispensável para ele; ele é muito carente de conhecimento para entender o que o autor diz. Disso surgem terríveis erros, como quando ele traduz o “mundo germânico” de Hegel como “mundo alemão” e tira conclusões a partir deste erro de tradução em relação a propaganda nacionalista alemã de Hegel.

4. Popper não se empenha na análise textual pela qual poderia se saber qual é a intenção de um autor; em vez disso, ele transpõe seus clichês ideológicos modernos nos seus textos, esperando que o texto trará os resultados quando se entender o sentido dos clichês. Seria um prazer especial para você ouvir que, por exemplo, Platão passou por uma evolução, partindo de um período “humanitário” ainda reconhecível no Górgias, para algo (não consigo mais lembrar se [ele usou] “reacionário” ou “autoritário”) na República.

Resumidamente e em suma: o livro de Popper é um escândalo sem circunstâncias atenuantes; sua atitude intelectual é o típico produto de um intelectual fracassado; moralmente poderia se usar expressões como patifaria, impertinência, grosseria; em termos de competência técnica, como uma peça na história do pensamento, é diletantismo e o resultado é desprezível.

Não seria adequado mostrar esta carta para desqualificados. No que concerne aos conteúdos factuais, eu veria isso como uma violação do dever profissional — identificado por você — apoiar esse escândalo por meio do silêncio.

Eric Voegelin

sábado, 20 de julho de 2013

Como Ser um Conservador Não-Liberal e Anti-Socialista (Por Roger Scruton)

Intelectuais do pós-guerra herdaram dois grandes sistemas de pensamento político para satisfazer sua sede de doutrina: o liberalismo e o socialismo. Este é um testemunho da persistência do quadro dicotomitização da mente que, mesmo na Europa Oriental, o "conflito mundial", que perdurou por 70 anos era freqüentemente visto em termos da oposição entre esses sistemas. E por serem sistemas, muitas vezes é suposto que eles são organicamente unificados, que você não pode abraçar qualquer parte de um deles, sem abraçar a totalidade do mesmo. Mas diga-se desde o início, que, do ponto de vista de nossa situação atual, nada é mais óbvio sobre estes sistemas são de fato, em seus pressupostos, essencialmente os mesmos. Cada um deles propõe uma descrição de nossa condição, e uma solução ideal para ela, em termos são seculares, abstratos, universais e igualitários. Cada um vê o mundo em termos "dessacralizados", em termos que, na verdade, correspondem a nenhuma experiência humana comum duradoura, mas apenas para os paradigmas frios esqueléticos que assombram os cérebros dos intelectuais. Cada um é abstrato, mesmo quando ele pretende uma visão da história humana. Sua história, como sua filosofia, é separado da circunstância concreta da atividade humana, e, de fato, no caso do marxismo, vai tão longe a ponto de negar a eficácia da atividade humana, preferindo ver o mundo como uma confluência de forças impessoais . As idéias pelas quais os homens vivem e encontram suas identidades locais - idéias de fidelidade, de país ou nação, da religião e da obrigação, todos estes são, para o socialista, mera ideologia, e para o liberal, questões de escolha "privada", a ser respeitado pelo estado pois eles não podem ser um problema verdadeiro para o estado. Apenas em alguns lugares da Europa e da América uma pessoa pode chamar-se um conservador e esperar ser levado a sério. A primeira tarefa do conservadorismo, portanto, é criar uma linguagem em que "conservador" não é mais um termo de abuso. Esta tarefa faz parte de outro, e maior, empreendimento: o da purificação da linguagem do “slogan-zamento” insidioso que se apoderou dele. Esta não é uma tarefa simples.  Na verdade, é, em certo sentido, toda a política. Como os comunistas perceberam desde o início, controlar a linguagem é controlar o pensamento -  não o pensamento real, mas as possibilidades de pensamento. E é em parte graças aos esforços bem sucedidos dos comunistas - auxiliado, é claro, por uma guerra mundial, a qual eles precipitaram - que nossos pais pensaram em termos de dicotomias elementares. Esquerda-direita, fascista-comunista, socialista-capitalista, e assim por diante. Tais eram os "termos de debate" que herdamos. Na medida em que você não é "de esquerda", eles diziam, então, nessa medida, você é "direita", se não é comunista, então é muito mais próximo do fascismo, se não é um socialista, então um defensor do "capitalismo , "como um sistema econômico e político”.

Se há uma dicotomia básica que hoje nos confronta, é só entre nós - os herdeiros do que resta da civilização ocidental e do pensamento político ocidental - e os fornecedores de dicotomias. Não existe essa oposição entre Esquerda e Direita, ou  entre o comunismo e o fascismo. Há simplesmente uma aliança eterna - apesar de uma "aliança dos injustos", que estão sempre prontos para violar os termos que os prendem - entre aqueles que pensam em termos de dicotomias e etiquetas. É deles o novo estilo de política, a ciência em que a verdade tomou o lugar da “política” como sempre foi conhecida. É deles é um mundo de "forças" e "movimentos", o mundo percebido por essas mentes infantis que está em um constante estado de agitação e conflito, avançando agora para a esquerda, ora à direita, de acordo com as previsões mal feitas deste ou aquele teórico do destino social do homem. Acima de tudo, a mente dicotomizada tem necessidade de um sistema. Ela procura a afirmação teórica da condição social e política do homem, da qual pretende derivar uma doutrina que vai responder a todas as circunstâncias material.

 Cada sistema também é universal. Um socialismo internacional é o ideal declarado da maioria dos socialistas, um liberalismo internacional é a tendência não declarada do liberal. Para nenhum dos dois sistemas é concebível que o homem vive, não por aspirações universais, mas por ligações locais, não por uma "solidariedade" que se estende por todo o mundo de ponta a ponta, mas por obrigações que são entendidas em termos que separam o homem da maioria dos seus companheiros, em termos tais como a história nacional, religião, idioma e os costumes que fornecem a base de legitimidade. Finalmente - e a importância deste nunca deve ser subestimada - tanto o socialismo e o liberalismo são, em última análise, igualitários. Ambos supõem que todos os homens sejam iguais em todos os aspectos relevantes para a sua vantagem política. Para o socialista, os homens são iguais nas suas necessidades e, portanto, deve ser igual em tudo o que é concedido a eles, para a satisfação de suas necessidades. Para o liberal, eles são iguais em seus direitos, e, portanto, deve ser igual em tudo o que afeta a sua posição social e política.

Devo dizer que eu tenho mais simpatia pelo liberal do que para a posição socialista. Para ele é baseado em uma filosofia que não só respeita a realidade da ação humana, mas também tenta conciliar a nossa existência política com as liberdades elementares que são constantemente ameaçadas. Mas - qualquer que seja o seu valor como um sistema filosófico, o liberalismo continua sendo, para mim, não mais do que isso - um corretivo constante para uma dada realidade, mas não a realidade em si. É uma sombra, lançado pela luz da razão, cuja existência depende do corpo maciço que impede que a luz, o corpo do homem é dado existência política.

A existência política do homem desafia os quatro axiomas do liberalismo e do socialismo. Não é secular, mas espiritual, não abstrato, mas concreto, não universal, mas particular, e não igualitária, mas repleta de diversidade, desigualdade, privilégio e poder. E assim deve ser. Eu digo que é espiritual, pois acredito que o mundo como o homem entende - o Lebenswelt - lhe é dado em termos que levam a marca permanente de obrigações que ultrapassam o seu entendimento. Ele nasce em um mundo que exige dele para o sacrifício, e que lhe promete recompensas obscuros. Este mundo é concreto, não pode ser descrito numa língua abstrata do teórico  socialista ou liberal sem remover a pele do significado que o torna perceptível. O mundo do socialista e do mundo do liberal são como esqueletos mortos, dos quais a pele viva foi removida. Mas este mundo real, o viver,  o mundo social, é uma particularidade, uma coisa vital, e deve, se for para florescer, distribuir diferentemente e desigualmente sua vida sobre as suas partes. A igualdade abstrata do socialista e do liberal não tem lugar neste mundo, e pode ser realizado apenas pela afirmação de controles tão grande a ponto de destruir a si mesmos.

A fim de justificar, e de fato a ganhar, a sua guerra com a realidade, a mente intelectual desenvolveu uma linguagem aniquiladora que usa para descrever. Todas as realidades políticas são descritas fora da história, como se fosse possível ser estabelecida em qualquer lugar, a qualquer momento. Assim, o fenômeno particular polonês da "Solidariedade" é empurrado para as formas abstratas ditadas pela teoria da "democracia liberal". Ele é visto até mesmo como uma espécie de socialismo, especialmente por intelectuais franceses para os quais nada é bom se não tiver um nome socialista.  O exemplo é ameaçador. Se quisermos voltar à realidade, devemos procurar uma linguagem que é escrupulosa em relação ao mundo humano.
 

Uma generalidade, no entanto, é útil para nós, justamente porque, por trás disso, milhares de particularidades se encontram escondidas. Refiro-me à ideia de legitimidade. Para seu imenso crédito, os liberais tentaram dar uma ideia alternativa de legitimidade - com a qual desafiam os direitos históricos que deveriam ser extintos pelo triunfo de seu sistema. A primeira, e última, a condenação do comunismo desmentiu a ideia de legitimidade com uma gargalhada cavernosa. Não é a minha preocupação argumentar com o liberal, alguns que as idéias devem, eventualmente, ser incorporados em qualquer teoria filosófica de governo legítimo. Eu gostaria apenas de sugerir uma alternativa não-liberal, que será estará livre do contágio da teoria.

Entre as várias dicotomias que têm pulverizado a inteligência moderna que – suponho que devido a Weber – entre a legitimidade e a legalidade, entre os modos de autoridades “tradicional” e “racional-legal”, tem sido a dicotomia mais prejudicial. Somente se a lei é mal-interpretada, como um sistema de abstrações, a legalidade pode ser considerada uma alternativa para – ao invés de uma realização particular – legitimidade. Mas a lei abstrata é, por esse motivo, não possui uma força duradoura.

Legitimidade é, simplesmente, o direito do comando político. E este direito inclui o exercício da lei. O que confere este direito sobre um povo? Alguns diriam que a sua "escolha". Mas essa ideia ignora o fato de que temos apenas os instrumentos mais rudimentares pela qual as escolhas são medidas, e essas escolhas dizem respeito apenas a mais fortuita das coisas. Além disso, o que leva as pessoas a aceitarem a "escolha" que é imposta a eles por seus companheiros, se não um sentimento prévio que eles estão unidos em uma ordem legítima?

A tarefa para o conservador é encontrar as fundamentos da existência política concreta, e trabalhar para o re-estabelecimento de um governo legítimo em um mundo que foi varrido e desprotegido por abstrações intelectuais. Nosso modelo final para um fim legítimo é aquele que é dado historicamente, para as pessoas unidas por seu senso de um destino comum, uma cultura comum e uma fonte comum dos valores que regem suas vidas.

 A intelligentsia liberal no Ocidente, como da intelligentsia comunista antigo no Oriente, persistentemente se recusou a aceitar a naturalidade da existência humana. Ele tornou a vida, e em particular da vida política, em uma espécie de experiência intelectual. Vendo a infelicidade do homem, eles se perguntam - o que deu errado? Sonham com um mundo em que um ideal abstrato de justiça será feita realidade. Parece que, para todos lugares, uma única solução, irá resolver os conflitos e restaurar a harmonia em todos os lugares, seja no Pólo Norte ou no Equador. Por isso, a total incapacidade do liberalismo para fornecer uma solução para aqueles que estão aflitos por uma ilegitimidade totalitária. O liberal começa a partir do mesmo pressuposto do totalitário, ou seja, que a política é um meio para um fim, e o fim é a igualdade – não uma igualdade material, mas a igualdade moral, uma igualdade de "direitos". A democracia é o resultado necessário deste ideal liberal, uma vez que a democracia é a realização final da igualdade política. Para o liberal, a única forma de se opor ao totalitarismo é através da lenta e constante democratização da ordem social.
 Quem pode duvidar do apelo dessa ideia? Mas esta negligencia um fato inescapável. Eu não consigo ver a minha vida como os liberais desejam ver a vida política. Eu não consigo ver a minha vida como um experimento. Nem posso considerar minhas obrigações como sendo inteiramente criações da minha liberdade, de ações responsáveis. Eu nasci em uma situação que eu não criei, e estou sobrecarregado desde o nascimento com as obrigações que não são da minha própria concepção. Minha dívida básica para o mundo não é de justiça, mas de piedade, e é só quando eu reconhecer esse fato que eu posso ser verdadeiramente eu. Apenas em relação a minha dada situação é que posso formar esses valores e pretensões sociais que me dão forças, e assim, por fim,  experimentar a liberdade. 

Qualquer título verdadeiro de nosso sentimento de legitimidade deve começar a partir do reconhecimento de que a piedade precede a justiça, tanto em nossas vidas, quanto em nosso pensamento, e que, até que tenhamos associado nós mesmos a um lugar e as pessoas, e começar a pensar nos outros como "dos nossos", as exigência da justiça, a superstição de igualdade, são inteiramente sem sentido para nós. Mas esse apego ao lugar e as pessoas não é escolhido: não é o resultado de uma reflexão liberal sobre os direitos do homem, nem é concebido no espírito experimental que é tão importante para o programa socialista. Nascemos para as obrigações da família, e na experiência de nós mesmos como partes de um todo maior. Não reconhecer a prioridade desta experiência é de admitir a premissa maior do pensamento totalitário, que afirma que a existência política nada mais é que um experimento de longo prazo. Há uma visão particular, ainda popular entre os intelectuais de esquerda no Ocidente, que o sistema soviético era um "socialismo errado." Esse pensamento expressa precisamente o grande perigo político de nosso tempo, que é a crença de que a política envolve uma escolha de sistemas, como um meio para um fim, de modo que um sistema pode "dar errado", enquanto outro "dar certo." A verdade é que o socialismo é errado, justamente porque acredita que ele pode dar certo - justamente porque ele vê a política como um meio para um fim. A política é uma forma de existência social, cujo fundamento é as obrigações dadas a partir do qual nossas identidades sociais são formadas. A política é uma forma de associação que não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo. É fundada na legitimidade, e legitimidade reside em nosso senso de que somos feitos por nossa herança.


Assim, se quisermos redescobrir as raízes de ordem política, devemos tentar endossar as obrigações não escolhidas e que conferem a nossa identidade política, e se contentar com um pólo, e este, não pode ser governado de Moscou, ou para um habitante das Ilhas Malvinas que ele não pode ser legitimamente governado a partir de Buenos Aires.

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Vale a pena fazer uma pausa para mencionar outra, e rival, generalidade, que tem sido de algum serviço para o intelectual de esquerda ou liberal no nosso tempo. Em seu esforço para acabar com o passado, e encontrar uma base política obrigatória que olha apenas para o presente e pro futuro. É a ideia do "povo" como uma fonte de ordem legítima. A ideia é normalmente combinada com a fantasia de que o intelectual tem alguma faculdade peculiar de ouvir, e também articular, a "voz do povo." Esta auto-ilusão, que persistiu inalterada desde os tempos da Revolução Francesa, expressa a preocupação do intelectual para se reunir com a ordem social de que seu próprio pensamento foi tão tragicamente separado.

Ele deseja se redimir de sua "externalidade". Infelizmente, entretanto, ele consegue unir-se não com a sociedade, mas só com outras abstrações intelectuais - "o povo" - projetada de acordo com exigências teóricas impecáveis, precisamente para ocultar a intolerabilidade da realidade da vida cotidiana. "O povo" não existe. Mesmo se existisse, seria autoridade para nada, uma vez que não teria nenhuma base concreta sobre a qual construir a sua legitimidade. Ninguém pode falar para o povo. A verdade, no entanto, se esforça para ser dita, e pode encontrar expressão, agora nesses lábios, agora sobre aqueles.

Ao contrário de "o povo", a nação não é uma abstração. É um dado da realidade histórica. É construído em particular e imediato numa linguagem, costume, religião e cultura. Ele contém em si a sugestão de uma ordem legítima. Isto, creio eu, deve ser sempre lembrado, mesmo por aqueles - e isso inclui a maioria de nós agora - que hesitam em adotar o nacionalismo objetivo que surgiu a partir do Congresso de Viena e que a princípio pacificou, mas, posteriormente, destruiu, o nosso continente.

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Mas, certamente, você vai dizer, não há outra fonte de legitimidade, que não requeira o apoio dessas obrigações piedosas que parecem nos comprometer com tanto na base de tão pouco? Não há uma legitimidade a ser encontrado na democracia, que um dia substituirá o apelo à piedade?
Essa é uma grande questão. Mas duas coisas precisam ser ditas em resposta. Em primeiro lugar, a "democracia" é um termo disputado, e ninguém sabe bem o que isso significa ou como garantir a estabilidade. Devemos esperar até que todos os paradoxos da escolha social tenham sido resolvidos antes de formular nossos compromissos políticos?

Em segundo lugar, o que as pessoas têm apreciado na democracia não é uma escolha coletiva periódica. O que há de tão estimável no fato de que uma maioria ignorante de vez em quando escolhe ser orientada por um novo partido, em direção a objetivos que entendem não melhor do que era entendido os objetivos do partido anterior? O que é apreciado são certas virtudes políticas que associamos justamente com a democracia britânica e americana, mas que já existia antes da democracia, e poderia ser estabelecida em outro lugar sem a sua ajuda. Estas virtudes são as seguintes:


(i) O poder limitado: ninguém pode exercer o poder ilimitado quando seus projetos estão para ser extintos por uma eleição.
(ii) O governo constitucional: mas o que defende a Constituição?
(iv) A existência de instituições autônomas, e as associações livres que as fazem possíveis.
(v) Estado de Direito: em outras palavras, a possibilidade de adjudicar cada ato, mesmo quando um ato de um oficial - mesmo quando é um ato em nome do poder soberano.
(vi) A oposição legítima: em outras palavras, o direito de formar partidos e publicar opiniões que se opõem ao governo, e o direito de lutar abertamente pelo poder.

Teóricos políticos estão familiarizados, é claro, com esses assuntos, e este não é o lugar para discuti-los em detalhes. Mas vale a pena resumir sua importância. Tomadas em conjunto, essas seis características do governo, dizem, não a democracia, mas sim a limitação constitucional. Para colocá-lo mais diretamente, eles denotam a separação do Estado (que é o lugar de autoridade legítima) daqueles que detêm o poder em virtude do estado. Aqueles que exercem o poder podem ser julgados em termos das próprias funções de que sejam titulares. Esta é certamente parte essencial da verdadeira ordem política. É também uma parte indispensável de qualquer legitimidade totalmente elaborado. De fato, podemos ver legitimidade do Estado Moderno como composto de duas partes: uma raiz, que é o apego devoto que atrai as pessoas em uma única entidade política, e uma árvore que cresce a partir dessa raiz, que é o estado soberano, ordenados pelos princípios que eu tenho recomendado. Neste estado, o poder é submetido a condições limitantes, e de uma maneira que o faz ser responsável daqueles que podem sofrer de seu exercício. Este estado mostra o verdadeiro florescimento de uma "sociedade civil" - uma vida pública que seja aberta, digna, e imbuída com uma legitimidade instintiva. Tal legalidade cresce e exprime a legitimidade que é armazenada em sua raiz. Esta é a parte superior, a parte visível da legitima polis que é tão evidentemente destruída pelas doutrinas políticas de nossos tempos. Mas a sua destruição se torna possível, não tanto pela eliminação da democracia, mas pela sufocante alimentação do sentimento legítimo.

A democracia pode, é claro, sustentar as seis virtudes políticas que eu listei. Mas também pode destruí-los. Todas dependem de uma coisa que a democracia não pode fornecer, e que é insinuada na pergunta que eu adicionei para o número (ii): autoridade. O que leva as pessoas a aceitar e se comprometer com os resultados de uma eleição democrática, ou pela lei existente, ou pelas limitações incorporadas em um escritório? O que, em suma, dá origem ao "espírito público" que notavelmente desapareceu das instituições do governo em grande parte da Europa moderna? Certamente é o respeito - para instituições, para os procedimentos, para os poderes e privilégios que são efetivamente apreciados . Esse respeito é derivado do sentido que estes poderes, privilégios e procedimentos refletem algo que é verdadeiramente "nosso", algo que cresce a partir do vínculo social que define a nossa condição. Aqui reside a autoridade real: a de que ela é vista para conter em si o resíduo da fidelidade que define o meu lugar.

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Agora, o que é a verdadeira legalidade? Eu já sugeri a distinção entre a lei abstrata e a lei concreta, e eu impliquei que só a lei concreta pode realmente preencher o vácuo de legitimidade que atualmente encontra-se diante de nós. A lei concreta é exemplificada no seu melhor na tradição inglesa da lei comum – lei criadas por juízes em resposta aos problemas concretos que surgem diante deles, e em que os princípios emergem lentamente, e já se tornam sujeitos a severa disciplina do real. Qualquer lei que é o resultado do raciocínio judicial sério, fundada em precedentes e autoridades, tem a marca de uma ordem histórica; também continua a responder à realidade dos conflitos humanos e constitui uma tentativa genuína para resolvê-los, ao invés de ditar uma solução intelectualmente satisfatória o que pode ser inaceitável para as partes. Esse tipo de lei incorpora a verdadeira fonte de autoridade legal, que é convicção da autor de que a justiça será feita, não abstratamente, mas de acordo com seu caso particular, tendo em conta as circunstâncias específicas que são dele, e que são, talvez, até mesmo exclusivas dele. Para a lei concreta existir, de qualquer forma, deve haver uma independência judicial. E uma vez que existe a independência judicial haverá o que todos razoavelmente aspiravam sob a bandeira dos "direitos do homem". Pois existirá a garantia de que a justiça possa ser feita, seja qual for o poder que pretende extingui-la.

Existem duas grandes ameaças lei concreta. Uma delas é a abolição da independência judicial. Isto foi conseguido pelo Partido Comunista, em prol de uma justiça "abstrata" - uma "igualdade" de recompensa - que inevitavelmente entra em conflito com as circunstâncias concretas da existência humana. A segunda ameaça é a proliferação da lei de estatuto - de lei por decreto, a lei repetidamente feita e re-feita em resposta às idéias mal feitas dos políticos e seus assessores. Toda essa lei é fatalmente defeituosa: o Partido Comunista repousava toda a sua pretensão de legalidade na geração de tais leis, ao remover o único instrumento - a independência judicial - que poderia transformá-las em verdadeiras leis, ao invés de liminares militares.

O liberalismo sempre valorizou a importância da legalidade. Mas legalidade liberal é uma legalidade abstrata, preocupada com a promoção de uma ideia puramente filosófica de "direitos humanos". Quais valores são direitos humanos, sem o processo judicial que irá defendê-los? E além disso, ao deixar na mão de alguém esta fé abstrata e sedutora, não estamos dando a um inimigo o bastião contra o reconhecimento de sua ilegitimidade? Não existe a possibilidade de ele dizer que respeita os direitos humanos - mas direitos diferentes? (O direito de trabalhar, por exemplo, ou o direito de uma participação nos meios de produção.) Se olharmos de volta para a Revolução Francesa, vê-se o quão fácil é para a doutrina dos "direitos humanos" se tornar um instrumento da tirania mais terrível. Basta fazer como os jacobinos fizeram a abolir o sistema judicial e substituí-lo por "tribunais populares". Então qualquer coisa pode ser feita para qualquer um, em nome dos Direitos do Homem.


Em resposta ao liberalismo, portanto, é necessário trabalhar para a restauração das circunstâncias concretas da justiça. Mas a lei concreta que eu tenho defendido é muito diferente de qualquer coisa que tanto um socialista ou um liberal aprovaria. Ela preserva as desigualdades, confere privilégios, justifica o poder. E, no entanto, é isso a sua força. Para sempre haverá desigualdades: haverá sempre o privilégio e o poder. Esses não são nada, mas sim os traços de uma ordem política real. Desde que as igualdades, privilégios e poderem exista, é certo que elas devam coexistir com uma lei que possa justificá-las. Caso contrário, elas serão injustas e também descontroladas.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte II (Final)

O século XX começou com o humanismo desolador de Bertrand Russell em "Adoração de um homem livre" (1902). Russel descreveu o homem como um "produto de causas que não tem previsão do fim que está atingindo", o salto do homem, medos, amores e crenças são "nada mais do que um resultado acidental de um arranjo de átomos ". O próprio homem, escreveu Russel, está destinado "à extinção na vasta morte do sistema solar" e tudo que o homem tiver alcançado "deve, inevitavelmente, ser arruinado sob os escombros de um universo em ruínas". Ele reconheceu a "onipotência da Morte", mas insistiu que a humanidade lutasse pela causa do amor e dos nossos ideais. Este humanismo desolador era sem Deus e sem esperança, deixando o homem sem saída a partir do ciclo de nascimento e morte da natureza. Este tipo de humanismo alcançou o status de credo em "O Manifesto Humanista" de 1933, quando a reunião humanistas em Chicago elaborou sua declaração de quinze pontos. Entre eles estavam John Dewey e Harry Elmer Barnes. Eles também reconheceram a onipotência da morte, mas afirmaram o espírito indomável do homem e rejeitaram a transcedência. Seus herdeiros são os que circulam a "morte de Deus" e os que celebram a cidade secular. Eles mostraram ironicamente a relatividade das culturas passadas sem antes, ter tomado conta do pressuposto da relatividade de sua própria cultura. Considerar a morte como o cumprimento de uma personalidade não é muito útil. Sofrimento e morte pedem por respostas que a secularização não tem.

Bertrand Russell 


Muito mais do que um simples humanismo indomável estava se formando no início do século XX. A verdadeira revolução estava ocorrendo. Esta "estendida a todos os campos da atividade artística - música, pintura, escultura, arquitetura, a dança, o teatro e a literatura". A revolução não tinha nenhuma ligação unificadora. Foi enxurrada de rejeições niilistas, e que não cessou. Ele se chamava Dada.





O movimento Dada conscientemente rejeitou todas as normas morais, sociais e a estética proclamou que o só o caos é real. Este movimento niilista foi fundado por Hugo Ball no Cabaret Voltaire em Zurique em 1916 e adquiriu o seu nome por uma abertura aleatória de um dicionário francês-alemão para a palavra "Dada", que soa como um termo sem sentido. Dada se espalhou rapidamente para Paris, Barcelona, Cologne, Berlim, Hannover, e Nova York. Com um fundo de desespero e desgosto da destruição e matança da I Guerra Mundial, os dadaístas tentaram demonstrar que o mundo, longe de ser razoável, não possui razão. Eles expressaram seu niilismo e irreverência no absurdo - na anti-razão, anti-esteticismo, anti-patriotismo e anti-burguesismo. Suas criações artísticas pareciam inútil.

Hugo Ball

Marcel Duchamp (1987-1968) liderou o caminho com absurdos já-prontos, um urinol exibido em Nova York intitulada “A Fonte”, e um conjuntos bizarros feitos com óleo e fios em um vidro chamado “A noiva Despida por seus celibatários, Even”, que foi danificado em seu transporte, mas mesmo assim sem qualquer perda de estética. Para expressar o acaso de propósito, e irracionalidade, os dadaístas, por vezes, simplesmente deixavam cair objetos e tintas em uma tela. Morton Schamberg e Elsa Loringhoven montaram uma a caixa de esquadrias e uma armadilha de canos a qual chamaram Deus.



A revolução Dada foi em busca da poesia inical de TS Eliot, que foi porta-voz para a época da Guerra Mundial I. Em “Prufrock”, “The Wasteland”, e “The Hollow Man”, a montagem do ethos da morte, a relatividade, e afastamento de Deus,  encontraram uma saída. A poesia de Eliot revela formas niilísticas diferentes daqueles revolucionários da Rússia. J. Alfred Prufrock mede a sua vida com colheres de café, conversa fútil, torradas e chá. Ele não tem nenhum propósito. Eliot foi mais a fundo em símbolos niilistas em Gerontion e Retrato de uma Senhora (1920). Os personagens sem propósito, estéreis em “The Wasteland” (1992) que Ezra Pound editou perderam a fé e sucumbiram ao cansaço e desespero espiritual. Desprovido de Deus, sentem uma sede de satisfação sexual, mas nunca estão satisfeitos. O terreno baldio é um deserto humano, um inferno na terra, o nosso mundo. “The Hollow Man” (1925) sonda o descaso do homem, a perdição, e a insignificância. Os homens sabem que a morte está se aproximando, e só possuem "a esperança de homens vazios". Os homens vazios não conseguem reunir fé suficiente para orar, eles estão paralisados, e que o mundo acaba "não com um estrondo, mas com um gemido".


T.S. Eliot

Escreve Karl Shapiro em seu Ensaio sobre Rime: "Por 1920 o gelo fino da crença / quebrou-se e foi embora / O cadáver, o rato rastejando, os ossos e a aparição / Chegou em seqüência, um mundo inteiro estava destruído / E inundado” Eliot retratou "o obituário do espírito" como quem celebra fazendo música macabra. 







Num momento em que Eliot se voltou para o cristianismo como uma resposta ao niilismo, Edna St. Vincent Millay (que acabou sucumbindo ao  álcool) foi escrevendo sobre como todos nós tornamos "aquele monótono, a poeira indiscriminada", mas ela não estava disposta a aceitar a saída: "Eu sei. Mas eu não aprovo. E eu não estou renunciado". Lament, em 1929, aproximou-se do niilismo, retratando uma cena de família após a morte do pai: "A vida tem que continuar, eu esqueço o porquê." Na década de 1930 Millay entrou no niilismo que já envolvia a Europa. Descreveu a vida como infrutífera e absurda, e a morte como um Não Último. Ela escreve que "os cérebros dos homens comidos pelos vermes", como o destino do homem na morte e no nada. Podemos "recolher enfeites" e "sentar-se em um círculo de brinquedos", mas todo o tempo a morte “estar a bater na porta” e "A vida em si é nada". Ela tipificava uma tendência. 

Jean- Paul Sartre
Jean-Paul Sartre (1905 -) considerado como um dos escritores mais influentes deste século seja na sua literatura e suas produções filosóficas. Ganhou o Prêmio Nobel de literatura em 1964. Na filosofia, ele estendeu as idéias de Edmund Husserl, Martin Heidegger, e Soren Kierkegaard, mas pode-se procurar em vão nas obras de Sartre uma dimensão divina, como o misteriso Ser de Heidegger ou o Deus da fé do Kierkegaard. O Ser e o Nada (1934, tradução para o inglês, 1956) esforça-se com a quase impossível tarefa de comunicar conceitos de ser-em-si, ser-para-si e ser-para-os-outros. Sendo assim, é a “coisificação”, e contra isto Sartre afirma que a consciência humana e a liberdade constituem existencialmente ser-para-si. Estamos estão sempre frágeis e em risco de se tornarem objetos - ser-para-os-outros ou ser-em-si. "Para  ser para-si é aniquilar o em-si" expressa o enigma paradoxal que Sartre procura explicar. Liberdade única do homem não pode ser presa a nada, seja os ideais éticos ou a tirania política. Perceber a liberdade é imediatamente para negá-la; e no final, o indivíduo morre e com ele se vai toda a aparência de consciência e liberdade. Destino final do homem é tornar-se um objeto percebido pelos outros, ou talvez não ser percebido em tudo. A ética individual e a responsabilidade social são difíceis para Sartre explicar pois todos os atos do homem estão destinados a ser parte do mundo do ser-em-si. Ao enfatizar a liberdade da consciência existencial do indivíduo como autónoma e incontestável, Sartre fez cada pessoa uma lei para si mesmo e todas as escolhas não só livre, mas arbitrária e sem causa. Ser-para-si não é determinado, e muito embora o indivíduo possa tentar, por dissimulação, auto-engano, ou "má-fé", ele não consegue livrar-se da liberdade. Contudo, os seres humanos continuamente tentam, e isso é uma fonte de angústia. Outras mentes devem ser ter sua existência considerada, mas não podem ser provadas, pois fazer isso é tornar outras mentes meros objetos. Consenso e o comprometimento tornar-se impossível. Este é o cerne da condição humana. Todos os esforços humanos estão condenados a serem inúteis e sem esperança, porque eles se tornam imediatamente o ser-em-si.

Não é surpreendente, então, que em “As Moscas” (1943), o personagem principal, Orestes, é "gloriosamente indiferente" e descomprometido com qualquer coisa - sem laços familiares, nenhuma religião, nenhuma vocação. Ele é autônomo. Mesmo depois de assassinar Clytemnesetra e Aegistheus, ele não sente nenhum remorso. Em sua liberdade e consciência, ele é a sua própria norma final. Muito antes de Richard M. Nixon dizer algo, Orestes disse: "Eu não sou um criminoso, e você não tem poder de me fazer expiar um por ato que eu não considero como crime". Não há um objetivo certo e errado com a qual se precisa cumprir: "Eu estou condenado a ter nenhuma outra lei, mas só a minha", A peça termina com Orestes desejando "ser um rei sem reino". Ele deixa Argos com as moscas gritando para ele. As pessoas, que realmente não pode renunciar à sua liberdade, no entanto, continuar em vão para tentar expiar seus "pecados" em "um belo e perverso odor de arrependimento". A situação é desesperadora, porque não se pode desfazer-se de sua liberdade.

Também não é de estranhar que em “Sem Saída” (1944) Sartre diz que "o inferno são os outros". Inez, Estelle e Garcin são condenados eternamente a sofrer da condição humana. Eles não podem se despir de sua própria consciência livre, não podem comprometer-se para outro o qual persiste em percebê-lo como um objeto, não podem se arrepender de seus pecados, porque esses pecados passados já se tornaram ser-em-si.

No final, o homem morre, ser-para-si torna-se ser-em-si, uma coisa sem consciência, sem liberdade. A descrição de Sartre (pode-se dizer ontologia) da consciência não só desnuda o viver em algo mais definitivo do que o eu individual, mas também destrói a continuidade e qualquer significado que não seja do momento, que imediatamente desaparece no mundo das coisas. Talvez mais do que qualquer outra pessoa, Sartre delineou a base filosófica para o niilismo, a falta de sentido, a inutilidade que assombra o século XX. Sartre abre as portas para a anarquia individual, arbitrária e autônoma, não importa que ação será tomada - seja a violência, compromisso, ou indiferença - porque todas as ações estão, por fim, condenadas a inutilidade e desesperança.

Albert Camus, amigo de Sartre, vencedor do Prêmio Nobel em 1957, coloca o problema do niilismo em “Calígula” (1938), uma peça sobre o governante maluco de Roma, que transforma sua filosofia niilista em cadáveres e se mata em um pesadelo do poder contra o poder. Camus sugere que Caligulas impregnam nosso mundo absurdo, que a violência é de se esperar em um mundo sem Deus. Camus moveu ainda mais para o niilismo em seu romance ”O Estrangeiro” (1942), a história de um jovem que é totalmente entediado e indiferente a tudo. As palavras iniciais dão o tom: "Mãe morreu hoje. Ou, talvez, ontem; Não tenho certeza.". E ele não se importa. Ele é indiferente até mesmo ao assassinato que comete, e, finalmente, em sua cela, diante da morte, em reação a um padre que veio para visitar, ele tem uma grande experiência de salvação: ele é esvaziado da esperança, percebe que tudo no mundo é indiferente, se vive ou morre, não faz diferença. A única realidade é a morte, não há sentido na vida.  Em “Caligua” é sondado a violência do niilismo; No “O Estrangeiro”, a sua indiferença.

lbert Camus
Em uma série de ensaios intitulada "O Mito da Sísifo" (1943), Camus reflete sobre niilismo e coloca o suicídio como a única questão filosófica enfrentada pelos seres humanos. Ele pondera sobre o significado da vida humana, porque não há base para julgamentos de certo e errado, não há congruência entre os valores e a realidade. A vida é um absurdo, a situação humana é um absurdo. Por que viver? No entanto, o suicídio admite falha e compõe a falta de sentido, então por que se suicidar? A contemplação do suicídio enfatiza o absurdo da situação do homem.



Mas muitos acreditam que Camus estava tentando mover-se além do niilismo, além do absurdo de que a vida termina no vazio da morte. Em uma série de obras – “A Peste” (1947), “O Rebelde” (1951), “A Queda” (1956), “O Exílio e o Reino” (1957) - Camus prosa o dilema niilista do homem, que vive e morre sem saber se há qualquer sentido para a vida. Morte reivindica os seres humanos, e em certo sentido, só podemos esperar e fazer ou não fazer o que julgamos melhor. Mas Camus resistiu até mesmo como Dr. Rieux faz em “A Peste”. No “O Rebelde” Camus sugere que o niilismo pode ser útil para demolir absurdos, anexos sem sentido, mas ele não é claro sobre quaisquer princípios de construção de anexos significativos. Em “A Queda”, Camus parece estar dizendo que o absurdo não está aqui, mas no coração do homem, como um pecado original canceroso. Assim, os leitores de Camus ficam com a impressão de que ele estava se movendo além do niilismo até o acidente de um carro em 1960, deixando as questões niilistas expostas mais uma vez. Camus, como Sísifo, vê o absurdo de empurrar uma pedra acima de um monte apenas para vê-la rolar para baixo e ser empurrado para cima novamente. Se esta é a condição eterna do homem, então o absurdo é uma parte inseparável da existência humana. Mas o sorriso de Sísifo é enigmático. Não se sabe, ao ler Camus, se ele encontrou uma solução para o niilismo ele descreveu. Alguém poderia argumentar que Camus estava lutando para ir além do niilismo para uma afirmação positiva da vida, e que ele perdeu a luta.
Samuel Beckett (1906 -), agora aclamado como sumo sacerdote do niilismo, ficou famoso com sua peça “Esperando Godot” (1952). Ela começa com um dos dois mendigos palhaços, dizendo: "Nada a ser feito", e o outro responder: "Estou começando a pensar nessa opinião", por tanto esperaram por Godot. Eles não sabem o que eles estão esperando. Ou mesmo se Godot existe, eles não têm nenhum compromisso, e não sabem se vai ser melhor se Godot vier. Um mensageiro mantém dizendo que Godot virá amanhã. A peça não tem começo, meio ou fim de desenvolvimento, como para contrariar a ideia de que a vida é um crescimento em direção a algum objetivo. Estragon e Vladimir discutem um evangelho, um cadarço, uma cenoura e uma árvore raquítica, como se todos estivessem no mesmo nível, e todos insignificantes: "Em um instante, tudo vai desaparecer e nós vamos estar sozinhos mais uma vez, no meio de nada! ". Ao final, um palhaço pergunta ao outro: "Bem, vamos? "A outra pessoa atende: "Sim, vamos." Mas eles não movem. Os palhaços e o palco desolador simbolizam o viver despojado de fundamentos. Beckett quer saber quem somos e por que estamos aqui, e não há resposta. É como se todos nós estamos à espera de Godot, à espera de nada, o nada da morte, quando Beckett ganhou o Prêmio Nobel em 1969, The London Times elogiou-o por retratar "um mundo que reconhecemos ser real e verdadeiro para a experiência. " Beckett considerado o Prêmio Nobel como mais um absurdo em um mundo absurdo.

Relativamente desconhecida, anterior a “Esperando Godot”, de Beckett produziu uma série de trabalhos reiterando a sua preocupação com o mistério do homem à espera da morte. ”Watt” (1953) é um romance sobre um homem que trabalha para o Sr. Knott, a quem ele nunca é respondido, ele não sabe o que está fazendo na casa do Sr. Knott. “Endgame” (1957), acontece em um palco como se estivessem no interior de um crânio, retrata a desintegração da personalidade humana nos últimos momentos antes da morte. “De Krapp Last Tape” (1958) mostra um homem velho ouvindo uma fita que ele fez quando era jovem e vendo a juventude como um completo estranho, como se a vida não tivesse continuidade. “Happy Days”, uma peça produzida em 1961, é sobre uma mulher que continua a tagarelar sobre futilidades, enquanto ela está afundando na terra, mostrando como nos preocupamos com atividades vazias, como se a vida fosse para sempre. Em 1967, Beckett publicou “Histórias e Textos para o Nada”. Beckett procura conhecer a realidade como ela é, desencapada, nua desmascarada. O que ele encontra é o vazio da morte.

Beckett

Um avalanche de filmes como La Dolce Vita, Five Easy Pieces, Conhecimento Carnal, O Último Tango em Paris, e dezenas de escritores - Rainer Maria Rilke, William Butler Yeats, Tennessee Williams, Ernest Hemingway, Gunter Gras, Wallace Stevens, Edward Albee , Samuel Beckett, Sylvia Plath, Flannery O'Connor, TS Eliot, Edna St. Vincent Millay, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, John Berryman, Jack Kerouac, Ann Sexton, alguns mais do que outros, testemunham a difusão do niilismo em nosso ethos.




Em 1969, Peter L. Berger publicou “A Rumor of Angels”, um livro que diz algo para nós, como historiadores. Ele esperava compensar o "conselho de desespero", criado no seu livro anterior, “The Sacred Canopy” (1967). Berger, um sociólogo, retrata o nosso ethos como aquele do qual o sobrenatural foi expurgado e a verdade é relativizada e subjetivada. O sobrenatural é estranho para as nossas estruturas cognitivas existentes que se baseiam em grande parte de ciências que excluem o sobrenatural. A minoria que detêm a noção de conhecimento que inclui o Supernatural são severamente deficientes, como um curandeiro de uma remota tribo indígena tentando manter a magia e espiritualismos de seu meio, no coração de uma comunidade sofisticada e científica. Cedo ou tarde, as certezas na mente do feiticeiro será prejudicada e exorcizada. Afirmações religiosas e supranaturalistas sofreram esse destino em nosso tempo. Berger aponta para o trabalho de Schleiermacher  “Religion to Its Cultured Despisers” (1799) como o início de um longo processo em que o cristianismo tem sido gradualmente "ajustado" para a "modernidade", significando o desmonte de seus aspectos sobrenaturais. Protestantismo liberal tem sido mais importante no ajuste e desmontagem, seguido de perto pelo judaísmo e catolicismo. O ataque começou com a crítica histórica que mostrou que os livros sagrados bíblicos foram "realmente" produtos humanos. Com a psicologia, Freud, então, explicou que esses livros e a religião eram meramente projeções de necessidades libidinosas humanas, juntando-se, assim, Deus e sexo na mesma cápsula. História e psicologia, assim, mergulharam a teologia em "um verdadeiro turbilhão de relativizações". E então veio a sociologia, demonstrando que qualquer comunidade, a fé é apenas uma entidade construída, feita por seres humanos em uma história específica. A sociologia explica a história e a psicologia como uma necessidade para o nosso estado! Não é de admirar Berger descreve a sociologia como um "triste ciência por excelência", uma "disciplina intrinsecamente desmascaradora que deve ser mais agradável para niilistas, cínicos, e outros assuntos”. Protestantismo liberal ajudou este processo, optando "ir com ele" e "ser relevante". Paul Tillich abraçou "correlação" como uma tarefa da teologia, buscando ajustar as tradições cristãs com a verdade filosófica. Rudolf Bultmann trabalhou em "desmitificar", procurando explicar a mensagem bíblica ivre das noções sobrenaturais do homem antigo. Karl Barth contrariando a tendência com a sua “Epistle to the Romans (1919)”, assim como Reinhold Nie-buhr com a sua obra “Nature and Destiny of Man (1941-1943)”, mas eles não contiveram a maré. Neste processo de aculturação sistemas de crenças, os protestantes foram gravemente erodidos e o próprio protestantismo desfigurados. Catolicismo romano tenazmente manteve a linha contra este modernismo, mas com João XXIII e do Concílio Vaticano II, fez com que o catolicismo abrissem suas portas para a modernidade, e agora passa pelo mesmo que o  protestantismo experimentou. Em 1966, Thomas JJ Altizer anunciou confiantemente a morte de Deus: "Devemos entender que a morte de Deus é um evento histórico, que Deus morreu em nosso cosmos, na nossa história, na nossa Existenz." Berger lamenta este processo, dizendo: "a rendição teológica à suposta morte do sobrenatural... representa, finalmente, a auto-liquidação da teologia e das instituições em que a tradição teológica é encarnada”.

Neste tipo de ambiente Hitler optou pelo poder autônomo. Na ausência de Deus, Hitler assumiu prerrogativas divinas, absolutizou sangue ariano, e procurou manipular o cristianismo e destruir o judaísmo. Em um holocausto do niilismo, ele exterminou seis milhões judeus. Mesmo que Hitler tenha sido derrotado, o niilismo foi promovido. Em reação ao holocausto, o rabino Richard Rubenstein, em “After Auschwitz” (1966) argumentou que Deus é um nada a partir do qual todas as coisas vêm e para onde todas as coisas finalmente entram em colapso. Rubenstein declarou que os horrores do nazismo fez com que, Deus como retratado na Bíblia, não é mais acreditável, o homem está sozinho no mundo, ele tem apenas a si mesmo a depender, e o destino final do homem é simplesmente a morte. Os seres humanos devem agora viver sem esperança final, afirmou Rubenstein, criando para si o que conseguirem. Elie Wiesel, que sobreviveu a Auschwitz, tem negado publicamente a postura de Rubenstein.

Esta é a falta de sentido que se tem trabalhado no tecido de nossa sociedade. Ela afeta todos nós. Ignorando suas próprias relatividades pressuposicionais, os sumos sacerdotes da secularização têm desnudado a cultura ocidental, não só do universo de três camadas, mas também o ciclo da natureza com a qual os cânones da racionalidade podem tratar no espaço-tempo tangível. Mas este espírito secular com o homem entronizado tropeça no sofrimento e na morte. John Dewey e Harvey Cox, por exemplo, tendem a ignorar a morte. Ele não se relaciona de forma significativa com o crescimento e a celebração. Preso no contínuo ciclo de nascimento e morte da natureza, com nada para dar sentido, cada indivíduo finalmente morre e é o fim. A vida é como um pobre personagem de Shakespeare, suportando através de um estágio, significando o nada, ou como Sísifo, empurrando uma rocha acima do monte apenas para vê-la rolar para baixo novamente, significando absurdo. Eu visualizo que é este o ethos niilista que fundamenta e permeia o século XX. Indivíduos que vivem fora deste ethos consciente e inconscientemente acham difícil não sentir o vazio de suas vidas.

Este vazio é intensificado pela despersonalização aparente da industrialização de hoje. Estamos identificados por números de segurança social, estatísticas de crédito, carteiras de motoristas e dados de computador. Esta mecanização em massa requer conformidade e pressiona o indivíduo até que se sinta perdido, insignificante, sacrificado para entidades empresariais que são voltadas para o lucro e perda. Esta industrialização e conformidade nega sentido necessário do ser. Ele sofre uma perda de valor e identidade, dando origem a mal-estar, perplexidade, raiva, resignação e indiferença, como se não adiantasse tentar qualquer coisa.

Estou convencido de que muito da violência e da indiferença da sociedade estão relacionados ao niilismo, mas provar isso é como tentar provar que programas de televisão afetam as crianças. Dr. Marvin Schwartz, presidente do departamento de psiquiatria da MacNeal Memorial Hospital, Berwyn, Illinois, avaliou a causa de um estupro em uma entrevista recente: "Na sociedade de hoje, que operacionalmente rejeita a ética judaico-cristã, o objetivo da vida é visto como o prazer do impulso e da auto-satisfação, independente de seus efeitos sobre os outros.  Até certo ponto, o estuprador é uma horrível sensação que expressa o final desta -  agindo fora da ética da nossa sociedade ". Em um ethos em que os valores foram relativizados, seria lógico esperar que a vontade deva ser exercida, que é o que o estuprador faz. Ele força seus impulsos e desejos em outro, ele se afirma como o seu próprio padrão autônomo. Este é niilista e com o aumento nas estatísticas de esturpo, indica que o comportamento é generalizado.

A criminalidade tem múltiplas causas, o aumento dos crimes graves, suicídio e abuso pessoal em nosso século parece indicar, com base na epidemiologia, uma raiz niilista. Se não existe um padrão final, por que não fazer o que eu quero, o que achar confortável para mim? Em seu trabalho sobre a lógica do indivíduo na anarco-psicologia, John Carroll diz que este ambiente gera sete respostas éticas para os indivíduos: a ética hedonista da auto-satisfação, que é utópica e cego para as necessidades da sociedade como um todo; a ética da rebelião, porque o mundo é um absurdo e não há para cima e para baixo; a ética de fazer do absurdo a estética e o estilo, arte pela arte; a ética do pessimismo estóico; a ética da experiência mística, como Heidegger pincela no ser; a ética da amizade sagrada e a ética individualista com o indivíduo o seu próprio legislador. A anarco-psicologia gera formas sociais de totalitarismo, pois deve haver alguma lei e ordem para a sociedade de existir, e na ausência de consenso, é imposta pelo poder absoluto. Watergate encarna muitas das características do niilismo, e Albert Jenner, advogado republicano do Comitê Judiciário da Câmara, que investigou prevaricação de Richard Nixon no cargo, julgou Nixon ser um homem mentiroso, amoral, cujo objetivo principal era promover a si mesmo por qualquer meio. Watergate poderia muito bem ser o clímax do niilismo em nosso país, e a quebra do acobertamento Watergate demonstra um símbolo de esperança de que os valores básicos ainda estão em curso.

Estes pedaços são de modo algum exaustivo. Eles são destinados apenas para indicar um ethos em que os historiadores dão pouca atenção, mas acredito que os historiadores do futuro vão gravar o niilismo como uma das principais marcas deste século.

Existe uma resposta ao niilismo, uma maneira de sair deste impasse? Pressupostos operaram tanto como posições de crença,  mas sem provas, de modo que os argumentos com base em diferentes pressupostos geralmente passam um pelo outro. Isso pelo menos sugere que as alternativas para a saída do niilismo esta relacionado com a própria vida. O indivíduo e a sociedade estão intrinsecamente interligados. Nem pode um sem o outro. Soberania individual degenera em anarquia, e da soberania social, convida a tirania. Entre os dois o consenso viável deve emergir e a anarquia e tirania devem ser evitados. Eu acredito que um consenso viável se encontra dentro das afirmações da tradição judaico-cristã, apesar das muitas distorções que apareceram na história. Essas distorções não erradicaram o amor divino fornecido pelo Deus da história, apesar de não compreender como isso pode ser. Tal arquétipo é necessário para salvar o indivíduo e a sociedade do niilismo.

Humanismo puro é a resolução oferecida pela maioria dos críticos. Mas o humanismo, embora útil, não resolve o problema da morte, que é central no niilismo. Sem um "outro", um transcendente cujo o ser não é um produto do mundo e não é dependente dele, a humanidade não pode ser capaz,  de por fim, escapar do vazio. Esta foi uma visão de Santo Atanásio, e continua válida.

Para encerrar, deixe-me levantar algumas questões para os historiadores da Igreja nos dias de hoje. Para o que estamos comprometidos? Quais são os nossos pressupostos sobre o cristianismo e a história da Igreja? Será que estamos tendo uma visão que promove o niilismo? Foram os séculos anteriores tão totalmente errados em afirmar a atividade de Deus na história? Se a verdade pode ser julgada apenas com base em um padrão aceito, que padrão estamos aceitando?

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96