quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte I

Niilismo tem se mostrado na cultura ocidental por muitos séculos, mas nenhum século esteve tão permeado pelo niilismo como o nosso. Com a percepção, Alexander Solzhenitsyn, recentemente observou que a democracia ocidental está no seu “último declínio”,  que já não mais possuem fundações éticas e consistem apenas de “partidos e classes comprometidos em um conflito de interesses, apenas interesses, nada de elevado”. A observação do Solzhenitsyn dificilmente pode ser deixada de lado. Suas palavras descreve o niilismo que é mais proeminente na democracia ocidental. Niilismo chega tão longe quanto o Eclesiásticos no nosso Velho Testamento e o Nargarjuna no Buddismo. Talvez nenhum século existiu sem ele, mas em nosso século este se tornou persuasivo, encontrando expressão não só num avalanche de literatura mas virtualmente em cada fase de nossa existência. O holocausto nazista, guerra do Vietnã, a “morte de Deus”, a queda de Watergate, todo estão no mesmo escopo. É tão persuasivo que merece atenção especialmente dos historiadores da Igreja.

Depois de definir niilismo e fazer uma alusão ao relativismo, subjetivismo, valores destruídos, e preocupação com a morte que convergiu em nossos tempos, vamos olhar para algumas expressões niilistas de nosso século e tentar desenhar algumas conclusões. Isto, é claro, só cobre parte de  um grande tópico.

Definir niilismo é difícil. A dificuldade das raízes parece ser um paradoxo ou uma inconsistência que, um verdadeiro niilista provavelmente não teria nenhuma base para existir; ainda assim os niilistas (ou niilistas incompletos) existem e o niilismo é expressado. O termo comumente conota a violência anárquica associada com os revolucionários da Rússia durante o reinado do Czar Alexander II. O niilismo se manifestou então como um repúdio ao cenário político-religioso. Dimitri Pisarev e seus seguidores em 1850 deram início ao uso do terrorismo, assassinatos, a destruiçãopara quebrar com a tirania do estado, igreja e outros justificadores do status quo. Eles rejeitavam os valores tradicionais da família, religião, e autoridades políticas; eles afirmavam que as condições da estrutura social era tão ruim que a destruição era algo bom, independente de qualquer resultado de suas ações. O termo “nihilism” – do Latim nihil: “nada” – foi popularizado por Ivan Turgenev em sua obra Pais e Filhos (1862). Estes niilistas perceberam as bases de um estabilishment opressor, e em seu desespero eles se deram com uma hipocrisia impregnada. Sergey Nechayev (1847-1881), que morreu pela fome, em uma das prisões do Czar, era um típico destes niilistas. Ele declarou: “Nossa tarefa é difícil, total, universal, e a mais impiedosa destruição”.

Mas as dimensões do niilismo são muito maiores do que a anarquia e a destruição dos tempos de Pisarev e Nechayev. A violência anárquica ainda faz parte do niilismo, este também se tornou a ser um temperamento de desespero, um senso de vazio, a falta de significados, a perda da transcendência, um sentimento que a vida termina no vazio da morte, que as normas morais não podem ser validadas, que relativismo e subjetivismo prestam a todos as afirmações da verdade suspeitas e insustentáveis. Neste sentido, o niilismo é uma atitude que sustenta a ideia que crenças tradicionais e valores não estão fundamentadas numa verdade absoluta ou uma verdade objetiva, sendo assim, não há uma base sólida para fazer distinções entre o bem e o mal.  Se este é o caso, Dostoiévski ponderou e Nietzsche afirmou, então tudo é permitido; poder se torna primário, nascendo assim uma violência de múltiplas formas (libertinagem, engrandecimento, o vandalismo, a tirania, a exploração, o hedonismo a todos os custos). Essa violência é geralmente acompanhada por uma sensação de que a vida está correndo para o nada da morte, e é preciso conseguir tudo que for possível, agora. No entanto, se a morte é o grande nada que no fim nega tudo e engole todos nós, e se não há nenhum centro final para a organização e a continuidade da existência humana, por que se preocupar com alguma coisa? A indiferença torna-se então uma importante expressão do niilismo em formas tais como o tédio, o vazio, falta de propósito, desespero, resignação, a futilidade e suicídio. No niilismo do século XX, a violência e a indiferença são curiosamente misturadas e relacionados. O aspecto violento é cada vez mais evidente no terrorismo, crimes graves contra as pessoas, contra os bens e a tirania. A indiferença é cada vez mais evidente no sentido de alargamento das lacunas da credibilidade sobre a política, a perda de valores morais e o suicídio.


Muitos componentes complexos convergiram para produzir o niilismo do nosso tempo. Um componente geral foi a mudança da ideia de um outro mundo para a preocupação mundana. O realismo e nominalismo medieval eram parte deste processo de mudança. Então ocorreram a ascensão da ciência e do desenvolvimento do nacionalismo. Nos últimos 500 anos a soberania do indivíduo surgiu para desafiar a soberania de ambos Igreja e Estado. Martin Luther favoreceu o processo por romper a autoridade do catolicismo romano e postular homem individual com a Bíblia na mão, como o símbolo do protestantismo. Em Worms, em 1521 a ousadia de Lutero estabeleceu a Bíblia e consciência como as autoridades para os protestantes. Isto introduziu na própria base do protestantismo e da cultura moderna, o elemento instável da autoridade individual e do subjetivismo. Embora Lutero mais tarde tenha recuado, sua postura fez com que a consciência subjetiva de cada pessoa, o guia fundamental para a interpretação da Bíblia e estabeleceu a autoridade individual, defronte a igreja e o estado. Os católicos romanos advertiram Lutero contra a anarquia implícita, mas o golpe já havia sido deferido. A multiplicidade de seitas e grupos que, desde então, surgiram, cada um inflexivelmente interpretando a Bíblia em sua própria maneira, foi um resultado que Lutero não previu.


Fundações foram rachadas, eventos relacionados seguiram. A ciência tornou-se tão envolvida  que se tornou as "leis" da natureza e veio à tona a possibilidade de que o homem poderia controlar tudo, a providência ativa de Deus tão proeminente nos séculos passados ​​foi deslocada por um deísmo que removeu Deus da máquina-mundana. Os filósofos franceses com a afirmação de que a opinião do "homem comum" tinha o mesmo direito de dizer o que é bom teria que ser reconhecido como o mesmo de uma aristocracia centrada na igreja e estado. E “A Crítica da Razão Pura” do Kant limitou o conhecimento para este mundo. Kant argumenta que o conhecimento é inferencial e que as impressões dos objetos são recebidos e organizados por doze categorias e formas de espaço e tempo, tal conhecimento é verificável e, portanto, credível na base das provas repetidas de ciência. Ao limitar o conhecimento do mundo aos cinco sentidos, Kant deu a ciência uma base filosófica necessária. Mas infelizmente o imperativo categórico de Kant e seus postulados não fizeram o mesmo para valores e religião,  pois não foram cientificamente verificáveis. A razão exige o imperativo categórico, disse Kant, e é necessário para que a vida faça algum sentido em tudo. Razão exige também os postulados da liberdade, imortalidade e Deus como essencial para a conclusão da ordem racional, caso contrário, o universo é totalmente caótico e não-racional. No entanto, as exigências da razão e da realidade não são necessariamente as mesmas, a própria razão é finita, relativista e subjetiva.

Dois dos seguidores mais eminentes de Kant usou a razão para tirar conclusões radicalmente diferentes sobre a natureza da realidade - o númeno. Arthur Schopenhauer, influenciado pelo pensamento oriental, concebeu a realidade última (“coisa-em-si” do Kant) como um abrangente não-racional, uma Vontade irracional. Todos os fenômenos são ilusões, disse ele, nada exceto a vontade realmente existe. Fenômenos são objetivações cegas da Vontade; os nossos seres são ilusões, e seriamos bem aconselhados a parar de lutar, deixar de ser, e tornar-se novamente um só com a  Vontade indiscriminada. Toda a bolha de existência e  todas as atividades humanas são miragens.


G. W. F. Hegel, por outro lado, influenciado pelo idealismo grego, concebeu a natureza da realidade - o númeno - como razão absoluta no um processo cósmico do vir-a-ser. Usando um esquema da tese, antítese e síntese, Hegel traçou este vir-a-ser através da história. Karl Marx rejeitou esta razão absoluta, em seu materialismo dialético e afirmou que a sociedade sem classes é o vir-a-ser, e poderá ser ajudada pela revolução. Schopenhauer, Hegel e Marx são exemplos do relativismo e subjetivismo possível graças a Kant.
Até a metade do século XIX, o relativismo e o subjetivismo tinha corroído valores tradicionais e ciência tinha feitos progressos explicando os mistérios e milagres deste mundo (especialmente com a Origem das Espécies de Darwin, 1859) que Friedrich Nietzsche corajosamente celebrou a morte de Deus e "expos" os valores antigos de amor, bondade e humildade como nada mais do que substitutos impostos pela evolução por pessoas fracas conduzidas em conjunto para ganhar força. Nietzsche clamou a entronização da poder nas relações humanas, para o abandono de todos os elementos sufocantes na sociedade e para que a vontade de poder pudesse ser realizada na busca impiedosa da disciplina do Super Homem. Nietzsche espalhou o envoltório de poder - sem apresentação de um padrão definitivo para o seu uso - sobre a vida moderna. Dostoiévski lutou contra a ideia da inexistência de Deus e declarou: "Se Deus não existe, então tudo é permitido". Isto implicava que todo mundo é permitido a realizar seus próprios desejos, por qualquer meio, desde que consiga se safar. Uma série de anarco-psicólogos contribuíram a este desenvolvimento no século XIX.


O século XX começou com esta pensamento, condição epistemológica roedora como um câncer dentro Cultura ocidental. Foi agravado por uma consciência esmagadora da morte e os efeitos desumanizadoras da mega-tecnocracia. Com a perda do sobrenatural, um sentimento avassalador do absurdo rendeu um vazio e por fim a morte veio à tona. Isso deu origem a um sentimento de falta de forma, um abismo do nada no coração da consciência humana. Para o “Grande Inquisidor” de Dostoiévski, esta é a "terrível verdade" que é escondida das pessoas que “além do túmulo encontrarão nada além da morte". Entre aqueles que se atreveram a contemplar sua própria morte aparentemente pouquíssimos escaparam sem uma sensação de vazio absoluto. "Angústia antes do Nada e da Morte parece ser um fenômeno especificamente moderno", escreve Mircea Eliade. Em outras culturas, "A morte é a Grande Iniciação. Mas no mundo moderno Morte é esvaziada de seu significado religioso; E por isso é assimilada ao Nada, e antes Nada homem moderno está paralisado." A bomba nuclear e duas guerras enormes nos fizeram consciente não só da morte, mas também sobre a possível extinção da humanidade. Ernest Becker, sociólogo, está entre aqueles que defendem que a negação da morte, ao invés da repressão do sexo, é o problema subjacente da nossa cultura. A desumanização da mega-tecnocracia tem agravado ainda mais o problema da morte, fazendo com que as pessoas se sintam insignificantes e impotentes. Em sua obra “O Castelo”,  Kafka, simboliza esta desumanização. Este é o tipo do ethos niilista que rapidamente tem se espalhado na Cultura Ocidental. É como se as palavras de Nietzsche tivessem encontrado preenchimento: 

"Será que, nós, que matamos Deus, não estamos mergulhando continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existe cima, baixo ou esquerda? Será que estamos desviando de um nada infinito?"

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96

terça-feira, 16 de julho de 2013

Seyyed Hossein Nasr - Ruínas

Vivemos entre ruínas em um mundo em que "Deus está morto", como Nietzsche afirmou. Os ideais de hoje são o conforto, a conveniência, o conhecimento superficial, desrespeito para com o patrimônio e as tradições, suficientes para atender os padrões mais baixos do bom gosto e inteligência, a apoteose do patético, acumulação de objetos materiais e posses, desrespeito por tudo o que é inerentemente superior e melhor - em outras palavras, uma inversão completa de valores ideais e verdadeiros, o hasteamento vitorioso da bandeira da ignorância e do estandarte da degeneração. Em tal tempo, a decadência social é tão difundida que ela aparece como um componente natural de todas as instituições políticas. As crises que dominam o cotidiano de nossas sociedades fazem parte de uma guerra secreta e oculta para remover o suporte dos valores espirituais e tradicionais, a fim de transformar o homem em um instrumento passivo de poderes das trevas.


O terreno comum do capitalismo e socialismo é uma visão materialista da vida e do ser. O materialismo na sua guerra com o Espírito assumiu muitas formas, alguns têm promovido seus objetivos com grande sutileza, enquanto outros o fizeram com uma alarmante falta de sutileza, mas todos contribuiram, em maior ou menor medida, para o crescimento da miséria humana. As formas que têm feito o maior dano em nosso tempo podem ser enumerados como:. Maçonaria, Liberalismo, Niilismo, capitalismo, socialismo, marxismo, Imperialismo, Anarquismo, Modernismo e o New Age.

Seyyed Hossein Nasr

Os homens se esqueceram de Deus (Aleksandr Solzhenitsyn)

Como um sobrevivente do Holocausto Comunista, estou horrorizado ao testemunhar como minha amada América, o país que me adotou, está sendo gradualmente transformado em uma utopia secularista e ateísta, onde ideais comunistas são glorificados e promovidos, enquanto os valores e a moralidade judaico-cristãos são ridicularizados e cada vez mais erradicados da consciência pública e social de nossa nação. Sob a décadas de ataque e radicalismo militante de muitas elites que se intitulam de "liberais" e "progressistas", Deus tem sido progressivamente apagado de nossas instituições públicas e educacionais, para ser substituído com todo tipo de ilusão, perversão, corrupção, violência, decadência, e insanidade.






Não é por acaso que, com  as ideologias marxistas e princípios seculares, há a um empobrecimento da cultura e perversão do pensamento tradicional e assim, se observa o desaparecimento rápido das liberdades individuais. Como conseqüência, os americanos se sentem cada vez mais impotentes e subjugados por alguns dos indivíduos mais radicais, mais hipócritas, menos democráticos e enfadonhos que nossa sociedade já produziu. 



Aqueles de nós que experimentamos e testemunhamos de primeira mão as atrocidades e o terror do comunismo compreendemos o porquê de tal mal se enraizar, como ele cresce e  ilude, e o tipo de inferno que acabará por desencadear aos inocentes e fiéis. O ateísmo é sempre o primeiro passo para a tirania e a opressão!



Prêmio Nobel, autor cristão ortodoxo, e dissidente russo, Alexander Solzhenitsyn, em seu "A Falta de Deus: O Primeiro Passo Para o Gulag" endereçado, quando ele recebeu o Prêmio Templeton para o Progresso da Religião em maio de 1983, explicou como a Revolução Russa e a tomada comunista foram facilitadas por uma mentalidade ateísta de um longo processo de secularização que alienou o povo de Deus e da moralidade e crenças cristãs tradicionais. Ele corretamente concluiu: "Os homens se esqueceram de Deus, é por isso que tudo isso aconteceu."



O texto do seu discurso ao receber o Prêmio Templeton é mostrado abaixo. Os paralelos com a atual crise e decadência moral na sociedade americana são impressionantes e assustadoras. Aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouça!
                                                    
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"Os homens se esqueceram de Deus" por Aleksandr Solzhenitsyn

Mais de meio século atrás, quando eu ainda era criança, lembro-me de ouvir um número de pessoas mais velhas oferecem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: Os homens se esqueceram de Deus, é por isso que tudo isso aconteceu.



Desde então, tenho passado quase 50 anos estudando a história de nossa revolução. Durante esse processo, li centenas de livros, colecionei centenas de testemunhos pessoais e contribuí com oito volumes de minha própria lavra no esforço de transpor o entulho deixado por aquele levante. Mas se hoje me pedissem para formular da maneira mais concisa possível a causa principal da perniciosa revolução que deu cabo de mais de 60 milhões de compatriotas, não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: ‘Os homens se esqueceram de Deus; é por isso que aconteceram todas essas coisas’.




Além disso, só agora os eventos de revolução podem ser entendidos, no final do século, entendendo o contexto daquilo que ocorreu com o resto do mundo. O que emerge aqui é um processo de significação universal. E se eu fosse chamado para identificar brevemente a principal característica de todo o século XX, novamente aqui, eu seria incapaz de encontrar algo mais preciso e conciso do que repetir mais uma vez: Os homens se esqueceram de Deus.

As deficiências da consciência humana, privado de sua dimensão do divino, têm sido um fator determinante em todos os principais crimes deste século.

A primeira delas foi a I Guerra Mundial, e grande parte da nossa situação atual pode ser rastreada até ela. Foi uma guerra (memória que parece estar se enfraquecendo), quando a Europa, repleta de saúde e abundância, caiu em uma onda de auto-mutilação que não poderia se não só enfraquecer sua força por um século ou mais, e talvez para sempre. A única explicação possível para esta guerra é um eclipse mental entre os líderes da Europa, devido à sua perda, da sensibilização de um Poder Supremo acima deles. Só uma pessoa fragilizada e sem Deus poderia ter movido estados supostamente cristãos para empregar gases venenosos, uma arma que é evidentemente além dos limites da humanidade.


O mesmo tipo de problema, a falha de uma consciência da dimensão do divino, se manifestou após a Segunda Guerra Mundial, quando o Ocidente se rendeu à tentação satânica do guarda-chuva nuclear. Era equivale a dizer: Vamos abandonar preocupações, vamos livrar a geração mais jovem de seus deveres e obrigações, vamos fazer nenhum esforço para nos defender, vamos tapar nossos ouvidos para os gemidos que emana do Oriente, e deixem-nos viver em vez da busca da felicidade. Se perigo nos ameaçar, devemos nos proteger com a bomba nuclear, se não, então deixe o  resto do mundo mundo queimar no inferno, não nos importa. O estado lamentavelmente impotente para que o Ocidente contemporâneo tem afundado é, em grande medida, devido a esse erro fatal: a crença de que a defesa da paz depende não de corações robustos e homens firmes, mas apenas sobre de uma bomba nuclear... 

O mundo de hoje atingiu um estágio que, se tivesse sido descrito a séculos anteriores, teria escutado um grito de alguém: "Isto é o Apocalipse!". Ainda assim nós nos acostumamos a este tipo de mundo, até mesmo nos sentimos em casa nele.

Dostoiévski advertiu que "grandes eventos poderiam cair em cima de nós e nos pegar intelectualmente despreparado." Isto é precisamente o que aconteceu. E ele previu que "o mundo só será salvo depois de ter sido possuído pelo demônio do mal." Se ele realmente vai ser salvo, teremos que esperar e ver: isso vai depender de nossa consciência, de nossa lucidez espiritual, do nosso esforço individual e combinados em face de circunstâncias catastróficas. Mas isto já aconteceu, o demônio do mal já passou, como um redemoinho, triunfante circunda todos os cinco continentes da terra...


Em seu passado, em uma época que a Rússia sabia que o ideal social não era fama ou riqueza, ou o êxito material, mas uma maneira piedosa de vida. A Rússia foi, então, mergulhada em um cristianismo ortodoxo, que se manteve fiel à Igreja dos primeiros séculos. A ortodoxia da época sabia como proteger o seu povo sob o jugo de uma ocupação estrangeira, que durou mais de dois séculos, e ao mesmo tempo afastou golpes injustos das espadas dos cruzados ocidentais. Durante esses séculos, a fé ortodoxa em nosso país tornou-se parte do próprio padrão de pensamento e da personalidade do nosso povo, as formas de vida diária, o calendário de trabalho, as prioridades em todos os empreendimento, a organização da semana e do ano. A fé foi a força modeladora e unificante da nação.

Mas no século XVII, a Ortodoxia Russa foi gravemente enfraquecida por um cisma interno. No século XVIII, o país foi abalado por transformações impostas à força de Pedro, o que favoreceu a economia, o Estado e os militares às custas do espírito religioso e da vida nacional. E junto com esta iluminação Petrina desequilibrada, a Rússia sentiu o primeiro sinal do secularismo; seus venenos sutis permearam as classes educadas no decorrer do século 19 e abriu o caminho para o marxismo. No momento da Revolução, a fé tinha praticamente desaparecido em círculos educados russos, e entre os sem instrução, sua saúde estava ameaçada.

Foi Dostoiévski, mais uma vez, que observou na Revolução Francesa, sua aparente repulsa da Igreja a lição de que "a revolução deve necessariamente começar com o ateísmo." Isso é absolutamente verdadeiro. Mas o mundo nunca antes tinha conhecido a irreligiosidade tão organizada, militarizada, e tenazmente malévola como a praticada pelo marxismo. Dentro do sistema filosófico de Marx e Lênin, e no coração de sua psicologia, o ódio de Deus é a principal força motriz, mais fundamental do que todas as suas pretensões políticas e econômicas. O ateísmo militante não é meramente acidentais ou marginal à política comunista, não é um efeito colateral, mas o pivô central.


Durante a década de 1920 a URSS testemunhou um desfile ininterrupto de vítimas e mártires entre o clero ortodoxo. Dois metropolitanos foram baleados, um dos quais, Veniamin de Petrogrado, que havia sido eleito pelo voto popular de sua diocese. Próprio Patriarca Tikhon passou pelas mãos da Cheka-GPU e depois morreu em circunstâncias suspeitas. Dezenas de arcebispos e bispos pereceram. Dezenas de milhares de padres, monges e freiras,  pressionados pelos chekistas para que renunciassem a Palavra de Deus, foram torturados, baleados em porões, enviados para campos de concentração, exilados na em lugares inóspitos, como a tundra do extremo norte, ou se tornavam andarilhos, nas ruas em sua velhice, sem comida ou abrigo. Todos esses mártires cristãos foram inabalavelmente fiés a sua fé, levando à morte; casos de apostasia eram poucos e distantes entre si. Para dezenas de milhões de leigos, o acesso à Igreja foram bloqueados, e proibidos de educar seus filhos na fé: pais religiosos foram arrancados de seus filhos e jogados na prisão, enquanto as crianças foram forçadas a deixar sua fé por meio de ameaças e mentiras...

Por um curto período de tempo, quando ele precisava reunir forças para a luta contra Hitler, Stalin cinicamente adotou uma postura amigável em relação à Igreja. Este jogo enganoso, continuou nos anos posteriores por Brezhnev, com a ajuda de publicações de folhetos e fachadas, infelizmente essas medidas tendem a ser tomadas como verdade pelos ocidentais. No entanto, a tenacidade com que o ódio religioso está enraizada no comunismo pode ser julgada pelo exemplo de seu líder mais liberal, Krushchev: ainda que tenha realizado uma série de medidas importantes para aumentar a liberdade, Krushchev reacendeu simultaneamente a obsessão leninista frenética de destruir a religião.



Mas há algo que eles não esperavam: que em um país onde as igrejas foram destruídas, onde um ateísmo triunfou incontrolavelmente por dois terços de século, onde o clero é totalmente humilhado e privados de toda a independência, onde o que resta de a Igreja, como instituição, é tolerado apenas por causa da propaganda dirigida ao Ocidente, onde mesmo nos dias de hoje as pessoas são enviadas para campos de concentração por conta de sua fé, e onde,  mesmos dentro dos campos, há aqueles que se juntam para rezar a Páscoa e por isso são castigados e presos em celas – eles não poderiam supor que, mesmo sendo esmagados pelo rolo compressor Comunista, a tradição Cristã iria sobreviver na Russia. É verdade que milhões de nossos compatriotas foram corrompidos e espiritualmente devastados por um ateísmo oficialmente imposto, mas ainda restam milhões de crentes: e é devido as pressões externas que os fazem evitar de falar abertamente, mas, como sempre acontece em tempos de perseguição e sofrimento, a consciência de Deus em meu país alcançou grande acuidade e profundidade.


É aqui que vemos a aurora de esperança, porque não importa o quão formidável o comunismo nos amarrem com tanques e foguetes, não importa o sucesso que alcança na apreensão do planeta: este está condenado a nunca vencer o cristianismo.

O Ocidente ainda não experimentam uma invasão comunista; a religião aqui permanece livre. Mas a própria evolução histórica do Ocidente tem sido de tal forma que hoje ele também está passando por um esgotamento da consciência religiosa. Ele também testemunhou torturantes cismas, sangrentas guerras religiosas, e o rancor, para não falar da maré do secularismo que, desde o final da Idade Média em diante, tem progressivamente inundado o Ocidente. Este gradual enfraquecimento da força de dentro é uma ameaça à fé que talvez seja ainda mais perigosa do que qualquer tentativa de destruição da religião vindo de fora.

Imperceptível, através de décadas de erosão gradual, o sentido da vida no Ocidente deixou de ser visto como algo mais elevado do que a "busca da felicidade", um objetivo que foi até mesmo solenemente garantido pelo constituição. Os conceitos de bem e mal têm sido ridicularizado por vários séculos; banido do uso comum, eles foram substituídos por considerações políticas ou por classes de valores de curta duração. Tornou-se embaraçoso para afirmar que o mal faz primeiramente no coração humano antes de entrar em um sistema politico. No entanto, não é considerado vergonhoso para fazer apologias a um mal integral. A julgar pelo desmoronamento contínuo diante dos olhos de nossa própria geração, o Ocidente está inexoravelmente escorregando para o abismo. As sociedades ocidentais estão a perder cada vez mais sua essência religiosa e assim, irrefletidamente levam sua geração mais jovem para o ateísmo. Se um filme blasfema sobre Jesus é apresentado nos Estados Unidos, supostamente um dos países mais religiosos do mundo, ou um grande jornal publica uma caricatura desrespeitosa da Virgem Maria, qual outra prova do distanciamento da religião é necessária? Quando os direitos externos são completamente ilimitados, por que alguém deveria fazer um esforço interno para se evitar atos desprezíveis?


Ou então, por que alguém deveria se afastar de um ódio ardente, seja este ódio fundamentado em raças, classes ou ideologia? Este ódio está, de fato, corroendo muito dos corações de hoje. Professores ateístas estão trazendo à tona uma geração de jovens inflados de ódio por sua própria sociedade. No meio de todos esses insultos nós esquecemos que os defeitos do capitalismo representa as falhas básicas da natureza humana, permitindo uma liberdade ilimitada junto com vários direitos humanos; nós esquecemos que sob o Comunismo (e o Comunismo está sempre respirando por trás de todo tipo de socialismo, os quais são instáveis) falhas idênticas funcionam, para todos que possuem o mínimo grau de autoridade, enquanto todos os outros no âmbito desse sistema, de fato, atingem a "igualdade", a igualdade de escravos miseráveis. Esta hélice que espalha chamas do ódio está se tornando a marca do mundo livre de hoje. De fato,  quanto mais amplas as liberdades pessoais são, maior o nível de prosperidade ou mesmo de abundância - mais veemente, paradoxalmente, este ódio cego tem se espalhado. O Ocidente desenvolvido contemporâneo demonstra, assim, pelo seu próprio exemplo, de que a salvação humana não pode ser encontrado nem na exuberância de bens materiais, nem em simplesmente ganhar dinheiro.

Este ódio intencionalmente alimentado se espalha para tudo o que é vivo, à própria vida, para o mundo com suas cores, sons e formas, ao corpo humano. A arte amargurada do século XX, está morrendo, como resultado deste ódio horrível, pois a arte é inútil sem amor. A arte no Leste entrou em colapso porque ele foi derrubado e pisoteado, mas no Ocidente a queda foi voluntária, uma queda em uma busca artificial e pretensiosa, onde o artista, em vez de tentar revelar o plano divino, tenta colocar -se no lugar de Deus.

Aqui, novamente, testemunhamos os resultados de um processo único no mundo, tanto no Oriente e no Ocidente, produzindo os mesmos resultados, e mais uma vez, pelo mesmo motivo: Os homens se esqueceram de Deus.


Com esses eventos globais pairando sobre nós como montanhas, ou melhor, como todo cordilheiras, pode parecer incongruente e inapropriado lembrar que a chave primária para o nosso ser ou não-ser reside em cada coração humano individual, na preferência específica do coração pro bem ou pro mal. No entanto, esta continua sendo verdade ainda hoje, e é, de fato, a chave mais confiável que temos. As teorias sociais que prometiam tanto demonstraram a sua falência, deixando-nos em uma beco sem saída. Os povos livres do Ocidente podem demorar pra perceber que eles estão cercados por numerosas falsidades que pregam a liberdade, mas devem estar atentos para que estas sejam impostas tão facilmente. Todas as tentativas de encontrar uma saída para a situação do mundo de hoje são infrutíferas, a menos que se redirecione nossa consciência, de penitência, para o Criador de tudo: sem isso, nenhuma saída será iluminada, e vamos buscá-lo em vão. Os recursos que temos previstos para nós mesmos são demasiado pobres para tal tarefa. Devemos, primeiramente, reconhecer o horror, não perpetrado por alguma força externa, e não por classes ou inimigos nacionais, mas dentro de cada um de nós, e dentro de cada sociedade. Isto é especialmente verdadeiro em uma sociedade livre e altamente desenvolvida, pois aqui, em particular, temos expomos tudo sobre nós mesmos, da nossa própria vontade. Nós mesmos, em nosso diário egoísmo irracional,  estamos apertando o nó de um laço...

Nossas vidas não consistem na busca do sucesso material, mas na busca de desenvolvimento espiritual digno. Toda a nossa existência terrena, nada mais é que  uma fase de transição no movimento em direção a algo maior, e não devemos tropeçar e cair, nem devemos permanecer inutilmente em um degrau da escada. Leis materiais por si só não explicam a nossa vida ou nos dá direção. As leis da física e da fisiologia jamais revelarão a forma indiscutível em que o Criador constantemente, dia após dia, participa na vida de cada um de nós, que infalivelmente nos concede a energia da existência, e quando essa assistência nos deixa, nós morremos. E na vida de todo o nosso planeta, o Espírito Divino certamente está presente: isso devemos compreender e lembrar nas nossas horas mais terríveis e sombrias.


Para as esperanças impensadas dos últimos dois séculos, que nos reduziu à insignificância e nos trouxe ao limiar da morte nuclear e não-nuclear, podemos propor apenas uma missão determinada pela mão de Deus, a qual temos tão precipitadamente rejeitado. Só desta forma pode ser aberto nossos olhos para os erros destes infelizes acontecimentos do século XX e seremos direcionados para o local correto. Não há mais nada para se agarrar no deslizamento de terra: a visão combinada de todos os pensadores do Iluminismo equivale a nada.


Nossos cinco continentes estão presos num turbilhão. Mas é durante os julgamentos como esses que os maiores dons do espírito humano se manifestam. Se nós desaparecermos e perdermos este mundo, a culpa será só nossa.

Aleksandr Solzhenitsyn, " A Falta de Deus: O Primeiro Passo Para o Gulag ". Conferência do Prêmio Templeton , 10 de maio de 1983 (Londres).



segunda-feira, 8 de julho de 2013

A Transgressão Como Cura

O capitalismo contemporâneo é prodigiosamente produtivo mas o que lhe impulsiona hoje não é mais a produtividade. A principal ameaça dos nossos tempos é a perda de desejos. Com desejos rapidamente saciados, a economia se torna dependente da produção constante de necessidades cada vez mais exóticas. 

Não é novidade que a prosperidade depende do estimulo da demanda. O que é novo é que não se pode continuar sem inventar novos vícios. A economia é impulsionada pela novidade permanente e sua saúde passou a depender da fabricação da transgressão. [...] Novas experiências se tornam obsoletas mais rapidamente do que as as mercadorias físicas.

 […]



Nas palavras de J.H. Prynne:
Os novos vícios são a prevenção contra a perda do desejo. Ecstasy, Viagra, os salões de S-and-M de Nova York e Frankfurt não são apenas auxiliares para o prazer. Eles são antídotos contra o tédio. Em um momento em que a saciedade é uma ameaça à prosperidade, prazeres que foram proibido no passado tornaram-se alimentos básicos da nova economia.

[…]




Em seu romance Noites de Cocaína, J. G. Ballard
 “Nossos governos estão se preparando para um futuro sem trabalho...  As pessoas vão trabalhar, ou melhor, algumas pessoas vão trabalhar, mas apenas por uma década de suas vidas. Eles vão se aposentar em seus trinta e tantos anos, com 50 anos de ociosidade na frente deles.. Um bilhão de varandas de frente para para o sol.”




Só a emoção fornecida pelo proibido pode aliviar a carga da vida tediosa:

“Só uma coisa pode animar as pessoas... criminalidade e comportamento transgressor – não precisa ser atividades que sejam necessariamente ilegais, mas atividades que nos provoque e pressione a nossa necessidade de emoções fortes, acelerar o sistema nervoso e  acelerar as sinapses amortecidas por ócio e inação.”
 […]

Em um romance mais recente, Super-Cannes, Ballard retrata uma comunidade empresarial em um modelo “Eden-Olímpco”, onde o tédio dos executivos é tratado com um regime de "violência cuidadosamente doseada, uma microdose de loucura, como os vestígios de estricnina em um nervo tônico”. O remédio para o trabalho sem sentido é um regime terapêutico da violência insensata - lutas de rua cuidadosamente coreografadas, assaltos, roubos, estupros e outras recreações ainda mais anti-convencionais.
Hoje, a dose de loucura que nos mantêm sãos é fornecido pelas novas tecnologias. Qualquer pessoa on-line tem uma oferta ilimitada de sexo virtual e violência. Mas o que vai acontecer quando acabar os novos vícios? Como iremos saciar e mitigar a ociosidade quando sexo virtual, drogas e violência não venderem mais? Nesse ponto, possamos ter a certeza, a moral vai voltar à moda. Não estamos longe de uma época em que a "moralidade" será comercializada como um novo tipo de transgressão.

John N. Gray no livro Cachorros de Palha


sábado, 6 de julho de 2013

Ateísmo: A última Consequência do Cristianismo

Descrença é um movimento num jogo cujas regras são definidas pelos crentes. Para negar a existência de Deus é necessário aceitar as categorias do monoteísmo. Conforme essas categorias caem em desuso, a descrença torna-se desinteressante, e logo não faz sentido. Os ateus dizem que querem um mundo secular, mas um mundo definido pela ausência do deus dos cristãos ainda é um mundo cristão. O secularismo é como a castidade, uma condição definida por aquilo que ele nega. Se o ateísmo tem um futuro, ele só pode estar em um avivamento do cristianismo, porém, a verdade é que o cristianismo e o ateísmo estão declinando juntos.

O ateísmo é um florescimento tardio de uma paixão cristã pela verdade. Nenhum pagão está pronto para sacrificar o prazer da vida em prol de uma simples verdade. É ilusão astuta, não uma realidade sem enfeites, o prêmio. Entre os gregos, o objetivo da filosofia era a felicidade ou a salvação, não a verdade. O culto da verdade é um culto cristão.

Os antigos pagãos tiveram razão em se espantarem diante a fervor grosseiro dos primeiros cristãos. Nenhuma das religiões de mistério em que o mundo antigo abundavam afirmou que os cristãos alegou - que todas as outras religiões estavam erradas. Por isso mesmo, nenhum de seus seguidores jamais poderia tornar-se um ateu. Quando os cristãos insistiram em que só eles possuíam a verdade, condenavam a luxúria do mundo pagão de forma condenatória.


Em um mundo de muitos deuses, a descrença nunca pode ser total. Só pode ser a rejeição de um deus e aceitação de outro, ou então - como em Epicuro e seus seguidores - a convicção de que os deuses não importa, já que eles há muito que deixaram de se preocupar com assuntos humanos.

Cristianismo golpeou a raiz da tolerância pagã da ilusão. Ao afirmar que só existe uma verdadeira fé, deu a verdade um valor supremo que não tinha antes. Além disso fez a descrença do divino possível, pela primeira vez. A consequência ao longo prazo da fé Cristã foi uma idolatria da verdade que encontrou sua expressão mais completa no ateísmo. Se vivemos em um mundo sem deuses, temos o cristianismo para agradecer por isso.

John N. Gray no livro Cachorros de Palha


sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Erro do Progresso

John N. Gray no livro Cachorros de Palha

Para George Bernard Shaw, a Alemanha nazista não era uma ditadura reacionária, mas um herdeiro legítimo do Iluminismo europeu.


O Nazismo era um retalho de idéias, incluindo as filosofias ocultistas que eram contrárias a ciência moderna. Mas enganam-se aqueles que este seja inequivocamente hostil ao Iluminismo. Na medida em que foi um movimento dedicado à tolerância e à liberdade pessoal, Hitler abominava o Iluminismo. Ao mesmo tempo, como Nietzsche, ele compartilhou a ideia que o Iluminismo trouxe grandes esperanças para a humanidade. Através da eugenia positiva e negativa - a criação de humanos de elevada qualidade e eliminando aqueles julgados inferior - a humanidade se tornaria capaz de as enormes tarefas pela frente. Sacudindo as tradições morais do passado e sendo purificada pela ciência, a humanidade seria dona da Terra. A visão de Shaw do nazismo não era tão rebuscada. Ele fez coro com a auto-imagem de Hitler como um progressista destemido e modernista.

Shaw entendia tanto a União Soviética e a Alemanha nazista como regimes progressistas. Como tal, ele sugeria que estes tinham o direito de desobstruir matando pessoas inúteis. Ao longo de sua vida, o grande dramaturgo argumentou em favor do extermínio em massa como uma alternativa à prisão. Era melhor matar o socialmente inútil, ele dizia, do que desperdiçar dinheiro público em prendê-los.

Não era apenas um gracejo Shawaniano. Em uma festa em honra do seu septuagésimo quinto aniversário realizado em Moscou durante sua visita à URSS, em agosto de 1930, Shaw disse à sua audiência meia esfomeada que, quando soube que ele estava indo para a Rússia seus amigos tinham fornecido a ele alimentos enlatados, mas - brincou - jogou tudo para fora da janela na Polônia antes de chegar à fronteira soviética. Shaw provocou a platéia com pleno conhecimento de suas circunstâncias. Ele sabia que as fomes soviéticas eram artificiais. Mas olhava alegremente para suas vítimas pois tinha a convicção que o extermínio em massa era justificado se há um avanço da causa do progresso.

A maioria dos ocidentais não entendiam a lucidez de Shaw. Eles não podiam admitir que o maior assassinato em massa dos tempos modernos - talvez em toda a história humana - estava ocorrendo em um regime progressivo. Entre 1917 e 1959 mais de 60 milhões de pessoas foram mortas na União Soviética. Esses assassinatos em massa não estavam escondidos: eram políticas públicas. Heller e Nekrich escreveram:
“Não há dúvida de que o povo soviético sabia sobre os massacres no campo. Na verdade, ninguém tentou esconder. Stalin falava abertamente sobre a 'liquidação dos kulaks como classe", e todos os seus tenentes ecoavam ele. Nas estações de trem, os moradores da cidade podia ver as milhares de mulheres e crianças que haviam fugido das aldeias que estavam morrendo de fome.”

Às vezes se perguntam como que os observadores ocidentais eram tão lentos em reconhecer a verdade sobre a União Soviética. A razão não era difícil de se encontrar, ficou claro a partir de centenas de livros de emigrantes sobreviventes - e de declarações dos próprios soviéticos. Mas os fatos eram muito desconfortáveis para os ocidentais a admitirem. Por uma questão de manter sua paz de espírito, eles preferiam negar o que eles sabiam ou suspeitavam da verdade.  

"A escala de morte desenvolvida pelo homem é o fato moral e material central do nosso tempo", escreve Gil Elliot. O que faz o especial do século XX não é o fato de que está repleto de massacres. É a escala de suas mortes e o fato de que eles foram premeditados visando grandes projetos de melhoramento do mundo.

O progresso e os extermínios andam lado a lado. O número de mortos por grandes fomes e pragas podem ter diminuído, mas a morte pela violência tem aumentado. Com o avanços da ciência e da tecnologia, também há um avanço na proficiência em matar.  A esperança de um mundo melhor tem crescido, assim como os assassinatos em massa.

Citações do Bernard Shaw:

"Vocês devem saber que meia dúzia de pessoas não tem uso para este mundo, que não valem a pena por tanto trabalho. Basta colocá-los lá e dizer: Senhor, ou Madame, você poderia ser bom o suficiente para justificar sua existência?

Se você não pode justificar a sua existência, se você não está puxando o seu próprio peso, e uma vez que você não está, se você não está produzindo o tanto quanto você consome, ou talvez um pouco mais, então, fica evidente, não podemos usar o organizações da nossa sociedade com a finalidade de mantê-lo vivo, porque a sua vida não nos beneficia e não pode ser de muito uso nem pra você mesmo."

Em vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=7WBRjU9P5eo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Brincadeira / Zert (1969)



Sinopse: Na década de 1950, Ludvik Jahn foi expulso do Partido Comunista e da Universidade por seus colegas, por causa de um bilhete politicamente incorreto que ele enviou para sua namorada. Quinze anos depois, ele tenta se vingar seduzindo Helena, a esposa de um de seus acusadores.












Comentário: 
Kundera é um dos autores do Leste Europeu mais agradáveis ​​do período pós-guerra e se dá pelo fato de ter escrito uma série de livros com uma forma muito simples, jocosa, a mensagem: nós lutamos contra o totalitarismo simplesmente não se importando com isso; o adultério é uma ótima maneira para ser um dissidente.

Ludvik Jahn serviu em uma unidade militar não-combatente, em seguida, passou um ano em uma prisão (sem condenação) e teve que trabalhar durante seis anos nas minas (por falta de diploma universitário) só porque seus colegas e companheiros de partido levou muito a sério uma piada estúpida que ele escreveu para a sua amada, por razões absolutamente pessoais. A vingança de Jahn assume a forma de uma piada, porque sua grande preocupação era saber o seguinte: como é que estes homens levam tão a sério uma chacota inocente?  No entanto, a brincadeira acabou mal: em vez de humilhar Pavel, o antigo líder da organização partidária dos estudantes, seduzindo sua esposa, Jahn humilhou uma inocente e ingênua, mulher, quebrou o coração do seu jovem pretendente e, pra piorar, teve que perceber que Pavel, o comunista supostamente sério, se saiu muito melhor no campo do adultério: desfrutando da companhia de estudantes atraentes de 20 anos que não têm absolutamente nenhuma noção de o marxismo e a construção do socialismo. É através desta realização, e não tanto através de seu ostracismo antes, que Ludvik é confrontado com as conseqüências de sua própria piada mal colocada. Seu protesto solitário contra o sistema falhou.