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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Misticismo Induzido por Drogas - Uma Entrevista com Charles Upton

Charles Upton, poeta, autor, ativista e veterano da contra-cultura, participou e experimentou de primeira mão muitas das facetas do cul-de-sac New Age, incluindo suas armadilhas que frequentemente são ignoradas. Desde 1960, os psicodélicos ou alucinógenos, agora denominados enteógenos, têm desempenhado um papel crucial para os buscadores modernos e pós-modernos em contornar as armadilhas do ego empírico e alcançar a auto-realização. Depois de um hiato de quase trinta anos, a pesquisa psicodélica tem agora um reavivamento, provocando muita investigação sobre o que está por trás deste fenômeno. É interessante notar que movimentos como o New Age, o Movimento do Potencial Humano, a Psicologia Humanista, e a Psicologia Transpessoal emergiram em um cenário comum e não só compartilham muitas semelhanças, mas também possibilitou o desenvolvimento entre elas. Por exemplo, o escritor inglês, Aldous Huxley (1894-1963), pode ser considerado uma figura que liga todos os movimentos supracitados através de sua popularização da filosofia perene e seus escritos sobre psicodélicos. Huxley não só ajudou a moldar cada um dos movimentos acima, mas forneceu uma teoria integrativa puderam criar raízes. Dito isto, embora tenha popularizado a filosofia perene, ele não é considerado um tradicionalista ou perenialista.

Charles Upton deixa de lado seus camaradas New-Age e a contra-cultura ao ser introduzido as obras dos tradicionalistas ou perenialistas - mais significativamente René Guénon, Frithjof Schuon (1907-1998), e Ananda Coomaraswamy (1887-1947), desde então ele tem se filiado nesta orientação. Upton já escreveu vários livros e artigos sobre metafísica tradicional e filosofia perene, os mais notáveis são  The System of Antichrist: Truth and Falsehood in Postmodernism and the New Age (2001), incluindo sua continuação, Vectors of the Counter-initiation: The Shape and Destiny of Inverted Spirituality (2012).


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Samuel Bendeck Sotillos: Talvez pudéssemos começar com a crítica perenialista fundamental em relação ao que tem sido chamado de "expansão da consciência", "estados alterados de consciência", "estados não-ordinários de consciência" - que distingue o psíquico do espiritual; essa é uma crítica que leitores fora dos círculos tradicionalistas não estão familiarizados e tem criado uma grande confusão aos buscadores contemporâneos. Você se importaria de elaborar sobre esta distinção fundamental, de profundas implicações, no que diz respeito ao reconhecimento da autêntica espiritualidade contra a pseudo-espiritualidade ou a espiritualidade Nova Era?

Charles Upton: O plano psíquico ou intermediário é o mundo da subjetividade; o plano espiritual é a própria objetividade. Enquanto o mundo psíquico é maior que o mundo material e engloba-o, plano do Espírito é superior tanto a psique e a matéria, e engloba-os. O mundo psíquico é composto de crenças, percepções, impressões, experiências; o mundo espiritual é composto de certezas - de coisas que são verdadeiras, mesmo se não temos certeza delas. Quando o poeta da Geração Beat Lew Welch disse: "Eu busco a união com que acontece estando eu observando ou não", ele estava postulando o nível de Espírito. O plano psíquico é relativamente objetivo na medida que não está encerrado dentro da psique individual; Como Jung demonstrou, ele também tem um aspecto coletivo. No entanto, esta coletividade não está limitada a uma massa subjetiva humana ou a um "inconsciente coletivo"; ali também se encontra muitas classes de seres não-humanos, incluindo o que os gregos chamavam de daimones, as fadas dos europeus, e os jinn dos árabes. Ele carrega nada menos que as impressões das experiências de todos seres sencientes. O plano psíquico é um ambiente (relativamente) objetivo da psique-humana, assim como a terra é um ambiente (relativamente) objetivo para o corpo humano. Nossa aparente subjetividade individual é co-extensiva com inúmeras outras subjetividades, tanto humana como não humana; como Huston Smith disse, "o cérebro respira pensamentos assim como os pulmões respiram ar." Mas continua a ser essencialmente subjetivo em todos casos; é o plano das experiências, não de realidades. Uma experiência é uma impressão de uma realidade objetiva, seja material ou espiritual, recebida por um sujeito limitado, uma impressão que é editada pelas limitações inerentes ou adquiridas pelo sujeito que recebe-a. É um fenômeno e não um númeno. Qualquer que seja os dados relativamente objetivos possam ser acessados através de meios psíquicos (clarividência, precognição, etc.), sempre pertencem a entidades contingentes imersas em uma forma ou outra no espaço e no tempo, linear ou multidimensional; realidades eternas não podem ser intuídas por meios psíquicos.

O plano espiritual, por outro lado, é puramente objetivo. Ele não é composto de nossas impressões, mas de coisas que recebemos impressões - dos númenos que transcendem a experiência dos sentidos e não dependem, para sua existência, que estejamos conscientes deles, assim como - no nível de experiência sensorial - a montanha fora de nossa janela realmente está lá, mesmo se estivermos olhando-a ou não. O plano espiritual é o domínio das primeiras manifestações inteligíveis ou "nomes" de Deus - dos princípios metafísicos não são simples idéias abstratas, mas realidades vivas que têm poder, em condições adequadas, para dominar, guiar, purificar, e em conformar nossa psique para "salvar nossas almas."

Portanto, as realidades espirituais transcendem a experiência subjetiva. Mas sem experiência, elas não são eficazes para nos iluminar e nos salvar. As experiências espirituais, então,  - aquilo que os Sufis chamam de ahwal ou estados espirituais (que são elementos espirituais do caminho espiritual) - são experiências psíquicas que não são fundamentadas naquele que está experimentado, mas nas realidades objetivas que transcendem o domínio dos sentidos - nos Nomes de Deus. Estar sujeito a um estado espiritual é ter uma intuição intelectiva direta de uma realidade espiritual objetiva que transcende o estado em questão; onde o estado subjetivo pelo qual é intuído sempre velará e desvelará; e, se as realidades espirituais parcialmente transcendem nossa experiências subjetiva delas, Deus transcende nossa experiência Dele absolutamente. Experimentar Deus é ser chamado para transcender imediatamente aquela experiência necessariamente limitada Dele, e entrar em contato existencial puro com Ele como Ele é em Si mesmo, além de toda a experiência; como os Sufis dizem, "o ser humano não conhece Deus em Sua Essência Absoluta; é Deus que conhece a Si mesmo na forma humana". A prática Sufi de contemplar a Deus dessa maneira é conhecida como Fikr, que pode ser definida como "o sacrifício contínuo de toda concepção do Absoluto, gerado pelo Absoluto, em face do Absoluto."

Assim, podemos dizer que as realidades espirituais são objetivas, e que Deus, a Fonte de todas essas realidades, é o Objeto Absoluto. Mas, "objeto" aqui não significa "qualquer coisa que seja percebido por um sujeito limitado como algo diferente de si mesmo"; tomado neste sentido, "objeto" é relativo aquele sujeito limitado e assim participa de sua subjetividade. Deus, como o Objeto Absoluto é igualmente a morada do Sujeito Absoluto, a Testemunha Absoluta, aquilo que os Hindus chamam de Atman, o que Frithjof Schuon chama de "Sujeito absoluto de nossas subjetividades contingentes." A Testemunha Absoluta se situa "atrás" de todas experiências psíquicas, testemunhando-as impassivelmente, não se identificando com elas; aqui se encontra a diferença exata entre a psique e o Espírito.

Não podemos alcançar Deus através da psique, através da experiência; a essência do caminho espiritual é colocar-nos na presença de Deus e deixar que Ele nos alcance. Ele pode fazer isso através de experiências, através de eventos, ou através de uma ação secreta dentro da alma que não somos sequer conscientes. A função das experiências espirituais, ou estados, não é "enriquecer a alma" com impressões fascinantes do Divino, mas queimar aspectos específicos do ego, apegos e identificações específicas; é por isso que o Sufi realizado, aquele que transcendeu a si mesmo, que morreu para si mesmo, torna-se objetivo para si mesmo - ou melhor, para a Testemunha Absoluta dentro de si - está inteiramente além de todos estado espirituais.

SBS: Dando sequência a este assunto, o que você pode dizer sobre a hipótese que a busca pela expansão da consciência - ou por um estado alterado de consciência - é um fim em si mesmo, como se fosse uma norma humana desejável que contradiz os princípios pereniais - "o objetivo não é estados alterados, mas traços alterados." Esta abordagem perigosa muitas vezes envolve uma mistura ad hoc de técnicas espirituais ao invés de uma aderência persistente em uma forma espiritual ortodoxa. Você poderia por favor falar sobre esse desenvolvimento confuso?


Charles Upton: Isso tudo é uma espécie de desespero, bem como uma indicação que o colapso das religiões tradicionais reveladas, conduzindo a uma Religião Única Mundial, constituída de fragmentos resultantes, - um desenvolvimento que resultará no regime do Anticristo - está prosseguindo de forma programada.

Na medida que as religiões degeneram, o sentimento da realidade de Deus é progressivamente substituído por uma obsessão com a moralidade como um fim em si mesmo, e o fervor religioso considerado como um fim em si mesmo, ambos tomados fora de seu contexto próprio. A pureza moral já não é sentida como algo que naturalmente devemos a Deus em vista de Seu amor por nós e pelo fato de que Ele nos criou, mas algo que nos impede de cair na ingratidão de adorar as paixões como ídolos em Seu lugar; assim, a moralidade se torna-se um ídolo em si mesma. Da mesma forma, o fervor perdeu de vista o Deus que supostamente lhe inspira, tornando-se um substituto de Sua presença em vez de uma resposta a ela. Em vários dos hinos protestantes contemporâneos, por exemplo - ou canções contemporâneas de "pop" Cristão - os cantores cantam principalmente sobre seus próprios sentimentos e não sobre Deus.

De igual modo, vários programas de "estudos da consciência", atualmente disponíveis na academia, tendem a concentrar-se em estados subjetivos de consciência, bem como nos sistemas de crenças que lhes dão suporte e as técnicas pelas quais às vezes podem ser produzidas ao invés de compreender os estados espirituais como reflexos de uma ordem metafísica objetiva e, assim, como instâncias de conhecimento ao invés de simples experiências.  De acordo com a doutrina Sufi, os estados espirituais não são aquisições, mas dons de Deus. Ele os envia a fim de "queimar" paixões específicas, apegos e nós-egóicos; depois que os apegos são dissolvidos, aquele estado particular não retorna. Por exemplo, o hábito de um medo neurótico, queimado por um estado (hal) de um amor extático, é transformado em uma estação (maqam) de coragem e equanimidade; assim, um "estado" temporário resultou em um "traço" estabelecido. E o Sufi totalmente realizado é dito estar além de ambos estados e estações, uma vez que ele já não mantém mais um ego separativo que possa ser sujeitos aos mesmos; ele atingiu uma realização metafísica objetiva. Quando a fé tradicional é forte, é uma fonte de segurança e certeza para os fiéis; eles sentem que estão na presença dos sagrados mistérios. Mas quando as religiões tradicionais enfraquecem, certas pessoas que estariam espiritualmente satisfeitas por simplesmente viver dentro de um ambiente e uma tradição sagrada, e que teriam salvado suas almas, concebem o desejo de uma relação direta mística com Deus, de modo a compensar o que foi perdido - uma relação que pode não ser, de fato, adequada para eles. Eles imaginam que essa relação só pode resultar de um extravagante tour-de-force espiritual - e as drogas psicodélicas imediatamente aparecem como uma maneira plausível de tomar esse caminho. Mas os psicodélicos, bem como as várias técnicas espirituais, tal como o yoga não-tradicional secularizado, são frequentemente abordados em função de um contexto limitante e falso, onde as pessoas buscam libertarem-se de uma vida espiritual como um exercício da vontade-própria (como no caso da moralidade compulsiva), e de Deus concebido como uma experiência ao invés de uma Realidade (como no caso do fervor auto-centrado, por exemplo, que diviniza a experiência e que pode ser descrito como uma espécie de "pentecostalismo não-cristão"). Na ausência de um senso de Graça de Deus, baseado na fé, que São Paulo chama de "o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem", nada é possível na vida espiritual além de uma tentativa Prometéica de tomar o céu por assalto e um narcisismo espiritual - duas patologias que estão intimamente relacionadas entre si e que nunca aparecem separadas. A vontade de cortar relações com o Intelecto espiritual (que está virtualmente em vigor, sempre que a Fé a Graça estão presentes) produz o prometeísmo; a alienação das afeições do Intelecto produz narcisismo.

É bastante interessante que as drogas psicodélicas entram em cena precisamente no mesmo momento em que o Concílio Vaticano II estava abolindo o Catolicismo Romano tradicional e desconstruindo a ordem sacramental. É como se a graça dos sacramentos Católicos Romanos, enquanto estavam intactos, transbordavam - em seu contexto especificamente Católico - e mantinham um certo nível de elevação no "inconsciente coletivo" do mundo ocidental, uma elevação que foi rapidamente perdida quando a graça foi cortada. Diante de um repentino senso - inconsciente ou semi-consciente - de perda espiritual, e a sensação sufocante que sempre surge quando a psique é cortada do plano do Espírito, a coletividade ocidental tornou-se suscetível à tentação dos psicodélicos, que, pelo menos, pode proporcionar (embora não sem consequências extremamente negativas) uma expansividade psíquica horizontal, que surge para compensar - e por vezes, em verdade, falsifica -  a perda de uma elevação espiritual vertical, enquanto ao mesmo tempo esconde o fato de que essa perda já ocorreu. Psicodélicos, em outras palavras, se tornaram uma espécie de "prêmio de consolação" luciférico oferecido como compensação pela queda da cristandade ocidental. 


SBS: Os defensores e os pesquisadores dos psicodélicos afirmam que, devido ao fato de que as propriedades psicoativas se encontram naturalmente em algumas plantas (e até são endógenos ao corpo humano), esses têm sido utilizados em rituais sagrados por todo o mundo desde tempos imemoriais. Sugerem que eles podem ter sido os precursores de fundação das próprias religiões. Tem sido sugerido que essas plantas que alteram a mente eram os componentes centrais do Soma do Rig Veda ou do Hoama do Avesta, identificando como nada menos que o cogumelo Amanita muscaria, e que o principal rito dos mistérios elusianos (dizem que Platão, Aristóteles e Epicteto foram inciados), o Kykeon, supostamente seria o fungo ergo que contém alcaloides psicoativos como o LSD (ácido lisérgico e dietilamida); também se afirmou que o Manna da Bíblia Hebraica era um psicodélico. O uso de cogumelos psicoativos também têm sido atribuído ao culto de Mitra, e dizem ter sido utilizado no Egito antigo e até mesmo nas origens do Cristianismo. Poderiam as drogas psicodélicas serem a verdadeira origem de qualquer religião revelada particular? Quais são seus pensamentos sobre essa importante discussão?

Charles Upton: Uma vez que as religiões são fundadas por uma ação Divina através de profetas e avatares (talvez com exceção do Budismo, embora Gautama Buddha também seja considerado ser o nono avatar de Vishnu, dentro da tradição Hindu), dizer que elas foram iniciadas por psicodélicos é negar que Deus possa ter Sua própria iniciativa e isso é, consequentemente, negar Deus. É fazer da "religião" algo inteiramente humano e, portanto, postular algo que não se encaixa na própria definição dessa palavra. Nenhuma tradição religiosa afirma ter sido fundada com base na experiência psicodélica; tais afirmações emanam de usuários de psicodélicos que gostam de projetar suas fantasias em tradições que eles de modo algum pretendem seguir. Qualquer um que pensa que Moisés encontrou com Deus no Sinai ou que Jesus se tornou "Cristo" depois de comer alguns cogumelos, porque de outra forma como poderiam eles terem feito isso, não tem qualquer senso do sagrado. Dentro de certos contextos e em certas yugas talvez fosse espiritualmente possível abrir aos iniciados as graças de um caminho espiritual já estabelecido através do uso de psicodélicos, mas tais coisas certamente não são possíveis em nosso tempo, exceto por um grande custo - e com que moeda poderíamos pagar esse custo, pobre como nós somos? Em todo caso, é certo que o estabelecimento de um caminho espiritual legítimo através do uso de psicodélicos nunca foi possível e nem necessário.

SBS: Embora a filosofia perene reconheça as tradições Xamânicas dos Primeiros Povos, um desafio central para a noção que os enteógenos ou psicodélicos foram utilizados desde os tempos mais antigos é que, desde o "começo dos tempos" ou "pré-história" - que alguns sugerem ser em torno de 5000 a.C - quando contextualizados dentro do tempo cíclico, é provável que se encontre na Kali Yuga ou Idade de Ferro, na culminação deste ciclo temporal ou na melhor das hipóteses, no Dharma Yuga ou Idade de Bronze, a fase que precede a idade final. Dessa maneira, o uso de plantas sagradas que possuem propriedades psicoativas ocorreram no final do ciclo cósmico (manvantara) e não no seu inicio, na Krita-Yuga ou Satya-Yuga, conhecido como a Idade de Ouro na cosmologia ocidental. Isso apoiaria a observação do proeminente historiador de religião, Mircea Eliade (1907-1986), que "o uso de intoxicantes... é uma inovação recente e aponta para uma decadência na técnica xamânica." Você poderia por favor elaborar sobre a perspectiva perenialista quanto a este ponto?

Charles Upton: Eu concordo com a opinião inicial dos psicodélicos; quando uma tradição espiritual se degenera, não há como dizer o que as pessoas irão tentar a fim de recuperar o que se sente que perdeu. Talvez, se Deus quiser, algo pode ser parcialmente recuperado através dos psicodélicos sob certas condições cósmicas - condições que certamente não desfrutamos hoje - mas, a própria tentativa de recuperar uma exaltação espiritual antiga é uma evidência de uma degeneração. A Krita-Yuga foi caracterizada por uma "consciência teofânica em massa" em que os psicodélicos não eram necessários; nas palavras do Gênesis, a humanidade "passeava com Deus no jardim ao entardecer." Na minha opinião (e eu estou aberto à correção), o xamanismo começou na Tetra-Yuga ou Idade de Prata, quando o ambiente cósmico estava sujeito a desequilíbrios devido às incursões demoníacas que os xamãs - como eles mesmos se intitulam, de acordo com Eliade - foram enviados por Deus para corrigir. E, como os xamãs de nossos tempos têm afirmado, de acordo com Eliade, seus antepassados eram imensamente mais poderosos que eles, e não precisavam de psicodélicos; de modo que o uso da "muleta" psicodélica, sem dúvida, veio mais tarde que a própria dispensação xamânica. Também de grande interesse é o fato de que a visionária Cristã e estigmatista Anne Catherine Emmerich (1774-1824), em seu livro A Vida de Cristo e Revelações Bíblicas, com base em suas visões, menciona um patriarca não-bíblico Hom, que ou foi nomeado posteriormente, ou forneceu um nome para uma planta que considerava sagrada. Essa planta, na minha opinião, é a planta Haoma, dos antigos persas, equivalente ao Soma védico. De acordo com Emmerich, a linhagem que ia desde Hom, que incluia um tal Dsemschid (sem duvidas, o lendário rei persa Jamshid), tornou-se poluída com fantasias satânicas e, embora aparentemente ela não tenha reconhecido a planta em questão como intoxicante, é altamente improvável que Emmerich, uma camponesa quase analfabeta de Vestefália, teria algum conhecimento da história Persa ou erudição Zoroastra, muito menos sobre os efeitos de um psicodélico exótico. Por isso, pode muito bem ser verdade que o uso de tais plantas, pelo menos para além da era cósmica que poderiam ter permitido sua utilização sobre certas condições, representa um desvio verdadeiramente antigo na relação da humanidade com Deus. (Não se deve esquecer, no entanto, que de acordo com René Guénon e Ananda K. Coomaraswamy, o Soma e Haome, em seu sentido simbólico mais elevado, não são plantas psicoativas, mas a fonte da "Bebida da Imortalidade" que retorna a forma humana ao seu fitra, ao seu estado edênico primordial, antes da Queda. Em outras palavras, eles simbolizam um determinado estágio da realização espiritual.)

Quanto à opinião do Eliade que o êxtase psicodélico é idêntico ao êxtase produzido por outros meios, eu especulo que ele disse isso só porque ele mesmo experimentou os psicodélicos e não tinha mais nada que pudesse compará-los. Ele era um estudioso incomparável de religião, mas ele não tinha uma fé religiosa; ele caracterizava as religiões, os mitos, as crenças metafísicas como "criações artísticas" referentes a nenhuma realidade objetiva; ele as colocava no plano psíquico e não no plano espiritual.

SBS: Existe a noção que o uso do peiote (Lophophora williamsii) através da sincretista Igreja Nativa Americana (NAC) é compatível com os outros ritos xamânicos tradicionais que originalmente não utilizavam esta planta. Por exemplo, há alguns que sugerem que a religião da Dança do Sol é compatível com o uso de peiote (alguns até mesmo introduziram a Ayahuasca ou Yajé neste ritual sagrado). No entanto, autoridades espirituais tradicionais dentro dessas comunidades, tais como
o curandeiro e chefe da Dança do Sol, Thomas Yellowtail (1903-1993), sugere exatamente o contrário, que eles não são compatíveis e que tal sincretismo ou mistura de elementos estrangeiros, como o peiote são, de fato, perigosos, e podem ser espiritualmente prejudiciais, sem mencionar que eles não fazem justiça com nenhum dos caminhos espirituais e acabam diluindo cada tradição, levando à morte de ambas. Você tem alguma opinião sobre isso?

Charles Upton: Yellowtail está correto.

SBS: Juntamente com a Igreja Nativa Americana (NAC), há também o fenômeno da bebida psicoativa Ayahuasca ou Yajé na America do Sul, que tem sido amplamente explorada e disponibilizada em todo mundo através das igrejas sincréticas do Santo Daime, fundada pelo Mestre Irineu ou Raimundo Irineiu Serra (1892-1971), e pela União do Vegetal (Centro Espírita Beneficente União do Vegetal ou UDV), fundada pelo Mestre Gabriel ou José Gabriel da Costa (1922-1971), que combina Catolicismo, Espiritismo de Allan Kardec (1804-1869) e Xamanismo Africano e Sul-Americano. Em conjunto com isso, precisamos mencionar que a busca por experiências místicas também trouxe o fenômeno do "turismo espiritual" para partes remotas  da bacia amazônica e tem trazido efeitos nocivos as sociedades tradicionais que vivem nessas áreas, estendendo-se a todas as tradições sapienciais. Você poderia falar sobre esses fenômenos interessantes, que são, sem dúvida, uma marca do pensamento New Age?

Charles Upton: Sincretizar diferentes formas do sagrado, assumindo que são originalmente verdadeiros caminhos espirituais, e não simplesmente "tecnologias" psíquicas, é relativizar e subjetivar-las e, assim, conduzir tudo para baixo, para o nível da psique ao mesmo tempo vedando o acesso ao Espírito; e isso equivale a invocação demoníaca. E, se as práticas em questão são fundamentalmente psíquicas, misturá-las só pode gerar ainda mais caos. A Unidade Espiritual é superior a multiplicidade psíquica e engloba-a, mas, uma vez que a Unidade do Espírito é velada, vem a ideia "Você quer dizer que você só tem um deus? Vocês são espiritualmente privados! Temos centenas" - o "reino da quantidade" com força total! O problema com esta abordagem é que nenhum desses vários deuses pode ser a Realidade Absoluta, nem mesmo um símbolo psíquico dela - pois, por definição, você não pode ter mais de um Absoluto. E o caos psíquico criado pela mistura do Xamanismo Africano e Sul Americano com o Catolicismo e o Espiritismo Europeu só pode ser comparado com com a reprodução da música de Bach, de Moody Blues, Charlie Parker e Inti Illimani todas ao mesmo tempo - uma prática que só conseguiria destruir toda a presença da mente e unidade da alma do ouvinte. É claro que algumas pessoas gostam desse tipo de coisa; em vez de transcender sua individualidade, através da ascensão espiritual, eles simplesmente preferem quebrá-la, e, consequentemente, afundar pra baixo dela, para o nível infra-psíquico. É o chamado "pós-modernismo".

E o turismo espiritual em lugares como a Amazônia causa danos não somente as culturas indígenas, mas também aos turistas. (Recentemente vi uma notícia sobre uma aldeia que proibiu tal turismo; um aldeão chamou de "assustador" os estranhos norte-americanos que lhe visitaram e imediatamente pediram para que falassem tudo sobre os rituais sagrados locais e suas crenças.) Quando os "norteamericanos" e os europeus endinheirados entram nas aldeias sujas e pobres da Amazônia e em outros lugares à procura de satisfazer sua fome espiritual, uma fome baseada no abandono de sua própria tradição espiritual (geralmente o Cristianismo), eles tentam seduzir os anciões da aldeias que troquem coisas sagradas por dinheiro (um pecado que os católicos tradicionais chamam de simonia). Turistas espirituais não são em geral peregrinos, mas ladrões, vampiros. Na maioria dos casos eles não estão à procura de um caminho espiritual para dedicar suas vidas, mas simplesmente pegando aqui e ali qualquer objeto de arte sacra, ou experiências psicodélicas, ou rituais sagrados degradados ao nível de mero espetáculo que se adequem a suas fantasias - isso quando não é o caso de serem em verdade feiticeiros em busca de "poder pessoal". Muitas vezes seu tipo é psíquico em vez de espiritual; como a maioria dos turistas, eles estão buscando por "experiências", não por princípios para viver. Eles deixam para trás as influências destrutivas de suas próprias atitudes profanas pós-modernas, e voltam para casa poluídos com os resíduos psíquicos tóxicos das formas sacras que saquearam de modo a liberá-las para fazer estragos dentro de suas próprias culturas.

SBS: Outro ponto importante a discutir é que, embora exista sociedades tradicionais xamânicas que ainda hoje utilizam plantas psicoativas em seus ritos sagrados, - i.e. os Huichol, Tarahumara, Cora, Mazatec, Bwiti, Kayapo, Fang, Mitsogo, Jivaro, Yanomami, Koryak, etc - isso não significa necessariamente que aqueles que estão fora desses grupos raciais e étnicos também terão a mesma resposta espiritual e benéfica com o uso dessas plantas. É como se aos diferentes povos indígenas foram dadas diferentes plantas medicinais específicas para sua constituição humana e contexto ecológico. Você poderia por favor falar sobre este tema  sensível, pois, talvez seja, "politicamente incorreto"?

Charles Upton: Isto é, sem dúvida, verdade em muitos casos. Se pela invocação do divino nome Allah não se espera que seja espiritualmente fecundo para um Budista, então, pela mesma razão, o uso de certas plantas psicoativas fora de seu contexto tradicional e ritual, é provável que não tenha o mesmo efeito que teria dentro desses contextos, e provavelmente terá um efeito negativo. Essas transferências psíquicas e culturais podem ser comparadas - com precisão - ao colapso de ecossistemas distintos e independentes. A Carpa Asiática estão muito bem na Ásia; nos Grandes Lagos elas são um desastre. E aqueles que esperam se beneficiar com as cosmovisões sagradas dos Huichols, dos Tarahumara ou da Igreja Nativa Americana, deveriam estar dispostos a viver sob as mesmas condições de privação, opressão e marginalização social, como os Huichols, os Tarahumara e a Igreja Nativa Americana. Se você quer a espiritualidade da Reserva, aceite o sofrimento da Reserva. O Xamanismo, mesmo aquele relativamente degenerado, tem uma certa justificativa prática em condições verdadeiramente primitivas, uma vez que representa grande parte da herança tecnológica da tribo. O xamã cura as doenças,  cria os jogos, desenvolve as investigações criminais, influencia o tempo, protege a tribo em guerra, e protege contra os desequilíbrios psicológicos e / ou incursões demoníacas. Mas, sob condições modernas, quando ao menos algumas dessas funções podem ser cumpridas por outros meios, o xamanismo perde certo grau de sua razão de ser. Jean Cocteau (1889-1963), cineasta e poeta francês, conta a história de um antropólogo que estava estudando as tradições populares dos nativos no Haiti, onde as árvores são (ou eram) utilizadas para a comunicação de longa distância; quando o marido de alguma mulher estava longe, no mercado, ela podia enviar uma mensagem para ele conversando com uma árvore e recebia a resposta pela mesmo meio. Quando o antropólogo perguntou por que os nativos falavam com as árvores, responderam "Porque somos pobres. Se fôssemos ricos teríamos um telefone." Na minha opinião, pessoas do ocidente pós-moderno, cuja natureza psicofísica ainda não está totalmente integrada ao Espírito, ou pelo menos totalmente submetido a Ele - uma condição extremamente rara em nosso tempo - nunca deveriam ter contato com o xamanismo das culturas primitivas, uma vez que os ocidentais não possuem a proteção fornecida por um conjunto espiritual  básico e os caracteres de formação dessas culturas. O caso raro e excepcional é da pessoa que, pela graça de Deus, encontrou e foi aceito, não somente por um curandeiro ou um xamã tradicional, mas por um verdadeiro homem santo dos caminhos espirituais primitivos - no entanto, como ele ou ela poderia, em primeiro lugar, reconhecer tal homem santo, é difícil de imaginar. 

Entrevista publicada no livro Psychology and the Perennial Philosophy: Studies in Comparative Religion
por Samuel Bendeck Sotillos

domingo, 31 de janeiro de 2016

Sobre a Significação das Festas Carnavalescas (por René Guénon)

A propósito de certa "teoria da festa" formulada por um sociólogo, assinalamos[1] que essa teoria tinha, entre outros defeitos, o de querer reduzir todas as festas a um só tipo, que constitui o que se poderia denominar festas "carnavalescas", expressão que nos parece bastante clara por ser facilmente compreendida por todo mundo, pois o carnaval representa na verdade o que delas subsiste ainda hoje no Ocidente. Dizíamos, então, que se apresentam, em temas desse gênero, questões dignas de um exame mais aprofundado. De fato, o que sempre se evidencia nelas, antes de tudo, é uma impressão de "desordem" no sentido mais amplo da palavra. Como explicar então a existência dessas festas, não só numa época como a nossa, em que se poderia considerá-las simplesmente como uma das inúmeras manifestações do desequilíbrio geral, mas também, e mesmo com maior desenvolvimento, nas civilizações tradicionais, com as quais parecem incompatíveis à primeira vista?

Não é inútil citar aqui alguns exemplos precisos. Mencionaremos em primeiro lugar, a esse respeito, certas festas com caráter bem estranho celebradas na Idade Média: a "festa do jumento", em que esse animal, cujo simbolismo propriamente "satânico" é bem conhecido em todas as tradições,[2] era introduzido até mesmo no próprio coro da igreja, onde ocupava o lugar de honra e recebia as mais extraordinárias provas de veneração; e a "festa dos loucos", em que o baixo clero entregava-se às piores inconveniências, parodiando tanto a hierarquia eclesiástica, quanto a própria liturgia.[3] Como é possível explicar que tais coisas, cujo caráter mais evidente é sem dúvida de paródia e até mesmo de sacrilégio,[4] tenham podido, numa época como aquela, ser não só toleradas, mas até mesmo admitidas de certa forma oficialmente?

Mencionaremos ainda as Saturnais dos antigos romanos, das quais o carnaval moderno parece ter derivado diretamente, ainda que seja apenas, para dizer a verdade, um vestígio muito empobrecido: durante essas festas, os escravos davam ordens aos senhores e estes os serviam;[5] tinha-se então a imagem de um verdadeiro "mundo invertido", onde tudo se fazia ao contrário da ordem normal.[6] Ainda que se pretenda comumente que havia nessas festas uma evocação da "idade de ouro", essa interpretação é inteiramente falsa, por completo, pois não se trata de uma espécie de "igualdade" que poderia ser vista a rigor como representativa, na medida em que o permitem as condições presentes,[7] da indiferenciação primitiva das funções sociais; trata-se de uma inversão das relações hierárquicas, o que é inteiramente diferente. Uma tal inversão constitui-se, de modo geral, numa das características mais claras do "satanismo". É preciso, portanto, ver nelas algo mais relativo ao aspecto "sinistro" de Saturno, que por certo não lhe pertence enquanto deus da "idade do ouro", mas sim na medida em que hoje é apenas o deus decaído de um período encerrado.[8]

Podemos ver, por exemplo, que existe invariavelmente nas festas desse gênero um elemento "sinistro" e mesmo "satânico", e que, de modo especial, é precisamente esse elemento que agrada ao vulgar e excita a sua satisfação. Aí está, com efeito, alguma coisa que é muito apropriada, muito mais que outra qualquer, para satisfazer às tendências do "homem decaído", na medida em que essas tendências o impelem a desenvolver, sobretudo as possibilidades mais inferiores de seu ser. É nisso em particular que reside a verdadeira razão de ser das festas em questão. Trata-se, em suma, de "canalizar", de algum modo, essas tendências e de torná-las tão inofensivas quanto possível, dando-lhes ocasião de se manifestarem, mas somente durante períodos muito curtos e em circunstâncias bem determinadas, estabelecendo, assim, para essa manifestação, limites estreitos que não é permitido ultrapassar.[9] Se não fosse assim, essas mesmas tendências, por falta de receberem o mínimo de satisfação exigida pelo estado atual da humanidade, correriam o risco de explodir, se pudermos assim dizer,[10] e estender seus efeitos à existência inteira, coletiva e individual, causando uma desordem muito mais grave do que a que se produz apenas durante alguns dias especialmente reservados a esse fim, e que é muito menos temível por estar como que "regularizada". Por um lado, esses dias estão colocados em certa medida fora do curso normal das coisas, de modo que não exerce sobre ele qualquer influência apreciável, e no entanto, por outro, o fato de que não existe aí nada de imprevisto "normaliza" de certa forma a própria desordem e a integra na ordem total.

Além dessa explicação geral, que é evidente quando se está disposto a refletir, existem algumas observações úteis que podem ser feitas, em particular no que diz respeito às "mascaradas", que desempenham um papel importante no carnaval propriamente dito e em outras festas mais ou menos similares. E essas observações confirmarão ainda o que acabamos de dizer. De fato, as máscaras de carnaval são em geral hediondas e evocam com freqüência formas animais ou demoníacas, de modo que são como que uma espécie de "materialização" figurativa dessas tendências inferiores, até mesmo "infernais", que então é lícito exteriorizar. Mais ainda, cada um escolherá naturalmente, mesmo sem ter consciência clara disso, aquela que melhor lhe convém, isto é, aquela que representa o que está mais de acordo com suas tendências dessa ordem. Assim, poderíamos dizer que a máscara, supostamente destinada a ocultar o verdadeiro rosto do indivíduo, faz, ao contrário, aparecer aos olhos de todos o que ele traz em si na verdade, mas que de hábito deve dissimular. É bom notar, pois isso esclarece ainda mais a natureza de tais fatos, que existe aí uma espécie de paródia da "reversão" que, tal como explicamos em outro lugar,[11] produz-se num certo grau do desenvolvimento iniciático; paródia, dizíamos, e contrafacção verdadeiramente "satânica", pois nesse caso a "reversão" é uma exteriorização, não mais da espiritualidade, mas sim, pelo contrário, das possibilidades inferiores do ser.[12]

Para terminar esse esboço, acrescentaremos que se as festas dessa espécie estão-se reduzindo cada vez mais, e só parecem despertar o interesse do povo, é porque, numa época como a nossa, elas perderam na verdade sua razão de ser.[13] De fato, como se poderia tratar ainda de "circunscrever" a desordem e encerrá-la em limites rigorosamente definidos, quando está espalhada por toda parte e se manifesta sem cessar em todos os domínios em que se exerce a atividade humana? Se nos mantivermos presos às aparências exteriores e a um ponto de vista simplesmente "estético", poderíamos ser tentados a nos congratular com o desaparecimento quase completo dessas festas, em especial pelo aspecto "disforme" de que se revestem, como é inevitável. Mas essa desaparição, ao contrário, quando se vai ao fundo das coisas, constitui-se em sintoma muito pouco tranquilizador, pois revela que a desordem irrompeu em todo curso da existência e se generalizou a tal ponto que, pode-se dizer, estamos na realidade vivendo um sinistro e "eterno carnaval".

Notas:
* Publicado na revista Études Traditionnelles, dez. 1945.
1. Ver a revista É.T., abr. 1940, p. 169.
2. Seria um erro querer opor a isso o papel desempenhado pelo jumento na tradição evangélica, pois, na realidade, o boi e o jumento, colocados lado a lado na manjedoura em que Cristo nasceu, simbolizam respectivamente o conjunto das forças benéficas e maléficas; tornamos a encontrá-los na crucificação, sob a forma do bom e do mau ladrão. Por outro lado, Cristo montado num jumento, sua entrada em Jerusalém, representa o triunfo sobre as forças maléficas, triunfo esse que se constitui na própria "redenção".
3. Esses "loucos", aliás, levavam um chapéu com orelhas compridas, claramente destinadas a evocar a idéia de uma cabeça de jumento, traço este que é muito significativo do ponto de vista em que nos colocamos.
4. O autor da teoria a que nos referimos reconhece a existência dessa paródia e do sacrilégio, porém, atribuindo-os ao seu conceito de "festa" em geral, pretende que sejam elementos característicos do próprio "sagrado", o que não só é um paradoxo exagerado, mas, também, é preciso dizer, claramente, uma contradição pura e simples.
5. Encontram-se, inclusive, em países muito diferentes, casos de festas do mesmo gênero em que se chegava a conferir, temporariamente, a um escravo ou um criminoso as insígnias da realeza, com todo o poder que comportam, com a ressalva de dar-lhe morte assim que a festa terminasse.
6. O mesmo autor fala também, a esse respeito, de "atos às avessas" e mesmo de "retorno ao caos", o que contém ao menos uma parte da verdade, mas, por uma surpreendente confusão de idéias, assimila o caos à "idade de ouro".
7. Referimo-nos às condições do Kali-Yuga ou da "idade de ferro", da qual a época romana e a nossa fazem parte.
8. Que os antigos deuses tornam-se, de uma certa forma, demônios, é um fato constatado com grande freqüência, e a atitude dos cristãos em relação aos deuses do "paganismo" é um caso particular disso, mas que parece não ter sido jamais explicado como deveria. Não podemos, contudo, insistir sobre este ponto, que nos levaria fora do nosso tema. Deve ficar bem entendido que isso tudo se refere apenas a certas condições cíclicas, mas que não afeta ou modifica em nada o caráter essencial desses mesmos deuses enquanto simbolizam intemporalmente princípios de ordem supra-humana, de modo que, ao lado desse aspecto maléfico acidental, o aspecto benéfico, apesar de tudo, subsiste sempre, até mesmo quando completamente desconhecido pelas "pessoas de fora". A interpretação astrológica de Saturno poderia fornecer um exemplo muito claro a esse respeito.
9. Isso corresponde à questão do "enquadramento" simbólico, à qual nos propomos voltar. [Ver cap. 66.]
10. No fim da Idade Média, quando as festas grotescas de que falávamos foram suprimidas ou caíram em desuso, produziu-se uma expansão da feitiçaria desproporcional ao que se havia visto nos séculos precedentes. Esses dois fatos têm uma relação muito direta entre si, ainda que geralmente despercebida, o que é, aliás, mais surpreendente na medida em que existem algumas semelhanças evidentes entre tais festas e o sabá dos bruxos, em que tudo se fazia também "às avessas".
11. Ver Initiation et réalisation spirituelle, cap. XXX: L'Esprit est-il dans le corps ou le corps dans l'esprit?
12. Havia ainda, em certas civilizações tradicionais, períodos especiais em que, por razões análogas, permitia-se que as "influências errantes" se manifestassem livremente, tomando-se no entanto todas as precauções necessárias em tais casos. Essas influências correspondem, naturalmente, na ordem cósmica, ao que é o psiquismo inferior no ser humano e, por conseguinte, entre a sua manifestação e as influências espirituais existe a mesma relação inversa que entre as duas espécies de exteriorização que acabamos de mencionar. Afinal, nessas condições, não é difícil compreender que a própria mascarada parecer figurar, de certo modo, o aparecimento de "larvas" ou espectros maléficos.

13. Isso quer dizer que, para falar claro, elas são apenas "superstições", no sentido etimológico da palavra.



René Guénon: "Os Símbolos da Ciência Sagrada", 9ª edição. Trad. J. Constantino Kairalla Riemma. São Paulo: Pensamento, 1993. Cap. 21, pp. 126-130.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Problemas que resultam na localização da Espiritualidade na Psique (Por Rama Coomaraswamy)

"Assim como meu corpo sem minha Alma é uma carcaça, também minha Alma sem Teu Espírito, é um caos, uma pilha obscura de faculdades vazias: ignorante de si mesmo, insensível a Tua bondade, cego para Tua glória: morto em pecados e transgressões. Tendo olhos, não vejo, tendo ouvidos, não ouço."
       Thomas Traherne, Centuries 93

"O Subconsciente, não o intelecto, é o órgão através do qual o Homem vive sua vida espiritual. É a fonte de poesia, música e artes visuais, e o canal do qual a Alma está em comunhão com Deus."
        Arnold Toynbee, A Study of History
"Se considerarmos cuidadosamente a alma humana em sua natureza, veremos duas regiões: uma pertencente à ordem sensível, e outra à ordem suprassensível ou intelectual. A parte sensível da alma é comum aos homens e animais; inclui os sentidos externos e internos que compõem a imaginação, a memória sensível, os apetites sensíveis, daí aflora as várias paixões ou emoções que chamamos de amor sensível e ódio, desejo e aversão, alegria sensível e tristeza, esperança e desespero , audácia, medo e raiva. Toda esta vida sensível existe no animal, mesmo se suas paixões são suaves como as das pombas ou cordeiro, ou se são fortes como as do lobo ou boi. Acima dessa parte sensível, comum a homens e animais, nossa natureza possui uma parte intelectual que é comum aos homens e aos anjos, embora seja muito mais vigorosa e bela nos anjos. Por esta parte intelectual nossas almas enxerga acima do corpo e por isso dizemos que a alma é espiritual. A verdadeira inteligência que sozinha merece o nome de "intelecto não qualificado", é uma faculdade que, se não estiver prejudicada devido a insubordinação das faculdades mais inferiores, suas servas fixadas, voará diretamente ao alvo. Ela não pensa. Ela vê. O catalisador desse poder para ver, que todo mundo carrega dentro de si mesmo, mesmo estando ou não ciente, é o objetivo do método espiritual em cada homem."
       Marco Pallis, correspondência privada 

Equívocos modernistas da Espiritualidade

Na passagem citada acima, Arnold Toynbee, claramente delineia as atitudes predominantes e convicções sobre a natureza da "espiritualidade". Esta opinião, porém, é uma distorção grosseira, cujas consequências estão repletas de perigos para aqueles que legitimamente procuram as coisas "elevadas" da vida. Nossa psique, que inclui não só nosso subconsciente, mas também os nossos egos e nossos processos de pensamento, é notoriamente instável pois o que pensamos ou sentimos em um determinado momento pode facilmente mudar. Além disso, ela não consegue abraçar a totalidade do que somos enquanto seres humanos. Que a espiritualidade tenha sua fundação em tais "areias movediças" desmente sua própria natureza intrínseca, pois a espiritualidade, se for verdadeira e real, deve estar fundamentada em um terreno mais sólido. Ao mesmo tempo, a visão moderna ignora o que é mais central em nossa natureza enquanto seres humanos feitos à imagem de Deus. É quase inevitável, assim, que a espiritualidade se divorcie da religião, da verdadeira intelectualidade, da razão, e até mesmo do senso comum; assim, consequentemente, alguns cultos dos mais bizarros, infelizmente, se caracterizam como religião.

Uma das razões para essa visão é que atualmente existe uma confusão considerável entre "religiões" e "sistemas de crenças". De fato, há uma tentativa por parte de alguns acadêmicos em reduzir todas as religiões em sistema de crenças, argumentando que as religiões são meros sistemas de crenças que de alguma forma foram "escolhidas" e se tornaram aceitas por um grande número de pessoas e, assim, tornaram-se religiões estabelecidas.  Mas é necessário fazer uma distinção, pois as religiões genuínas são baseadas em revelações que proporcionam um credo fixo, um código e um culto que é independente de qualquer pensamento individual ou sentimento, por outro lado os sistemas de crenças não são baseados em revelações e estão inevitavelmente sujeitos a opiniões humanas. Reconhece-se, naturalmente, que muitos fundadores de seitas modernas baseiam-se parcialmente sobre o que poderia ser denominado "revelação" - aceitando o que eles gostam e rejeitando o que eles acham ofensivo - e que quase todos alegam ser inspirados pelo "Espírito Santo". Mas permanece o fato de que todas elas são baseadas em parte, se não completamente, no pensamento e na compreensão de uma pessoa humana. O problema é que tais pensamentos e sensações residem na psique e assim sujeitos a ilusão, um problema que só pode ser evitado através da adesão de uma fonte externa fixa. Infelizmente, hoje, muitos representantes de religiões tradicionais, atacam os fundamentos revelados de sua fé em uma tentativa de acomodá-la aos valores do mundo moderno, o que na prática reduz ao mesmo nível que outros sistemas de crença.

Se se concorda que a maioria dos nossos sistemas de crenças são baseados em sentimentos e pensamentos - todas as propriedades que, como será mostrado, se localizam dentro do plano da psique -, conclui-se que se torna impossível criticar qualquer sistema de crença. Como a psique e os pensamentos de cada pessoa pode ser dito ter igual valor, segue-se que todas as religiões e sistemas de crenças têm o mesmo valor - porque a verdade ou crenças de qualquer um - desde que não criem problema uns para os outros - tornam-se aceitável. Dessa forma, afirmar que qualquer culto ou religião é falsa, seria um ato de presunção. Além disso, pensa-se que este tipo de perspectiva exclusiva tem levado a conflitos e guerras, tudo em nome de Deus, e, portanto, tais atitudes devem ser evitadas. (Deve-se notar, porém, que, como São Paulo disse: "nossos desejos e nossa ganância", que são as causas da guerras, e por mais que gostemos de ceder em nome de deuses ou de ideais, estes continuam a ser os causa raiz dos conflitos.) Na ordem prática, "qualquer coisa que funcione" para um indivíduo é considerado aceitável. E, de fato, os psiquiatras estão reconhecendo que a religião tem seus usos práticos como um meio de ajudar as pessoas a enfrentar os problemas da vida, e, ao assegurar uma crença na vida após a morte, ajudam a lidar com morte. [1]

Muitas pessoas preferem se descrever como "não-crentes", mas nunca na verdade conheci um "não-crente". A maioria das pessoas acreditam, por exemplo, na evolução e que eles próprios são produto de uma evolução em curso que os torna mais inteligentes que os seus antepassados. Eles acreditam no progresso inevitável da humanidade em direção a uma humanidade unida que será Socialista em sua organização. Eles admitem que as coisas ainda não são perfeitas, mas com a ajuda da ciência tais defeitos podem ser corrigidos. Em essência, estão sinceramente convencidos na perfectibilidade do mundo, e acima de tudo do homem. Esta evolução da "visão" secular foi bem descrita na obra de HG Wells, Um Esboço da História, da década de 1920, que substitui claramente o princípio da Gloria Dei - Glória de Deus - com o princípio da Homo Mensura - homem como a medida de todas as coisas. Muitas ideias do homem moderno não podem ser claramente pensadas ou formuladas, embora o mesmo pode ser dito dos sistemas de crenças de muitas pessoas exteriormente tradicionais que aceitam sem pensar muito.

Por trás dessa confusão há uma certa "auto-imagem" do que nós somos enquanto seres humanos. É fácil para os filósofos especificarem a origem desta auto-imagem, mas a maioria das pessoas não leem filosofia ou nem mesmo pensam sobre a natureza do homem. No entanto, é útil ter uma ideia do fundo filosófico envolvido. De certa forma pode-se traçar essa auto-imagem de volta à queda de Adão, mas, mais imediatamente, podemos começar com Descartes. A partir de Descartes, aprendemos que toda a realidade é abrangida e limitada por aquilo que ele chamou de res extensa (basicamente, aquilo que tem extensão e, portanto, o que pode ser medido) e res cogitans (ou o que se pode pensar). Tais ideias levou algum tempo para permear a sociedade, mas a partir de meados de 1800, esse dualismo cartesiano tem sido a base filosófica do esforço científico, bem como uma grande influência sobre todos os ramos da academia e da ordem política e social.

Nossa auto-imagem baseada na visão de mundo cartesiana é muito diferente da visão de mundo tradicional. Devido nossas convicções sobre o progresso e evolução temos nos cegado para outras possibilidades. As opiniões dos nossos antepassados tradicionais podem até ser estudadas como parte de uma pesquisa histórica - geralmente de forma distorcida - mas raramente são seriamente consideradas como soluções para nossos problemas modernos. Isso seria uma tolice, como a tentativa de reverter os ponteiros do relógio. E por isso é que nós permanecemos presos a nossa auto-imagem moderna e teimosamente recusamos qualquer outra alternativa. Pode nos surpreender saber que nossa auto-imagem moderna não é exatamente nova. Por exemplo, Boécio, no século V, comentou que aqueles que pensam que o homem só é um animal que raciocina se esqueceram o que eles são. Seja como for, deixe-nos por um momento considerar o ponto de vista mais tradicional ("tradicional" no sentido de "transmitido") do homem.

A visão tradicional distingue três aspectos do homem: Espírito, Psique (que inclui nossos processos de pensamento habituais), e o Corpo. A tabela a seguir descreve estes em várias culturas:




Deve-se acrescentar que Espírito na terminologia Hindu e Budista é referido como Atman; em Egípcio como Amon, na tradição Judaica como Ruah [2], e na Chinesa como Ch'i (Tai Ch'i ou Wu Ch'i para evitar o significado limitado de Ch'i nas artes marciais). Mais uma vez, os teólogos e os médicos medievais distinguiam entre Animus vel Intellectus (o alicerce espiritual do homem) e Anima (a psique, incluindo a mente ou os processos mentais). É lamentável que o termo "alma" é atualmente usado indistintamente tanto para Animus e Anima, mas talvez seja inevitável, uma vez que muitos teólogos contemporâneos percebem o mundo em termos Cartesianos. [3]

Embora as psicologias tradicionais comumente falam de uma antropologia tripartite, a Psique e Corpo são frequentemente classificados em conjunto como o "eu" ou "ego" inferior. Assim temos São Tomás de Aquino ensinando "duo sunt em homine" ("há dois no homem") e São Paulo fala sobre a lei de seus membros se oporem à lei de sua mente (Rom. 7 : 23) [4]. Neste esquema, a Psique e o Corpo são conceitualmente fundidos por duas razões. Primeiro, o corpo em si não tem força diretiva. É preciso algum "poder" elevado como a Psique para dirigi-lo, ou pelo menos para ir junto. E, segundo, ambos Psique e Corpo carecem de permanência ou consistência na medida em que eles estão sempre em fluxo, ou num estado de que os teólogos chamam de "devir". Observe que as psicologias tradicionais igualam o eu inferior com o "ego". Os teólogos usam o termo "ego" em um sentido ligeiramente diferente dos psicólogos freudianos. Ambos os grupos concordam que o autocentramento (que, quando em excesso, é denominado pelos psicólogos "narcisismo maligno") reside no ego. Mas, enquanto o psicólogo fala em termos de forças do "ego", o teólogo vê a egocentrismo como equivalente ao orgulho e procura controlar ou converter este eu inferior na aceitação da direção do Espírito. A sua recusa em fazê-lo torna o indivíduo "ego-centrado". Em tal estado, o eu inferior ou o ego está em conflito com o Espírito, e, portanto, muitas pessoas estão "em guerra com si mesmos." O ego reside no plano da Psique (pois claramente não é nem o Corpo nem o Espírito), e é em si mesmo uma entidade muito nebulosa. Ele é "nada além de um nome que, na verdade, é só uma sequência de comportamentos observados". Ou ainda, nas palavras de Albert Ellis: "este "Eu" é um processo em curso, em constante mudança." No entanto, a Psique (incluindo nossos pensamentos e como vemos nós mesmos), é em grande medida organizada em torno de nossos egos. É sua própria instabilidade que faz com que esse eu inferior seja sujeito ao esforço psiquiátrico.

Em oposição a esse "eu" inferior e potencialmente instável (o eu ou "eus" que os psiquiatras e psicólogos lidam e tentam modificar [5]), as psicologias tradicionais afirmam que o homem também possui um Si mais elevado ou interior. Esse Si interior, muitas vezes distinguido pelo uso do S maiúsculo, possui vários nomes, alguns dos quais já citados acima. Ele é tido como "divino", e é descrito como a "habitação do Espírito Santo", o Synteresis dos Escolásticos, a "fonte de muitos fôlegos" ou Atman dos Hindus, o Ruh dos Árabes, a "Alma da alma" de Philo, o "Homem Interior" de Platão, entre outros exemplos. A perspectiva tradicional pressupõe, ainda, que a pessoa média está "em guerra consigo mesmo", precisamente porque estes dois eus (o "eu" instável / "ego" e o superior "Si" / "Espírito") estão em conflito, e a verdadeira sanidade ou totalidade é, em última instância, encontrada somente no santo cujos dois eus são "um" - estado em que pode-se dizer que o "cordeiro e o leão" deitam-se juntos. Assim Sócrates orou: "que o meu homem exterior e o interior sejam um só". São Tomás de Aquino nos diz que a tranquilidade e a felicidade só pode decorrer de uma vida ordenada, o que significa que o Espírito, Psique e Corpo devem estar ordenados corretamente - qualquer desvio da hierarquia seria um pecado. É nesse sentido que falamos em controlar a si mesmo, e por isso repreendemos o perturbado para "tomar posse de si". É também neste sentido que podemos falar de algumas doenças mentais como uma "des-ordem". [6]

No plano prático, é claro que se pode centralizar a vida no Corpo, na Psique ou no Espírito. O último exige de nós não "como gostamos", mas "como deveríamos." Do ponto de vista metafísico, escolher centrar nossas vidas em nossa psique é atribuir a nós mesmos a propriedade de discernir o que é verdadeiro e falso - e como afirmam os Judeus, tornar-se a fonte da verdade é a maior forma de idolatria. É declarar que "não vai servir", que somos deuses em nós mesmos, uma condição que, em última análise, não é nada mais que o orgulho.

Muitos sistemas de crenças New Age declaram que somos deuses em nós mesmos. [7] E mesmo aqueles que declaram que irão decidir por si mesmo o que é verdade estão inconscientemente sendo "deuses em si mesmos". É importante entender em que sentido as religiões tradicionais encara a habitação do Deus no homem. Santa Teresa de Ávila nos diz:
Muitas vezes, é da maior importância que você entenda esta verdade, ou seja, que Deus habita dentro de você e que devemos habitar Nele... Não imaginemos que o interior do nosso coração é vazio... E para compreender como Deus está sempre presente em nossa alma, vamos ouvir São João da Cruz, um outro mestre diferenciado da ciência dos santos: "A fim de saber como encontrar esse Esposo, nós devemos ter em mente que o Verbo, o Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, está escondido em essência e está presente no mais íntimo ser da alma... É por isso que Santo Agostinho, falando com Deus, diz: "Eu não Ti encontrei fora, Ó Senhor, porque eu não tinha direito de te buscar lá, pois Tu está no interior.' Deus está, portanto, dentro da alma." (Cântico Espiritual, Stanza I)." [8]
Santa Teresa cita São João da Cruz com mais detalhe, onde expõe sua visão que Deus pode estar presente na alma de três maneiras diferentes:

"Para explicar isso, deve-se observar que existem três maneiras em que Deus está presente na alma. A primeira é a Sua presença em essência, e a este respeito Ele habita não apenas nas almas que são boas e santas, mas igualmente naquelas que são más e pecadoras, e de fato, em todas as criaturas, pois é esta presença que lhes dá vida e ser, e se fosse retirada, deixariam de existir e retornariam ao seu nada de original. Esse tipo de presença nunca deixa a alma. A segunda forma de presença de Deus é pela graça, quando Ele habita na alma satisfeita. Esta presença de Deus não está em todas as almas porque aquelas que cometem um pecado mortal perde-a. O terceiro tipo de presença de Deus é por meio da afeição espiritual; pois Deus mostra Sua presença em muitas almas piedosas em diversas formas de gozo, alegria e júbilo."

Santa Teresa comenta da seguinte forma:

"Do primeiro tipo de presença nós nunca podemos ser privados. A segunda devemos adquirir para nós mesmos com todas as nossas potências da alma, e devemos guardá-la a qualquer custo. A terceira não está em nosso poder. Deus dá a quem lhe agrada." 
Dizer que Deus habita dentro de cada um de nós não é panteísmo. Na verdade, o panteísmo é um conceito bastante moderno, pois, as outras sociedades que dão muitos nomes para várias manifestações de Deus, nunca, ao nosso conhecimento, negaram a unidade de Deus. Então, o que é panteísmo? [9] É a ideia que Deus está em tudo e tudo está em Deus - e como tal, não há nenhuma exigência nem para adorá-Lo, nem para estar em conformidade com Seus mandamentos. Uma coisa é proclamar a imanência de Deus em toda criação - pois claramente ele é imanente em todas as coisas - outra bem diferente é negar a Sua transcendência. Ambas são realidades. Transcendência sem imanência nos isola do Divino, Imanência sem transcendência corta o Divino de nós. Tanto a transcendência quanto a imanência devem andar juntas por causa da dualidade "Princípio e Manifestação". Enquanto o Princípio Supremo, em si, não é nem transcendente nem imanente, mas "Aquilo que É", a partir da perspectiva do plano de manifestação, deve então existir um Criador transcendente, e a criação resultante precisa ser abraçada por uma imanência para sua própria existência. E ambos - transcendência e imanência - se unem na teofania no Logos - o conceito tradicional do Homem-Deus. Do nosso ponto de vista humano, pode-se dizer que a transcendência aniquila a manifestação, enquanto imanência enobrece-a. Segundo a tradição, por um lado, a transcendência reduz o homem a "pecador" e "escravo", e, por outro lado, a imanência eleva o status do homem para "filho de Deus" e seu "representante" na terra. Esses dois pode-se dizer que se reúnem no Homem-Deus; porque, se, por um lado, "só Deus é bom", por outro, "Quem me vê, vê o Pai". [10]

Aqueles que reconhecem a habitação do Espírito Santo reconhecerá imediatamente que a Verdade, a Justiça e uma série de outros valores, não podem depender de nossos sentimentos ou até mesmo de nossos pensamentos. Tem que haver alguma fonte externa e objetiva para os critérios ao qual nos podemos recorrer, ou para os quais os pensamentos possam se conformar. Isto pode ser resultado da imanência que nos referimos acima, ou baseados em princípios transcendentes. Apesar de todas as teorias sobre o super-ego, os pacientes, e cada um de nós, muitas vezes "sabemos" quando estamos fazendo algo errado. Como mencionado anteriormente, temos um intellectus vel spiritus (não confundir com o sentido comumente entendido do intelecto como mero sinônimo para o pensamento raciocinado) que pode direcionar nossos pensamentos e vontade. O problema é que quando alguém se baseia na "imanência", se corre o risco de erro, pois, o Intellectus pode ser distorcido, ou, na famosa terminologia de São Paulo "vemos através de um vidro escurecido." Antes da Queda, Adão "andava e falava a com Deus." Seu intelecto tinha uma visão clara e uma compreensão da Verdade e da Realidade. Depois da Queda sua desobediência e obstinação nublou seu intelecto, levando a sua expulsão do Paraíso. Adão, originalmente feito à "imagem e semelhança" de Deus, perdeu essa semelhança e é nossa tarefa recupera-la. Nossos intelectos, mesmo sendo capazes de apreender a Verdade e a Realidade, estão distorcidos por nossas paixões e opiniões pessoais. Daí segue-se que, ao contrário de Adão, que antes da Queda tinha uma imediação experimental à Deus, nós - a humanidade depois da Queda - precisamos de uma Revelação que nos forneça uma fonte clara da Verdade, uma direção e um acesso à transcendência.

Freud descobriu que os pacientes, de fato, possuíam um senso de certo e errado. Sendo um Cartesiano convicto, o que excluía a possibilidade de permitir um "supra-consciente", Freud teve de encontrar a fonte para esse sentido no que ele chamou de "super-ego" que relacionou com o subconsciente e com o ego - formado, em sua opinião, por pressões sociais e parentais. Admitindo-se que nossa moralidade é muito influenciada pela família e pela sociedade, mas também se baseia em princípios externos - algo negado Freud filosoficamente - se fez necessário o desenvolvimento de sua teoria do super-ego. Jung reconheceu a existência de Deus, mas, em seguida, postulou que Deus e os vários "arquétipos" estavam todos enraizados no subconsciente. Nós estamos de várias maneiras aprisionados em uma psicologia baseada em princípios cartesianos e, embora às vezes possamos usar nossa faculdade inata, o Intellectus, na ordem prática negamos sua existência.

Anteriormente fizemos uma distinção entre uma "religião" e um "sistema de crença"; uma religião está baseada na revelação, num código, culto e crença que é fixo e externos ao indivíduo. De fato, o dicionário Webster define a religião como uma "adoração de Deus ... expressa na adoração formal em obediência aos mandamentos divinos ...". Um "sistema de crença", ao contrário, é baseado naquilo que um indivíduo pensa que é digno de crença, e muitas vezes é aceito porque o "inconsciente coletivo" da sociedade vigente considera aceitável. Como mencionado acima, há uma tendência entre os estudiosos a considerar verdadeiras religiões como "sistemas de crenças" popularmente estabelecidos, mas dessa forma não se reconhece a natureza das verdadeiras religiões. [11]

Submeter o homem à necessidade de obediência aos mandamentos divinos imediatamente desperta os protestos daqueles que declaram que a mente individual deve ser livre e não sujeito a alguma autoridade externa. Esses que protestam insistem que todas as questões estão sujeitas à mente humana e essa é livre para decidir todas as coisas por si só. E isso é compreensível para alguém cuja toda perspectiva é baseada no dualismo cartesiano de corpo e mente. Se esses são os únicos componentes do homem, então, de fato, o protesto pode ser válido, pois a mente e o corpo de qualquer indivíduo não tem mais autoridade que a de qualquer outro. [12]

Essa tendência de colocar não só o bem, mas também o mal dentro do plano da Psique tem sido cada vez mais aceita na esfera pública. Como resultado, raramente se ouve falar em mal, pois o mal implica em uma escolha que o reducionismo evolutivo nega em grande medida. O mal é visto como o resultado final de traumas de infância ou pressões sociais. O fato de que o homem é dotado de um Intelecto (para saber a verdade e o que é certo e errado) e uma Vontade (pela qual ele pode escolher entre o certo e o errado) é quase esquecido. Os sistemas de crenças com base na psique raramente dispõem de uma moral fixa que permita enfrentar essas realidades. Na verdade, nossos códigos morais são, em grande medida, baseados na opinião pública que, naturalmente, pode ser facilmente manipulada.

Um resultado direto da perspectiva cartesiana que coloca os valores e a espiritualidade no plano da Psique é que nós já não temos um fundamento para a moralidade. Tendo atuado em comitês de ética em hospitais, é claro para nós que as decisões são tomadas por voto, não por princípio. Isto não é negar que os envolvidos não fazem o seu melhor voto de acordo com sua consciência, mas apenas dizer que a consciência de qualquer pessoa é tão boa ou má quanto a do seu vizinho. Mais recentemente, a Universidade de Princeton, contratou o Dr. Singer que tem desenvolvido novos critérios para decidir sobre a vida e a morte de crianças, ou seja, determinar se são "sencientes." Nós esquecemos que critérios semelhantes foram usados pelos nazistas para massacrar esquizofrênicos e outros em hospitais psiquiátricos?

Outro grande problema que resulta da perspectiva cartesiana é uma falsa espiritualidade, uma espiritualidade baseada mais no sentimento do que em princípios, uma espiritualidade fundamentada na psique ao invés do Espírito. Muitas pessoas, conscientes do fato de que o materialismo crasso é insuficiente para satisfazer certa fome interior, procuram por algo "espiritual" em suas vidas. Onde procurar? A tendência é a busca por uma resposta no plano da psique, e não no Espírito, cuja existência é negada. [13] Eles se voltam para a música, para a arte, ou uma série de outros interesses como a ecologia, o ecumenismo e o governo mundial, muitos dos quais eles rotulam como se possuíssem sua origem no "espírito", mas que no longo prazo não satisfazem sua fome por algo real. E aqueles que os guiam - muitas vezes por um preço elevado - estão felizes mantendo a busca sequestrada deles no plano da Psique. Religião tornou-se uma coleção de clichês desanimadores e sentimentais, mais preocupados com as questões sociais do que com a Verdade. Nossos porta-vozes religiosos não são mais confiáveis e respeitados, pois eles também, apesar do fingimento, são cartesianos.

A Psique nunca pode ser sinônimo do Espírito. A Psique é um nível de ser baseado na polaridade sujeito / objeto, onde a experiência "objetiva" é condicionada pela "subjetividade" do experimentador. O Espírito ou Intelecto, por outro lado, transcende essa polaridade. Podemos descrevê-lo como perfeitamente Objetivo, uma vez que é o que é, estando eu ciente ou não, se aceito ou não aceito. O Absoluto é como um "raio" Divino interceptando a alma humana, e como tal, é o testemunho supremo de tudo o que está acontecendo, tanto no plano do Espírito como na Psique. O importante é que ele transcende a própria subjetividade individual, pois nós sempre tendemos a ver "através de um vidro escurecido".

Colocar espiritualidade na Psique tem muitas outras consequências. Não só a nossa moralidade é completamente submetida à opinião pública; os pacientes moribundos são apoiados em terapias de grupos com base nos mesmos princípios - por exemplo, eles são ensinados e incentivados a participar de auto-hipnoses que permite condenar suas almas em complacência. Mais uma vez, vários métodos de "meditação" e "yoga" são ensinados e igualmente permitem a auto-hipnose, e não raro deixam a alma aberta à invasão de influências negativas. Embora pouco se fale, sabe-se que aqueles envolvidos podem, por vezes, ter sérios problemas psiquiátricos. A abertura da Psique a influências externas, natureza que é mal compreendida, é sempre um grande perigo (e é claramente proibida por todas religiões) pois há forças malignas tanto dentro como fora de nós, contra as quais, a Psique em isolamento, tem defesas fraquíssimas. [14]

Outro problema resultante é que a religião é vista como algo que deve ser estudado psicologicamente, o que é, de fato, uma inversão, uma vez que o elevado sempre deve delinear o mais baixo. Esta atitude abarca uma variedade de maneiras. Assim, por exemplo, o Dr. Hans Naegeli Osjord explica:

"A psicologia moderna e a psiquiatria coloca qualquer esforço de exorcismo em categorias de persuasão, ou seja, o envio de uma (contra-) opinião para convencer o paciente; uma sugestão, uma influencia direta de emoção e imaginação do paciente, e auto-sugestão; mudança de opinião e percepção aceitada por uma parte essencial da personalidade." [15]

Ou ainda, Delacroix, com base em suas próprias investigações de Santa Teresa, Madame Guyon, São Francisco de Sales, São João da Cruz e Heinrich Suso, conclui que o místico possui uma aptidão peculiar que é fundamentada em uma extraordinária vida do subconsciente: 

"Embora, sem dúvida, sujeito a processos fisiológicos e psicológicos excepcionais e inevitáveis, incluindo automatismos e intuições do eu subconsciente, o místico utiliza-os para um fim especial: a transformação total da personalidade." [16]

Embora este autor - muito reconhecido - escreveu isso em 1908, essa atitude ainda é generalizada, e está no pensamento de muitos psicólogos e clérigos.[17]

Algo semelhante é o fenômeno atual do uso de várias formas de meditação para supostos benefícios psico-físicos. Que tais benefícios estão associados com práticas espirituais é óbvio, mas divorciar tais práticas da finalidade para as quais foram destinadas se corre o risco de criar problemas graves. O uso de mantras, que possui significados desconhecidos para o indivíduo (e que às vezes são escolhidos pelo computador!), fez com que alguns praticantes de "TM" fossem hospitalizados em estados psicóticos. O uso de Yoga por razões de saúde pode trazer algum benefício, mas também nem sempre é benigna. Yoga, que deriva de uma etimologia que significa "laço" ou "união", em última análise, visa a união com Deus, e na Índia nunca iria ser praticada sem um diretor espiritual qualificado. Práticas que envolvam o "esvaziamento" da mente sem essa orientação permite a auto-hipnose e a possível invasão de forças inferiores.

Estes problemas estão longe de ser limitados ao mundo ocidental. Considere o caso de Sai Baba, que diz ter 20 milhões de seguidores hindus, assim como muitos discípulos ocidentais, e que nos diz que ele é a reencarnação de um santo Sai Baba que viveu cerca de 100 anos atrás. Sua firme crença na reencarnação afasta-o da doutrina hindu ortodoxa e é uma característica da crença Espírita.[18]

Além disso, Sai Baba executa truques mágicos que são tidos por milagres, como se um santo fosse realizar milagres simplesmente para impressionar seus seguidores. Ele mantém vínculos com gurus da Nova Era na América os quais enviam seus discípulos. Ele também é acusado de ser homossexual ativo, embora isto seja negado.[19] Ou ainda, considere o Ashram de Sri Aurobindo, onde a oração é proibida, e onde muitos das mais conhecidas "luzes" da Nova Era da Califórnia têm suas raízes - para não falar do fato de que padres católicos como o padre Bede Griffith tem tentado misturar suas crenças com os gurus. Ou ainda, considerare os inúmeros "gurus" que vagueiam pelo mundo ensinando princípios espíritas e alegando que estes tem origem vedântica. [20] É importante entender que estamos de fato enfrentando uma subversão a nível mundial. 

O espiritismo é, de fato, um excelente exemplo de "religião falsa". Nós rotulamos como "falsa" não porque pessoalmente negamos seus pilares, mas porque não se baseiam em qualquer princípio imanente ou transcendente, mas apenas sobre o que foi encontrado na Psique de certos indivíduos. Deve ficar claro que os espíritas - e, na verdade, a maioria dos cultos modernos que passam por religiões - não baseiam suas crenças em qualquer corpo de doutrina e isso é impossível no âmbito de suas raízes. Esta falta de estabilidade de credo é uma das marcas da religião não-revelada. A fé, em vez de ser definida como uma doutrina tradicional baseada nos ensinamentos de uma Revelação, é reduzida a qualquer sensação calorosa. Um recente ensaio no New York Times (20 de Maio de 2000) assinala que "as fronteiras que separam denominações há tempos tem sido desfocada por muitos Protestantes que dizem que ser Metodistas ou Presbiterianos ou Batistas não realmente importa para eles, ou, na verdade, eles não tem certeza do que isso significa." O artigo ainda comenta que isto "não é realmente surpreendente ... as denominações baseavam-se, afinal, em distinções de classe social, região, etnia e raça, juntamente com (talvez ainda mais) as distinções de doutrina, prática e política ... a mobilidade, a educação, casamentos mistos e a cultura transmitida por meios de comunicação de entretenimento e publicidade têm feito as suas vítimas sobre essas diferenças." Infelizmente, a Igreja Católica está a aderir esta tendência em seu desejo de unir-se com os vários grupos protestantes. Como no caso do Vaticano II que prevê e exige que as diferenças de credo sejam suprimidas quando não abolidas. Paralelamente a essa mudança de atitude está uma tendência de fazer da religião uma questão de sentimento. Vê-se isso particularmente nos vários movimentos carismáticos e ecumênicos que evitam distinções doutrinais e são claramente construídas sobre um emocionalismo.

Tudo isso pode ser delineado considerando as perspectivas pós modernistas da religião. Em essência, essa perspectiva é a seguinte: (1) Não há verdade objetiva, portanto, (2) a realidade não é percebida, mas sim construída por padrões inerentes de percepção, ou pela história, ou pela sociedade e linguagem, ou pelo indivíduo. Segue-se que (3) todas as tentativas de criar visões de mundo amplas que transcendem a história, ou a sociedade, ou mesmo (em última instância) o indivíduo, são opressivas. Portanto, (4) todas essas visões de mundo arbitrariamente construídas devem ser desconstruídas, a fim de celebrar a diversidade e preservar os direitos das construções da realidade de minorias marginalizadas que, é claro, já que também são construídas, também devem ser desconstruídas. Tudo isso para a preservação dos direitos das minorias. O pós-modernismo termina inevitavelmente em desconstrutivismo, e o desconstrutivismo termina (esperançosamente) na desconstrução do desconstrutivismo.


Um exame mais aprofundado do Espiritismo


A maioria dos indivíduos tem um desejo pela verdade. Esta sede não pode ser descartada como uma aberração psicológica. Como Aristóteles disse: "Todos homens desejam saber." No mundo científico que somos produtos, a ideia da imortalidade é muito ridicularizada, e assim essa busca por algo real frequentemente toma forma de ter o conhecimento do que acontece após a morte. Não há, porém, perigo maior do que buscar a Verdade dentro do plano da Psique. A razão disto é que a Psique carece de estabilidade dentro de qualquer indivíduo e está sujeita às várias paixões. Mas, uma vez que se rejeita a possibilidade de algo mais elevado no homem, além de seus sentimentos e processos de pensamento, onde mais se pode buscar? É aqui que muitos caem em um poço sem fundo. É pouco conhecido até que medida os psiquiatras tem explorado o mundo da Psique na busca de uma maior compreensão - um entendimento que só pode ser derivado do Espírito de Deus. Assim, por exemplo, Sonu Shamdasani em sua introdução do livro "From India to the Planet Mars" de Theodore Flournoy nos diz:

"No final do século XIX, muitos dos principais psicólogos - Freud, Jung, Ferenczi, Bleuler, James, Myers, Janet, Bergson, Stanley Hall, Schrenck-Notzing, Moll, Dessoir, Richet, e Flournoy - frequentaram médiuns. É difícil hoje imaginar que algumas das questões mais cruciais da "nova" psicologia foram disputadas em sessões espíritas, nem como tais homens puderam se fascinar pelos espíritos. O que aconteceu nas sessões encantou as principais mentes do tempo, e teve uma influência crucial sobre muitos dos aspectos mais significativos da psicologia do século XX, linguística, filosofia, psicanálise, literatura e pintura." [21]
Durante o período posterior, a participação de psiquiatras em estudos espiritualistas ou espíritas, variou entre aqueles que, como Freud, estavam comprometidos com um ponto de vista mais ou menos inteiramente materialista, e aqueles que, como Jung (como Dr. Richard Noll demonstrou) tornaram-se profundamente envolvidos com o mundo dos espíritos.[22] Esta dicotomia permanece, ainda hoje, dentro da psiquiatria moderna, com "autoridades" como Kubler-Ross, cuja influência sobre tanatologia ou o tratamento e a assistência de morte é difundida. Kubler-Ross, uma espírita convicta, se comunica com os espíritos dos mortos e encoraja aqueles que enfrentam a morte que se alegrem, pois eles também serão capazes de continuar a viver de outra forma enquanto esperam para reencarnarem novamente na terra. Antes que se pense que este indivíduo representa um aspecto "marginal" na psiquiatria moderna, eu disponho dos comentários do Dr. Robert Gibsion em 1976 que no ano seguinte tornou-se o presidente da Associação Psiquiátrica Americana: 
Eu conheço a Dra. Ross e não consigo encontrar palavras para expressar plenamente minha enorme admiração por suas contribuições para nossa compreensão dos estágios finais da vida. A sua investigação sobre a morte e morrer é notável. Ela terá valor duradouro para as próximas décadas.
Este mesmo indivíduo, autor de vários livros e muitos artigos, foi convidada a depor perante o Congresso sobre o assunto de tratamento de moribundos. Ela, juntamente com o Dr. Moody e outros, também se envolveram no estudo de experiências de "quase morte". Experiências de quase morte - que estão longe de serem sempre agradáveis - estão inteiramente dentro do domínio psíquico, como resulta do fato de que elas podem ser analisadas pela inteligência discursiva.

O que atraí na crença em "espíritos"? Para as pessoas criadas em um mundo materialista, ela oferece o conforto da imortalidade, no sentido de que a vida continua e não acaba quando morremos. Esta é também particularmente consoladora para aqueles que perderam entes queridos e foram deixados para trás. Ao mesmo tempo, essas crenças não fazem grandes exigências sobre a forma como se deve viver a própria vida, pois conceitos como o pecado e o mal são atenuados pelo fato de que os próprios espíritos estão evoluindo para estados cada vez mais elevados da existência. Essa busca de contato com os mortos é muito presente, bem ilustrado pelo Bispo Pike, que morreu no deserto israelense durante a tentativa de entrar em contato com seu filho recém-falecido.

Muitos protestarão que eles não são "Espíritas"; certamente há diferentes sistemas de crenças Espiritualistas que vão desde os Teosofistas, a Santoria, o Voodoo, os cultos New Age e reencanacionistas. O que todos esses tem em comum? É sua convicção que se pode comunicar com os mortos. Acredita-se que os "espíritos" dos mortos atuam na matéria e produzem fenômenos físicos, como batidas, ruídos e uma série de outros fenômenos paranormais. Estas ações são indiretas e exercidas por intermédio de uma pessoa viva que é chamada de "médium". [24] Sua concepção do ser humano é ternário e distinguem entre o "espírito" (não o Espírito de Deus, de fato, esse espírito nunca é bem definido), o "perispírito" (uma espécie de "aura", que alguns afirmam ver) e o corpo. Nada muda com a morte, exceto que o corpo desaparece. O próprio espírito permanece exatamente o mesmo que na vida, exceto que "desencarnado". Tal compreensão permite que ocorra comunicações. Esses "espíritos" podem ser descritos como "almas" mais evoluídas ou superiores , mas em todos os casos, é uma pessoa morta proporcionando a sabedoria ou o que se passa por sabedoria. Pode surpreender alguns por incluirmos reencarnacionistas dentro desta categoria, mas a maioria dos espíritas afirmam que os espíritos evoluem desde os estágios mais inferiores para os estágios mais elevados, e renascem neste mundo como parte de seu contínuo desenvolvimento e progresso.

Embora as casas assombradas têm estado conosco desde tempos imemoriais, parece que o Espiritismo se desenvolveu com as irmãs Fox que viviam em uma casa assombrada em Rochester, Nova York, uma casa em que um assassinato havia ocorrido e que no porão um esqueleto posteriormente foi encontrado. A família Fox defendeu publicamente a crença em "espíritos", e quando se depararam com oposição, os Quakers chegaram para dar apoio. [25] Na França, o impulso para o movimento foi dado com a publicação dos livros de Allan Kardec - cujos escritos até hoje fornece ao movimento Santoria sua base intelectual. Kardec, na verdade, era um indivíduo chamado Hippolyte Rivail que, sobre o "conselho dos espíritos", adotou o nom de plume Celta, Allen Kardec, e cujos escritos eram a produção de um grupo de Espíritas que quiseram manter o anonimato. 

Os espíritas acreditam que eles são ensinados pelos "espíritos" que estão em contato, e eles não hesitam em afirmar que esses ensinamentos são, de fato, uma "revelação". Se esta afirmação parece um pouco extrema, deve-se examinar as crenças teosóficas no "Mestres", que são espíritos evoluídos, e cujo ensinamento e direção é muito respeitada. Os espíritas até mesmo chegam ao ponto de afirmar que os fundadores de uma religião verdadeira (como o cristianismo) eram médiuns poderosos e videntes. Eles diminuem os milagres à medida que comparam com os fenômenos que são produzidos em suas sessões, profecias comparam com as mensagens que recebem e as curas do Evangelhos pelo que pode ser demonstrado pelos Carismáticos. Se algumas das mensagens recebidas são bastante banais, os Espíritas explicam afirmando que são de "espíritos inferiores" e até mesmo "espíritos desonestos", que são menos "evoluídos" e consideram os ensinamentos dos "superiores" ou mais evoluídos como mais pertinentes. No entanto, essas comunicações estão estreitamente relacionadas com o ambiente que foram formuladas, e de fato, se suspeita que a verdadeira fonte destas comunicações pode ser encontrada no subconsciente dos que estão presentes, e acima de tudo no subconsciente do médium. Assim, por exemplo, a reencarnação era aceitável na França e ao mesmo tempo foi bastante rejeitada pelos espíritas ingleses. Kardecismo (as obras de Allan Kardec), mantém traços de socialismo, uma vez que nasceu no meio socialista de 1848. Este ponto é importante, pois o Espiritismo era surpreendentemente aceitável em círculos comunistas pois pregava o Bolshevismo! [26]

Foi feita menção sobre Reencarnação que apareceu pela primeira vez em cena no meio do século 19. Antes disso era praticamente desconhecida. A Ma. Blavatsky adotou dos Espíritas franceses e trouxe para a Inglaterra como parte da Teosofia. Ela também introduziu ideias reencarnacionistas na Índia onde foi surpreendentemente aceitável, especialmente entre os ingleses mais educados. Deve ficar claro que nenhuma religião ortodoxa ensina tal doutrina, embora haja passagens tanto na Escritura como em outras religiões que podem ter uma interpretação reencarnacionista. O que é extraordinário é que ambos espíritas e os reencarnacionistas consideram que o que sobrevive é a individualidade do falecido. Se considera que se perde o corpo físico, e depois o corpo astral (semelhante ao perispírito), mas se mantém sua individualidade e, se renascer, mantém-se a mesma individualidade; supõe-se ainda um outro corpo no qual se evoluirá ainda mais. Em lugar algum fica claro qual é o fim de todo esse processo de evolução, mas o que está claro é que toda a ideia de céus e inferno é destruída. Uma vez que, neste "mundo astral" não há espaço para demônios ou espíritos malignos, pois não há nada neste mundo intermediário, apenas seres humanos em vários estágios de evolução. [27]

Há, naturalmente, variados tipos de espíritas e reencarnacionistas. Alguns insistem que o mesmo gênero é mantido ao longo de várias reencarnações, enquanto outros negam isto e afirmam que o gênero é alternado em cada visita terrena. Alguns afirmam que os seres humanos reencarnam em outros planetas e Allan Kardec dizia que, após uma série de reencarnações terrenas, finalmente se alcançava uma reencarnação planetária. Os teósofos afirmam que apenas reencarnações terrestres são possíveis.

Mencionamos como difundidas as ideias espíritas são. Por exemplo, Anna Lea, fundadora do movimento Shaker, alegou estar em contato com "espíritos" que ajudavam-na. Os Mórmons também reivindicam contato com entidades fora deste mundo, nomeadamente, um anjo chamado Moroni. Eles acreditam, ainda, que quando morrerem, irão para um planeta especial e viverão em casas de vidro. O fundador do movimento Quaker tinha visões ou alucinações que hoje levaria-o para um hospital psiquiátrico. [28] Muitas seitas de feitiçaria se enquadram nesta categoria. [30] Um recente texto, intitulado Psicologia e Religião, publicado com a aprovação da Sociedade de Psiquiatria Americana, apesar de não promulgar abertamente ensinamentos espíritas, claramente coloca a "espiritualidade" no plano da Psique e repete todas as falsas noções que o homem primitivo desenvolveu suas ideias religiosas devido a seu medo das forças da natureza. As tentativas de definir a "espiritualidade" neste texto dá prova de tudo o que dissemos. E, claro, esta abordagem simplista deixa o caminho aberto para todas as outras aberrações. Verdadeiramente, o número de cultos oferecendo ou prometendo uma falsa espiritualidade é uma legião. [31]

Muitas dessas idéias se infiltraram na Igreja Católica, aproximando-a do nível de "espiritualidade" atual. Menção já foi feita dos carismáticos, onde a Glossolalia é tão altamente elogiada - esquecem do fato de que Glossolalia sempre foi considerada um sintoma de possessão diabólica. Também o Movimento dos Cursilhos, a Renovação e uma série de programas similares que mudam periodicamente de nomes. Colégios católicos estão ensinando "eneagramas" na mesma linha que Jung e Gurdjieff, para determinar personalidade e tipo de espiritualidade. Recentemente me deparei com um menino da cidade participando de um retiro católico que foi enviado para um índio americano, "Vision Quest" - três dias sozinho nas montanhas. Poderíamos dar inúmeros exemplos de situações semelhantes.

Um desdobramento importante dos movimentos espíritas é a intenção proposital dos indivíduos em fazer contatos com os Espíritos. Aqui deparamos com o problema da "canalização", isto é, convidar os espíritos para usar alguém como canal para que seus "ensinamentos" possam ser compartilhados com outras pessoas. Mas aqui não se trata de espíritos dos mortos, mas de qualquer espírito que estiver vagando no plano intermediário - como um "leão, buscando a quem possa tragar". Certamente, convidar esses "espíritos" para entrar na sua vida é o mesmo que convidar, não somente os mortos, mas os demônios (que são hábeis em se apresentar como "anjos de luz") para alma - para sua Psique e corpo, uma vez que os demônios, por definição, não podem atacar o Espírito de Deus que habita em nós. Não é à toa que todas as religiões reveladas proíbem tais atividades.

Dado o fato de que demônios existem, é claro que eles não podem atacar o Espírito. Mesmo que possam atacar o corpo em isolamento, é a alma inferior ou a Psique que é, por assim dizer, seu campo de brincadeiras. Embora a vontade continue a ser livre, eles podem, através da memória, da imaginação e da paixões, influenciar a vontade. Se alguém não possui as salvaguardas que uma cultura verdadeiramente religiosa fornece - o que seria chamado "sacramentos" no Cristianismo - e acima de tudo, se se nega a influência do Espírito e se coloca a Psique no ápice do ser, se está claramente aberto a qualquer influência que o diabo queira exercer. É claro, então, que nossas crenças filosóficas inevitavelmente colorem nossas opiniões sobre religiões. Nossa crença de que o homem não passa de um animal racional que tem evoluído ao longo dos séculos até seu presente estado elevado; nossa crença de que, sendo mais inteligentes que nossos antepassados, não podemos recorrer a eles pela sabedoria, mas somente recorrer para algum futuro perfeito onde a perfeição do homem será completa; nossa crença que não há nada no homem que supere sua Psique e seu processo de pensamento; tudo isso nos obriga a colocar o Espiritual no plano da Psique, e exclui a possibilidade de nosso olhar para além desses horizontes limitados. [32] Não é que tudo na Psique seja ruim, mas que não pode existir uma humanidade integral que não leve em consideração o homem por completo. Os Judeus ensinavam que a pior forma de idolatria é assumir a si o direito de determinar o que é verdadeiro e falso. Isto, de fato, ocasionou a queda de Adão e não é nada diferente daquele orgulho e egoísmo que remove o divino pelo humano. O resultado final é que muito dos que tem sede pelo que é real são conduzidos para o poço escuro da Psique - bem descrita tanto pela psicanálise e por escritores espirituais - nunca encontrando sua saída. "Pelos seus frutos os conhecereis." O homem moderno perdeu todas as salvaguardas que outrora eram fornecidas pela religião contra a ilusão espiritual, e não somente se emaranha em uma variedade de seitas que vão desde as benigna até as diabólicas, mas, na verdade, sucumbe a tornar-se um canal para influências inferiores - lembrando que o demônio pode aparecer como um anjo de luz. Mesmo na melhor das hipóteses, essas tendências nos desencorajam de buscar "a única coisa necessária" - pois, por suas influências, esquecemos que o Reino de Deus está dentro de nós, e que o objetivo de espiritualidade é dizer com São Paulo: "Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim." 

NOTAS:


[1] Psicoses expressas em formas religiosas são resultados naturais quando as pessoas doentes foram educadas em um ambiente religioso. Como o Dr. William Wilson diz: "Em resumo, pode-se dizer que as religiões ou experiências religiosas não desempenham um papel significativo na etiologia da esquizofrenia. A religião pode e influencia o comportamento como resultado de seu efeito no conteúdo do pensamento do paciente. Por causa do efeito atenuado com a esquizofrenia, as experiências religiosas são incomuns uma vez que a psicopatologia desenvolveu-se. Elas acontecem, no entanto, com frequência em um estado psicótico... Sintomaticamente, a religião colore a doença tanto dos paciente maníacos como os depressivos. As crenças religiosas podem colorir profundamente o comportamento dos pacientes maníacos porque seu tom e energia afetiva elevada pode atuar em seus delírios religiosos...Esses delírios são exageros de crenças religiosas normais e impulsos, em contraste com aqueles de esquizofrênicos que são bizarros e autistas. Muitos pacientes as vezes  são movidos a pregar, rezar longas orações e entrar em exercícios litúrgicos exagerados, e dão testemunho as maravilhas de suas experiências religiosas para qualquer um que os escutam." William Wilson.  Religion and Psychoses in Handbook of Religion and Mental Health, Ed. Koenig. Academic Press, 1998.

[2] O termo Ruah também é traduzido como "sopro vital", e a discussão deste termo por Neil Gillman (The Death of Death, 1997, Jewish Lights, Woodstock, VT., USA) se assemelha aos ensinamentos hindus sobre Prana.
[3] A exposição clara disso pode ser encontrado em William of Thierry's The Golden Epistle of Abbot William of St. Thierry to the Carthusians of Mont Dieu, tr. Walter Shewring, London, 1930. Outro exemplo é fornecido por Duns Scotus: "A mulher é a alma racional (anima), cujo marido (literalmente vir ou "man', com a conotação de "poder ativo"- não maritus ou conjunx) é entendido como sendo o animus, que é variadamente chamado de intelecto (intellectus), as vezes mens (homens), as vezes animus e muitas vezes até mesmo spiritus. Este é o marido de quem o apóstolo fala "a cabeça da mulher é o homem, a cabeça do homem é Cristo e a cabeça de Cristo é Deus ". Em outras palavras, a cabeça da anima é o intellectus, e a cabeça do intellectus é Cristo. Essa é a ordem natural da criatura humana. A alma deve ser submetida à regra da mente, a mente a Cristo, e, assim, todo o ser é submetido por meio de Cristo a Deus Pai... Espírito revolve perpetuamente em Deus e é, portanto, bem nomeado de marido e guia das outras partes da alma, já que entre ele e seu criador nenhuma criatura é interposta.  A razão, por sua vez, gira em torno do conhecimento e das causas das coisas criadas e qualquer coisa que o espírito recebe através da contemplação eterna é transmitido à razão, e a razão comanda para a memória. A terceira parte da alma é sentido interior, que é subordinado à razão como faculdade que lhe é superior, e por meio da razão também está subordinado ao espírito. Finalmente, abaixo do sentido interior na ordem natural está o sentido exterior, através do qual toda a alma nutre e governa os sentidos corporais e anima todo o corpo. Uma vez que, portanto, a razão não pode receber nada dos dons do alto, a menos que, através de seu marido, o espírito, que detém o lugar principal de toda natureza. A mulher ou anima é justamente ordenada para chamar seu marido ou intellectus com quem ela possa beber os dons espirituais e sem os quais ela não pode participar nos dons do alto. Por tal razão Jesus fala pra ela, "Chame seu marido, venha para cá". Não tenha a presunção de vir até mim sem seu marido.  Pois, se o intelecto está ausente, não se pode ascender às alturas da teologia, nem participar de dons espirituais." Novamente, Orígenes ensina "Vamos observar alegoricamente como o homem, feito à imagem de Deus, é do sexo masculino e feminino. Nosso homem interior consiste de espírito e alma. O espírito é dito ser do sexo masculino;... A alma pode ser chamada de feminina. Se estes têm concórdia e acordam entre si, eles aumentam e multiplicam pelo próprio acordo entre si e produzem filhos, boas inclinações e entendimentos ... A alma se une com o espírito e assim, pode-se dizer, se casam...";
[4] "Mente" é um outro termo ambíguo, e é muitas vezes utilizado para traduzir o grego nous ou pneuma. Claramente São Paulo aqui não está falando de "processos mentais". O verso anterior deixa claro isso quando Paulo fala  "lei de Deus, de acordo com o homem interior."
[5] A utilização dos "eus" em plural é mais adequado como as inumeráveis tentativas atuais de explicar a natureza do eu deixa claro. Como poderia ser de outra forma quando esse eu está sempre em um estado de fluxo, sempre vindo-a-ser? 
[6] Os psiquiatras medievais - embora intitulados de forma diferente - viam a doença psiquiátrica originária do Corpo, na Psique, ou, em alguma distorção do lado Espiritual do homem. 
[7] Por exemplo, a preferência religiosa contemporânea é universal e não-sectária, melhor retratada como filosofia ou sabedoria perene. Normalmente, não tem como premissa a piedade nem adoração.  Em vez disso nas palavras de Campbell, "A contemplação da vida, portanto, é realizada como uma meditação sobre a própria divinidade imamente". (cited in B. Karasu, Spiritual Psychotherapy, American Journal of Psychotherapy, Vol 53, No. 2, Spring 1999).
[8] Esta e as seguintes citações são retirados do Pater Noster de St. Theresa de Avila. 
[9] O Panteísmo é uma concepção filosófica que equivale a uma espécie de ateísmo adornando o mundo com o nome de "Deus". A panteísmo que inclui um tipo de teísmo vago também existe entre os teólogos liberais, bem como entre os hindus ocidentalizados, que deduzem a partir de uma simplificação bruta do simbolismo de suas Escrituras.
[10] Isso nos traz de volta à questão da oração: não se pode rezar a si mesmo, mas somente a um Deus transcendente.
[11] Todas as grandes religiões - Islam, Hinduísmo, Judaísmo e Cristianismo - claramente declaram que são baseadas em Revelações. A adesão a Revelação não é uma posição "fundamentalista" (como atualmente entendido, pois o termo tem mudado ao longo dos anos).  Em contraste com o "fundamentalismo", a "ortodoxia" é definida como a "fé verdadeira e sã doutrina." A ortodoxia religiosa está enraizada na Revelação. Como o Cardeal Manning declarou  (The Four Great Evils of the Day, 1872): "Revelação de fé não é uma descoberta que a razão do homem fez para si por indução, ou por dedução, ou por análise, ou por síntese, ou por um processo lógico, ou por uma experimentação química. A revelação de fé é uma descoberta de si pela Razão Divina, o desvelamento da Inteligência Divina e a iluminação que flui dela sobre a inteligência do homem; e se assim for, gostaria de perguntar como pode haver variação ou discórdia? Como pode a iluminação da fé diminuir o status da razão humana? Como pode suas prerrogativas serem violadas? Não é o contrário? Não é o caso em que a razão é aperfeiçoada e elevada acima do eu pela iluminação da fé?".
[12] Foi o protestantismo que formalizou a tomada do processo de decisão sobre a Verdade para fora das mãos da Igreja e colocou-o no pensamento do próprio indivíduo - pois a "livre interpretação" das Escrituras era nada mais do que a aplicação de opiniões privadas para a compreensão padrão. É claro que as forças que favoreceram essa formalização estavam no ar - Huss, Wycliffe e outros - e foram promovidas pelas corrupções no corpo da Igreja que deu origem a ressentimentos, para não falar das forças econômicas em jogo que levou os príncipes alemães apoiaram Lutero.
[13] Albert Store, por exemplo, propõe um retorno ao si através da solidão, que permite uma maneira de por o indivíduo em contato com seus sentimentos mais profundos. Solitude, a Return to Self, New York, Ballantine Books, 1988.
[14] Os laços estreitos da Yoga com os cultos da Nova Era é bem reconhecido.
[15] Possession and Exorcism New Frontier Center, 1988, p. 45
[16] Ver Psychology of Religion, David Wulff, p. 23
[17] A tremenda resistência em aceitar a relação apropriada entre religião e a psiquiatria é bem ilustrada pela seguinte citação de Aldous Huxley: "Eu não tinha motivos para não querer o mundo com um significado, conseqüentemente, assumi que não tinha nenhum, e fui capaz, sem qualquer dificuldade de encontrar razões para essa suposição. Para mim, como sem dúvida, para a maioria de meus contemporâneos, a filosofia da falta de sentido era essencialmente um instrumento de libertação. A liberação que desejava era simultaneamente libertação de um determinado sistema político e econômico e a libertação de um determinado sistema de moralidade. Nós nos opomos a moralidade porque ela interferia nossa liberdade sexual."
[18] É verdade que muitos hindus acreditam na reencarnação, mas, também, é o caso de muitos católicos. As ideias de reencarnação foram introduzidas na Índia por Annie Besant e é apoiada por uma má interpretação das declarações em alguns textos sagrados. Não há, no entanto, nada no Vedas que apoie essa teoria. Ver Ananda K. Coomaraswamy, Hinduism and Buddhism, second edition, IGNCA, Delhi India, 1998, e suas várias referências no Volume 2 of Selected Papers, Metaphysics, Bollingen Series, Ed. Roger Lipsey, Princeton Universtiy Press.
[19] Tal Brooks, The Avatar of Night: The Hidden Side of Sai Baba, Delhi: Vikas/Tarang, 1982. Pode parecer persistente apontar sua homossexualidade; no entanto, há uma alta correlação entre as várias seitas e a inversão sexual. A homossexualidade e a sodomia é proibida em todas as tradições genuínas. Pode-se dizer que a experiência de Mr. Brooks era negativa, mas isso toca o cerne da questão, pois dificilmente era uma experiência Hindu verdadeira. Não apenas Sai Baba ensina a heresia da reencarnação, e realizava muitos "milagres" relativamente inúteis para impressionar sua audiência, ele também democratiza o hinduísmo; não faz nenhuma exigência de que as regras de casta devam ser obedecidas, e enquanto ele conta muitas histórias encantadoras do Mahabharata e Ramayana (o que cada criança ouve diversas vezes), ele não faz verdadeiras demandas espirituais. Ele aceita ocidentais como discípulos sem insistir em sua prática de disciplinas sérias ou de aprendizagem de uma doutrina sólida, ou obrigando-os a aprender a viver como hindus simples antes de entrar na suposta vida espiritual. Isso é perigoso para os ocidentais como expliquei no meu próximo artigo em Sophia chamado On "Gurus" and Spiritual Direction.
[20] Ver The Desacralization of Hinduism for Western Consumption, em Sophia, Vol 4, No. 2.
[21] From India to the Planet Mars, A Case of Multiple Personality por Theodore Flournoy com uma nova introdução de Sonu Shamdasani, Princeton, 1994.
[22] Dr. Richard Noll, The Jung Cult, Princeton, 1994 and The Aryan Christ, Random House, 1997. Jung abertamente falou "Eu me limito ao que pode ser psiquicamente experimentado e repudio a metafísica." (R. Wilhelm and C.G. Jung, The Secret of the Golden Flower, New York, 1931).
[23] Dra. Kubler-Ross contribuiu com insights clínicos úteis tais como sua delimitação das fases passadas por pessoas que enfrentam a morte - negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A melhor discussão de seu envolvimento espiritualista está em Paul Edwards, Reincarnation: A Critical Examination, Promethius Books, New York, 1996.
[24] "Quando, pois, algum homem ou mulher em si tiver um espírito de necromancia ou espírito de adivinhação, certamente morrerá; serão apedrejados; o seu sangue será sobre eles." (Levítico 20:27)Enquanto que fraudes são reconhecidas entre os médiuns, assume-se que não é sempre assim. Jung nos informa que a sensibilidade mediúnica desempenha um papel importante em tais indivíduos e os descreve como "abrir aos quatro ventos", intelecto, sensação, sentimento e intuição.
[25] As irmãs Fox mais tarde admitiram que estavam envolvidas numa fraude. 
[26] Estou em dívida com René Guénon em l'Erreur Spiritiste, traduzido por mim e Alvin Moore Jr.
[27] Uma avaliação científica excelente da reencarnação está disponível em Paul Edwads, Reincarnation: A Critical Examination, Promethius Books, N.Y., 1999. Os psiquiatras que usam hipnose para descobrir "vidas passadas" também usam as mesmas técnicas para descobrir "vidas futuras". Também, Ian Wilson, All in the Mind, Doubleday, N.Y., 1982. 
[28] Fui comandado pelo Senhor, de repente, a desatar os sapatos e tirá-los. Fiquei parado pois era inverno, mas a palavra do Senhor era como um fogo em mim então eu tirei meus sapatos, e fui ordenado a dar-lhes a alguns pastores que estavam nas proximidades. Os pobres pastores tremeram e se espantaram. Então caminhei cerca de uma milha até a cidade, e assim que cheguei na cidade, a palavra do Senhor chegou a mim novamente "Ai da cidade de Litchfield." Então eu andei pelas ruas chorando em voz alta "Ai da cidade de Lichfield." E ninguém me segurou, mas enquanto eu estava chorando as ruas pareciam para mim um canal de sangue fluindo pelas ruas e o mercado apareceu para mim como uma poça de sangue. E assim, finalmente, alguns amigos e pessoas vieram até mim e disseram, "Alack George, onde estão teus sapatos? E eu disse a eles 'Não importa'". (George Fox, fundador do movimento Quaker).
[29] "Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti." (Deuteronômio 18:10-12)
[30] Alguns cultos ou mestres com tendências espíritas são: Course of Miracles, Cientologia, EST, Temple of Understanding, Gaia, Celestine Prophecies, Wicca e Bruxaria (o livro de Philip Davis, Goddess Unmasked mostra claramente que esta é uma invenção do século 20), a Igreja de Satã (com a sua própria bíblia invertida), Sincretismo, Deepak Chopra, Movimento Radhaswami, o mito hindu-Aryan e o Neo-nazismo (A Sacerdotisa de Hitler - com os seus laços estreitos com o partido político verde), o Cult of Tilak, Eckankar, o Maharishi (que salvou os Beatles com "TM", e cuja imagem adorna a capa de seus discos, juntamente com um dos maiores satanistas do mundo, Alexander Crowley).
[31] Outro texto define como "um senso de conexão com a natureza, a humanidade e o Transcendente" Handbook of Religion and Mental Health, Ed. Harold Kowenig, Academic Press 1998. Há uma série de livros semelhantes recentemente publicados e todos de uma forma ou outra aceitam os mesmos princípios. Um bom resumo da várias posições é fornecido por John Schumaker, Religion and Mental Health, Oxford, 1992. Ele contém, por exemplo, um capítulo por John Shea que acusa Religião, e especificamente o catolicismo como responsável pelos desajustes sexuais. Parece claro que os desajustes sexuais vingentes, que muitos psiquiatras estão familiarizados, pouco tem a ver com religião - embora, claro, em uma cultura religiosa eles se manifestarão em termos religiosos. 
[32] Isto é bem demonstrado em um site recente (www.issc-taste.org) onde os cientistas documentam as suas experiências "espirituais", eventos que se enquadram na categoria da Psique, eventos paranormais, ou "sentimentos de euforia" e de "união com Deus", os quais um cientista descreveu como "eventos consciência cósmica."



The Problems that result from locating Spirituality in the Psyche por Rama P. Coomaraswamy