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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Situando a Psique (por William Stoddart)

A Constituição tripartite do Homem


“Psicologia” significa literalmente “ciência da alma”. Como, então, se deve situar a “alma” metafisicamente? 


De acordo com a metafísica tradicional (seja Vedântica, Grega, Medieval, Islâmica ou outra), a constituição do homem é tripartite: ou seja, Espírito (ou Intelecto), alma e corpo.

O Intelecto (o Espirito) é a faculdade que permite o homem conceber o Absoluto. É a fonte de sua capacidade de objetividade e de sua habilidade de – ao contrário dos animais – livrar-se do aprisionamento na subjetividade; é a própria definição do estado humano. Como Frithjof Schuon mais de uma vez disse: “O Intelecto pode conhecer tudo aquilo que é conhecível”. Isto por que o Conhecimento-do-Coração ou gnosis é inato, e está totalmente presente dentro de nós num estado de virtualidade. Essa virtualidade deve ser realizada e este processo corresponde a doutrina Platônica de “reminiscência” que, em última análise, é a mesma da prática cristã de “lembrança de Deus” (memoria Dei). “O Reino dos Céus está dentro de ti”.

O Intelecto e o Espírito são dois lados da mesma moeda, o primeiro pertencente ao teórico ou intelectual, e o último pertencente a prática ou espiritual. Eles pertencem, respectivamente, ao modo de conhecimento objetivo (ou discriminativo) e o subjetivo (ou contemplativo). 


Os três elementos ou “níveis” na constituição do homem pode ser representada como se segue:

Português
Inglês
Latim
Grego
Árabe
Espírito (Intelecto)
Spirit (Intellect)
Spiritus (Intellectus)
Pneuma (Nous)
Ruh (‘Aql)
alma
soul
anima
psyche
nafs
corpo
body
corpus
soma
jism

O Espírito ou Intelecto, com suas duas “faces”, criada e incriada, é supra-formal ou universal, e é diretamente tocado pelo Divino; É o único elemento supra-individual, “arquetípico”, ou objetivo na constituição do homem. A alma, ao contrário, é formal e individual. O Espírito é, portanto, a “medida” da alma; a alma nunca pode ser a “medida” do Espírito. O erro fundamental dos psicanalíticos como o Jung é sua incapacidade de distinguir entre a alma e o Espírito e, consequentemente, na prática, ocorre a eliminação efetiva do Espírito. Dessa maneira, de uma só vez é abolido a própria base da objetividade e, ao mesmo tempo, da espiritualidade. O caos e o dano resultante desse ato de cegueira, fatal e anti-Platonico, é incalculável. Nós somos deixados num reino satânico onde tudo (verdade, moralidade, arte) é relativo. Apenas as filosofias antigas – os sistemas tradicionais de conhecimento – pode se opor a esse erro moderno da psicologia e dos cultos new age.

Deve-se entender que o termo “Intelecto” aqui é utilizado no senso Eckhartiano (aliquid est in anima quod est increatum et increabile “Existe algo na alma que é incriado e incriável). Deve ser dito de uma vez por todas que não existe uma barreira impenetrável entre o Intelecto e a mente: a relação do primeiro com o último é como a relação do centro do círculo com a circunferência ou como o pináculo do cone com sua base circunferencial. Falando metaforicamente, a maioria dos filósofos desde o fim da Idade Média, somente se preocuparam com a circunferência ou a periferia, com pouco ou nada de transcendente em seus pensamentos.  Assim, o transcendente (que anteriormente se sabia ser acessível através de revelação ou intelecção) foi tachado como um mero “dogma” ou “superstição”. O resultado tem sido uma tumultuosa dégringolade – desde Descartes, através de Kant, aos “filósofos” narcisistas dos dias atuais – conhecida como “história da filosofia”! Uma interrupção milagrosa dessa descida decadente foi dada pelos Platonistas de Cambridge do século 17. Fora esses “milagres”, o processo parece ser irreversível; as palavras de Virgílio nunca foram tão apropriadas: Facilis descensos Averno; sed revocare gradum, hic ops, hic labor est! (“A descida ao inferno é fácil; mas, para voltar a nossa trilha e subir, isso é um trabalho duro!”)

Infelizmente, a descuidada linguagem moderna confunde “intelectual” com “mental” ou “racional”. De fato, diferentemente do Intelecto que se encontra “acima” da alma, a mente ou a razão é um conteúdo da alma, assim como outras faculdades humanas como: vontade, afeição ou sentimento, imaginação e memória. Então: 














A teologia “ordinária” distingue entre Deus e homem e, dentro do homem, entre alma e corpo. Assim, imediatamente, temos três “níveis”: Deus, alma e corpo. A teologia mística, por outro lado, faz uma distinção dentro do próprio Deus, entre “Deus Supremo” e “Deus”, entre “Essência Divina” e “Deus Criador”, entre “Deus Impessoal” e “Deus Pessoal”, ou entre “Supra-Ser” e “Ser”. A Essência Divina e Deus Criador constituem o primeiro dos cinco “níveis”; cada um desses dois elementos é Divino e Incriado. A alma e o corpo é o quarto e o quinto nível; esses são humanos e criados. Ainda resta o nível terceiro ou intermediário, e esse é o Espírito ou Intelecto.  Os termos “criação” e “criado” são sinônimos com os termos “manifestação” e “manifestado”, respectivamente.

Esses “Cinco Níveis de Realidade” ou “Cinco Presenças Divinas”, juntamente com seu significado e suas relações, estão indicados na tabela abaixo: 

A Doutrina do Logos
Frithjof Schuon elucida a doutrina do Logos da seguinte maneira:

A Divindade é absoluta, a criação é relativa. Todavia, dentro do Absoluto (ou a Divina Essência), já existe uma prefiguração do relativo, e este é o Deus Pessoal (ou o Criador). Essa prefiguração da criação dentro do Incriado é o “Logos Incriado”. 


Além disso, dentro da criação, que é relativa, existe uma reflexão do Absoluto, e essa é o Espírito ou o Intelecto. Esta reflexão do Absoluto dentro do relativo (ou do Incriado dentro do criado) se mostra em coisas como Verdade, Beleza, Virtude, Símbolo e Sacramento. É também manifestado como Profeta, Redentor, Tathagatha, Avatara. Essa reflexão do Absoluto é o “Logos criado”. 


Sem o Logos (e suas duas “Faces”, criada e incriada), nenhum contato entre o homem e Deus seria possível. Esta parece ser a posição dos Deístas. Sem o Logos, haveria um dualismo fundamental, e não uma “Unidade” (ahadiya) como os Sufis chamam, ou “Não-dualismo” (advaita) como os Vedantistas chamam. A doutrina e o papel do Logos pode ser expresso em um diagrama como se segue:

As espiritualidades ou misticismos de todas as grandes religiões ensinam que é unindo-se (através de oração e sacramento) com o “Logos criado” que o homem alcança a união com Deus.


William Stoddart - Situating the Psyche

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Tradição e o “Inconsciente” (Por René Guénon)

Nós já expomos em outra parte o papel da psicanálise na obra de subversão que, após a "solidificação" materialista do mundo, constitui a segunda fase da ação antitradicional característica na época moderna em sua totalidade. É preciso voltar um pouco sobre essa questão pois, desde um tempo notamos que a ofensiva psicanalista está cada vez maior, no sentido de estar se dirigindo diretamente a tradição com o pretexto de explicar-se, tendendo a deformar de forma mais perigosa. A este respeito, deve-se fazer uma distinção entre as variedades desigualmente "avançadas" da psicanálise: esta, que foi primeiramente concebida por Freud, se encontrava em certa medida limitada a uma atitude materialista, que ele sempre teve a intenção de manter. Naturalmente, a psicanálise até então, não tinha um caráter puramente "satânico", pois Freud tentava proibir qualquer tentativa de penetrar em determinados domínios, ou, mesmo que tentassem, apesar de toda intenção, logravam apenas em falsificações doentes e grosseiras, onde a confusão era relativamente fácil de dissipar. Assim, quando Freud falava em "simbolismo", o que ele designava abusivamente assim, não era senão um simples produto da imaginação humana, variável de um indivíduo ao outro, sem nada em comum verdadeiramente com o autêntico simbolismo tradicional. Mas isso foi apenas o primeiro passo, e estava reservado aos outros psicanalistas modificar as teorias de seu "mestre" no sentido de uma falsa espiritualidade com a finalidade de - em conjunto com uma confusão muito mais sutil - aplicar a uma interpretação do próprio simbolismo tradicional. Foi principalmente o caso de C.G. Jung cujas primeiras tentativas neste domínio datam de bastante tempo; é de se notar que é muito significativo que esta interpretação parta de uma comparação que acreditou estabelecer entre certos símbolos e alguns desenhos de pacientes; e deve-se reconhecer que, de fato, esses desenhos, por vezes, em relação aos símbolos verdadeiros, possuíam certa semelhança "paródica" que continua sendo bastante perturbador em respeito à natureza do que os inspira.

O que agravou muito as coisas é que Jung, para explicar algo que os fatores puramente individuais não pareciam dar conta, foi levado a formular uma hipótese de um suspeito "inconsciente coletivo", existente de alguma forma abaixo do psiquismo de todos os indivíduos humanos, o qual ele acreditou poder se referir indistintamente tanto a origem dos símbolos como as de suas caricaturas patológicas. Não é preciso dizer que o termo "inconsciente" é totalmente inadequado, e aquilo que é designado por ele, na medida em que pode ter alguma realidade, pertence ao que os psicólogos denominam de forma mais habitual de "subconsciente", isto é, um conjunto de extensões inferiores da consciência. Temos observado em outros lugares a confusão que ocorre continuamente entre o "subconsciente" e "superconsciente"; como este escapa completamente, por sua própria natureza, o domínio sobre o qual se dá a investigação de psicólogos, eles nunca conseguem sair, e quando eles têm a oportunidade de se familiarizar com algumas das suas manifestações, atribuem ao "subconsciente". É precisamente essa confusão que encontramos também aqui: que as produções dos pacientes observados pelos psiquiatras procedem do "subconsciente" certamente não é duvidoso; mas, ao contrário, tudo que é da ordem tradicional e, especialmente o simbolismo, só pode ser referido ao "supraconsciente", ou seja, aquele pelo qual se estabelece uma comunicação com o suprahumano, enquanto que o "subconsciente" tende, inversamente, ao infrahumano. Há, portanto, nisso, uma verdadeira inversão que é inteiramente característica do gênero de explicação em questão; e o que lhe dá uma aparente justificação é o fato de que, em casos como esses citados, ocorre que o "subconsciente", graças a seu contato com as influências psíquicas de ordem mais baixa, imita efetivamente o "supraconsciente"; isso, para aqueles que se deixam ser enganado por tais falsificações e são incapazes de discernir sua verdadeira natureza, dá origem a ilusão que leva ao que chamamos de uma "espiritualidade invertida".


Por meio da teoria do "inconsciente coletivo", acredita-se ser possível explicar que o símbolo é "anterior ao pensamento individual" e que o transcenda; o verdadeiro problema, que parecem nem considerar, é saber qual direção que ocorre essa transcendência: se é para baixo, como parece indicar essa referência ao suposto "inconsciente", ou para cima, como afirmam expressamente todas as doutrinas tradicionais. Encontramos em um artigo recente uma frase onde essa confusão aparece de forma mais clara possível: "A interpretação dos símbolos..., é a porta aberta ao Grande Todo, isto é, o caminho que conduz a plena luz através do escuro labirinto do submundo de nossa individualidade".  Infelizmente, há maior probabilidade de que, perdendo-se nesses "labirintos escuros", alcance outra coisa que a "plena luz"; além disso, observe também o perigoso equívoco do "Grande Todo" que, como sendo a "consciência cósmica", em que uns aspiram se unir, não pode ser nada mais nada menos que o psiquismo difuso das regiões mais inferiores do mundo sutil; assim, portanto, a interpretação psicanalítica dos símbolos e sua interpretação tradicional conduzem, em verdade, a extremidades diametralmente opostas.



Cabe entender outra observação importante: entre as muitas coisas que supostamente são explicáveis pelo "inconsciente coletivo", há de se contar, é claro, o "folclore", e este é um dos casos que a teoria pode apresentar alguma aparência de verdade. Para ser mais preciso, deveria se falar de uma espécie de "memória coletiva", que é como uma imagem ou um reflexo, no domínio humano, dessa "memória cósmica" que corresponde a um dos aspectos do simbolismo da lua. Só que pretender concluir que a natureza do "folclore" é a mesma origem da tradição, é cometer um erro semelhante aquele, tão difundido em nossos dias, que considera como "primitivo" o que nada mais é que um produto de uma degradação. É evidente, de fato, que o "folclore", constituído essencialmente por elementos pertencentes a tradições extintas, representa inevitavelmente um estado de degradação em relação as mesmas; mas, por outro lado, é o único meio pelo qual algo delas podem ser guardadas Seria necessário também perguntar em que condições de conservação tais elementos estão confinados na "memória coletiva"; como tivemos oportunidade de afirmar, não podemos ver aí senão um resultado de uma ação plenamente consciente dos últimos representantes de antigas formas tradicionais em ponto de desaparecimento. O que certo é que a mentalidade coletiva, na medida em que exista algo que assim possa ser chamado, se reduz propriamente a uma memória, que é expressa em termos de simbolismo astrológico ao dizer que é de natureza lunar; em outras palavras, pode desempenhar alguma função conservadora, a qual consiste precisamente o "folclore", mas é totalmente incapaz de produzir ou elaborar qualquer coisa, especialmente coisas transcendentes como todos os dados tradicionais.


A interpretação psicanalítica visa, na verdade, negar essa transcendência da tradição, mas de uma maneira nova, pode-se dizer, e diferente das negações até o momento: não se trata, como no racionalismo ou em todas suas formas, seja de negação radical, seja de uma ignorância pura e simples da existência de qualquer elemento "não-humano". Ao contrário, parece admitir que a tradição tenha efetivamente um caráter "não-humano", mas desviando completamente a significação desse termo; assim, ao fim do artigo citado anteriormente, lemos o seguinte: "Voltaremos talvez sobre essas interpretações psicanalíticas de nosso tesouro espiritual, cuja 'constante' através do tempo e civilizações diversas demonstra claramente o caráter tradicional, não humano, se se toma a palavra "humano" em seu sentido separativo, individual". Aqui se mostra talvez o melhor exemplo possível de qual é, no fundo, a verdadeira intenção de tudo isso, pois - querermos crer - não é sempre consciente que se escrevem coisas deste tipo, pois deve ficar claro que o que está em jogo não é esta ou aquela individualidade, assim como o "chefe de escola", Jung, mas uma "inspiração", a mais suspeita, de onde essas interpretações procedem. Não precisa ter ido muito longe no estudo das doutrinas tradicionais para saber que, quando se trata de um elemento "não humano", o que se entende por isso, e que pertence essencialmente aos estados supra-individuais do ser, não tem absolutamente nada a ver com o fator "coletivo", o qual, em si mesmo, em realidade, não pertence senão ao domínio individual humano, o qual é descrito como "separativo", e que, além disso, por seu caráter "subconsciente", não pode de maneira alguma abir uma comunicação com outros estados, exceto em direção ao infrahumano... Se entende, portanto, de maneira imediata, o procedimento de subversão que consiste, aproveitando-se de certas noções tradicionais, em inverter de certo modo, substituindo o "supraconsciente" pelo "subconsciente", o supra-humano pelo infrahumano. Essa subversão não é muito mais perigosa que uma simples negação? E acreditam que exageramos em dizer que isto contribui para preparar o caminho para uma verdadeira "contra-tradição", destinada a servir de veículo a esta "espiritualidade invertida" que, no fim do ciclo, o "reino do Anticristo" deverá aparecer com seu aparente e passageiro triunfo?

Capítulo do livro Miscellanea (Mélanges, 1976)


terça-feira, 31 de março de 2015

O Estudo da Consciência não está sob competência da Ciência Moderna (Por Philip Sherrard)

Sobre o porquê que o conhecimento da natureza da consciência não está dentro da competência do cientista moderno - Philip Sherrard

1. É com minha consciência que eu percebo qualquer coisa que eu percebo.

2. Assim, a forma como algo aparece para mim depende do modo de minha consciência.

3. Eu só posso perceber aquilo que eu sou capaz de perceber, observar apenas o que sou capaz de observar, entender apenas aquilo que sou capaz de entender.

4. Daí que minha compreensão da natureza de algo só pode estar de acordo com o modo de consciência que eu possuo; e isso significa que a verdadeira natureza daquilo que percebo pode ser bem diferente daquilo que eu percebo que seja.

5. Um modo mais elevado de consciência que a minha será capaz de perceber a verdadeira natureza de algo mais claramente do que eu posso perceber; e assim por diante, até o modo mais elevado de consciência.

6. Essas mesmas proposições aplicam-se também ao conhecimento da natureza da própria consciência; minha compreensão da natureza da consciência só pode estar de acordo com o modo de consciência que eu possuo.

7. Nada pode ser conhecido, exceto de acordo com o modo do conhecedor.

8. Uma consciência mais elevada que a minha será capaz de uma maior compreensão da natureza da consciência do que aquela que sou capaz.

9. Em última análise, para saber o que a natureza da consciência é em si mesma, devo ter atingido o maior modo de consciência de que se é capaz de atingir, ou seja, aquele que é um só com a própria consciência.

10. Somente tal modo de consciência pode experimentar e deste modo verificar um conhecimento da natureza da consciência.

11. Apenas minha experiência da natureza da consciência em si pode constituir um conhecimento e evidência para ela.

12. Partes dessa minha compreensão da natureza da consciência só pode ser hipotéticas, mera opinião adaptada de acordo com as limitações do meu modo particular de consciência, viciado pela ignorância dessas limitações impostas, e totalmente inacessível a verificação através da experiência. Em tais circunstâncias, como a consciência aparece para mim será muito diferente do que é na realidade.

13. O modo mais elevado de consciência, ou a consciência em si mesmo, é aquele em que não há dualismo entre o conhecedor e aquilo que é conhecido, o observador e o observado, consciência e aquilo que a consciência está consciente.

14. Isto significa que, enquanto houver na minha consciência algum dualismo desse tipo, posso ter certeza que não atingi o mais elevado modo de consciência que se é possível de atingir. Daí minha concepção da natureza da consciência só pode uma hipótese ou opinião, distorcida pela ignorância que pertence a qualquer consciência que ainda está na escravidão do dualismo em questão. Na natureza das coisas, tais hipóteses, ou opiniões, não podem constituir conhecimento.

15. Como o modo de consciência efetivo para o cientista moderno é aquele que ainda está sob influência do dualismo - pois, se não fosse o caso, ele não seria um cientista moderno - é muito claro que o conhecimento da natureza da consciência não reside sob sua competência. Sua competência, a este respeito, assim como em outros aspectos, é necessariamente limitada a hipóteses, opiniões, especulações e nenhum desses pode-se dizer que constitui conhecimento.

16. Por definição, qualquer tentativa de entender a natureza da consciência que não seja baseado na experiência e no conhecimento daqueles cuja consciência transcendeu todas as formas de dualismo está condenado a futilidade. Não há menor motivo em desperdiçar tempo em empreendimentos que, a priori, estão condenados a futilidade.

17. Além disso, proceder em uma investigação da natureza da consciência que não seja através do estudo dos testemunhos daqueles - metafísicos divinamente inspirados, místicos, videntes, profetas - que através de uma experiência direta atingiram o conhecimento da natureza da consciência seria uma manifestação de extrema arrogância, para não dizer pura imprudência; pois, para proceder de outra forma que não seja através de tal estudo seria assumir a posse de um grau de compreensão e discernimento superior aqueles que possuíram a mais elevada inteligência conhecida pela raça humana. Seria, de fato, inesperado encontrar numa conferência onde exista até mesmo um único cientista que tenha estudado em profundidade - ou seja, com pelo menos o mesmo empenho e dedicação que ele tem estudado sua própria disciplina - os escritos dessas pessoas. No entanto, a menos que ele tenha estudado tais escritos, quais qualificações ele possui que lhe dá o direito de falar com qualquer finalidade sobre o tema em discussão? O cego não pode guiar outro cego.

18. E, se, em resposta a última questão for alegado que a questão em si é irrelevante porque a consciência continuamente evolui e, portanto, a nossa compreensão da consciência está em um estado continuo de evolução, que evidência adicional é necessária para mostrar a falência da mente que se pode fazer tal afirmação e a inutilidade de uma discussão mais aprofundada?

[o texto seguinte se trata de uma carta]
Caro ..., 
Eu não tive a intenção de provocar tal resposta enviando-lhe minha curta declaração - embora ilustre um pouco meu ponto sobre a dificuldade de ter qualquer discussão frutífera até que se tenham resolvido alguma das questões preliminares - questões que os cientistas modernos, no total, nunca levam em conta e até mesmo são completamente alheios a elas. Suponho que estas perguntas possam ser chamadas de puramente epistemológicas, no sentindo que elas lidam com as condições que devem ser cumpridas antes que alguém possa dizer que sabe de alguma coisa. Pessoalmente, nunca encontrei tais questões sendo levantadas por qualquer cientista. E, no entanto, qual é o sentido de tentar obter um conhecimento de algo que você ainda não satisfez nem as condições que permitem você obtê-lo? Minha declaração foi simplesmente afirmar que nenhum cientista moderno (até onde eu tenho conhecimento) sequer começou a cumprir as condições que permitiriam ele ou ela a obter o conhecimento da natureza da consciência.

Pensei que minha declaração anterior tinha explicado de forma clara mas, obviamente, não aconteceu. Eu suspeito, em qualquer caso, que há pelo menos duas barreiras inter-relacionadas - praticamente intransponíveis - para que fique claro aos cientistas. A primeira é que pouquíssimos cientistas, se existirem, mesmo se reconhecerem realidades supranaturais, ainda não percebem que não existem duas ciências, uma conectada com o material e o aspecto exterior das coisas estendidas no tempo e espaço, e outra com a dimensão espiritual e eterna, não estendida no espaço e tempo. Existe apenas uma ciência. Mas o que há, por outro lado, são dois modos dominantes de consciência no homem: o primeiro, o que poderíamos chamar de consciência do ego, que é o modo de consciência inferior, correspondendo ao que é mais desumano e satânico nele; e o segundo, sua consciência espiritual ou angélica, que é seu modo mais elevado de consciência.

A consciência superior ou espiritual percebe e experimenta as coisas como elas são em si mesmas, interiores e exteriores, espirituais e materiais, interpretações metafísicas e físicas - formando uma única realidade inseparável. A consciência do ego, ou profana, não pode perceber e experimentar as coisas como são desta maneira. Ela permite perceber e experimentar apenas aquilo que sua própria opacidade permite que perceba e experimente, e isso é apenas o aspecto das coisas estendidas no espaço e no tempo, nesse aspecto as coisas possuem existência e ser, e até mesmo realidade, em seu próprio direito. Esse tipo de consciência - consciência do ego - não percebe ou entende que, separado de sua dimensão interior e espiritual, nada que pertença ao mundo dos fenômenos possui uma qualquer realidade, seja física, material ou substância, e que a noção de que ela possui realidade é apenas uma ilusão ou distorção inerente ao ponto de vista da consciência do ego.

Em sua carta, por exemplo, você fala que deve ser feito uma distinção entre a consciência e suas expressões formais, e que, enquanto o cientista não pode estudar o primeiro, ele pode estudar o último. Mas isso é precisamente colocar o dualismo na realidade, que acontece simplesmente pelo fato de que a consciência do ego está separada da consciência espiritual. E como tal, esse dualismo representa um estado totalmente ilusório e distorcido da mente, e não corresponde a nada na realidade em si; que "conhecimento" das coisas igualmente ilusório e distorcido pode ser adquirido estudando-os como se correspondessem a algo na realidade - isto é, como se as coisas possuíssem ser e existência própria e além de suas dimensões espirituais e interiores?

Posso colocar isso de outra forma: tudo que possui forma é uma expressão da consciência. Como, então, eu posso estudar a própria natureza de uma expressão formal da consciência se eu sou ignorante da natureza da consciência da qual ela é uma expressão, e em que seu ser e existência são inerentes?

Pensar que se pode adquirir um conhecimento da consciência apenas estudando suas expressões formais é tão tolo como pensar que se pode ganhar conhecimento da alma por meio de análise, dissecação, quantificação, etc da estrutura do corpo humano. Platão sabia melhor: "Se a alma deseja conhecer a si mesma, é preciso olhar para seu próprio eu." O mesmo ocorre quando se lida com o conhecimento da consciência: tal conhecimento só pode ser adquirido através da consciência "olhando" para si mesma. Nenhum conhecimento disso pode ser adquirido através do estudo de suas expressões formais. Na verdade, nenhum conhecimento de qualquer coisa estendida no tempo e espaço - no plano "horizontal" - pode ser obtido sem um conhecimento anterior de sua dimensão espiritual e eterna - sua dimensão "vertical" - não estendida no tempo e espaço. Não há absolutamente nenhum sentido em discutir a natureza da consciência em uma conferência, a menos que isso seja compreendido.

Este é o primeiro ponto. E o segundo ponto, relacionado com o primeiro, é o seguinte: é extremamente raro - tão raro que que pode-se dizer que constitui a exceção que prova a regra - para qualquer um alcançar o modo mais elevado ou espiritual de consciência sem seguir um caminho de disciplina espiritual sob orientação, direito ou indireta, de um mestre espiritual qualificado. Mas, além disso, para estar em condições para discutir tais coisas como se fosse apenas de segunda mão, depois de um estudo de escritos de tais mestres espirituais, ou ser para ser capaz de usar uma linguagem metafísica universal discursiva de forma coerente, requer pelo menos um treinamento como se é necessário para dominar as convenções de uma matemática superior. E, como disse antes, eu nunca deparei com um cientista que tenha aprendido esta linguagem. Quando Einstein se aventura nesta esfera, o que ele diz é positivamente embaraçoso em sua ingenuidade. E as poucas coisas que eu li de pessoas como [Niels] Bohr deixa claro que eles são um pouco mais que novatos nessas matérias. O mesmo vale para [Frithjof] Capra. Em todos os casos aquelas questões preliminares que falei nessa carta são simplesmente ignoradas. Dessa forma, que diálogo pode haver?

Espero que posso ter deixado um pouco mais claro - ou pelo menos não ter confundido ainda mais. O ponto determinante a ser entendido é que o conhecimento principal - ou daquilo que pensamos como conhecimento - não é o objeto que buscamos para obter conhecimento, mas o modo de consciência que possuímos quando buscamos obtê-lo. Se for possível entender esse princípio, o resto todo cai em seu lugar. 

Philip Sherrard

domingo, 8 de março de 2015

Psicoterapia Cristã - Batalha Contra as Provocações (por Robin Amis)

É necessário compreender plenamente o conflito interno que leva à formação da separação interior, uma vez que esta é a restauração lenta de nosso poder de escolha que perdemos desde a infância. Uma das diferentes formas de entender isso é através da idéia de provocação: a ideia de que a mente ativa, com suas associações, constantemente apresenta estímulos ao nous, ao qual o nous pouco discriminado, habitualmente responde de forma indiscriminada. Muitos dos primeiros Padres, e seus sucessores russos, descreveram o processo de provocação como uma sequência através de seis ou mais fases de perda progressiva de controle da mente, embora Evágrio, em sua obra Praktikos, descreve oito tipos específicos de provocação.

Pode-se perguntar: como isso difere de insanidade? A resposta simplista é que a sexta e última etapa da provocação, que os eremitas russos chamam de plenenie (cativeiro), descreve a condição de constante auto-satisfação e busca por distração que hoje não é só lugar-comum, mas também é promovido ativamente nos ensinamentos modernos de auto-expressão e assertividade. Isso freqüentemente perturba o corpo, levando a compulsões, e estas podem dominar a vida do indivíduo até o ponto em que o indivíduo não consegue manter sua relação com a sociedade, neste ponto ela ou ele é classificável como insano.

Ao estudar provocação, devemos notar que o homem moderno difere daqueles para quem essas descrições foram originalmente escritas. Quase todos os homens e mulheres ocidentais são subservientes às suas provocações, simplesmente porque eles consideram essas provocações como suas posses, como se as tivessem originado, o que é inteiramente falso, como se fossem as suas próprias ideias, os seus próprios sentimentos, suas próprias crenças. Na verdade, esses estímulos que nos impulsionam são meramente "gravações" do passado. Sempre que tocamos no estado de separação interna, que normalmente conseguimos brevemente, nós não reconhecemos que habitualmente respondemos à primeira provocação energética (ou "excitante")", e o resultado é que voltamos imediatamente para fora do estado de separação interna, novamente. E então esquecemos de nós mesmos, passando para o que Mouravieff chama de "confluência", o estado normal do homem moderno. Entre outras coisas, esta é uma das razões pela qual somos incapazes de controlar nossos pensamentos, e entender esse processo de provocação pode nos mostrar como é possível estabelecer o controle do pensamento.

Evágrio Pôntico, escreveu sobre essas provocações: "Existem oito categorias gerais e básicas de pensamentos provocadores nos quais estão incluídos todos eles. Em primeiro lugar está a gula, em seguida a impureza, a avareza, a tristeza, a apatia, a vanglória e por último o orgulho. Não está em nosso poder determinar se estamos perturbados por esses pensamentos, mas somos capazes de decidir se deixaremos dentro de nós ou não, se eles agitarão ou não nossas paixões."

Não está escrito nessa passagem de Evágrio o fato de que o "centro de comando", o centro magnético no estado de separação interior, ou além, é o resultado de um treinamento especial. É, na verdade, um órgão artificial ou feito pelo homem na mente. Até que ele seja construído, estamos submersos sob uma provocação contínua, emergindo deste estado, apenas por períodos curtos, em uma ação intencional. Desenvolver novas atividades intencionais para nossas vidas não é uma coisa fácil: isso nos envolverá em uma luta com esses pensamentos inúteis e muitas vezes prejudiciais, que tendem a se acumular à medida que aumentamos o orgulho, se isso nos levar a crer que os pensamentos, sentimentos, atitudes aos estímulos provocantes são nossos, como se faz normalmente, isso nos levará a um fracasso nessa luta. Essa luta, entretanto, está longe de ser inútil. Não só nos leva a completar alguma terefa que estava anteriormente além de nossa capacidade, mas aumenta nossa capacidade para futuras ações intencionais e lentamente nos liberta de nossas provocações recorrentes, e por isso desempenha um papel importante na formação do centro magnético que nos deixará prontos para uma consciência superior.

Estágios da Provocação

O emigrante russo, I.M. Kontzevitch, escreveu sobre o processo de provocação dentro do conteúdo da mente, colocando em termos modernos idéias que foram primeiramente importadas para a Rússia por São Nilo de Sora no final do século XIII. Primeiro disse que: "Os Santos Padres, ascetas, discernem por volta de (seis ou) sete momentos no desenvolvimento e crescimento das paixões." Estes estágios, diz ele, são descritos posteriormente por outras autoridades russas. Pensamentos provocadores, os sentimentos que nos fazem responder a eles, e as atividades habituais que repetimos sempre que as mesmas provocações ocorrem, todos são predisposições. Mas, como já foi sugerido, há dificuldades em descrever a maneira exata em que esses elementos agem. Em fatos observados, as fases ocorrem de forma distinta em diferentes "níveis de ser" e, em verdade, essas diferenças são o principal meio pelo qual é possível distinguir os níveis do ser. Kontzevitch resume a forma como estes são descritos pelos professores russos; mas as descrições gregas não são completamente as mesmas, provavelmente por causa da diferença no entendimento de que foram utilizadas as ideias. Temos dito mais de uma vez que a provocação é necessária, a fim de testar o nosso caráter, de modo a tornar-nos conscientes do que somos. Ela nos prova, descobrindo o que assentimos em um momento particular durante o teste, e as vezes, continuará até possamos ganhar o controle sobre nossos momentos de assentimento. Evágrio disse sobre este peirasmos, provação ou tentação, que:

A tentação é o fado do monge, pois pensamentos que escurecem sua mente inevitavelmente subirão para parte de sua alma que é a sede das paixões.
O pecado que o monge deve particularmente observar é aquele de dar consentimento mental para prazeres proibidos.

Este é o cativeiro: o estado do homem moderno, do homem caído. No Antigo Testamento, e em autores como São Gregório de Nissa, isto é simbolizado pelo cativeiro de Israel sob os Egípcios. Mas, como Boris Mouravieff escreveu em Gnosis: "a passagem de Esperança para o Amor é marcada pela renovação da mente, isto é, por um novo Conhecimento."

Para renovar a nossa mente ou inteligência - nous - precisamos remover de dentro de nós os obstáculos que impedem a consciência espiritual. Ou seja, nossa psique dever ser purificada. Uma parte importante deste processo é a purificação da memória. O resultado deste processo é descrito por São Macário: "É através da renovação da mente, da tranquilidade vivida em nossos pensamentos e o amor do Senhor e o amor pelas coisas celestes que cada nova criação de cristãos se distinguem dos homens de deste mundo. Por esta razão o Senhor vem, a fim de que ele possa dar estes dons espirituais para aqueles que realmente acreditam nele. Os cristãos possuem glória e beleza e uma riqueza celestial indescritível que chegam até eles com muito trabalho e suor, adquirida em tempos de tentações e muitas provações. Tudo isso deve ser atribuída à graça divina."

Quer sejam monges ou chefes de família, o teste é o destino de todos os homens decaídos quando tomam o caminho para superar a queda. Um tipo deste teste ocorre automaticamente à medida que começamos a tomar consciência do constante bombardeamento de provocações, um bombardeio que testa continuamente a nossa consciência emergente até que nos tornemos totalmente consciente da natureza secundária dos estímulos provocadores e assim nos separamos deles.

Este é um elemento importante no que é conhecido como a ''liberação menor".

A provocação passa através de vários estágios, cada um dos quais se torna mais difícil de "escapar" sem ajuda. Devemos agora elaborar a descrição de Kontzevitch desses estágios, com um pequeno comentário, onde for útil.

1. Provocação (em russo prilog)

A descrição de Kontzevitch da provocação inicial é:

O primeiro impulso para o surgimento do fenômeno psicológico que se torna uma paixão é conhecido como "provocação" ou "sugestão" (prilog). É uma concepção de um objeto ou de uma ação correspondente a uma das inclinações marcadas dentro de uma pessoa. Sob a influência de impressões externas, ou em conexão com o funcionamento psicológico da memória ou da imaginação de acordo com as leis da associação, esta provocação entra na esfera da consciência do homem. Esse primeiro momento ocorre independentemente do livre arbítrio do homem, contra a sua vontade, sem a sua participação, de acordo com as leis da inevitabilidade psicológica, da "espontaneidade" e, portanto, é considerado "inocente" ou desapaixonado. Isso não incrimina o homem no pecado, se não for causado por seus pensamentos "errantes", se não foi convidado, consciente e voluntariamente, e se uma pessoa não é negligente a respeito. Esta é a pedra de toque para testar a nossa vontade de ver se estará inclinado para a virtude ou o para vício. É nessa escolha que o livre arbítrio do homem se manifesta.

As "inclinações marcadas" que ele se refere são as memórias dos prazeres e dos desgostos: o termo deixa claro que nossa tendência natural é de desfrutar de certas coisas que normalmente adicionamos lembrando de impressões-sentimentos, que são evocadas da memória por associação, por exemplo, pela associação de eventos ou memórias despertadas em devaneios.

Na experiência, o processo de provocação é contínuo. Um após o outro, pensamentos e outras impressões entram em nossa percepção, e cada uma, ao fazer isso, desperta sentimentos, e estes nos provocam para reagir. Se somos capazes de resistir a este processo, mesmo por um momento, então uma série de provocações alternativas aparecem diante de nós como ações alternativas.

A não ser que já tivermos passado por um treinamento especial e prolongado, este estado de escolha não ocorre com tanta frequência.

2. Conjunção (em russo sochetanie)

O segundo estágio é a resposta de nossos sentimentos que determina nossa atitude para com o estímulo de provocação. Salvo se o coração é treinado, essa resposta será normalmente "desinformada", e nestas situações muitas das nossas respostas levarão a duas coisas que não queremos:

1. continuação do estado de confluência

2. ações erradas e frequentemente auto-destrutivas e limitadoras, juntamente com os problemas decorrentes que isto provoca em nossas vidas.

Em geral, esse segundo estágio ocorre muito rapidamente para que possamos pará-la. Ele é colorido pelos eventos passados, e quando ocorre sem que percebamos, isso significa que esses eventos passados moldaram nossa reação naquele momento. Este processo é descrito por Kontzevitch:

A provocação evoca uma resposta do sentimento, que reage à impressão ou a imagem invadindo a consciência ou por "amor" ou por "ódio" (simpatia ou antipatia). Este é o momento mais importante, pois aqui é decidido o destino do pensamento provocador: ele ficará ou irá embora? Somente o surgimento desse pensamento na consciência que ocorre independentemente da vontade do homem. Se não for imediatamente rejeitado e persistir, isso significa que na natureza daquela determinada pessoa ele encontra um terreno compatível, que se expressa em sua reação simpática à provocação. Uma inclinação simpática atrai a atenção, permitindo que o pensamento sugerido cresça e se torne uma imagem de fantasia que permeia toda a esfera da consciência e expulsando todas as outras impressões e pensamentos. A atenção permanece com o pensamento, porque o homem se agrada dele. Este segundo momento é chamado de conversação ou conjunção (sochetanie). São Efrém, o Sírio define como uma "livre aceitação do pensamento, seu entretenimento, por assim dizer, e uma conversa com ele acompanhado por prazer. ''

A fim de cortar a sequência de noções, para removê-lo de sua consciência, e para terminar a sensação de prazer, o homem precisa distrair sua atenção pelo esforço de sua vontade. Ele deve ativamente e firmemente resolver refutar as imagens do pecado atacando-o e não voltando a ele novamente.

3. Junção (em russo slozhenie)

Na personalidade, que carece de um centro magnético totalmente formado ou centro permanente, o equilíbrio que é destruído em um momento de provocação é puramente transitório e depende de esforços momentâneos que primeiro tiveram que ser aprendido. Quando o esforço aprendido termina, o controle desaparece e é substituído por aquilo Mouravieff solicita um estado de "confluência", isto é, de identificação com o conteúdo da mente. Quando não controlado, aquele conteúdo é puramente associativo em sua natureza. Sobre este terceiro estágio, Kontzevitch diz:

De outra forma, com a ausência da rejeição intencional das imagens introduzidas, o terceiro momento é induzido quando a própria vontade torna-se cada vez mais atraída ao pensamento, e como resultado o homem se torna inclinado a agir de acordo com o que o pensamento diz pra ele, para que possa obter satisfação participando daquilo. Neste momento, o equilíbrio de sua vida espiritual é totalmente destruído, a alma se entrega totalmente ao pensamento e se esforça para realizá-lo com o objetivo de experimentar um prazer ainda mais intenso.

No homem moderno ocidental a quebra deste controle é contínuo ou endêmico, na verdade, faz mais sentido dizer que o centro magnético como uma forma estável de controle existe apenas em alguns raros indivíduos, de modo que antes de despertar o centro magnético, o ensino em sua forma contemporânea começa pelo treinamento destinado a formação desse centro, que é artificial em sua natureza e é baseado em disciplinas que são, em parte, resultado da compreensão dos fatores descritos nesta passagem de Kontzevitch.

A formação de uma espécie de centro artificial, como o centro magnético, era objetivo da educação grega clássica ou paideia, e é provável que outras civilizações, que chamaríamos teocêntrica, em verdade formaram, em seu pleno desenvolvimento, assim como ainda formam, algo semelhante nos estágios mais elevados da educação normal. É quase certo que isso também aconteceu na igreja primitiva antes do terceiro século, e que aconteceu desde então, muito ocasionalmente em certas comunidades cristãs muito localizadas, de modo que, nessas civilizações, "ser civilizado" implicaria a posse do centro magnético; mas outros estudos são necessários antes que possamos estar inteiramente certos disso. Comunidades cristãs deste tipo provavelmente inclui algumas comunidades na Capadócia (na Turquia) entre os séculos IV e XX, e certos locais na Rússia, como a aldeia onde Teófano nasceu, do século XIV ao XIX.

4 & 5. A luta contra o hábito

Continuando a citação anterior de Kontzevitch:

Assim, o terceiro momento é caracterizado pela inclinação da vontade para o objeto do pensamento, por sua concordância em resolver e realizar fantasias prazerosas. Consequentemente, no terceiro momento, toda a vontade se rende ao pensamento e agora age de acordo com suas diretrizes, a fim de realizar os seus planos fantasiosos. Este momento, chamado de junção (slozhenie), se dá a cooperação da vontade, que é uma declaração de concordância com a paixão sussurrada pelo pensamento (Santo Efrém, o Sírio), ou consentimento [aprovação] da alma com o que foi apresentado pelo pensamento, acompanhado pelo prazer (São João Clímaco).

Este estado já se "aproxima do ato de pecado e é similar a ele" (Santo Efrém, o Sírio). Aqui vem a vontade deliberada de atingir a realização do objeto do pensamento apaixonado por todos os meios disponíveis para o homem. Em princípio, já foi tomada a decisão de satisfazer a paixão. O pecado já foi cometido em intenção. Resta agora, para satisfazer o desejo pecaminoso, transformá-lo em ato concreto.

Às vezes, porém, antes da decisão final do homem em proceder este último momento, ou mesmo após essa decisão, ele experimenta uma luta entre o desejo pecaminoso e a inclinação oposta de sua natureza.

Mais tarde, ele cita São Nilo de Sara que escreve:

A melhor e mais bem sucedida luta ocorre quando o pensamento é cortado por meio de oração sem cessar bem no início. Pois, como os Padres já disseram, quem se opõe ao pensamento inicial, ou seja, a provocação, parará sua subsequente destruição de uma só vez. Um asceta sábio destrói a mãe dos monstros malignos, ou seja, a provocação astuta (primeiros pensamento). No momento da oração, acima de tudo, o intelecto deve ser rendido, surdo e mudo (São Nilo de Sinai), e o coração vazio de qualquer pensamento, até mesmo um pensamento aparentemente bom (São Hesychius de Jerusalém). 

A experiência tem mostrado que a admissão de um pensamento desapaixonado, ou seja, uma distração, é seguido por um apaixonado (mau), e que a entrada do primeiro abre a porta para o último.
Esta oração sem cessar pode ter mais de um significado; pode assumir a forma de constante repetição de uma fórmula, como a Oração de Jesus, ou de um simples estado emocional de abertura para os níveis mais elevados ou centros superiores com nenhuma atividade específica, mas todos estes se tornam incessantes apenas quando são mais fortes do que as tentações. Isto, a ação da oração sem cessar dando controle sobre o comportamento sem rumo da mente, está muito perto de um centro magnético completamente formado. Mas primeiro é preciso visar nas fases iniciais de estabilidade parcial, que só podem ser ativamente mantidas em condições abrigadas, e nós precisamos compreender que, quando essas condições abrigadas não estão disponíveis, o mesmo estágio na formação do centro magnético torna-se uma luta contínua contra a perda de controle devido a condições externas. Esta luta longa e difícil com hábitos é característica deste trabalho fora do monasticismo.

A luta contra o hábito depende de quão profundo o hábito está estabelecido. Algum esforço, e particularmente uma longa persistência, é necessário para lutar contra todos os hábitos: "No entanto, o último momento psicológico de uma vacilação instável da vontade entre duas inclinações opostas, ocorre apenas quando o hábito ainda não foi formado dentro da alma, ou seja, o "mau hábito" de responder ao mau pensamento. Este tem lugar quando uma inclinação pecaminosa ainda não penetrou profundamente a natureza do homem e ao ponto de tornar-se uma característica constante de seu caráter, um elemento familiar em sua disposição, quando sua mente está constantemente preocupada com o objeto do desejo apaixonado, quando a própria paixão ainda não foi completamente formada."

6. Cativeiro (em russo plenenie)

No relato de Kontzevitch dos estágios de provocação, escreve sobre estágio 6, o "cativeiro":

Quando está sob o poder da paixão, homem alegremente e violentamente corre para satisfazer essa paixão, seja sem qualquer luta ou quase sem luta, aqui ele está perdendo o poder dominante, orientador e controlador de sua faculdade volitiva sobre nossas inclinações individuais e as exigências de natureza volitiva. Já não é a vontade que governa sobre inclinações pecaminosas, mas as inclinações que mandam sobre a vontade, forçando e seduzindo totalmente a alma, obrigando toda a sua energia racional e ativa a se concentrar no objeto de paixão. Este estado é chamado cativeiro (plenenie). Este é o momento do desenvolvimento completo de uma paixão, do estado plenamente estabelecido da alma, que agora manifesta toda a sua energia ao extremo.


Este quadro implica que o homem possui um grau de controle e, em seguida, perde-o. Em algum tempo, quase todo mundo aprendeu a controlar suas próprias respostas em situações específicas que variam de acordo com a sua vida prévia. Mesmo hoje em dia, quase todos nós aprendemos a não responder a algumas tentações. Mas, com ideias modernas de liberdade, até mesmo esse auto-controle ocasional torna-se cada vez menos comum ou opera apenas em situações especiais e muito limitadas, É por isso que o poder das paixões cresce mais forte ano a ano, algo que explica a epidemia do uso de drogas e outras distrações pelo qual as pessoas se escondem da vida. Para a humanidade em geral, isto conduz a problemas sociais. Para o indivíduo, isto significa somente que a dificuldade de superar as paixões torna-se maior de modo que a santidade parece mais e mais fora do nosso alcance. O fato é que, quando o processo de formação da paixão está completo, a luta contra o hábito só é possível através do sofrimento intencional; isto não é um "sofrimento estúpido", assumindo o sofrimento inutilmente, mas sim um "sofrimento útil" de forma voluntária, se recusando a satisfazer essas paixões. Esta luta é muito mais difícil sem a oração, embora certos estágios pode fazer que a oração em si pareça difícil, ou mesmo infrutífera por tempo.

retirado do livro A Different Christianity: Early Christian Esotericism and Modern Thought  - Robin Amis 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Psicologia "Principial": A Natureza Tripartite da Psique Humana na Queda e Restauração (Por Charles Upton)


Giovanni di Paolo - The Creation of the World and the Expulsion from Paradise
A natureza tripartite do microcosmo humano - Espírito, Alma e Corpo - está diretamente relacionada com a natureza tripartite do macrocosmo - O Plano Celestial / Inteligível / Espiritual; o Plano Psíquico/Imaginário e o Plano Físico/Sensual - encontra-se refletido em um nível inferior dentro da alma ou da própria psique. Em conformidade com esta verdade, podemos dizer que a alma humana é composta de três faculdades principais: a mente racional, as afeições e a vontade. A mente racional é o reflexo psíquico do Intelecto; a vontade simbolicamente está relacionada com o corpo, uma vez que ela se manifesta mais visivelmente e concretamente como um movimento voluntário; e as afeições são, por assim dizer, o símbolo da psique como um todo. A alma é também sede dAquilo que a transcende, o intelecto espiritual, o Nous. Na alma original não caída, como Deus o criou, a mente racional se volta para o Intelecto para os seus princípios fundamentais; a vontade obedece às diretrizes que a mente racional obtém desses princípios; e as afeições capacita a vontade para obedecer à mente racional constantemente e de boa vontade.

Na alma decaída, no entanto - a alma condicionada por e identificada com o ego - o Intelecto espiritual é vendado; consequentemente, esta hierarquia é invertida. As afeições são agora atraídas para objetos inadequados (um estado simbolizado na Gênesis por Eva comendo fruto proibido) sem levar em conta o que a mente racional - em seu estado decaído - direciona; a vontade segue estas afeições rebeldes intencionalmente e aprovando o que elas sugerem (simbolizado oferta do fruto proibido  para Adão, que também comeu); e a mente racional (algo como a serpente no jardim) é pressionada a serviço da vontade, tanto para sugerir várias formas e métodos pelos quais poderia transgredir, como para justificar e racionalizar essas transgressões.

Assim, a alma caída, ou a dependência de um determinado vício, é hierarquizado (em ordem decrescente) como Afetos / Vontade / Racionalidade; A sugestão afetiva/sensual para o pecado aparece como um impulso que é imediatamente atendido, muitas vezes em quase completa inconsciência. A tentação para pecar, por outro lado, não quando impulsivamente cedemos a ela, mas quando pelo menos resistimos inicialmente  (já que se nós não resistíssemos ao impulso, nós não reconheceríamos como uma tentação), é hierarquizado como Afeições/Racionalidade/Vontade: a sugestão primeiramente aparece para as afeições, e em seguida é "entretida" pela mente racional que irá produzir argumentos a favor ou contra, e finalmente - a não ser que a tentação seja impedida com êxito - é promulgada pela vontade, seja mentalmente ou fisicamente. A culpabilidade cármica só surge quando a ação entra na terceira fase; somente a vontade pode pecar.

Mas o que exatamente é este "ego" que define a alma "caída"? O ego, no sentido em que estou usando o termo, não é a personalidade consciente de Freud e Jung, mas sim, o nosso apego obsessivo pela auto-definição, que é inseparável do nosso ato de definir quem são as outras pessoas e o que é o mundo. Quando a presença e providência de Deus estão encoberta para nós, a auto-definição se torna obsessiva e fixa; começamos a acreditar - inconscientemente, mas mesmo assim de forma eficaz - que somos autocriados; consequentemente, torna-se impossível para nós vermos que Deus está continuamente recriando nós e o mundo em que vivemos, e, assim, deixamos de apreciar a singularidade de cada momento. Perdemos a capacidade de deixar o mundo e as outras pessoas se revelem para nós, e nem mesmo estamos interessados em aprender algo novo ou surpreendente sobre nós mesmos. A vida fica estagnada, e nós voltamos para as várias paixões, como a luxúria, avareza e a ira, em uma tentativa auto-destrutiva para superar essa estagnação. Além disso, o conhecimento e experiência, que estão necessariamente excluídos pelas nossas definições fixas do eu e do mundo começam a formar uma grande "mente inconsciente" - a inconsciência sendo simplesmente todas as coisas sobre nós mesmos e o mundo, e aos mundos superiores, que não queremos estar consciente, individual ou coletivamente, porque não queremos estar consciente de Deus. A prescrição de Platão para lidar com esse "inconsciente" foi a anamnese - a "recordação" (ou, mais literalmente, "a não-não-recordação"). Todo conhecimento está virtualmente presente em nós; a necessidade para atualiza-lo, para retornar ao que conhecíamos antes do "descuido", é o que os muçulmanos chamam de ghaflah, que nos expulsou do Paraíso.

Além disso, o conhecimento e a experiência excluída pelo ego é, paradoxalmente, inseparável do ego, sendo uma parte dele; encontra-se no sinal obsessivo da auto-definição. O ego é como um iceberg, uma parte consciente relativamente pequena no ápice e uma grande base do inconsciente. E já que é impossível de assumir responsabilidade por coisas que estamos inconscientes, e conscientemente colocamos nas mãos de Deus, nosso inconsciente se torna caótico e indisciplinado; ele aparece como um domínio das paixões. A psicologia Sufi chama esse ego inconsciente (comparável em alguns aspectos, de acordo com o professor Sufi Javad Nurbakhsh, ao id freudiano) de nafs al-Ammara, a "alma comandando para o mal". Se a mente racional for cortada do Intelecto, se as afeições governarem a vontade, e a vontade domina a mente racional em vez de servi-la, isso se dá inteiramente devido ao fato de que a nossa obsessiva auto-definição relega a maior parte da nossa psique, e maioria de nossa experiência potencial tanto deste mundo material como os mundos superiores sutis, à esfera inconsciente. Cada psicopatologia de qualquer que seja (excluindo, claro, aquelas condições, obviamente baseadas em causas físicas) em última instância, nasce do fato de que o ego, e não o Espírito de Deus, tomou posse do centro da psique humana, o coração espiritual. O fato de que esta ou aquela doença mental é refletida na fisiologia e química do cérebro também não prova que a fisiologia e a química do cérebro são necessariamente as causas da mesma. Quando estamos assustado por um evento interior ou exterior - a visão de um acidente de automóvel, por exemplo – faz a frequência de batimentos cardíacos aumentar. Será que isso significa que o nosso aumento na frequência cardíaca realmente causou o acidente de automóvel?

Assim, a inversão da hierarquia das faculdades psíquicas e nossa servidão ao ego são duas maneiras de falar sobre a mesma condição. Nós falamos da alma "caída" - mas quanto exatamente ela "caiu"? Já houve um "tempo", quando as faculdades da alma não estavam invertidas, pelo menos em parte, onde não havia "inconsciente"? Falamos, mais ou menos em termos míticos, da Idade de Ouro ou o Jardim do Éden; e idealizamos (ou pelo menos nós costumávamos) o paraíso da infância e / ou a "experiência oceânica" da vida no útero. Mas o fato é que, de acordo com a nossa noção de tempo linear, nenhum paraíso perdido está em evidência. A auto-definição obsessiva era um problema menor em nossa infância, mas a nossa capacidade de tomar decisões racionais, controlar nossos impulsos e conscientemente submeter nossas vidas a Deus também era menos desenvolvida (se, de fato, tiver melhorado até agora!) Então, somos forçados a concluir que, se há de fato houve uma "queda", foi uma queda da eternidade para o tempo, não necessariamente uma queda de um momento anterior e melhor. Em Deus todos nós estávamos perfeitamente, na forma como Ele nos conhecia e nos criou para ser; e considerando que a eternidade é um aspecto de Deus, todos nós estamos, em certo sentido, lá. Mas quando o tempo sobreveio - quando, devido à natureza excludente da nossa obsessiva auto-definição fez a experiência deixar de ser global e, fazendo-se parcial, necessariamente também se tornou sequencial (assim como uma sala escura, depois do pôr do sol, já não se pode mais ver tudo de uma vez, somente como sequencias parciais de pontos de vista de acordo para onde nós fixamos nossa lanterna), a alma caiu; a hierarquia adequada das faculdades psíquicas se inverteu. "Quando", ou mesmo "como" isso aconteceu pode vir a cair sob as perguntas que o Buda classificou como "tendendo a não edificação": a verdadeira questão é, não como entramos nessa prisão, mas como podemos sair novamente. A resposta a essa pergunta é o caminho espiritual, a expressão por excelência da "misericórdia especial" de Deus, al-Rahim, no curso desta caminhada, todas as perguntas necessárias serão respondidas, enquanto que todas as perguntas desnecessárias e estéreis serão alegremente esquecidas.

Nos primeiros estágios do caminho espiritual - aqueles conhecidos como "os mistérios menores" - o objetivo é devolver a alma à sua natureza original, como Deus a criou, assim, restabelecer a sua hierarquia própria, onde a mente racional obedece ao intelecto, a vontade obedece à mente racional, e as afeições obedecem à vontade. A alma é "edificada", construída como um edifício sólido, com uma ampla base de caráter forte apoiando o "pináculo" da consciência exaltada. Essa edificação representa o re-ordenamento da alma em seu modo ativo, o retorno de sua capacidade de agir em consonância com os princípios espirituais. A alma humana também é capaz, no entanto, de operar em modo receptivo - como no caso da memória, por exemplo, assim como na imaginação ativa ou objetiva, que está em polos opostos da fantasia subjetiva. Quando as afeições são receptivas, elas recuperam a capacidade de refletir o Intelecto diretamente, sem a mediação de qualquer mente racional ou vontade individual - uma capacidade que define todo o aspecto imaginário da contemplação espiritual, bem como a contemplação da beleza espiritual na natureza, na arte e no corpo humano. Quando a vontade é pacificada mediante a obediência à mente racional, e a mente racional é corretamente reorientada obedecendo ao intelecto espiritual, a turbulência das afeições desaparecem, até que a substância emocional torna-se como um lago imóvel em um dia sem vento, capaz de refletir o sol, não como uma grande quantidade de pontos de luz separados e efêmeros, mas de uma forma unificada.
William Blake - Satan Watching the Caresses of Adam and Eve

A mente racional, a vontade e os afetos são as três faculdades principais da psique humana. A psique, no entanto, é também sede de várias faculdades de composição. A principal delas é a memória e a imaginação, ambas assumem três formas diferentes: passiva, ativa e transcendentais, que estão relacionados com as três gunas ou modos de Prakriti (Substância universal) no Hinduísmo: tamas, rajas e sattwa. A imaginação ativa pode ser dividida em modos introvertidos e extrovertidos.

Na memória passiva, a ação é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade, diretamente linha da condição da alma decaída. As afeições sugerem uma impressão, a vontade segue imediatamente, e então o pensamento elabora. A memória passiva - devaneio nostálgico - é, em última análise, baseada na atração das afeições a forma sutil da natureza material, mediante ao anseio de voltar à nossa "mãe", nossas origens maternas no mundo natural, para além do conhecimento da mente racional e a resolução da vontade. (As pessoas viciadas na memória passiva verão toda a vida, mesmo sendo uma experiência humana, como um processo de "fazer memória"). Essa memória se torna quase necessária como uma "atividade recreativa" para a alma devorada pela obstinação racional da vida moderna, baseada na escravidão da mente racional à vontade, segundo a qual a alma está sempre tentando colocar as afeições em trabalho para abastecer esta ou aquela obsessão. A poesia crepuscular e putrescente de Georg Trakl é a expressão quintessencial desse estado. De certa forma pode ser vista uma vingança sutil dos afetos reprimidos sobre a obstinação que os reprime. A nossa natureza emocional, cansada de ser explorada e drenada por nossas ambições e obsessões, enfraquece-os periodicamente "desligando" a nossa racionalidade e vontade - mas como René Guénon apontou, o "sentimentalismo burguês" nada mais é que a face oposta do voluntarismo burguês racionalista. E na medida em que a memória passiva é apenas um recuar para "Este Mundo" como uma matriz projetiva (por mais que nós possamos inconscientemente temer este Mundo), ela destrói progressivamente a virtude da vigilância que faz a contemplação das realidades eternas possível. Essa busca inconsciente por segurança, ou por inconsciência como segurança, juntamente com os vícios de curiosidade e ambição cruel, é o que define a conquista da alma pelo poder de "deste mundo", o sistema coletivo de egoísmo e ilusão. É melhor se relacionar com o mundo natural através do trabalho, ou mesmo através de perigo, do que tomá-lo como uma espécie de resort de férias; se entendermos o mundo natural como rigoroso, assim como belo, então ele não se tornará para nós "as trevas deste mundo" (a escuridão imposta pelo complexo Ego / Mundo, porque não querem que nós observe ou acredite em nada além de seu horizonte ou fora do seu controle) mas sim o conjunto de Nomes e Sinais de Allah - um suporte para a contemplação, e não seu substituto.

Quando William Blake disse "A Memória é a Morte Eterna", ele estava se referindo a memória passiva. A existência governada pelo tempo e devir sempre está falecendo em Hades, no reino dos fantasmas; a condescendência com tal fantasmagoria nos faz moribundos, quase transformando nossas almas nos próprios fantasmas, mesmo antes da morte física, garantindo que nós deixaremos grande parte da nossa realidade humana para trás, na forma fantasmagórica. Tampouco a memória passiva realmente é livre da racionalidade intencional só porque tem o poder de separar-se temporariamente dela; ela permanece ligada à racionalidade voluntarista, assim como a sombra está vinculado ao objeto sólido. Como tal, ela permanece sob a hierarquia invertida de Afeições / Vontade / Racionalidade que caracteriza a alma caída em si. O estado da memória passiva é bem analisada por William Blake em seu poema Tiriel.

Dependendo se nossas lembranças são agradáveis ​​ou desagradáveis​​, a memória passiva irá chamar sentimentos nostálgicos por um lado, ou de arrependimento e / ou repulsa por outro. E a memória passiva, seja agradável ou desagradável, é a expressão emocional do estado da alma caracterizado por Kierkegaard, em O Desespero Humano, como "desespero da necessidade", não aquele desespero em que a necessidade é ausente, mas aquela necessidade, não em termos eternos como o Ser Necessário, mas no temporal como o destino irrevogável, é a base do nosso desespero. Ambas as lembranças agradáveis ​​e desagradáveis​​, quando estão sob o poder da memória passiva, geram desespero; a expressão poética clássica do reconhecimento consciente de tal desespero (que, embora muito doloroso, também pode representar uma chance real para acordar, para começar nossa luta pela liberdade) está no poema de Francis Thompson A Cidade da Noite Terrível.

A memória ativa é algo mais elevado que a memória passiva. É o uso intencional da mente racional para acessar este ou aquele item de informação factual (informação verdadeira, não de fantasia), empregando as afeições, colocando em uso seu poder de simpatia. A memória ativa é hierarquizada Vontade / Afeições / Racionalidade: a intenção de lembrar algo emprega as afeições como seu "motor de busca", depois da qual a mente racional corrige os resultados com o saber consciente. A memória ativa representa, portanto, uma reparação parcial da condição caída da alma, que é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; é um passo em direção a edificação.

Em busca do passado, a memória ativa não procura por potenciais, mas por fatos, por coisas que já foram realizadas; consequentemente, ela está operando, de modo imperfeito, mas válido, no reino do Ser Necessário. Na medida em que os fatos habitam no passado, eles estão separados da ordem metafísica, que subsiste no eterno presente; mas na medida em que são realidades, e não meras possibilidades ou potenciais, eles participam desse reino - uma vez que, de acordo com os filósofos escolásticos, Deus é tanto Ser Necessário e Ato Puro. De forma que quando a história acabada, ela está concluída; na medida em que está concluída, ela está perfeita. Já não está sujeita ao devir. Assim, a compreensão de eventos passados ​​é uma abordagem real da intuição da eternidade, no sentido metafísico. E isso é ainda mais verdadeiro no estudo das leis físicas e axiomas matemáticos, que são os mesmos em todos os lugares e tempos; é por isso que Platão considerava o estudo da matemática como o melhor caminho preparatório para o entendimento da metafísica.

A memória transcendental se baseia em realidades situadas além da hierarquia das faculdades psíquicas; ela pode ser vista como a oitava superior da memória ativa. Em termos do caminho espiritual, a memória transcendental possui uma função mais elevada do que a busca de fatos objetivos - que é, no entanto, um bom treinamento preparatório para ela, uma vez que a essência do caminho é superar subjetividade egóica e alcançar a Verdade Objetiva. Na terminologia tradicional aplicável ao caminho espiritual, a memória transcendental é a recordação, cuja forma mais elevada é a lembrança de Deus (dhikr; japam; Mnimi Theou). Lembrar a Deus é reconhecê-Lo como o Único Absoluto e Fato Todo-abrangente, do qual todos os outros fatos são meros reflexos - é por isso que os verdadeiros fatos de qualquer situação, passado ou presente, são um modo da presença real de Deus ali. A lembrança de Deus é "memória" no sentido de que ela lembra, ou chama de volta, uma realidade esquecida; esquecida, no entanto, não no passado, mas (ou debaixo) no presente. A memória que estamos buscando terá como conteúdo algum evento passado, mas a verdadeira forma dela já se situa abaixo da superfície da consciência, neste exato momento.

A lembrança de Deus invoca a pré-eternidade, que é muitas vezes sentida como uma nostalgia de um paraíso perdido - não o paraíso natural da memória passiva, mas o paraíso celestial da forma humana Eterna. Lembrar que estávamos uma vez unidos a Deus na pré-eternidade é começar a lembrar que a pré-eternidade não é se situa fundamentalmente no passado, mas no presente. Deus está aqui; A eternidade é agora. (Os cabalistas dizem: "o que está aqui está em outro lugar, o que não está aqui, está em lugar algum" Isso pode ser parafraseado, em termos temporais, ao invés de espaciais, como: "O que é real agora sempre foi e sempre será real; o que não é real agora nunca vai ser, e nunca foi ". À luz disto, a procura "alquímica" de William Blake "o que pode ser destruído, deve ser destruído!", faz todo o sentido).

Na medida em que reconhecemos Deus como presente neste momento, começamos o processo de "retirada de projeções". Projeção é a tendência de falsamente ver a si mesmo como ser em alguma coisa, pessoa ou situação no mundo exterior, ou no mundo como todo. Mas uma vez que Deus é infinito e absoluto, e uma vez que "o reino dos céus está dentro de ti", a realização de Sua presença corta todos os laços com a memória e a expectativa; o que tem sido, é agora, e assim o passado é apagado - como passado, isto é - não esquecendo, mas lembrando, dado que todas as coisas estão presentes em Deus. Além disso, o que será já está aqui, de modo que o futuro também é obliterado: tudo o que poderia ser desejado (pelo coração) ou temido (pelo ego) está aqui na Presença Única.

A lembrança de Deus, portanto, afeta a lembrança da forma humana. O ser humano imerso no devir, ligado à roda do nascimento e morte, é desmembrado, não espacialmente, mas temporalmente; o desmembramento de Osíris e sua reconstituição por Ísis é um símbolo desta condição.  Ele deixa o passado coberto de sua experiência, o futuro cheio de sua intenção. Mas, quando a presença de Deus é recordada no momento presente, e essa lembrança é estabilizada, então os membros dispersos do memorial, magicamente remontam-se, como os ossos secos da visão de Ezequiel; nas palavras de Rumi (dirigida a Deus) de uma das suas quadras, "Quando Você voltar, tudo retorna." O desapego do passado e do futuro, quando este é o lugar onde a maior parte da nossa identidade é posta, é experimentada como a aniquilação, a Fana Sufi. E o retorno das nossas auto-projeções psíquicas do passado e futuro, quando completo, é experimentada como o Baqa Sufi, a subsistência em Deus -  subsistência como a forma humana integral residente no eterno presente, a essa realidade os sufis chamam de al-insan al-Kamil, o Homem Perfeito. O retorno dessas projeções é legitimamente simbolizado pela ressurreição dos mortos - nesse ponto, nas palavras de Blake, "Filhas de Memória [Musas] tornam-se as Filhas da inspiração".  Este é o reino do Tantra, a dimensão em que as nossas paixões e obscuridades (os nossos medos e desejos, nossos afastamentos e anseios, nossas projeções), em vez de serem suprimidos ou cortados, passam por uma metanoia, até que eles se revelam como a própria substância da manifestação universal de Deus, que é igualmente o Shakti ou Poder de Atenção pelo qual nós contemplamos.

Quando a memória ativa culmina na lembrança de Deus e a memória passiva é superada, o desejo nostálgico e / ou a repulsa da memória passiva são transformados em gratidão - gratidão pela misericórdia de Deus. E esta transformação ocorre, precisamente, por intermédio do desgosto. Desgosto é uma das sensações mais desagradáveis ​​que podemos experimentar, mas também é um dos sinais mais esperançosos da catarse, da purificação espiritual.

Imaginação passiva, como a memória passiva, é hierarquizada Afeições / Vontade / Racionalidade; seu outro nome é "fantasia". (Aqui, podemos ver como as paixões da alma decaída estão diretamente relacionadas com a passividade e, portanto, quão deliberada, uma ação de princípios, embora possa ter certas consequências negativas, ainda é um verdadeiro passo para a redenção.) Nossas afeições são atraídos por este ou aquele conjunto de impressões dentro do reino sutil; nossa vontade é apropriado por eles e se envolve com eles; nossa mente pensante (em grande parte mediada pelo discurso inconsciente) desenvolve-os, forma-os em imagens articuladas; é isto que é fantasiar. Imaginação passiva é como a memória passiva exceto que essa lida com as coisas que nunca existiram no mundo material, e pode nunca vir a este mundo - como possibilidades, isto é, não como necessidades.

Imaginação passiva tem a ver não com fatos, mas com potenciais. Talvez nunca tenhamos a intenção de trazer esses potenciais para o mundo real, optando desfruta-los como se fossem um mundo em si, ainda assim estão sempre pressionando por uma encarnação, e são fantasias de luxúria ou raiva que nos conduzem frequentemente a ações luxuriosas ou violentas. E se nós desfrutarmos dos potenciais que nunca pretendemos realizar, nossas vidas se tornam irreais; assim, a imaginação passiva, pode ser comparada, com precisão, a sexualidade quando divorciada tanto da reprodução como da contemplação, os quais representam a realização das potencialidades inerentes a ela. (A resistência da imaginação passiva à realização concreta de potenciais é analisada por William Blake em O Livro de Thel.)

 Imaginação passiva, uma vez que tem a ver com o Ser Possível em vez do Ser Necessário, existe em um nível ontológico inferior a memória passiva. Ela evita a realidade, tanto prática como metafísica, e, portanto, tende a substituí-la. É um parasita da realidade. Ela pode dar uma sensação de que muito é possível, que a nossa vida e alma são tão ricas em potencial que se pode usar seu precioso tempo na concretização deste potencial, uma vez que é praticamente imortal. As desvantagens desta ilusão são analisados ​​na peça japonesa Nō Kantan e na canção de Simon e Garfunkel "Hazy Shade of Winter".

Imaginação passiva, claro, também está sujeita a pesadelos, à apreensão dos potenciais negativos; sendo rica, convida-nos para contemplar aquilo que gostaríamos de ver acontecer, ou apenas ver, assim ela se encontra inseparável da temorosa contemplação daquilo que temos medo que possa acontecer, ou o aquilo que estávamos com medo de nunca testemunhar, mesmo no nível imaginário. A irresponsabilidade que alimenta a imaginação passiva positiva é sempre eventualmente compensada pela insegurança rastejante que convida a imaginação passiva negativa; se não estamos cumprindo nossos deveres, podemos legitimamente temer que a vida vai nos dar um sério golpe. A imaginação passiva (especialmente em sua forma positiva) é analisada por Kierkegaard em O Desespero Humano como "desespero da possibilidade" - e não o desespero do impossível (o que seria o "desespero da necessidade"), mas o desespero que se esconde na fantasia da própria possibilidade.  No entanto, o desespero da necessidade, muitas vezes subjaz desespero da possibilidade. A falsa esperança que costuma dizer "tudo é possível!", enquanto não toma sequer o primeiro passo para realizar tal possibilidade à mão, geralmente não passa de uma negação de um sentimento subjacente de que "nada é possível", que se  alguém tomasse as medidas concretas necessárias para realizar determinado potencial, esse inevitavelmente daria de cara com a porta da realidade.
Imaginação ativa é um passo acima do mundo de fantasia "infra-psíquico" da imaginação passiva. É hierarquizado (como uma tentação conscientemente resistida) como Afeições / Racionalidade / Vontade; consequentemente, ela também é um passo parcial em direção a edificação. Ela assume duas formas. Na imaginação ativa introvertida, nós conscientemente interagirmos com as imagens simbólicas que a nossa psique nos apresenta, assim interrogando-as, desafiando-as, para alcançar maior insight psicológico (e por vezes mesmo espiritual). A substância afetiva da alma recebe a impressão de uma imagem simbólica interior; a faculdade racional questiona esta imagem e, assim, transforma sua aura evocativa de significado oculto em conhecimento consciente; a vontade, em seguida, tem a intenção de realizar existencialmente as conseqüências psicoespirituais do conhecimento, assim ganhadas. Esta é uma das principais ferramentas do método psicanalítico de Carl Jung e sua escola. Na sua forma extrovertida, a imaginação ativa representa o processo de trazer potenciais para fora do reino imaginário e para a manifestação física concreta neste mundo. As afeições "atraem" e "entretém" o potencial em questão, a mente racional transforma esse potencial em um plano eficaz; e a vontade leva-o para fora. 

A imaginação transcendental, assim como a memória transcendental, baseia-se em realidades que existem além da hierarquia psíquica. É a imaginação Eterna de William Blake, em linha caracterizava o Espírito Santo como "uma fonte intelectual". Ibn al-'Arabi fala de dois níveis discretos do mundo da imaginação, o alam al-mithal. Enquanto o inferior surge a partir das impressões armazenadas de experiência sensorial; o mais elevado (al-Malakut) recebe impressões diretas do Plano Inteligível dos Arquétipos eternos ou das idéias platônicas (al-Jabarut), e os veste de forma imaginária. A forma inferior da imaginação recorre as impressões de experiência sensoriais do passado mostra a identidade oculta ou afinidade entre a memória passiva e a imaginação passiva. A forma mais elevada de imaginação emana diretamente do Plano inteligível, e, portanto, constitui o mais próximo, a relação mais plenamente encarnada (no sentido sutil) entre a psique humana e o mundo dos princípios metafísicos, não mediada pelo discurso racional abstrato, mas pela reverberação imaginal concreta da intelecção direta, estabelece a identidade entre o plano elevado imaginário de Ibn al-'Arabi e da Imaginação Divina de Blake ou a inspiração poética. Estes dois níveis de imaginação, no entanto, não são completamente independentes, tendo em conta que uma inspiração que emana a partir do nível mais elevado deve revestir-se com a substância do inferior; nós não poderíamos imaginar a Sabedoria como uma linda mulher se nós nunca tivessemos visto mulheres bonitas. É verdade que o arquétipo da beleza feminina existe em um plano mais elevado do que o material, e que toda a beleza feminina neste mundo é derivada dela. No entanto, se esse arquétipo tentasse se manifestar diretamente neste mundo, na ausência de quaisquer memórias da beleza feminina, ou de presente contemplação desta beleza em forma humana, seria irreconhecível e, assim, ininteligível. Beatrice de Dante era um raio da beleza divina, cujo lar adequado era o Paraíso - ainda que ele nunca a vira, mesmo que brevemente, neste mundo, ele nunca poderia tê-la reconhecido em seu ambiente celestial. (Aqui, aliás, pode residir uma verdade por trás afirmação problemática de Tomás de Aquino, que parece negar a realidade da intelecção direta, que o conhecimento pode alcançar a alma somente através dos sentidos.) Não obstante, enquanto o ta'wil (exegese no sentido de "retorno à fonte") da imaginação mais elevada conduz ao plano dos princípios metafísicos eternos, o ta'wil da parte inferior, a menos se transportar em si parte do mais elevado, leva apenas a escuridão do mundo material, cortado dos níveis mais elevados da hierarquia ontológica e, portanto, praticamente inexistente. (Para a melhor introdução à doutrina da imaginação de Ibn al-' Arabi, consulte Imaginal Worlds por William Chittick. Devemos também observar que Ibn al-' Arabi postula um terceiro nível de imaginação, o universal, que é simplesmente afirmar que o todos os mundos, celestial, psíquico e materiais, brotam e constituem a Imaginação Universal de Deus.)

Imaginação transcendental é extremamente ativa; no entanto, não em relação a nossa ação, mas a de Deus, que imprime diretamente sobre a substância afetiva de nossas almas em seu estado quintessencial as verdades que Ele nos quer, não apenas para fantasiar sobre ou pensar, mas para realizar. Quando a camada afetiva da psique está polarizada e diferenciada em várias emoções específicas, não é possível receber as impressões da imaginação transcendental. Quando, no entanto, ela retorna ao seu estado indiferenciado através da virtude da apatia ou da impassibilidade espiritual, que pode ser representado como a resolução dos quatro elementos ou quatro qualidades emocionais primitivas [ver Capítulo II] em sua origem comum no Aether, que é sua Quintessência ("emoções" sendo determinações específicas da substância afetiva que estão em seu caminho para se tornarem "impulsos", "motivos" ou "motivações", em sua interação com a vontade), esta torna-se receptiva às impressões que emanam não a partir do ambiente circundante psíquico mas diretamente do espiritual ou Plano inteligível. Imaginação passiva é passiva, não receptiva; não é propriamente intencional. A imaginação ativa é realmente ativa e intencional, mas apenas no plano individual, embora os símbolos que ela interaja individualmente possam ter um aspecto transcendental. Imaginação transcendental é uma atividade em si, a união de uma determinada verdade eternamente atualizada na Mente de Deus com a boa vontade ativa para que o sujeito humano receba e conceba (e não simplesmente permanecer passivos a ela) esta verdade. Quando a Virgem Maria disse, em Lucas 1:38, "Faça-se em Mim Segundo a Palavra Tua", ela estava abrindo não apenas sua psique, mas seu próprio corpo para a imaginação transcendental de Deus.

Como vimos, a imaginação passiva é ontologicamente inferior memória passiva porque lida com potenciais não realizados. Da mesma forma a imaginação ativa é ontologicamente inferior memória ativa, mas é espiritualmente superior, no sentido de que a contemplação da Necessidade através da memória, embora mais elevada do que o entretenimento da Possibilidade através da imaginação, nem sempre é fértil para nós em termos espirituais, pois é um atributo de Deus, e não da psique humana, e, conseqüentemente, pode, por vezes, ter um efeito paralisante sobre nossa vida espiritual. A contemplação da Verdade eterna como Ser Necessário apenas, completo em um Passado eterno governado pelo Ancião dos Dias, irá - a não ser que nosso próprio futuro torne-se espiritualmente grávido, a menos que possibilidade seja ativada - tornar o progresso espiritual impossível. Em certo sentido, Ser Necessário é o próprio Deus, o único que não pode deixar de ser. Em relação ao ego humano, no entanto, o Ser Necessário é transformado no desespero da necessidade, os laços de fatalidade e karma. Da mesma forma, embora o Ser Possível não seja o que deve ser, mas apenas o que pode ser - meramente contingente, não absoluto - em relação ao ego humano ele pode, se Deus quiser, ser transformado em virtude de esperança. Podemos certamente esperar que uma das coisas que podem ser, seja a nossa própria realização de Deus. Na medida em que estamos imersos na possibilidade do devir, e não na Necessidade da Verdade Eterna, apenas a manifestação dessa Necessidade como uma possibilidade concreta em nossas próprias vidas nos pode oferecer alguma esperança de libertar-nos. Assim, poderíamos dizer, parafraseando os Padres Orientais, que "O Ser Necessário se torna ser possível para que essa possibilidade possa se tornar Necessidade". O que só "pode ​​ser" é perpetuamente incerto e pouco confiável - e ainda outro significado da palavra "pode" é precisamente poder. O poderoso é aquele que tem o poder de atualizar possibilidades, de transformar o ser possível em Ser Necessário; portanto, "Com Deus, todas as coisas são possíveis."

Memória ativa e a memória transcendental são, respectivamente, uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do passado; a imaginação ativa e imaginação transcendental são uma abordagem e uma chegada na Eternidade através do futuro - ou melhor, elas são o futuro no ato de se aproximar de nós, e se tornando presente para nós como Eternidade, para além do medo e desejo. Quando a pré-eternidade da memória e a pós-eternidade da imaginação estão unidos no eterno presente, esta é a Eternidade em si, na qual a lembrança de Deus como Eterna Realidade e a auto-revelação de Deus como a Misericórdia de Possibilidade são um e o mesmo.

Quando a memória transcendental e a imaginação transcendental se unem, o intelecto divino é revelado; quando o intelecto divino nos é revelado, a alma decaída é edificada, sua hierarquia invertida das faculdades se configuram corretamente - ou melhor, na posição vertical. As faculdades estão corretamente hierarquizadas ao longo do axis mundi e, conseqüentemente, orientada para o que os sufis chamam de Qutb, o Pólo do intelecto espiritual, tanto cosmológico e pessoal - a realidade que TS Eliot chamou de "o ponto imóvel do mundo que gira", e que aparece na pessoa do Mestre espiritual. Tornamo-nos edificados, eretos, seres humanos justos - Tzaddikim. (A letra hebraica tsade simboliza, entre outras coisas, "o norte", o quarto do Pólo.) A racionalidade serve a Intelecção diretamente; a vontade serve a Intelecção indiretamente, obedecendo os ditames da razão; as afeições capacitam a vontade para servir e assim purificando a mente racional, bem como abrindo-a mais plenamente para Intelecção; também estará presente o poder de refletir diretamente a Intelecção espiritual no plano da psique, assim como um espelho reflete a luz. Esta é a cumprimento dos "mistérios menores" que, no contexto do caminho espiritual, é o próprio objeto da Psicologia principial. Além disso, além da psicologia, além da própria psique, encontram-se os "maiores mistérios" que constituem a união final da alma com Deus.

Charles Upton - Principal Psychology