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domingo, 12 de outubro de 2014

Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski Contra o Mito Iluminista (por Jay Dyer)

No decorrer do que hoje é chamado de "Filosofia Continental," três figuras destacam-se como proeminentes pensadores capazes de sondar as profundezas mais íntimas da psique humana de tal forma até então desconhecida, desde, talvez, Shakespeare: Soren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche e Fyodor Dostoiévski. Estes três foram mais ou menos contemporâneos, e todos compartilhavam um interesse similar fascinante - derrubar os ídolos ideológicos do seu dia, e, em especial, a fachada do indivíduo pós-iluminista "homem moderno". Muito embora esses homens certamente tinham diferentes visões de mundo e provavelmente debateriam grandes temas como o significado preciso da relação de Deus e do homem no universo, eles compartilhavam uma aversão semelhante à hipocrisia, mentiras e falsidades, e tornou-se parte de seus objetivos iconoclastas desmascarar esses véus.

Francis Bacon deixou o seu objetivo como um luminar do Iluminismo para derrubar o que ele percebeu ser ídolos em seu Novum Organon - ídolos da tribo, da caverna, do mercado e teatro. Ídolos da tribo significaria a aniquilação dos ideais sociais abstratos impingido realidade; ídolos da caverna refere-se a interpretações míopes da realidade de acordo com uma fantasia especial de algum acadêmico individual; ídolos do mercado refere-se à apropriação indevida da palavra e coisa, a atribuição de uma identificação indevida entre os dois; e os ídolos do teatro, onde as ideias são construídas em uma falsa pressuposição da teologia ou da especulação metafísica, tornando-se abrigado no discurso público. Este tratado engloba o impulso do Iluminismo e sua obsessão com aquilo que René Guénon chamou de "reino da quantidade." Tudo é medido e classificado de acordo com algum estreitamento quantitativo da razão do homem. O conhecimento científico, ou mais especificamente, o cientificismo, torna-se o paradigma dominante, em que todas as coisas são medidas, seja religião, política, economia e mercado, todas as coisas são em potentia capazes de uma formalização racional e, como um grande algoritmo, todos os males da humanidade simplesmente aguardam a solução da academia e de suas calculadoras de laboratório.

Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski usaria essa mesma metodologia contra si mesma. Será possível que Bacon e sua descendência iluminista são culpados pelas coisas que procurou destruir? Será que os filósofos constroem seus próprios ídolos? Antes de Nietzsche, primeiro deve-se mencionar a influência de Soren Kierkegaard. Kierkegaard tinha lutado com a complacência e o formalismo da igreja luterana oficial de sua época, resultando em uma viagem introspectiva que iria levá-lo até mesmo questionar a natureza do eu. Kierkegaard, no entanto, não analisou o ‘eu’ de uma forma privilegiada abstrata e 'científica' como é encontrado em alguém como Descartes e seu cogito, mas sim em uma relação dialética do 'eu' consigo mesmo e o outro. Em O Desespero Humano, o ‘eu’ deve entrar em desespero e, revelando sua própria finitude, encontrará o consolo em um relacionamento com um Deus infinito. Para Kierkegaard, esta é a única maneira de escapar da dialética contínua do homem decaído preso por ser um filho de Adão.

O crítico Merold Westphal escreve:
Para esses três mestres seculares da desconfiança [Marx, Nietzsche e Freud] as ilusões que devem ser desmascaradas são as do auto-interesse que aparece como dever e virtude, e do egoísmo fingindo para o mundo e para si mesmo que é o altruísmo. O exemplo de Nietzsche sobre o espírito de ressentimento dando origem a uma demanda de vingança, mas posando como amor e justiça, é uma espécie de paradigma. Mas o pecado nada mais é do que um egoísmo face a face ao meu vizinho. É também a incapacidade de amar a Deus com todo o coração. A auto-ilusão humana agora inclui a vontade de autonomia em relação à Deus juntamente com a vontade de domínio sobre meu vizinho. Inevitavelmente sua implantação na história acrescenta uma nova dimensão à arte da desconfiança.
Aqui continua Nietzsche desde Kierkegaard, mantendo a sua "arte da desconfiança." Em vez de sucumbir a um sistema moral que leva inevitavelmente ao fracasso e a miséria (o esquema cristão), fomentando em ressentimento e ódio aos outros sob o pretexto de "salvação" do 'eu' que é supostamente criado por um Deus bom, Nietzsche transforma a suspeita de Kierkegaard na própria moralidade cristã, bem como sobre o iluminismo.

 Para Nietzsche, o Iluminismo deu origem à crítica, ou a arte da suspeita, e ao fazer isso, haviam deixado de lado Deus. Este é o significado da famosa frase "Deus está morto". Ao invés de ser uma afirmação sobre o que Nietzsche acreditava no que diz respeito a algum esquema ontológico (como é frequentemente mal interpretado), é uma declaração descritiva sobre o estado atual e o futuro da civilização ocidental e sua relação com o Deus judaico-cristão. O Iluminismo criticou com sucesso os pressupostos metafísicos e teológicos anteriores herdados de nomes como Platão, Aristóteles, Galeno, Ptolomeu, Agostinho e Tomás de Aquino, apenas para encontrar-se ainda à procura de uma grande narrativa que totalizou uma visão exaltada, idealizada e abstrata do "homem" ou "humanidade". Com Immanuel Kant, por exemplo, ao extrapolar uma moral imperativa categórica deve, logicamente, conduzir a um governo mundial onde a humanidade é guiada pela razão e harmonia - uma verdadeira utopia cientificista! Embora, em seguida, com Kierkegaard e Nietzsche e Dostoiévski, como veremos, começamos a ver o problema dessa abstração.


No entanto, o cogito de Descartes não era algo que Kierkegaard, Nietzsche ou Dostoiévski pudessem evitar completamente. As sementes do individualismo haviam sido plantadas. Descartes, sendo um pouco racionalista, não poderia ter previsto o dilema existencial que seu cogito criaria, mas ao girar o olhar do homem sobre si mesmo para desconstruir a psique resultaria em existencialistas desconstruindo o mito do Iluminismo. Louis Dupre escreve:

Para Descartes, a verdade da natureza se torna estabelecida na reconstrução feita pela mente. A mente desse modo, funciona como o espelho no qual a reflexão origina a verdade. Mas se é assim, como pode conhecer a si mesma, Gassendi se perguntou. O olho físico, incapaz de ver-se diretamente, no entanto, é capaz de ver a si mesmo no espelho, porém para Descartes, não há espelho além da mente. Se não sabemos a natureza do espelho, no entanto, como podemos avaliar a sua capacidade de refletir a verdadeira natureza das coisas? Nesta objeção reside todo o problema do conhecimento como representação. A menos que o olho conheça a si próprio, como poderia ele saber como (e, no final, o que) reflete? O que permite que a mente possa se referir a imagem espelhada de um original se ela ignora como reflete o original? Descartes sentia que essa objeção estava no coração de sua teoria, e respondeu que o espelho da mente reflete também a si mesmo. No entanto, a mente possui nada mais do que uma consciência de sua existência. Será que isso é suficiente para justificar o conhecimento das coisas em si mesmas por meio de um ato de representação? Locke percebeu a dificuldade e afirmou que a mente só conhece suas próprias ideias.

Aqui o pensamento iluminista começa a entrar em colapso sobre si mesmo. Começa a tornar-se evidente que a mensuração quantificada e abstrata de toda a realidade - seja fazendo toda a realidade ser matéria ou uma ideia, termina no mesmo dilema: o solipsismo. O solipsismo não é o tipo de posição que um racionalista iluminista prefere adotar, uma vez que é uma posição fundamentalmente irracional. Kierkegaard reconhece que o 'eu' estava dialeticamente relacionado com si e outros eus, e, finalmente, ao Outro Eu (Deus), e em sua incapacidade de encontrar consolo e significado o levou a uma espécie de justificação individualista pela fé no esquema Luterano.

Nietzsche “morde a bala” e simplesmente rejeita tudo isso em toto. Em outras palavras, por que considerar o 'eu' como mal, como o cristianismo faz? Por que aceitar que Deus exige uma dívida que só pode ser paga pelo reconhecimento primeiro de sua própria pecaminosidade inerente? Deus não sabia isso sobre o homem (sua pecaminosidade infinita) pra começar, então o pagamento de uma morte infinita pelo sacrifício Dele mesmo pra pagar a Ele próprio se torna um exercício irracional. No entanto, o Cristianismo, desde a época escolástica e do seu subproduto (da época do Iluminismo), argumentou gradativamente se afastando da redenção de Cristo, para um racionalismo, e então, pela mesma razão, rejeitou o racionalismo pelos argumentos da própria razão. Este dilema não foi imediatamente aceito pelos deístas e moralistas da época de Nietzsche, mas Nietzsche não temia em levantar a voz aos deístas e os cientistas mostrando suas contradições em seus próprios fundamentos.

Se o Iluminismo significou a morte de Deus como uma realidade ontológica, então não havia nenhuma razão coerente para sustentar o moralismo cristão, e na verdade, esses costumes se tornaram destrutivos e regressivos para aqueles que eram fortes. O Cristianismo era uma moralidade escrava por excelência, como ele argumentou no primeiro e no segundo ensaio de a Genealogia da Moral, assim como em O Crepúsculo dos Deuses e O Anticristo. Na verdade, a própria Civilização Ocidental inteira tinha partido de falsos pressupostos que começaram com ascetas como Sócrates e Platão, que tentaram fugir da realidade do presente em voos de fantasia e abstrações. Desde Platão o Ocidente recebeu um pesadelo dialético que levaria alguns milênios para se recuperar, se é que pode ser chamado de recuperação. Os modernos cientistas ateus não foram melhores. Ao contrário, eles foram piores em argumentar por algo ainda mais contraditório que aqueles da "Cristandade". O terceiro ensaio da Genealogia retoma o absurdo que Nietzsche vê nos "ascetas", que inclui os luminares do Iluminismo e os alemães medíocres de sua própria época.

Para Nietzsche, o Iluminismo baniu a cristandade e sua grande narrativa que forneciam o poder explicativo para os fatos aparentemente aleatórios e agressivos da vida, mas isso não foi um fato totalmente lamentável. Esta remoção dos ídolos de Bacon seria uma pílula difícil de engolir, e conduz a uma espécie de niilismo, como Dostoievski notou, mas para Nietzsche, isso resulta em uma possível ascensão de uma elite artística que criará um novo significado. A salvação do homem se encontraria na arte e na estética de uma nova narrativa e significado possível. Não havia nenhuma necessidade determinada que isso aconteça, é claro. É inteiramente possível que o homem possa desenvolver, para continuar o progresso evolucionário, outro mito iluminista: Não há nenhuma lei do progresso presente na fatualidade bruta da existência impessoal. Para Nietzsche, este super-homem traria redenção novamente - como um "Anticristo", já que, em sua análise, cristianismo é niilismo. A narrativa cristã e suas contradições inerentes, o ressentimento e a degeneração gradual que levou o homem ocidental ao niilismo e é sobre a dissolução deste sistema que um novo homem surgirá.

Robert Solomon explica:
Aristóteles tinha um ethos: Nietzsche nos deixa sem nada. Mas Nietzsche é, contudo, o ponto culminante de toda essa tradição - que ainda se referem como "filosofia moral" ou "ética" - baseada em um erro trágico e possivelmente irreversível tanto na teoria como prática. O erro é a rejeição do ethos como o fundamento da moralidade com a insistência compensadora na justificativa racional da moralidade. Sem um ethos pressuposto, nenhuma justificativa é possível. E assim, depois de séculos de degeneração, inconsistências internas e falhas no projeto iluminista em transcender o mero costume e justificar as regras morais de uma vez por todas, as estruturas de moralidade entram em colapso, deixando apenas fragmentos.


Dostoiévski, porém, continua a ser uma figura religiosa como Kierkegaard. Membro da tradição ortodoxa russa, em seus anos mais jovens ele estava possuído por uma visão liberal otimista da natureza humana que viria a se transformar em uma forma mais realista, uma avaliação negativa. Em oposição à suposição clássica liberal ocidental de que a "humanidade" pode ser elevada pela educação, os escritos de Dostoiévski oferecem aos leitores uma janela para o lado mais sombrio da natureza humana que a maioria prefere ignorar e fingir que não existe. O projeto do Iluminismo, importa recordar, era destruir os ídolos. Não deveria o arrogante homem ocidental destruir esse ídolo do mito de sua "bondade" interior? E o que dizer da escuridão interior que resulta em atrocidades? Por que o chamado progresso do homem resultou sempre numa crescente guerra, tumultos e revoluções no tempo de Dostoiévski? Se os homens não são uma tabula rasa - folhas em branco nas quais uma impressão correta, no ambiente e na educação podem criar um indivíduo bem formado, maduro e harmonioso, então o que é o homem?


Em Notas do Subsolo, Dostoiévski dá uma visão geral nos pensamentos de um homem desonesto, vingativo, egoísta e um pouco sádico. Este homem mesquinho passa a ser um homem normal - uma espécie de homem comum, mas um altamente inteligente. A força da apresentação literária reside precisamente no fato de que ele é um homem que todos nós reconhecemos, já que seus defeitos são comuns a todos os seres humanos, mas ainda assim é uma pessoa muito inteligente. Mas, se este tipo de egoísmo mesquinho está presente até mesmo no mais inteligente, a tabula rasa de John Locke, e as outras esperanças iluministas - a ideia idólatra de um homem inteligente abstrato - simplesmente substituiu Deus por um novo ídolo:
Dizem que Cleópatra (desculpem se dou exemplo da história de Roma), gostava de fincar alfinetes de ouro nos seios de suas escravas e sentia prazer com seus gritos e contorções. Os senhores diriam que isso foi numa época relativamente bárbara; que agora também vivemos numa época bárbara (relativamente, também), pois hoje também se enfiam alfinetes; que também agora, embora o homem tenha aprendido, vez por outra, a enxergar com mais clareza do que nos tempos da barbárie, ele está longe de ter aprendido a proceder da maneira indicada pela razão e pela ciência. Porém, os senhores estão firmemente convencidos de que ele se acostumará, quando alguns hábitos antigos, ruins, tiverem desaparecido completamente, e quando o bom senso e a ciência tiverem reeducado totalmente a natureza humana, direcionando-a para um estado normal. Os senhores estão convencidos de que, então, o homem deixará voluntariamente de errar, e a contragosto, por assim dizer, não irá querer opor sua vontade aos seus interesses normais. E mais: nesse tempo, dizem os senhores, a própria ciência vai ensinar ao homem (embora isso já seja um luxo, na minha opinião) que ele, na verdade, não possui nem vontade, nem caprichos, que, por sinal, nunca os teve, e que ele mesmo não passa de alguma coisa parecida com uma tecla de piano ou um pedal de órgão; e que, ainda por cima, existem também as leis da natureza, de modo que, não importa o que ele faça, isso não é feito por sua vontade, e sim por si mesmo, seguindo as leis da natureza. Conseqüentemente, basta descobrir essas leis da natureza que o homem não terá mais de responder pelos seus atos, e viver, para ele, será extremamente fácil. Evidentemente, todas as ações humanas serão calculadas matematicamente, de acordo com essas leis, numa espécie de tábua de logaritmos, até 108.000, e serão inscritos nos calendários; ou, algo ainda melhor: surgirão algumas publicações bem-intencionadas, do tipo dos atuais dicionários enciclopédicos, em que tudo estará tão bem calculado e indicado, que no mundo não haverá mais nem incidentes nem aventuras
Assim serão estabelecidas novas relações econômicas, tudo pronto e trabalhado com exatidão matemática, de modo que todas as perguntas possíveis desaparecerão num abrir e fechar de olhos, simplesmente porque cada resposta possível será fornecida. Em seguida, o "Palácio de Cristal" será construído. Então ... esses serão dias felizes. É claro que não há nenhuma garantia (meu comentário), que não será, por exemplo, terrivelmente monótono (pois tudo que tenho que fazer será calculado e tabulado), mas por outro lado, tudo vai ser extraordinariamente racional. É claro que o tédio pode levá-lo a qualquer coisa. É o tédio que leva as pessoas a furar outras com agulhas de ouro, mas isso não teria importância. A parte ruim (meu comentário, novamente) é que ouso dizer que as pessoas serão gratas pelas agulhas de ouro. O homem é estúpido, você sabe, fenomenalmente estúpido; ou melhor, ele não é de todo estúpido, mas é tão ingrato que você não poderia encontrar outro como ele em toda a criação.

Em uma reviravolta brilhante de lógica em forma literária, Dostoiévski leva o pensador iluminista refletir sobre seu cientificismo e a quantificação racionalista, como se a natureza humana funcionasse de forma algorítmica. Mas, isso não acontece: os seres humanos são irracionais e estúpidos em sua maioria e nenhuma quantidade de educação e mudanças no ambiente serão capazes de curar as falhas tão simples como o tédio, que muitas vezes dão origem a um comportamento bizarro e irracional. Nenhuma quantidade de educação tem sido capaz de erradicar as atrocidades cometidas por homens sádicos, na sequência de algumas centenas de anos do Ocidente desde a adoção do novo evangelho do homem dado pelos profetas do Iluminismo. E ironicamente, a própria tarefa que o Iluminismo se propôs a fazer - racionalizar a realidade para produzir um mundo melhor - acabou por quantificar e reduzir toda a realidade em algumas tabulações numéricas monistas do irracional, da causalidade determinista, resultando na total negação da volição e da vontade. Se toda a realidade é um processo rigoroso de causa e efeito materialista, então o livre-arbítrio é uma ilusão e a moral também é ilusória. Não pode haver nenhuma base racional para a moral nesta hipótese.

Em conclusão, torna-se evidente que os três pensadores - Kierkegaard, Nietzsche e Dostoiévski contribuíram com críticas originais ao mito do Iluminismo. Esse mito supostamente surgiu para dar um primado à razão humana, para uma exaltação da ciência, a desmistificação da superstição e da religião, e a ascensão do "racional". O que de fato ocorreu foi um tombamento do mito cristão anterior que propiciou a civilização ocidental um grande narrativa coesa dentro da qual se situava a totalidade da existência. O colapso desta estrutura levou imediatamente à introspecção de Kierkegaard e sua avaliação sombria de qualquer esperança do homem que levou-o a encontrar a si mesmo e ao consolo no Deus infinito que transcende a dialética finita e temporal.  Para Nietzsche, o Iluminismo foi mais um mito que ergueu novos ídolos no lugar do antigo que Bacon supostamente havia demolido. O rigor na racionalidade exigiu que a ética fosse abandonada ou substituída por um novo homem forte que ao surgir pudesse criar um novo significado. Para Dostoiévski, o Iluminismo comeu o cristianismo, e depois comeu-se, exaltando a razão ao ponto de criar juízos totalmente irreais e idealistas do próprio homem. O suposto evangelho do homem resultou numa negação determinista do homem que tornou o Iluminismo e seu otimismo impossível e absurdo. Para Dostoiévski, como evidenciado em Crime e Castigo, o homem teria que novamente chegar ao fim de si mesmo, como Kierkegaard havia previsto, antes de encontrar a redenção novamente.

Kierkegaard, Nietzsche and Dostoyevsky Versus the Enlightenment Mythos - Jay (original)

domingo, 20 de abril de 2014

Um Adeus à Filosofia (Por Emil Cioran)

Afastei-me da filosofia quando se tornou impossível encontrar em Kant qualquer fraqueza humana, qualquer traço autêntico de melancolia; em Kant e em todos os filósofos. Comparado com a música, o misticismo e poesia, a atividade filosófica procede de um impulso reduzido e uma profundidade suspeita, prestigiado apenas pelos tímidos e os medíocres. Além disso, a filosofia - ansiedade impessoal, refúgio entre ideias anêmicas - é o recurso de todos os que se iludem com a exuberância corruptora da vida. Quase todos os filósofos chegaram a um bom final: eis o argumento supremo contra a filosofia. Mesmo a morte de Sócrates nada tem de trágica: é um mal-entendido, o fim de um pedagogo - e se Nietzsche naufragou, foi como um poeta e visionário: ele expiou seus êxtases e não seus argumentos.

Não podemos enganar a existência com explicações, só podemos suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorar ou temer, nessa alternância de felicidade e horror que expressa o próprio ritmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, brilhantes ou amargas.

Expostos pela surpresa ou necessidade de uma derrota irrefutável, quem em seguida, não levanta as mãos em oração, apenas para que os deixe cair em um vazio ainda maior pelas respostas da filosofia? Parece que a sua missão é proteger-nos contanto que a negligência do destino nos permita continuar no limiar do caos, e nos abandonar assim que somos obrigados a mergulhar no precipício. E como poderia ser de outra forma, quando vemos o quão pouco do sofrimento da humanidade passou para filosofia? O exercício filosófico não é fecundo; é apenas honroso. Somos sempre filósofos com impunidade: um métier sem destino que derrama pensamentos volumosos em nossas horas neutras e vagas, as horas refratárias ao Antigo Testamento, a Bach, e até Shakespeare. E ter estes pensamentos materializados em uma única página que é equivalente a uma das exclamações de Jó, dos terrores de Macbeth, ou a altitude de uma das cantatas de Bach? Nós não discutimos o universo; nós expressamos. E a filosofia não expressa. Os verdadeiros problemas começam só depois de distanciados ou esgotados, depois do último capítulo de um enorme volume que aponta o período final como uma renúncia diante do Desconhecido, em que todos os nossos momentos estão enraizados e com o qual devemos lutar, porque é naturalmente mais imediato, mais importante do que o nosso pão de cada dia. Aqui o filósofo nos deixa: inimigo do desastre, ele é são como a própria razão, e como prudente. E continuamos na companhia de uma vítima de uma velha praga, de um poeta que aprendeu em cada loucura, e de um músico cuja sublimidade transcende a esfera do coração. Começamos autenticamente apenas onde a filosofia termina, no seu naufrágio, quando compreendemos sua terrível nulidade, quando compreendemos que era inútil recorrer a ela, que é nenhuma ajuda

(Os grandes sistemas são, na verdade, não mais que tautologias brilhantes. Qual vantagem de saber que a natureza do ser consiste na "vontade de viver", na "ideia", no capricho de Deus ou na Química? O detestável abraço verbal, e nossas experiências mais íntimas, nos revela nada além do momento privilegiado e inexprimível. Além disso, o próprio Ser é apenas uma pretensão do Nada.

Nós definimos somente por desespero. Temos de ter uma fórmula, é preciso ainda ter muitas, apenas para dar justificação para a mente e servir como uma fachada do vazio.

Nenhum conceito ou êxtase são funcionais. Quando a música nos mergulha na "interioridade" do ser, nós rapidamente regressamos à superfície: os efeitos da ilusão se dispersam e nosso conhecimento admite sua nulidade.

As coisas que tocamos e aquelas que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; temos certeza somente no nosso universo verbal, manejável à vontade e ineficaz. Ser é mudo e a mente é tagarela. Isso é chamado de conhecimento.

A originalidade do filósofo trata apenas de termos inventados. Uma vez que existem somente três ou quatro atitudes que nos permite confrontar o mundo - e sobre as maneiras de morrer - as nuances que multiplicam e diversificam elas derivam não mais do que uma escolha de palavras, desprovidas de qualquer intervalo metafísico.

Estamos imersos em um universo pleonástico, em que as perguntas e respostas equivalem à mesma coisa)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dostoiévski sobre o Conservadorismo Moderno

Fiodor Dostoiévski tem sido corretamente chamado de profeta da era moderna. Com uma visão de profundidade incomparável, ele viu que a desordem cultural, política e econômica têm a sua principal fonte em uma crise do espírito. Dostoiévski, então, previu como rebelião do homem contra o Transcendente aceleraria progressivamente para a anarquia completa. Esta ideia tornou-se um tema central em "Os Demônios", seu grande romance contra-revolucionário. Dentro do livro em questão, a atenção foi atraída para a corrupção espiritual da classe dominante, os chamados elementos conservadores da sociedade.


Dostoiévski escreveu sobre a Rússia, mas também estava profundamente sensível à descendência do Ocidente ao secularismo. Por volta do século 19, o "iluminado" homem europeu tinha lançado-se por completo em apostasia, abandonando Cristo para o culto de si, o seu primeiro ato de regicídio foi o assassinato de Deus dentro de seu coração. Sem autoridade sacral, dizia-se que o poder derivava da vontade perfeita, "Nós, o povo", guiado por manipuladores endinheirados e seus tecnocratas.


Partidos como  Republicano e Conservador não fizeram nada para deter o declínio de nossas sociedades, porque, em última instância, compartilham os mesmos princípios radicais, anti-tradicionais da esquerda.  Por evidências, não precisa ir tão longe, a rápida transformação da Grã-Bretanha em um Estado Policial multicultural, dominado pelo crime, onde os conservadores no poder avançam no "casamento" homossexual como uma questão de legitimidade moral.


Os ideais da modernidade, que estão em andamento, a igualdade, a democracia, a total autonomia individual, etc formam uma falsa religião. Enquanto o auto-proclamado direito se apega a qualquer uma dessas fantasias, a oposição ao liberalismo é sem sentido e puramente cosmético. Acenos retóricos à consolidação cultural, ou seja, "aos valores da família", se articulam no âmbito corrosivo da ideologia iluminista de direitos, e somente com a finalidade de conquistar votos. Alguém pensa seriamente que a liderança republicana vai tentar alguma coisa significativa contra o infanticídio institucionalizado? Para que não esqueçamos, mais de 50 milhões de crianças por nascer foram mortas nos Estados Unidos desde que o aborto foi legalizado pela Suprema Corte em 1973. Agora é uma questão de orgulho para os homens e mulheres americanas lutar por tal liberdade desde Hindu Kush ao Magrebe.


Com o Ocidente tradicional devastado e a hierarquia invertida, há muito pouco para conservar além de sua fé e herança, as necessidades para sobrevivência e ressurgimento. Mas os conservadores modernos rejeitam a essência divina-humana e sincera da cultura, servindo, assim, como mais fervorosos defensores da ordem liberal. Fácil é criar a próxima guerra, dissolver os povos pelo lucro corporativo e divertir o povo grosseiramente, todos fazem parte da fundação de um Jardim das Delícias Terrenas, o que Dostoievski imaginou como um formigueiro glorificado. O movimento conservador sabe o que é realmente importante: generosas contribuições das industrias financeiras e de defesa para manter as políticas de centralização oligárquicas e o vasto império ultramarino.  


A Direita dominante levou o Ocidente ao colapso cultural sistemático em conluio com a esquerda ligeiramente mais radical. Em "Os Demônios", Dostoievski revela as dimensões espirituais e intelectuais deste longo processo e seu espírito malévolo por trás dele. Na obra, uma conversa entre o governador provincial, Von Lembke, e o revolucionário niilista Peter Verkhvensky, resume de forma clara a mentalidade e o caminho do conservadorismo na era moderna.


“Temos responsabilidades e, como resultado, nós também servimos uma causa comum. Apenas estamos segurando um pouco do que você afrouxou que, sem nós, dispersaria em várias direções. 
Nós não somos seus inimigos; raramente somos. Estamos dizendo a você: vá em frente, faça o progresso, até mesmo destrua, isto é, tudo aquilo que está sujeito a alteração; mas, quando necessário, manteremos vocês dentro dos limites necessários e salvaremos vocês de si mesmos, porque sem nós vocês levariam a Russia em convulsão, privando-a de uma aparência adequada, e nosso dever é cuidar das aparências. 
Entenda que você e eu somos mutuamente necessários um ao outro. Na inglaterra os Conservadores e os Liberais também precisam um do outro. Dessa forma, então, nós somos os Conservadores e vocês, os Liberais..." 
"Bem, da forma que você preferir" murmurou Peter Stepanovich. "De qualquer forma, você está abrindo o caminho para nós e preparando o nosso sucesso."

Jogando-se fora a preocupação com a aparência adequada, torna-se claro que o conservadorismo moderno é servo do niilismo revolucionário.



Por Mark Hackard, original em http://souloftheeast.org/2013/02/01/dostoevsky-on-modern-conservatism/

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Primeiro Estágio da Dialética Niilista: Liberalismo (Por Seraphim Rose)

1. LIBERALISMO

O Liberalismo que iremos descrever nas páginas seguintes não é --vamos deixar claro desde o início -- um Niilismo evidente; é antes um Niilismo passivo, ou, melhor ainda, o terreno neutro e fértil para as fases mais avançadas do Niilismo. Aqueles que estão seguindo a nossa discussão anterior sobre a impossibilidade espiritual ou "neutralidade" intelectual nesse mundo, entenderá imediatamente por que nós classificamos o Liberalismo usando um ponto de vista Niilista que, embora não seja diretamente responsável por quaisquer fenômenos Niilistas marcantes, foi um pré-requisito indispensável para o seu surgimento. A incompetente defesa proveniente do Liberalismo por uma herança na que nunca se acreditou plenamente, tem sido uma das causas mais potentes para a criação do Niilismo.


A civilização humanista Liberal, na Europa Ocidental, foi a última forma da Velha Ordem a qual foi efetivamente destruída nas grandes guerras e nas revoluções da segunda década deste século e que continua a existir -- ainda que em uma forma mais atenuada e "democrática" -- no mundo livre de hoje, pode ser caracterizada, principalmente, pela sua atitude para com a verdade. Esta não é uma atitude de franca hostilidade, nem mesmo de indiferença intencional, pois seus sinceros apologistas inegavelmente tem um verdadeiro respeito por aquilo que consideram ser a verdade; em vez disso, é uma atitude em que a verdade, apesar de certas aparências, já não ocupam o centro das atenções. A verdade em que professa crer (além, é claro, dos fatos científicos) é, para ele, não uma moeda espiritual ou intelectual em circulação, mas um capital inativo e sem frutos que sobraram de uma era anterior.  O Liberal ainda fala, ao menos em algumas ocasiões formais, de "verdades eternas", de "fé", de "dignidade humana", da "vocação" do homem ou do seu "espírito inextinguível", até mesmo da "Civilização Cristã"; mas é evidente que essas palavras não mais dizem o que um dia significou. Nenhum Liberal as leva com toda seriedade; elas são, na verdade, metáforas, ornamentos de uma linguagem que se destina a evocar uma resposta emocional, não intelectual - uma resposta largamente condicionada pelo seu uso prolongado, a uma memória que atende a um tempo em que essas palavras realmente tinha um significado positivo e sério.

Hoje em dia ninguém que se orgulhe de sua "sofisticação" -- ou seja, muito poucos nas instituições acadêmicas, no governo, na ciência, nos círculos intelectuais humanistas, nenhum que queira ou afirme estar a par dos "tempos" -- pode ou acredita plenamente na verdade absoluta, ou mais particularmente, na verdade cristã. No entanto, o nome da verdade tem sido mantido, como tem sido com os nomes daquelas verdades humanas uma vez consideradas absolutas, e poucos em posição de autoridade ou influência hesitaria em usá-las, mesmo quando eles estão cientes de que os seus significados mudaram. A verdade, em outras palavras, foi "reinterpretada"; As antigas formas foram esvaziadas e receberam um conteúdo novo, quase Niilista. Isto pode facilmente ser visto por um breve exame de algumas das principais áreas em que a verdade foi "reinterpretada".

Na ordem teológica, a primeira verdade é Deus. Onipotente e onipresente Criador de tudo, revelado pela fé e na experiência dos fiéis, Deus é o fim supremo de toda criação e Ele, ao contrário de sua criação, encontra seu fim em si mesmo, tudo criado se encontra em relação e dependência dEle, o único que nada depende fora de si mesmo, Ele criou o mundo para que pudesse viver em desfrute dele, e tudo no mundo está orientado para este fim, que, contudo, alguns homens podem perder-se por um desvio de sua liberdade.

A mentalidade moderna não pode tolerar tal Deus. Ele é ao mesmo tempo muito íntimo - muito "pessoal", muito "humano" - e demasiado absoluto, muito inflexível em suas exigências para nós, e Ele se faz conhecido somente pela humilde fé - um fato que fere o orgulho da inteligência moderna. Um "novo deus" é claramente necessário pelo homem moderno, um deus mais atentamente modelado segundo o padrão das preocupações centrais modernas, como a ciência e negócios; e, de fato, há uma importante intenção do pensamento moderno para proporcionar tal deus. Esta intenção já é clara em Descartes, é materializado no deísmo do Iluminismo, desenvolvido ao fim no idealismo alemão; o novo deus não é um Ser, mas uma ideia, não revelado pela fé e humildade, mas construído por uma mente orgulhosa que ainda sente a necessidade de "explicação" ao perder o seu desejo da salvação. Este é o deus morto dos filósofos que apenas necessitam uma "causa primeira" para complementar seus sistemas, bem como os "pensadores positivos" e outros sofistas religiosos que inventam um deus pois "necessitam" dele, e pensam que podem usá-lo à vontade. Quer seja "deísta", idealista, "panteísta", ou "imanentista", todos os deuses modernos são construtos mentais, fabricados por almas mortas pela perda de fé no verdadeiro Deus.

Os argumentos ateístas contra tais deuses são tão irrefutáveis quanto irrelevantes; pois tal deus é, de fato, o mesmo que nenhum deus. Desinteressado no homem, impotente para agir no mundo (exceto para inspirar um "otimismo" mundano"), ele é um deus consideravelmente mais fraco que os próprios homens que o inventaram. Em tais alicerces, não é necessário dizer, nada seguro pode ser construído; e é com boas razões que os liberais, enquanto comumente professam crença nessa divindade, na verdade constroem sua visão de mundo em cima do mais óbvio, dificilmente mais estável: a fundação do Homem. O ateísmo Niilista é uma formulação explícita do que já estava, não de uma forma clara, mas de uma forma confusa, presente no Liberalismo.

As implicações éticas na crença de tal deus são precisamente as mesmas daquelas do ateísmo; este acordo interno, no entanto, é mais uma vez disfarçado exteriormente por trás de uma nuvem de metáforas. Na ordem cristã, toda a atividade desta vida é vista e julgada à luz da vida do mundo futuro, a vida além da morte, que não terá fim. O incrédulo não possui ideia do que isso significa para a vida do fiel Cristão; para a maioria das pessoas de hoje, a vida futura, como Deus, tornou-se uma mera ideia, e, por isso, custa pouco de dor e esforço tanto para negá-lo quanto para afirmá-lo. Para o verdadeiro Cristão, a vida futura é uma alegria inconcebível, alegria que supera a alegria que ele conhece através da comunhão com Deus em oração, na Liturgia, no Sacramento; por que, então, Deus será  tudo em todos e não haverá distanciamento desta alegria que certamente será infinitamente melhor. O verdadeiro crente tem o consolo de uma antecipação da vida eterna. O crente no deus moderno, não tendo tal antecipação e, portanto, nenhuma noção da alegria cristã, não pode acreditar na vida futura do mesmo modo, na verdade, se ele fosse honesto consigo mesmo, ele teria que admitir que, no fundo, não acredita.

Existem duas formas principais de tal descrença que se passa pela crença Liberal: a Protestante e a humanista. A visão Liberal Protestante da vida futura -- compartilhada, infelizmente, por um número crescente dos que se professam ser Católicos ou até mesmo Ortodoxos - é, como suas opiniões sobre tudo o mais que pertence ao mundo espiritual, uma mínima profissão de fé que mascara uma fé em nada. A vida futura se tornou um sombrio submundo na concepção popular, um lugar onde se pode ter um "descanso merecido" após uma vida de trabalho. Ninguém tem uma ideia muito clara deste reino, pois corresponde a nenhuma realidade; é, antes, uma projeção emocional, um consolo para aqueles que preferem não enfrentar as implicações de sua descrença real.

Tal "céu" é fruto de uma união da terminologia Cristã com um mundanismo comum, e não é convincente para ninguém que entende que tal compromisso é impossível; nem o verdadeiro Cristão Ortodoxo nem o Niilista é seduzido por ela. O compromisso com o humanismo é, se alguma coisa, ainda menos convincente. Até aqui, dificilmente há uma pretensa ideia de que corresponde à realidade; tudo se torna metáfora e retórica. O humanista já não fala mais sobre céu, pelo menos não de forma séria; mas ele se permite falar do "eterno", de preferência através de figuras de linguagem: "verdades eternas", "eterno espírito dos homens".  Alguém pode, com razão, questionar-se se tais palavras tem algum significado em tais frases. No estoicismo humanista o "eterno" foi reduzido a um conteúdo tênue e frágil a ponto de ser praticamente indistinguível do Niilismo materialista e determinista que tenta, com certa razão, seguramente, destruí-lo.

Em qualquer dos casos, tanto o Liberal "Cristão" e ainda mais o Liberal humanista, a incapacidade de acreditar na vida eterna está enraizada no mesmo fato: eles acreditam apenas neste mundo, não possuem nem experiência ou fé no outro mundo e, sobretudo, acreditam em um "deus" que não é poderoso suficiente para ressuscitar os homens da morte.

Atrás de sua retórica, o sofisticado Protestante e o humanista estão conscientes de que, no seu universo, não há espaço para o Céu, nem para a eternidade; sua sensibilidade completamente Liberal, mais uma vez, não se orienta ao transcendente, mas para uma fonte imanente de sua doutrina ética, e sua ágil inteligência é capaz de transformar este faute de mieux numa apologia positiva. Deste ponto de vista, é tanto "realismo" quanto "coragem" viver sem a esperança na alegria eterna ou sem o medo da dor eterna; para aquele dotado de visão Liberal das coisas, não é necessário acreditar em Céu ou Inferno para ter uma "boa vida" neste mundo. Tal é a cegueira completa da mentalidade Liberal ao significado da morte.

Se não há imortalidade, acredita o Liberal, ainda se pode levar uma vida civilizada; "se não há imortalidade" - uma profunda lógica do Ivan Karamazov no romance de Dostoievski - "tudo é permitido". O estoicismo humanista é possível para certos indivíduos por um certo tempo: ou seja, até que eles percebam as implicações de se negar a imortalidade. O Liberal vive em um paraíso de tolos que deve entrar em colapso quando de frente a verdade das coisas.  Se a morte é, como o Liberal e o Niilista acreditam, a extinção do indivíduo, então este mundo e tudo que há nele - o amor, a bondade, a santidade, tudo - são como nada, nada que o homem possa fazer é tem alguma importância última e o horror da vida está escondido do homem apenas por sua força de vontade em enganar si mesmos; e "tudo é permitido", nenhuma esperança transcendente ou medo impede o homem de experimentos monstruosos e sonhos suicidas. As palavras de Nietzsche são verdades - e a profecia - de um novo mundo resultante deste ponto de vista:

De tudo aquilo que antigamente se tinha por verdade, hoje nem uma palavra é ainda merecedora de crédito. Aquilo que era desprezado como profano, proibido, desprezível e fatal -- todas essas "flores" agora crescem sobre os mais charmosos caminhos da verdade.

A cegueira do Liberal é um antecedente direto do Niilista, e mais especificamente da moralidade Bolchevique; pois este último é apenas uma aplicação coerente e sistemática da descrença Liberal. É uma grande ironia da visão Liberal que, precisamente quando sua mais sincera intenção é posta em prática no mundo, e que todos os homens estão "liberados" do jugo dos padrões transcendentes, e quando o pretexto da crença no outro mundo já desaparecera -- é precisamente aí, que a vida como o Liberal conhece ou deseja, tornar-se-á impossível; o "novo homem" que a descrença produz só pode ver o próprio Liberalismo como a última "ilusão" que o Liberalismo desejava desfazer.

Na ordem política, o cristianismo também foi fundada sobre a verdade absoluta. Nós já vimos, no capítulo anterior, que a principal forma de governo onde havia união com a Verdade Cristã foi no Império Cristão Ortodoxo, onde a soberania estava atribuída a um Monarca, onde a autoridade procedia dele para baixo, através de uma estrutura social hierárquica. Veremos no próximo capítulo, por outro lado, como uma política que rejeita a Verdade Cristã deve reconhecer "o povo" como soberano e entender a autoridade como procedendo de baixo para cima, em uma sociedade formalmente "igualitária”. É claro que um é a inversão perfeita do outro; pois são opostos em concepções tanto quanto sua origem como também ao propósito. A Monarquia Cristã Ortodoxa é um governo divinamente estabelecido, e orientado, em última instância, para o outro mundo; o governo com o ensinamento da Verdade Cristã e a salvação das almas como o seu propósito mais profundo; o governo Niilista - cujo nome mais adequado, como veremos, é a anarquia --- é o governo estabelecido pelos homens, e dirigido exclusivamente a este mundo, governo que não tem nenhum objetivo maior do que a felicidade terrena.

A visão Liberal de governo, como se poderia suspeitar, é uma tentativa de compromisso entre estas duas ideias irreconciliáveis​​. No século 19, este compromisso tomou a forma de "monarquias constitucionais", uma tentativa - mais uma vez - de se casar uma velha forma com um novo conteúdo; hoje, os principais representantes da ideia Liberal são as "repúblicas" e "democracias" da Europa Ocidental e América, grande parte dessas preservam um equilíbrio bastante precário entre as forças de autoridade e de Revolução, enquanto professando a acreditar em ambas.

É claro que é impossível acreditar em ambas com a mesma sinceridade e fervor, e na verdade, nunca ninguém fez isso. Monarcas constitucionais como Louis Philippe pensou fazê-lo, professando a governar "pela graça de Deus e a vontade do povo" - uma fórmula cujos termos anulam o outro, um fato igualmente evidente tanto para o Anarquista quanto para o Monarquista.

Dessa forma um governo está seguro na medida em que tem Deus como seu fundamento e Sua Vontade como guia; mas isso, com certeza, não é uma descrição de um governo Liberal. Trata-se, na visão Liberal, do povo que governa, e não Deus; o próprio Deus é um "monarca constitucional" cuja autoridade foi totalmente delegada ao povo e cuja função é inteiramente cerimonial. O Liberal acredita em Deus com o mermo fervor retórico com o qual acredita no Céu. O governo erguido sobre tal fé é pouco diferente, em princípio, de um governo erigido sobre total descrença, e qualquer que seja seu resíduo presente de estabilidade, está claramente apontado na direção da anarquia.

Um governo deve governar pela graça de Deus ou pela vontade do povo, deve acreditar em autoridade ou Revolução; desta forma um acordo entre os dois só é possível na aparência, e apenas por um tempo. A Revolução, assim como a descrença que sempre a acompanhava, não pode ser interrompida no meio do caminho, é uma força que, uma vez despertada, não vai descansar até que ela termine em um reino totalitário deste mundo. A história dos últimos dois séculos tem provado isso. Apaziguar a Revolução e oferecendo concessões, como os liberais sempre fizeram, mostra, assim, que eles não possuem uma verdade para se opor, mas apenas para, talvez adiar, mas não impedir, a realização de seu fim.  E se opor a Revolução radical com outra Revolução, quer seja "conservadora", "não-violenta", ou "espiritual", não é apenas revelar a ignorância de todo escopo e a natureza da Revolução de nossos tempos, mas também admitir o primeiro princípio da Revolução: de que a velha verdade não é mais verdade, e uma nova deve tomar o seu lugar. No próximo capítulo desenvolveremos este ponto, definindo mais de perto o objetivo da Revolução.

Na visão de mundo Liberal, portanto, em sua teologia, ética e bem como em outras áreas que não examianos -- a verdade tem sido enfraquecida, amolecida, comprometida; em todas as esferas onde a verdade um dia foi absoluta, agora se tem menos certeza, isso caso não tenha sido totalmente relativizada. Dessa forma é possível - e isto, de fato, representa uma definição do projeto Liberal - preservar por um tempo os frutos de um sistema e uma verdade da qual estão incertos e céticos; nada de positivo pode ser construído sobre tal incerteza, nem sobre uma tentativas de torná-lo intelectualmente respeitável nas várias doutrinas relativistas já examinadas. Não existe e não pode haver apologia filosófica para o Liberalismo; suas apologias, quando não são simples retórica, são emocionais e pragmática. Mas, o fato mais impressionante sobre o Liberal, para qualquer observador relativamente imparcial, não é tanto a inadequação de sua doutrina mas também o próprio esquecimento dessa inadequação.

Este fato, que é compreensivelmente irritante aos críticos bem-intencionados do Liberalismo, tem somente uma explicação plausível. O Liberal é imperturbável pelas contradições e deficiências fundamentais de sua própria filosofia, porque seu principal interesse está em outro lugar. Se ele não está preocupado em fundar a ordem política e social mediante a Verdade Divina, se é indiferente à realidade do Céu e do Inferno, se ele concebe Deus como uma mera ideia de um poder impessoal, é porque ele é está muito mais interessado em fins mundanos, e porque todo resto é vago ou abstrato a ele. O Liberal pode estar interessado em cultura, no aprendizado, nos negócios, ou simplesmente no conforto, mas em cada uma de suas atividades a dimensão do absoluto é simplesmente ausente. Ele é incapaz - ou indisposto - em pensar em termos de fins, das coisas finais. A sede da verdade absoluta desapareceu; foi engolida por um mundanismo.

No universo Liberal, naturalmente, a verdade - isto é, o aprendizado- é bastante compatível com o mundanismo; mas existe mais verdade além do aprendizado. "Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz.". Nunca alguém que buscou corretamente a verdade deixou de encontrar, no fim - aceitando-o ou rejeitando-o - nosso Senhor, Jesus Cristo, "o Caminho, a Verdade e a Vida"; Verdade que contrapõe o mundo e reprovação a toda mundanidade. O Liberal, pensa que seu universo protege-o contra essa Verdade, é o "homem rico" da parábola, sobrecarregado por seus interesses e ideias mundanas, relutante de trocá-los pela humildade, pobreza e humilhação; as marcas do verdadeiro buscador da verdade.

Nietzsche deu uma segunda definição do Niilismo, ou melhor, um comentário sobre a definição "não há verdade", e isto é, "não há resposta para a pergunta: 'por que'". O Niilismo significa, portanto, que as questões últimas não têm respostas, ou seja, ausência de respostas positivas; e o Niilista é aquele que aceita implicitamente o "não" que o universo supostamente dá como resposta a estas perguntas. Mas há duas maneiras de aceitar esta resposta. Existe o caminho extremo em que é explicitado e amplificado nos programas da Revolução e da destruição; este é o Niilismo propriamente chamado de Niilismo ativo, pois - nas palavras de Nietzsche - "O Niilismo... não é somente a crença que tudo merece perecer; mas alguém realmente coloca as mãos à obra; destrói-se”. Mas há também um caminho "moderado", que é o passivo ou implícito, Niilismo que estamos a examinar, o Niilismo do Liberal, o humanista, o agnóstico que, concordando que "não há verdade", já não mais anseia pelas questões últimas. O Niilismo ativo pressupõe este Niilismo de ceticismo e descrença.

Os regimes totalitários Niilistas deste século comprometeram, como parte integrante de seus programas, a "reeducação" impiedosa de seus povos. Poucos sujeitos a este processo durante qualquer período de tempo, escaparam inteiramente de sua influência; em uma paisagem onde o cenário é o pesadelo, o senso de realidade e verdade inevitavelmente sofre. A "reeducação" sutil, mais humana em seus métodos, mas ainda assim Niilista em suas consequências, tem sido praticada há algum tempo no mundo livre, e não há lugar mais persistente ou eficaz do que seu centro intelectual, o mundo acadêmico. Aqui coerção externa é substituída pela persuasão interna; um ceticismo mortal reina, escondido atrás dos restos de uma "herança cristã", na qual poucos acreditam, e muito menos com profunda convicção. A profunda responsabilidade que o estudioso uma vez possuiu, a comunicação da verdade, tem sido renegada; fingem "humildade" para esconder esse fato por trás de uma conversa sofisticada sobre "os limites do conhecimento humano", mas é apenas outra máscara do Niilismo que o acadêmico Liberal compartilha com os extremistas de nossos dias.  A juventude que -- até que seja "reeducada" no ambiente acadêmico -- ainda tem sede de verdade, é ensinada em vez da verdade, a "história das ideias", ou então o interesse é desviado para estudos "comparativos"; assim, o relativismo que permeia tudo, e o ceticismo impresso nesses estudos é suficiente para acabar praticamente toda sede natural pela verdade.

O mundo acadêmico tornou-se hoje, em grande parte, uma fonte de corrupção. É corruptor ouvir ou ler as palavras dos homens que não acreditam na verdade. É ainda mais corruptor receber, no lugar da verdade, mais aprendizado e erudição que, se forem apresentadas como fins em si mesmos, não são mais que paródias da verdade da qual foram feitos para servir, não são mais do que uma fachada que por trás da qual não há nenhuma substância. É, infelizmente, corruptor até mesmo estar exposto à virtude primária que ainda resta no mundo acadêmico. Pois a integridade serve, não a verdade, mas a uma erudição cética, e assim seduz os todos homens de forma mais eficaz com o evangelho do subjetivismo e incredulidade que esta erudição esconde.  É corruptor, por fim, simplesmente viver e trabalhar em um ambiente inteiramente permeado por uma falsa concepção de verdade, onde a Verdade Cristã é vista como irrelevante para os problemas centrais acadêmicos, onde mesmo aqueles que ainda acreditam nesta Verdade pode apenas esporadicamente fazer que suas vozes sejam ouvidas acima do ceticismo promovido pelo sistema acadêmico. O mal, é claro, reside principalmente no próprio sistema, que é fundamentado em inverdade, e apenas incidentalmente nos muitos professores que este sistema permite e incentiva a pregar.

O Liberal, homem mundano, é o homem que perdeu a fé; e a perda da fé perfeita é o começo do fim da ordem erigida em cima daquela fé. Aqueles que procuram preservar o prestígio da verdade sem acreditar nela, oferece a arma mais potente para todos os seus inimigos; uma fé meramente metafórica é suicídio. O radical ataca a doutrina Liberal em todos pontos, e o véu da retórica não é proteção contra o forte impulso de sua lâmina afiada. O Liberal, sob o ataque persistente, cede lugar ponto após ponto, forçado a admitir a verdade das acusações contra ele sem ser capaz de contrariar esta situação com alguma de suas verdade positivas; até que, depois de uma transição longa e geralmente gradual, de repente, ele acorda e descobre que a Velha Ordem, indefesa e aparentemente insustentável, foi derrubada, e que uma nova, mais "realista" - e mais brutal - tomou o lugar.


O Liberalismo é o primeiro estágio da dialética Niilista, tanto por sua fé ser vazia e porque esse vazio coloca em reação ainda mais Niilista -- a reação que, ironicamente, proclama ainda mais alto que o Liberalismo, seu "amor pela verdade", enquanto carrega a humanidade um passo adiante no caminho do erro. Esta reação é o segundo estágio da dialética Niilista: o Realismo.

"Nihilism: The Root of the Revolution of the Modern Age", Seraphim Rose

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cristão: Um Niilista dos Valores Modernos

Para finalizar nossa discussão sobre niilismo, precisamos  estabelecer e nos abrir para a acusação de que nós, possuímos um niilismo de nossa própria maneira; nossa análise, pode-se argumentar, é "pessimista" ao extremo. Categoricamente rejeitando quase tudo realizado valioso e verdadeiro pelo homem moderno, estamos na semelhante posição da completa negação como no caso do mais extremo dos niilistas.

E, de fato, o cristão é, em certo sentido - em um sentido último - um "niilista", pois para ele, no final, o mundo não é nada, e Deus é tudo. Isso é, naturalmente, o exato oposto do niilismo que examinamos aqui, onde Deus é nada e o mundo é tudo; isso é um niilismo que sai do Abismo, os cristãos saem de um "niilismo" que procede da abundância. O verdadeiro niilista coloca sua fé em coisas efêmeras e que acabam em nada; todo "otimismo" sobre este fundamento é claramente inútil. O Cristão, renunciando a tal vaidade coloca sua fé em uma coisa que nunca acabará, o Reino de Deus.

Para quem vive em Cristo, é claro, muitos dos bens deste mundo podem ser deixados para trás, e ainda assim, o Cristão pode apreciá-los mesmo sabendo da evanescência dos bens; mas os bens não são necessários, são verdadeiramente nada para ele. Aquele que não vive em Cristo, por outro lado, já vive no Abismo, e nem  mesmo todos os tesouros deste mundo pode preencher seu vazio.

Mas isso é um mero artifício literário para chamar o nada e a pobreza do Cristão de "Niilismo"; na verdade eles estão em plenitude, abundância e alegria além da imaginação. E somente alguém cheio de tanta ambudância que pode enfrentar diretamente o Abismo para o qual o Niilismo conduziu os homens. Aquele que nega de forma mais extrema, o mais desiludido dos homens, só pode existir se dispensar pelo menos uma dessa analise destrutiva que possui. Esta é, de fato, a raiz psicológica da "nova era" a qual através dela o niilista deve colocar toda a sua esperança; aquele que não pode crer em Cristo deve, e irá, acreditar no Anticristo.

Niilismo: A Raiz da Revolução da Idade Moderna (Seraphim Rose)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Niilismo no Século XX, Parte II (Final)

O século XX começou com o humanismo desolador de Bertrand Russell em "Adoração de um homem livre" (1902). Russel descreveu o homem como um "produto de causas que não tem previsão do fim que está atingindo", o salto do homem, medos, amores e crenças são "nada mais do que um resultado acidental de um arranjo de átomos ". O próprio homem, escreveu Russel, está destinado "à extinção na vasta morte do sistema solar" e tudo que o homem tiver alcançado "deve, inevitavelmente, ser arruinado sob os escombros de um universo em ruínas". Ele reconheceu a "onipotência da Morte", mas insistiu que a humanidade lutasse pela causa do amor e dos nossos ideais. Este humanismo desolador era sem Deus e sem esperança, deixando o homem sem saída a partir do ciclo de nascimento e morte da natureza. Este tipo de humanismo alcançou o status de credo em "O Manifesto Humanista" de 1933, quando a reunião humanistas em Chicago elaborou sua declaração de quinze pontos. Entre eles estavam John Dewey e Harry Elmer Barnes. Eles também reconheceram a onipotência da morte, mas afirmaram o espírito indomável do homem e rejeitaram a transcedência. Seus herdeiros são os que circulam a "morte de Deus" e os que celebram a cidade secular. Eles mostraram ironicamente a relatividade das culturas passadas sem antes, ter tomado conta do pressuposto da relatividade de sua própria cultura. Considerar a morte como o cumprimento de uma personalidade não é muito útil. Sofrimento e morte pedem por respostas que a secularização não tem.

Bertrand Russell 


Muito mais do que um simples humanismo indomável estava se formando no início do século XX. A verdadeira revolução estava ocorrendo. Esta "estendida a todos os campos da atividade artística - música, pintura, escultura, arquitetura, a dança, o teatro e a literatura". A revolução não tinha nenhuma ligação unificadora. Foi enxurrada de rejeições niilistas, e que não cessou. Ele se chamava Dada.





O movimento Dada conscientemente rejeitou todas as normas morais, sociais e a estética proclamou que o só o caos é real. Este movimento niilista foi fundado por Hugo Ball no Cabaret Voltaire em Zurique em 1916 e adquiriu o seu nome por uma abertura aleatória de um dicionário francês-alemão para a palavra "Dada", que soa como um termo sem sentido. Dada se espalhou rapidamente para Paris, Barcelona, Cologne, Berlim, Hannover, e Nova York. Com um fundo de desespero e desgosto da destruição e matança da I Guerra Mundial, os dadaístas tentaram demonstrar que o mundo, longe de ser razoável, não possui razão. Eles expressaram seu niilismo e irreverência no absurdo - na anti-razão, anti-esteticismo, anti-patriotismo e anti-burguesismo. Suas criações artísticas pareciam inútil.

Hugo Ball

Marcel Duchamp (1987-1968) liderou o caminho com absurdos já-prontos, um urinol exibido em Nova York intitulada “A Fonte”, e um conjuntos bizarros feitos com óleo e fios em um vidro chamado “A noiva Despida por seus celibatários, Even”, que foi danificado em seu transporte, mas mesmo assim sem qualquer perda de estética. Para expressar o acaso de propósito, e irracionalidade, os dadaístas, por vezes, simplesmente deixavam cair objetos e tintas em uma tela. Morton Schamberg e Elsa Loringhoven montaram uma a caixa de esquadrias e uma armadilha de canos a qual chamaram Deus.



A revolução Dada foi em busca da poesia inical de TS Eliot, que foi porta-voz para a época da Guerra Mundial I. Em “Prufrock”, “The Wasteland”, e “The Hollow Man”, a montagem do ethos da morte, a relatividade, e afastamento de Deus,  encontraram uma saída. A poesia de Eliot revela formas niilísticas diferentes daqueles revolucionários da Rússia. J. Alfred Prufrock mede a sua vida com colheres de café, conversa fútil, torradas e chá. Ele não tem nenhum propósito. Eliot foi mais a fundo em símbolos niilistas em Gerontion e Retrato de uma Senhora (1920). Os personagens sem propósito, estéreis em “The Wasteland” (1992) que Ezra Pound editou perderam a fé e sucumbiram ao cansaço e desespero espiritual. Desprovido de Deus, sentem uma sede de satisfação sexual, mas nunca estão satisfeitos. O terreno baldio é um deserto humano, um inferno na terra, o nosso mundo. “The Hollow Man” (1925) sonda o descaso do homem, a perdição, e a insignificância. Os homens sabem que a morte está se aproximando, e só possuem "a esperança de homens vazios". Os homens vazios não conseguem reunir fé suficiente para orar, eles estão paralisados, e que o mundo acaba "não com um estrondo, mas com um gemido".


T.S. Eliot

Escreve Karl Shapiro em seu Ensaio sobre Rime: "Por 1920 o gelo fino da crença / quebrou-se e foi embora / O cadáver, o rato rastejando, os ossos e a aparição / Chegou em seqüência, um mundo inteiro estava destruído / E inundado” Eliot retratou "o obituário do espírito" como quem celebra fazendo música macabra. 







Num momento em que Eliot se voltou para o cristianismo como uma resposta ao niilismo, Edna St. Vincent Millay (que acabou sucumbindo ao  álcool) foi escrevendo sobre como todos nós tornamos "aquele monótono, a poeira indiscriminada", mas ela não estava disposta a aceitar a saída: "Eu sei. Mas eu não aprovo. E eu não estou renunciado". Lament, em 1929, aproximou-se do niilismo, retratando uma cena de família após a morte do pai: "A vida tem que continuar, eu esqueço o porquê." Na década de 1930 Millay entrou no niilismo que já envolvia a Europa. Descreveu a vida como infrutífera e absurda, e a morte como um Não Último. Ela escreve que "os cérebros dos homens comidos pelos vermes", como o destino do homem na morte e no nada. Podemos "recolher enfeites" e "sentar-se em um círculo de brinquedos", mas todo o tempo a morte “estar a bater na porta” e "A vida em si é nada". Ela tipificava uma tendência. 

Jean- Paul Sartre
Jean-Paul Sartre (1905 -) considerado como um dos escritores mais influentes deste século seja na sua literatura e suas produções filosóficas. Ganhou o Prêmio Nobel de literatura em 1964. Na filosofia, ele estendeu as idéias de Edmund Husserl, Martin Heidegger, e Soren Kierkegaard, mas pode-se procurar em vão nas obras de Sartre uma dimensão divina, como o misteriso Ser de Heidegger ou o Deus da fé do Kierkegaard. O Ser e o Nada (1934, tradução para o inglês, 1956) esforça-se com a quase impossível tarefa de comunicar conceitos de ser-em-si, ser-para-si e ser-para-os-outros. Sendo assim, é a “coisificação”, e contra isto Sartre afirma que a consciência humana e a liberdade constituem existencialmente ser-para-si. Estamos estão sempre frágeis e em risco de se tornarem objetos - ser-para-os-outros ou ser-em-si. "Para  ser para-si é aniquilar o em-si" expressa o enigma paradoxal que Sartre procura explicar. Liberdade única do homem não pode ser presa a nada, seja os ideais éticos ou a tirania política. Perceber a liberdade é imediatamente para negá-la; e no final, o indivíduo morre e com ele se vai toda a aparência de consciência e liberdade. Destino final do homem é tornar-se um objeto percebido pelos outros, ou talvez não ser percebido em tudo. A ética individual e a responsabilidade social são difíceis para Sartre explicar pois todos os atos do homem estão destinados a ser parte do mundo do ser-em-si. Ao enfatizar a liberdade da consciência existencial do indivíduo como autónoma e incontestável, Sartre fez cada pessoa uma lei para si mesmo e todas as escolhas não só livre, mas arbitrária e sem causa. Ser-para-si não é determinado, e muito embora o indivíduo possa tentar, por dissimulação, auto-engano, ou "má-fé", ele não consegue livrar-se da liberdade. Contudo, os seres humanos continuamente tentam, e isso é uma fonte de angústia. Outras mentes devem ser ter sua existência considerada, mas não podem ser provadas, pois fazer isso é tornar outras mentes meros objetos. Consenso e o comprometimento tornar-se impossível. Este é o cerne da condição humana. Todos os esforços humanos estão condenados a serem inúteis e sem esperança, porque eles se tornam imediatamente o ser-em-si.

Não é surpreendente, então, que em “As Moscas” (1943), o personagem principal, Orestes, é "gloriosamente indiferente" e descomprometido com qualquer coisa - sem laços familiares, nenhuma religião, nenhuma vocação. Ele é autônomo. Mesmo depois de assassinar Clytemnesetra e Aegistheus, ele não sente nenhum remorso. Em sua liberdade e consciência, ele é a sua própria norma final. Muito antes de Richard M. Nixon dizer algo, Orestes disse: "Eu não sou um criminoso, e você não tem poder de me fazer expiar um por ato que eu não considero como crime". Não há um objetivo certo e errado com a qual se precisa cumprir: "Eu estou condenado a ter nenhuma outra lei, mas só a minha", A peça termina com Orestes desejando "ser um rei sem reino". Ele deixa Argos com as moscas gritando para ele. As pessoas, que realmente não pode renunciar à sua liberdade, no entanto, continuar em vão para tentar expiar seus "pecados" em "um belo e perverso odor de arrependimento". A situação é desesperadora, porque não se pode desfazer-se de sua liberdade.

Também não é de estranhar que em “Sem Saída” (1944) Sartre diz que "o inferno são os outros". Inez, Estelle e Garcin são condenados eternamente a sofrer da condição humana. Eles não podem se despir de sua própria consciência livre, não podem comprometer-se para outro o qual persiste em percebê-lo como um objeto, não podem se arrepender de seus pecados, porque esses pecados passados já se tornaram ser-em-si.

No final, o homem morre, ser-para-si torna-se ser-em-si, uma coisa sem consciência, sem liberdade. A descrição de Sartre (pode-se dizer ontologia) da consciência não só desnuda o viver em algo mais definitivo do que o eu individual, mas também destrói a continuidade e qualquer significado que não seja do momento, que imediatamente desaparece no mundo das coisas. Talvez mais do que qualquer outra pessoa, Sartre delineou a base filosófica para o niilismo, a falta de sentido, a inutilidade que assombra o século XX. Sartre abre as portas para a anarquia individual, arbitrária e autônoma, não importa que ação será tomada - seja a violência, compromisso, ou indiferença - porque todas as ações estão, por fim, condenadas a inutilidade e desesperança.

Albert Camus, amigo de Sartre, vencedor do Prêmio Nobel em 1957, coloca o problema do niilismo em “Calígula” (1938), uma peça sobre o governante maluco de Roma, que transforma sua filosofia niilista em cadáveres e se mata em um pesadelo do poder contra o poder. Camus sugere que Caligulas impregnam nosso mundo absurdo, que a violência é de se esperar em um mundo sem Deus. Camus moveu ainda mais para o niilismo em seu romance ”O Estrangeiro” (1942), a história de um jovem que é totalmente entediado e indiferente a tudo. As palavras iniciais dão o tom: "Mãe morreu hoje. Ou, talvez, ontem; Não tenho certeza.". E ele não se importa. Ele é indiferente até mesmo ao assassinato que comete, e, finalmente, em sua cela, diante da morte, em reação a um padre que veio para visitar, ele tem uma grande experiência de salvação: ele é esvaziado da esperança, percebe que tudo no mundo é indiferente, se vive ou morre, não faz diferença. A única realidade é a morte, não há sentido na vida.  Em “Caligua” é sondado a violência do niilismo; No “O Estrangeiro”, a sua indiferença.

lbert Camus
Em uma série de ensaios intitulada "O Mito da Sísifo" (1943), Camus reflete sobre niilismo e coloca o suicídio como a única questão filosófica enfrentada pelos seres humanos. Ele pondera sobre o significado da vida humana, porque não há base para julgamentos de certo e errado, não há congruência entre os valores e a realidade. A vida é um absurdo, a situação humana é um absurdo. Por que viver? No entanto, o suicídio admite falha e compõe a falta de sentido, então por que se suicidar? A contemplação do suicídio enfatiza o absurdo da situação do homem.



Mas muitos acreditam que Camus estava tentando mover-se além do niilismo, além do absurdo de que a vida termina no vazio da morte. Em uma série de obras – “A Peste” (1947), “O Rebelde” (1951), “A Queda” (1956), “O Exílio e o Reino” (1957) - Camus prosa o dilema niilista do homem, que vive e morre sem saber se há qualquer sentido para a vida. Morte reivindica os seres humanos, e em certo sentido, só podemos esperar e fazer ou não fazer o que julgamos melhor. Mas Camus resistiu até mesmo como Dr. Rieux faz em “A Peste”. No “O Rebelde” Camus sugere que o niilismo pode ser útil para demolir absurdos, anexos sem sentido, mas ele não é claro sobre quaisquer princípios de construção de anexos significativos. Em “A Queda”, Camus parece estar dizendo que o absurdo não está aqui, mas no coração do homem, como um pecado original canceroso. Assim, os leitores de Camus ficam com a impressão de que ele estava se movendo além do niilismo até o acidente de um carro em 1960, deixando as questões niilistas expostas mais uma vez. Camus, como Sísifo, vê o absurdo de empurrar uma pedra acima de um monte apenas para vê-la rolar para baixo e ser empurrado para cima novamente. Se esta é a condição eterna do homem, então o absurdo é uma parte inseparável da existência humana. Mas o sorriso de Sísifo é enigmático. Não se sabe, ao ler Camus, se ele encontrou uma solução para o niilismo ele descreveu. Alguém poderia argumentar que Camus estava lutando para ir além do niilismo para uma afirmação positiva da vida, e que ele perdeu a luta.
Samuel Beckett (1906 -), agora aclamado como sumo sacerdote do niilismo, ficou famoso com sua peça “Esperando Godot” (1952). Ela começa com um dos dois mendigos palhaços, dizendo: "Nada a ser feito", e o outro responder: "Estou começando a pensar nessa opinião", por tanto esperaram por Godot. Eles não sabem o que eles estão esperando. Ou mesmo se Godot existe, eles não têm nenhum compromisso, e não sabem se vai ser melhor se Godot vier. Um mensageiro mantém dizendo que Godot virá amanhã. A peça não tem começo, meio ou fim de desenvolvimento, como para contrariar a ideia de que a vida é um crescimento em direção a algum objetivo. Estragon e Vladimir discutem um evangelho, um cadarço, uma cenoura e uma árvore raquítica, como se todos estivessem no mesmo nível, e todos insignificantes: "Em um instante, tudo vai desaparecer e nós vamos estar sozinhos mais uma vez, no meio de nada! ". Ao final, um palhaço pergunta ao outro: "Bem, vamos? "A outra pessoa atende: "Sim, vamos." Mas eles não movem. Os palhaços e o palco desolador simbolizam o viver despojado de fundamentos. Beckett quer saber quem somos e por que estamos aqui, e não há resposta. É como se todos nós estamos à espera de Godot, à espera de nada, o nada da morte, quando Beckett ganhou o Prêmio Nobel em 1969, The London Times elogiou-o por retratar "um mundo que reconhecemos ser real e verdadeiro para a experiência. " Beckett considerado o Prêmio Nobel como mais um absurdo em um mundo absurdo.

Relativamente desconhecida, anterior a “Esperando Godot”, de Beckett produziu uma série de trabalhos reiterando a sua preocupação com o mistério do homem à espera da morte. ”Watt” (1953) é um romance sobre um homem que trabalha para o Sr. Knott, a quem ele nunca é respondido, ele não sabe o que está fazendo na casa do Sr. Knott. “Endgame” (1957), acontece em um palco como se estivessem no interior de um crânio, retrata a desintegração da personalidade humana nos últimos momentos antes da morte. “De Krapp Last Tape” (1958) mostra um homem velho ouvindo uma fita que ele fez quando era jovem e vendo a juventude como um completo estranho, como se a vida não tivesse continuidade. “Happy Days”, uma peça produzida em 1961, é sobre uma mulher que continua a tagarelar sobre futilidades, enquanto ela está afundando na terra, mostrando como nos preocupamos com atividades vazias, como se a vida fosse para sempre. Em 1967, Beckett publicou “Histórias e Textos para o Nada”. Beckett procura conhecer a realidade como ela é, desencapada, nua desmascarada. O que ele encontra é o vazio da morte.

Beckett

Um avalanche de filmes como La Dolce Vita, Five Easy Pieces, Conhecimento Carnal, O Último Tango em Paris, e dezenas de escritores - Rainer Maria Rilke, William Butler Yeats, Tennessee Williams, Ernest Hemingway, Gunter Gras, Wallace Stevens, Edward Albee , Samuel Beckett, Sylvia Plath, Flannery O'Connor, TS Eliot, Edna St. Vincent Millay, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, John Berryman, Jack Kerouac, Ann Sexton, alguns mais do que outros, testemunham a difusão do niilismo em nosso ethos.




Em 1969, Peter L. Berger publicou “A Rumor of Angels”, um livro que diz algo para nós, como historiadores. Ele esperava compensar o "conselho de desespero", criado no seu livro anterior, “The Sacred Canopy” (1967). Berger, um sociólogo, retrata o nosso ethos como aquele do qual o sobrenatural foi expurgado e a verdade é relativizada e subjetivada. O sobrenatural é estranho para as nossas estruturas cognitivas existentes que se baseiam em grande parte de ciências que excluem o sobrenatural. A minoria que detêm a noção de conhecimento que inclui o Supernatural são severamente deficientes, como um curandeiro de uma remota tribo indígena tentando manter a magia e espiritualismos de seu meio, no coração de uma comunidade sofisticada e científica. Cedo ou tarde, as certezas na mente do feiticeiro será prejudicada e exorcizada. Afirmações religiosas e supranaturalistas sofreram esse destino em nosso tempo. Berger aponta para o trabalho de Schleiermacher  “Religion to Its Cultured Despisers” (1799) como o início de um longo processo em que o cristianismo tem sido gradualmente "ajustado" para a "modernidade", significando o desmonte de seus aspectos sobrenaturais. Protestantismo liberal tem sido mais importante no ajuste e desmontagem, seguido de perto pelo judaísmo e catolicismo. O ataque começou com a crítica histórica que mostrou que os livros sagrados bíblicos foram "realmente" produtos humanos. Com a psicologia, Freud, então, explicou que esses livros e a religião eram meramente projeções de necessidades libidinosas humanas, juntando-se, assim, Deus e sexo na mesma cápsula. História e psicologia, assim, mergulharam a teologia em "um verdadeiro turbilhão de relativizações". E então veio a sociologia, demonstrando que qualquer comunidade, a fé é apenas uma entidade construída, feita por seres humanos em uma história específica. A sociologia explica a história e a psicologia como uma necessidade para o nosso estado! Não é de admirar Berger descreve a sociologia como um "triste ciência por excelência", uma "disciplina intrinsecamente desmascaradora que deve ser mais agradável para niilistas, cínicos, e outros assuntos”. Protestantismo liberal ajudou este processo, optando "ir com ele" e "ser relevante". Paul Tillich abraçou "correlação" como uma tarefa da teologia, buscando ajustar as tradições cristãs com a verdade filosófica. Rudolf Bultmann trabalhou em "desmitificar", procurando explicar a mensagem bíblica ivre das noções sobrenaturais do homem antigo. Karl Barth contrariando a tendência com a sua “Epistle to the Romans (1919)”, assim como Reinhold Nie-buhr com a sua obra “Nature and Destiny of Man (1941-1943)”, mas eles não contiveram a maré. Neste processo de aculturação sistemas de crenças, os protestantes foram gravemente erodidos e o próprio protestantismo desfigurados. Catolicismo romano tenazmente manteve a linha contra este modernismo, mas com João XXIII e do Concílio Vaticano II, fez com que o catolicismo abrissem suas portas para a modernidade, e agora passa pelo mesmo que o  protestantismo experimentou. Em 1966, Thomas JJ Altizer anunciou confiantemente a morte de Deus: "Devemos entender que a morte de Deus é um evento histórico, que Deus morreu em nosso cosmos, na nossa história, na nossa Existenz." Berger lamenta este processo, dizendo: "a rendição teológica à suposta morte do sobrenatural... representa, finalmente, a auto-liquidação da teologia e das instituições em que a tradição teológica é encarnada”.

Neste tipo de ambiente Hitler optou pelo poder autônomo. Na ausência de Deus, Hitler assumiu prerrogativas divinas, absolutizou sangue ariano, e procurou manipular o cristianismo e destruir o judaísmo. Em um holocausto do niilismo, ele exterminou seis milhões judeus. Mesmo que Hitler tenha sido derrotado, o niilismo foi promovido. Em reação ao holocausto, o rabino Richard Rubenstein, em “After Auschwitz” (1966) argumentou que Deus é um nada a partir do qual todas as coisas vêm e para onde todas as coisas finalmente entram em colapso. Rubenstein declarou que os horrores do nazismo fez com que, Deus como retratado na Bíblia, não é mais acreditável, o homem está sozinho no mundo, ele tem apenas a si mesmo a depender, e o destino final do homem é simplesmente a morte. Os seres humanos devem agora viver sem esperança final, afirmou Rubenstein, criando para si o que conseguirem. Elie Wiesel, que sobreviveu a Auschwitz, tem negado publicamente a postura de Rubenstein.

Esta é a falta de sentido que se tem trabalhado no tecido de nossa sociedade. Ela afeta todos nós. Ignorando suas próprias relatividades pressuposicionais, os sumos sacerdotes da secularização têm desnudado a cultura ocidental, não só do universo de três camadas, mas também o ciclo da natureza com a qual os cânones da racionalidade podem tratar no espaço-tempo tangível. Mas este espírito secular com o homem entronizado tropeça no sofrimento e na morte. John Dewey e Harvey Cox, por exemplo, tendem a ignorar a morte. Ele não se relaciona de forma significativa com o crescimento e a celebração. Preso no contínuo ciclo de nascimento e morte da natureza, com nada para dar sentido, cada indivíduo finalmente morre e é o fim. A vida é como um pobre personagem de Shakespeare, suportando através de um estágio, significando o nada, ou como Sísifo, empurrando uma rocha acima do monte apenas para vê-la rolar para baixo novamente, significando absurdo. Eu visualizo que é este o ethos niilista que fundamenta e permeia o século XX. Indivíduos que vivem fora deste ethos consciente e inconscientemente acham difícil não sentir o vazio de suas vidas.

Este vazio é intensificado pela despersonalização aparente da industrialização de hoje. Estamos identificados por números de segurança social, estatísticas de crédito, carteiras de motoristas e dados de computador. Esta mecanização em massa requer conformidade e pressiona o indivíduo até que se sinta perdido, insignificante, sacrificado para entidades empresariais que são voltadas para o lucro e perda. Esta industrialização e conformidade nega sentido necessário do ser. Ele sofre uma perda de valor e identidade, dando origem a mal-estar, perplexidade, raiva, resignação e indiferença, como se não adiantasse tentar qualquer coisa.

Estou convencido de que muito da violência e da indiferença da sociedade estão relacionados ao niilismo, mas provar isso é como tentar provar que programas de televisão afetam as crianças. Dr. Marvin Schwartz, presidente do departamento de psiquiatria da MacNeal Memorial Hospital, Berwyn, Illinois, avaliou a causa de um estupro em uma entrevista recente: "Na sociedade de hoje, que operacionalmente rejeita a ética judaico-cristã, o objetivo da vida é visto como o prazer do impulso e da auto-satisfação, independente de seus efeitos sobre os outros.  Até certo ponto, o estuprador é uma horrível sensação que expressa o final desta -  agindo fora da ética da nossa sociedade ". Em um ethos em que os valores foram relativizados, seria lógico esperar que a vontade deva ser exercida, que é o que o estuprador faz. Ele força seus impulsos e desejos em outro, ele se afirma como o seu próprio padrão autônomo. Este é niilista e com o aumento nas estatísticas de esturpo, indica que o comportamento é generalizado.

A criminalidade tem múltiplas causas, o aumento dos crimes graves, suicídio e abuso pessoal em nosso século parece indicar, com base na epidemiologia, uma raiz niilista. Se não existe um padrão final, por que não fazer o que eu quero, o que achar confortável para mim? Em seu trabalho sobre a lógica do indivíduo na anarco-psicologia, John Carroll diz que este ambiente gera sete respostas éticas para os indivíduos: a ética hedonista da auto-satisfação, que é utópica e cego para as necessidades da sociedade como um todo; a ética da rebelião, porque o mundo é um absurdo e não há para cima e para baixo; a ética de fazer do absurdo a estética e o estilo, arte pela arte; a ética do pessimismo estóico; a ética da experiência mística, como Heidegger pincela no ser; a ética da amizade sagrada e a ética individualista com o indivíduo o seu próprio legislador. A anarco-psicologia gera formas sociais de totalitarismo, pois deve haver alguma lei e ordem para a sociedade de existir, e na ausência de consenso, é imposta pelo poder absoluto. Watergate encarna muitas das características do niilismo, e Albert Jenner, advogado republicano do Comitê Judiciário da Câmara, que investigou prevaricação de Richard Nixon no cargo, julgou Nixon ser um homem mentiroso, amoral, cujo objetivo principal era promover a si mesmo por qualquer meio. Watergate poderia muito bem ser o clímax do niilismo em nosso país, e a quebra do acobertamento Watergate demonstra um símbolo de esperança de que os valores básicos ainda estão em curso.

Estes pedaços são de modo algum exaustivo. Eles são destinados apenas para indicar um ethos em que os historiadores dão pouca atenção, mas acredito que os historiadores do futuro vão gravar o niilismo como uma das principais marcas deste século.

Existe uma resposta ao niilismo, uma maneira de sair deste impasse? Pressupostos operaram tanto como posições de crença,  mas sem provas, de modo que os argumentos com base em diferentes pressupostos geralmente passam um pelo outro. Isso pelo menos sugere que as alternativas para a saída do niilismo esta relacionado com a própria vida. O indivíduo e a sociedade estão intrinsecamente interligados. Nem pode um sem o outro. Soberania individual degenera em anarquia, e da soberania social, convida a tirania. Entre os dois o consenso viável deve emergir e a anarquia e tirania devem ser evitados. Eu acredito que um consenso viável se encontra dentro das afirmações da tradição judaico-cristã, apesar das muitas distorções que apareceram na história. Essas distorções não erradicaram o amor divino fornecido pelo Deus da história, apesar de não compreender como isso pode ser. Tal arquétipo é necessário para salvar o indivíduo e a sociedade do niilismo.

Humanismo puro é a resolução oferecida pela maioria dos críticos. Mas o humanismo, embora útil, não resolve o problema da morte, que é central no niilismo. Sem um "outro", um transcendente cujo o ser não é um produto do mundo e não é dependente dele, a humanidade não pode ser capaz,  de por fim, escapar do vazio. Esta foi uma visão de Santo Atanásio, e continua válida.

Para encerrar, deixe-me levantar algumas questões para os historiadores da Igreja nos dias de hoje. Para o que estamos comprometidos? Quais são os nossos pressupostos sobre o cristianismo e a história da Igreja? Será que estamos tendo uma visão que promove o niilismo? Foram os séculos anteriores tão totalmente errados em afirmar a atividade de Deus na história? Se a verdade pode ser julgada apenas com base em um padrão aceito, que padrão estamos aceitando?

Nihilism in the Twentieth Century: A View from Here
Clyde L. Manschreck
Church History
Vol. 45, No. 1 (Mar., 1976), pp. 85-96