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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Juventude, os Beats e os Anarquistas de Direita (Por Julius Evola)

Muito tem sido escrito sobre a questão da nova geração e da "juventude". Na maioria dos aspectos, a questão não merece o interesse que tem recebido, e, por vezes, a importância concedida hoje à juventude em geral, associada a um tipo de desvalorização de todos aqueles que não são 'jovens', é um absurdo. Não há dúvidas de que estamos vivendo em uma época de dissolução: a tal ponto que as pessoas se aproximam da condição "sem raízes", para quem a "sociedade" não faz qualquer sentido, nem as normas usadas para regular a vida - as leis da época imediatamente anterior a nossa, que ainda persiste em vários lugares, e que representam apenas os costumes da burguesia. Naturalmente, esta situação é sentida fortemente e especialmente pelos jovens; levantar algumas questões nesse sentido pode ser legítimo. No entanto, o tipo de resposta que se limita a somente ao sofrimento disso tudo, incapaz de libertar-se em virtude de qualquer iniciativa ativa de si mesmo, como poderia ter sido possível para os poucos rebeldes individualistas intelectuais do século anterior, tem de ser isolada e considerada em primeiro lugar e essencialmente.
Desta forma a nova geração está apenas submetida ao estado de coisas; não levanta nenhum problema real e faz um uso completamente estúpido da "liberdade" à sua disposição. Quando este tipo de juventude finge que é mal compreendida, a única resposta que se pode dar é que não há nada para entender sobre o assunto, e que, sob uma ordem normal, seria apenas uma questão de colocar esses jovens de volta para onde pertencem, sem demora, como é feito com as crianças quando sua estupidez se torna cansativa, invasiva e impertinente. O chamado anti-conformismo de algumas das suas atitudes, que em outros aspectos, são bastante banais, segue ainda, um tipo de tendência, uma nova convenção, de tal forma que o resultado é exatamente o oposto de uma manifestação de liberdade. Outros fenômenos que consideramos nas páginas anteriores, como o gosto pela vulgaridade e algumas formas novas de costumes, pode-se, em geral, considerar como característica desse tipo de juventude; alguns proporcionam para ambos os sexos provas de prêmio, ou para os "cantores" epilépticos do momento, ou para as sessões coletivas de fantoches representados pelas sessões de 'yeah, yeah', ou para o 'hit' do momento, e assim por diante, com o correspondente comportamento. A ausência entre eles de qualquer senso de ridículo torna impossível exercer qualquer influência sobre eles, então, de fato, deve-se deixá-los para si em sua própria estupidez, e considere que, se por algum acaso, algumas polêmicas em relação, por exemplo, a emancipação sexual de menores, ou no sentido da família, apareça neste tipo de juventude, estas polêmicas possuem necessariamente nenhuma substância. Como o passar dos anos, a necessidade, para a maioria entre eles, de enfrentar os problemas econômicos da vida material e, sem dúvida quando tais jovens, tendo-se tornados adultos, adaptarão-se às rotinas profissionais, produtivas e sociais de tal mundo como o verdadeiro; De fato, este tipo de juventude passa, assim, de uma forma do nada para outra forma do nada.


Este tipo de "juventude", definida apenas pela idade (pois, neste contexto, seria fora de questão falar de certas possibilidades característicos da juventude, no sentido interior, espiritual) está fortemente estabelecida na Itália. Na Alemanha apresenta um caso muito diferente: as formas estúpidas e decompostas dos quais já falamos são muito menos prevalentes lá; a nova geração parece ter calma e aceitam o fato de uma existência em que nenhum problema deva ser levantado, de uma vida em que nem o bom nem o fim deva ser procurado; eles só pensam em utilizar os recursos e facilidades que o desenvolvimento recente da Alemanha adquiriu. Podemos nos referir a esse tipo de juventude como sendo "despreocupada", esses têm gradativamente deixado muitas convenções para trás, e adquiriram novas liberdades, sem conflitos, mas tudo dentro de uma esfera bidimensional de "factualidade", para o qual qualquer interesse maior, em mitos, em uma disciplina, em uma força-ideia, é desconhecido.

Na Alemanha, isto é provavelmente uma fase de transição, pois voltamos nossa atenção para as nações que foram mais longe na mesma direção, quando o ideal do "Estado de Bem-Estar" está quase alcançado, onde a existência é tida como certa, onde tudo é racionalmente regimentado - pode-se, nomeadamente, referir-se a Dinamarca, a Suécia, e, em parte, para a Noruega - eventualmente, de forma intermitente, reações na forma de erupções violentas e inesperadas acontecem. Estas são incitadas principalmente por jovens. Este fenômeno já é interessante e pode valer a pena examinar.
Mas, a fim de estudar as formas mais comuns devemos concentrar na América, e, em certa medida, na Inglaterra. Na América, os fenômenos de trauma espiritual e revolta da nova geração já surgiram de forma muito clara, em grande escala. Referimo-nos à geração que adquiriu o nome de "geração beat", e sobre o qual já falamos nas páginas precedentes: 'beat', ou 'beatniks', ou mesmo 'hipsters', para citar outra variação. Eles foram os representantes de uma espécie de existencialismo anarquista e anti-social, de um caráter mais prático do que intelectual (deixando de lado certas manifestações literárias, de ordem mais baixa). No momento em que escrevo estas linhas, o período áureo do movimento já passou; praticamente desapareceu da cena, ou se dissolveu. No entanto, ele mantém um significado único, porque este fenômeno está intrinsecamente ligado à própria natureza da presente civilização; enquanto esta civilização persistir, é de se esperar que as manifestações semelhantes apareçam, embora sob variadas formas e denominações. Mais particularmente, a sociedade americana, o que representa, mais do que qualquer outra sociedade, o limite e o reductio ad absurdum de todo o sistema contemporâneo, as formas 'beat' do fenômeno da revolta ganharam um caráter especial, paradigmático, e, portanto, não devem ser considerados como pertencentes ao mesmo nível dos jovens estúpidos, de que já falamos quando consideramos o caso da Itália, em particular.

Do nosso ponto de vista, um breve estudo desses fenômenos se justifica, porque partilhamos a opinião, expressa por um número de 'beats': a saber -  ao contrário do que os psiquiatras, psicanalistas e os "trabalhadores sociais" pensam - em uma sociedade, uma civilização, como o nossa, e, especialmente, como a dos EUA - deve-se em geral admitir que o rebelde, aquele ser que não se adapta, o ser anti-social, é, na verdade, o homem mais são. Em um mundo anormal, os valores esão invertidos: todo aquele que parece anormal, em relação ao meio existente, é, provavelmente, uma pessoa 'normal', no sentido de que nele ainda subsistem vestígios de energia vital integral; e nós não seguimos aqueles que querem 'reabilitar' tais indivíduos, a quem eles consideram como doentes, e 'salva-los' para a 'sociedade'. O psicanalista, Robert Linder, teve a coragem de admitir isso. Do nosso ponto de vista, o único problema diz respeito à definição do que poderíamos chamar de "anarquista de direita". Vamos examinar a distância que separa este tipo para a orientação problemática que quase sempre caracteriza o "não-conformismo" dos "beats" e "hipsters”.

O ponto de partida, isto é, a condição de que determina a revolta do 'beat', é evidente. O sistema é acusado, embora este não empregue formas políticas "totalitárias", que estrangule a vida, ou que ataque as personalidades. Às vezes a questão da insegurança física do futuro é levantada, na forma da opinião de que a própria existência da espécie humana é posta em jogo pela probabilidade de uma eventual guerra nuclear (em proporções apocalípticas); mas o que é sentido principalmente é o perigo de morte espiritual, inerente à adaptação ao sistema atual e as suas forças externas impostas condicionantes (seu 'heteroconditioning'). América é descrita como "um país podre com um câncer que se prolifera em cada uma de suas células" e afirma-se que "a passividade (conformidade), ansiedade e tédio são as suas três características." Nesse clima, a condição do ser sem raízes, a unidade perdida na "multidão solitária", é nitidamente experimentada; "sociedade, vozes vazias, insignificância." Os valores tradicionais foram perdidos, os novos mitos são desmascarados, e esta "desmistificação" mina toda uma nova esperança: "liberdade, revolução social, a paz - são nada além de mentiras hipócritas." "A alienação do eu como condição normal" - tal é a ameaça.

No entanto, já se pode notar a diferença mais importante do tipo 'anarquista de direita': o beat não reage ou se rebela partindo do positivo - isto é, ter uma idéia precisa de como a ordem normal e sã seria, e firmemente apoiando-se em alguns valores fundamentais. Ele reage instintivamente, de forma confusa, existencial, contra a situação, de um modo semelhante ao que ocorre em certas formas de reação biológica. Por outro lado, o "anarquista de direita" sabe o que quer, ele tem uma base para dizer" não ". O 'beat', em sua revolta caótica, não só carece de tal base, mas, provavelmente, rejeitaria, também, se fosse indicado. É por isso que as frases, "rebelde sem bandeira", ou "rebelde sem causa", podem realmente apelar para ele. Isto implica uma fraqueza fundamental, em que o 'beat' e o 'hipster', apesar de seu medo de ser 'hetero-condicionado', isto é, estar sujeito a forças impostas externamente condicionadas, na verdade correm precisamente esse perigo, pois suas atitudes são motivadas pela situação existente (no sentido de serem meras reações). Aceitando tudo, de forma impassível, de forma fria, seria uma atitude mais consistente.

Portanto, quando o 'beat', além de seu protesto e revolta direcionado ao exterior, considera o problema real de sua vida interior pessoal, e procura resolvê-lo, ele inevitavelmente se encontra em terreno escorregadio. Na falta de um centro concreto interior, atira-se para a busca de emoções, obedecendo a impulsos que o fazem regredir em vez de desenvolver, enquanto ele busca todas as formas possíveis para preencher o vácuo e a obscuridade da vida sem sentido. Um precursor dos "beats", Henry Thoreau, tomou o mito do homem natural de Rousseau, de um voo na natureza, para propor uma solução que é ilusória; uma fórmula que é muito simples, e essencialmente insípida. No entanto, há aqueles que seguiram este caminho, para um estilo de vida neo-primitivo boêmio, o nomadismo, e malandragem (como personagens de Kerouac); que procurou desordem e o caráter imprevisível de uma existência que abomina todas as linhas pré-ordenadas da ação, e toda a disciplina, em favor de uma tentativa de tomar todo o momento a plenitude da vida e da existência (pode-se referir aos primeiros romances mais ou menos autobiográficos de Henry Miller: "queimando a consciência do presente, nem com um "bom" ou um "mau").



A situação agrava-se ainda mais com o recurso a soluções extremas: ou seja, se busca preencher o vazio interior e sentir-se 'real', na busca para provar a si mesmo digno de uma liberdade superiores ("o que eu, sem lei e sem qualquer obrigação"), por meio de ações violentas e criminosas, que são dadas no sentido de uma afirmação de si mesmo, ao invés de apenas atos extrema resistência e protesto contra a ordem estabelecida, contra o que é normal e racional. Assim se gera uma base "moral" para a criminalidade desenfreada, sem motivos materiais ou afetivos, impulsionados somente por uma "necessidade desesperada de valor", porque tem que "provar a si mesmo que é um homem", que "não tem medo de si mesmo", "cortar com a morte e o além". O uso de tudo frenético, irracional e violento - a "violência frenética para criar ou destruir" - entram em jogo.

Aqui, o caráter ilusório e equívoca das soluções deste tipo emerge claramente. É óbvio que, nesses casos, a busca de sensação vital intensificada serve quase sempre como um substituto ilusório para um verdadeiro sentido do Eu. Ao discutir atos extremos e irracionais, vamos, além disso, mostrar que esta não é apenas, por exemplo, uma questão de ir para a rua e atirar em transeuntes aleatoriamente (como André Breton propôs uma vez para os 'surrealistas'), ou de estuprar a própria irmã mais nova, mas também, talvez, se afastar, ou destruir, tudo o que se possui, ou arriscar a vida para salvar um estranho estúpido. É preciso, portanto, ser capaz de discernir se o que se vê como um ato extremo 'gratuito' não seja dirigido por impulsos ocultos, cujo o indivíduo pode ser escravo, ao invés de algo que atesta, e concretiza, a liberdade superior. Em geral, há uma ambivalência considerável dentro do individualista anarquista: "ser você mesmo, livre de vínculos", mesmo permanecendo escravo de si mesmo. A observação de Herbert Gold de tais casos, carente de auto-exame, é, sem dúvida, correta: "O hipster é uma vítima da pior forma de escravidão, o escravo que, inconsciente e orgulhoso de sua condição de servidão, chama isso a liberdade."

Ainda há mais. Muitas das experiências intensas que poderiam dar ao "beat" uma sensação fugaz de "realidade" faz dele, em essência, muito menos "real", porque elas condicionam-o. Wilson traz essa situação de forma muito clara, por meio de um personagem em seu já mencionado livro. Este personagem executa, de uma forma bastante "beat", uma série de assassinatos sádicos de mulheres, a fim de sentir-se "reintegrar", para escapar frustração, "porque ele foi frustrado em sua busca de seu direito de ser um deus”, e acaba revelando-se como um ser partido e irreal. "Como um paralítico que sempre precisa de estimulantes mais fortes e para quem nada importa ... Achei que o assassinato era apenas uma expressão de revolta contra o mundo moderno e suas emboscadas, porque quanto mais se fala da ordem e da sociedade, maior a taxa de crime. Eu pensei que seus crimes eram um ato desafiador... isso estava longe de ser o caso - ele mata, pela mesma razão que leva o álcool para si: porque ele não pode fazer sem ele". O mesmo se aplica, naturalmente, para outras experiências extremas.

Nós podemos, na passagem, relembrar, de modo a estabelecer novamente as distinções precisas, que o mundo da Tradição também estava familiarizado com o "Caminho da Mão Esquerda" - um caminho do qual já falamos em outro lugar, que inclui violar a lei, destruição e a experiência orgiástica de várias formas, mas a partir de uma orientação positiva, sagrada e 'sacrificial', "para o que está em cima", para a transcendência de todas as limitações. Este é o oposto da busca de sensações violentas simplesmente porque se está internamente espancado e inconsistente, apenas com o intuito de prolongar a sensação de existência, de uma forma ou de outra. É por isso que o título do livro de Wilson, "O Ritual no Escuro", é muito apropriado: ele descreve um modo de celebração, dentro de um reino de sombra, sem luz, o que poderia ter tido sentido, em um contexto diferente, de um rito de transfiguração.

Da mesma forma, os "beats" frequentemente utilizaram certas drogas, procurando assim induzir uma ruptura, uma abertura, além da consciência comum. E isso, com as melhores intenções. No entanto, um dos principais representantes do movimento, Norman Mailer, chegou a reconhecer o "jogo de dados" implícito no uso de drogas. Além da "lucidez superior", da percepção da "nova, fresca e original da realidade, agora desconhecida para o homem comum", aquela que alguns aspiram pelo uso de drogas, há o perigo de "paraísos artificiais", de render-se a formas de voluptuosidade em êxtase, de sensação intensa, e até mesmo visões, desprovidas de qualquer conteúdo espiritual ou revelador, e seguidas de depressão uma vez que se retorna à normalidade, o que só agrava a crise existencial. O fator determinante aqui é a atitude subjacente assumido pelo próprio ser: este quase sempre decide o efeito de tais drogas, em um sentido ou outro. No relato, pode-se referir, por exemplo, dos efeitos da mescalina, descrito por Aldous Huxley (autor já familiarizado com a metafísica tradicional), que se sentia capaz de fazer uma analogia com certas experiências de alto misticismo, ao contrário dos efeitos totalmente banais descritos por Zaehner (o autor quem já citado em nossa crítica Cuttat), que queria repetir experiências de Huxley, com o objetivo de "controlar", mas a partir de uma equação pessoal e atitude completamente diferente. No entanto, dado que o "beat" é um ser profundamente traumatizado, que se lançou em uma busca confusa de 'imprevistos', não se deve esperar nada de muito positivo do uso de drogas. A outra alternativa certamente prevalecerá revertendo os ganhos aparentes iniciais. Além disso, o problema não é resolvido por aberturas escapistas esporádicas na "Realidade", na sequência da qual nos encontramos mergulhados de volta a uma vida privada de significado. Que as premissas essenciais para se aventurar neste terreno são inexistentes é evidente a partir do fato de os"beats" e "hipsters" em grande parte eram jovens, sem a maturidade necessária, evitando toda a auto-disciplina por princípio.

Algumas pessoas afirmaram que o que os 'beats', ou pelo menos alguns deles, obscuramente procuraram, era em essência, uma nova religião. Mailer, disse: "Eu quero que Deus me revele o seu rosto," radicalmente afirmou que eles são os precursores de uma nova religião, que seus excessos e revoltas são formas transaccionais, que "poderia dar à luz amanhã uma nova religião, como o Cristianismo" Tudo isso soa como conversa fiada e, hoje, agora que a avaliação pode ser feita, não existem tais resultados visíveis. É bastante claro que aquilo essas forças carecem são precisamente os pontos superiores e transcendentes de referência, similares aos das religiões, capazes de proporcionar um apoio e uma orientação correta. "Eles buscam por um credo que os salvem", como alguém disse, mas "Deus não está sob ameaça de morte" (Mailer, referindo-se ao Deus da religião teísta ocidental). É por isso que as pessoas que foram chamadas de "místicos beat" buscaram em outras partes, tornaram-se atraídos pela metafísica oriental e, especialmente, no Zen, como já mencionado em outro capítulo. No entanto, em relação a este último ponto, há motivos para questionar as motivações envolvidas. O Zen exerceu influência sobre os indivíduos em questão, especialmente, por causa das súbitas aberturas iluminadoras na Realidade (através do satori), a explosão e rejeição de todas as superestruturas racionais, e da irracionalidade pura, a demolição implacável de todos os ídolos, e dos eventuais meios violentos, poderiam produzir. Pode-se entender que tudo isso atrairia bastante o ocidental jovem desenraizado, que não pode tolerar qualquer disciplina, que vive de aventuras, e que está em um estado de rebelião. Mas a realidade é que o Zen pressupõe tacitamente uma orientação anterior, ligada a uma tradição secular, e os ensaios muito difíceis não são excluídos. Poderá ser suficiente ler a biografia de alguns mestres zen: Suzuki, que foi o primeiro a introduzir essas doutrinas no Ocidente, literalmente falou de um "batismo de fogo", como preparação para o satori. Arthur Rimbaud expôs um método de se tornar um vidente, através de "desarranjo sistemático dos sentidos", e não descarta a possibilidade de que, em uma vida absolutamente, mortalmente, aventureira, mesmo sem um guia, procedendo sozinho, 'aberturas' do tipo que alude o Zen poderiam acontecer. Mas estas seriam sempre exceções, que, de fato, incorporam um certo caráter miraculoso, como se estivesse predestinado, ou sob a proteção de um bom daemon. Pode-se suspeitar que o motivo por trás da atração que o Zen e semelhantes doutrinas são capazes de exercer sobre 'beats' é esta: os 'beats' supõem que essas doutrinas dão uma espécie de justificação espiritual para a sua disposição anárquica puramente negativa, no sentido da pura desordem, o que lhes permite escapar a tarefa inicial, que, no seu caso, se resume a dar-se uma forma interna. Essa necessidade confusa de um ponto superior e supra-racional de referência, e, como alguém já disse, um meio de aproveitar "o segredo chamado do ser", também é completamente desviante, quando esse "ser" é confundida com a 'Vida', seguindo teorias como as de Jung e Reich, e quando se vê no orgasmo sexual, e na entrega ao tipo crises degeneradas e Dionisíaca, por vezes, oferecido pelo jazz, e outros caminhos adequados para 'sentir-se real ", de entrar em contato com a Realidade.

Com relação ao sexo, repetimos o que já disse acima, no capítulo XII, ao analisar as perspectivas dos precursores da "revolução sexual". Um dos personagens de Wilson do já citado romance interroga-se se "a necessidade sentida por uma mulher não é apenas a necessidade em nós por aquela intensidade", se o impulso maior, rumo a uma liberdade suprema, não é obscuramente manifestado no impulso sexual. Esta questão poderia ser legítima. Já lembramos que a concepção não-biológica e não sensacionalista, mas, em certo sentido, transcendente da sexualidade, tem, de fato, antecedentes precisos e não-extravagantes em ensinamentos tradicionais. No entanto, é preciso consultar a discussão já apresentada sobre este assunto em "A Metafísica do Sexo", onde sublinhamos a ambivalência da experiência sexual, ou seja, o positivo ou negativo "des-realização" e "des-condicionamento" das possibilidades ali contidas. No entanto, quando o ponto de partida é uma espécie de angústia existencial, ao ponto em que o 'beat' parece obcecado com sua incapacidade de atingir "o orgasmo perfeito '(como descrito nas vistas acima mencionados por Wilhelm Reich, e, em parte, por DH Lawrence, que afirmou ver no sexo um meio de integrar-se na energia primordial da vida) - em tais casos, não há motivos para pensar que os conteúdos negativos e dissolucionários da experiência sexual irão predominar, também porque as condições existenciais preliminares necessárias para o oposto ser verdade são inexistentes: o sexo e a força corrente do orgasmo irá possuir o eu, e não vice-versa, como deve ser o caso, se isso fosse servir como um caminho. O mesmo vale para drogas: uma geração jovem desperdiçada não pode lidar com experiências deste tipo (que também são considerados pela Via da Mão Esquerda). Quanto à liberdade sexual plena, como revolta simples e não-conformidade, é estupidez, e não tem nada a ver com o problema espiritual.

Infelizmente, não há muito para se extrair numa análise do que os 'beats' e 'descolados' têm buscado, em um plano individual e existencial, como uma contrapartida a uma revolta legítima contra o atual sistema, para preencher o vazio, e resolver o problema espiritual. A situação de crise continua. Apenas em casos excepcionais, pode-se encontrar algo de valor positivo, no caso de um "anarquista de direita". É certo que o problema é um problema de material humano. Quanto à prática do não-conformismo, destruição dos mitos, dissociação fria em frente a todas as instituições burguesas: não pode haver objeção, se tal curso é seriamente seguido pela nova geração. Seguindo o desejo de alguns representantes da 'beat' geração, nós não rejeitamos seu movimento como uma tendência passageira. Nós apenas consideramos em seus aspectos mais característicos; seu problema característico é uma expressão natural da época atual. Seu significado permanece, apesar de suas formas terem deixado de existir nos Estados Unidos, ou de apresentar qualquer sedução especial para a juventude.

Gostaríamos agora de considerar o problema da geração mais jovem um pouco mais especificamente. Há jovens que se revoltam contra a situação sócio-política na Itália, e que estão, ao mesmo tempo interessado no que chamamos, em geral, o mundo da Tradição. Enquanto, por um lado, eles se opõem às forças de esquerda e ideologias que invadem perigosamente no plano prático, por outro lado, eles olham para horizontes espirituais, e tomam algum interesse nos ensinamentos e disciplinas da sabedoria antiga. Temos, assim, forças que estão potencialmente 'em guarda'. O problema é chegar com as direções que são capazes de dar uma orientação positiva para a sua atividade.

O nosso livro 'Ride the Tiger ", considerado por alguns como um "manual para o anarquista de direita", resolve o problema até certo ponto, na medida em que se trata essencialmente - uma coisa que não tem sido salientada suficiente - apenas para um tipo diferenciado e bastante específico de homem, com um alto nível de maturidade. Consequentemente, as orientações oferecidas no livro nem sempre são adaptados, ou, em geral, realizáveis, para a categoria de jovens a que acabamos de aludir.
A primeira coisa a recomendar a esses jovens é a prudência em relação a todas as formas de interesse ou entusiasmo que pode ser de origem meramente biológica, isto é, devido à sua idade. Deve ser visto se a sua atitude permanecerá inalterada com a chegada da idade adulta, quando terão de resolver os problemas concretos da existência. Infelizmente, a nossa experiência pessoal mostrou-nos que este é raramente o caso. Na virada do, digamos, seus trinta anos, apenas alguns mantêm as mesmas posições.

Já falamos de uma juventude que não é apenas biológica, mas que também tem um aspecto espiritual interno, não necessariamente condicionada pela idade. Essa juventude superior pode, contudo, manifestar-se nos outros jovens. Não iremos dizer que é caracterizada por "idealismo", pois o termo é usado e ambíguo, e devido a capacidade de "desmistificar" ideais, ao aproximar-se do nível dos valores convencionais, é uma qualidade que esses jovens compartilhem com outras correntes de uma orientação bastante diferente. Preferimos falar de uma certa capacidade de entusiasmo e élan, a devoção incondicional e desprendimento de existência burguesa e de interesses puramente materiais e egoístas. Preferimos falar de uma certa capacidade de entusiasmo e élan, a devoção incondicional e desapego da existência burguesa e de interesses puramente materiais e egoístas. No entanto, a primeira tarefa é assimilar aquelas disposições que, entre as melhores, se desenvolvem em paralelo com a juventude física, fazer delas qualidades permanentes, resistindo a todas as influências opostas ao que se está fatalmente exposto com a idade. Quanto à não-conformismo, a primeira coisa necessária é um estilo de vida que é estritamente anti-burguês. Em seu primeiro período, Ernst Jünger não tinha medo de escrever: "É melhor ser um delinquente do que um burguês"; não estamos dizendo que esta fórmula deve ser tomada ao pé da letra, mas indica uma orientação geral. Na vida diária é preciso também ter cuidado com as armadilhas apresentadas pelos assuntos sentimentais, como casamento, família, e tudo o que pertence às estruturas residuais de uma sociedade visivelmente absurda. Esse é um ponto fundamental. Por outro lado, para o tipo em questão, certas experiências, como o caráter problemático que vimos no caso dos 'beats' e 'hipsters', não podem oferecer os mesmos perigos.

Para contrapor o peso da auto-disciplina, essa juventude tem de desenvolver um gosto pela auto-disciplina que é livre de formas, desligada de qualquer necessidade social ou "pedagógica". Esta dificuldade é causada pelo fato que tal formação pressupõe, como um ponto de referência, certos valores, enquanto a juventude rebelde rejeita todos os valores, todas as "morais", da sociedade atual, e da sociedade burguesa, em particular.

Entretanto, aqui, uma distinção deve ser feita. Há valores que possuem um caráter conformista, e uma justificativa inteiramente externa, social - para além de certos "valores" que permanecem como tal, porque suas fundações originais estão irremediavelmente perdidas. Por outro lado, certos outros valores são oferecidos apenas como suportes, para garantir ao ser uma verdadeira forma e firmeza. Coragem, lealdade, franqueza, o desgosto por ter mentido, a incapacidade de trair, a superioridade a todo egoísmo mesquinho e todo o interesse inferior, pode ser contado entre os valores que, em certo sentido, estão acima do "bem" e do "mal", e que estão em uma 'não-moral', um plano ontológico: precisamente porque eles fornecem a base para um 'eu', ou reforçá-o, contra a condição apresentada pela natureza instável, fugitiva e amorfa. Aqui não existe qualquer obrigatoriedade. A disposição natural do indivíduo por si só deve decidir. Para usar uma imagem, a natureza nos presenteia com tantas substâncias que tenham atingido a cristalização completa, como aqueles cristais imperfeitos e incompletos, misturadas com gangas frágeis (o mineral ou substância de terra associado com minério metálico). Claro, não chamaremos o primeiro de "bom" e o segundo de "ruim", num sentido moral. Em verdade eles são diferentes graus da "realidade". O mesmo vale para o ser humano. O problema da formação dos jovens, e seu amor para a auto-disciplina, deve ser medido nesse plano, além de todos os critérios e valores da moral social. F. Thiess com razão escreveu: "Existe vulgaridade, mesquinhez, baixeza, animalidade, traição, assim como existe a prática estúpida da virtude, a intolerância, o respeito conformista com a lei. O primeiro vale tão pouco quanto o último.".

Em geral, cada juventude é caracterizada por um excesso de energias. A questão do seu uso surge em mundo como o nosso. A este respeito, pode-se considerar em primeiro lugar o aspecto do desenvolvimento externo, físico do processo de "formação". Faríamos bem em não recomendar a prática de esportes modernos em sua quase totalidade. O esporte é de fato um dos fatores típicos da brutalização das massas modernas, e um caráter vulgar é quase sempre associado a ele. Mas certas atividades físicas particulares podem ser admitidas. Um exemplo é oferecido pelo montanhismo de alta altitude, desde que possam ser restaurados à sua forma original, sem as ajudas técnicas e a tendência à pura acrobacia que deformou e tornou-o um pouco materialista nos últimos tempos. Pára-quedismo também pode oferecer possibilidades positivas - em ambos os casos, a presença do fator de risco é um apoio útil para o fortalecimento interior. Como outro exemplo, pode-se mencionar artes marciais japonesas, desde que haja a oportunidade de aprender de acordo com sua tradição original e não sob as formas que hoje em dia são difundidas no Ocidente - formas privadas de qualquer contraparte espiritual, graças ao domínio dessas atividades estarem ligados às formas sutis de disciplina interna e espiritual. Nos últimos tempos, certas corporações de estudantes da Europa Central, o Korpsstudenten praticaram o Mensur - ou seja, duelos cruéis, mas não fatais, seguindo normas precisas (com cicatrização faciais como marcas) - com o objetivo de desenvolver a coragem, firmeza, intrepidez , resistência a dor física. Enquanto certos valores de uma ética superior, da honra e da camaradagem foram privilegiados, evitando certos excessos eventuais, essas corporações ofereceram várias possibilidades. Mas tendo os contextos sócio-culturais desaparecidos, qualquer coisa desse tipo hoje em dia na Itália, é impensável.

A superabundância de energias também pode levar a várias formas de "ativismo" no domínio sócio-político. Nestes casos, um sério exame é essencial, em primeiro lugar para garantir que um eventual envolvimento com certas ideias que se opõem ao clima geral não são somente uma forma de gastar energia (ainda mais quando, em diferentes circunstâncias, até mesmo ideias muito diferentes poderiam servir ao mesmo objetivo): o ponto de partida e a força motor são uma verdadeira identificação com essas ideias, atingindo à base de um reconhecimento de seu valor intrínseco. Dito isto, em relação a qualquer tipo de ativismo, a dificuldade é que, mesmo se o tipo de juventude que nos referimos compreenda quais idéias valem a pena lutar, dificilmente poderiam encontrar, no clima atual, as frentes, partidos ou grupos políticos que verdadeiramente e intransigentemente defendem idéias desse tipo. Outra circunstância - dada a fase em que estamos atualmente, a luta contra movimentos políticos e sociais que hoje dominam possui poucas chances de alcançar resultados globais apreciáveis - tem pouco peso na análise final, porque aqui a norma deve ser fazer aquilo que deve ser feito, enquanto disposto a lutar, eventualmente, até mesmo por posições perdidas. De qualquer forma, afirmar hoje uma "presença" pela ação sempre será útil.

Quanto ao ativismo anarquista de mero protesto, este pode variar de certas manifestações violentas rotuladas como "pertencente ao underground", como aquelas dos jovens de certas nações (já discutimos o caso dos países do Norte da Europa onde reina o estado de "bem estar social"), até atos terroristas, como aqueles utilizados pelos anarquistas políticos niilistas da 'velha guarda'. Devemos excluir os motivos de certos 'beats', isto é, o desejo de uma ação violenta só por querer uma sensação que ela traz - mesmo no contexto de uma simples tomada de energias, tal ativismo parece infundado. Certamente, se pudessem organizar hoje uma espécie ativa de "Santo Vehm", capaz de manter os principais responsáveis pela subversão contemporânea em um estado de insegurança física contínua, seria algo excelente. Mas isso não é algo que os jovens possam organizar, e, além disso, o sistema defesa da atual sociedade é muito bem construído para que essas iniciativas não sejam interceptadas desde o início, e o preço pago é muito alto.

Um ponto final deve ser considerado. Na categoria de jovens que estamos atualmente discutindo, que, no contexto do mundo atual, podem ser definidos como "anarquistas de direita", encontramos alguns indivíduos que, ao mesmo tempo, com as perspectivas de realização espiritual que foram apresentadas por sérios proponentes do movimento tradicionalista, com referências as antigas doutrinas sapienciais e iniciáticas, possuem uma atração. Isso é algo muito mais sério que o interesse ambíguo exercido pelo irracionalismo de um mal entendido entre alguns 'beats' americanos, talvez somente por conta de uma diferente qualidade das fontes de informação. Tal atração é compreensível, se consideramos o vácuo espiritual que tem sido criado, após a decadência das formas religiosas que dominaram o ocidente e o questionamento de seu valor. Distinto destes, pode-se observar que existe uma aspiração a algo muito superior, e não por substitutos inúteis. No entanto, quando se fala da juventude, não devemos nutrir aspirações demasiadamente ambiciosas e distantes da realidade. Não é preciso somente ter a maturidade exigida; o que também deve ser levado em conta é o fato que o caminho que nós indicamos nos capítulos anteriores (XI e XV) requer, e sempre exigiu, um pré-condicionamento particular, algo semelhante ao que é conhecido como uma 'vocação', em um sentido específico, dentro das ordens religiosas. Sabe-se que nestas ordens uma certa quantidade de tempo é permitido para que o novato possa verificar a autenticidade de sua vocação. Aqui, devemos repetir o que dissemos antes sobre a vocação mais geral que se pode sentir como um jovem: é preciso verificar se ele se fortalece em vez de enfraquecer com a idade.

As doutrinas a que nos referimos não podem dar à luz as ilusões patrocinados pelas muitas formas impuras do neo-espiritualismo contemporâneo - teosofia, a antroposofia, etc - ou seja, a ideia de que o maior objetivo está dentro do alcance de todos, e a realização por este ou aquele expediente; ao contrário, deve antes aparecer como um distante divisor de águas, alcançado apenas por um longo caminho, difícil e perigoso. Apesar disso, podemos sempre indicar, para aqueles que nutrem um interesse sério, algumas tarefas preliminares e momentâneas. Em primeiro lugar, poderiam dedicar-se a uma série de estudos sobre sua visão geral da vida e do mundo, que é a contrapartida natural dessas doutrinas, de modo a adquirir uma nova formação mental, que corrobora de forma positiva o "não" que devem pronunciar a tudo o que existe hoje, e para eliminar as várias intoxicações graves pela cultura moderna. A segunda fase, a segunda tarefa, seria ultrapassar a fase puramente intelectual, fazendo um certo conjunto "orgânico" de ideias, que determinam uma orientação existencial fundamental e dar, assim, o sentimento de uma segurança indestrutível e inalterável. Um jovem que gradualmente chegou a esse patamar já teria ido muito longe. Pode-se deixar indeterminado o "sim" e o "quando" a terceira fase, em que, mantendo a tensão original, certos atos de "descondicionamentos" podem ser analisados em respeito ao limite humano. A este respeito, fatores imponderáveis entram em jogo e a única coisa razoável a se conseguir é uma preparação adequada. Esperar resultados imediatos em sua juventude é um absurdo.



Várias experiências nos convenceu que estas breves considerações e esclarecimentos finais não são desnecessários, embora, obviamente, dizem a respeito de um grupo bastante diferenciado da juventude não conformista: daqueles que com precisão perceberam o problema espiritual específico. Assim, temos ido muito além do que é comumente chamado de "o problema da juventude". O "anarquista de direita" pode ser concebido como um tipo suficientemente distinto e compreensível, em oposição à juventude estúpida, dos rebeldes "sem causa", e aqueles que se oferecem para a aventura, para realizar experiências que proporcionam nenhuma solução real, nenhuma contribuição positiva, uma vez que ainda não tem uma forma interna. Em todo rigor, pode-se objetar que essa forma é uma limitação, uma forma de escravidão e que contradiz com a pretensão inicial, a liberdade absoluta do anarquismo. Mas, uma vez que é bastante improvável que alguém que faça tal objeção tenha em mente a transcendência, no sentido real e pleno da palavra - o sentindo que este termo tem, por exemplo, na alta ascese - só é preciso responder que a outra alternativa diz respeito a uma juventude "queimada", de tal maneira que nenhum centro sólido resistiu a prova representada pela dissolução geral, pode muito bem ser considerada como um produto existencial puro da mesma dissolução, de modo que essa juventude se ilude muito em pensar que é realmente livre. Essa juventude, seja rebelde ou não, atrai pouco interesse de nós, e não há nada para ser feito com ela. Ela só pode servir como um estudo de uma patologia dentro de um quadro geral da época.

Julius Evola em L'Arco e la Clava (1968)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Espiritismo e as Pesquisas Psíquicas (Por Julius Evola)

A faculdade atribuída a mediunidade pode definir-se como um método que promove ou aumenta a desintegração da unidade interna da pessoa. O homem, como médium, tendo sido parcialmente livre seu corpo de um certo grupo de elementos mais débeis, trona-se um instrumento de manifestação em nosso mundo de forças de natureza extremamente diversificada, mas sempre inferiores ao seu caráter pessoal. O médium não pode de forma alguma controlar essas forças e influências, pois sua consciência alcança apenas os efeitos, ou definitivamente cai em sono, em transe ou catalepsia.

Eis um dos problemas discutidos na metapsíquica em relação aos fenômenos extranormais: como se deve explicar as faculdades, estão essas ligadas ao médium e outros sujeitos, ou se deve atribuir a agentes externos, extra-individuais? Esta questão perde grande parte de sua importância quando se trata do inconsciente ou subconsciente, já que, por definição, é a parte inferior da pessoa, isto é, uma região psíquica na qual o que é individual e o que não é, se encontra separado por uma fronteira muito tênue que pode se estender e penetrar por áreas povoadas por toda classe influências,  a "pensamentos errantes" e até a forças que nem sempre tem uma correspondência com o mundo dos seres encarnados e a realidade sensível.
  
Mais recentemente, na metapsíquica, as hipóteses estritamente espiritistas dos primeiros tempos são consideradas como primitivas e superadas. Entretanto, caíram no extremo oposto, porque em certos casos particulares de manifestação mediúnica, consideram que entre as influências discutidas, pode-se encontrar também os "espíritos" dos mortos, dando ao termo "espíritos" um sentido antigo, estando tremendamente equivocados ao dar o mesmo sentido de "alma". Os "espíritos" são as energias vitais, classificadas em sentidos mentais (memórias, conjunto de ideias, etc), sentidos "orgânicos", ou sentidos "dinâmicos" (impulsos, complexos volitivos, hábitos, etc); são essas energias que, se a alma sobrevive a morte, deixa para trás, assim como deixou para trás o cadáver físico, cujo os elementos passam ao estado livre. Estes elementos vitais também se tornam livres como o restos do cadáver, privados da unidade essencial do ser entorno do qual estava organizado sob a forma de "segunda personalidade", ou muitas vezes, e de forma mais simples, como elementos complexos de memórias, como monodeismo e potencialidades cinéticas convertidas em formas impessoais. Esses passam a encarnar no médium e através delas, ocorre algumas variedades de fenômenos extranormais, que os ingênuos tomam como provas experimentais da sobrevivência da alma. Na verdade, neste caso se trata de formas vitais que estão destinadas a extinguir-se em um determinado prazo, mais ou menos breve; não se trata da alma, no sentido real e tradicional do termo.

Não só isso. Há casos em que as forças não-humanas se encarnam nesses resíduos como algo semelhante ao falecido por uma espécie de "duplo" que os animam e movem provocando aparições e fenômenos que podem induzir ao erro, ao mesmo tempo, possuem um caráter sinistro quando a verdadeira natureza de tais forças que condensam esses resíduos larvais e automáticos são descobertas. Portanto, são estes os casos em que se dá destaque ao espírita, o incentivo para converter-se a uma nova e macabra religião a qual não percebem todo o escárnio e sedução nas manifestações desta espécie, as quais, sem exagero, poderiam ser definidas como satânicas.

[...]

Voltando ao espiritismo, e de acordo com as considerações acima, é necessário dizer que não se trata de "espíritos", mas aos chamados resíduos psíquicos desindividualizados ou as espécies de "larvas", máscaras e copias de personalidades vitalizadas por influencias inferiores. A possibilidade para que uma alma venha excitar e fortalecer a fé nos círculos espíritas ou dar mais material colecionadores de "fenômenos" metapsíquicos, é tão rara que, a priori, você pode excluí-la.

As almas residem em regiões (ou estados) espirituais tão transcendentes que não possuem nenhuma relação com o mundo dos corpos, com a sociedades e sentimentos dos homens. E se caso tomarem uma "missão" para abandonar esses estados para qualquer evento nas condições do tempo e espaço, o último lugar em que a manifestação deveria ir seria entre os fenômenos que caem nas mãos dos metapsíquicos e espíritas: fenômenos insistentes, sem finalidades, confusos, desprovidos de qualquer grandeza, muitas vezes de zombaria, intelectualmente inferiores, no meio do quais encontra-se tão somente pessoas de cultura mediana deste mundo.

Guenon afirma, com razão, que a natureza desses fenômenos não deveriam deixar dúvida alguma sobre as forças que os produzem. Além disso, a mistura de repercussões orgânicas e de outros elementos ou imagens fornecidas pela parte irracional e infraconsciente dos evocadores e dos médiuns, não se trata nem de almas dos mortos, nem de influencias verdadeiramente sobrenaturais, mas de forças e complexos psíquicos que vagam no infra-humano mais ou menos relacionado com o elemento "inferior" da natureza; ou se tratam de larvas e de resíduos que não pertencem a almas elevadas; ou produtos da decomposição das almas que sem dúvida não sobreviveram.

[..]

Os antigos, os orientais, e até mesmo certos povos considerados "primitivos" conheciam mais essas coisas do que todos os espíritas e presidentes das "sociedades de pesquisas psíquicas". Por isso, a evocação dos mortos quase sempre era condenada como um crime grave. Eles buscavam viver permanentemente longe dos restos espirituais dos mortos; ou agiam para "apaziguá-los". Haviam motivos em muitos dos ritos funerários tradicionais, os quais não se reduziam a meras "cerimônias", os quais exerciam ações efetivas contra as forças psíquicas que se encontravam em estado livres com a destruição dos corpo físico. As trocas, não com os resíduos, mas com as almas dos mortos, chegando a "revelações" eram consideradas absurdas. Ainda hoje, quando se fala a um lama que os ingleses acreditavam em coisas de tal índole, respondem: "E estas são as pessoas que conquistaram a Índia!"

A Máscara e a Face do Espiritualismo Contemporâneo - Julius Evola


* * *


"Estas forças incluem aquelas que, por sua natureza, estão mais próximas do mundo corporal e das forças físicas, e que, por conseguinte, manifestam-se mais facilmente ao tomar contato com o domínio sensível pela mediação de um organismo vivo (o de um médium) ou por qualquer outro meio. Essas forças são precisamente as mais inferiores de todas, e, por conseguinte são aquelas cujos efeitos podem ser os mais funestos e que deveriam ser evitados o mais cuidadosamente; na ordem cósmica, correspondem ao que são as regiões mais baixas do «subconsciente» no ser humano. Todas as forças genericamente denominadas pela tradição extremo-oriental como «influências errantes» devem ser agrupadas aqui, forças cujo manejo constitui a parte mais importante da magia, e cujas manifestações, às vezes espontâneas, dão lugar a todos esses fenômenos dos quais a «obsessão» é o tipo mais conhecido; são, em suma, todas as energias não-individualizadas, e as há, naturalmente, de muitos tipos. Algumas dessas forças podem chamar-se verdadeiramente «demoníacas» ou «satânicas»; são essas, concretamente, as que põem em jogo a bruxaria, e as práticas espíritas podem as atrair também freqüentemente, embora involuntariamente; o médium é um ser cuja constituição desafortunada põe em relação com tudo o que existe de menos recomendável neste mundo, e inclusive nos mundos inferiores. Nas «influências errantes» deve compreender-se igualmente tudo o que, provindo dos mortos, é suscetível de dar lugar a manifestações sensíveis, já que se trata de elementos que já não estão individualizados: tal é o caso do Ob, e todas outras, esses são elementos psíquicos de menor importância que representam «o produto da desintegração do inconsciente (ou melhor, do “subconsciente”) de uma pessoa morta»; adicionaremos que, no caso de morte violenta, o Ob conserva durante um certo tempo um grau muito especial de coesão e de quase vitalidade, o que permite explicar um bom número de fenômenos."

René Guénon - O Erro Espírita 




quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre a homossexualidade (Julius Evola - Metafísica do Sexo)


Dada a sua difusão, a homossexualidade é um fenômeno que não pode ser ignorado por uma doutrina do sexo. Goethe escreveu que «este fenômeno é tão antigo como a humanidade, pelo que pode dizer-se que faz parte da natureza, embora seja contra ela». Assim como constitui «um enigma que quanto mais se procura analisar cientificamente tanto mais misterioso se torna» (Ivan Bloch), também do ponto de vista da metafísica do sexo, formulada nas páginas anteriores, constitui um problema complexo.

Já assinalamos que Platão na sua teoria do eros, se referia com freqüência não somente ao amor heterossexual, mas também ao amor de efebos e amantes. Ora se considerarmos o eros, nas suas formas sublimadas que se ligam tanto ao fator estético que, segundo a já mencionada afirmação platônica, da beleza de um dado ser se passaria deste modo ao encanto que pode suscitar uma beleza impessoal, incorpórea, uma beleza divina no sentido abstrato, não se levanta verdadeiramente qualquer problema quando o ponto acidental de partida é colocado no ser do mesmo sexo. O termo «uranismo», usado como alcunha da homossexualidade, deriva portanto da distinção platônica de uma Afrodite Urânia e de uma Afrodite Pandémia; a primeira seria a deusa de um amor nobre e não carnal, não voltado para a procriação, como aquele que tem por objeto a mulher. Assim a pederastia, o Paidon Eros, pode ter em certa medida este caráter na sua origem quando foi celebrada por escritores e poetas antigos e praticada até por personalidades eminentes. Bastará, contudo, ler as últimas páginas de «O Banquete» com o discurso de Alcibiades, para nos apercebermos de quão pouco este Eros se mantinha platônico na Hélade, e como, ao contrário, apresentava um desenvolvimento carnal, o que se verificou com uma freqüência cada vez maior à medida que se dava na Grécia, e sobretudo em Roma, a decadência deste costume antigo.

Se portanto aceitamos a homossexualidade nestes termos, como correspondência completa com as relações sexuais normais entre homem e mulher, poderemos com razão falar de um desvio, não de um ponto de vista comum moralista e convencional, mas justamente do ponto de vista de uma metafísica do sexo.

Será uma incongruência aplicar-se, tal como fez Platão, o significado metafísico comum do mito do andrógino ao amor homossexual, ou seja, ao amor entre pederastas e entre lésbicas. Com efeito, para esta espécie de amor não poderá já falar-se dos princípios inatos masculino e feminino fundidos no ser primordial: o ser mítico original deveria ter sido, então, não andrógino mas homogêneo, monossexual; cada homem (no caso dos pederastas) ou cada mulher (no caso de lésbicas) e os seus amantes procuram unir-se como simples parcelas de uma mesma substância: surge, portanto, o essencial, isto é, aquilo que confere ao mito todo o seu valor, ou seja, a idéia da polaridade e da complementaridade sexual como fundamento do magnetismo do amor e de uma transcendência no eros, da revelação fulgurante e destrutiva do Uno.

Assim, ser-nos-á necessário, a título de explicação, baixar de plano e considerarmos várias possibilidades empíricas. Primeiramente distinguem-se na sexologia duas formas de homossexualidade: uma de caráter congênito e de constituição, a outra de caráter adquirido, condicionada por fatores psico-sociológicos e ambientais. Na segunda deve, porém, fazer-se a distinção entre formas apresentando características de vício e formas pressupondo uma predisposição latente que, em dadas circunstâncias, se transforma em ato: condição necessária, porque em idênticas circunstâncias determinados tipos se comportam de modo diverso não se tornando homossexuais. É contudo importante não considerar a configuração constitucional de um modo estático, admitindo até uma certa possibilidade de variações.

A explicação mais simples para a homossexualidade «natural», ou seja, a que é devida a predisposição, é-nos dada por aquilo que já dissemos sobre os diversos graus da sexualidade quanto ao fato deste processo, nos seus aspectos físicos e ainda mais nos psíquicos, poder estar incompleto, pelo que a bissexualidade original é superada num grau menor do que o do ser humano «normal», pois os caracteres de um sexo não são predominantes em igual medida relativamente aos do outro sexo. Depararemos então com aquilo que M. Hirschfeld chamou as «formas sexuais intermédias». Em casos destes (digamos, por exemplo, quando um ser anagraficamente homem, o é somente a 60%) é possível que a atração erótica geralmente baseada na polaridade dos sexos, portanto na heterossexualidade, e que é tanto mais intensa quanto mais o homem é homem e mulher a mulher, nasça também entre indivíduos que, segundo o estado civil, e para aqueles que observam somente os caracteres sexuais ditos primários, são do mesmo sexo, pois na realidade são «formas intermédias». Ulrichs disse muito acertadamente, para o caso dos pederastas, que podemos encontrar-nos diante de uma anima muliebris virili corpore
innata.

Deveremos, contudo, ter em conta as já mencionadas possibilidades de mutações de constituição, muito pouco tratadas pela sexologia. Deveremos também ter presentes os casos de uma regressão. Pode suceder que o poder dominante de que depende, num dado indivíduo, a sexualidade, o ser verdadeiramente homem ou verdadeiramente mulher, com a neutralização atrofie ou reduza ao estado latente os caracteres do outro sexo e os enfraqueça, o que pode resultar na ativação e aparecimento destes caracteres recessivos. O ambiente e o clima geral de uma sociedade podem ter neste caso um papel importante: numa sociedade em que prevaleça o igualitarismo, onde as diferenças são contrariadas, onde se favorece a promiscuidade, onde o antigo ideal do «ser igual a si mesmo» já nada diz, numa sociedade deteriorada e materialista, é evidente que o fenômeno de regressão, e com ele a homossexualidade, estão particularmente favorecidos, não sendo mero acaso o
impressionante incremento do fenômeno da homossexualidade e do «terceiro sexo» na «democrática» época atual, o mesmo sucedendo também com as mudanças de sexo que se verificam numa medida que parece não ter tido equivalência em épocas anteriores.

Porém a referência às «formas sexuais intermediarias», a um processo incompleto de sexualidade ou a uma regressão, não explica todas as variedades de homossexualidade. Existiram, com efeito, homossexuais masculinos que não eram efeminados nas «formas intermédias», e igualmente homens de armas, indivíduos decididamente viris no aspecto e no comportamento, homens potentes que tinham ou podiam ter tido à sua disposição as mais belas mulheres. Esta homossexualidade não é fácil de explicar e tem-se o direito de, neste caso, falar de desvio e perversão, de um «vício» relacionado eventualmente com uma moda. Não se compreende, com efeito, o que pode impelir sexualmente um homem verdadeiramente homem para um indivíduo do mesmo sexo. No caso da experiência do amor heterossexual, se é quase inexistente o material adequado para o que acontece no acume do orgasmo, mais ainda isso acontece quanto ao ato sexual entre pederastas. Porém, neste caso, há razões para supor que não passará de um sistema de «masturbação a dois», que no «prazer» se cultivam um ou outro reflexo condicionado, faltando os pressupostos não puramente metafísicos, mas também físicos, para uma união completa e destrutiva.

Por outro lado, observa-se na antiguidade clássica não tanto a pederastia exclusivista, inimiga da mulher e do matrimônio, como a bissexualidade, o uso das mulheres e dos adolescentes (como contrapartida, são geralmente muito numerosos os casos de mulheres muito sensuais, e por isso também muito femininas, que são ao mesmo tempo lésbicas bissexuais) parecendo a motivação predominante ter sido a de «quererem experimentar tudo». Contudo, este aspecto também não é bem claro porque, aparte o fato de os efebos, os adolescentes, serem preferidos dos pederastas, como se fossem mulheres, poderemos referir-nos à expressão bem crua que Goethe extraiu de um autor grego: «se estamos fartos de uma rapariga como rapariga, ela poderá ainda servir de rapaz» («habe ich als Mãdchen sie salt, dient es als Knabe noch»).

Quanto ao argumento do ideal da unidade hermafrodita no pederasta que sexualmente se utiliza tanto de homens como de mulheres, será obviamente fictício se com ele se pretender ir mais além do «querer experimentar tudo» no plano das simples sensações: a unidade andrógina pode ser somente «suficiência», e essa não precisa de um outro ser, vai procurá-lo no plano de uma realização espiritual quando se excluem os deslumbramentos que a «magia a dois» pode oferecer na união heterossexual.

Também não é convincente a motivação frequentemente encontrada em países como a Turquia e o Japão de que a homossexualidade dá um sentimento de potência. Pode experimentar-se o prazer do domínio tanto com mulheres como com outros seres em situações estranhas às ligações sexuais. De resto, e no presente enquadramento isso poderia estar em causa apenas num contexto absolutamente patológico, e quando em presença de um verdadeiro orgasmo.

Assim, quando neste conjunto a homossexualidade não é «natural», isto é, explicável em termos de formas incompletas constitucionais de sexualidade, não poderá ter o caráter nem de um desvio nem de um vício ou de uma perversão. E se juntássemos alguns exemplos de extrema intensidade erótica relativamente a homossexuais, deveríamos encontrar a explicação na possibilidade de deslocação do eros. Com efeito, basta folhearmos qualquer tratado de psicopatia sexual, para vermos em quantas situações inconcebíveis (desde fetichismo até à sodomia animal à necrofilia) a potencialidade erótica do ser humano pode ser ativada, muitas vezes até a um frenesi orgástico. Poder-se-ia, pois, fazer entrar a homossexualidade nesse quadro anômalo, embora esses casos sejam bastante menos freqüentes: um Eros deslocado, ao qual um ser do mesmo sexo serve como em tantos casos de psicopatia sexual, como apoio ou simples causa ocasional, faltando-lhe completamente toda a dimensão profunda e todo o significado superior da experiência devido à essência das premissas ontológicas e metafísicas para tal necessárias. Se, como veremos adiante, em certos aspectos do sadismo e do masoquismo se podem encontrar elementos susceptíveis de ter lugar na estruturação mais profunda da erótica heterossexual, tornando-se perversões somente quando se absolutizam, o mesmo não sucederá no que diz respeito à homossexualidade.