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domingo, 9 de março de 2014

Crenças Antigas e Superstições Modernas: A Busca pela Autenticidade (por Rama P. Coomaraswamy)

O maior problema enfrentado por aqueles que acreditam na possibilidade da verdade, e que partiram para buscá-la a sério, é a ausência - ou pressuposta falta - de quaisquer critérios para saber se o que encontramos é a coisa real. Algumas grandes religiões e entre 5 a 20 mil cultos, todos oferecendo várias opções e que são frequentemente exclusivos, como é que vamos escolher, ou mais precisamente, discernir? Preso como estamos na armadilha de Maya ou como um católico colocaria, com os nossos intelectos feridos e nossas vontades enfraquecidas pela queda de Adão, como podemos, por nós mesmos e sem ajuda externa, ter a certeza de que estamos evitando ilusão? É claro que podemos adotar a posição dos céticos e desistir da luta. Mas, deve-se lembrar o brilhante ditado de Platão, "o ceticismo é fácil, a incredulidade é para a plebe." Mas para aqueles que ainda não estão intelectualmente mortos, a questão ainda permanece: com que autoridade é que vamos viver e morrer? Existem autênticas fontes de verdade, ou a verdade é verdade simplesmente uma questão de nossos próprios instintos, nossas experiências psicológicas que funcionam para nós?

O primeiro problema a ser enfrentado é saber se a verdade é uma entidade subjetiva ou objetiva. Existe tal coisa como uma verdade objetiva -  que sempre foi e sempre será a mesma - imutável e constante - portanto, uma verdade que absoluta? Dessa maneira, as palavras possuem ou não significado. Se a verdade é apenas uma questão de gosto pessoal, se alguém está convencido de que toda a realidade é relativa, não há qualquer sentido em continuar seja a discussão ou busca. Este está preso no círculo vicioso de proclamar que a única verdade é que não há verdade.

Em última análise, temos apenas três possíveis fontes de autenticidade. Temos os Antigos Ensinamentos que estão -  assim assumo - incorporados nas grandes tradições religiosas do mundo. Temos os nossos próprios instintos ou a experiência psicológica, como verdade. E nós temos uma mistura desses dois extremos. Ou aceitamos critérios objetivos, ou aceitamos critérios subjetivos, ou também podemos criar uma mistura que, por alguma razão ou outra, descobrimos que seja pessoalmente satisfatória. Esta última, não é preciso dizer, também é subjetiva.

Somente quando aceitamos a possibilidade da verdade objetiva que podemos olhar para os Antigos Ensinamentos como uma possível autentica fonte. Infelizmente, vivemos em uma época muito supersticiosa. A chamada "idade das luzes", uma frase que certamente agrada a homem atual - é mais apropriadamente descrita pelos Antigos Ensinamentos como o Kali Yuga, a idade das trevas, ou a na terminologia católica, "os últimos dias." Isso nos leva a duas das mais poderosas superstições, as quais aceitamos - de fato elas poderiam serem chamadas de "dogmas" da modernidade - a evolução e progresso. A maioria desses estão convencidos de que a humanidade tem evoluído ao longo dos séculos e continua a evoluir a cada geração. Nós não consideramos nossos antepassados como primitivos, atrasado se supersticiosos? A própria palavra "supersticioso" nos faz pensar em um camponês medieval europeu manuseando seu rosário antes de algum santuário milagroso de Madonna, ou a de um brâmane hindu que recusa o acesso dos párias ​​aos recintos do templo. A última pessoa que pensaríamos como supersticiosos é um professor de Harvard ou um cientista importante.

O problema de ser supersticioso é que ela tende a nos cegar para a verdade. Se estamos convencidos de que algo falso é verdade, dificilmente procuraríamos além de seus limites por uma fonte de autenticidade. Se formos procurar nos Antigos Ensinamentos, consagrados nas grandes tradições religiosas do mundo, uma possível fonte de verdade autêntica e objetiva, a primeira coisa que devemos fazer é abandonar a nossa moderna e supersticiosa crença no progresso e na evolução. Como veremos, há uma série de outras crenças supersticiosas que também devem ser abandonadas. Entre estes estão incluídos nossa visão moderna da natureza do homem, nossos falsos conceitos igualitários, os nossos ideais socialistas e utópicos, nossas atitudes familiares, os nossos códigos morais, ou melhor, amorais, a nossa crença na ciência, e nossa atitude para com a religião.

Lembro-me bem de como meus amigos universitários - e mais tarde, alguns dos meus colegas profissionais - me encararam por ser Católico. Fui acusado de não pensar por mim mesmo. A ideia de que é uma coisa boa pensar por si mesmo é outra superstição moderna. A fim de esclarecer melhor a questão, gostaria de pedir-lhe que imagine uma sala de aula de estudantes de matemática dizendo ao professor que não concordou com as suas respostas, porque eles estavam fazendo matemática "por si mesmo." Não, pensar por si mesmo não é uma coisa saudável a se fazer. O que temos de fazer é aprender, não a pensar por nós mesmos, mas a pensar corretamente. É a função dos Antigos Ensinamentos nos ajudar a fazer exatamente isso, mas é preciso trabalho e disciplina. Nós, claro, temos a liberdade de pensar por nós mesmos - podemos pensar da maneira que quisermos. Mas não temos o direito de fazer isso, pois o erro nunca teve direito. Como o assassinato: somos livres para matar qualquer um que queremos, mas certamente não temos o direito de fazê-lo.

Já não acusam os religiosos por não pensar por si mesmos. A alegação atual é que eles se permitiram uma lavagem cerebral. Lavagem cerebral implica que os pensamentos e atitudes podem ser influenciadas, quando não controladas, por forças externas. Ambos, as religiões e os cultos - não falando de sistemas políticos - são acusados ​​de usar várias técnicas para que isso aconteça. Aqueles que aderem aos Antigos Ensinamentos, incorporados nas grandes tradições religiosas em sua integridade, permitiram-se uma lavagem cerebral? Antes de responder esta pergunta, permita-me ressaltar que estamos todos, em algum grau, sofrendo lavagem cerebral. Todos os dias as nossas mentes são bombardeados pela mídia, pela televisão, por romances populares e por aqueles com quem estamos em contato diariamente. Não tenho dúvidas que a maioria, se não todas, entidades adotam um ponto de vista anti-religioso, liberal-humanista, socialista, e mais ou menos cético-ateu. Além disso, o estresse da vida moderna é tal que, no pouco tempo livre que nos resta, muitos de nós ficamos expostos aos meios de comunicação de uma forma completamente passiva e não crítica. Nós, em outras palavras, deixamos que o apresentador do noticiário, os políticos e os escritores de best-sellers nos diga como pensar, e orgulhamo-nos de que estamos a pensar por nós mesmos. Se nós não vemos isso como lavagem cerebral, é porque essas fontes agradam os nossos egos, consideramos as tolices oferecidas como algo aceitável e agradável. Por outro lado, uma mãe que ensina sua fé ancestral para seus filhos e o brâmane que insiste na pureza ritual e nas restrições de casta também são culpados de lavagem cerebral. Mas, neste caso, muitos consideram o processo altamente censurável.

Vamos por um momento considerar nossos próprios níveis de escolaridade. Que formação trazemos de nossas casas? A maioria dos pais de hoje passaram por uma lavagem cerebral tão eficaz pelo ethos liberal e agnóstico de nossos tempos que já não possuem e portanto, não podem transmitir, qualquer sistema de valor ou conjunto de crenças fixas a seus descendentes - a não ser, é claro, que você considere o sucesso material como um sistema de crenças. E assim é que a maioria das crianças saem de casa com uma espécie de tabula rasa, ou pior, com uma crença no mundo da televisão. De acordo com estatísticas publicadas, todos os sábados de 16 milhões e meio de crianças passam uma hora e meia assistindo Graystone ou Tartarugas Ninjas. Os sociólogos chamam a televisão de “terceiro pai." Infelizmente, muitas vezes é o único pai.

Dessa forma, é com um grande alívio que as crianças são enviadas para a escola. É aqui que a lavagem cerebral formal é iniciada. O processo começa no jardim de infância, onde os meninos são mandados a brincar com bonecas e as meninas com espadas - isso, para - utilizando o jargão da psicologia moderna - "ensiná-los a evitar estereótipos." Através de uma variedade de técnicas como o "esclarecimento de valores", eles são ensinados a rejeitar os valores do seus pais - assumindo que estes possuam algum - de forma que desenvolva por si mesmos, geralmente os do professor ou aqueles que estão sendo promovidos por várias agências governamentais. Este processo é chamado de "desenraizamento". Ao longo dos próximos dez anos eles são ensinados a serem pequenos bons evolucionistas, socialistas, e como utilizar o dom do sexo sem responsabilidade. E então, eles vão para a faculdade, que é a condição sine qua non para ter o mínimo de um sucesso econômico. Mais uma vez, eles pagam um preço alto - preço a ser pago é maior do que as taxas de matrícula - que é a sujeição de nossas mentes a outro processo de doutrinação. Como meu pai disse uma vez - e isso na década de quarenta - é quase impossível alguém se formar na faculdade sem severo grau de deficiência intelectual.

E por isso para a pergunta: os seguidores religiosos passaram por uma lavagem cerebral? Acho que a resposta a esta pergunta deve ser formulada em termos de "pensar corretamente" e de abraçar "valores corretos." Se os Antigos Ensinamentos são uma autêntica fonte de verdade, e se tornam nossos, então somos como o aluno de matemática que aprende a calcular corretamente. Esse aluno não sofreu uma lavagem cerebral, porque ele sabe como fazer suas somas corretamente. A verdade, ou nossa submissão a ela, e o nosso "tomar ela para si", é, em última análise, a nossa única proteção contra tanto a lavagem cerebral quanto a auto-ilusão.

II
O homem não vive em um vácuo. Todo mundo, até mesmo o ateu convicto, tem o que podemos chamar de um "sistema de crença", ou seja, uma série de convicções que determinam como ele vive sua vida. Agora, cada sistema de crenças pode ser caracterizada por três coisas: pelo seu "credo", ou pelo que se acredita, pela seu "culto" ou sua forma, e pelo "código" ou regras para o comportamento que pratica ou defende.
Vamos considerar o sistema de crença - o credo, culto, e as regras - do graduado universitário médio. O que ele acredita? Eu acho que é justo dizer que ele está convencido de que não existe tal coisa como verdade absoluta, que toda verdade é subjetiva e, portanto, relativa. Por isso, é que, na linguagem comum, ele não diz "eu sei", mas apenas "eu sinto" que algo seja verdade. Ele acredita que a evolução é uma lei da natureza aplicável a todos os campos de experiência. Tudo evolui, não só o homem, mas o conhecimento, a sociedade, e até mesmo Deus! Lembro-me de meu filho de seis anos voltando para casa da escola e me dizer com orgulho que já não acreditava em Deus! Perguntei-lhe o que ele acreditava em seguida, e ele respondeu: "E ... oh, como se diz aquela palavra?" Felizmente pude convencê-lo do contrário. Mas a evolução é inculcada na mente de nossos filhos desde o berço. Alguma vez você já assistiu um programa sobre natureza? As fotos são maravilhosas, mas a mensagem é dirigida várias vezes. Tudo, desde as listras do tigre até o pescoço da girafa evoluiu. Toda criança sabe quem Darwin é. Quanta delas já ouviram falar de Gautama, o Buda ou de João Batista?

A evolução é, claro, um absurdo de ambos pontos de vista científico como filosófico. Do ponto de vista científico: não há absolutamente nenhuma prova a favor da evolução, todas as provas são contra ela. Na geologia, na biologia, na genética e todas as outras disciplinas científicas falam sobre a fixidez das espécies e a impossibilidade do transformismo. Não foram encontrados formas intermediárias entre as espécies. Fala-se muito de "elos perdidos." O problema com as ligações em falta é que eles estão em falta! Acreditar na evolução é acreditar que a maior pode sair do menor, é acreditar que a energia pode ser criada em sui generis, é acreditar que as coisas acontecem "por acaso" no sentido de que o acaso é uma possibilidade aleatória. A teoria das probabilidades nos diz que a chance de um passo evolutivo ocorrendo é tão remoto quanto ser impossível. No entanto, os evolucionistas nos dizem que muitas dessas etapas ocorreram. A coisa mais surpreendente sobre a evolução é que os cientistas que admitem tudo isso, continuam a acreditar na evolução - eles são verdadeiramente homens de profunda - mas cega - fé. Não é o caçador, mas o homem moderno, que acredita nas forças cegas da natureza, que deveria ser rotulado de animista!

Filosoficamente, a evolução também é um absurdo. Se fosse verdade, seria tão impossível que o homem saísse da corrente evolutiva, a fim de examinar o processo que "desenvolveu" ele como seria para um computador para analisar o criador. Como o filósofo de Oxford, Sir Karl Popper, aponta: “Se o Darwinismo é correto, então qualquer teoria é mantida por causa de uma certa estrutura física daquele a suporta - talvez seu cérebro. Assim, estamos enganando a nós mesmos e somos fisicamente determinados de tal modo que sempre cremos que existam tais coisas como argumentos ou razões para qualquer coisa. Condições puramente físicas, incluindo o nosso ambiente físico, fazem-nos dizer ou aceitar qualquer coisa que afirmamos ou aceitamos.”

Na teoria da evolução está implícita a negação do livre-arbítrio. Como Huxley aponta: "a proposição fundamental da evolução" é que "o mundo inteiro, vivo e o não vivo, é resultado de uma interação mútua, de acordo com leis definidas, de forças em poder das moléculas das quais a nebulosidade primitiva do universo era composta." Afinal, como pode "algo" - note, eu não disse "alguém", - que é produto de leis rígidas, leis que controlam o desenvolvimento futuro e que não tem liberdade para sair do processo evolutivo - como pode esse "algo" agir independentemente dessas leis? Como pode esse "algo" ter livre-arbítrio? O evolucionista Jonas Salk admite isso. Ele abertamente admite que sua vacina contra a poliomielite trabalha contra o processo evolutivo da seleção natural. A única maneira que ele pode explicar o seu esforço para desenvolver esta vacina é que ele foi geneticamente programado para fazê-la. Aqui deparamo-nos com mais um enigma, curiosamente partilhado também pelos socialistas, para esses a evolução toma forma de um determinismo histórico. Se a vida do homem é determinada pela evolução ou pela história, como pode ser ele "livre"? No entanto, ambos os evolucionistas e os deterministas históricos proclamam que o homem é livre para ajudar o processo em sua maneira para a perfeição e para uma utopia terrena. Os socialistas vão ainda mais longe. Eles punem o homem por sua falha em fazer isso, e em nome de sua idealização socialista mataram milhões a mais do que todas as guerras dos últimos três séculos.

Pensar desta maneira, como o psiquiatra Karl Stern disse: "é uma loucura", no sentido que os esquizofrênicos descompensados ​​são loucos. Tenho chamado a evolução de uma superstição, mas, na verdade, é o grande pai de todas as superstições modernas. Permitam-me dar-lhe uma definição de "superstição" tirado de uma edição mais antiga do Novo Dicionário Internacional Webster:

Um estado irracional abjeto da mente... proveniente da ignorância, medo irracional do desconhecido ou da escrupulosidade mórbida misteriosa, a crença em magia, ou uma religião ignorante, má intencionada ou não esclarecida da natureza... uma ideia irracional fixa, uma noção mantida apesar das evidências em contrário.

Quem são alguns dos "gurus" mais dominantes do mundo moderno, e o que eles acreditam? Freud, Adler, Fromm, Maslow, Rogers e Jung - são ou foram, todos eles, evolucionistas e, conseqüentemente, ateus. Eles nos dizem que o que é chamado de "inteligência" é composto por "razão", a habilidade para lidar com abstrações, a capacidade de aprender e a habilidade de lidar com situações novas. Um enorme esforço é gasto na tentativa de provar que os animais possuem razão - todas essas habilidades podem ser encontradas em formas inferiores de vida. Por isso, não é surpreendente encontrar Darwin nos dizendo que "os animais têm um intelecto de proporções diferentes", e que "as faculdades intelectuais do homem foram, essencialmente, e gradualmente aperfeiçoadas através da seleção natural ..." Da mesma forma, é nos dito que as motivações e crenças do homem têm a sua origem em seu "subconsciente", um termo para o qual existem inúmeras definições e que é melhor definido como uma espécie de "esgoto de memória evolutiva." Mais uma vez, somos informados de que os motivos finais do homem são uma busca de segurança, prazer, ou o que eles chamam de "auto-ativação" através de um encontro de "meta-necessidades". A verdade é o que é verdade para o indivíduo; a beleza é o que lhe dá prazer; o amor é o cumprimento de "impulsos biológicos." Ao custo de negar tanto a lógica como a experiência, tudo o que é qualitativo no ser humano é declarado como geneticamente determinado, ou seja, determinada pela evolução, e, assim, é reduzido ao mensurável, portanto, para a matéria. Tudo cai sob esta égide. Rousseau considerou que o homem selvagem evoluiu para o homem "civilizado". Huxley deu esta progressão a sua bênção científica. "A grande progressão da natureza é a partir do informe à forma - a partir do inorgânico para o orgânico - da força cega ao intelecto consciente e vontade." Se alguém aceita essas premissas, é fácil de ser convencido de que o homem é apenas uma forma mais elevada de matéria e que Super-Homem está a caminho. Aqueles que pensam o contrário são dispensados como "sonhadores" - como se a matéria pudesse sonhar - que, apesar de todos seus esforços, não produzem nada materialmente benéfico.

Vamos deixar uma coisa bem clara. Não se pode acreditar na evolução e ao mesmo tempo acreditar em Deus. Todo cientista e todo teólogo digno de seu salário vai admitir isso. Você vai ouvir falar muito sobre a evolução teísta ou evolução mitigada - a ideia de que Deus opera através da evolução. Se fosse o caso, então Deus estaria muito chateado com qualquer pessoa que interferiu com a seleção natural. Como ousarmos tratar da criança doente ou alimentar os pobres e famintos? Estas são apenas as maneiras da natureza eliminar os mais fracos. Como ousamos parar as guerras, quando essas são tão bem-sucedidas em controlar a explosão demográfica? Vamos encarar os fatos. Seria estúpido orar a um Deus cuja a única resposta a oração teria de ser "deixe que a seleção natural ou o 'equilíbrio pontual' resolva seu problema" Nenhum cientista jamais surgiu com o ideia de que Deus trabalha através da evolução. Teólogos sim. E por quê? Porque eles queriam parecer atualizados e "científicos".

Passei um longo tempo sobre a questão do credo da evolução porque nós nunca vamos olhar para os Antigos Ensinamentos como fonte de verdade autêntica, a menos que abandonemos nossa crença supersticiosa na evolução e progresso. Por definição, nenhum processo evolutivo pode fornecer-nos autenticidade - e com certeza isso é razoável. Afinal de contas, um processo evolutivo é um processo de mudança e tudo o que é espiritualmente autêntico não pode mudar.

Não admira que os Antigos Ensinamentos são unânimes em declarar que toda a criação é o resultado da atividade de Deus e não da evolução. A Igreja insiste em um creatio ex nihilo, e os Vedas ensinam que "ser é gerado a partir de não-ser." E eles são ainda mais claros ao especificar que o homem, a sociedade e, sobretudo, a verdade, não estão sujeitos a qualquer processo evolutivo.

Voltemos ao nosso graduado da faculdade que se vê - na medida em que ele se incomoda a olhar para si mesmo - como feito à imagem de uma ameba. Tendo lidado com suas premissas fundamentais do credo, o que podemos dizer de sua forma de adoração? Para o homem moderno nenhum "culto" - nenhuma forma de adoração - é possível a não ser uma adoração ao materialismo ou, em menor grau, uma adoração ao "eu" a que nos referimos quando chamamos alguém de egoísta. O que há, além do processo evolutivo ou do homem, que é seu maior produto, para adorar? Como disse Karl Marx: "O humanismo é a negação de Deus e a afirmação total do homem." Isso, então, é o alicerce do humanismo moderno.

Finalmente, chegamos ao "código". Aqui, a regra de ouro é a conveniência. Tudo é permitido desde que não chegue a ferir o outro, mas na verdade, o interesse pessoal geralmente tem precedência. Considere o adultério - e, certamente, o adultério não é um fenômeno raro em nossa sociedade. Quando dormimos com a mulher do vizinho, proclamamos que tais atividades consentidas entre adultos não machucam ninguém. Mas o que dizer do ofendido? Ou ainda, afirmamos que o aborto não fere ninguém, e rapidamente dizemos que o feto não é ninguém.

Isso, então, é o "des-credo", o "des-culto" e o "des-código" do homem moderno. Podemos resumi-lo como sendo progressista, evolucionista, antropocêntrico ou centrada no homem e vazio de princípios metafísicos. O que interessa é que tantas grandes entidades religiosas adotaram essa visão weltanschauungor de mundo. Correndo o risco de ofender alguns católicos, deixe-me dizer que são precisamente estes os princípios que o Vaticano II traz consigo e que formam a base sobre a qual a Igreja pós-conciliar descansa. Nos Antigos Ensinamentos - o que os hindus chamam de Sanatana Dharma, o que Santo Agostinho chamou de "Sabedoria incriada, a mesma agora assim como sempre foi e sempre será", são unânimes por ser diametralmente oposto a tais atitudes. Eles não são progressivos, mas sim estáticos, porque enquanto o pecado pode mudar seu estilo, ele nunca pode alterar a sua natureza. Na verdade, eles são anti-progressistas, porque eles sustentam que o homem caiu de seu antigo patamar elevado. Nascido em uma Idade de Ouro, ou no Jardim do Éden, os homens que vivem na Kali Yuga ou nos "últimos dias" são degenerados. Mais uma vez, as grandes tradições são unânimes em declarar que toda a criação é o resultado da ação direta de Deus - ex nihilo, como os católicos colocaram e ""ser é gerado a partir de não-ser.", como os Vedas colocou, e eles são unânimes em proclamar que o homem é criado, não à imagem de uma ameba, mas à imagem de Deus. São todos teocêntricos, em vez de antropocêntricos. Todos ensinam que o homem qua homem nunca pode ser uma fonte segura de verdade, a dignidade do homem não reside em uma auto-validação de habilidades, mas sim de sua adesão à verdade de Deus. Finalmente, todos afirmam e podem demonstrar que eles são baseados em sólidos princípios metafísicos - isto é, lidam com uma doutrina consistente, não só com a experiência condicionada e quantitativa, mas também com possibilidade universal. Os dois extremos são como óleo e água. Não podem ser misturados. Aceitar um, é rejeitar o outro. Em que conjunto fundamental de ideias devemos encontrar a verdade e autenticidade?

III
Observando os Antigos Ensinamentos, vemos que a coisa mais impressionante que todas as religiões têm em comum é a alegação - certa ou errada - de ser baseada em uma Revelação - o que os hindus chamam Sruti. Em algum momento Deus – ou um Avatar - ou um mensageiro, apareceu na terra e deu ao homem um "credo", um "culto" e um "código" específico ou, usando a terminologia oriental, uma doutrina e um método. Além disso, todos asseguram que esta Revelação é consolidada, completa e inalterável. Os Vedas foram consolidados de uma vez por todas. Novos insights sobre os ensinamentos de Buda podem ocorrer, mas o Buda não proporciona a seus seguidores com uma revelação contínua - que evolui e progride com o passar do tempo. Mohammed é chamado de "Selo dos Profetas", pelo qual se entende que ele forneceu as últimas e definitivas revelações na linha de Abraão. Os muçulmanos não esperam que o Arcanjo Gabriel ainda esteja revelando passagens do Alcorão. A Torá pode ser interpretada, mas Moisés não está nos enviando mensagens. De passagem, deve-se notar que nenhum dos grandes fundadores das religiões afirmou descobrir ou revelar novas verdades. Jesus falou de cumprir, não mudar a lei e proclamou que ele ensinou, não a sua própria, mas a doutrina de seu pai. O Buda disse de que ele próprio somente "seguia o caminho antigo", e acrescentou que "quem pretende que eu estou pregando uma doutrina forjada pelo meu próprio raciocínio e argumentação deve ser expulso." Mohammed afirmava estar voltando para a religião de Abraão. E não nos diz Krishna, no Bhagavad Gita, que ele vem para a terra quando o dharma é esquecido?
As religiões têm outro critério em comum. Seus arcos revelados são frequentemente um tanto elípticos - ou parecem ser tais, para nossos intelectos escurecidos na Kali Yuga. Por isso é que as religiões oferecem intérpretes oficiais - sejam eles santos ou sábios. Os hindus têm o que é chamado smriti, bem como os escritos de tais indivíduos como Shankaracharya - para não falar do Guru Kanchi que é seu descendente vivo. Os muçulmanos têm os comentários sobre o Alcorão como os de Ibn Arabi e Al-Ghazali. Os judeus têm os Haftoras e também os Rebbes - aqueles autorizados a dar interpretações. Os cristãos têm Padres da Igreja, os Doutores e o que é chamado "Ensinamento do Magistério." E o que caracteriza a autenticidade em todas estas fontes vivas é que seus ensinamentos, de modo algum divergem do seus predecessores e, em última instância, de forma alguma afasta-se da revelação original.

Um outro aspecto da Revelação é "culto".  As formas de culto em uma religião nunca são criadas pelo homem. São determinados por Deus ou pelo seu representante. Considere o agnihotraor - o sacrifício de fogo védico. Você pensa que foi feito por alguns velhos numa floresta - o que hoje seria chamado de consilium de teólogos - querendo enganar os pobres camponeses tendo em vista o suado dinheiro deles, ou para apaziguar os raios? E o mesmo é verdade para as orações utilizadas pelos muçulmanos e para a verdadeira e antiga Missa Católica

Da mesma forma em relação ao "código." Foi o próprio Cristo que determinou que o divórcio era proibido aos seus seguidores, embora permitido aos judeus. A prática de Mohamad e suas decisões judiciais, juntamente com o Alcorão constituem a base para a lei muçulmana. As leis do Homem não foram reunidas por uma conferência de empresários, advogados e políticos.

A própria palavra "religião" significa aquilo que "se liga", aquilo que nos liga à Origem e ao Centro. É por isso que uma religião intacta é sempre tradicional, por tradição entende-se passar à frente. E o que é passado à frente que não seja a revelação original? Portanto, todas as religiões falam de "ortodoxia" e "heresia"- oh, como nós modernos odiamos essas palavras!

"Ortodoxia" é definido como a fé pura - aquela que está em conformidade com a revelação original. Heresia é um distanciamento disso, o resultado de selecionar e escolher o que vai ou não vai acreditar. Heresia, como os budistas dizem, é como "um verme no coração de um leão."

Outro fato importante é que não existem doutrinas secretas nas religiões. Existem ensinamentos que não estão prontamente disponíveis, ou que foram formulados em meios obscuros, de modo que evite "lançar pérolas aos porcos", mas eles não são secretos como tal. Todos os textos sagrados dos hindus foram publicados, você pode ter que aprender sânscrito, mas eles não estão escondidos. É claro que é necessário certas coisas para acessar essas fontes: esse alguém precisa possuir certas qualificações intelectuais e morais; esse precisa de orientação e, portanto, um guru; esse precisa de uma iniciação, que é um ato ritual que o liga ao Avatar ou ao fundador da religião e ultimamente a Deus. Agora, se isso ofende nossos preconceitos igualitários, permita-me perguntar se você permitiria que uma pessoa que não treinou com um professor qualificado executar uma cirurgia em você. Eu duvido. Certamente, há textos e descrições anatômicas de operações publicados na literatura médica, mas ainda é necessário certas qualificações, orientações e treinamentos para acessá-los. Por que a religião deveria ser diferente?

Agora, deve ser claro que as religiões nos fornecem critérios objetivos. Gurus e diretores espirituais não são julgados com base na de suas personalidades carismáticas, mas no grau em que eles estão em conformidade com a verdade da religião em questão, na medida em que eles próprios são condutos perfeitos ou veículos para a verdade. Todo ato ritual por parte do sacerdote católico representa a pessoa de Cristo. Confessamos, não ao Pe. Bob, mas a Cristo. É Cristo que na pessoa do sacerdote efetua a consagração na missa.

Religiões não só nos fornecem critérios objetivos, mas além disso, todas elas compartilham uma visão do homem, que é muito diferente daquela do psicólogo moderno. As premissas que a razão utiliza podem ser derivadas a partir de quatro fontes possíveis: fenômenos mensuráveis ​​(ciência), sentimentos, intelecção, ou revelação. Estas fontes são, assim, tanto internas como externas, tanto superiores e inferiores - sendo a intelecção e a Revelação parte de uma ordem mais elevada do que a razão. Julgamento ou discernimento é parte da intelecção e, portanto, pode observar uma conclusão fundamentada na razão e determinar se é ou não verdade. No entanto, nossos intelectos estão obscurecidos por causa da Queda, e, portanto, necessitamos da Revelação.

Os psicólogos modernos nos dizem que a razão é o maior produto do processo evolutivo. Entretanto, a verdade não depende da razão. Nós não dizemos que algo é verdadeiro, porque é lógico, mas, sim, que é lógico, porque é verdade. Isto pressupõe uma faculdade ainda maior de julgamento ou, para usar o termo de São Tomás de Aquino, "discernimento". Filósofos modernos tentam contornar este problema, falando de "princípios racionais", mas nunca se esqueça de que os princípios podem ser derivados da lógica discursiva. A razão não pode provar sua própria validade, pois princípios compreende-se de forma intuitiva e supra-racional. Como Aristóteles disse: "a pessoa não demonstra princípios, mas percebe-se diretamente a verdade dele ..." Para fazer uso da terminologia escolástica, o intelecto puro, que é o principiorum habitus, enquanto a razão é apenas o conclusionum habitus. Homem então possui razão e, com ela a linguagem, só porque, ao contrário dos animais, ele tem acesso, em princípio, a visão supra-racional. É esta visão supra-racional, intelecção ou intuição que dá ao homem, não só o discernimento, mas certeza: certeza de sua própria existência como um ser, a confiança na capacidade funcional da razão, a capacidade de discernir entre o que é real e o que é irreal, o que é verdadeiro e o que é falso. Intelecção é uma espécie de "visão", uma visão com o "terceiro olho", e não uma conclusão, e é isso que abre ao homem a possibilidade da certeza metafísica.

Deve ficar claro que a intelecção não tem nada a ver com a agilidade mental. Isto é bem evidenciado pelo o que os psiquiatras chamam de " idiotas savants ", pessoas que podem funcionar como um computador, mas que são incapazes de pensar, muito menos a intelecção. Mas, se todos os homens são dotados de um intelecto, por que é que nem todos os homens veem com clareza? As várias religiões respondem de forma diferente. O cristianismo e as religiões semitas veem o intelecto como "nebuloso" e o desejo "enfraquecido" pela Queda. Isso não quer dizer que o homem está privado deles, mas só que não funcionam tão bem como deveriam. O hinduísmo explica a mesma situação pelo que é chamado Mayaand, que retrata o pecado em termos de ignorância. E é precisamente por isso que a Revelação é necessária. Adão, ou homem que vivia na Idade de Ouro, não necessitava de Revelação, uma vez que seu intelecto era claro e ele "andava e falava com Deus." Nós, no entanto, especialmente quando nos aproximamos do final do Kali Yuga, estamos desesperadamente precisando de uma orientação, precisamente por isso que existe a Revelação.

Se as religiões proporcionam ao homem critérios objetivos, elas também afirmam que o homem é capaz de objetividade. O homem é capaz de usar seu intelecto para determinar o que é objetivamente real e de discriminar entre este e o ilusório. Isso exige de sua parte um determinado ato de vontade. O homem deve optar por aceitar esses critérios objetivos ou rejeitá-los, e deve sofrer as consequências decorrentes dessa escolha. Com a liberdade vem a responsabilidade. Esta capacidade de exercer o intelecto e o desejo são qualidades homem partilha com Deus e, portanto, o homem é dito ser feito à "imagem de Deus". Exercitando-os corretamente, participamos da vida divina. O homem moderno, vendo-se como feito à "imagem de uma ameba," não acredita que é possível conhecer a Verdade, ou Deus, que é a essência da verdade, muito menos desejá-lo.  Por isso, ele não acredita que é responsável por nada além de seus colegas amebas. E isso nos leva a um outro princípio de que todas as religiões têm em comum: o homem é responsável e, portanto, quando morre, será recompensado ou punido de acordo como ele usa tanto seu intelecto e seu livre arbítrio. Este princípio está incutido numa variedade de maneiras. As religiões semitas falam do inferno e do céu. O hinduísmo fala da transmigração da alma, da necessidade de nascer de novo milhares de vezes em miríades de mundos antes de ser mais uma vez dado a oportunidade central, que é o homem alcançar mokshaor, a libertação. Budismo descreve isso como o "ciclo de existência."

Mais uma vez, todas as religiões estão de acordo que no homem há uma hierarquia na qual o que é superior deve reinar sobre o que é inferior, em que, finalmente, o Atman deve governar o ego e as várias paixões. Como o Bhagavad Gita ensina, é Krishna, que deve controlar e dirigir a carruagem para que os cavalos passionais, sendo deixados desenfreados, não fujam de controle. Colocando isso em outros termos, todas as religiões defendem uma vida espiritual, cujo objetivo é a santificação do indivíduo. Tudo isso se encontra no fato de que as religiões inculcam um código moral estrito, não como um fim em si, mas como um predispositivo para os fins próprios do homem.

É evidente que as religiões estão de acordo sobre a necessidade da oração para santificar nossas vidas. Não só a oração individual, cuja finalidade é a obtenção de favores particulares e purificação da alma, mas também orações que expressam a gratidão do homem, resignação, tristeza, resolução, e louvor. O homem sempre tem motivos para gratidão. Renúncia é a aceitação com antecedência do não cumprimento de alguma solicitação. Arrependimento ou contrição: o ato de pedir perdão, e do desejo de remediar alguma transgressão. Louvor significa não apenas que nos relacionamos cada valor a sua Fonte última, mas também que nós vemos cada provação em termos de sua necessidade e utilidade.

Outro modo de oração é a meditação, onde o contato entre o homem e Deus se torna um entre a inteligência e a Verdade. Enquanto a oração é subjetiva e volitiva, a meditação é objetiva e intelectual - na linguagem do Vedanta é chamada vichara ou "investigação", levando a Viveka ou a discriminação entre o que é real e o que é irreal. Mas o indivíduo que segue um caminho da meditação faz isso dentro do ambiente cultural de uma determinada tradição que lhe proporciona orações canônicas e pressupõe todas as atitudes da oração volitiva como uma espécie de substrato, japa yoga ou a invocação do Nome Divino, abraçando todas essas atitudes.

Todas as religiões se relacionam para o centro ou origem anterior, uma Idade de Ouro, quando o Fundador "caminhou sobre a Terra", uma espécie de Ram Raj, e, portanto, vêem o presente como uma era de uma degeneração ou apostasia. Agora, em vista disso, não é de estranhar que nenhuma das religiões são utópicas. No entanto é preciso estabelecer distinções, todas as religiões visam que a vida do homem na terra deva seguir um padrão de um modelo divino -  precisamente para que a nossa jornada ou o exílio aqui abaixo possa ser uma que nos oriente e nos leve a uma vida acima. Aqui chegamos a outro ponto importante: o homem moderno e o "ethos do culto" - se puder utilizar tal frase - sonha em criar uma sociedade perfeita na terra, uma sociedade que é, como TS Eliot diz: "tão perfeita que ninguém jamais precisa ser bom." O homem moderno foi, por assim dizer, re-orientado e, em vez de olhar "acima", ele olha "à frente". As religiões sabem que uma utopia terrena é um sonho absurdo. Mesmo no Jardim do Éden existia uma serpente - ou, como diz a Escritura, "só Deus é bom." O erro fundamental daqueles imbuídos com o imperativo utópico é a sua crença mecanicista que se alguém muda a natureza da sociedade ele irá mudar o natureza do homem. Mas cada homem é um reino para si mesmo e deve escolher de estar ou não de acordo com a imagem que ele foi criado. No entanto, tudo isso não quer dizer que o homem não deve, em conformidade com sua natureza e com simples bom senso, tentar superar os males que encontra ao longo da vida - isso não exige liminares, seja divina ou humana. Colocando em termos simples, a pessoa não precisa ser um sábio e saber o suficiente para entrar e sair da chuva. Mas, tentar estabelecer um certo estado de bem-estar com Deus em vista é uma coisa, já procurar instituir um perfeito estado de felicidade na terra à parte de Deus é outra. Em qualquer caso, este último objetivo está fadado ao fracasso, precisamente porque a eliminação duradoura de nossas misérias não depende de nós mesmos, mas de nossa conformidade com o Equilíbrio Divino e no estabelecimento do Reino de Deus dentro de nossa própria alma. Enquanto os homens não se deram conta da santificação "interior", a abolição dos julgamentos terrestres é impossível, pois, como o Buda ensinou, nunca poderemos eliminar, tristeza, doença, velhice e morte. Não é apenas impossível, é até mesmo indesejável, porque o pecador - o homem exteriorizado - precisa sofrimento, para assim expiar seus defeitos e se afastar do pecado; a fim de escapar da própria "exterioridade", da qual deriva o pecado. Do ponto de vista espiritual, o único que toma em consideração a verdadeira causa de nossas calamidades, uma sociedade "perfeita" no sentido mundano, uma sociedade com o máximo de conforto e a chamada "justiça", seria, com os fins últimos do homem frustrados, uma das sociedades mais malignas concebíveis. Aqueles que sonham em libertar o homem de suas antigas frustrações são, de fato, os que estão impondo sobre ele a mais radical e irreparável de todas as frustrações. A Civitas Dei e Progresso mundano, tal como previsto pelo homem moderno, jamais podem se mesclar.

Que tipo de ordem social as religiões defendem? Basicamente, uma com um padrão para - o Reino vindouro - Ram Raj Jaya. Tal não é o capitalismo e, certamente, não o socialismo. Pelo contrário, todas as tradições imaginam aquilo que os economistas modernos descrevem como "distributismo", o que eu gosto de chamar de "suficientismo" - isto é, a maior distribuição possível de propriedade privada proporcionando às pessoas o suficiente para viver com dignidade, como é apropriado a sua posição na vida. Sem a propriedade privada não pode haver nenhuma liberdade. Usura, que está no centro da economia moderna, é proibido por todas as tradições religiosas. Também imagina uma sociedade não-industrial, em que "o artista não é um tipo especial de homem, mas cada pessoa é um tipo especial de artista." As pessoas em tais sociedades eram organizados em guildas que funcionavam não só para proteger os seus membros, mas também para insistir em um alto padrão de produção. O termo "obra-prima" era, dessa forma, aplicado ao trabalho que um aprendiz produzia no final do seu período de formação e que, ao ser julgado pela guilda, davam-lhe a licença para abrir sua própria loja.

Agora, as religiões ainda estão de acordo em várias outras questões. Todos estão de acordo em considerar a família como a estrutura básica da sociedade. Católicos encaram a família como uma mini-igreja, onde o pai tem como seu exemplar Deus. Conforme Arjuna diz no Gita "na destruição de uma família, as tradições familiares imemoriais perecem; no perecimento das tradições, a ilegalidade supera toda a família ... a morada dos homens cujos costumes família se extinguem é um inferno eterno." Esta é uma das razões pelas quais, várias tradições envolvem o ato sexual com tantos tabus ou restrições. Não é a única razão, pois, fundamentalmente, o ato sexual é visto como um ato sagrado, um realizado na imitação dos Deuses. Todos os Antigos Ensinamentos insistem numa estrita moralidade, não como um fim em si, mas como um predispositivo para os fins próprios do homem. Na medida em que ele possui a "liberdade" de pensar por si mesmo, assim também, ele tem a liberdade de agir por si mesmo. Mas ele não tem "direito" a se comportar mal, e quando o faz, ele perde a sua dignidade. O homem só é digno, quando ele está em conformidade com a Imagem Divina. Na falta disso, ele se comporta como um animal. Religiões apresentam uma outra característica. Elas são exclusivas. Todos elas afirmam fornecer a humanidade tudo que é necessário para salvar a sua alma e conhecer a sua verdadeira natureza. Por mais que possam apreciar ou admitir que as outras religiões têm elementos de verdade, são claramente anti-sincréticos. Nenhuma delas defende a criação de uma religião única mundial. E há uma boa razão para isso. Inevitavelmente qualquer um que tente sincretizar religiões, abandona objetividade e se entrega a seus sentimentos pessoais e, assim, torna-se o seu próprio juiz da verdade. Se quisermos deixar sincretismo acontecer, todos vão acabar por beber vinho como os cristãos e tendo quatro esposas como muçulmanos. Não há um mandato divino ou celestial para tal abordagem. Junto com essa atitude anti-sincrética, existe uma outra de igual importância.  Deve-se aceitar a totalidade de uma determinada religião. Não se pode ser meio muçulmano - não é possível aceitar os hadiths do Profeta Maomé e rejeitar o Alcorão. Da mesma forma, o catolicismo ensina que a rejeitar um ponto da verdade revelada, é rejeitar todo o corpo da Revelação. Não se pode escolher.

Uma última pergunta: existe ensinamentos antigos à nossa disposição fora das grandes religiões? A resposta é "sim" e "não". "Sim" no sentido de poder se interessar, por exemplo, na religião do Egito Antigo. Mas "não" no sentido que não se poderia ter acesso à totalidade da religião, e "não", porque cada religião demanda a participação ritual como um pré-requisito para a participação na Verdade.

E assim somos levados de volta à nossa tese original: Ensinamentos Antigos ou Superstições Modernas - uma busca pela autenticidade. Nós demonstramos que as revelações nos fornecem critérios objetivos e que o homem é capaz de objetividade. Temos basicamente três alternativas abertas para nós. Ou não existe uma verdade objetiva absoluta fora de nós mesmos, ou existe uma verdade subjetiva relativista elaborada em nosso interior, ou alguma mistura dos dois. Se aceitarmos a verdade objetiva e usar a nossa capacidade inata de discernir entre o que é real e o que é irreal, somos forçados a recorrer aos Ensinamentos Antigos incorporadas nas grandes tradições religiosas. Simplesmente não há outra fonte objetiva. Se nós nos declaramos ser a fonte do que é verdadeiro para nós, ou se escolhermos entre este e a primeira alternativa, aceitando apenas os antigos ensinamentos que gostamos, somos colocados na posição de um médico que se trata ou de um advogado que é seu próprio advogado. No entanto, uma vez que estamos lidando nem com a nossa saúde física, nem o nosso dinheiro, mas sim com a nossa alma, estamos em essência declarando que seremos nossos próprios guias espirituais. Há um antigo ditado oriental que diz "aquele que toma a si mesmo como guia espiritual, tem Satanás como seu guru." A segunda alternativa é, como apologistas católicos tendiam a dizer, uma situação na qual "cada um se torna seu próprio Papa."

Uma advertência final: quando buscamos nos Ensinamentos Antigos, temos de ter a certeza absoluta que são os antigos ensinamentos que nós estamos acessando. Assim, no que se refere ao hinduísmo, traduções de acadêmicos formados com visões céticas e positivistas do Ocidente moderno, e não familiarizados com a teologia cristã, dificilmente pode-se esperar que produzam trabalhos metafisicamente precisos que possa ser confiável. O comentário também se aplica a muitos tradutores hindus que derivam sua formação das mesmas fontes ocidentais. O mesmo se aplica ao catolicismo e qualquer outra religião. Não se pode mais encontrar a verdadeira doutrina hindu nos escritos de Krishnamurti e Aurobindo, da mesma forma que não se pode encontrar a verdadeira doutrina católica nos escritos de Hans Küng e Karl Rahner.

Do ponto de vista dos Ensinamentos Antigos, o homem é colocado neste mundo para que ele possa saber (jnana), amor (bhakti) e servir (karma) a Deus e, assim, salvar a sua alma (moksha). O desdobramento do potencial humano só pode seguir dois cursos alternativos. Ou o homem está de acordo com a imagem em que ele é criado, e como os primeiros Padres da Igreja diziam: "diviniza" a si mesmo - e é isso que os ensinamentos antigos e métodos ajuda-lhe a fazer - ou ele se faz de si mesmo a fonte tanto doutrina e do método e permanece ligado ao seu ego orgulhoso e a sua experiência psicológica de auto-validação, e condena-se a uma migração permanente através infernos samsáricos intermináveis​​. Nosso potencial humano pode ser resumido em duas alternativas simples, "santidade" ou "condenação", moksha ou a ronda interminável da existência. Céu ou inferno. Em última análise, nada mais importa.

Satyam aevam jayati—Veritas vincit omnia.
Rama P. Coomaraswamy

domingo, 1 de dezembro de 2013

Notas sobre o Existencialismo (Frithjof Schuon)

A mentalidade ocidental deu origem a quatro perspectivas metafísicas que são perfeitas, ou no mínimo satisfatórias, conforme cada caso, a saber: Platonismo, incluindo o Neo-Platonismo, Aristotelismo, Escolasticismo, Palamismo.

Uma questão: Por que Kierkegaard não era Platônico, nem Aristotélico, nem Escolástico, nem Palamita? Será que é porque ele era um Vedantista ou um Mahayanista? Certamente que não. Consequência: Sua doutrina é nula e sem efeito. A prova disso é que ele rejeita o Cristianismo "institucionalizado", portanto, também a teologia tradicional que sustenta, e ele faz isso em favor de um subjetivismo que não é intelectual (pois nesse caso ele teria reconhecido a metafísica objetiva cujo o modo de expressão necessariamente é racional e abstrato) mas voluntarista e sentimental; de onde provém o seu moralismo subjetivista ou individualista, sua insistência em pensar "existencialmente", sua nulidade do ponto de vista de uma verdadeira e eficaz espiritualidade que salva.

As mesmas observações - mutatis mutandis -se aplicam a Heidegger, com a agravante de que este filósofo decadente não é sequer cristão, em qualquer grau, sendo, na verdade, para colocá-lo resumidamente, um ateu; e quanto a dizer sobre o conceito, completamente antimetafísico e histérico, de angústia?

Pascal não pode ser classificado entre os existencialistas; simplesmente acreditava no racionalismo, sem saber que dados rigorosos para a ciência metafísica pré-existem no intelecto puro; se Pascal é um existencialista, então todo o fideísmo é existencialismo, o que certamente não é assim.

Em nenhum grau o existencialismo é construtivo, pois não tem nenhum direito de criticar o abuso de uma racionalidade cuja natureza ele nem mesmo tem a percepção. Se a crítica do existencialistas para a razão - ou do racionalismo - é justificada, por que eles não se tornam Platônicos ou Vedantistas? De fato, o existencialismo não nos traz para próximo da verdade; para o erro racionalista, que consiste no raciocinar sobre realidades metafísicas ou simplesmente cosmológicas, na ausência de dados intelectuais indispensáveis, o existencialismo acrescenta o erro inverso e substitui, pelo raciocínio do bom ou mau, verdadeiro ou falso, uma experiência que é, de fato, infra-intelectual, um cul-de-sac. Portanto, o movimento existencialista, que é uma reação cega, nos leva a lugar nenhum, e não faz sentido em dizer que "Na Ásia, não havendo separado a razão da intelecção, não precisou-se de um movimento existencialista", além do fato de que a Índia existiu alguns racionalistas como os Chârvâkas, quem na verdade não precisa do existencialismo? Não se pode necessitar de algo falso, algo que não leva a nada. 

Tendo em vista Kierkegaard e outros como ele, como Klages, por exemplo, que apaixonadamente opõe a "vida" pelo "pensamento" e paradoxalmente faz isso usando o pensamento, eu escrevi sobre o assunto: "O que pode ser dito de um filósofo que 'pensa' despreocupadamente sobre a falta de sinceridade, ou a mediocridade, do "pensamento" como tal?” A palavra "despreocupadamente" ("allégrement"), neste caso, significa: sem escrúpulos, sem estar consciente de uma contradição, sem se dar ao trabalho de refletir um pouco, sem manifestar o mínimo de objetividade; afinal de contas, por que um confesso subjetivista seria objetivo? Isso não tem absolutamente nada a ver com Kirkegaard, sendo uma questão exclusivamente do estilo irresponsável do seu pensamento, a sua falta de senso crítico e de proporção. Ele liquidou o "Cristianismo institucionalizado" com uma caneta não é o suficiente? Ele tinha a pretensão de apresentar uma imagem adequada da verdade total e, assim, estar indicando um caminho; bem, ele estava enganado e deve ser rejeitado sem piedade, diria até mesmo: rejeitado com horror. Sobre a questão de saber se ele estava certo em algum momento, não vem ao caso; todo filósofo está certo em algum momento, e isso sem qualquer interesse. O que importa é a doutrina global, suas reivindicações e suas consequências.

O que Kikerkegaard faz contra o pensamento racional nunca poderia coincidir com o que eu faço contra a mentalidade do homem caído, pois faço minha crítica em nome do Intelecto, o qual Kikerkegaard não tinha a menor ideia. Sem dúvida vou ser informado que este pensador, se ele não faz uma crítica em nome da intelecção, pelo menos, ele fez em nome da fé; mas ele era ignorante quanto ao que constitui a verdadeira fé, uma vez que, em nome de sua fé, ele ataca a teologia, que é precisamente uma objetivação indispensável e uma condição sine qua non da fé do coração. A fé de Kierkegaard é individualista, e não santificadora.

Kierkegaard, sem dúvida, tinha um profundo respeito por Sócrates, mas isso é porque ele compreendeu-o muito imperfeitamente; A sinceridade socrática tem fundações diferentes do sincerismo existencialista.  Da mesma forma, a Gelassenheit de Heidegger não poderia ter o mesmo significado e nem o alcance da Gelassenheit de Meister Eckhart, sendo meramente uma falsificação profana e individualista. "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis", disse Cristo.

Heidegger "busca" um modo de conhecimento que vai além do pensamento discursivo; isto é bom, mas o pensamento discursivo vale infinitamente mais em si mesmo do que qualquer coisa que um Heidegger pode conceber, buscar ou encontrar.

É óbvio que Kierkegaard teve que admitir o Apocalipse - ou seja a Bíblia - desde que era um protestante; ele tinha um cero mérito em ser Cristão, isto é, acreditar em Cristo, em Deus e na vida eterna; mas ele não tem nenhum mérito especial em admitir o Apocalispe como um princípio ou um fenômeno, a existência do Apocalipse é algo mínimo como um adversário do "Cristianismo institucionalizado". Não admitir o fato do Apocalipse não é ser deísta ou um ateu.

Uma coisa absolutamente ausente nos existencialistas, e que faz reduzir suas teorias a nada, bem como suas atitudes morais, é uma verdade objetiva, metafisicamente integral, quer seja uma teologia ortodoxa ou uma metafísica autentica. Assim, todos seus méritos parciais caem em um vazio. "Aquele que comigo não ajunta, espalha", disse Cristo; o "comigo" aqui é o Logos, e é Ortodoxo no sentido universal, bem como no sentido particular.

É verdade que Kierkegaard observou que a racionalidade quando deixada por si mesmo, ou racionalidade sem fé, ou seja, "racionalismo", não leva a lugar algum; mas então, nem mesmo sua fé subjetiva, por completo - seu existencialismo, se você preferir - leva a lugar algum; e se a objeção é levantada, que essa fé deriva sua inspiração a partir do Evangelho, eu posso responder que o racionalismo também tem sua inspiração a partir de certos dados desde que o homem vive em um mundo que é relativamente real. O Evangelho, no caso de Kierkegaard, arbitrariamente reduzido às fantasias de um indivíduo, é uma experiência limitada para os racionalistas; e se o filosofo Dinamarquês - que era, aliás, um teolólogo muito pobre - tomou como base o Evangelho, então por que ele estava tão longe de entender o espiríto da coisa? Do seu ponto de vista até mesmo o obriga a tornar-se nem mais nem menos do que um santo; mas, na verdade, ele estava infinitamente longe da santidade de um Alberto Magno ou Tomás de Aquino, os quais aceitaram completamente a racionalidade que ele, o subjetivista, rejeitou.

O existencialismo é um substituto pernicioso para a contemplação intelectiva e a santidade. Se os existencialistas, tão imbuído do sincerismo, eram realmente sinceros, seriam santos ou heróis e deixar iam a racionalidade em paz.

Certamente as verdades devem ser encontradas em todos filósofos, sobretudo as meias-verdades, mas essas verdades são acompanhadas de erros e inconsistências; portanto é inútil se debruçar neles. As verdades parciais são apenas aceitadas no domínio da ortodoxia tradicional, porque só são aceitáveis no contexto da Verdade total, o que por si só garante sua exatidão e sua eficácia. Pensar enquanto se nega a Verdade total, que é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, é completamente inconsistente; não se está realmente pensando. 

O subjetivo só pode ser comunicado pelo objetivo. Se Kierkegaard estava certo, a fé não seria comunicável; pois, de modo a ser comunicada, a fé requer meios que são objetivos, portanto, racional. 
Verdades incorporadas em erros estão, indiretamente, repletas com o veneno do seu contexto errôneo. O existencialismo tem, seja protestante ou ateu, promovido nada exceto o individualismo; sem a compreensão das doutrinas metafísicas, jamais a santidade! 

original

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sobre a Reforma (Por René Guénon)

Assim, pode-se observar que a simplificação segue estritamente o curso descendente que, em termos atuais, inspirados pelo dualismo cartesiano, poderia ser descrito como conduzindo do "espírito" em direção a "matéria":  esses termos inadequados podem ser como substitutos por "essência" e "substância", que talvez possa ser empregado aqui para uma melhor compreensão. Por isso, é ainda mais extraordinário que alguém tente aplicar este tipo de simplificação para coisas que pertencem ao domínio "espiritual", ou pelo menos como as pessoas são capazes de imaginar, de forma que estendem a simplificação às concepções religiosas, bem como as concepções filosóficas ou científicas. O exemplo mais típico é o do protestantismo, em que a simplificação assume a forma tanto na supressão quase completa de ritos como a uma atribuição da predominância da moralidade sobre a doutrina; e a doutrina em si, torna-se mais e mais simplificada e diminuída, de modo que é reduzida a quase nada, ou até algumas fórmulas rudimentares que qualquer um pode interpretar da maneira que lhe convém.  Além disso, o protestantismo em suas diversas formas é a única religião produzida pelo espírito moderno, e surgiu em um momento em que o espírito ainda não havia chegado ao ponto de rejeitar todas as religiões, mas estava no caminho para fazê-lo em virtude das tendências anti-tradicionais que lhe são inerentes. No desfecho desta "evolução" (como é chamado hoje), a religião é substituída por "religiosidade", ou seja, por um vago sentimentalismo sem nenhum significado real; é isso que é aclamado como "progresso", e isso mostra claramente como todas as relações normais são revertidas na mentalidade moderna, para isso, as pessoas tendem a ver uma "espiritualização" da religião, como se o "espírito" fosse um mero quadro vazio ou um ideal tão nebuloso que é insignificante. É isto que alguns de nossos contemporâneos chamam de "religião purificada", mas é "purificada" na medida em que é esvaziada todo o conteúdo positivo e não tem mais nenhuma ligação com qualquer realidade.


Outra coisa que merece atenção é que todos auto-intitulados "reformadores", constantemente exibem sua pretensão em voltar para a "simplicidade primitiva", que certamente nunca existiu, exceto em suas imaginações. Isso às vezes pode ser apenas uma maneira conveniente de esconder o verdadeiro caráter de suas inovações, mas também pode ser uma ilusão da qual eles próprios são vítimas, pois é muito difícil determinar até que ponto os aparentes promotores do espírito anti-tradicional estão realmente conscientes do papel que estão desempenhando, pois eles não poderiam cientemente promovê-lo a menos que eles próprios tenha uma mentalidade muito distorcida. Além disso, é difícil imaginar como a pretensão de simplicidade primitiva pode ser conciliada com a ideia de "progresso", da qual eles simultaneamente afirmam ser agentes; a contradição é bastante por si mesmo para indicar que há algo realmente anormal em tudo isso Seja como for, e com atenção a ideia de "simplicidade primitiva", não parece haver nenhuma razão que faça com que as coisas sempre comecem por algo simples e continue a ficar mais complexa, ao contrário: considerando que o germe de qualquer ser deve necessariamente conter a virtualidade de tudo o que o ser será no futuro, de modo que todas as possibilidades a serem desenvolvidas no decorrer da sua existência devem estar inclusas no germe desde o início, a conclusão de que a origem de todas as coisas deve ser extremamente complexa é inevitável. Isso dá uma noção exata da complexidade qualitativa da essência; o germe é pequeno apenas em relação à quantidade ou substância e, simbolicamente transpondo a ideia de 'tamanho' pode-se deduzir por analogia inversa que, o que está menos em quantidade, deve ser maior em qualidade. De forma semelhante todas as tradições na sua origem contém a doutrina inteira, compreendendo, em princípio, a totalidade dos desenvolvimentos e adaptações que podem legitimamente proceder dela, juntamente com a totalidade das aplicações a que podem dar origem a todos os domínios; intervenções humanas não podem fazer nada, apenas restringir e diminuir, se não for o caso de desnaturar completamente, e o trabalho de todos "reformadores" consiste em nada mais do que isso.

René Guénon em "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos"

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Retorno da Religião (Roger Scruton)

O Retorno da Religião - Roger Scruton 

Confrontado com o espetáculo das crueldades perpetradas em nome da fé, Voltaire gritou a famosa frase 'Ecrasez l'infame!'. Dezenas de pensadores iluministas seguiu-o, declarando a religião organizada o inimigo da humanidade, a força que divide o crente do infiel e que tanto excita como autoriza o assassinato. Richard Dawkins é o exemplo vivo mais influente desta tradição, e sua mensagem, ecoado por Dan Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens, soa tão alto e estridente na mídia hoje como a mensagem de Lutero nas igrejas reformadas da Alemanha. A violência dos discursos proferidos por esses ateus evangélicos é realmente notável. Afinal de contas, o Iluminismo aconteceu há três séculos, os argumentos de Hume, Kant e Voltaire foram absorvidos por cada pessoa educada. O que mais deve ser dito? E se você deve dizer isso, por que dizê-lo de modo tão estridente? Certamente, aqueles que se opõem a religião em nome da gentileza tem a obrigação de ser gentil, mesmo com - especialmente - seus inimigos?

Há duas razões pelas quais as pessoas começam a gritar com os seus adversários: um é que eles acham que o adversário é tão forte que todas as armas devem ser usadas contra ele; a outra é que eles pensam que o a sua causa é tão fraca que ela tem que ser fortalecida pelo barulho. Ambos esses motivos podem ser observados nos ateus evangélicos. Eles acreditam a sério que a religião é um perigo, levando as pessoas a excessos de entusiasmo que, pelo fato de serem inspirados por crenças irracionais, não podem ser combatidos por meio de argumentos racionais. Nós tivemos muitas prova disso entre os islâmicos; mas essa prova, os ateus nos dizem, é apenas a mais recente em uma longa história de massacres e torturas, que - na perspectiva científica - pode razoavelmente ser chamada de pré-história da humanidade. O Iluminismo prometeu inaugurar uma outra era, em que a razão seria soberana, fornecendo um instrumento de paz que todos possam empregar. Nos olhos dos evangélicos ateus, no entanto, essa promessa não foi cumprida. Em sua visão das coisas, nem o judaísmo nem o cristianismo absorveu o Iluminismo, mesmo que, em certa medida, eles o inspirou. Todas as crenças, para os ateus, permaneceram na condição do Islã hoje: enraizados em dogmas que não podem ser questionados com segurança. Acreditando nisso, eles funcionam diante de uma espuma de vitupérios contra os crentes comuns, incluindo aqueles crentes que vieram para religião em busca de um instrumento de paz e que consideram a sua fé como uma exortação para amar o próximo, mesmo o seu belicoso vizinho ateu, como eles mesmos.

Ao mesmo tempo, os ateus estão reagindo ao enfraquecimento do seu caso. Dawkins e Hitchens estão convencido de que a visão científica do mundo foi inteiramente prejudicadas pelas premissas da religião e que só a ignorância pode explicar a persistência da fé.  Mas o que exatamente a ciência moderna nos diz, e exatamente onde ela conflita com as premissas da crença religiosa? De acordo com Dawkins (e Hitchens segue-o nesta), os seres humanos são "máquinas de sobrevivência" a serviço de seus genes. Somos, por assim dizer, subprodutos de um processo que é totalmente indiferente ao nosso bem-estar, máquinas desenvolvidas pelo nosso material genético a fim de promover sua meta reprodutiva. Os genes em si são moléculas complexas, colocadas juntas, de acordo com as leis da química, a partir de material disponibilizado na sopa primordial que uma vez foi fervida na superfície do nosso planeta. Como isso aconteceu ainda não é conhecido: talvez descargas elétricas causaram que átomos de nitrogênio, carbono, hidrogênio e oxigênio se associassem em cadeias adequadas, até que finalmente um deles atingiu essa característica marcante, de codificar as instruções para a sua própria reprodução. A ciência pode um dia ser capaz de responder a questão de como isso ocorreu. Mas é ciência e não religião, que irá responder.

Quanto à existência de um planeta no qual os elementos são abundantes similares as quantidades observadas no planeta Terra, tal coisa também deverá ser explicado pela ciência - embora a ciência da astrofísica, em vez da ciência biológica. A existência da Terra faz parte de um grande processo de desdobramento, o que pode ou não pode ter começado com um Big Bang, e que contém muitos mistérios que os físicos exploraram com crescente espanto. Astrofísica levantou mais perguntas do que as tem respondido. Mas essas são questões científicas que serão resolvidas pela descoberta das leis do movimento que governam as mudanças observáveis ​​em todos os níveis do mundo físico, da galáxia para supernova, do buraco negro ao quark. Existe um mistério nos confronta quando nós olhamos para a Via Láctea, sabendo que as miríades de estrelas responsáveis ​​por aquela mancha de luz são apenas uma única galáxia, a mesma que nos contém, e que além de suas fronteiras existe uma miríade de outras galáxias que giram devagar no espaço, algumas morrendo, algumas emergindo, todas sempre inacessíveis para nós - este mistério não exige uma resposta religiosa. Este é um mistério que resulta de nosso conhecimento parcial e que só pode ser resolvido através de um maior conhecimento do mesmo tipo - o conhecimento que podemos chamar de ciência.

Somente a ignorância poderia nos levar a negar esse quadro geral, e os ateus evangélicos assumem que a religião nega esse quadro e portanto acreditam que ela comprometerá com a propagação da ignorância ou com a prevenção do conhecimento. No entanto, eu não conheço uma pessoa religiosa entre os meus amigos e conhecidos que negam esse quadro,  ou que considera ele como uma dificuldade para sua fé. Dawkins escreve como se a teoria do gene egoísta retirasse de uma vez por todas com a ideia de um Deus criador - não precisamos dessa hipótese para explicar como chegamos a ser. Em certo sentido, isso é verdade. Mas sobre o próprio gene: como ele veio a ser? E sobre a sopa primordial? Todas essas perguntas são respondidas, é claro, indo um passo mais abaixo na cadeia de causalidade. Mas a cada passo encontramos um mundo de uma qualidade singular: precisamente é um mundo que, por si só, produzirá seres conscientes, capazes de olhar com a razão buscando o sentido das coisas, e não somente por uma causa. A coisa surpreendente sobre o nosso universo é que esse contém a consciência, o julgamento, o conhecimento do certo e errado, e todas as outras coisas que fazem a condição humana tão singular. O universo não se torna menos surpreendente pela hipótese de que esse estado de coisas surgiram ao longo do tempo a partir de outras condições. Se for verdade, somente nos mostra o quão surpreendente tais condições eram. O gene e a sopa não podem ser menos surpreendentes que o seu produto.

Além disso, estas coisas deixam de nos surpreender - ou melhor, eles cairiam no âmbito do compreensível - se pudéssemos encontrar uma maneira de eliminá-los da contingência. É isso que a religião promete: não um propósito, necessariamente, mas algo que remova o paradoxo de um mundo completamente regido por lei, aberto a consciencia, que é, no entanto, sem explicação: é apenas assim, por nenhuma razão. Os ateus evangélicos são subliminarmente conscientes de que a sua abdicação em face da ciência não faz o universo mais inteligível, nem fornece uma resposta alternativa para nossas indagações metafísicas. Isso leva as perguntas a uma parada. E a pessoa religiosa vai sentir essa parada prematura: a razão tem mais questões a se fazer, e talvez mais respostas para obter as quais os ateístas vai nos permitir. Então quem, nesta competição subliminar, é o verdadeiramente razoável? Os ateus levantam a questão em seu próprio favor, assumindo que a ciência tem todas as respostas. Mas a ciência pode ter todas as respostas, apenas se ela tiver todas as perguntas, e esse pressuposto é falso. Há perguntas dirigidas a razão que não são dirigidas a ciência, uma vez que elas não estão pedindo uma explicação causal.

Uma dessas questões é a consciência. Este estranho universo de buracos negros e deformações do tempo, de eventos do horizontes e não-localidades, de alguma forma, tornam-se conscientes de si mesmo. E se tornam conscientes de si mesmos em nós. Essas condições factuais são a própria estrutura da ciência. A rejeição do espaço absoluto de Newton, a adoção do continuum espaço-tempo, as equações quânticas - todos estes têm como premissa o fato de que as leis científicas são instrumentos para prever um conjunto de observações a partir de outro. O universo que a ciência descreve é limitado em cada ponto de observação. Segundo a teoria quântica, algumas de suas características mais básicas torna-se determinar somente o momento de observação. A grande tapeçaria das ondas e partículas, de campos e forças, da matéria e da energia, está preso apenas nas bordas, onde os eventos são cristalizados na mente de quem observa.

A consciência é mais familiar para nós do que qualquer outra característica do nosso mundo, uma vez que é a via pela qual qualquer coisa se torna familiar. Mas isso é o que faz a consciência ser tão difícil de identificar. Procurá-la onde quer que gostaria, você encontra somente seus objetos - um rosto, um sonho, uma lembrança, uma cor, uma dor, uma melodia, um problema, mas em nenhum lugar desses a consciência incide sobre elas. Tentar compreendê-la é como tentar observar o sua própria observação, como se estivesse a olhar com seus próprios olhos em seus próprios olhos sem usar um espelho. Não surpreende, portanto, o pensamento de consciência dá origem a preocupações metafísicas peculiares, que tentam aliviar com imagens da alma, a mente, o ego, o "sujeito de consciência", a entidade interior que pensa, vê e sente e que é o verdadeiro eu interior. Mas essas "soluções" tradicionais simplesmente duplicam o problema. Nós lançamos nenhuma luz sobre a consciência de um ser humano simplesmente re-descrevendo-a como a consciência de algum homúnculo interno - seja ela uma alma, a mente ou a si mesmo. Pelo contrário, colocando que homúnculo em alguma realidade privada, inacessível e possivelmente imaterial, nós apenas agravamos o mistério.

É este mistério que traz as pessoas de volta à religião. Eles podem não ter clara concepção da ciência, nenhuma aptidão teológica, e nenhum conhecimento dos argumentos, ao longo dos séculos, que convenceu as pessoas que a fabricação da contingência deve ser apoiada por um "ser necessário". As sutilezas das escolas medievais, na sua maior parte, fazem pouco contato com o pensamento dos crentes de hoje. As pessoas modernas são atraídos para a religião pela consciência da consciência, por sua consciência de uma luz que brilha no centro de seu ser. E, como Kant mostrou de forma brilhante, a pessoa que conhece a si mesmo, que se refere a si mesmo como "eu", está inevitavelmente preso na liberdade. Ele se eleva acima do vento da contingência que sopra através do mundo natural, erguida por leis necessárias da razão.  O 'eu' define o ponto de partida de todo o raciocínio prático e contém uma sugestão da coisa que distingue as pessoas do resto da natureza, ou seja, sua liberdade. Existe um sentimento em que os animais também são livres: eles fazem escolhas, fazem as coisas tanto livremente e por indução. Mas os animais não são responsáveis ​​por aquilo que fazem. Eles não são convidados a justificar sua conduta, nem são persuadidos ou dissuadidos pelo diálogo com outros. Todos esses objetivos, como a justiça, a comunidade e o amor, tornam a vida humana em algo de valor intrínseco, têm sua origem na responsabilidade mútua de pessoas, que respondem uns aos outros de 'Eu' para 'Eu'. Não surpreende, portanto, que as pessoas estejam convencidas de que eles entendem o mundo e seu significado, quando observam de uma forma exterior de um outro "eu" - o "eu" de Deus, no qual todos nós estamos julgados, e a partir do qual amor e a liberdade fluem.

Esse pensamento pode ser visto em versos, como no Veni Creator Spiritus da Igreja Católica, nas palavras rapsódicas de Krishna no Baghavad Gita e no grande Salmos que são a glória da Bíblia hebráica.  Mas para a maioria das pessoas está simplesmente ali, uma densa pepita de significado no centro de suas vidas, que pesa muito quando não encontram nenhuma maneira de expressá-los em formas comuns. As pessoas continuam a olhar para os lugares onde eles podem se sustentar, por assim dizer, na janela do nosso mundo empírico , olhando para fora, para o transcendental - os lugares onde há uma brisa que provém da esfera que paira sobre eles. Não muito tempo atrás, Deus estava na residência. Você poderia abrir uma porta e descobri-lo, e juntar-se com aqueles que cantavam e rezavam em sua presença. Agora, ele, como nós, não temos domicílio fixo. Mas, a partir dessa experiência, um novo tipo de consciência religiosa está nascendo: o movimento do olho interior para o transcendental e uma invocação constante do “não sabemos o que”.
A desconfiança da religião organizada, portanto, caminha lado a lado com um lamento pela perda dela. Estamos angustiados com os ateus evangélicos, que estão carimbando no caixão em que imaginam estar o cadáver de Deus e tentando nos dizer para enterrá-lo rapidamente. Estes personagens são violentos e possuem um ar desordenado: é muito óbvio que algo está faltando em suas vidas, algo que traria ordem e perfeição no lugar de um desgosto aleatório. E ainda estamos sem saber o que responder para eles. Nenhum lugar no nosso mundo está a porta na qual podemos abrir de modo a ficar de pé novamente diante da exalação de Deus.

No entanto, os seres humanos têm uma necessidade inata de conceituar o seu mundo em termos do transcendental e viver na distinção entre o sagrado e o profano. Esta necessidade está enraizada na consciência de si mesmo e nas experiências que nos fazem lembrar do nosso destino comum e importante como os personagem de Kant no "Reino dos Fins". Essas experiências são as raízes do ser humano, em oposição à sociedade meramente animal e é preciso afirmá-las, ter o auto-conhecimento para possuí-las, para assim ficarmos a vontade com nosso tipo. Religiões satisfazem esta necessidade. Elas fornecem o apoio social e a infra-estrutura teológica que irá manter os conceitos do transcendental e do sagrado no lugar. A insegurança e a desordem das sociedades ocidentais provém da tensão em que as pessoas são mantidas não permitindo anexar a sua consciência interior do transcendental para as formas exteriores de rituais religiosos. As pessoas se afastaram da religião organizada da mesma forma que também se afastaram de todas as outras coisas organizadas. Os ateístas que dançam sobre o caixão das antigas religiões nunca vão conseguir convecer as pessoas que ali dentro do caixão tem algo morto. Deus fugiu, mas não está morto.   Ele está ganhando tempo, esperando que nós construamos um quarto para ele. Pelo menos é assim que eu observo essa crescente obsessão com a religião e a nostalgia que perdemos quando as congregações fecharam suas Bíblias e seus hinários, deixou-os em pedaços e foram silenciosos para casa.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cristão: Um Niilista dos Valores Modernos

Para finalizar nossa discussão sobre niilismo, precisamos  estabelecer e nos abrir para a acusação de que nós, possuímos um niilismo de nossa própria maneira; nossa análise, pode-se argumentar, é "pessimista" ao extremo. Categoricamente rejeitando quase tudo realizado valioso e verdadeiro pelo homem moderno, estamos na semelhante posição da completa negação como no caso do mais extremo dos niilistas.

E, de fato, o cristão é, em certo sentido - em um sentido último - um "niilista", pois para ele, no final, o mundo não é nada, e Deus é tudo. Isso é, naturalmente, o exato oposto do niilismo que examinamos aqui, onde Deus é nada e o mundo é tudo; isso é um niilismo que sai do Abismo, os cristãos saem de um "niilismo" que procede da abundância. O verdadeiro niilista coloca sua fé em coisas efêmeras e que acabam em nada; todo "otimismo" sobre este fundamento é claramente inútil. O Cristão, renunciando a tal vaidade coloca sua fé em uma coisa que nunca acabará, o Reino de Deus.

Para quem vive em Cristo, é claro, muitos dos bens deste mundo podem ser deixados para trás, e ainda assim, o Cristão pode apreciá-los mesmo sabendo da evanescência dos bens; mas os bens não são necessários, são verdadeiramente nada para ele. Aquele que não vive em Cristo, por outro lado, já vive no Abismo, e nem  mesmo todos os tesouros deste mundo pode preencher seu vazio.

Mas isso é um mero artifício literário para chamar o nada e a pobreza do Cristão de "Niilismo"; na verdade eles estão em plenitude, abundância e alegria além da imaginação. E somente alguém cheio de tanta ambudância que pode enfrentar diretamente o Abismo para o qual o Niilismo conduziu os homens. Aquele que nega de forma mais extrema, o mais desiludido dos homens, só pode existir se dispensar pelo menos uma dessa analise destrutiva que possui. Esta é, de fato, a raiz psicológica da "nova era" a qual através dela o niilista deve colocar toda a sua esperança; aquele que não pode crer em Cristo deve, e irá, acreditar no Anticristo.

Niilismo: A Raiz da Revolução da Idade Moderna (Seraphim Rose)

Revolução Francesa (Donoso Cortés)

Donoso Cortés fala sobre Ditadura ao Parlamento Espanhol, 04 janeiro de 1849
Aqui, como em outros lugares as revoluções são sempre atribuídas a erros dos governos; os homens esquecem que as catástrofes universais, imprevistas e simultâneas são sempre providenciais; pois tal, senhores, são as características que distinguem as obras de Deus das obras do homem.

Quando as revoluções traem esses sintomas, não se esqueça de que eles vêm do céu e que eles vêm como resultado de nossos erros e para a punição de todos nós. Devo dizer-lhe a verdade, senhores, toda a verdade sobre as causas da última revolução francesa? A verdade, então, é que chegou o dia, no ultimo Fevereiro, do grande ajuste de contas com a Providência para todas as classes da sociedade, e que naquele terrível dia todas as classes foram consideradas em falência. Eu vou mais longe: a própria República, no dia da sua vitória, confessou que foi à falência. A República disse que estava caminhando para estabelecer no mundo o reino da liberdade, igualdade e fraternidade, três dogmas que não nasceram na República, mas no Calvário. O que, senhores, ela realizou desde então? Em nome da liberdade proclamou necessário e aceito uma ditadura. Em nome da igualdade, em nome do republicano, ela inventou um tipo curioso da democracia aristocrática tendo um ridículo brasão de armas. Por fim, em nome da fraternidade, esta restaurou a fraternidade da antiguidade pagã de Eteochus e Polinice: irmãos cortaram a garganta de irmãos nas ruas de Paris, na mais sangrenta batalha dos séculos que alguma vez já ocorreu dentro dos muros de  uma cidade. Eu desminto esta República que se diz a República das três verdades: esta é a República dos três blasfêmias, a República das três mentiras.

Vamos agora abordar as causas desta revolução. O partido progressista encontra sempre as mesmas causas para tudo. Senor Cortina disse-nos ontem que as revoluções ocorrem por causa de certas ilegalidades e porque os instintos das pessoas os fazem crescer uma reação de maneira uniforme e espontânea contra os tiranos. Senor Ordax Avecilla nos disse anteriormente: Se você quiser evitar a revolução, dê o pão pra quem tem fome. Aqui, em toda a sua sutileza, se encontra a teoria progressiva: as causas da revolução se encontram, por um lado, nas condições de pobreza e, por outro, na tirania. Esta teoria, senhores, é o contrário, absolutamente contrário, dos fatos históricos. Eu desafio qualquer pessoa a citar-me um exemplo de uma revolução que foi iniciada e levada até a sua conclusão por homens eram escravos ou famintos. As revoluções é uma doença dos povos ricos, dos povos livres. Os escravos formavam a grande parte da raça humana na antiguidade: diga-me uma revolução que alguns desses escravos já fez.

Tudo o que eles podiam fazer era fomentar algumas guerras de escravos, mas as revoluções profundas foram sempre o trabalho de ricas aristocracias. Não, senhores, o germe da revolução não é para ser encontrado na escravatura ou na situação de pobreza, o germe da revolução reside nos desejos da multidão, que são manipulados por líderes que os exploram para sua própria vantagem. "Você vai ser como os ricos" - tal é a fórmula de revoluções socialistas contra as classes médias. "Você vai ser como os nobres" - tal é a fórmula das revoluções feitas por classes médias contra a aristocracia. "Você vai ser como Reis" é a fórmula da revolução feita pela aristocracia contra Reis. Finalmente, senhores, "Sereis como deuses" - tal era a fórmula da primeira revolta do primeiro homem contra Deus. Desde Adão, o primeiro rebelde, para Proudhon, o último blasfemo, tal tem sido a fórmula de cada revolução.

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Liberdade, a liberdade verdadeira, a liberdade de todos e por tudo, só veio ao mundo com o Salvador do mundo; que é  mais uma vez um fato incontestável, reconhecido até mesmo pelos socialistas. Sim, os socialistas admitem isso, eles chamam Jesus de divino, eles vão mais longe, eles dizem que continuar o trabalho de Jesus. Gracioso céu! Continuar o seu trabalho! Os homens de sangue e vingança continuar o trabalho daquele que só viveu para fazer o bem, que só abriu a boca para abençoar, que só fazia milagres livrar os pecadores de seus pecados e os mortos da morte; Aquele que no espaço de três anos realizou a maior revolução que o mundo já presenciou e sem qualquer derramamento de sangue, apenas o seu.

sábado, 27 de julho de 2013

Dostoiévski e sua Teologia

DOSTOIÉVSKI E SUA TEOLOGIA











I. Introdução

Alfred Einstein declarou: "Dostoiévski me dá mais do que qualquer outro pensador." Nicholas Berdiaev foi professor de filosofia na Universidade de Moscou até ser expulso pelo regime comunista em 1922. Berdiaev testemunhou que Dostoiévski "agitou e levantou minha alma mais do que qualquer outro escritor ou filósofo fez... foi quando me virei para Jesus Cristo pela primeira vez”. Alguns afirmam que “Os Irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo” são uns dos maiores romances já escritos. Alguns pensadores dentro do campo cristão afirmaria que Dostoiévski é um dos nossos, dando assim, um valor especial para um estudo como este.

II. Uma Breve Biografia

Fiódor Dostoiévski (1821-1881) era filho de um medico Ortodoxo Russo ultra rigoroso. Ele costumava chamar seus filhos (por exemplo, de estupido), quando eles erravam suas declamações. Obrigava sues filhos ficarem atentos quando falava ele. Assim, o jovem Dostoievski não recebeu uma imagem muito precisa de Deus, o Pai, de seu pai humano rigoroso.

Quando Dostoiévski tinha 18 anos, um dos eventos mais marcantes de sua vida ocorreu. Seu severo pai foi brutalmente assassinado por seus próprios servos. O cadáver ficou no campo, durante dois dias, e a polícia nunca realizou uma investigação ou fez qualquer prisão. Há evidências de que o jovem Dostoiévski sentiu-se culpado, com uma espécie de cumplicidade, neste crime - apenas, talvez, como um desejo de morte. Todos os quatro grandes romances de Dostoiévski giram em torno de um assassinato e Os Irmãos Karamazov é construído em torno de parricídio.

Dostoiévski acertou em cheio no seu primeiro romance, Gente Pobre. O principal crítico literário da época, Belinksy, anunciou que uma nova estrela surgira no horizonte literário. Entretanto, o fato de que os próximos trabalhos do Dostoievski tenham sido mais voltados ao psicológico pessoal ao invés de focado no social, o radical Belinksy e outros escritores russos começaram a ser mais severos em suas criticas.

Eventualmente Dostoiévski se envolveu no redemoinho sócio-politico de sua era. Ele entrou em um grupo conhecido como O Circulo Petrashevsky, composto de ateístas e revolucionários (durante o período pré-comunista). Eles planejavam publicar propagandas antigovernamentais em uma prensa escondida. Então a policia chegou. Dostoiévski foi preso no Forte Pedro e Paulo e uma investigação de quatro meses foi conduzida. Vinte e uma pessoas desse grupo foram sentenciados a morte. 

Em 22 de dezembro, 1849, as 8 da manha, Dostoiévski e seus compatriotas foram preparados e levados para frente do esquadrão de fuzilamento. Eles seriam executados de três por vez. No ultimo momento um enviado do Czar, galopando a cavalo, anunciou que as sentenças foram diminuídas. Foi como se tivessem garantido ao escritor uma nova vida. 

Entretanto, quatro anos de prisão, na Sibéria, esperava por ele. Correntes pesadas foram amarradas em seus calcanhares. O trenó dos prisioneiros era dirigido (algumas vezes em -40 C) no meio da Sibéria para a prisão em Omsk. Dostoiévski relembrou sua vida infestada de piolhos e sua viagem imunda, o cemitério dos vivos em sua obra Recordações da Casa dos Mortos. Após seu lançamento, seguiu para quatro anos de serviço militar perto da fronteira da China. O único livro que Dostoiévski era permitido ler na prisão era O Evangelho, o qual ele preservou ate seu dia de morte. 

Depois de cerca de dez anos na Sibéria, Dostoiévski voltou para a sociedade. Ele foi o autor de uma dúzia de romances, muitas vezes enquanto ele estava em dívida ou beirando a fome. Em 1880, ele deu um grande discurso em homenagem ao poeta, Pushkin. Para sua segunda esposa, Anna, ele anunciou o dia de sua morte. Naquele dia, implorou a sua esposa que lhe trouxesse a cópia da prisão do Evangelho, e pediu que lessem a parábola do filho pródigo. Entre 30.000 e 40.000 pessoas compareceram ao funeral de Dostoiévski, o primeiro funeral de Estado para homenagear um dos escritores da Rússia.

III. Quatro Grandes Romances

Sua produção literária incluiu quatro obras-primas. Eles são, em ordem de aparição: Crime e Castigo, O Idiota, Os demônios e Os Irmãos Karamazov. Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov podem estar entre as principais obras, dentro das 10 grandes obras do mundo, como mencionado acima.

Crime e Castigo é um tipo de comentário sobre o conceito de consciência em funcionamento. Revela uma pessoa mentalmente atormentada por seu crime, até que ele finalmente confessa. Raskolnikov é um pobre ex-aluno que mata uma desprezada agiota. No processo, ele também é forçado a acabar com a  fraca irmã da agiota por meio de um machado.

Raskolnikov tinha convencido a si mesmo que sua desesperada irmã, Dunya, e sua mãe realmente merecia o dinheiro roubado mais do que a "parasita" de uma agiota. Antes do assassinato, ele também tinha escrito um artigo dividindo o mundo em pessoas comuns e heróis talentosos (como Napoleão), que estão acima das leis ordinárias. Raskolnikov executou o crime sob o pretexto de que sua vítima estava neste grupo composto de pessoas indignas.

Curiosamente, o "salvador" de Raskolnikov é uma mulher jovem, Sonya, que faz parte de uma família pobre e que foi conduzida à prostituição pelo seu pai alcoólatra. Um dos clássicos do romance é a leitura da história da ressurreição de Lázaro para Raskolnikov, o assassino por Sonya, a humilde prostituta.
Através do persistente trabalho do detetive Porfírio e de sua suave persuasão de Sonya, Raskolnikov, eventualmente, confessa sua culpa e é condenado a trabalhos forçados na Sibéria, onde ele é fielmente acompanhado por Sonya.

O Idiota começa como um conto de Dostoiévski sobre a figura de Cristo, o homem ideal. Como Dom Quixote, no entanto, este homem honrado e atencioso (príncipe Míchkin) é muitas vezes tratado como um idiota. (Nosso termo "idiota" não chega a essencia do título russo.) O príncipe é ligeiramente socialmente inepto, despretensioso, ingênuo, excessivamente amigavel e inocente. Ele também possui próprio estigma social de Dostoiévski: ele é um epiléptico. No entanto, ele é cortês, gentil, suave e muito mais, uma verdadeira série de qualidades.

Príncipe Míchkin é atraído pelo retrato de Nastácia Filippovna, uma bela "mulher mantida". Ao retornar de um sanatório suíço, ele faz conexões com a família lepántchin e, finalmente, chega o momento de saber se ele vai se casar com a filha dos lepántchin, Aglaia. No entanto, ele ainda se sente atraído pela  Nastácia, que sofre de problema. Entretanto, em seu casamento com o príncipe Míchkin, um canalha rico chamado Rogozhin carrega Nastácia para longe. O livro termina estranhamente com o príncipe Míchkin e Rogójin (o assassino) sentado na mesma sala, sofrendo com o cadáver da mulher. Eventualmente, no entanto, a figura de Cristo aparente entra em colapso e retorna novamente ao seu antigo estado de incapacidade (física e mentalmente).


Os Demônios (cujo título também é variadamente traduzido como Os Possessos) é romance mais politicamente direcionado de Dostoiévski contra os revolucionários niilistas. Stepan Verkhovensky é um liberal aristocrático da década de 1840. Seu filho negligenciado, Petr, é um agitador niilista da década de 1860. Petr Verkhovensky admira um jovem chamado Stavrogin, que havia sido ensinado pelo pai de Petr. Stavrogin, misteriosamente frio, é o eixo em torno do qual outros personagens do romance gira. Os outros influenciados por ele, são Kirillov (um intelectual que se pronunciou o próprio Deus e comete suicídio) e Shatov (que quer sair do grupo de células  revolucionárias e por isso é assassinado pelo resto).




Todos os revolucionários são presos pelo assassinato de Shatov, exceto o principal catalisador, Petr Verkhovensky, que foge para a Europa. Seu pai, que tornou-se desiludido com a efervescência revolucionária, compara a situação ao relato evangélico dos demônios que são lançados no rebanho de suínos (daí o título do romance).

Livros de Dostoiévski foram serializados, mas uma seção de Demônios não foi permitida ser publicada em um jornal de família. É a confissão do estupro de uma menina menor de idade e seu conseqüente suicídio, o que culminou no próprio suicídio de Stavrogin.

Os Irmãos Karamazov é um dos principais candidatos como o melhor romance do mundo. Alyosha é - de acordo com o próprio autor - o personagem principal do romance, dentro de  seus quatro grandes romances, este vem mais próximo de apresentar uma coleção inteira de personagens principais. A família Karamazov é composta por quatro irmãos: Ivan é o ateu intelectual. Dmitri é o mulherengo emocional. Alyosha é o mais amável - um monge temporário. Smerdyakov é filho ilegítimo de seu pai, que é tratado como um servo da família.

Fiódor Pávlovitch Karamazov é um pai libertino e negligente. Ele ignora totalmente seus filhos e praticamente mantém um harém em casa. Dmitri (que é o mais parecido com o pai) vem a odiá-lo. A principal razão para o ódio é que ambos querem a mesma mulher, Grushenka. Porque Dmitri havia ameaçado matar seu pai e também por suspeitarem de ter usado o dinheiro de seu como suborno (para Grushenka), ele é acusado do assassinato de seu pai. No entanto, Smerdyakov, o lacaio, é o verdadeiro assassino.

No florescer do romance está um dos maiores argumentos anti-Deus da literatura, estabelecidas pelo Ivan Karamazov. Além das atrocidades recitadas por Ivan que foram cometidos contra crianças indefesas, ele apresenta um clássico sobre as tentações de Cristo. É chamado de "A Lenda do Grande Inquisidor". Também outro elogiado e comovente capítulo é o intitulado "Os Peritos Médicos e um Quilo de Nozes."
Embora ele não seja tecnicamente culpado do assassinato, Dmitri Karamazov é declarado culpado pelo tribunal do júri. Como Raskolnikov e o próprio Dostoiévski, Dmitri é condenado a Sibéria. De alguma forma todos os irmãos reconhecem sua culpa coletiva no assassinato.





IV. Avaliação Teológica

Neste momento, vamos avaliar cinco grandes pilares na estrutura teológica de Dostoiévski. Dostoiévski, é claro, não era um teólogo sistemático de profissão, então ele é ainda menos sistemático do que um pensador teológico, como John Wesley, na maneira como ele formula verdade.


A. Sua visão de Deus

Em geral, a doutrina de Deus de Dostoiévski parece ser ortodoxa. Ele não exibe nenhum vista dissidente, assim como seu contemporâneo Leo Tolstoy, que era anti-trinitário. Fato intrigante é que os ateus principais dos romances de Dostoiévski (Stavrogin e Kirillov em O Idiota, Ivan e Smerdyakov em Os Irmãos Karamazov, e Svidrigaylov em Crime e Castigo), todos cometem suicídio. É como se Dostoiévski estivesse dizendo que, pelo fato desses personagens deixaram a Vida - Aquele que é a vida - consequentemente não vêem sentido na vida e assim acabaram com suas vidas terrenas.

Em Demônios, o autor diz que "a fé em [Deus] é o refúgio para a humanidade ..., bem como a esperança de bênção eterna prometida para os justos ..." 

Deus foi o dado essencial sob todos os escritos de Dostoiévski. Isso não quer dizer que Dostoiévski não evitou em lutar com essa realidade. De fato, ele admitiu que iria lidar com as dúvidas até o dia de sua morte. Joseph Frank, em sua obra de cinco volumes sobre o famoso escritor comentou: "Dostoiévski estava tentando dizer... que o problema da existência de Deus o tinha atormentado por toda sua vida; mas isso só confirma que, para ele, sempre foi emocionalmente impossível  aceitar um mundo que não tinha nenhuma relação com um Deus de qualquer espécie. " Como sugerido anteriormente, o tipo cruel de pai do Dostoiévski que experimentou no início de sua vida, provavelmente, contribuiu significativamente para a criação de suas dúvidas  posteriores.

Ao filtrar teologia do romancista em seus escritos, é preciso levar em conta o fato de que nem todos os personagens de Dostoievski enunciam as crenças pessoais do autor. Na verdade, Dostoiévski "como um artista, concebeu direitos iguais aos seus ateus" e "E é nos ateus em suas novelas que mais falam teologicamente!”.

Um personagem em Os Irmãos Karamazov que reflete uma visão aberrante de Deus é um monge semi-louco chamado Padre Ferapont que faz uma comentários antibíblicos sobre o Espírito Santo. No entanto, a excentricidade geral que Dostoiévski atribui a esse personagem torna abundantemente claro que o próprio escritor não tem essa visão bizarra.

Nenhum grande analista levantou sérias questões sobre a visão ortodoxa de Deus que Dostoiévski aparentemente possuía.

B. Cristo

Enquanto Dostoiévski não se expressa em todas as ocasiões explicitamente na terminologia de um teólogo moderno, não parece haver dados significativos para não aceitar o romancista como ortodoxo em suas opiniões sobre a pessoa de Cristo. Dostoiévski não hesitou em falar de Cristo como o "Deus-homem". Mesmo o caráter anti-teísta em Ivan Karamazov refere-se à posição ortodoxa de Cristo como sendo "o único sem pecado" e indica que "Cristo era Deus ..." (Parte III, Livro V, cap 4). Também seu irmão Dmitri detém que "Cristo é Deus" (Parte I, Livro III, cap 5). Joseph Frank afirmou sobre romances e cartas de nosso autor: "A menos que rejeitada a veracidade das cartas, revelam Dostoiévski ser um cristão que acreditava em sua própria maneira, interiormente se esforçando para aceitar os dogmas essenciais da divindade de Cristo, a imortalidade pessoal, a segunda vinda e da Ressurreição. "



Em mais de uma ocasião Dostoiévski expressou uma opinião que deixaria um evangélico surpreso. Ele diz que se caso houvesse um confronto entre rejeitar a Cristo e a verdade, ele ficaria do lado de Cristo, defronte a verdade! Para aqueles que tomam João 14:6 pelo valor verdadeiro, a declaração atinge uma nota estranha. Provavelmente, a sua declaração é simplesmente uma hipérbole literária na adoração de Cristo.

Transcrito em seu caderno entre as notas de Dostoiévski nos seus últimos anos havia um plano de escrever um livro sobre a vida de Cristo. Obviamente, se ele tivesse vivido para cumprir a seu plano, uma determinação mais precisa poderia ser feita sobre a ortodoxia de sua posição. No entanto, ao longo de toda a gama de suas publicações, o autor não havia escrito nenhuma nota inquietante sobre este assunto, por isso, parece melhor assumir, como até mesmo os analistas seculares fazem, que o grande russo foi amplamente ortodoxo sobre a divindade e a humanidade de Cristo.

C. O Pecado

O último livro que Dostoiévski tinha a esperança de escrever deveria ser  intitulado “A Vida de um Grande Pecador”. Depois que Dostoiévski se tornou famoso, as pessoas escreviam para ele da maneira que fazem hoje a Ann Landers, pedindo conselhos. Consequentemente, Dostoiévski respondeu a uma mãe desconhecida em 1878 (relativo a um problema de criança): "se a criança é ruim, da culpa cabe ... tanto com suas inclinações naturais (porque uma pessoa certamente nasce com elas) e aqueles que o criaram até então ... "9 Este comentário revela que Dostoiévski certamente tratava o pecado inato e instintivo.

Em uma ocasião, Dostoiévski ofereceu algo de sua própria definição: "Quando um homem não tem cumprido a lei do esforço em direção a um ideal, isto é, se não através do amor sacrificou seu ego com as pessoas ... ele sofre e chama essa condição de pecado." Isso é quase uma definição formal a ser encontrada em um livro teológico, e nem têm uma orientação vertical (ou Godward). Pelo contrário, é uma cristalização experiencial que ele trabalhou em meio a vida do âmago da questão e é congruente com a sua compreensão do sofrimento (que será tratada na próxima seção).

William Leatherbarrow falou sobre como a experiência da prisão, nos campos da Sibéria, através do contato próximo com os criminosos "desenganou Dostoiévski das utopias que acreditava anteriormente e na fé da bondade essencial do homem ..."  Dostoiévski refere a um prisioneiro no campo como um "Quasimodo moral." A realidade obstinada do pecado corre como um rio subterrâneo debaixo de toda a escrita romanesca de Dostoiévski.

Homileticamente, o pecado revela-se graficamente no corpus de Dostoiévski em pelo menos quatro características (tudo começa com a letra "s"). Primeiro, o pecado é visto como rancor ou maldade. Próprio Dostoiévski era uma pessoa muito irritável e maldosa. Sua segunda esposa, Anna, cita (depois que seu marido tinha insultado um garçom) que "ele não podia conter seu rancor."

Os romances de Dostoiévski são repletos do termo "rancor" e seus cognatos. Em Crime e Castigo, Raskolnikov, o assassino tem um "maldoso ... sorriso nos lábios ..." (Parte I, cap 3). Em "Uma criatura dócil", uma história curta, as observações do narrador para uma menina de quinze anos de idade: "Eu era rancoroso." Em Demônios pode-se encontrar a terminologia "rancor"  pp. 252, 255, 340-41, 378 (duas vezes), 441, 461, 521, 524, 533, 558, 591, 610, 612, 617, 675 (duas vezes) , 676, 693, e 701.

A segunda forma figurativa que o pecado assume na obra de Dostoiévski é o de "passar por cima". Esta linguagem visual imediatamente lembra o estudante da Bíblia do conceito de transgressão (passando por cima de um limite). Por exemplo, quando Raskólnikov comete seu assassinato, a nota simbólica da seu "passou dos limites" o limite é explicitamente mencionado (como é em outras ocasiões significativas).

A terceira representação do pecado toma a forma de poluição. Dostoiévski escreveu uma vez em sentido figurado: "O pecado é ... fumaça, e a fumaça desaparece quando o sol se levanta no seu poder."

A quarta alegoria para o pecado no Dostoiévski é o de cisma ou divisão. O teólogo liberal Paul Tillich uma vez retratou o pecado em termos de "lacunas e que se divide." O pecador principal (Raskolnikov), em Crime e Castigo carrega em seu nome russo a raiz raskol, que significa "cisão". Berdiaev afirmou: "Essa clivagem no espírito ... é o tema essencial de todos os romances de Dostoiévski."  William Leatherbarrow ao analisar a condição humana em nosso tema, afirmou: "O homem nas obras de Dostoiévski, como na Gênesis, é trágico, criatura dividida, excluídos paraíso, mas com o desejo de reconciliação. "

Galeria de personagens de Dostoiévski consiste em um desfile de casos clínicos de psicologia anormal. (Aliocha em Os Irmãos Karamazov é um dos muito poucos caracteres normais e saudáveis no seu cânone de obras). Este fenômeno de divisão revela-se repetidamente ao longo de seus contos e romances. A divisão assume a forma de ódio e irracionalidade, um desejo de agradar, mas apenas um desejo, como diz o Homem do Subterrâneo (ou narrador), em Notas do subterrâneo.

Um dos casos mais intrigantes de todos para os estudantes da Bíblia é a história de "O Duplo”. É praticamente um ensaio sobre o clássico capítulo de Romanos 7. "O Duplo" narra o caso de um funcionário civil, cujos problemas sociais levá-lo a ter alucinações, criando assim a sua própria "personalidade dupla que se separou de seu verdadeiro eu." (Dostoiévski, muitas vezes possui o dom de escrever de modo que o leitor não pode sempre dizer que é pretendido como fato e o que é pretendido como fantasia.) O teólogo Bernard Ramm analisou esta fissura-na-the-alma como fascinante, tirando os paralelos entre Romanos 7 e de Dostoiévski "O Duplo".

Como os principais existencialistas, Dostoiévski realizou uma teologia cristã ao pintar os retratos de pessoas de uma forma que é consonante com a da ortodoxia cristã. Berdiaev afirmou que Dostoiévski "descobriu uma cratera vulcânica em cada ser."  E estes vulcões são sempre estrondosos!

D. Salvação

Em O Idiota, em seu aniversário, o príncipe Míchkin desafia os ateus presentes ao dizer "com o que eles vão salvar o mundo?" De um modo geral Dostoiévski respondeu à pergunta de seu personagem em uma carta: "O cristianismo sozinho... a salvação da terra russa de todos os seus sofrimentos e mentiras." Leatherbarrow chamou Dostoiévski "um romancista com uma missão. Não deve haver harmonia sem redenção, não há salvação sem Deus, e não há paraíso na terra " Joseph Frank avaliou: " Os valores de expiação, perdão e amor estavam destinados a ter precedência sobre todos os outros no universo artístico de Dostoiévski ... "

Inicialmente, parece necessário dizer algo sobre o gênero de literatura em nossa análise aqui. Uma novela não foi concebida como um aparelho evangelístico. Um tristes dilemas é que um leitor cristão, muitas vezes parece ter de escolher entre uma profunda leitura de Dostoiévski (cujas obras podem aparecer defeituosas evangelicamente falando) e alguns romances banais "cristão" tudo em volta sobre o personagem principal ser salvo.

Do paragrafo anterior, o leitor pode já sentir que (enquanto suas doutrinas de Deus, Cristo e o pecado aparecem razoavelmente ortodoxos), a doutrina da salvação de Dostoiévski deixa algo a desejar, do ponto de vista bíblico. Se Dostoiévski possuía uma "missão" (termo de Leatherbarrow), qual era a sua missão? Na luz de uma missão bíblica, as soluções de Dostoiévski ficaram aquém de uma marcação. 

Na melhor das hipóteses, os grandes romances de Dostoiévski podem ser descrito como pré-evangelísticos. Se o romancista estava planejando oferecer uma resposta distintivamente cristã, Dmitri Karamazov (em Os Irmãos Karamazov), Raskolnikov (em Crime e Castigo) e Stepan Verkhovensky (em Demons) estão fora do alvo. No final destes três grandes romances todos os três personagens estão preparados para a conversão, mas o melhor que é dado cai sob a categoria de sugestões esperançosas. Boyce Gibson observa: "No epílogo de Crime e Castigo, Raskolnikov evita a fórmula cristã [de conversão]..." Da mesma forma, Richard Paz comentou sobre Stepan Verkhovensky (em Os demônios) que suas "últimas palavras... parece mais de acordo com algumas ideias vagas teístas dos anos [18]40 anos do que com o verdadeiro cristianismo.”.

E que diremos da "conversão" de Alyosha? Alyosha (tendo passado por algumas sérias dúvidas) atirou-se sobre a terra para beijá-la. "Alguma coisa... inabalável, como a abóbada celeste por cima dele, estava entrando em sua alma por toda a eternidade" (Os Irmãos Karamazov, Parte II, Livro VII, capítulo 4). Alyosha articula sua experiência ao afirmar: "Alguém visitou minha alma naquele momento." Uma experiência extática, sim. Uma conversão cristã? Na melhor das hipóteses, um analista deve manter uma postura agnóstica sobre o assunto. É sem dúvida um grande grito do "Jesus é o Senhor" experiência de Saulo de Tarso em Atos 9. Não há conteúdo proposicional real ou referenciais teológicos identificáveis para encontro místico de Alyosha. Quem é o "alguém" que encontra Alyosha?

Padre Zósima é o ancião amável do mosteiro (em Os Irmãos Karamazov) para que Alyosha está temporariamente ligado. Padre Zósima diz a seu inquiridor: "Não é apenas um meio de salvação... se leve e torne-se responsável pela vida de todos os homens." Para um cristão o que é o "único meio de salvação..."? A resposta de Padre Zósima dificilmente é considerada a resposta ortodoxa à pergunta. Parece anos-luz de distância de Atos 16:31.

Ivan surpreende Alyosha com argumentos intelectuais ateístas.  Uma das respostas de Alyosha é dizer a Ivan "Amar a vida acima de tudo" a esta declaração Ivan responde "Mais do que o sentido da vida?” Alyosha responde: ”Metade seu trabalho está feito, Ivan, você ama a vida, agora você só precisa fazer a segunda metade [presumivelmente para encontrar o significado da vida] e você está salvo.” São declarações estranhas a qualquer cristão evangélico.

De seus outros escritos sabemos que em Notas do Subterrâneo, Dostoiévski tinha planejado "para defender a fé cristã como um meio de alcançar a liberdade moral", mas "que os porcos censuraram" (como Dostoiévski chamava os que trabalhavam com a censura) não o permitira a publicar uma mensagem cristã através da voz de um personagem tão não-cristão. Dostoiévski se queixou de que o governo censurou a parte onde havia a necessidade da fé e Cristo. Se tivéssemos esta versão sem censura talvez poderíamos ser capazes de avaliar melhor a soteriologia de Dostoiévski.

Há um tema sob essa rubrica, no entanto, que é tão difundido nos escritos de Dostoiévski que não pode ser ignorado. Esse é o tema da salvação através do sofrimento. Em 1960, Martin Luther King, Jr., falou sobre "a convicção de que sofrimento imerecido é redentor." Suspeita-se que Martin Luther estava falando de libertação social. No entanto, o que exatamente Dostoiévski quis dizer usando linguagem semelhante permanece ambígua.

Berdiaev declarou: "Dostoiévski acreditava firmemente no poder redentor e regenerativo do sofrimento: a vida é a expiação do pecado, pelo sofrimento" Quando Dostoiévski colocou no papel o seu plano de Crime e Castigo, ele transcreveu, "O criminoso se resolve ao aceitar sofrimento e assim expiar sua ação”. Dunya adverte Raskolnikov: "Sofra e deixe expiar seus pecados" (Crime e Castigo, Parte V, cap 4). Mais tarde, o detetive Porfírio declara para o assassino, "Este pode ser um meio de Deus para te trazer de volta a ele" (Parte VI, capítulo 2). A irma de Raskolnikov pergunta a seu irmao, que esta a ponto de confessar: "Você não está em parte expiando o crime, enfrentando o sofrimento?" (Livro VI, capítulo 7).






Em Demônios, o quase sociopata Stavrogin confessa: "Eu quero perdoar a mim mesmo e esse é o meu objetivo... inteiro" (por sua responsabilidade no suicídio de uma jovem). Ele continua: "É por isso que eu procuro sofrimento sem limites.” Para Stavrogin, Bispo Tikhon oferece o estranho conselho (do ponto de vista bíblico): “. Cristo... vou te perdoar, se somente você perdoar a si mesmo". Será que algum apóstolo diria isso a um indagador fervoroso?

William Leatherbarrow anunciou: "Em Humilhados e Ofendidos, pela primeira vez nos romances de Dostoiévski, a idéia do poder de cura espiritual do sofrimento se opõe ao sonho de céu na terra." Enquanto ele analisa o sofrimento físico de Dmitri e sofrimento mental de Ivan (em Os Irmãos Karamazov), Leatherbarrow conclui: "Todos devem ser resgatados através do sofrimento." No mesmo romance um homem que projetou um assassinato bem-sucedido sem ser pego diz: "Eu quero sofrer por meus pecados" (Parte II, Livro VI, capítulo 2). Finalmente, Alyosha diz para Dmitri (depois que ele for condenado, injustamente, por homicídio): "você queria fazer-se [um novo homem] pelo sofrimento" (Epílogo, cap 2). Em outro lugar Dmitri declarou: "Eu quero sofrer e pelo sofrimento eu devo purificar-me" (Parte III, livro IX, cap 5).

Em uma ocasião, Dostoiévski escreveu a sua esposa: "Deus me deu você para que ... eu pudesse expiar meus grandes pecados ..." A repetição desta salvação através do tema sofrimento é muito inexorável em Dostoiévski para ser subestimado. Joseph Frank concluiu que "o maior objetivo do cristianismo de Dostoiévski ... não é a salvação pessoal, mas a fusão do ego individual com a comunidade em uma simbiose de amor; o único pecado que Dostoiévski parece reconhecer é a incapacidade de cumprir esta lei do amor ".
O livro de Hebreus parece conceder algum poder pedagogico aperfeiçoando o sofrimento quando corretamente é respondido. (veja Hb 2:10, 5:9; 12:2-11). Deus usa o sofrimento como uma ferramenta de ensino para nos conformar a Cristo. No entanto, Dostoiévski (através da boca de seus personagens) parecia investir na ideia do sofrimento como um poder de regeneração espiritual - e isso, devemos repudiar. Enquanto Dostoiévski oferece soluções espirituais para a regeneração através de seus personagens para outros personagens carentes em seus romances, eu não encontro  qualquer prescrição bíblica clara para a salvação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo.

Em relação ao catolicismo romano, Dostoiévski estabeleceu inúmeros discursos inflamados e virulentos em seus livros. No entanto, nunca é claro se ele está tomando catolicismo em sentido de soteriologia não-bíblica. Ele viu o poder temporal do catolicismo romano como a principal ameaça à verdade e observou isso como uma possível adesão ao socialismo ateu.


E. Escatologia

"O fim do mundo está chegando", escreveu Dostoievski em suas notas. No tempo em que Dostoiévski vivia, havia um excesso de Irreligião (sob a forma de ateísmo) e um excesso da religião (sob a forma de apocalipticismo). Há uma quantidade considerável de conversa apocalíptica ocorrendo em ambos O Idiota e Os Demônios.

Um dos personagens menos sérios em O Idiota, Lebedyev, é um "intérprete auto-intitulado do Apocalipse" [isto é, o livro do Apocalipse]. Em linha com Matt 24:6, Dostoiévski observou que "o próprio Cristo ... previu ... que luta e desenvolvimento irá continuar até o fim do mundo ..." Em Recordações da Casa dos Mortos, há uma discussão sobre a possibilidade do retorno dos judeus para Jerusalém.

Apocalipse 6 surge em uma conversa entre Lebedyev e o príncipe Míchkin (em O Idiota). Obviamente, o intérprete, neste caso, adota uma posição historicista, citando eventos em Apocalipse 6 com o mundo contemporâneo de 1800. Lebedyev diz: "Ela concordou comigo que estamos vivendo na era do terceiro cavalo, o negro [Apocalipse 6:05, 6], e o cavaleiro que tem uma balança na mão, vendo que tudo na idade atual é pesado na balança e mediante acordo, e as pessoas estão em busca de nada, mas os seus direitos - uma medida de trigo por centavos, e três medidas de cevada por um centavo '... e depois seguirá o cavalo amarelo e ele, cujo nome era Morte e com quem o inferno seguirá ... [Apocalipse 06:08] " (Parte II, capítulo 2). A interpretação apocalíptica de Lebedyev mais tarde é chamada de “mero charlatanismo” pelo general Ivolgin (na Parte II, cap 6). No mesmo livro o nome da Princesa Belokonskaya reflete o simbólico quarto cavalo do Apocalipse 6, para o belo em russo significa "branco" e kon significa "cavalo".

Em Os Irmãos Karamazov Ivan interpreta Apocalipse 08:11 como a heresia de se manifestar com o anti-supernaturalismo do iluminismo Alemão, mais uma vez um exemplo de uma hermenêutica historicista. Lebedyev (em O Idiota) conecta a Estrela que cai, no Apocalipse 08:11 - surpreendentemente - com a rede de ferrovias europeias (Parte II, capítulo 11)!

Apocalipse 10:06 também aparece em dois romances apocalípticos chefe de Dostoiévski. Em Os Demônios diz  "no Apocalipse, o anjo jura que o tempo não mais existirá" (Parte II, cap 5). A doente Ipolit ironicamente clamando pela morte brinca sobre o Apocalipse 10:06 (à luz de seu suicídio secretamente projetado), quando ele informa o príncipe Míchkin: "amanhã não haverá 'mais tempo'" (parte III, cap 5). Em seguida, ele pergunta: "E você se lembra, príncipe, que proclamou que não haverá" mais tempo "? Foi proclamada pelo grande e poderoso anjo no Apocalypse". Claro, a maioria das versões modernas da Bíblia entendem o "tempo ... não mais" na forma como na versão do New King faz: "não deve haver mais demora." Enquanto isso a retradução enfraquece as idéias dos dois intérpretes anteriores, no entanto, revela a familiaridade de Dostoiévski com o texto do Apocalipse.


O sistema de interpretação que giram em torno Apocalipse 13 e o Anticristo também faz sentir a sua presença nos romances de Dostoiévski. "É verdade que você expôs o  Anticristo?", Lebedyev o interprete amador é solicitado (O Idiota, Parte II, capítulo 2). Lebedyev respondeu que "desdobrou a alegoria e as datas embutidos ali”.

A maioria dos analistas literários concordam em ver o Stavrogin da obra Os Demônios como uma figura do anticristo. Stavrogin não é flagrantemente vilão, mas ele é a personalidade polar, de sangue  frio, ousado e imprevisível atraves do qual muitos dos outros personagens da novela gira. O nome Stavrogin está relacionado com a palavra bizantina Stavros (e stauros em grego), que significa "cruz". No entanto, a parte rog de seu nome russo significa "chifre", fazendo com que o estudante de escatologia pense no Apocalipse 13:01 e Dan 7:20-25.39 Além disso, o primeiro nome de Stavrogin é Nikolai (que significa "conquistador do povo"), como o nome dos Nicolaítas em Apocalipse 02:06 e 15.

O principal capanga de Stavrogin é Peter Verkhovensky. Verkhovenstvo em russo significa "supremacia". Verkhovensky é o mesquinho, niilista revolucionário e agitador.Ele diz para Stavróguin, "Você é o meu ídolo" e "Eu tenho de inventar você" (Parte 2, capítulo 8). Com essas noções deve ser comparado ao Ap 13:11-15. Na narrativa Verkhovensky é um incendiário, de modo que, na verdade, traz o fogo à terra, em paralelo com Apocalipse 13:13. Em Demônios o condenado Fiedka fala com Verkhovensky "todas as bestas a partir do livro do Apocalipse" (parte III, cap 3).

Também em Os Demônios nas conversações intelectuais de Kirillov para Stavróguin sobre "o deus-homem". Para estas perguntas Stavróguin diz "[Você quer dizer que] o Deus-homem [pelo qual ele se refere a Cristo]?" Kirillov na sua vez reencontra, "O Homem-Deus - que é toda a diferença" (Parte II, cap 5). Novamente, o estudante da Bíblia não pode deixar de refletir sobre a paródia de Cristo encontrado no anticristo (como em 2 Tessalonicenses 2:3-4).

Em Crime e Castigo Marmeladov, o pai alcoólatra, refere-se a os bêbados "feitos à imagem da besta e sua marca" (Parte I, cap 2). Comparação com o Apocalipse 13:15-17. Conseqüentemente, o pensamento e a terminologia do Apocalipse cap13 desempenhou um papel significativo no pensamento de Dostoiévski.
Um paralelo com Apocalipse 17 e 18 vem à tona quando a Europa da década de 1860 é comparada a Babilônia: "sua Babilônia está realmente para entrar em colapso; grande será a sua queda..." (Os demônios, Parte II, cap 5).

Joseph Frank escreveu que Dostoiévski "procurou a aceitar os dogmas essenciais da divindade de Cristo, a imortalidade pessoal, a Segunda Vinda e da Ressurreição." Quando Raskolnikov (em Crime e Castigo) decide não acabar com sua vida em um rio "ele não conseguia entender que a sua decisão contra o suicídio surgiu a partir de um pressentimento de uma futura ressurreição e uma nova vida. "

Em Os Demônios, Shatov, um nacionalista que apóia o cristianismo, embora ele próprio não seja cristão, "acredita que a segunda vinda de Cristo será entre o povo russo, que irá, em seguida, trazer o renascimento espiritual do resto do mundo." Assim, um dos personagens de Dostoiévski oferece um locus mais interessante para o retorno de Cristo.

Em Os Irmãos Karamazov, Ivan refere-se ao retorno de Cristo em glória celestial, como um relâmpago (Parte II, Livro V, cap 5). Mais tarde, o amigo do Padre Zosima diz: "O sinal do Filho do Homem vai ser visto nos céus" (Parte II, Livro VI, capítulo 2), como em Mateus 24:30.

Os Irmãos Karamazov termina com uma nota importante. Depois de voltar do funeral do menino Ilyusha, o jovem Kolya pergunta Alyosha: "Pode ser verdade o que nos ensinaram na religião que todos nós ressuscitarão dos mortos e viverá para nos ver outra vez, Ilyusha também?" À pergunta do jovem Alyosha responde: "Certamente" (Epílogo, cap 3).

O julgamento não está faltando nos romances de Dostoiévski. Frank observa que, no corpus dos romances há um "espreita iminência do Dia do Juízo e do Juízo Final." Os Demônios se refere ao Juízo Final (Parte I, cap 4).

Inferno parece ser uma realidade em Dostoiévski. Dmitri Karamazov pergunta se ele vai "para o Céu ou para o Inferno...?" (Os Irmãos Karamazov, Parte III, Livro IV, cap 8). Berdiaev informou que "mal [por Dostoiévski] era ruim, e devia ser queimado no fogo do inferno." Afirmou: "Uma característica marcante de Os Irmãos Karamazov... é a medida que os personagens são obcecados pelo inferno ..." O pai libertino (em Os Irmãos Karamazov) declarou: "Eu acredito no inferno" (Parte I, Livro I, cap 4). No entanto, Padre Zosima "não acredita literalmente no fogo do inferno."

Em resumo, então, Dostoiévski mostra um respeito geral para a escatologia da Bíblia, embora alguns de seus personagens promovessem interpretações bizarras. Em O Adolsecente, "Versilov fala da Segunda Vinda que vai acabar com o hino arrebatador que saúda" a última ressurreição. ".

Assim, Dostoiévski parece concordar com a ortodoxia histórica que a Segunda Vinda de Cristo é que o um evento divino distante para o qual todos a criação se move.

IV. Dostoiévski era um Cristão?

A conclusão do filósofo Nicholas Berdiaev é: "Eu, pessoalmente, não conheço nenhum escritor mais profundamente cristão que Dostoiévski ..." e afirma que Dostoiévski "amou Cristo profundamente..." Dadas tais conclusões complementares, alguns leitores poderiam considerar quase um sacrilégio para levantar a pergunta que intitula este secção do artigo. No entanto, uma vez que os cristãos são ordenados a ser testadores (em 1 Tessalonicenses: 5:21 e 1 João 4:1), a questão deve ser considerada uma questão legítima de levantar, especialmente à luz do que foi previamente discutido sobre o defeito da soteriologia. Vamos fazer um levantamento da herança religiosa de Dostoiévski e, em seguida, lidar com a questão de possíveis pontos de conversão em sua experiência.

A. Sua Herança Religiosa

Dostoiévski foi criado dentro do seio da Igreja Ortodoxa Russa. Seu avô era um arcipreste, seu tio era um padre da aldeia, três tias casaram sacerdotes da aldeia, e seu pai até participou do seminário por um tempo. Além disso, seu avô materno corrigiu provas de legislação teológica em Moscou. Dostoiévski disse "Eu vim de uma família russa piedosa... Em nossa família, nós sabíamos o Evangelho quase desde o berço". Ainda na sua infância iniciou leitura de 104 histórias sagradas do Antigo e Novo Testamentos. Jó foi uma das histórias da Bíblia que mais o fascinou ainda jovem. Além disso, um diácono visitou a casa Dostoiévski e ensinou lições bíblicas "de uma hora e meia a duas horas" a cada semana.

Um item estratégico na história de Dostoiévski  foi o envio de uma cópia do Evangelho por uma mulher enquanto estava a caminho da prisão na Sibéria. Uma das três, Natalya Fonvízina "sabia [da Bíblia] quase de cor, ela lê as obras dos Padres da Igreja Ortodoxa e os escritores das igrejas católicas e protestantes..." Dostoiévski valorizou e preservou este presente do Evangelho até o dia de sua morte, como já observamos.
B. A questão da conversão

Esta é uma pergunta complicada, porque Dostoiévski era uma pessoa complexa, com textos complicados. A questão é agravada pelo seu envolvimento na Igreja Oriental. Quando pequeno, Fyodor disse que fazia orações diárias em fronte  do ícone da família da Virgem Maria: "Mãe de Deus, mantenha-me e guarda-me em tuas asas!" Sua segunda esposa relatou que ele falava esta oração favorita com seus filhos todas as noites. Muitas vezes, essas igrejas orientais não enfatizam a importância de uma decisão de conversão clara.
É possível que Dostoiévski começou a acreditar em Cristo durante a sua experiência de infância. Como muitas crianças que crescem em uma família cristã, pode ser difícil de rastrear qualquer tipo de antes e depois dessa experiência. Essa pode ser uma das possibilidades para tentar localizar um ponto de partida para o cristianismo de Dostoiévski.

Sua experiência traumática em ter sua vida poupada diante do pelotão de fuzilamento, em 1849, deixou a sensação de que ele tinha recebido uma nova vida, uma espécie de ressurreição, mas outros fatores documentados parece ser contrario este evento que está sendo avaliada como uma conversão cristã. Suas palavras relatadas para seu irmão Mikhail naquela ocasião eram. "Agora, na mudança de a minha vida, estou a renascer em uma nova forma. Irmão! Eu juro que eu... vou manter a minha alma e meu coração puro. Vou renascer para o melhor. Essa é toda a minha esperança, toda a minha consolação!" Note que o escritor diz “eu renasci” e “estou a renascer”. Por causa daquilo que Dostoiévski disse anteriormente a outro prisioneiro, é melhor assumir que aqui ele estava simplesmente usando uma linguagem figurada. Ele foi, sem dúvida, rejuvenescido, mas pouco provável que tenha regenerado neste momento da sua vida. Ele usou palavras similares, quando as correntes de suas pernas foram retiradas após a sua libertação da prisão da Sibéria (“Liberdade, vida nova, a ressurreição dos mortos”!...).

Se Dostoiévski já era um cristão antes de ele sair da Sibéria, em 1859, ele "nunca pareceu crescer como cristão", relatou um repórter anônimo do Christianity Today. "Ele teve um caso. Ele se tornou um jogador compulsivo e perdeu tanto dinheiro que foi praticamente à falência.". 59 Este vício do jogo, que colocou sua família em situação de pobreza, é narrada no romance de Dostoiévski O Jogador.

Outra experiência enquanto estava na prisão siberiana é frequentemente citada pelos biógrafos. Durante uma semana da Páscoa, na prisão, Dostoiévski relatou uma experiência mística. Antes disso, ele tinha desprezado os outros presos. Depois sua atitude foi completamente alterada. Ele relatou: "... de repente senti que eu poderia olhar para esses infelizes com olhos bastante diferentes, e de repente, como que por milagre, todo o ódio e rancor tinham desaparecido do meu coração." No entanto, como Joseph Frank avalia esta "conversão, “não era a fé em Deus ou Cristo ... mas sim, é uma fé nas pessoas russas comuns”. A regeneração de Dostoiévski [aqui] ... centra principalmente em suas relações com as pessoas ... " Esta foi uma conversão social e não estritamente espiritual.

O principal problema com a salvação de Dostoiévski é a sua doutrina da salvação conforme expresso (ou não expressa) em seus romances. É que existe tal ênfase sobre a salvação pelo sofrimento e este tema levanta questões reais sobre um cristianismo autêntico famoso no próprio autor. Dostoiévski, sem dúvida, acreditava que ele tinha uma missão religiosa em sua escrita, mas existe uma mensagem clara, e de como se tornar um cristão, através dos grandes romances. Na melhor das hipóteses, eles têm um propósito pré-evangelístico, que é de fato uma função valiosa. No clímax de seus romances o cristianismo vem através de uma luz cintilando no final de um túnel escuro. Mesmo o filosofo Berdiaev, famoso por elogiar Dostoiévski, observou que o famoso russo "não nos diz como adquirir [a liberdade de espírito], como podemos alcançar a autonomia espiritual e moral..."

Em uma carta de 1875, Dostoiévski aconselhou NL Ozmidov: "Não seria melhor para voce ir direto ao ponto ... se você ler um pouco mais atentamente as epístolas de São Paulo?" Ah, só podemos desejar que Dostoiévski tivesse atendido a sua advertência quando veio com o tema da soteriologia!


Felizmente, existem algumas evidências que pode ser feita no lado positivo da cerca. Temos própria expressão de Dostoiévski: "Se você acredita em Cristo, então você vai viver eternamente." Sua esposa Anna também narrou uma visita a um mosteiro onde seu marido foi perguntado à queima-roupa por um Padre se ele era um crente . Para o Padre, Dostoiévski respondeu que era. Quando Dostoiévski estava prestes a ser atirado em 1849, um companheiro de prisão chamado FN Lvov documentou que Dostoiévski exclamou para Spechniev: "Vamos estar com Cristo." (O problema aqui é que Spechniev era um ateu conhecido!) William Lyon Phelps, um professor cristão da Universidade de Yale, reconheceu que Dostoiévski "encontrou na religião cristã a única solução do enigma da existência ..." 


V. Conclusão

Sua apresentação de Deus, Cristo e o pecado são geralmente alinhados com o pensamento teológico da ortodoxia cristã. Infelizmente, porém, as suas cristalizações que se relacionam com o tema da salvação em suas novelas, muitas vezes aparecem com defeito. Nós sofremos por nossos pecados, ou (como o Novo Testamento declara) Cristo suficientemente sofreu por nossos pecados (Hb 9:26-28; 1 Pe 2:21-24; 3:18)? Dostoiévski quase parecia abraçar um purgatório na presente vida. O sofrimento aqui na terra é purificador, regenerativo para ele, que não se enquadra com o que o Novo Testamento ensina. O sofrimento fez provar pessoalmente benéfico na própria vida de Dostoiévski, então ele provavelmente leu seu Novo Testamento através desta ótica. Mas a experiência não será necessariamente prescritiva para a um esclarecimento.




Do Jornal da Graça da Sociedade, Outono 1997 - Volume 10:19.