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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O Festival Revolucionário (Por Roger Griffin)

Cerca de duas décadas atrás, Mona Ozouf, em seu livro ‘Festivais e a Revolução Francesa’ apresentou um impressionante depoimento sobre a centralidade do mito e do ritual na dinâmica das chamadas revoluções “modernas”, “racionais”, supostamente realizada em nome de princípios iluministas. Agora que, finalmente, alguns estudiosos estão levando a sério a proposição de que tanto o Fascismo quanto o Nazismo tentaram criar um novo tipo de cultura, parece ser um momento propício para examinar se o componente visivelmente ritualizado e teatral do Fascismo, ou do fascismo genérico, pode ser iluminado pelo conceito de "festival revolucionário". Como veremos, a aplicação de tal conceito tem um valor heurístico especial quando aplicada a ideologia e a prática fascista, apesar das diferenças radicais que separam a espontânea explosão das energias míticas populistas desencadeadas pela Revolução Francesa e daqueles casos deliberadamente projetados em cidadãos comuns por elites fascistas e nazistas. No momento em que escreveu Mein Kampf, Hitler já estava ciente da necessidade de emular o poder das manifestações em massa realizadas pelos comunistas que
fazia queimar, dentro do pequeno e miserável indivíduo, a orgulhosa convicção de que, mesmo sendo um verme insignificante, ele, todavia, fazia parte de um grande dragão, sob o qual o sopro ardente aquecia o mundo burguês e que um dia em fogo, as chamas e a ditadura do proletariado iria celebrar sua vitória final.



A noção de que pode existir, qualitativamente, diferentes experiências do tempo é fundamental para tal investigação. A questão dos 'tempos' subjetivos possui uma enorme complexidade psicológica e antropológica, e é, por natureza, suscetíveis a todo o número de esquemas conceituais. No entanto, é importante notar que não somente poetas, mas também alguns dos principais intelectuais do ocidente sugeriram que há uma dicotomia entre o tempo 'comum' e o tempo 'especial' persiste na era da modernidade. Emile Durkheim, por exemplo, não apenas distinguiu entre o tempo 'sagrado' e o tempo 'profano', mas deu uma considerável atenção as "assembleias efervescentes”, tempo desordenados que dão lugar a um sentimento coletivo de pertencimento e de propósito temporal. Da mesma forma, um dos efeitos que Max Weber atribuiu a "racionalização" progressiva de todos os aspectos da existência moderna foi o "desencanto" (Entzauberung), a erosão pela secularização da religiosidade, da dimensão mágica da realidade que unia as comunidades pré-modernas, embora ele tenha reconhecido que essa dimensão possa ressurgir espasmodicamente na forma de energias carismáticas para temporariamente libertar os seres humanos de sua gaiola de ferro da razão. Analistas culturais, antropologicamente orientados, como Joseph Campbell, com base em estudos pioneiros de Carl Jung sobre o "arquétipo inconsciente", explorou como a consciência mítica ainda fornece o substrato da experiência humana "moderna", levantando os indivíduos fora do tempo normal, sempre que as suas vidas se cruzam com padrões primordiais da consciência cosmológica ('mitopoética') e ritualística. Uma das figuras mais influentes na investigação da distinção entre tempo profano e o sagrado é Mircea Eliade, que, em um fluxo de escritos, documentou o constante recurso dos seres humanos ao mito e ritual, a fim de evitar o "terror de história ", a invasão da vida pelo todo consumidor tempo.

Visto de uma tal perspectiva, a rebelião cultural contra o projeto iluminista que congregou força a partir da década de 1880 em diante na Europa - hoje geralmente conhecido como "a revolta contra o positivismo" - pode ser vista como o aparecimento de uma série de buscas altamente idiossincráticas para pôr fim à "decadência" (isto é, um tempo 'decaído', desencantado, entrópico, privado) e inaugurar um "renascimento" (ou seja, entrar em um tempo "superior", mágico, regenerativo, coletivo, novo). Se restrito a esfera experimental de indivíduos ou pequenos grupos, isso pode envolver mais do que um culto ao visionário, ao estado místico da consciência, ou a uma busca de conhecimentos e percepções negligenciados pela cultura ocidental dominante, a ponto de causar cultos de Carl Jung, William Blake, e Carlos Castaneda, durante a 'revolta' contra-cultural da década de 1960. No entanto, tão generalizado era a insatisfação com o culto ao progresso material, liberal, e ao um tempo linear que os intelectuais e artistas de toda Europa foram atraídos para a ideia de que tentar se libertar de uma embrutecedora "normalidade" fazia parte de um impulso mais amplo, uma mudança radical na história. Em experiências individuais, isto estava muitas vezes existencialmente caracterizados por uma mudança qualitativa no próprio tempo, a partir do insignificante pessoal ao coletivamente significativo. Personalidades de liderança no renascimento do ocultismo, e muitos pioneiros do modernismo artístico, se encaixam nesse padrão. Assim, figuras como Helena Blavatsky, Rudolf Steiner, William Butler Yeats, Richard Wagner, Igor Stravinsky, Wassily Kandinsky, Pablo Picasso, Vincent Van Gogh, e Rainer Maria Rilke, e artistas de tais movimentos tão díspares como o expressionismo, o cubismo e o surrealismo foram, em suas diferentes formas, preocupados tanto com a conquista de um "ecstasy" (estados que lhes permitiu "ficar de fora" do tempo normal) e com uma forma de catalisar, para a difusão de novas formas de consciência para "salvar" o Ocidente do que eles viam como um processo de atrofia espiritual. Para alguns, a própria noção de "moderno" foi infundida com um senso de regeneração cultural, o nascimento de uma nova era. Por exemplo, Hermann Bahr, escreveu em 1890:

Pode ser que estamos no fim, na morte de uma humanidade esgotada, e que nós estamos experimentando últimos espasmos da humanidade. Pode ser que estamos no início, com o nascimento de uma nova humanidade e que estamos vivendo apenas as avalanches de primavera. Estamos subindo para o divino ou mergulhando, mergulhando na noite e destruição - mas não há como parar.
O credo do Die Moderne é que a salvação vai surgir de dor e desespero, que a aurora virá depois dessa escuridão horrível e que a arte vai manter a comunhão com o homem e que haverá uma gloriosa e abençoada ressurreição.

Uma investigação do final do século XIX na Europa vanguardista, com base em sua filosofia do tempo e da história, iria mostrar o quão profundamente associada ambos estão com a crença apaixonada que formas rotineiras e escleróticas de sentir e ser - associada com a era do materialismo e do filistinismo - podem ser transfiguradas, individual ou coletivamente, através do despertar de uma visionária faculdade em sintonia com tempo "superior". De fato, este ponto pode muito bem provar ser o principal, senão o único denominador comum, que está na base da rica profusão de tantas estética, nuances e visões conflitantes da realidade que são contemplados pelos termos 'modernismo' e 'avant-garde'.


Contudo, o ocultismo e a arte visionária não eram os únicos canais através dos quais tais desejos podiam ser expressados no "fin de siècle" - o próprio conceito implicava que não só uma era de valores e sensibilidade estava encerrando, mas que outra poderia estar aberta. Outras personalidades tentaram contribuir para a inauguração de um novo tempo através da filosofia e teoria social, Friedrich Nietzsche e Georges Sorel são exemplos notáveis. Ambos olharam especialmente para (de formas diferentemente concebidas) energias míticas em vez da razão iluminista como base para uma regeneração da sociedade europeia.  A extraordinária ressonância que suas obras se encontram entre seus contemporâneos pode ser melhor explicada pelo fato de que a cultura européia foi permeada por uma expectativa palingénetica não cumprida e que demandava articulação. Ao contrário de Nietzsche, Sorel transgrediu da "pura" especulação cultural e filosófica para um território desconhecido onde havia maiores aspirações palingéneticas, ou seja, a política revolucionária. Esta abordagem revolucionária, por definição, tentou criar um novo tempo, avançando na ideia utópica de uma sociedade melhor sustentando uma força motriz, não importando o quão, sistematicamente, tais políticas possam ser racionalizadas por doutrinas e teorias.

A Fascist Century: Essays by Roger Griffin

sábado, 7 de dezembro de 2013

Wall Street e a Revolução Bolchevique

O cartoon de Minor, datado de 1911, retrata um barbudo, um radiante Karl Marx em pé na Wall Street, com um livro Socialismo debaixo do braço e aceitando os parabéns de famosos financistas como J.P. Morgan, Morgan parceiro de George W Perkins, um presunçoso John D. Rockfeller, John D. Rayan do National City Bank e Teddy Roosevelt - facilmente indentificado pelos seus famoso dentes - em segundo plano. Wall Street está decorada com bandeiras vermelhas. A multidão está aplaudindo e os chapéus sugerem que Karl Marx deve ter sido um companheiro bastante popular no distrito financial de Nova York.

Estava Robert Minor sonhando? Ao contrário, veremos que Minor estava em terra firme ao descrever uma aliança entusiástica entre Wall Street e o Socialismo Marxista. Os personagens do desenho de Minor - Karl Marx (simbolizando os futuros revolucionários Lenin e Trotsky), JP Morgan, John D. Rockefeller - e de fato, o próprio Robert Minor, também são personagens de destaque neste livro.

As contradições sugeridas pelo cartoon de Minor foram varridas para baixo do tapete da história, porque ele não se encaixa no espectro conceitual aceito da esquerda política e direita política. Bolcheviques estão na extremidade esquerda do espectro político e financistas de Wall Street estão na extremidade direita e, portanto, nós ao raciocinar implicitamente, pensamos que os dois grupos não têm nada em comum e qualquer aliança entre os dois é um absurdo. Fatores contrários a este arranjo conceitual puro geralmente são rejeitados como observações bizarras ou erros desafortunados. A história moderna possui uma dualidade embutida e, certamente, muitos fatos desagradáveis tem sido rejeitados e varridos para baixo do tapete.

Por outro lado, pode-se observar que tanto a extrema direita e a extrema esquerda do espectro político convencional são absolutamente coletivista. O nacional socialista (por exemplo, o fascista) e o socialista internacional (por exemplo, o comunista), ambos recomendariam sistemas político-econômicos totalitários que se baseiem poder político irrestrito e coerção individual. Ambos sistemas exigem o controle monopolista da sociedade. Enquanto o controle monopolista das industrias já tinha sido outrora o objetivo de J.P. Morgan e J. D. Rockefeller, no final do século XIX, o "santuário" interno da Wall Street compreendeu que a forma mais eficiente para obter um monopólio incontestável foi "se politizar" e fazer com que a sociedade trabalhe para os monopolistas - sob o nome do bem público e do interesse público. Esta estratégia foi detalhada em 1906 por Frederick C. Howe em sua obra "Confissões de um Monopolista".

Portanto, uma forma alternativa conceitual de agrupar as ideias políticas e sistemas político-econômicos seria classificar o grau de liberdade individual versus o grau de controle político centralizado. De tal ponto de vista, o Welfare-State (Estado de bem-estar social) e o Socialismo estão no mesmo lado final do espectro. Daí vemos que as tentativas de controle monopolista da sociedade pode ter diferentes rótulos, embora possuam características comuns.


Consequentemente, uma barreira para uma melhor compreensão da história recente é a noção que todos os capitalistas são inimigos ferrenhos e inabaláveis de todos os marxistas e socialistas. Essa ideia errônea originou-se com Karl Marx e foi, sem dúvida, útil para seus propósitos. Na verdade, a ideia é um absurdo. Houve uma contínua, embora discreta, aliança entre os capitalistas internacionais e os socialistas revolucionários internacionais - para benefício mútuo. Esta aliança passou despercebida em grande parte porque os historiadores - com algumas notáveis exceções - possuem viés marxista inconsciente e estão, portanto, presos na impossibilidade de pensar que tal aliança exista. O leitor de mente aberta deve ter duas pistas em mente: os capitalistas monopolistas são inimigos ferrenhos dos empresários laissez-faire; e, dadas as deficiências do planejamento central socialista, o estado socialista totalitário é um mercado cativo perfeito para os capitalistas monopolistas, no caso de uma aliança possa ser feita com as figuras poderosas socialistas. Suponha - e é apenas uma hipótese neste momento - e se os capitalistas monopolistas americanos fossem capazes de reduzir a Russia socialista planejada para o status de uma colônia técnica cativa? Esta não seria uma extensão lógica internacionalista do século XX, dos monopólios ferroviários Morgan e os trustes de petróleo Rockefeller, do final do século XIX?

Do livro Wall Street and the Bolshevik Revolution por Anthony C. Sutton 

sábado, 24 de agosto de 2013

O Ex-Covarde (Nelson Rodrigues)

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"

Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.

Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.

Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.



O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.


Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.

Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.

Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,

Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.



Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.


Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".


RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Culpa Probabilística (Aleksandr Solzhenitsyn)



"Sucede que nesse ano de sinistra memória, num discurso que se tornou célebre nos círculos especializados, Andrei Ianuariévtch Vichinski, fazendo apelo ao espírito flexível da dialética (que não é permitida aos simples súditos do Estado, nem agora às máquinas eletrônicas, que dado que para eles o sim é sim, e o não é não), lembrou que, para a humanidade, nunca é possível estabelecer a verdade absoluta, mas apenas a verdade relativa. E vai daí deu um passo que os juristas metafísicos não tinham ousado dar em dois mil anos: o de que, em consequência, a verdade estabelecida pela instauração do processo e pelo próprio processo não pode ser absoluta, mas simplesmente relativa. Assim, ao assinar uma sentença de fuzilamento nós nunca podemos estar absolutamente convictos de executar o culpado, mas só com um certo grau de aproximação, baseados em certas suposições, num certo sentido. Daí a conclusão mais prática: a de que é tempo perdido buscar provas documentais absolutas (elas são todas relativas) e testemunhas irrefutáveis (elas podem contradizer-se). Quanto às provas relativas, ou aproximativas, o juiz pode muito bem obtê-las mesmo sem documentos, sem sair do seu gabinete , “apoiando-se não só na sua inteligência, mas também na sua intuição de membro do Partido nas suas forças morais” (isto é, na superioridade do homem que dormiu, que está saciado e não foi espancado ) “e no seu caráter” (ou seja, na sua vontade ou crueldade)."


Alexander Soljenítsin - Arquipélago Gulag 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Suécia: O Novo Totalitarianismo (Por Roland Huntford)

As palavras dos profetas do apocalipse são perversamente fascinante para os homens que amam se auto-flagelar. Portanto, quase não surpreende que, em toda a literatura de predições que floresceu com a ciência, as obras sobre lamentações conseguiram maior fama. Duas visões pessimistas do futuro já se tornaram folclore; dois pesadelos clássicos que muito provavelmente nos espera, dois esboços de uma prisão que parecem feitas para erguer-se em torno de nós mesmos com nossa ingenuidade desastrosa. As obras são, é claro, 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

Admirável Mundo Novo foi publicado pela primeira vez em 1932; Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, em 1949. O tempo já mostrou o quão proféticos esses escritos são. Ambos adivinharam algo que agora está se tornando incômodo e aparente: a de que o avanço da ciência está produzindo um novo tipo de classe dominante, com poderes desconhecidos antes. Ambos predisseram a subserviência final dos seres humanos a um híbrido revolucionário de manipulação tecnológica e de gestão política.




Mas, embora ambos aparentam ser semelhantes, Admirável Mundo Novo parece mais aplicável ao Ocidente no nosso tempo. Enquanto 1984 descreve a conclusão lógica de uma ditadura Comunista, o clímax da Revolução Bolchevique, como se mostrou, Admirável Mundo Novo apresenta a corrupção final do estilo de vida ocidental. Esse é o cerne da diferença. Orwell postula um reino de terror para garantir a posição da nova classe dominante, mas Huxley supõe que são os avanços científicos que os trazem para o poder e também, necessariamente, induzem a uma mudança da mentalidade, de modo que a compulsão física é desnecessária.

Huxley, embora que descreva que certos desenvolvimentos estão se tornando familiar, assume a necessidade das mudanças políticas e se concentra nos resultados humanos. Se tornou um clichê dizer que este ou aquele fenômeno é um pedaço do Admirável Mundo Novo, e isso se tornou tão evidente ao ponto de ser banal que certos aspectos se mova em direção de sua realização no Ocidente. Nós demos os primeiros passos para os bebês de proveta e a engenharia genética; cultos de drogas alucenógenas e suas "viagens", da mesma forma que os habitantes do Admirável Mundo Novo tomam umas "férias" com o "soma; atitudes mecânicas ao sexo; a mutabilidade do passado e a adoração da tecnologia. Mas para focar em tudo isso, com suas várias facetas desenhadas num só sistema, é uma coisa bastante difícil.


E ainda assim, muita das necessidades científicas já estão conosco. Nós temos contraceptivos infalíveis, comunicação ilimitada, energia elétrica e aparelhos tecnológicos em abundância. Sua correta aplicação espera somente pela máquina social eficiente: ciência, como sempre, está muito a frente da política.

A vitória da tecnologia sobre o homem, diz Huxley, em uma de suas edições posteriores do seu romance, depende somente de um governo totalitário altamente centralizado. Mas, ele diz, não há nenhuma razão para que o novo totalitarianismo seja semelhante ao antigo. O governo através do uso de esquadrões ... não é meramente desumano.... é comprovadamente ineficiente, e em uma era de tecnologia avançada, ineficiência é um pecado contra o Espírito Santo.    Um estado totalitário realmente eficiente seria aquele que o todo-poderoso chefe político e seu exército de administradores  controlasse a população de escravos sem precisar do uso da força, pois eles amam a sua servidão.

De todos os povos, são os suecos que estão mais próximos a este estado de coisas. Eles possuem todo o fundo e as predileções necessárias. Fora a Russia, somente eles compreenderam a necessidade de adaptar a política à tecnologia, sem se preocupar com dúvidas ou restrições. Eles oferecem o primeiro exemplo de um sistema que cumpre a profecia de Huxley. Um acidente histórico e idiossincrasias nacionais levaram a Suécia à frente no caminho para o Admirável Mundo Novo. Mas mesmo sendo isolada, inata e não totalmente ocidental, ela apresenta um estado que não pode ser descartado como algo estranho e excêntrico, um curioso a ser examinado, que não implica nada para o resto de nós. Tudo que está entre nós e a Suécia é um certo escudo protetor garantido pela herança da Europa Ocidental. Mas ele é frágil e está sendo corroído de dentro pra fora. Observar os Suecos pode ser observar nosso futuro.

Para começar, diza Huxley, o Admirável Mundo Novo depende da segurança econômica; sem isso, o amor a servidão é impossível. E neste aspecto, a fundação do "novo totalitarianismo" na Suécia está bem avançado. Ela resolveu o problema da segurança e aboliu os enclaves da angústia dentro de uma prosperidade coletiva. Ela foi ajudada por um século e meio de paz, isolação e neutralidade, por ser pequeno e facilmente governado e por ser povoado nas proporções de seus recursos naturais.

Segurança econômica por si só, não implica necessariamente um amor de servidão. São necessárias outras condições: do lado dos governantes, uma profunda compreensão da interação entre economia e poder, do lado dos governados, submissão à autoridade e uma reverência aos especialistas. Além disso, em ambos os casos, uma aversão a individualidade, um instinto para o coletivo, uma suspeita de instituições parlamentares, a adoração do Estado e uma preferência para o governo  burocrata e não por políticos.

Durante toda a sua história, os suecos têm consistentemente cumprido estas especificações. Foi assim que se deu o estabelecimento tecnopolítico que levou tomou o poder na Suécia por uma revolução científica e industrial que encontrou uma população singularmente maleável para manipular, e que tem sido capaz de alcançar resultados rápidos e quase indolor. A Suécia de 1973 carrega pouca semelhança a si mesma de 1930, da mesma forma como a União Soviética de hoje comparado a Rússia czarista. Foi nos últimos quarenta anos, particularmente desde 1950, que a metamorfose sueca ocorreu.

É o produto do Partido Social Democrata, que chegou ao poder em 1932 e foi continuamente se dividindo para manter-se no governo, no poder por mais de quatro décadas. Seu sistema provou ser uma ferramenta incomparável para aplicar a tecnologia na sociedade. Eles mudaram a natureza do governo, tornando-a uma questão de economia e tecnologia somente.  Os políticos perderam a sua importância na Suécia, suplantados por um tipo de oligarquia tecnocrática, que aparentemente é indiscutível, porque seus princípios são universalmente aceitos. Daí em diante, as mudanças da composição política é pouco provável pois significa mudanças nas circunstâncias atual, o mesmo desenvolvimento, então, é de se esperar de qualquer partido que tome o poder.

Visualizar isso é preocupante. Não é como se os suecos eram dotados de originalidade na política. Eles são imitadores e assimiladores. Eles não possuem chaves mágicas. Eles mostraram que já existem os meios para construir a fundação do Admirável Mundo Novo. Neste sentido, eles demonstraram que Huxley não previu algo muito distante.

Segurança [ele diz no referido comentário sobre Admirável Mundo Novo] tende muito rapidamente ser adquirida. Sua conquista é meramente superficial, uma revolução externa. O amor à servidão não pode ser estabelecida tão facilmente somente como resultado de uma revolução pessoal na mente e no corpo humano. Para trazer essa revolução, é necessário, entre outras, as seguintes descobertas e invenções. Primeiro, uma técnica muito melhorada para o condicionamento infantil e, depois, uma ajuda de medicamentos, como a escopolamina. Segundo, uma ciência completamente desenvolvida sobre as diferencias humanas, permitindo o governo atribuir qualquer individuo para seu lugar propício na hierarquia social e econômica. (Pinos redondos em buracos quadrados tendem a ter pensamentos perigosos sobre o sistema social e podem infectar os outros com seus descontentamentos). Terceiro (a realidade, mesmo Utópica, há uma necessidade das pessoas sentirem que precisam de férias frequentemente), um substituto para o álcool e outros narcóticos, algo menos nocivo e que dê mais prazer que um gin ou heroína.  E quarto (mas este seria um projeto a longo prazo, o que levaria gerações de controle totalitário para levar a uma conclusão bem-sucedida) um sistema infalível de eugenia, destinado a padronizar o produto humano e, assim, facilitar a tarefa dos gestores.

A concretização dos suecos que tem mostrado que isso pode ser feito sem estas manifestações de perfeição. Eles mostraram que através da "revolução da mente humana e do corpo" pode ser realizada através de, num grau notável, métodos já disponíveis. Eles demonstraram, por exemplo, que a doutrinação relativamente bruta oferecida pela televisão e a educação convencional podem propor grandes possibilidades, fornecidas apenas se houver um controle centralizado e efetivo de ambos. Eles provaram o quão poderosos são os agentes que induzem o amor a servidão. Eles são os primeiros Novos Totalitários.

Na busca para que as profecias sejam cumpridas, é útil fazer uma excursão em 1984. Os suecos têm demonstrado o poder da manipulação semântica chamado Novilíngua: a mudança das palavras para que signifique outra coisa. Desta forma o pensamento pode ser direcionado, e conceitos indesejáveis eliminados, porque o meio de se expressar foram removidos. "Liberdade" ainda não existe em Sueco, como na criação do Ministério da Verdade de Orwell, significa exatamente "escravidão", mas na Suécia já implica em "submissão", e uma palavra poderosa do vocabulário da oposição foi assim neutralizada. Da mesma maneira, é extremamente difícil falar de forma negativa para o Estado, porque as palavras já carregam em si como algo positivo.

Mas, por outro lado, Admirável Mundo Novo já é suficiente. "A civilização industrial somente é possível" diz Mustapha Mond, "quando não existe a auto-negação. A auto-indulgência deve ser levada ao seu limite pela higiene e a economia. Caso contrário, as rodas param de girar." Isto é precisamente o que os governantes da Suécia estão tentando dizer, embora não tão diretamente, mas sim com uma maior verbosidade.
Os suecos descobriram outros dispositivos, extremamente úteis para induzir o "amor à servidão", na manipulação da sexualidade e o apoio oficial nas mudanças na moral. É um erro pensar que os suecos são particularmente avançados ou emancipados. Os ingleses não são menos sexualmente livres. Mas o que diferencia a Suécia é que a moralidade tornou-se uma preocupação do governo, onde em qualquer outro lugar ela é independente e que cresce com as mudanças dentro da sociedade.  

O crime máximo em Admirável Mundo Novo é se desviar da norma. A norma é inocente de éticas e moralidade. A situação já é uma doutrina na lei sueca. Foi-se a ideia do que é certo ou errado, ou sobre o conteúdo moral de uma ação. O crime agora é definido como um desvio social. O teste para saber se uma ofensa é punível somente depende se esta acarreta efeitos constrangedores sobre o coletivo. Analogamente, nas esferas não criminais o pior tipo de má-educação é ser diferente. A Suécia, assim como na Russia Soviética, pertence a um grupo de países que a "individualidade" é um termo pejorativo.

Tudo isso não é porque a Suécia é tão avançada, mas porque, em todos os sentidos, exceto o puramente tecnológico, ela é muito para trás. A Suécia é uma relíquia da Idade Média, um estado de corporações e comunas, e os suecos são povos medievais que vivem apenas como membros de um grupo. É uma situação ideal para a encarnação de Admirável Mundo Novo.


Assim como os governantes do Admirável Mundo Novo, os gestores da Suécia aboliram a história, a fim de cortar fora o passado e, dessa forma, desorientar o sentido do tempo para tornar as pessoas mais fáceis de serem manipuladas. Mas os líderes Suecos, de alguma forma, atuam historicamente e, com o controle privilegiado de Huxley, pelo menos eles estão conscientes de suas raízes históricas.


Trecho do livro Os Novos Totalitários por Roland Huntford 


terça-feira, 16 de julho de 2013

Os homens se esqueceram de Deus (Aleksandr Solzhenitsyn)

Como um sobrevivente do Holocausto Comunista, estou horrorizado ao testemunhar como minha amada América, o país que me adotou, está sendo gradualmente transformado em uma utopia secularista e ateísta, onde ideais comunistas são glorificados e promovidos, enquanto os valores e a moralidade judaico-cristãos são ridicularizados e cada vez mais erradicados da consciência pública e social de nossa nação. Sob a décadas de ataque e radicalismo militante de muitas elites que se intitulam de "liberais" e "progressistas", Deus tem sido progressivamente apagado de nossas instituições públicas e educacionais, para ser substituído com todo tipo de ilusão, perversão, corrupção, violência, decadência, e insanidade.






Não é por acaso que, com  as ideologias marxistas e princípios seculares, há a um empobrecimento da cultura e perversão do pensamento tradicional e assim, se observa o desaparecimento rápido das liberdades individuais. Como conseqüência, os americanos se sentem cada vez mais impotentes e subjugados por alguns dos indivíduos mais radicais, mais hipócritas, menos democráticos e enfadonhos que nossa sociedade já produziu. 



Aqueles de nós que experimentamos e testemunhamos de primeira mão as atrocidades e o terror do comunismo compreendemos o porquê de tal mal se enraizar, como ele cresce e  ilude, e o tipo de inferno que acabará por desencadear aos inocentes e fiéis. O ateísmo é sempre o primeiro passo para a tirania e a opressão!



Prêmio Nobel, autor cristão ortodoxo, e dissidente russo, Alexander Solzhenitsyn, em seu "A Falta de Deus: O Primeiro Passo Para o Gulag" endereçado, quando ele recebeu o Prêmio Templeton para o Progresso da Religião em maio de 1983, explicou como a Revolução Russa e a tomada comunista foram facilitadas por uma mentalidade ateísta de um longo processo de secularização que alienou o povo de Deus e da moralidade e crenças cristãs tradicionais. Ele corretamente concluiu: "Os homens se esqueceram de Deus, é por isso que tudo isso aconteceu."



O texto do seu discurso ao receber o Prêmio Templeton é mostrado abaixo. Os paralelos com a atual crise e decadência moral na sociedade americana são impressionantes e assustadoras. Aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouça!
                                                    
                                                       *                          *                          *


"Os homens se esqueceram de Deus" por Aleksandr Solzhenitsyn

Mais de meio século atrás, quando eu ainda era criança, lembro-me de ouvir um número de pessoas mais velhas oferecem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: Os homens se esqueceram de Deus, é por isso que tudo isso aconteceu.



Desde então, tenho passado quase 50 anos estudando a história de nossa revolução. Durante esse processo, li centenas de livros, colecionei centenas de testemunhos pessoais e contribuí com oito volumes de minha própria lavra no esforço de transpor o entulho deixado por aquele levante. Mas se hoje me pedissem para formular da maneira mais concisa possível a causa principal da perniciosa revolução que deu cabo de mais de 60 milhões de compatriotas, não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: ‘Os homens se esqueceram de Deus; é por isso que aconteceram todas essas coisas’.




Além disso, só agora os eventos de revolução podem ser entendidos, no final do século, entendendo o contexto daquilo que ocorreu com o resto do mundo. O que emerge aqui é um processo de significação universal. E se eu fosse chamado para identificar brevemente a principal característica de todo o século XX, novamente aqui, eu seria incapaz de encontrar algo mais preciso e conciso do que repetir mais uma vez: Os homens se esqueceram de Deus.

As deficiências da consciência humana, privado de sua dimensão do divino, têm sido um fator determinante em todos os principais crimes deste século.

A primeira delas foi a I Guerra Mundial, e grande parte da nossa situação atual pode ser rastreada até ela. Foi uma guerra (memória que parece estar se enfraquecendo), quando a Europa, repleta de saúde e abundância, caiu em uma onda de auto-mutilação que não poderia se não só enfraquecer sua força por um século ou mais, e talvez para sempre. A única explicação possível para esta guerra é um eclipse mental entre os líderes da Europa, devido à sua perda, da sensibilização de um Poder Supremo acima deles. Só uma pessoa fragilizada e sem Deus poderia ter movido estados supostamente cristãos para empregar gases venenosos, uma arma que é evidentemente além dos limites da humanidade.


O mesmo tipo de problema, a falha de uma consciência da dimensão do divino, se manifestou após a Segunda Guerra Mundial, quando o Ocidente se rendeu à tentação satânica do guarda-chuva nuclear. Era equivale a dizer: Vamos abandonar preocupações, vamos livrar a geração mais jovem de seus deveres e obrigações, vamos fazer nenhum esforço para nos defender, vamos tapar nossos ouvidos para os gemidos que emana do Oriente, e deixem-nos viver em vez da busca da felicidade. Se perigo nos ameaçar, devemos nos proteger com a bomba nuclear, se não, então deixe o  resto do mundo mundo queimar no inferno, não nos importa. O estado lamentavelmente impotente para que o Ocidente contemporâneo tem afundado é, em grande medida, devido a esse erro fatal: a crença de que a defesa da paz depende não de corações robustos e homens firmes, mas apenas sobre de uma bomba nuclear... 

O mundo de hoje atingiu um estágio que, se tivesse sido descrito a séculos anteriores, teria escutado um grito de alguém: "Isto é o Apocalipse!". Ainda assim nós nos acostumamos a este tipo de mundo, até mesmo nos sentimos em casa nele.

Dostoiévski advertiu que "grandes eventos poderiam cair em cima de nós e nos pegar intelectualmente despreparado." Isto é precisamente o que aconteceu. E ele previu que "o mundo só será salvo depois de ter sido possuído pelo demônio do mal." Se ele realmente vai ser salvo, teremos que esperar e ver: isso vai depender de nossa consciência, de nossa lucidez espiritual, do nosso esforço individual e combinados em face de circunstâncias catastróficas. Mas isto já aconteceu, o demônio do mal já passou, como um redemoinho, triunfante circunda todos os cinco continentes da terra...


Em seu passado, em uma época que a Rússia sabia que o ideal social não era fama ou riqueza, ou o êxito material, mas uma maneira piedosa de vida. A Rússia foi, então, mergulhada em um cristianismo ortodoxo, que se manteve fiel à Igreja dos primeiros séculos. A ortodoxia da época sabia como proteger o seu povo sob o jugo de uma ocupação estrangeira, que durou mais de dois séculos, e ao mesmo tempo afastou golpes injustos das espadas dos cruzados ocidentais. Durante esses séculos, a fé ortodoxa em nosso país tornou-se parte do próprio padrão de pensamento e da personalidade do nosso povo, as formas de vida diária, o calendário de trabalho, as prioridades em todos os empreendimento, a organização da semana e do ano. A fé foi a força modeladora e unificante da nação.

Mas no século XVII, a Ortodoxia Russa foi gravemente enfraquecida por um cisma interno. No século XVIII, o país foi abalado por transformações impostas à força de Pedro, o que favoreceu a economia, o Estado e os militares às custas do espírito religioso e da vida nacional. E junto com esta iluminação Petrina desequilibrada, a Rússia sentiu o primeiro sinal do secularismo; seus venenos sutis permearam as classes educadas no decorrer do século 19 e abriu o caminho para o marxismo. No momento da Revolução, a fé tinha praticamente desaparecido em círculos educados russos, e entre os sem instrução, sua saúde estava ameaçada.

Foi Dostoiévski, mais uma vez, que observou na Revolução Francesa, sua aparente repulsa da Igreja a lição de que "a revolução deve necessariamente começar com o ateísmo." Isso é absolutamente verdadeiro. Mas o mundo nunca antes tinha conhecido a irreligiosidade tão organizada, militarizada, e tenazmente malévola como a praticada pelo marxismo. Dentro do sistema filosófico de Marx e Lênin, e no coração de sua psicologia, o ódio de Deus é a principal força motriz, mais fundamental do que todas as suas pretensões políticas e econômicas. O ateísmo militante não é meramente acidentais ou marginal à política comunista, não é um efeito colateral, mas o pivô central.


Durante a década de 1920 a URSS testemunhou um desfile ininterrupto de vítimas e mártires entre o clero ortodoxo. Dois metropolitanos foram baleados, um dos quais, Veniamin de Petrogrado, que havia sido eleito pelo voto popular de sua diocese. Próprio Patriarca Tikhon passou pelas mãos da Cheka-GPU e depois morreu em circunstâncias suspeitas. Dezenas de arcebispos e bispos pereceram. Dezenas de milhares de padres, monges e freiras,  pressionados pelos chekistas para que renunciassem a Palavra de Deus, foram torturados, baleados em porões, enviados para campos de concentração, exilados na em lugares inóspitos, como a tundra do extremo norte, ou se tornavam andarilhos, nas ruas em sua velhice, sem comida ou abrigo. Todos esses mártires cristãos foram inabalavelmente fiés a sua fé, levando à morte; casos de apostasia eram poucos e distantes entre si. Para dezenas de milhões de leigos, o acesso à Igreja foram bloqueados, e proibidos de educar seus filhos na fé: pais religiosos foram arrancados de seus filhos e jogados na prisão, enquanto as crianças foram forçadas a deixar sua fé por meio de ameaças e mentiras...

Por um curto período de tempo, quando ele precisava reunir forças para a luta contra Hitler, Stalin cinicamente adotou uma postura amigável em relação à Igreja. Este jogo enganoso, continuou nos anos posteriores por Brezhnev, com a ajuda de publicações de folhetos e fachadas, infelizmente essas medidas tendem a ser tomadas como verdade pelos ocidentais. No entanto, a tenacidade com que o ódio religioso está enraizada no comunismo pode ser julgada pelo exemplo de seu líder mais liberal, Krushchev: ainda que tenha realizado uma série de medidas importantes para aumentar a liberdade, Krushchev reacendeu simultaneamente a obsessão leninista frenética de destruir a religião.



Mas há algo que eles não esperavam: que em um país onde as igrejas foram destruídas, onde um ateísmo triunfou incontrolavelmente por dois terços de século, onde o clero é totalmente humilhado e privados de toda a independência, onde o que resta de a Igreja, como instituição, é tolerado apenas por causa da propaganda dirigida ao Ocidente, onde mesmo nos dias de hoje as pessoas são enviadas para campos de concentração por conta de sua fé, e onde,  mesmos dentro dos campos, há aqueles que se juntam para rezar a Páscoa e por isso são castigados e presos em celas – eles não poderiam supor que, mesmo sendo esmagados pelo rolo compressor Comunista, a tradição Cristã iria sobreviver na Russia. É verdade que milhões de nossos compatriotas foram corrompidos e espiritualmente devastados por um ateísmo oficialmente imposto, mas ainda restam milhões de crentes: e é devido as pressões externas que os fazem evitar de falar abertamente, mas, como sempre acontece em tempos de perseguição e sofrimento, a consciência de Deus em meu país alcançou grande acuidade e profundidade.


É aqui que vemos a aurora de esperança, porque não importa o quão formidável o comunismo nos amarrem com tanques e foguetes, não importa o sucesso que alcança na apreensão do planeta: este está condenado a nunca vencer o cristianismo.

O Ocidente ainda não experimentam uma invasão comunista; a religião aqui permanece livre. Mas a própria evolução histórica do Ocidente tem sido de tal forma que hoje ele também está passando por um esgotamento da consciência religiosa. Ele também testemunhou torturantes cismas, sangrentas guerras religiosas, e o rancor, para não falar da maré do secularismo que, desde o final da Idade Média em diante, tem progressivamente inundado o Ocidente. Este gradual enfraquecimento da força de dentro é uma ameaça à fé que talvez seja ainda mais perigosa do que qualquer tentativa de destruição da religião vindo de fora.

Imperceptível, através de décadas de erosão gradual, o sentido da vida no Ocidente deixou de ser visto como algo mais elevado do que a "busca da felicidade", um objetivo que foi até mesmo solenemente garantido pelo constituição. Os conceitos de bem e mal têm sido ridicularizado por vários séculos; banido do uso comum, eles foram substituídos por considerações políticas ou por classes de valores de curta duração. Tornou-se embaraçoso para afirmar que o mal faz primeiramente no coração humano antes de entrar em um sistema politico. No entanto, não é considerado vergonhoso para fazer apologias a um mal integral. A julgar pelo desmoronamento contínuo diante dos olhos de nossa própria geração, o Ocidente está inexoravelmente escorregando para o abismo. As sociedades ocidentais estão a perder cada vez mais sua essência religiosa e assim, irrefletidamente levam sua geração mais jovem para o ateísmo. Se um filme blasfema sobre Jesus é apresentado nos Estados Unidos, supostamente um dos países mais religiosos do mundo, ou um grande jornal publica uma caricatura desrespeitosa da Virgem Maria, qual outra prova do distanciamento da religião é necessária? Quando os direitos externos são completamente ilimitados, por que alguém deveria fazer um esforço interno para se evitar atos desprezíveis?


Ou então, por que alguém deveria se afastar de um ódio ardente, seja este ódio fundamentado em raças, classes ou ideologia? Este ódio está, de fato, corroendo muito dos corações de hoje. Professores ateístas estão trazendo à tona uma geração de jovens inflados de ódio por sua própria sociedade. No meio de todos esses insultos nós esquecemos que os defeitos do capitalismo representa as falhas básicas da natureza humana, permitindo uma liberdade ilimitada junto com vários direitos humanos; nós esquecemos que sob o Comunismo (e o Comunismo está sempre respirando por trás de todo tipo de socialismo, os quais são instáveis) falhas idênticas funcionam, para todos que possuem o mínimo grau de autoridade, enquanto todos os outros no âmbito desse sistema, de fato, atingem a "igualdade", a igualdade de escravos miseráveis. Esta hélice que espalha chamas do ódio está se tornando a marca do mundo livre de hoje. De fato,  quanto mais amplas as liberdades pessoais são, maior o nível de prosperidade ou mesmo de abundância - mais veemente, paradoxalmente, este ódio cego tem se espalhado. O Ocidente desenvolvido contemporâneo demonstra, assim, pelo seu próprio exemplo, de que a salvação humana não pode ser encontrado nem na exuberância de bens materiais, nem em simplesmente ganhar dinheiro.

Este ódio intencionalmente alimentado se espalha para tudo o que é vivo, à própria vida, para o mundo com suas cores, sons e formas, ao corpo humano. A arte amargurada do século XX, está morrendo, como resultado deste ódio horrível, pois a arte é inútil sem amor. A arte no Leste entrou em colapso porque ele foi derrubado e pisoteado, mas no Ocidente a queda foi voluntária, uma queda em uma busca artificial e pretensiosa, onde o artista, em vez de tentar revelar o plano divino, tenta colocar -se no lugar de Deus.

Aqui, novamente, testemunhamos os resultados de um processo único no mundo, tanto no Oriente e no Ocidente, produzindo os mesmos resultados, e mais uma vez, pelo mesmo motivo: Os homens se esqueceram de Deus.


Com esses eventos globais pairando sobre nós como montanhas, ou melhor, como todo cordilheiras, pode parecer incongruente e inapropriado lembrar que a chave primária para o nosso ser ou não-ser reside em cada coração humano individual, na preferência específica do coração pro bem ou pro mal. No entanto, esta continua sendo verdade ainda hoje, e é, de fato, a chave mais confiável que temos. As teorias sociais que prometiam tanto demonstraram a sua falência, deixando-nos em uma beco sem saída. Os povos livres do Ocidente podem demorar pra perceber que eles estão cercados por numerosas falsidades que pregam a liberdade, mas devem estar atentos para que estas sejam impostas tão facilmente. Todas as tentativas de encontrar uma saída para a situação do mundo de hoje são infrutíferas, a menos que se redirecione nossa consciência, de penitência, para o Criador de tudo: sem isso, nenhuma saída será iluminada, e vamos buscá-lo em vão. Os recursos que temos previstos para nós mesmos são demasiado pobres para tal tarefa. Devemos, primeiramente, reconhecer o horror, não perpetrado por alguma força externa, e não por classes ou inimigos nacionais, mas dentro de cada um de nós, e dentro de cada sociedade. Isto é especialmente verdadeiro em uma sociedade livre e altamente desenvolvida, pois aqui, em particular, temos expomos tudo sobre nós mesmos, da nossa própria vontade. Nós mesmos, em nosso diário egoísmo irracional,  estamos apertando o nó de um laço...

Nossas vidas não consistem na busca do sucesso material, mas na busca de desenvolvimento espiritual digno. Toda a nossa existência terrena, nada mais é que  uma fase de transição no movimento em direção a algo maior, e não devemos tropeçar e cair, nem devemos permanecer inutilmente em um degrau da escada. Leis materiais por si só não explicam a nossa vida ou nos dá direção. As leis da física e da fisiologia jamais revelarão a forma indiscutível em que o Criador constantemente, dia após dia, participa na vida de cada um de nós, que infalivelmente nos concede a energia da existência, e quando essa assistência nos deixa, nós morremos. E na vida de todo o nosso planeta, o Espírito Divino certamente está presente: isso devemos compreender e lembrar nas nossas horas mais terríveis e sombrias.


Para as esperanças impensadas dos últimos dois séculos, que nos reduziu à insignificância e nos trouxe ao limiar da morte nuclear e não-nuclear, podemos propor apenas uma missão determinada pela mão de Deus, a qual temos tão precipitadamente rejeitado. Só desta forma pode ser aberto nossos olhos para os erros destes infelizes acontecimentos do século XX e seremos direcionados para o local correto. Não há mais nada para se agarrar no deslizamento de terra: a visão combinada de todos os pensadores do Iluminismo equivale a nada.


Nossos cinco continentes estão presos num turbilhão. Mas é durante os julgamentos como esses que os maiores dons do espírito humano se manifestam. Se nós desaparecermos e perdermos este mundo, a culpa será só nossa.

Aleksandr Solzhenitsyn, " A Falta de Deus: O Primeiro Passo Para o Gulag ". Conferência do Prêmio Templeton , 10 de maio de 1983 (Londres).



sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Erro do Progresso

John N. Gray no livro Cachorros de Palha

Para George Bernard Shaw, a Alemanha nazista não era uma ditadura reacionária, mas um herdeiro legítimo do Iluminismo europeu.


O Nazismo era um retalho de idéias, incluindo as filosofias ocultistas que eram contrárias a ciência moderna. Mas enganam-se aqueles que este seja inequivocamente hostil ao Iluminismo. Na medida em que foi um movimento dedicado à tolerância e à liberdade pessoal, Hitler abominava o Iluminismo. Ao mesmo tempo, como Nietzsche, ele compartilhou a ideia que o Iluminismo trouxe grandes esperanças para a humanidade. Através da eugenia positiva e negativa - a criação de humanos de elevada qualidade e eliminando aqueles julgados inferior - a humanidade se tornaria capaz de as enormes tarefas pela frente. Sacudindo as tradições morais do passado e sendo purificada pela ciência, a humanidade seria dona da Terra. A visão de Shaw do nazismo não era tão rebuscada. Ele fez coro com a auto-imagem de Hitler como um progressista destemido e modernista.

Shaw entendia tanto a União Soviética e a Alemanha nazista como regimes progressistas. Como tal, ele sugeria que estes tinham o direito de desobstruir matando pessoas inúteis. Ao longo de sua vida, o grande dramaturgo argumentou em favor do extermínio em massa como uma alternativa à prisão. Era melhor matar o socialmente inútil, ele dizia, do que desperdiçar dinheiro público em prendê-los.

Não era apenas um gracejo Shawaniano. Em uma festa em honra do seu septuagésimo quinto aniversário realizado em Moscou durante sua visita à URSS, em agosto de 1930, Shaw disse à sua audiência meia esfomeada que, quando soube que ele estava indo para a Rússia seus amigos tinham fornecido a ele alimentos enlatados, mas - brincou - jogou tudo para fora da janela na Polônia antes de chegar à fronteira soviética. Shaw provocou a platéia com pleno conhecimento de suas circunstâncias. Ele sabia que as fomes soviéticas eram artificiais. Mas olhava alegremente para suas vítimas pois tinha a convicção que o extermínio em massa era justificado se há um avanço da causa do progresso.

A maioria dos ocidentais não entendiam a lucidez de Shaw. Eles não podiam admitir que o maior assassinato em massa dos tempos modernos - talvez em toda a história humana - estava ocorrendo em um regime progressivo. Entre 1917 e 1959 mais de 60 milhões de pessoas foram mortas na União Soviética. Esses assassinatos em massa não estavam escondidos: eram políticas públicas. Heller e Nekrich escreveram:
“Não há dúvida de que o povo soviético sabia sobre os massacres no campo. Na verdade, ninguém tentou esconder. Stalin falava abertamente sobre a 'liquidação dos kulaks como classe", e todos os seus tenentes ecoavam ele. Nas estações de trem, os moradores da cidade podia ver as milhares de mulheres e crianças que haviam fugido das aldeias que estavam morrendo de fome.”

Às vezes se perguntam como que os observadores ocidentais eram tão lentos em reconhecer a verdade sobre a União Soviética. A razão não era difícil de se encontrar, ficou claro a partir de centenas de livros de emigrantes sobreviventes - e de declarações dos próprios soviéticos. Mas os fatos eram muito desconfortáveis para os ocidentais a admitirem. Por uma questão de manter sua paz de espírito, eles preferiam negar o que eles sabiam ou suspeitavam da verdade.  

"A escala de morte desenvolvida pelo homem é o fato moral e material central do nosso tempo", escreve Gil Elliot. O que faz o especial do século XX não é o fato de que está repleto de massacres. É a escala de suas mortes e o fato de que eles foram premeditados visando grandes projetos de melhoramento do mundo.

O progresso e os extermínios andam lado a lado. O número de mortos por grandes fomes e pragas podem ter diminuído, mas a morte pela violência tem aumentado. Com o avanços da ciência e da tecnologia, também há um avanço na proficiência em matar.  A esperança de um mundo melhor tem crescido, assim como os assassinatos em massa.

Citações do Bernard Shaw:

"Vocês devem saber que meia dúzia de pessoas não tem uso para este mundo, que não valem a pena por tanto trabalho. Basta colocá-los lá e dizer: Senhor, ou Madame, você poderia ser bom o suficiente para justificar sua existência?

Se você não pode justificar a sua existência, se você não está puxando o seu próprio peso, e uma vez que você não está, se você não está produzindo o tanto quanto você consome, ou talvez um pouco mais, então, fica evidente, não podemos usar o organizações da nossa sociedade com a finalidade de mantê-lo vivo, porque a sua vida não nos beneficia e não pode ser de muito uso nem pra você mesmo."

Em vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=7WBRjU9P5eo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A Brincadeira / Zert (1969)



Sinopse: Na década de 1950, Ludvik Jahn foi expulso do Partido Comunista e da Universidade por seus colegas, por causa de um bilhete politicamente incorreto que ele enviou para sua namorada. Quinze anos depois, ele tenta se vingar seduzindo Helena, a esposa de um de seus acusadores.












Comentário: 
Kundera é um dos autores do Leste Europeu mais agradáveis ​​do período pós-guerra e se dá pelo fato de ter escrito uma série de livros com uma forma muito simples, jocosa, a mensagem: nós lutamos contra o totalitarismo simplesmente não se importando com isso; o adultério é uma ótima maneira para ser um dissidente.

Ludvik Jahn serviu em uma unidade militar não-combatente, em seguida, passou um ano em uma prisão (sem condenação) e teve que trabalhar durante seis anos nas minas (por falta de diploma universitário) só porque seus colegas e companheiros de partido levou muito a sério uma piada estúpida que ele escreveu para a sua amada, por razões absolutamente pessoais. A vingança de Jahn assume a forma de uma piada, porque sua grande preocupação era saber o seguinte: como é que estes homens levam tão a sério uma chacota inocente?  No entanto, a brincadeira acabou mal: em vez de humilhar Pavel, o antigo líder da organização partidária dos estudantes, seduzindo sua esposa, Jahn humilhou uma inocente e ingênua, mulher, quebrou o coração do seu jovem pretendente e, pra piorar, teve que perceber que Pavel, o comunista supostamente sério, se saiu muito melhor no campo do adultério: desfrutando da companhia de estudantes atraentes de 20 anos que não têm absolutamente nenhuma noção de o marxismo e a construção do socialismo. É através desta realização, e não tanto através de seu ostracismo antes, que Ludvik é confrontado com as conseqüências de sua própria piada mal colocada. Seu protesto solitário contra o sistema falhou.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Bulgakov: Mestre e Margarita & Coração de Cão

Bulgakov só teve sorte como escritor depois de sua morte, sua vida era instável, cheio de portas bem fechadas. Suas tentativas de lutar na guerra civil de 1918-1920 falhou. A guerra sempre lhe pegava. Ele foi convocado como um médico da então República Independente Ucraniana. Quando ele fugiu para o Cáucaso foi mobilizado como médico da Guarda Branca e no fim da guerra civil, ele se encontrava no Exército Vermelho. Sem outras opções, ele eventualmente decidiu que sua única opção era de alguma se assimilar na confusa e nova realidade soviética. Sua determinação era fraca e sua tentativa de assimilar não teve sucesso. Enquanto no Cáucaso, Bulgakov planejava emigrar do país devastado pela guerra. Sua incapacidade de executar esse plano deixou uma sombra escura sobre sua visão do futuro.

Em 1921 Bulgakov vivia em Moscou e escrevia relatórios, artigos satíricos e resenhas para várias publicações, incluindo o para o jornal do proletário Gudok e Rabotchiy (O Trabalhador). Através de seus artigos, ele aprendeu a rir do novo país soviético sem despertar a ira de ninguém. A censura até então estava engatinhando e era quase inativa e através de um jornal, sozinho, ao longo de alguns anos, ele foi capaz de publicar cerca de 120 peças satíricas e  comentários. Mas esse gênero parecia muito restritivo para Bulgakov. Ele queria ir mais profundo. Ele tinha vivido tanto os anos de revolução, quanto da guerra civil, ele tinha muita  experiência, entendida tanto! De 1923 a 1924, ele escreveu “A Guarda Branca”, uma coleção de histórias, Diaboliad, e a novela “Ovos Fatais”. Seu primeiro livro foi publicado e notado por ambos os leitores e críticos.

Então, em 1925, ele escreveu “Coração de Cão” ingenuamente imaginava que ele seria capaz de publicar este trabalho. Mas em 1925 a censura estava amadurecendo, assim como a NKVD. Escritores estavam sendo observados, e tinham suas conversas anotadas. Escritores com antecedentes burgueses eram, naturalmente, a primeira preocupação da NKVD e Bulgakov certamente caiu nessa categoria. Seu pai tinha sido um professor da Academia Teológica de Kiev e sua mãe uma professora na escola preparatória aristocrática. Os longos braços da polícia secreta chegariam aos escritores proletários só um pouco mais tarde.

O manuscrito de “Coração de Cão” não tinha chegou a editora pois seu apartamento foi revistado e o manuscrito confiscado. Não seria publicado até 1968, 28 anos após a morte do escritor. Desde a revista a seu apartamento, a vida de Bulgakov mudou radicalmente. Ele foi destruído dentro da imprensa soviética. Durante sua vida nenhum outro dos seus livros seriam publicados.  Ele tentou ganhar a vida escrevendo peças de teatro. Algumas delas foram produzidas, mas muitas não foram. Bulgakov e sua esposa, muitas vezes passavam fome, sem meios para comprar comida. Bulgakov escreveu a Maxim Gorky e membros da Politbyro, pedindo-lhes para arranjar algum emprego ou deixá-lo ir viver no exterior.

Eventualmente Bulgakov escreveu a Stalin pedindo qualquer tipo de trabalho, mesmo como assistente de diretor de teatro. E aqui a qualidade mística da obra de Bulgakov parece se transferir a própria realidade do escritor. Poucos dias depois, ele recebeu um telefonema do próprio Joseph Stalin. Stalin perguntou a respeito de como as coisas estavam indo para o escritor. Bulgakov, então, listou todas as suas queixas e pediu ajuda para encontrar trabalho. Stalin arranjou para Bulgakov um emprego como assistente de direção no Teatr Maly.

A estranha relação entre Stalin e Bulgakov sempre me fascinou. Stalin leu e criticou publicamente as peças de Bulgakov e ainda assim ele nunca procurou eliminá-lo. Bulgakov nunca foi denunciado como um 'inimigo do povo'. Ele nunca foi preso e enviado para um campo de concentração. Uma das últimas peças de Bulgakov, Batum, foi sobre as atividades revolucionárias de Stalin ainda jovem. Stalin pessoalmente proibiu a peça, declarando que Bulgakov estava tentando conquistá-lo. Se os rumores são verdadeiros, Stalin se ofendeu com o retrato de sua pessoa criado por Bulgakov, pois o retratava como uma pessoa muito gentil e amável.

De 1928 até o fim de sua vida, Bulgakov escreveu e reescreveu seu romance mais famoso, “Mestre e Margarita”. Ele nunca chegou a terminar de reescrevê-lo. O “Coração de Cão”, por outro lado, chegou até nós em sua última forma e, nesta obra maravilhosamente raivosa, vemos a União Soviética da década de 1920, liderada por cozinheiros analfabetos e zeladores. Também se vislumbra os restos da Rússia pré-revolucionária, em que o escritor sentia claramente um grande sentimento de perda.  Também, neste caso, observamos como ele pode examinar um paciente muito doente. O olhar do médico é severo, mas um pouco enevoado, como um usuário de morfina decora a realidade com sua imaginação fértil.




A HISTÓRIA: O diabo, o seu gato acrobático e outros comparsas vieram à Moscou de Stalin para causar estragos hilários e surreais na vida dos escritores, críticos e burocratas que perderam contato com seus sentimentos. Satanás envia alguns para o hospício, encena uma peça diabólica dentro de um jogo, e presenteia a lírica Margarita com um passeio fantástico de redemoinhos como uma feiticeira terminando em um baile de máscaras satânicas, onde ela procura por seu amante, um escritor conhecido como "Mestre". O Mestre está está escrevendo seu romance que aparece simultaneamente no palco. Sua obra, politicamente reprimida, centra-se sobre o dilema moral de Pôncio Pilatos na Jerusalém bíblica. Tanto os personagens de seu livro quanto os personagens nas ruas de Moscou, lançam luzes e sombras entorno deles, mesmo que eles vivam em mundos separados.





A HISTÓRIA: A ação é centrada nas dificuldades encontradas pelo professor Preobrajansky, um médico inovador especialista em rejuvenescimento sexual (através da implantação de órgãos), e sua batalha contra o comitê de gestão de residências, o comitê quer que o Professor abra a mão de alguns de seus muitos quartos. Felizmente o professor (argumenta que é necessário, devido a sua demanda de trabalho, mais espaço) foi capaz de melhorar a vida sexual de algumas pessoas muito bem colocadas e por isso, sua vida é protegida e enriquecida por raridades como carne fresca e vinhos franceses. Mas quando o professor leva em um cachorro vira-lata, Sharik, e transplanta testículos humanos e uma glândula pituitária em seu corpo magro, seus problemas começam a se multiplicar. Sharik não só aprende a andar de pé e falar, mas torna-se "o camarada Sharikov", o líder da Administração Moscovita de Propriedades Comunais, encarregado de exterminar os gatos de rua. Ele também cita Marx e Engels, bebe a vodka do professor, quebra janelas e a mesa de jantar, belisca a empregada, e refere-se carinhosamente ao seu benfeitor como "pai", para grande irritação do último. Eventualmente a paciência de Preobrajansky chega ao fim (e convencido de que uma vez cachorro, sempre um cachorro), realiza uma operação inversa, retornando Sharik ao seu antigo estado criando uma confusão quando as autoridades chegam em busca do controverso "Camarada Sharikov".


Recomendações: 



Trailer do filme "Coração de Cão"
http://www.youtube.com/watch?v=R-2pOQcbFx4

Serie de TV "Mestre e Margarita" (com legendas em PT)
http://www.youtube.com/watch?v=pTnFTlVQe4Q


quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Igreja Anti-Católica de Antonio Gramsci (Por George J. Marlin)


Gramsci (1891-1937) nasceu na Sardenha, estudou filosofia na Universidade de Turim, tornou-se membro do Partido Socialista da Itália e editor do L'Ordine Nuovo (O Nova Ordem). Pouco depois de fundar o Partido Comunista Italiano (1921), Gramsci, temendo a prisão pelo líder fascista Benito Mussolini, fugiu para a União Soviética.

Em Moscou, Gramsci chocou seus hospedeiros por se atrever a criticar e diagnosticar as ideias marxistas sobre o materialismo histórico, o determinismo econômico, e a derrota violenta do sistema capitalista pelo proletariado. Em vez disso, ele argumentou que "Paraíso dos Trabalhadores" de Marx não poderia ser realizado, desde que a cultura cristã tinha um poder sobre as massas. Para Gramsci, o inimigo número um era a Igreja Católica Romana, e não o capitalismo.

Percebendo que Stalin não estava satisfeito com suas opiniões heterodoxas, Gramsci voltou para a Itália e, em 1924, tornou-se líder da delegação comunista no Parlamento. Em 1926, Mussolini ordenou sua prisão e através de um julgamento fictício condenou-o a vinte anos de prisão. Gramsci passou os restantes nove anos de sua vida em sua cela escrevendo críticas do marxismo-leninismo e elaborando planos comunistas para a conquista do Ocidente.

Ao contrário de alguns anti-católicos de hoje em dia, Gramsci era bem versado em filosofia tomista. Ele advertiu aos marxistas que os trabalhadores cristãos não são definidos pela ideia de opressão capitalista, mas pela sua cultura baseada na fé. Por isso, ele afirmava que os marxistas que violentamente tomam o poder, elminiam a propriedade privada e governam pelo terror, estão fadados ao fracasso.

No período pós-Segunda Guerra Mundial, os poloneses confirmariam a afirmação de Gramsci. A tirania comunista apenas intensificou, no povo polonês, a sua devoção a Cristo e à sua Igreja. E foi a Igreja que, liderada por um papa polonês, derrubou aquele governo totalitário.

Gramsci aconselhou marxistas para alcançar o poder por meios democráticos e, em seguida, usá-lo para destruir a hegemonia cristã. O jornalista francês Jean-François Revel, em "O princípio de Gramsci," apontou "[os marxistas] deve começar por influenciar a cultura, vencendo os intelectuais, os professores, implantando-se na imprensa, na mídia, e nas editoras." Surpreendentemente, Gramsci dizia que a resposta dos jesuítas para a Reforma era um modelo: marxistas tiveram que criar uma acultura capillare ("cultura capilar"), que deverá se fundir em todos os recantos do corpo político.

Os esquerdistas radicais nos Estados Unidos, Europa e América Latina adotaram métodos de Gramsci e fizeram questão de se infiltrar igrejas, universidades e meios de comunicação. Movimentos ecumênicos, comissões da paz e da justiça cresceram e tem sistematicamente  marginalizado a doutrina católica básica. Universidade possuem em  seus currículos ensinamentos que todas as culturas devem ser igualmente respeitados - mesmo as que contradizem diretamente os valores cristãos. Em nome dos direitos humanos, organizações humanistas seculares têm promovido políticas que eliminaram os freios morais judaico-cristãos.

A Teologia da Libertação com base em doutrinas marxistas e envolta em vocabulário cristão tornou-se uma força em muitos países do terceiro mundo. Apesar de ter recuado um pouco depois da queda da União Soviética, esta ainda permanece o modelo social básico entre os radicais. Malachi Martin observou que "A Teologia da Libertação foi um exercício perfeitamente fiel aos princípios de Gramsci. . . . É vetado. . . qualquer apego à transcendência cristã. Esta aprisiona tanto o indivíduo quanto sua cultura para seu iminente destino final: a luta de classes para a libertação sócio-política ".

Hoje, os católicos estão testemunhando os efeitos da estratégia "vale tudo" de Gramsci. Na Europa, as igrejas católicas estão vazias aos domingos. Menos de 10 por cento dos católicos batizados assistiram missas em 2009, 37,4 por cento de todas as crianças europeias nasceram fora do casamento - um aumento de 17,4 por cento em 1990. O número de nascimentos é significativamente abaixo da taxa de substituição. Em 50 anos, a maioria da população no seio da velha Europa Católica - Itália, França e Espanha - pode muito bem ser muçulmana. Crime também é galopante. Entre 2002 e 2008, a criminalidade aumentou na França em 15 por cento, na Itália, em 38 por cento.

O Papa Bento XVI sabiamente advertiu que a substituição das raízes cristãs do Ocidente com o relativismo moral deu início a uma "ideologia confusa de liberdade [que] leva a um dogmatismo que está se mostrando cada vez mais hostil à liberdade real." Os herdeiros de Gramsci  "desenvolveram uma cultura que, de uma forma até então desconhecida para a humanidade, exclui Deus da consciência pública ", o Santo Padre teme que o Ocidente pode estar entrando em uma nova idade das trevas em que o homem só existe para o benefício de um estado divinizado e será destituído de sua dignidade humana fornecida por Deus.













terça-feira, 25 de junho de 2013

Materialismo Histórico e Fator Econômico - Mário Ferreira dos Santos

             

  Se passarmos os olhos pelo socialismo dos séculos XVIII e XIX, encontraremos a primária e abstractista interpretação materialista da História em socialistas como Saint Simon, Considérant, Louis Blanc, Proudhon, para citarmos apenas os franceses. Sem dúvida que o socialismo gira em torno do económico, sobre o qual estabelece as suas mais vivas considerações. Negar o factor económico na História seria um erro palmar, e nenhum filósofo de certo vulto negaria essa influência. Mas o que caracteriza ao marxismo não é apenas a aceitação do factor económico e a sua predominância, mas a postulação dogmática e pretendentemente apodítica que quer dar à tese, muito embora seja essa colocação axiomática mais própria dos marxistas do que propriamente de Marx e Engels, que, como veremos, não cometiam essa "tolice", (e o termo é empregado por este último) de atribuir sempre e apenas ao económico a causação dos factos históricos. Apesar dessa admoestação de Engels, o dogma foi proclamado, como o foi o da inevitabilidade e imprescindibilidade da ditadura do proletariado, que levou à morte a tantos que puseram dúvida na sua apoditicida-de, e que, nos dias que correm, o Isvéstia afirma não ser mais necessária, já que o caminho do socialismo pode ser trilhado até pelos caminhos democráticos burgueses.
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         Julgava Marx, certamente por influência hegeliana, que havia alcançado ao fundo "das leis da física social", e a sua descoberta era tão importante como a de Copérnico e de Kepler, como declaravam os seus panegiristas.
Graças à descoberta dessa lei, afirmava Engels, a interpretação económica da História tornava-se ciência. É uma lei indefectível afirmam ainda os seguidores, lei inflexível. Assim como o mundo físico está submetido a leis invioláveis, também está o destino do homem na Terra. Do mesmo modo que não podemos violar as leis da Biologia e da Fisiologia, não podemos violar as leis da Física Social. Vivemos num mundo de necessidades e somos dirigidos por elas. O próprio marxismo é a consequência de uma evolução humana e imprescriptí vel como o são as leis que regem os factos da Física. Por que o homem, em seu viver social, fugiria à férrea lei da natureza? Como poderia êle opor-se ao que já está determinado?
[...]
  Estamos numa época que corresponde à dos sofistas gregos, e sofistas, hoje, de matizes diversos, como os da antiguidade, instalam-se em todos os recantos do mundo, lançando aos quatro ventos as suas ideias abstractistas, seus erros palmares, e exibindo, sobretudo, a sua medíocre auto-suficiência. Reduzir o humano ao físico apenas, é desconhecer as formas, as leis de proporcionalidade intrínseca das coisas, que distinguem os diversos campos uns dos outros, e não permitem que se identifiquem os aspectos heterogéneos nem se univoque o que é equívoco.
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        Não há economia, propriamente dita, nos animais irracionais, mas apenas no homem. O factor económico não é algo, portanto, puro, mas um producto híbrido de causalidades outras que o compõem. Ninguém nega, nem ninguém o negou em qualquer tempo, que a economia movesse o homem em muitos dos seus actos mais importantes. Mas tratar do factor económico como algo puro, incomplexo, é de um primarismo indesculpável, sobretudo naqueles que se julgam no ápice da Ciência e da Filosofia, e que atribuem a si mesmos os mais elogiosos epítetos. O que se considera factor económico é uma complexidade, uma totalidade de heterogeneidades, e não algo incomplexo, simples. E a direcção do próprio factor económico depende dos factores que o constituem. Aos poucos essa análise aumentará em profundidade e alcance, e permitir-nos-á evitar cair nos crassos erros sofísticos daqueles que, em nome de uma falsa ciência, têm perturbado tanto a paz humana e nada fazem em benefício da melhoria tão anelada por todos.
[...]
        Os materialistas históricos têm, para a ciência da História, a mesma significação e representam o mesmo papel, quanto aqueles astrólogos malogrados que valem quando acertam e que são esquecidos quando erram. O mesmo se dá aqui. E é mister não esquecer tal aspecto, neste caso, porque não estamos num mero torneio de ideias, ou numa brincadeira intelectual; estamos num terreno de uma gravidade extrema, porque os incautos estão sendo arregimentados pelos falsos cientistas com a cumplicidade de medíocres sub-intelectuais, que emprestam a essas doutrinas um prestígio que realmente não têm, mas que muitos ingénuos julgam que possuem.

[...]


Em suma, para o materialismo histórico de Marx, temos:

a) o homem, como os animais, têm necessidades a aplacar;
b) mas o homem difere do animal, porque produz socialmente;
c) essa producçao é constituída de um complexo econômico-técnico-social;
d) nessa producçao, estabelecem-se relações entre os homens. Todos são consumidores, nem todos, porém, são productores. A repartição do producto é, contudo, estabelecida de modos diferentes; ou sejam, as relações de producçao são várias, mas para Marx dependentes apenas do grau de desenvolimento das forças productivas materiais;
e) essas relações, que se instituem na sociedade, fundam a estructura económica da sociedade, o relacionamento entre o que se chama natureza, trabalho, capital, etc. na Economia;
f) sobre essas relações, fundamenta-se a superestructura jurídica e política da sociedade;
g) a essa superestructura correspondem as formas de consciência social; ou seja, estas são determinadas por aquelas;
h) o modo de producçao da vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual em geral;
i) assim como é o homem em seu ser social, é a sua consciência. Esta é determinada pelo seu ser social, e não determinante daquele.

Analisemos estes diversos itens:


a) é o homem movido a buscar bens para aplacar o estado de desagradabilidade causada pela sua carência, e o perigo que lhe ameaça a sua integridade física. Se de nada carecesse para a manutenção normal de sua existência, não se moveria em buscar nada fora de si, salvo para aumento de sua agradabilidde, bens prazeirosos e supérfluos, e não os necessários, dos quais não careceria. Procede do mesmo modo que os animais para assegurar o que é elementar à manutenção de sua vida.

b) Mas o homem é diferente dos animais, porque produz socialmente, ou seja, seu trabalho é associado a outros. Contudo, as térmitas e as abelhas também realizam uma producção social, com divisão de trabalho. Ora, a inteligência humana é uma actividade que acompanha os actos humanos mais diversos, e o homem procede como homem, com a capacidade de escolher, julgar, apreciar valores, revelada desde criança, antes de se tornar um elemento activo na economia social. O que, na verdade, distingue o homem dos animais não é o produzir socialmente, mas é transformar o acto económico, que realiza, num acto cultural, pela presença e caracterização de seu espírito (mente) pela actuação da sua inteligência, que permite escolher meios e criá-los, a fim de facilitar a produpção, aumentar a productividade.

c) É o que se revela no complexo econômico-técnico--social, pois a técnica exige a inteligência, sem a qual é impossível realizar-se, já que é uma sistematização dos meios a empregar ou empregáveis para obter os resultados desejados, embora dirigidos pela lei do bem (maior proveito-menor esforço). Os animais não constroem uma Técnica, nem muito menos são capazes de realizar uma Tecnologia. O homem distingue-se dos animais pela racionalidade, a sua capacidade de inteligência criadora. A Técnica actua sobre a Economia, como esta sobre aquela. Mas essa interactuação é presidida pela inteligência humana, sem a qual seria impossível estabelecer o complexo econômico-técnico-social. Este ponto importante foi vir-tualizado por Marx, obstinado no seu desejo de explicar tudo pela concepção materialista, e dar um papel secundário e totalmente subordinado à inteligência, embora seja admissível uma certa subordinação da inteligência à Economia.

d) Estabelecem-se relações de producção entre os homens, relações de trabalho, de ordenação das funções diferenciadas. Mas o producto é por sua vez destinado ao consumidor, ou a quem dele se apropria. E por que meios uns se apropriam dos productos realizados por outros em maior escala, ou expropriam outros do que produziram, para deles se apossarem para seu benefício? Onde encontraremos, na divisão do trabalho, as razões dessa expropriação?

Eis que nos encontramos agora em face de certas perguntas importantes, cujas respostas exigem certa análise. Partamos do casal humano: homem-mulher. Dadas as condições biológicas e fisiológicas, à mulher cabe a gestação da prole e o cuidado mais directo desta. Ao homem, como não está sujeito à gestação, sua actividade é mais livre. A mulher liga-se directamente à conservação da espécie, enquanto o homem mais à conservação individual. Mas a prole é improductiva, apenas consumidora. É preciso obter bens para aplacar as necessidades dela. O homem e a mulher colectam, caçam, pescam, plantam, etc. Mas o papel económico mais activo pertence ao homem, enquanto cabe mais à mulher a prestação de serviços. Dadas as suas condições biológicas e fisiológicas, o homem é mais forte, normalmente, em sentida físico, que a mulher. Esta se inferioriza ante êle, e em geral, nos primitivos, é dominada por êle. O homem exerce um domínio maior sobre a mulher. Seu poder facili-ta-lhe abusos. E poder-se-ia ir mais distante e verificar que o poder facilita abusos e expropriações. A expropriação económica encontra no poder seu fundamento. O homem, em geral, aspira ao prestígio social, ao desejo de impor-se de algum modo ante os seus semelhantes. É um ser que normalmente tende a valorizar-se. E por quê? Porque o homem é um ser que aprecia valores, capta valores e, por isso, deseja impor-se aos outros. Este impulso é fundamentalmente psicológico, e êle actua nas relações entre os homens, gera a variedade destas. Só mesmo uma total falta de exame poderia deixar de reconhecer a validez do que afirmamos, que é de uma evidência palmar, observável quotidianamente junto às crianças, desde a mais tenra idade. Nestas, também se manifesta o liderismo. Ademais, os adultos são prestigiados pelos menores, como os filhos na primeira idade prestigiam exageradamente os pais, e alguns se impõem ante a admiração de outros pelo prestígio adquirido pela sua valentia, pela sua capacidade, pela sua força. Por outro lado, nas lutas, uns vencem outros, e povos vencem outros povos, do-minam-nos, subjugam-nos, transformam-nos em produc-tores a seu favor. De tudo isso se esqueceu Marx. Não considerou êle o factor político, a capacidade resultante do que dispõe do kratos social. As relações entre os homens, se tem sua origem também na producção, não a tem apenas na producção. Consequentemente, essas relações não dependem apenas das forças productivas materiais, mas também dos factores psicológicos em toda a sua gama de idade, sexo, temperamento, carácter, etc. A economia, os modos de producção e de distribuição passam a ser dirigidos pelos interesses políticos sociais. É a política que actua e dirige muito mais a Economia, que esta aquela. Que realmente as condições económicas têm um papel actuante na política é inegável. Ora, uma se ordena à outra, nunca, porém, apenas uma subordina a outra. A forma de producção e de repartição depende essencialmente da forma política. Esta pode sofrer modificações por actuação daquela, e uma forma pode cor-romper-se pela actuação de um processo económico, como também um processo económico pode sofrer a acção da política. Basta que os marxistas observem a história económica da Rússia, onde tantas experiências foram feitas por imposição política, e onde muitas conheceram malogros tremendos. Leiam a crítica dos próprios marxistas às imposições arbitrárias dos políticos, as acusações feitas a Stalin, por exemplo, e também a outros chefes soviéticos, por quererem determinar formas e modos de producção, acusados de intervirem, indevida e erradamente, na economia. Todo o sovietismo é um exemplo da intervenção política do Estado na economia. E não só o sovietismo, mas em toda a história humana a intervenção da política é patente. Ainda traremos provas no exame da História a favor da nossa posição. Filosoficamente, porém, essas provas são apodíticas, porque o homem, dadas as suas condições esquemáticas bio--fisio-psicológicas é um anelante de poder político (kratos), mesmo quando religioso, aristocrata, empresário utilitário e até como servidor, como vimos ao examinar estes quatro estamentos fundamentais de toda sociedade humana.

e) Aceita Marx que essas relações constituem o fundamento da estructura económica da sociedade. Se essas relações estão em parte subordinadas aos factores bio-físio-psicológicos, aos políticos, também estão subordinados algumas vezes ao económico. A estructura económica da sociedade é constituída elementarmente pela infra-estructura bio-físio-psicológica, em reciprocidade com as condições económicas da sociedade, incluindo o seu ambiente ecológico. A Economia não pode ser considerada dentro do abstractismo bem tipicamente burguês de Marx, mas segundo a concreção dialéctica supe-radora, que se liberta dos limites impostos pelos interesses criados dos estamentos sociais.

f) A superestructura encontra fundamentos nessas relações sem dúvida, mas actua por sua vez sobre eles. A estructura política e jurídica da sociedade não é apenas um producto da Economia, mas também actua sôbré esta. Há, assim, uma. reciprocidade bem dialéctica, que a dialéctica de Marx esqueceu, e com êle seus discípulos.

g) Consequentemente, se o modo de producção da vida material condiciona o processo da vida social, político e intelectual em geral, nada há a obstar, desde que se tenha do termo condição o mesmo conceito clássico. A condição distingue-se da causa. Esta, em relação ao efeito, expressa uma dependência real desta àquela. A condição não expressa uma dependência real, mas apenas uma dependência, que pode ser eventual. Contudo, a condição pode entravar, auxiliar ou modificar a causa-ção. O efeito é de certo modo a sua causa, pois a contém já outra, como a causa material, que está no efeito, mas já informada de modo distinto. A condição, quando é sine qua non; ou seja, quando sua ausência não permitiria que um efeito determinado se realizasse, é ela producção não é causa do processo da vida social, porque aquele não antecede ontologicamente a este, já que a vida social do homem não é um producto da economia, mas da sua bissexualidade e do apoio da prole. Contudo, realmente condiciona a vida social, política e intelectual, como é condicionada por esta. Ainda aqui há uma interactuação, que pode ser estudada dialècticamente, e que a dialéctica dos marxistas esqueceu.

i) Se há homens, e em sua maioria, cuja consciência é determinada pelo seu ser social, há outros que não o são, e que não se sentem incorporados aos estamentos nos quais nasceram ou vivem. Se assim fosse, as consciências humanas apresentariam uma heterogeneidade muito menor, e os tipos estereotipados seriam mais numerosos do que são.

Em suma, nossa crítica à posição materialista da história comprova a validez desta parte de nossa tese: a es-tructura económica é constituída das formas de producção, mas a infra-estructura é a bio-físio-psicológica, com a interactuação das que sobre ela se estructuram. Em suma, o produzir realiza productos, mas estes actuam nos modos de produzir. Essa reciprocidade acompanha simultaneamente a gestação dos novos modos de produzir e dos novos productos, e assim sucessivamente.

Portanto, se o factor económico é a forma de producção, não é este que apenas determina a História, embora tenha um papel activo determinante, mas em cooperação com outros factores, que sobre êle influem.